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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Quem vai ganhar no dia 5 de outubro?

Por: António Costa

 

 Há sondagens para vários gostos e preferências, e nenhuma aponta para uma maioria absoluta da coligação ou do PS nas eleições de 4 de outubro, por isso seria de esperar que, a duas semanas das legislativas, o dia seguinte fosse também objeto de discussão. Não é. Até quando o permitiremos?

 

É claro que Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e António Costa insistem na estratégia da maioria absoluta, mas no ponto em que estamos, essa retórica só os pode descredibilizar. Aos três. Simplesmente porque ninguém acredita que tal seja possível e, por isso, é tão realista como Luís Filipe Vieira e Rui Vitória anunciarem como prioridade a vitória do Benfica na Champions. Salvo uma hecatombe de um dos lados até ao dia 4, o que já se percebeu é que o dia mais importante é mesmo o de 5. Habituamo-nos a pensar no dia do voto e a ‘desligar’, mas estas eleições prenunciam outra história. E isso deveria obrigar os três líderes – e Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, sim – a dizerem ao que admitem ir.

Até agora, aceitámos candidamente que os três líderes respondam com a fórmula politicamente correta. ‘Não falámos de coligações porque queremos a maioria absoluta’, respondem quase invariavelmente. Costa foi mais longe, mas arrependeu-se, o que fala, por si, da sua consistência. Anunciou que chumbará no Parlamento um Orçamento do Estado da coligação, um orçamento que não conhece, diga-se de passagem. Passos Coelho e Portas, por seu lado, insistem em entendimentos para a Segurança Social, sim, mas percebe-se a milhas que querem dar um ‘abraço do urso’ a Costa.

Na verdade, as diversas sondagens que saíram nas últimas semanas deveriam ser suficientes para os partidos acrescentarem mais alguma coisa ao seu discurso do que o pedido de maiorias absolutas. Nas próximas duas semanas, os cinco líderes com possibilidade de participarem em governos deveriam ser massacrados até aceitarem responder à seguinte questão: se ganharem sem maioria, estão disponíveis para coligações ou para acordos parlamentares? Em que condições? Para ser justo, Catarina Martins já pôs as suas condições nas mãos de Costa. Se não responderem, estaremos na prática a passar um cheque em branco ao vencedor e depois não poderemos exigir nada, e teremos de aceitar qualquer coisa.

Para os eleitores do PS, é igual uma coligação com o Bloco de Esquerda ou com o PP? Será? No dia seguinte a uma derrota, a coligação extingue-se, ‘regressam’ o PSD e o PP, por isso, é possível antecipar várias quadraturas do círculo. Não querem saber o que Passos Coelho e Portas consideram inadmissível? Há linhas vermelhas a traçar de um lado e do outro?

Não haverá maiorias absolutas, o que torna a necessidade de estabilidade política mais premente, e mais difícil de assegurar. Mas a estabilidade política não nasce das árvores, precisa de ser trabalhada, precisa no mínimo de não ser posta em causa antes das eleições.

 

Notas:

Aí está, os gregos voltaram a dar uma vitória a Tsipras. Sim, o Syriza ganhou no início do ano com a promessa de que acabaria com a austeridade, quase levou o país à bancarrota, negociou um novo programa de ajustamento e ganhou outra vez as eleições. É difícil perceber a lógica, mesmo tendo em conta o desastre eleitoral do mais radicais entre os radicais que saíram do Syriza. A semana de negociações vai ser longa, e pode acompanhar aqui, no Financial Times, o que são os obstáculos do novo Governo (site pago).

 

Em tempo de campanha eleitoral, a leitura do livro Os predadores, do jornalista Vítor Matos, é imperdível. Como os políticos se servem do Estado, para si e para os seus, como os partidos tomam conta dos lugares da administração pública, central e local. Os predadores, com a chancela do Clube do Autor, relata a tragédia da nossa Democracia, e como um Estado pesado é sobretudo uma tentação. Leiam antes de votarem no próximo dia 4 de Outubro.

 

E nos Emmys, o que é que aconteceu? Aconteceu HBO, com 43 prémios, 12 dos quais para a Guerra dos Tronos. Na noite da televisão, muitas das séries premiadas passam nos canais portugueses. E pode saber aqui, no Sapo24, a lista dos vencedores.

 

Tenha uma boa semana, eu regresso na próxima segunda-feira.

publicado às 10:50

Nunca mais é muito pouco tempo

Por: Rute Sousa Vasco

 

 Já se choraram todas as lágrimas de crocodilo, já se fizeram as declarações mais pias de intenções, já se jurou sobre o que há de mais sagrado – o dinheiro, pois claro. Depois das perdas astronómicas que a crise financeira de 2008 arremessou à economia real – a das empresas, das famílias, das pessoas que não fazem parte desse Olimpo dos triliões – eis que, sem grande espanto nem alarido, regressamos à terra do nunca mais.

