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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Querida, matei o leão!

Milhares de caçadores deslocam-se todos os anos a África para praticar um desporto que é legal e bem-vindo em quase todos os países do continente – caçar. Não é de hoje. Já era corrente no século XIX. Teddy Roosevelt, por exemplo, que passou o ano de 1909 a caçar nada mais nada menos do que mil e cem (mil e cem!) peças, com o apoio de uma equipa de 250 guias e carregadores. Até que o mundo conheceu um leão chamado Cecil.

 

Por: José Couto Nogueira

No dia um de Julho, faz agora pouco mais de um mês, um dentista norte-americano, Walter Palmer, matou um leão durante uma excursão organizada de caça no Zimbabwe. Palmer, um experiente caçador amador, tinha pago 50 mil dólares para praticar o seu desporto favorito num país onde é legal caçar e que até vê com bons olhos as divisas trazidas pelo turismo. Contratou um guia experiente e respectivos auxiliares, sendo-lhe garantido que todas as licenças estavam nos conformes.


Até aqui, a história não tem história nenhuma. O problema foi que o leão em questão, que se chamava Cecil, era muito bonito, um símbolo do Zimbabwe (usado para atrair caçadores ao país, sem dúvida…) e objecto de um estudo da Universidade de Oxford. Quando Oppah Muchinguri, a Ministra do Ambiente do país, deu pelo abate de Cecil, já Palmer tinha voltado tranquilamente para os Estados Unidos com a cabeça do bicho. Oppah referiu-se a ele em termos inequívocos: “Infelizmente foi tarde de mais para apreender o larápio, pois já se escondeu no seu país de origem.”


Milhares de caçadores deslocam-se todos os anos a África para praticar um desporto que é legal e bem-vindo em quase todos os países do continente – embora em alguns os termos “legal” e “bem vindo” possam ser fluidos e sujeitos a diversas interpretações. E não é uma prática nova; já era corrente no século XIX, e desde então literalmente milhões de animais foram mortos por caçadores – antigamente chamavam-lhes “aventureiros” – alguns dos quais conhecidos internacionalmente. É o caso de Teddy Roosevelt, por exemplo, que passou o ano de 1909 a caçar nada mais nada menos do que mil e cem (mil e cem!) peças, com o apoio de uma equipa de 250 guias e carregadores. As fotografias de Teddy sentado em cima de leões, búfalos, elefantes e rinocerontes percorreram mundo. Também é o caso, muito mais recente, do Rei de Espanha, Juan Carlos, fotografado em frente a um elefante, espingarda na mão. Mas a recepção mundial da fotografia de Juan Carlos ilustra bem o que se passou entretanto; caçar tornou-se uma actividade mal vista, mesmo criminosa, própria de almas sem coração e, ainda por cima, com muito dinheiro, uma combinação péssima para os padrões actuais de comportamento. (No caso do Rei de Espanha ainda acrescia o facto de estar com a sua amante e num período em que o país passava por severa crise, mas o elefante morto foi o que levantou mais polémica.)


Estamos a atravessar uma fase em que cada vez mais pessoas são vegetarianas – não apenas na sua alimentação, mas também nas suas convicções. Há movimentos, como os vegans ou a PETA (People for Ethical Treatment of Animals), que criticam em termos violentos o abate de animais, mesmo que seja para alimentação ou outro fim útil. Utilizando as redes sociais, estas pessoas querem criar um clima repressivo sobre as outras – as que comem carne, ou usam artefactos de couro, como sempre se fez desde os Neandertal. Agora, se criticam tanto o abate de animais – que consideram sempre cruel – para fins úteis, imagine-se o que acham do “assassinato” dos bichinhos por simples prazer!


Na realidade, e isso é o mais surpreendente da época em que vivemos, há muito mais indignação com a morte de animais do que com pessoas. Existe uma petição com mais de 140 mil assinaturas para que o dentista Walter Palmer seja entregue ao maravilhoso sistema judiciário do Zimbawe, onde arrisca a pena de morte. Mas não precisa de fazer a viagem: inúmeros tweets e mensagens no Facebook exigem que seja enforcado, sem precisar de julgamento. Parece que as pessoas que se indignam com a morte de animais acham justo que os humanos sejam mortos como punição pelo abate dos bichos. Em compensação, quando um cão morde uma bebé até à morte (como aconteceu em Portugal há pouco tempo) logo se ouvem milhares de vozes a pedir clemência para o pobre animal, que terá sido provocado, ou deixado sozinho com o recém-nascido.


