Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Não é religião ou ideologia. A escolha é entre o bem e o mal

Por: Paulo Ferreira

 

 É sempre assim. A cada bomba, a cada ataque, deitamo-nos no divã do psicanalista para saber o que se passa connosco, vítimas da atrocidade. Não faz sentido. Primeiro porque não se trata do Islão contra o Ocidente. Basta recordar Beirute na semana passada ou Bombaim há sete anos. Depois porque se alguém está profundamente errado não somos certamente nós.

 

Deixemo-nos de sentimentos de culpa. Sentimo-nos culpados por sermos prósperos e livres. Por respeitarmos os outros e sermos tolerantes com os que pensam diferente de nós. Por termos construído sociedades onde tentamos que todos caibam. Por tentarmos chegar à igualdade de género. Por tratarmos os animais como, noutras paragens, não se tratam os humanos. Por recebermos o outro e permitirmos que ele se integre. Por termos chegado a um nível de humanismo avançado.

 

Nada disto nos deve fazer sentir culpados. Devemos, antes, estar orgulhosos. Se o bem e o mal existem, não devemos ter dúvidas sobre onde está um e onde está o outro. Sempre cientes também dos nossos erros e do muito que há a mudar nas nossas sociedades. Mas isso não faz de nós culpados dos actos terroristas dos outros.

 

Deixemo-nos de contemplações. O que está em causa é a nossa forma de estar no mundo e das sociedades que construímos e queremos manter nos nossos países. Para alguns tiranos é inconcebível que não se apedrejem adúlteras, que as mulheres possam ambicionar ter os mesmíssimos direitos e deveres que os homens, que aos ladrões não se corte uma mão, que se beba álcool, que não se tenha fé ao mesmo Deus da mesma maneira. Para eles é inconcebível que a alguém seja permitido viver se forma diferente da que eles pregam. Para nós isso é intolerável. O alvo somos nós mas o objectivo é aniquilar a nossa liberdade e tolerância. Aquilo que aos olhos deles é a nossa estranha forma de vida.

 

Deixemo-nos de procurar explicar o inexplicável. A guerra pode ser hedionda, injusta ou desnecessária. Mas a maior parte das vezes conseguimos entendê-la, mesmo discordando totalmente dela. A guerra tem regras e é um processo frontal: sabe-se quem são os beligerantes e qual é o campo de batalha, há uma ideia sobre as forças em confronto, conhece-se o objectivo dos vários lados. Na guerra feita dentro das regras os objectivos primordiais são militares. Sabe-se quando se ganha e quando se perde e antecipam-se as consequências desses desfechos. Pelo contrário, o terrorismo é, na sua essência, de uma total cobardia. É uma guerra travada sem a declarar. O alvo prioritário são inocentes. Quanto maior a chacina de inocentes, mais eficaz ele é. Estes terroristas não pretendem conquistar territórios ou aniquilar forças militares adversárias. Pretendem tão só intimidar, espalhar o terror junto de quem pensa e vive de forma diferente apenas porque pensa e vive de forma diferente, ainda que aceite a diversidade do outro. E isto é inexplicável. A culpa é do desemprego e da pobreza, diz-se. Ou da cimeira das Lages. É da intervenção no Iraque. É da falta de intervenção na Síria. É porque se abrem as fronteiras. É porque se fecham as fronteiras. É porque acolhemos toda a gente nas nossas cidades. É porque não acolhemos toda a gente nas nossas cidades. É porque não integramos. É porque queremos integrar à força. 

 

Mas alguma vez a barbaridade precisou de bons motivos para ser exercida? O fanatismo não é, pela sua própria natureza, intrinsecamente avesso à racionalidade, ao diálogo e ao bom senso? Vá lá. O fanatismo e, pior do que ele, as tentativas de o impor aos outros combatem-se, não se justificam.

 

A mais absoluta intolerância, capaz dos mais horrendos actos terroristas - sejam em Nova Iorque, Madrid, Paris, Beirute, Bombaím, Síria ou Iraque - não pode ser combatida com tolerância. O combate é desigual e beneficiará sempre o infractor. Os limites da tolerância e da democracia atingem-se no momento em que a tolerância e a democracia ficam elas mesmo ameaçadas e em perigo.