 

Factos: A concessão de crédito ao consumo está novamente a disparar em Portugal. Só em Julho, os bancos emprestaram 276 milhões de euros para efeitos de consumo, o valor mais alto desde Março de 2011, em níveis pré-troika.”Somando a concessão de crédito feita pelas financeiras e também os montantes disponibilizados através de cartões, descobertos autorizados e linhas de crédito, então este valor sobe para os 436 milhões de euros em Julho, ou 2,8 mil milhões de euros nos primeiros sete meses do ano, mais 22% face ao homólogo”, escreve o Económico.

 

Certamente que alguns verão nisto uma notícia sinalizadora da confiança. Os banco voltaram a emprestar dinheiro para gastos quotidianos – pode ser um carro, pode ser uma viagem, mas também pode ser simplesmente dinheiro para pagar outras dívidas em atraso. Da mesma forma que os bancos voltaram a emprestar dinheiro para comprar casa.

 

Factos: Os bancos tinham, no final de Julho, quase 5,4 mil milhões de euros em crédito de cobrança duvidosa das famílias, segundo dados do Banco de Portugal. É no crédito à habitação que o montante de malparado é mais elevado. No crédito ao consumo, o montante dado como de difícil recuperação é superior a 1,3 mil milhões de euros.

 

O tema que vale a pena discutir é que para as pessoas reais e empresas reais muito pouco mudou para não dizer que tudo está na mesma. Dir-se-á que é da natureza conservadora da banca não ter golpes de asa para investir em coisas novas ou de forma diferente. Dir-se-á que as manobras financeiras dos últimos anos fizeram muito pouca evidência dessa natureza conservadora – pelo contrário, antes fosse.

 

Há poucos dias, em conversa com dois empresários de PME ou startups, como prefiram, um de uma empresa de aquacultura e outro de uma empresa de plantas aromáticas, ouvi exactamente o mesmo relato. O périplo pela banca à procura de financiamento, as palmadas nas costas – bela ideia, bela ideia – e o cartão de visita para voltar ao banco uns anos depois, quando o balanço evidenciar que aquela bela ideia é mesmo um bom negócio. Ou seja, quando não precisar do dinheiro, ou pelo menos não precisar desse dinheiro como prova de vida. As duas empresas encontraram caminhos alternativos – uma com investimento que chegou de fora de Portugal, outra com investimento que saiu do bolso de outro empresário. É um final feliz, ou um princípio feliz, como se queira ver, mas em nenhuma destas histórias a banca se portou de forma diferente daquela a que nos habituou nestes já longos 30 anos.

 

Para fazer negócios passou a ser exigível prever o futuro, o que é particularmente curioso quando, retrospetivamente, verificamos que nunca se correram tantos riscos supostamente apoiados em análises de crédito à prova de bala e em ratings inquestionáveis. Para emprestar dinheiro às famílias – na habitação ou no consumo – não há muito que saber. Se tem casa e se tem ordenado, é executável, penhorável, descartável. E hoje, como antes, isso continua a ser uma decisão muito mais fácil do que contribuir para fazer crescer a economia real. A mesma economia que deverá criar riqueza real e postos de emprego reais.

 

Não consigo evitar lembrar-me, uma vez mais, da frase de Henry Ford: «Se as pessoas soubessem como funciona a banca, haveria uma revolução antes da manhã do dia seguinte.»

 

Mas como as verdadeiras revoluções demoram algum tempo, há que não perder de vista as alavancas da mudança. E uma delas é certamente perdermos o medo dos números. É esse o grande objectivo do novo projecto da Pordata que podemos ler no Público. “Na escola, as crianças aprendem a ler, a escrever e a contar. E o que sabemos hoje é que as estatísticas são o abecedário do futuro. Quem não estiver na posse desse abecedário fica com muitas limitações em termos da compreensão da sociedade em que vive.”, explica Maria João Valente Rosa, directora da Pordata.

 

E já que falamos em perceber os números, e no rescaldo de um debate em que as palavras-chave foram ‘prestações sociais não contributivas’, aqui fica um artigo da Renascença para nos ajudar a perceber do que estamos a falar.

publicado às 10:28

A Carta

Há qualquer coisa de esquizofrénico no confronto permanente entre o PSD e o PS - ou entre Pedro Passos Coelho e António Costa, como queiram - sobre a magna questão “quem trouxe a Troika para Portugal?”.