Pois é, o dentista Walter Palmer está metido num sarilho. Teve de fechar o consultório e mudar de casa. Ainda não se sabe se o Ministério da Justiça norte-americano o acusará, ou extraditará para o Zimbabwe. Mais valia que tivesse morto uma pessoa qualquer nas ruas da sua Bloomington, Minnesota. Podia alegar que o outro o provocara; em certos estados, é legal andar armado e atirar aos humanos que arreganhem os dentes.


José Couto Nogueira, jornalista e escritor, nascido em Lisboa em 1945, estudou economia e começou como fotógrafo de publicidade. Viveu em Londres, São Paulo e Nova York, e tem três filhos e três romances publicados.

 

publicado às 12:08

Olhó robô: o último grito da revolução televisiva

"A revolução não será televisionada", garantia uma emblemática canção de Gil Scott-Heron nos anos 1970. Quatro décadas depois, até podemos continuar a concordar com este slogan, mas não há regra sem exceção. E há poucos olhares que captem tão bem o reverso do "frisson" contemporâneo como o de "Mr.Robot", uma das séries mais surpreendentes da temporada.

 

Por: Gonçalo Sá

Ollhó robô

 

 

A postura sempre circunspeta e introvertida, as poucas ou nenhumas palavras e um hoodie escuro (com capuz muitas vezes posto) bem tentam fazer que Elliot passe despercebido. Só que logo aos primeiros instantes de um episódio de "Mr. Robot" será difícil não repararmos nos olhos, não só grandes como expressivos e arregalados, do jovem protagonista.

 

É através do olhar dele, e do ator Rami Malek (que decididamente não passará despercebido nos próximos tempos), que somos conduzidos pelo mundo da série do USA Network. O nosso mundo, aliás, filtrado por um misto de thriller psicológico com uma hipótese de cyberpunk para o novo milénio capaz de, a espaços, nos atirar para territórios próximos de alguma ficção científica.

 

Mas é mesmo ficção ou realidade? A dúvida começa logo por assaltar o anti-herói, um outcast sem grandes aptidões sociais cuja perceção daquilo que o rodeia se arrisca a ser deturpada pelo refúgio nas drogas. Para piorar, a sua rotina de programador de uma empresa de segurança cibernética de Nova Iorque, de dia, e de hacker obcecado em vigiar e punir criminosos imunes ao radar da justiça, à noite, torna-se mais atribulada com o convite para a adesão a uma organização secreta de hackers anarcas, a fsociety, liderada pelo tal Mr. Robot - um Christian Slater com ares de Tyler Durden, de "Clube de Combate", apenas uma das muitas influências assumidas da série (já lá vamos).

 

De modo muito sucinto, é desta relação que nasce a premissa do desafio criado por Sam Esmail, realizador norte-americano de ascendência egípcia (também já lá vamos). E a premissa foi mais do que suficiente para tornar o episódio piloto num dos mais celebrados dos últimos anos, com um fenómeno passa a palavra iniciado no festival de música South by Southwest, no Texas, em março deste ano, mantido no Tribeca Film Festival, em Nova Iorque, no mês seguinte, e propagado quando esse primeiro capítulo chegou à internet em maio, de forma legal (foi disponibilizado num modelo video on demand) ou nem tanto (apesar de ser vincada pelo hacking - ou ou talvez por causa disso - a produção não tem escapado à pirataria).

 

Neste caso, a revolução, modesta embora com um burburinho em crescendo, só chegou à televisão quase um mês depois de ter passado pelo online: a 24 de junho, no USA Network, naquele que foi um destaque de horário nobre promissor como poucos. Esmail, com pouca experiência em cinema (assinou apenas a curiosa comédia romântica "Cometa", estreada este ano nas salas nacionais) e ainda menos no pequeno ecrã, revelou ter pensado em contar esta história num filme antes de optar por a explorar mais a fundo numa série. "A televisão é cada vez maior e mais cinematográfica", contou ao site de entretenimento Vulture. E o lado cinematográfico do episódio piloto (mantido nos seguintes, pelo menos até agora, e já vão sete) ajudará a explicar a ótima reputação conquistada.

 

Grande televisão, grande cinema?

 

Dos enquadramentos elaborados (mesmo os das muitas cenas de diálogos, cuja composição desconstrói a lógica rotineira do campo-contracampo) às narrações em off pelo protagonista (que Esmail diz ter escrito não para despachar a exposição, antes para entrarmos mais facilmente na cabeça de Elliot), a linguagem narrativa tenta fugir às imposições do pequeno ecrã e não deve nada, antes pelo contrário, às series mais prestigiadas da chamada idade de ouro da televisão.