 

A tolerância deve ser total para acolher o arco-íris das religiões, das ideologias, das formas de estar na vida e das organizações de sociedade que homens e mulheres livres decidirem. Mas a intolerância só pode ser também total perante radicais que em nome de uma religião ou ideologia as querem impor por força da chacina premeditada de inocentes. Se a escolha for entre estes e nós não devemos nunca duvidar da resposta. A escolha não é entre uma religião ou outra. Não é entre uma ideologia ou outra. Não é entre uma forma de estar na vida ou outra. A escolha é apenas entre o bem e o mal. E nesta escolha nunca podemos enganar-nos.

 

Outras leituras

Não sabemos qual vai ser o desfecho da nossa crise política. Mas uma coisa sabemos de fonte segura há várias semanas: a escolha será feita numa base de "menor dos males". O Governo de gestão é só um deles.

 

Paredes de Coura venceu o Portugal Festival Awards. São três boas notícias numa só: 1- há vida para lá de Lisboa e Porto; 2- os festivais não são só Álvaro Covões e Luís Montez; 3- a vontade não paga contas mas vale muito.

 

 

publicado às 09:25

Que forças temos para enfrentar esta ameaça?

Por: Francisco Sena Santos

 

 Os bárbaros do “Estado Islâmico” (EI), de facto um bando de criminosos que se autoproclama califado e que controla um território com o tamanho das ilhas britânicas, não gostam que a gente se divirta, ria e cante e dance em bares. Era só o que faltava cedermos, seja na mais romântica capital europeia ou onde quer que seja, perante a sua ameaça. Mas também é necessário que os Estados democráticos estejam fortes e competentes para defender os seus cidadãos, ou seja, para nos defender.

 

Armaram-nos uma guerra, é um facto. Também é inquestionável que há que ir lá onde eles estão e destruir-lhes as bases para esse poder terrorista. Mas, mais ainda do que bombardeamentos, são necessários 007 que saibam infiltrar-se no inimigo, antecipar as ações terroristas em preparação e desmontar a cadeia do terrorismo. Esta é uma cadeia com muitos elos e demasiadas ambiguidades.

 

Esta guerra tem no lado inimigo, para além dos soldados, os guerrilheiros urbanos, adormecidos, que são matadores à espera de ordem para atacar, e que estão no meio de nós. A monstruosa chacina da noite de 13 de novembro está a mostrar como o bairro de Molenbeek, em Bruxelas – fica a uns minutos da Grand Place – aparece como um viveiro de terroristas. É um bairro que tem quarteirões tranquilos e outros com má reputação, droga, delinquência, islamismo radical, que não é seguro percorrer. Vivem hoje em Molenbeek umas 100 mil pessoas, grande parte formada por segundas e terceiras gerações de emigrantes de África e do Médio Oriente. A taxa de desemprego está acima dos 30%, sendo que ultrapassa os 40% para os jovens. É gente que vive no limbo, estigmatizada.

 

Sabe-se que há ali, camufladas, várias mesquitas com imãs fanáticos que alimentam a propaganda contra o modo de vida dos europeus, a quem chamam cruzados. São imãs fundamentalistas que facilitam nesses santuários o recrutamento dos que são educados para nos destruir, inclusive através do sacrifício kamikaze. Não esqueçamos que muitos comunicados do “EI” terminam com a proclamação “vocês vão perder porque nós amamos a morte mais do que vocês amam a vida”. Progressivamente, o espaço público, em França como na Bélgica e em Inglaterra, foi sendo ocupado por franjas do Islão em deriva sectária, gente que foi puxada para um modelo de sociedade ao mesmo tempo retrógrado e violento.

 

Fica evidente que a par da chamada intelligence, espécie de 007 infiltrados entre os que estão em deriva radical no meio de nós, é vital, para responder a este muito complexo desafio, a ação política e cultural. Não só para explorar hipóteses eficientes de integração e convivência mas também para valorização do nosso agora tão desqualificado sistema democrático. 