Excepto para os portugueses nascidos depois de 2011, foi sempre claro que a intervenção foi pedida pelo PS, que era Governo na altura, com o apoio e o beneplácito do PSD e do CDS, que depois fizeram o favor de cumprir o programa ao longo da legislatura (que venceram em eleições). Nem se esperava outra coisa de tão obedientes primeiros-ministros.

 

Tanto Sócrates disse, à época, que não tinha outro remédio senão pedir a intervenção externa, como Passos Coelho governou o tempo todo com a Troika na boca, para justificar os cortes que deixaram o país à tona de água - e os portugueses, afogados…

 

Isto, que parece meridiano e todos sabemos, tem ocupado horas de debate, de mentiras sobre mentiras, e culminou ontem com uma carta desconhecida (e “confidencial”, claro!) que Passos Coelho terá escrito a José Sócrates, caucionando a intervenção internacional. Em plena campanha, nem a revelação da carta é insuspeita nem a relevância que se lhe dá é ingénua: PS e coligação gozam, uma vez mais, com a nossa cara, e tomam-nos por parvos. Percebo que se sintam à vontade para o fazer - temos votados maioritariamente neles, sempre, desde 1974, e presumo que se sintam inimputáveis… -, mas os sinais que têm vindo da Europa, da Grécia à Espanha, passando pela recente eleição do novo líder dos trabalhistas britânicos, deveriam deixar estes senhores a pensar que a História, de quando em vez, dá umas reviravoltas e cumpre a frase de Lenine quando dizia que se dão dois passos em frente mesmo que se dê um para trás.

 

Infelizmente, as eleições de Outubro não devem ser ainda o segundo passo em frente de que precisamos. Cheira-me mesmo que vamos ficar a marcar passo. Lamentável é perceber que uma das razões por que assim será passa por esta teima de crianças sobre quem trouxe a Troika para Portugal. Todos sabemos quem foi: PS, PSD, CDS. E quem neles mandava e manda. Custava alguma coisa reconhecer isto e seguir em frente, aumentando o nivel do debate

 

Talvez custe - podia dar-se o caso de os candidatos terem de debater questões realmente relevantes, e no limite explicarem-se melhor. Não sei como seria se realmente soubéssemos o que nos espera. Mas sei que seria diferente do que vai ser.

 

Coisas que me deixaram a pensar

 

A noticia, que li no El País (mas está por todo o lado), sobre o conceito subjacente ao presumível botão “don’t like” que poderá nascer no Facebook, depois de tantos pedidos dos fregueses da rede social. Inteligente, Mark Zuckerberg avisou que, a existir, esse botão exprimiria uma posição que o botão like não permite - por exemplo, a tristeza por uma foto de refugiados, ou um acto de violência - e não uma espécie de confronto online entre gostos e não gostos.

  

A quinta (e ultima parte) da saga da família Melrose, que Edward St Aubyn escreveu, inspirada na sua própria vida, está traduzida em português e foi leitura dos últimos dias. “Por fim” (edição Sextante) deixa-nos a pensar no sentido e no valor da família nos tempos que correm. E é maravilhosamente escrito.

 

Excelentes, as reportagens que Maria João Guimarães tem assinado no Público, a partir de Atenas, sobre as próximas eleições gregas. Uma forma de estar lá, estando aqui. A ler em papel ou online.

 

A manchete de hoje do Jornal de Notícias diz que cada português já contribuiu com 1950 euros para salvar a banca nacional. Ironia das ironias: quando os bancos nos emprestam, cobram juros e penhoram-nos se não pagarmos. Quando os bancos precisam de dinheiro, nós damos de bandeja e não recebemos nada em troca. Quando estudei, não era esta a definição de capitalismo e economia de mercado. Uma ironia triste e lamentável.

publicado às 10:00

Livros escolares. E o negócio dura, dura...

Por: Paulo Ferreira

 

Todos os anos por esta altura é isto. As famílias com crianças em idade escolar são obrigadas a gastar uma renda em manuais escolares. Ainda que tenham filhos em anos consecutivos, a reutilização dos livros do que vai mais à frente para o que se lhe segue é impossível. Pior: um aluno que repita um ano ou algumas disciplinas dificilmente poderá manter os mesmos livros. 

Porque, azar, os livros “adoptados” este ano são diferentes. Porque, lamentamos, há alterações anuais nos planos curriculares, aos “conteúdos programáticos”, na forma como se sucedem ao longo do ano ou como é suposto serem ensinados às criancinhas e adolescentes.