 

O criador de "Mr. Robot" salienta o papel precursor de "Os Sopranos" nessa viragem dos últimos anos, mas a sua escola é mesmo a do cinema, como revela em entrevista ao Vulture, publicação à qual confessou algumas das suas inspirações. A de "Clube de Combate", lá está, não será surpresa, pelo modo como a série atualiza a postura antissistema desse clássico moderno com Brad Pitt e Edward Norton. De resto, grande parte do cinema de David Fincher informa não só a agenda temática mas também a estética da aposta do USA Network, do retrato nervoso da cidade à banda sonora atmosférica.

 

"Se fazes uma série sobre hackers e a cultura envolvente, não há como não te inspirares num filme que é o rei desse material", confessa Esmail, que reconhece ainda a marca da "energia" e "movimento cinético" dos planos do autor de "Sete Pecados Mortais".

 

Mas por "Mr. Robot" passam também ecos de outros mergulhos no mal estar urbano, com o seu criador a apontar "Taxi Driver", "Psicopata Americano" ou "Blade Runner", além da obra de Stanley Kubrick ("Laranja Mecânica", "De Olhos Bem Fechados") ou Darren Aronofsky ("Pi", "A Vida não é um Sonho"). Mais ou menos palpáveis ao longo destes primeiros episódios, todos têm a marca do caos civilizacional, ambiguidade moral ou arrojo conceptual, com contrastes e confrontos entre o indivíduo e a sociedade, e para já a série não envergonha as referências - o protagonista tem potencial para ser ícone cyberpunk e o argumento mede o pulso ao mundo contemporâneo de forma orgânica, através da sua jornada pessoal, em vez de se limitar a encavalitar temas "fraturantes".

 

Contra uma elite com autoridade divina

 

A missão de Mr. Robot, a personagem, assim como da sua equipa, é rebentar as estruturas da E Corp, um poderoso conglomerado constituído pelo "1% no topo do 1% da elite mundial", que calha ser a principal cliente da agência de proteção de informação em que Elliot trabalha.

 

Ao contrário daquilo que algumas vozes apontaram, a abordagem do ciberterrorismo não partiu tanto dos casos de Edward Snowden ou Chelsea Manning, por muito que os perfis do protagonista e da personagem que dá título à série contenham pontos em comum com esses. A premissa até acaba por dever mais ao Egito, de onde é originária parte da família de Sam Esmail, do que aos EUA. "Estive lá logo depois da Primavera Árabe e fiquei muito inspirado. Um dos elementos definidores do Elliot é o espírito revolucionário que vi nos meus primos. São jovens que devoram tecnologia e tiram proveito dela para canalizar a revolta contra o status quo e tentar melhorar as suas vidas. Considero isso muito bonito e fascinante e quero mesmo que seja esse o centro da série", sublinhou em entrevista à revista online Slate.

 

Esta ambição de justiça pelas próprias mãos, à distância de um clique, alimenta uma viagem pela esfera pública e privada onde quem está nos bastidores pode, dentro de certos cenários, trocar as voltas a quem está habituado aos holofotes. "O Elliot não consegue interagir de forma eficaz mas sabe muitos detalhes íntimos daqueles que o rodeiam", salienta o criador da série.

 

Ainda assim, apesar dos óbvios trunfos tecnológicos e intelectuais de que dispõe, terá a solução para estancar assimetrias económicas ou sociais crescentes? Para fazer colapsar sucessivos modelos ancorados em endividamento, como defende Mr. Robot? "Talvez Elliot consiga deitar abaixo a sociedade que deixou de amar", sugeriu Rami Malek ao Los Angeles Times. Ou talvez não, porque mesmo sendo quase um pária, há laços individuais que o protagonista não está disposto a cortar - e até vai criando mais alguns pelo caminho.

 

Claro que, embora possa lançar o debate, "Mr. Robot", enquanto produto televisivo que é, também não consegue fugir às malhas do sistema capitalista e das empresas multinacionais tão criticadas pelo seu protagonista - aversão ao Facebook incluída, apenas um dos meios de promoção da série. Pescadinha de rabo na boca? "Sou muito próximo do Elliot, mas não sou o Elliot. Gosto de pensar que sou bem mais funcional e não acho que todas as opiniões dele sobre o mundo sejam necessariamente as mais acertadas. Concordo com a maioria e acho que o sistema económico que temos neste país está fragilizado. Não faz o que é suposto, que é valorizar o melhor produto feito pelas melhores companhias", explicou Esmail à Slate. "Somos parte da máquina porque somos pagos por ela para vender os seus produtos. Mas também não vou aligeirar essa questão na série", garante. E é por este misto de lucidez e atrevimento que o seu produto tem, para já, lugar cativo entre os melhores do mercado. E merece ser valorizado.