 

A desvalorização quotidiana da vida política, aqui como em quase toda a Europa, é destrutiva. Faz o jogo do inimigo. Falta-nos quem apareça com audácia à altura das aspirações, é uma queixa que todos repetimos. Bem andou o presidente François Hollande ao proclamar, ontem, no discurso de resistência e de guerra perante o Congresso, em Versalhes, que, nas atuais circunstâncias “le pacte de sécurité l’ emporte sur le pacte de stabilité”, ou seja: o pacto de segurança dos cidadãos sobrepõe-se ao pacto europeu de estabilidade. Aí está uma recomendação essencial aos dirigentes políticos europeus: quando estamos, como está assumido, em estado de guerra, os apertados constrangimentos impostos às finanças públicas dos países europeus não podem ser a prioridade. Estamos perante conflitos até aqui desconhecidos, é preciso que haja a sabedoria para alargar a malha nos orçamentos, e com sensatez viabilizar os recursos necessários. Que a Europa aprenda a ser, de facto, uma união, solidária.

 

Meteram-nos numa guerra que é, ao mesmo tempo, militar, cultural, teológica, ideológica, psicológica e económica. Evidentemente, como tantos especialistas têm repetido, é preciso fazer rebentar os fluxos financeiros que alimentam os vários anéis da cadeia do terrorismo. Fechar-lhes a torneira do dinheiro do petróleo e bloquear o circuito do armamento. Quantos dos investidores nos mercados financeiros internacionais serão também financiadores deste terrorismo?

 

Também é uma guerra de propaganda. Os terroristas do “EI” dominam com eficiência um vasto território virtual na internet. Usam fortemente a liberdade das redes sociais para fazer campanha contra a liberdade. Como se faz a contrainsurreição? Anonymous promete meter-se na primeira linha.

 

O que temos pela frente é uma guerra longa perante um inimigo que está numa lógica política com vista ao nosso extermínio. E é de prever que o necessário combate iniciado aos terroristas que ocuparam o vazio no Iraque e na Síria e ali montaram bases para o alargamento do califado do terror vá exacerbar os jiadistas que estão entre nós.

 

É precisa vontade otimista para enfrentar a imprevisibilidade de um quadro geral que, tal como está, puxa para o pessimismo.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA

 

José Manuel Rosendo é um grande repórter das guerras do nosso tempo. Esta reportagem é essencial para, com rigor, sem efeitos especiais, compreendermos a complexidade do que está a acontecer no norte da Síria onde os curdos peshmergas mostram como é possível bater o inimigo. Não fosse a contínua ambiguidade de Erdogan (ele é mais hostil ao IS ou aos curdos?) e talvez os terroristas já tivessem menos espaço.

 

A poesia de Adonis, poeta sírio com passaporte libanês, é um fogo-de-artifício de ideias filosóficas e profecias, com escrita puríssima. Ele tem sido várias vezes citado para o Nobel e é reconhecido como o grande poeta árabe vivo. Vale ler esta entrevista.

 

Um só infiltrado entre centenas de milhar de refugiados sírios não pode ser argumento para que a Europa renuncie à sua matriz de terra generosa de acolhimento. Já havia muitos europeus a clamarem que é levantando muros e fechando fronteiras que se estanca a ofensiva dos terroristas. Um passaporte sírio, afinal falso, em um dos kamikaze de Paris e a revelação de que ele passou pela Grécia a declarar-se refugiado está a servir de munição para esses que querem barricar-nos. Como recomenda o ex-primeiro-ministro centrista italiano Enrico Letta não nos enganemos sobre quem são os inimigos: os refugiados são vítimas dos terroristas, não são os terroristas.

 

O julgamento dos 17 ativistas angolanos é também um exame ao regime angolano. A imprensa internacional não vai estar distraída. Como se vê aqui.

 

Uma primeira página escolhida hoje entre as mostradas no SAPO JORNAIS.

publicado às 09:20

E os refugiados?

Por: António Costa

 

 Deixemos a política doméstica por momentos. Já passaram mais de 48 horas sobre os horrendos atentados de Paris, os piores em solo francês desde a 2ª guerra mundial. Não é o tempo suficiente para conclusões sobre o estado de guerra em que todos nós, os ocidentais, vivemos, provavelmente sem nos darmos disso conta, mas já é possível identificar focos de risco. Há vários: onde é que o radicalismo jiadista e o islamismo se tocam, como é que o Ocidente responde ao terrorismo do Estado Islâmico, a política de segurança, por exemplo. Há um que, por estes dias, nos toca mais: os refugiados.