 

Nas Ciências Naturais ou na História. Na Geografia ou no Português. Na Matemática ou na Filosofia. Passamos a vida às voltas com os conteúdos lectivos, como se tivessemos acabado de descobrir as áreas do conhecimento e nelas estivéssemos a desbravar terreno. Mas que descobertas recentes se fizeram sobre os Descobrimentos, a Revolução Industrial ou a Idade Média que obriguem a uma revisão das matérias? Que luz nova surgiu sobre o contribuito de Sócrates (o outro, o grego) para o pensamento que torne incontornável a mudança dos programas de Filosofia? E na Física, o que mudou na lei da gravidade que os nossos jovens agora não podem deixar de saber? A soma dos quadrados dos catetos já deixou de igualar o quadrado de hipotenusa, como nos ensinou Pitágoras e aprendemos em Matemática?

 

A instabilidade curricular provocada pela “nomeklatura" do Ministério da Educação impede qualquer pretensão de uma reutilização sistemática e segura dos manuais escolares e transfere das famílias para as editoras dezenas de milhões de euros todos os anos - 80 milhões de euros foi a referência que li na imprensa.

 

Este é um escândalo com que vivemos há décadas sem que algum governo, alguma vez, tenha tomado medidas que verdadeiramente possam resolver o assunto: estabilizar os programas, obrigar - sim, obrigar mesmo, por lei - à manutenção dos manuais escolares e impedir os truques “chico espertos” das editoras que repaginam os livros e misturam exercícios práticos para serem feitos nos livros de consulta, dificultando a sua reutilização.

 

Ou, melhor ainda e seguindo os bons exemplos de alguns países, deixar que sejam as escolas a ceder os livros aos alunos, sendo estes obrigados a deixá-los em bom estado no final do ano lectivo para quem vem a seguir. Não só as famílias poupavam os cerca de 250 euros de manuais por criança - pagam cerca de meio ano lectivo de refeições na cantina da escola - como estas aprendiam a estimar e conservar os livros - que, isso sim, seriam pagos pelas famílias se fossem danificados.

 

Em países como o Reino Unido a estabilidade curricular permite que os manuais escolares sobrevivam vários anos e que cada exemplar seja utilizado sucessivamente por vários alunos ao longo de vários anos. Mas isto é em países pobres e subdesenvolvidos, coitados, que têm de poupar nestas coisas básicas. Por cá, ricos como somos, não fazemos por menos e cada criança tem de estrear uma pilha de livros a cada ano.

 

Só a falta de vontade política e o alinhamento de vontades e interesses entre decisores oficiais e as editoras que ganham com o negócio impede que se apliquem medidas fáceis e isentas de custos que beneficiariam centenas de milhares de famílias, acabando com um mercado cativo moralmente ilegítimo e pouco ou nada transparente.

 

Conseguirá o Provedor de Justiça o que os Governos recusam?

 

Notas de campanha

  • O Novo Banco promete animar estes dias de campanha política. O Banco de Portugal falhou a venda, que deverá demorar agora mais de um ano a ser concretizada. Sem venda não há receita e o custo financeiro da operação deverá ser assumido nas contas públicas, o que vamos conhecer nos próximos dias. Uma subida do défice será embaraçosa para o Governo, ainda que a operação seja pontual, não estrutural e o seu impacto “meramente estatístico”. É mais fácil explicar o plafonamento a uma criança do que os meandros da contabilidade pública aos eleitores.

  • Muitos socialistas continuam a dar-se mal com o jornalismo e a liberdade de informação e disparam para todos os lados. Assim não é fácil fazerem esquecer a governação de Sócrates.

 

 

publicado às 09:42

Há duas Merkel? E o que nos falta

Por: Francisco Sena Santos

 

Alguém dá conta por aí de algum dirigente que seja capaz de nos mobilizar para sonharmos, com bases consistentes, com um futuro comum exaltante? Alguém capaz de conduzir, com convicção, um pacto de confiança entre a liderança política e a cidadania?

 

 

Vivemos os últimos anos em torno de um tríptico: "crise, austeridade, sacrifício". Sabemos que estava muita coisa mal e que era preciso emendar. Mas as opções de austeridade adotadas como remédio só serviram para reforçar a desconfiança dos cidadãos nas instituições internacionais e nos dirigentes políticos em funções. Todos sentimos que os Estados fragilizados se tornaram reféns do sistema financeiro. A boa saúde de um país deixou de ser medida pela sua força criativa e pela robustez da sua justiça social e solidariedade. Passou a ser medida pelos indicadores da economia, o défice, a dívida, a balança comercial. Os números em vez de as pessoas. 