 

 

Gonçalo Sá é editor de TV do SAPO MAG mas também vai vendo uns filmes e ouvindo uns discos. Também gosta de BD e doces e mantém o blog gonn1000.

 

publicado às 12:22

Camisola amarela. A volta do garoto.

Voltando atrás, ao Moncorvo da minha infância, a primeira vez que os vi passar iam eles rebentados a caminho do Alto da Ventosa, uma contagem de 3ª mas com um calor de terra quente, entre o Sabor e o Douro. Amarelas eram as mimosas, naquela tarde de Agosto, mais o Peixoto Alves em disputa com o Francisco Valada, ambos do 'Glorioso'.

 

Por: Márcio Alves Candoso

 

Camisola amarela. A volta do garoto.

 

O dia 4 de Maio de 1964 calhou a uma segunda-feira. O meu Pai meteu uma folga, das muitas em atraso que trazia de um trabalho de quase trinta anos. A minha Mãe não trabalhava, o que quer dizer que tinha a carga de trabalhos dos filhos, da casa e do marido. Fomos a Lisboa.

 

Estávamos nesse tempo em Rio Maior, terra de forcados que eu conhecia e tomates pelados da fábrica do italiano, e até Lisboa era, salvo erro, 80 quilómetros em pé no banco de trás do Volkswagen, com a mana a dormir ao lado e eu a perguntar porque é que aquela vila que ficava lá para trás, quando vínhamos de Coimbra, se chamava Venda-das-Raparigas.

 

Depois subi as escadas rolantes do Grandella, e lá estava ela, vermelha como a camisola do Eusébio na televisão a preto e branco, mas eu sabia que era vermelha, porque colecionava os cromos que embrulhavam os rebuçados com geleia dentro.

 

Tinha rodinhas atrás, não achei grande piada para um rapaz do meu tamanho. Há cinco anos que consecutivamente fazia anos a 4 de Maio, achava que já merecia mais respeito. Mas a Mãe insistia que tinha de ter rodinhas, e a mana aprendeu nela num ror de tempo, nunca caiu, que eu segurava, e ela deitava-me uns olhos do camandro quando percebia que eu estava a fazer batota e a deixava ir sozinha.

 

Eu é que esmurrava os joelhos e os braços, dos cotovelos à nuca. Uma vez, na Murtosa, não fui atropleado por um decímetro mal medido, andava fugido da Torreira na bicicleta roda 20.

 

Depois tive uma de 'cross', que me melhorou muito um defeito de coluna congénito, e que nem sequer deu para livrar da tropa. Mas da de corrida é que eu me lembro! O que eu suei para correr em 33 segundos e 1/3 a volta do quarteirão, que fazia parte dos 'jogos olímpicos de verão' da rapaziada lá do bairro. Fiquei em primeiro, ex-aequo, segundo o cronómetro do Zé Carlos, que o pai lhe tinha dado nos anos, em Dezembro. Isto já em 1975, como o tempo passa depressa em cima de uma bicicleta de corrida...

 

Voltando atrás, ao Moncorvo da minha infância, a primeira vez que os vi passar iam eles rebentados a caminho do Alto da Ventosa, uma contagem de 3ª mas com um calor de terra quente, entre o Sabor e o Douro. Amarelas eram as mimosas, naquela tarde de Agosto, mais o Peixoto Alves em disputa com o Francisco Valada, ambos do 'Glorioso', e quem ganhou nesse ano foi o Valada, no ano anterior o Peixoto.

 

Moncorvo conhecia bem as voltas que a Volta dá. Desde o primeiro ano, quando lá terminou a 11ª etapa, ganhou-o um tal de Santos Almeida – do Benfica, havia de ser do quê? O meu Pai lembrava-se de de 27, era ele garoto como eu mais tarde, em 1967.

 

Naquele dia fui com a Maria Eugénia, a 'Geni', mais a minha Mãe, para a curva ao cimo do jardim do lago dos peixes, das perpétuas e das rosas, e do café do Porfírio. No meio o cinema, onde vi passar as primeiras fitas, a 'Sissi' e até filmes mais fortes, como 'Por Quem os Sinos Dobram', quando me apaixonei pela espanholita que afinal era sueca, e não tocaram os sinos como eu pensava que tocariam, iguais aos que o Júlio 'Sacristão' brandia várias vezes ao dia.

 

Os bombeiros atiravam água, os populares pétalas, as varandas tinham colchas como em dia de procissão. O pateta embasbacava na roda das bicicletas, via-os a correr e num ápice apeava-se de suor e lágrimas, por solidariedade.