Era inevitável que o longo braço armado do jiadismo chegasse ao mesmo tempo que a Europa é invadida por refugiados que também fogem a este terror sob a forma de perseguição, violação, bombas, suicídios e medo. Medo é, talvez, a palavra mais forte, aquela que está por detrás de todas estas ações que, nos últimos anos, já tingiram vários continentes. E de mãos dadas com o medo está uma forma de vida que os jiadistas nos querem impor.

Ainda se sabe pouco sobre a extensão da rede que montou e executou os atentados de Paris – deixemos a contagem das vítimas para depois, já vai nas 129, isto já é suficientemente duro para nos atormentarmos a cada minuto que passa, e apoiemos as famílias dos que partiram – mas há suspeitas de que um dos terroristas teria passaporte europeu ‘arranjado’ na entrada de refugiados na Europa. Devemos, por isso, olhar duas vezes para cada um dos refugiados que já está na Europa ou para cada um que ainda quer entrar? Não e não e não.

Em primeiro lugar, há europeus seduzidos pelo Estado Islâmico, uma coisa absolutamente incompreensível, à qual temos de dar, e ter, uma resposta. Há franceses nestes atentados, com vida e mundo ocidental, portanto. Nem todos são muçulmanos que nasceram e viveram no médio oriente.

Depois, é fácil dizer que os refugiados são os menores dos culpados, claro; o mais difícil é fazer, como sempre. Há uma condição essencial para que os europeus, a maioria, pelo menos, mantenha os braços abertos aos refugiados. As autoridades europeias têm de garantir que a entrada é organizada e que os que entram são de facto identificados e registados. Em condições dignas e humanas. É a única solução, a que defende os refugiados da desconfiança dos europeus, e dos que querem aproveitar a sua entrada para se infiltrarem na Europa para executarem atentados.

É claro que a linha que separa uma estratégia securitária do respeito pelos direitos, liberdades e garantias dos refugiados é muito ténue, mas não é possível fugir a isto, a esta escolha. No equilíbrio entre segurança e liberdade individual, onde está a virtude? Não há uma resposta única, nem fácil, mas tem de ser dada, porque a outra vai ser pior, e será sempre no sentido de fecharmos as fronteiras a quem foge do terrorismo, de nos isolarmos, como se isso resolvesse o problema. Não resolverá, claro, mas a consequência imediata, de defesa, será essa, se os europeus não se sentirem seguros nos seus próprios países.

 

As escolhas

 

O mundo está a olhar para Paris, e para os atentados, enquanto em Lisboa domina a política, e não se pode dizer que seja a alta política. Cavaco Silva tem uma visita de dois dias à Madeira – pode acompanhar as últimas aqui no Sapo24 - e isso indica que não está com pressa para ouvir António Costa. Na verdade, já saberá o que o líder do PS lhe vai dizer, e o (não) acordo que lhe vai levar. O silêncio do Presidente é também uma forma de falar e de aumentar a pressão sobre os socialistas, mas também sobre o BE e do PCP. E se exigir mesmo um acordo, Catarina vai aproximar-se, mas dificilmente Jerónimo dará mais do que já deu. E depois?

 

publicado às 10:46

Paris: Os maus da fita

Por: José Couto Nogueira

 

Desde Janeiro, quando dois ataques da Al-Qaïda incluiram a redacção da revista Charlie Hebdo, que os parisienses não passavam por tão grande pânico – aliás, maior, uma vez que desta vez ocorreram sete ataques simultâneos e morreu mais de uma centena de pessoas.

 

 

Ainda os mortos e feridos não tinham sido identificados, já François Hollande aparecia na televisão a anunciar “medidas implacáveis”, a começar pelo imprescindível e inútil fechamento das fronteiras. Imprescindível porque a primeira coisa que se faz depois dum assalto é trancar as portas, inútil porque hoje em dia o terrorismo é sobretudo perpetuado por muçulmanos nascidos na Europa. É que, entretanto, numa mudança que parte da opinião pública europeia não conseguiu ou não quer compreender, o terror mudou de protagonistas e de modus operandi.