 

Estou entre os que rogaram pragas ao modo de austeridade que teve como locomotiva a chanceler Merkel. Mas há que reconhecer que, com a crise dos refugiados que tentam avançar a pé para dentro da Europa, Merkel mostrou ser líder com estatura. Proclamou "vamos cuidar deles", e a força principal da Alemanha, aparelho de estado e cidadãos, uniu-se para transformar o verbo em ação. A política alemã, nesta crise dos refugiados, está a funcionar como modelo de solidariedade, aliás, como nenhuma outra na Europa - alguns países, como a Hungria, com dirigentes de mediocridade moral, enfurecem-nos e envergonham-nos como europeus, perante imagens que relembram um passado abominável. Mas também é facto que a Alemanha tem a puxar por ela a prosperidade económica e a baixa demografia.

 

Habituámo-nos a olhar com desconfiança para os litígios, os ritos e as palavras vazias dos políticos. Nunca me passou pela cabeça que viesse um dia a pensar que Merkel também pode ser uma referência moral, uma líder capaz de impulsionar a generosidade e a solidariedade. Está a saber fazê-lo com esta tragédia dos refugiados. Lástima que tenha sido diferente com os povos submetidos à troika.

 

Voltemos ao princípio: onde é que está, em Portugal, um líder político capaz de nos desassossegar e, apesar das clivagens, mobilizar para uma  boa ambição comum com construção de territórios de futuro? Um líder, por exemplo, capaz de compreender que as artes podem contribuir para mudar o nosso olhar e a nossa maneira de estar. Precisamos dos frutos da imaginação.

 

Duas leituras que recomendo hoje sobre o desafio que a escolha de Corbyn para lider dos trabahistas britânicos representa para a Esquerda europeia. Vale a pena ler esta análise no The Guardian. E esta no El País.

 

Nota do SAPO24: este texto foi escrito no dia 11 de setembro, embora a publicação tenha sido feita a 15 de setembro.

publicado às 10:16

Diz que vai ser uma campanha eleitoral

Por: António Costa

 

Teme-se o pior nesta campanha eleitoral até ao próximo dia 4 de Outubro, e à medida que os dias correm, surgem ideias estapafúrdias e dos partidos que, necessariamente, farão parte do próximo Governo, qualquer que venha a ser o figurino. Querem um exemplo? Se os lesados do BES já faziam parte dos escombros da criação ‘artificial’ do Novo Banco a partir de uma decisão errada e precipitada do governador do Banco de Portugal com o apoio explícito do Governo, agora também são instrumento de combate partidário.

 

Os lesados do BES foram induzidos em erro, criaram-lhes expectativas que, depois, foram defraudadas, mas isto já se sabe há um ano. O que estava guardado para lhes ser pago nas contas do BES, as famosas provisões, desapareceu nas contas do novo Banco – ou melhor, foi utilizado para outras emergências.

 

Quando Carlos Costa decidiu a resolução do BES, no início de Agosto, assumiu prioridades, e os lesados não estavam entre elas. É claro que a confirmação – expectável – do falhanço da venda do Novo Banco em plena pré-campanha só poderia ter maus resultados. Por todas as razões.

 

Em primeiro lugar, confirma que a resolução do BES foi um erro, que custou 4,9 mi milhões de euros, 3,9 mil milhões dos quais dinheiro dos contribuintes com a promessa de que será pago pelos bancos ao longo dos próximos 40 (!) anos. E, não, a alternativa não era entre nacionalização, como a do BPN, e a resolução, do Novo Banco. Havia uma terceira via, que o BCE e o Governo não quiserem seguir. Por razões diferentes. Azar. O nosso. E dos lesados do BES.

 

Como é que Pedro Passos Coelho e António Costa estão a responder ao caso-BES e ao problema dos lesados? Da pior forma, entre o patético e o irresponsável. O primeiro-ministro deu asas à sua veia criativa e, talvez incentivado pelo ambiente de campanha, sugeriu aos lesados do BES o lançamento de uma subscrição pública – ao estilo operação-coração lançada há uns anos pelo Benfica – para apoiar os que não têm condições económicas de aceder à justiça. Importa-se de repetir!? Então, é o próprio primeiro-ministro a reconhecer que não foi capaz de por a justiça ao serviço de todos, sobretudo daqueles que não têm condições económicas.

 

O líder do PS, por seu lado, garante que vai por o Estado a pagar o que os lesados do BES reclamam, um valor na ordem dos 600 milhões de euros, mais ou menos o que o Governo se comprometeu a cortar em pensões junto de Bruxelas e que António Costa diz não ser necessário cortar. Importa-se de repetir!? Portanto, um governo PS vai usar dinheiro dos contribuintes para substituir-se às responsabilidades do Novo Banco – entretanto desaparecidas por obra e graça... de Carlos Costa – e já agora da Justiça, que terá de ser chamada a este tema, mais tarde ou mais cedo.