 

E a bicicleta, coitada, morreu arrumada no sótão da casa nova. Em Espinho, enferrujada pela maresia, já o Joaquim Agostinho tinha ganho uma série de voltas e os Alpes do esqui de Huez. Tudo em paz à nossa volta, as voltas que a vida dá, antes que a morte nos separe da roda viva. Até à Avenida da Liberdade...

 

 

Márcio Alves Candoso nasceu em 1959, no Douro. Ausentou-se para Lisboa, a título provisório, há mais de 30 anos, mas volta sempre ao local da vida. Foi jornalista profissional, mas agora só aparece às vezes, como os amantes -deram-lhe com os pés e ele ficou um tanto aborrecido. Entretanto, é escritor, colunista nos jornais, animador de redes sociais. Está vivo, graças a Deus, a ele, aos hospitais e à mulher de sempre. Ganha pouco, mas há quem ganhe menos, e ele tem consciência disso. Vai lançar em breve a segunda edição do seu livro 'Antes do Destino', ainda antes dos outros sete que tem na cabeça, na 'pen' e escritos em pequenos blocos. Sempre teve bicicletas e agora comprou um carro. No tejadilho, vai mandar implementar um suporte. Não suporta estar quieto e calado.

publicado às 10:57

Uma espécie de quase tudo e quase nada para o resto da época

Dizem os números que o Sporting Clube de Portugal não perde um jogo da Supertaça Cândido de Oliveira desde o dia 9 de outubro de 1982. O adversário de então, o Sporting Clube de Braga, venceu o troféu (vitória por 2-1), no Estádio 1º de Maio, em Braga. 32 anos e 9 meses de invencibilidade, a mais longa numa competição oficial em Portugal. A somar a este feito histórico, em oito presenças, os leões conquistaram sete títulos para o seu Museu, os últimos em 2007 e 2008, sob a batuta de Paulo Bento.

 

Por: Miguel Morgado

A estatística e o emocional estão do lado verde e branco

 

 

A uns quilómetros de distância de Alvalade mora a segunda equipa com mais Supertaças (cinco), sendo o atual detentor do troféu. As águias, no entanto, perderam em 11 ocasiões, um registo nada abonatório para o seu riquíssimo palmarés desportivo.

 

Ao revisitar a história dos confrontos entre os eternos rivais, vemos que só por duas vezes se encontraram em finais de Supertaças, na altura disputadas a duas mãos. A primeira vez, em 1980, com o título a viajar para a Luz, e a última, em 1987, com os homens de verde e branco a levantarem o “caneco”. Ou seja, um empate.

 

Posto isto, se olharmos só para a estatística, o Sporting tem mais títulos, o Benfica perdeu mais 10 finais que os leões e, nos confrontos entre ambos, um empate. Esse é o dado objectivo. Agora o lado emocional, que dá peso - e muito, a estas contas.   

 

Os homens de verde e branco partem com a moral em cima. “Roubaram” Jorge Jesus, o treinador bi-campeão, numa jogada de mestre que alguns comparam à ida de Paulo Futre para o FC Porto, e há, até à data, uma aposta clara da direção presidida por Bruno de Carvalho no reforço da equipa e manutenção das peças-chave. A boa pré-época tem funcionado como impulsionador para a testosterona dos adeptos leoninos, que ecoam, mais que nunca, “este ano é que é”.

 

Ao invés, depois de mais de um mês de trabalho e uma digressão pouco auspiciosa no Continente Americano, a equipa de Rui Vitória (a quem os rivais rebatizaram-no, em tom jocoso, de Rui “Derrota”), a chama de campeão parece estar a apagar-se. Partem craques, não entram titulares indiscutíveis. Os sócios e adeptos, esses, desesperam por novidades e nomes sonantes. Porque querem o tri-campeonato.    

 

Perante o “apagão” anímico, Luís Felipe Vieira “desviou” o avançado internacional grego Mitroglou de Alvalade, um dia depois do ganês Kevin-Price Boateng ter aterrado em Lisboa por umas horas, mas cujo joelho e direitos de imagem o devolveram à procedência, gorando as expectativas leoninas sobre a sua contratação (e já agora da vinda para a capital portuguesa da sua namorada, Melissa Satta, uma concorrente à portista Sara Carbonero, naquele que poderia ser um campeonato também interessante). 

 

Domingo, 9 de agosto, no Estádio do Algarve, em Faro, o vencedor da Liga NOS (Benfica) e a equipa que levantou a Taça de Portugal (Sporting), defrontam-se na final da prova que, este ano, acrescenta o sub-título Vodafone por debaixo do nome do antigo jogador do Sport Lisboa e Benfica, Casa Pia, treinador do Sporting Clube de Portugal e selecionador nacional - Cândido de Oliveira para os menos recordados.