 

E sobre o dia seguinte do Novo Banco ao anúncio de que não será vendido, só à espera das eleições, claro? Nenhum dos dois diz nada de jeito, que tranquilize. Apesar de estar em causa um banco que, na verdade, passará rapidamente ao regime de ‘nacionalizado’. Passos remete para Carlos Costa e António Costa remete para Passos Coelho e para Carlos Costa. Não há gestão, por melhor que seja, e a de Eduardo Stock da Cunha tem sido das boas, que resista a esta incerteza. Pois, havia quem esperasse uma campanha de mal a melhor, mas infelizmente, caminhamos de mal a pior.

 

O que não pode perder?

A tragédia dos refugiados atingiu um novo patamar, que põe em causa a própria Europa e a sua organização política. Como não há resposta integradas, cada país gere como sabe e pode, até não poder mais. Foi o caso da Alemanha. Pode ler no Diário Económico de hoje, com link direto aqui no Sapo24, a decisão de Angela Merkel de suspender unilateralmente o espaço Schengen de livre circulação de pessoas. E isto ainda só agora começou.

 

Porque o país e o mundo não são feitos apenas de más notícias – felizmente -, vale a pena ler o ranking internacional do Financial Times sobre as melhores escolas de gestão. E Portugal não está mal, tem dois mestrados entre os 250 melhores do mundo, os da Nova e Católica. Aí está uma pergunta a que Pedro Passos Coelho e António Costa deveriam dar resposta: o que se propõem fazer para duplicarmos, numa legislatura, a presença de escolas portuguesas neste ranking?

 

Hoje ficámos por aqui, para a semana regresso aqui ao Sapo24. Tenha uma boa semana.

publicado às 10:41

Pode surgir um novo às dos "flippers"?

Por: Pedro Fonseca

A mudança no Guinness World Records pode ser conhecida a 8 de Setembro. Portugal só tem dois jogadores activos inscritos na liga mundial de "pinball".

Imagem: ElHeineken, licença CC BY 3.0

 

Será possível estar mais de 28 horas consecutivas a jogar "flippers"? A resposta será dada no próximo dia 8 de Setembro, após o canadiano Eden Stamm tentar bater o anterior recorde na Lamplighter Public House, em Vancouver (Canadá).

Stamm, de 43 anos, poderá parar cinco minutos em cada hora. Ele ocupa actualmente a 54ª posição no "ranking" mundial de jogadores de "pinball" (ou "flippers", como o jogo de máquina é conhecido em Portugal), segundo a International Flipper Pinball Association (IFPA).

O anterior recorde validado data de Janeiro de 2007 e foi conseguido por Alessandro Parisi, também na Austrália, em Whyalla. Mas, no ano passado, Lonnie Mihin esteve a jogar 50 horas na Pinball Expo, em Chicago (EUA), e Ronald Mowry manteve-se 72 horas e 8 minutos a jogar em 1974, em Hallendale Beach, na Flórida (EUA), no âmbito da promoção do filme "Tommy", com os The Who.

No entanto, estes dois últimos recordes não ficaram registados por não cumprirem as regras do Guinness World Records, recorda a Pinball News.

 Imagem: Papa

 

Da proibição aos jogos electrónicos

 

As máquinas mecânicas de "pinball" foram uma melhoria, patenteada em 1871 pelo inglês Montegue Redgrave, ao antigo jogo de mesa Bagatelle.

As máquinas tiveram o seu apogeu nos anos 30, quando lhes adicionaram pernas, o que tornou o jogo mais fácil.

As grandes fabricantes de "flippers" eram de Chicago: ABT Manufacturing (fundada em 1924), Gottlieb (1927), Bally (1932), Williams (1943) ou Midway, em 1958. Eram os mesmo fabricantes de máquinas de música ("jukebox") ou de máquinas de entrega de produtos, como refrigerantes ou pastilhas elásticas.

Mas, no início dos anos 40, o presidente da câmara de Nova Iorque, Fiorello LaGuardia, mandou destruí-las. No primeiro dia da decisão, a 21 de Janeiro de 1942, foram confiscadas mais de 2.000 máquinas, destruídas e enviadas para as fábricas de armamento. Outras cidades norte-americanas fizeram o mesmo.

Elas só foram re-legalizadas na Califórnia, por decisão do Supremo Tribunal, em 1974, e dois anos depois pela cidade nova-iorquina, com as declarações de Roger Sharpe, então considerado o melhor jogador mundial de "flippers" e que fez uma demonstração da sua perícia. Mas era demasiado tarde, porque essa década de 70 viu o aparecimento das máquinas electrónicas de jogos.

O mesmo sucedeu em Portugal, nos anos 80 (ou mesmo na antiga União Soviética), quando as chamadas "casas de jogos" substituíram as máquinas de "flippers" pelos jogos electrónicos, do Pong ao Pac-Man, e se passou das casas de jogos aos videojogos em casa. A disseminação dos "flippers" como jogo electrónico nos computadores pessoais eliminou o seu potencial de regresso.

Nessa época, em Portugal, as casas de jogos encerraram, as máquinas mecânicas atiradas para armazéns ou destruídas, algumas compradas em segunda mão mas rapidamente colocadas na garagem, devido à falta de peças ou de lâmpadas substitutas.

 

"Pinball" em Portugal

Portugal tem quatro jogadores reconhecidos pela IFPA, mas apenas dois registados e no activo - todos aparentemente a jogar fora do país.

O primeiro é Federico Barbato, de 36 anos, que ocupa a 2.246ª posição no ranking mundial, com a melhor classificação em terceiro no Torneo Madrileño de Pinballs, realizado em Maio de 2014 em Madrid. No mesmo Torneo, este ano, ficou em sexto.

Hugo Inácio, com 33 anos, está na 4.994ª posição mundial, com o melhor resultado de sétimo nos Pinball HQ Tournament, na Austrália, realizados nos passados dias 5 e 26 de Agosto.

Em terceiro está Luís Féraille, na 7.827ª posição da IFPA. O seu melhor resultado ocorreu a 19 de Maio de 2013 no Airport Tournament, em Les Mureaux (França), onde ficou em quinto lugar. Por último, e na posição 24.166 da IFPA, Stéphane Leroy conseguiu o melhor resultado a 28 de Julho de 2013 no Dylan Pinball Day, em Dornecy (França), onde se classificou em 22º.

O interesse neste tipo de jogo mecânico não passa ao lado de Portugal, mas é discreto. Em Junho passado, a PinballPT organizou o torneio Cascais Pinball Cup 2015, onde conseguiu nove participantes "e alguns espectadores". Das 12 máquinas disponíveis, havia que escolher sete, com a semi-final e a final a serem jogadas numa única e diferente máquina. A organização promete voltar em 2016.

 

30 mil jogadores

Apesar de Portugal não ter nenhum "Às dos flippers", como cantavam os Táxi em 1981 - ou os Who em "Pinball Wizard" em 1969 -, a verdade é que o "Pinball is back", como anunciava o jornal britânico The Guardian no início de Agosto.

Nos Estados Unidos, um evento no início de Agosto teve um número recorde de 700 máquinas de "flippers" e de arcada no centro de congressos de Pittsburgh. A "prova definitiva" do revivalismo contou com 650 jogadores internacionais, embora a IFPA contabilize 30 mil jogadores registados.

Um dos finalistas foi Zach Sharpe, vice-presidente da IFPA e filho de Roger Sharpe, um personagem lendário por ter testemunhado em 1976 perante a câmara de Nova Iorque que os "flippers" eram "um jogo de talento, não de sorte", tentando a re-legalização das máquinas que então eram associadas ao jogo ilícito.

Um novo recorde mundial pode dinamizar o revivalismo sobre estas máquinas mecânicas. Mas conseguirá Stamm jogar mais de 28 horas seguidas?

 

Pedro Fonseca é jornalista, especializado no impacto social das novas tecnologias mas gosta de ciências. Colaborou em diferentes diários, semanários, revistas, projectos na Web, programas televisivos e radiofónicos. É “blogger”, tuítador, facebookiano e até pinstagrama. Conseguiu escrever um razoável livro, ter excelentes filhos e ainda tratar de umas pobres árvores.

publicado às 10:21

Lamento informar-me, mas a culpa da crise migratória talvez seja mesmo minha

Por:João Moreira de Sá, escrevinhador

 

Indignado, como não podia deixar de estar, com o horror humanitário que vejo acontecer nos dois lados do Mediterrâneo (ainda que vá muito mais África adentro) e, como bom português, de dedo em riste para pedir contas e apontar culpas, de preferência a políticos, nas redes sociais, com culpa formada, nomes apontados como não faria a não-políticos, reparei, com o passar dos dias, numa 'coisita': não mudava nada. Por muito que eu reclamasse e já tivesse apontado responsáveis e denunciado tudo e todo o intolerável.

 

Como eu, houve naturalmente que se indignasse muito mais e muito melhor. A indignação por causas humanitárias é das que pode proporcionar melhores momentos de verve, que também é necessária, para despertar consciências, para tocar sensibilidades, mas, à noite, ouço o resumo dos "corpos" do dia e assomam-me perguntas como bofetadas, que, assim, doem.