 

No barlavento-sotavento das bancadas, aos olhos dos adeptos, este dérbi, este ano especialmente, está a mexer um pouco mais com a emoção. Numa espécie de quase tudo e quase nada para o resto da época.

 

Com o estímulo da música oficial “Titãs”, JJ ou Rui Vitória, um deles sairá coroado neste duelo. Um duelo em que o regressado a casa Jesus leva vantagem se recorremos aos números (em 13 jogos, venceu por 10 vezes, perdeu duas e empatou uma ocasião). E animicamente, com ou sem BdC sentado a seu lado no banco (e com Octávio Machado como tampão), também. Virgolino Jesus, pai de JJ, depois da conquista do troféu “Cinco Violinos” quer seguramente ouvir da boca do seu filho que o primeiro troféu oficial da época é dele.

 

O balão das expectativas está bem cheio para os lados de Alvalade. A ver vamos se rebenta para deixar sair os confetes ou se esvazia mal o árbitro Jorge Sousa apite para o fim da partida. Porque o “futebol são onze contra onze” e no final não será a Alemanha a ganhar, mas antes Sporting ou Benfica. E, a analisar o verão de 2015, parece que os leões estão mais próximos de neste cliché de assumirem o papel do país de Joachim Löw.

 

 

Miguel Morgado é jornalista, tendo trabalhado no Jornal de Negócios, Euronoticias, Revista Política e Revista “Ganhar” (Jornal de Negócios). Foi editor de Desporto de dois jornais regionais  (Jornal de Oeiras e Jornal de Cascais) e do site www.desportnalinha.com. Atualmente, é assessor de Impensa na Cunha Vaz e Associados. Esteve inserido nas estruturas de comunicação do Sporting Clube de Portugal, Federação Portuguesa de Rugby, CTT e RTP, entre outros clientes. Licenciado em Relações Internacionais e Pós Graduado em Jornalismo e Comunicação, pelo ISCTE está a terminar uma tese sobre “Fundos de Investimento no Futebol – Third Party Onwnership” no âmbito da Pós –Graduação de Finanças e Direito do Desporto, na Faculdade de Direito de Lisboa. Casado e pai de 4 filhos. Gosta e pratica futebol, surf e rugby.  

 

Atualização:

Título editado a 8 de agosto | 17h07

publicado às 19:52

Jesus é castigador? Os primeiros a sabê-lo serão Vitória e Vieira

Supertaça. Joga-se porque tem de se jogar. É apenas um jogo que não abre portas para lado algum. Desta feita, porém, alguém lhe pôs uma pitada de um condimento especial.

 

Por: José Bento Amaro

Jesus é castigador? Vitória e Vieira serão os primeiros a sabê-lo

 

A Supertaça não me enche as medidas. Bem sei que é uma espécie de aperitivo para um banquete longo e nem sempre de fácil digestão, como é o Campeonato Nacional mas, para falar a verdade, quase nunca me seduz e muito menos me faz queimar neurónios na quase insana tentativa de tentar adivinhar a equipa titular, as tácticas, as reacções dos intervenientes. É um troféu que não dá dinheiro, que pouco prestígio acrescenta e que nem sequer promove por aí além os jogadores.

 

Jorge Jesus, cujo futebol tanto apreciei nos últimos seis anos, saltou a cerca e parece apostado em aplicar a receita mágica na casa do grande rival. Até domingo ainda gosto dele mas, se acabado o jogo tiver ganho o apoucada competição, serei mais um a render-me à irracionalidade e a colocar o mediático treinador português na lista dos mal-amados.

 

Jesus foi campeão por três vezes em seis anos (o Benfica tem o hábito de ganhar um campeonato nacional a cada três anos e dois meses). Devolveu alguma da grandeza que se andava a desvanecer. Ninguém lhe pode atirar pedras, embora, face ao investimento feito, pudesse e devesse ter ganho mais dois campeonatos (caídos aos trambolhões nas mãos do portista Vitor Pereira, que não teve culpa das invenções do amadorense nem do empurrão generoso do actual presidente da Liga de Clubes, Pedro Proença).