 

Consigo pensar em tudo o que apontei a outros não terem feito, mas não tenho resposta ao perguntar-me uma, uma coisa que eu tenha feito, a não ser criticar quem nada fez. Choca-me que se ergam muros, mas não estou à porta das embaixadas dos países que o fazem, a protestar. Lugar comum? Talvez, pode ter muitos nomes - hipocrisia, falso moralismo. Com Timor chamou-se Liberdade. Saí de casa. Estive lá. Não sei se fiz a diferença mas estive, protestei, ajudei, acolhi, alimentei.

 

Eu não quero um dia não estar numa praia portuguesa quando a culpa vier cá morrer.

 

 

publicado às 08:59

Mr. West para presidente? Vamos lá falar de coisas sérias...ou não

Por: Rita Afonso, jornalista e editora do SAPO Lifestyle

 

Kanye West subiu ao palco dos prémios da MTV e anunciou: “em 2020 vou me candidatar a presidente dos Estados Unidos”. Será um anúncio totalmente descabido ou poderá ter algum fundamento no futuro? Ora vejamos.

Kanye West


Depois de Donald Trump anunciar oficialmente a sua candidatura à presidência dos Estados Unidos, chegou a vez de Kanye West. Sim, leu bem. "Decidi que em 2020 me vou candidatar a presidente dos Estados Unidos", afirmou o rapper durante o discurso nos prémios da MTV.  Nesse preciso momento as redes sociais explodiram e a hashtag #KanyeForPresident ganhou vida.
 
O mais curioso é que, apesar de haver dúvidas relativamente à seriedade da afirmação, rapidamente surgiram vozes de apoio e incentivo. Surpreendentemente, o Partido Democrata parece ter aprovado a candidatura do músico dando-lhe as boas vindas através da sua conta de twitter. Já o porta voz da Casa Branca, Josh Earnest, afirmou que todos estão “ansiosos para ver o slogan da campanha". Talvez seja uma das suas célebres frases como “Quando digo que sou o melhor é porque sou o melhor” ou “Acreditarias no que acreditas se fosses o único que acredita nisso?”… talvez algo ainda mais surpreendente. Vamos esperar para ver.
 
É certo que Kanye admitiu ter “fumado umas coisas” antes da cerimónia dos prémios da MTV, mas será um anúncio assim tão descabido? Será que daqui a cinco anos haverá espaço na Casa Branca para um rapper que por várias vezes tem vindo a mostrar interesse pelo mundo da política, criticando publicamente Presidentes em exercício como fez com George W. Bush? Haverá espaço na Casa Branca para uma primeira-dama com uma “retaguarda” de peso?
 
Uma coisa é certa: Kanye West é uma das personalidades mais influentes do mundo e apesar de não estar a concorrer nestas eleições com Donald Trump já lhe retirou bastante protagonismo. Nos últimos dias ninguém se lembra do multimilionário que qualifica os líderes norte-americanos como «estúpidos» e «controlados por ‘lobbies’ e interesses especiais». A estrela é Kanye.
 
Mas vamos avançar uns anos. Como seria o mandato do Presidente Yeezus na Casa Branca? Vejamos:
 
Logo após a tomada de posse, algumas mudanças básicas: novas notas com a cara de Kanye teriam de entrar em circulação. Nada faz sentido se os americanos não puderem pagar as suas compras com uma nota oficial para celebrar a chegada do novo rei... quer dizer, presidente.
 
Jay-Z seria o vice-presidente do rapper  e mudar-se-ia com a sua Beyoncé e pequena Blue Ivy para a Casa Branca. Assim, a crème de la crème da indústria musical estaria toda concentrada na sede oficial do poder executivo americano. A juntar à festa, nada melhor do que um “Keeping up with the Kardashians” diretamente da residência oficial dos Estados Unidos para rebentar com as audiências. 
 
Para rematar, a Casa Branca adotaria não a “casual friday” mas a “party friday” onde todos os congressistas, senadores e outros politicos teriam de mostrar o que valem ao ritmo de grandes temas como “All of the lights” ou “Golddigger”. Uma animação!
 
Mas voltemos à realidade. Não é de todo descabido que Kanye West concorra à presidência, como tantos outros nomes improváveis já o fizeram, e também não é totalmente impossível que chegue longe na campanha: é criticado e odiado por muitos, verdade, mas seguido e idolatrado por milhões, mais ainda depois de ter casado com a maior celebridade dos últimos anos. No entanto, será que ganha? Isso já é outra história, que veremos daqui a cinco anos, se ele não mudar de ideias. Então até 2020, Mr. West.

publicado às 16:53

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