 

Mas a verdade é que colocou a equipa a jogar futebol como poucos já se recordavam. Encheu o estádio, valorizou jogadores, foi o motor para negócios de milhões (ganhos, mas também gastos). Os mesmos milhões que agora o fizeram apear-se de um cavalo habituado a correr nos melhores circuitos para ir desbastar um potro que, no futuro, tanto pode vir a ser um campeão aclamado ou uma pileca trôpega. Continuarei a gostar dele até ao momento em que o animal que agora monta ultrapasse o meu. E desejo que isso não aconteça em nenhum dos anos em que tem contrato com o Sporting (um campeonato ganho a cada seis anos de vida). Mais sincero não posso ser.

 

Despesista e mandão, Jorge Jesus chegou a Alvalade não só como treinador. É, de facto, o treinador-presidente, pois é por sua acção que o clube - dito falido e sempre imerso num mar de instabilidade – tem vindo quase diariamente a assumir compromissos financeiros de monta e que vão desde a contratação de jogadores com tarimba e qualidade (mas também especialistas em criar confusões), até investimentos em instalações e equipamentos.

 

É devido a Jesus que regressam a Alvalade o irrascível Octávio Machado e o enxovalhado Manuel Fernandes e que recolhe aos bastidores o sombrio Augusto Inácio e ao camarote presidencial o eleito presidente da instituição, Bruno de Carvalho. Simplificando: Jesus chegou, contratou à grande e à francesa (parece que até se prepara para dar já guia de marcha a um dos reforços), rodeou-se de pessoas da sua confiança e afastou aquelas que entende que não lhe irão trazer quaisquer vantagens. Face a isto porque não há de um benfiquista gostar de Jesus?

 

Sim. É verdade que o Sporting já joga futebol. Já é uma equipa que joga a correr na direcção da baliza contrária. Que pressiona os adversários e empolga as bancadas. Sim. É verdade que, pelo que se tem visto, o Sporting tem agora uma equipa bem mais favorita para vencer a Supertaça Cândido de Oliveira. Benfica e Sporting perderam alguns titulares. O Sporting comprou e parece disposto a continuar a reforçar-se. O Benfica não passa, para já, de um conjunto de promessas presidenciais. Até ver, de vitória o treinador do Benfica apenas tem o apelido. Os sócios, que até tinham perdoado os resultados pobrezinhos dos primeiros quatro jogos, estão agora exasperados com a miséria demonstrada ante um tal de Monterrey, equipa mexicana voluntariosa, já com andamento competitivo mas que nunca por nunca ser pode dar uma abada de 3-0 ao bicampeão nacional. As coisas vão mudar, dizem os benfiquistas mais tolerantes. E de facto vão: Gaitan deve sair em breve e a equipa ficará ainda mais debilitada. Maxi Pereira talvez não faça falta, mas a ausência de Lima vai ser muitas vezes lembrada. Quanto a reforços (daqueles que o são mesmo) é que ninguém ouve falar. Acumulam-se suspiros e o imenso desejo de ver cumprida a promessa de Vieira ao treinador – “Vais ter o mesmo que tiveram os outros treinadores”.

 

Os corações mais ansiosos aguardam, numa esperança meio destrambelhada, o anúncio da chegada de ídolos. Markovic e Coentrão são os mais badalados. O pior é que os jornais só falam, diariamente, em novos jogadores para os adversários. A calma começa a dar lugar à irritação. No domingo, no Estádio do Algarve, tudo poderá, no entanto, inverter-se em relação a Rui Vitória. Basta que ganhe o mediano troféu para voltar a sentir a confiança da mais numerosa massa associativa do país e do mundo. Se vencer deixará de ouvir coisas como “a equipa parece um conjunto de funcionários públicos alemães, obrigados a colar 257 estampilhas numa hora”.

 

Em caso de derrota ganha sobre os ombros o peso de uma pouco invejável cruz, passada por Jorge Jesus que, quando sentiu que já não era o centro do mundo (benfiquista) e que mais umas centenas de milhares de euros anuais (para além de um casarão de quase cinco milhões numa zona de gente fina, qual José Mourinho) lhe irão adocicar a reforma que já lhe acena, virou costas aos afectos, atravessou a estrada e foi por o grande rival a gastar dinheiro e a jogar à bola.

 

 

José António Bento Amaro é jornalista desde 1987 (Correio da Manhã, Semanário e Público). Tem 51 anos de idade e, garante, mais de mil de benfiquismo. Trabalhou em áreas como a justiça, o desporto e quase toda a informação geral. Actualmente "mata o tempo em pequenos, mas honestos jornais regionais" e, sobretudo, em alguns projectos que deseja venham a ser literários. O Benfica? "O Universo e pequeno para tanta grandeza". Nasceu na "mui nobre, gloriosa e sempre amiga Aldeia da Mata, Crato", concelho onde também "mata um pouquinho do tempo" como secretário da Assembleia Municipal.

publicado às 12:53

O que procuram os turistas numa cidade? A resposta pode estar escrita nas paredes

O que procura um turista quando visita uma cidade? Vida cultural pulsante, gentes genuínas, monumentos, centros históricos ou uma boa gastronomia. A pergunta pode ter uma centena de respostas, mas há uma delas que está escrita nas paredes: a arte urbana.

Por: Alice Barcellos

 

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Mural sobre o fado, em Lisboa. Foto: AFP

 

Apesar de ainda existir em algumas cabeças a ideia de que a arte urbana é vandalismo ou uma expressão artística de menor valor, a verdade é que a maioria das pessoas já se deixa tocar e impressionar por este género de arte, conseguindo distingui-la bem do puro (e mau) vandalismo.

 

Quem nunca observou com cuidado um grande mural pintado num edifício ou guardou uma frase escrita naquela esquina a caminho do trabalho? Esse é um dos trunfos da arte urbana: passar mensagens e fazer-nos pensar. Quer seja em obras de maiores dimensões ou em pequenos stencils espalhados pela cidade.

 

De Inglaterra para o mundo, Banksy conseguiu pôr a arte urbana ao mesmo nível das obras mais conceituadas, presentes nas galerias, museus e leilões. Vários dos seus trabalhos foram vendidos por quase meio milhão de dólares. Com os seus desenhos provocativos e inteligentes, Banksy marca uma viragem na percepção que temos da arte urbana. Ao mesmo tempo, o artista continua a manter o anonimato, o que ajuda a adensar o mistério e a curiosidade sobre a sua identidade e, por conseguinte, as suas obras.

 

Por cá, os artistas que fazem das paredes e muros as suas telas têm cada vez mais visibilidade e cidades como Lisboa e Porto têm apostado numa crescente política “amiga” da arte urbana. A identidade de uma cidade também se desenha nas suas paredes. E as histórias que lá vão sendo contadas chamam a atenção de locais e turistas.

 

Em Lisboa, a arte urbana ganhou um novo impulso no início desta década com o programa Crono. Com o objetivo de dar uma nova a cara a zonas da cidade que estavam degradadas, artistas de renome, nacionais e internacionais, intervieram em vários edifícios. Algumas das obras deste projeto, pintadas na Avenida Fontes Pereira de Melo pelos artistas brasileiros Os Gémeos e pelo italiano Blu, ganharam visibilidade mundial através de fotos partilhadas na internet e entraram para o top 10 do The Guardian, entre os melhores trabalhos de street art do mundo.

 

Desde então, a arte urbana vem conquistando os lisboetas e não só. Prova disso, é o surgimento de empresas e serviços que organizam visitas guiadas às várias obras da capital. Aí, é possível ver trabalhos pintados em zonas menos turísticas e também conhecer um pouco da história do artista e da própria obra.

 

300 quilómetros mais acima, o Porto vive um período fértil neste campo. Após anos mais complicados, em que a câmara tanto apagava trabalhos de artistas de renome, como rabiscos sem valor, a cidade decidiu, agora, abraçar esta manifestação artística e facilitar o processo para quem queira expressar-se numa parede. O primeiro mural legal de arte urbana, junto à estação de metro da Trindade, pintado no ano passado pelos artistas Hazul e MrDheo, marca esta nova fase.

 

Depois disso, outras ações têm acontecido. Desde o primeiro festival de arte urbana e ilustração da cidade, o Push Porto, até ao mais recente projeto Locomotiva, que apoiou várias intervenções de arte urbana, entre elas o maior painel comunitário de azulejos da cidade – ideia do artista Miguel Januário, criador do maismenos.

 

São 3.300 azulejos, pintados por portuenses e turistas, de várias idades e quadrantes sociais, que foram afixados num edifício na Rua da Madeira, junto à estação de São Bento. O projeto foi o culminar de um trabalho de meses e tenta responder à pergunta “Quem és, Porto?”. E se os turistas interessam-se cada vez mais pelas histórias que contam as nossas paredes, também nós podemos encontrar respostas sobre a nossa identidade urbana nestas mesmas paredes. Basta olhar com cuidado e parar para pensar.

 

Alice Barcellos é jornalista de profissão e poeta de coração. Nasceu no Rio de Janeiro, em 1986, mas trocou a cidade Maravilhosa pela cidade Invicta há 15 anos. Adora contar estórias, quer seja em texto, fotografia ou vídeo. Quando não está a trabalhar no SAPO (e em outros projetos que vai participando), gosta de ter a cabeça voltada para o mar e para os livros, para os seus gatos e cadela ou deitar conversa fora com amigos.

publicado às 10:17

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