 

Quanto aos protagonistas: a Al-Qaïda, que era o enfant terrible desde o atentado do 11/Set/2001 em Nova Iorque, é um grupo de amadores, quando comparados com a nova entidade surgida do quinto dos infernos, o auto-intitulado Estado Islâmico, também conhecido como ISIS (Islamic State of Iraq and the Levant) ou Daesh (em árabe). A Al-Qaïda era (e ainda é) uma organização sem território (pode estar em toda a parte) dedicada a atacar os Estados Unidos e seus aliados, acreditando estar no começo de uma longa luta contra o Grande Demónio, sem fim à vista.

 

O ISIS é uma religião salafita baseada em predições da mitologia muçulmana, segundo a qual o fim dos tempos está para breve e colocará frente a frente os “cruzados de Roma” contra os exércitos do Califado, um estado territorial em expansão permanente, a começar por uma área da Síria e do Iraque, com capital na cidade sagrada de Raqqa. Até chegar essa batalha final, os principais inimigos – e aqueles que têm sido massacrados sem dó nem piedade – são os outros muçulmanos, os shiitas, considerados apóstatas e muito mais culpados do que os cristãos, ou outras religiões.

A guerra contra os ocidentais, provocada mais porque os ocidentais resolveram que tal aberração não pode subsistir, é apenas uma faceta do domínio do mundo e da extinção das centenas de milhões de apóstatas shiitas. Estranhamente, o ISIS tem recrutado milhares de jovens entre os muçulmanos europeus de segunda geração (isto é, nascidos na Europa) e católicos arrependidos. Quer dizer, a grande movimentação de pessoas dispostas a lutar nesta “guerra santa” têm sido para entrar no Califado, e não para sair do Califado para a Europa. Isto significa que as polícias europeias têm prendido sobretudo jovens que querem fugir para o Iraque, e não que vêm do Iraque para a Europa.

 

Isto só para esclarecer – e é muito importante que se esclareça – que os milhões de sírios e que estão a fugir por terra e a nado para a Europa não vêm fazer terrorismo; estão precisamente a fugir dos massacres do ISIS, das forças do ditador sírio Bashar Al Assad, dos kurdos, e dos vários grupos de insurgentes que transformaram as cidades sírias em montes de entulho. Os terroristas do ISIS ou já nasceram na Europa, ou vêm de avião com bilhete pago e passaporte.

Agora, quanto ao modo de operar: a Al-Qaïda ataca alvos militares, ou inimigos específicos, como o Charlie Hebdo. O ISIS, agora em Paris, atacou alvos civis, indiscriminadamente escolhidos – inclusive em bairros classe-média baixa, onde vivem imigrantes. A ideia é semear o terror, fazer com que qualquer pessoa se sinta a perigo, mesmo que não tenha qualquer actividade a não ser viver o seu dia-a-dia pacatamente. Tanto faz se são americanos ou vietnamitas, ricos ou pobres, novos ou velhos; não são os fieis, não seguem os preceitos específicos das escrituras e ainda se atreveram a bombardear as terras sagradas do Califado.

Daí que este ataque de Paris, o primeiro organizado pelo Califado no estrangeiro, represente uma mudança radical, e para pior, do terror terrorista. Utiliza pessoas de nacionalidade europeia, recrutadas, por exemplo, entre os dez milhões de muçulmanos (e muitos não muçulmanos) que nasceram em França ou os muitos milhões que nasceram na Bélgica, na Holanda e na Grã Bretanha – jovens sem desígnio na vida e sem futuro para lá do salário mínimo, a quem a doutrinação dá um sentido à vida e permite ventilar as frustrações de uma sociedade de abundância que que só lhes dá miséria e exclusão.

 

É verdade, Paris ardeu na sexta-feira passada. Já Madrid tinha ardido em Atocha em 2004, e Londres em 2005 – nesses, ainda era a Al-Qaëda, mas já com os métodos do ISIS. Maiores deflagrações já estão prometidas para outras cidades europeias e americanas. Outras operações – dezenas, segundo os relatórios – têm sido evitadas pelas forças de segurança.

A Europa tem uma difícil tarefa pela frente; precisa manter as liberdades individuais que levaram séculos a conquistar e são a essência da vida ocidental; não pode descriminar os muçulmanos que fogem aos milhões do inferno sírio; e tem de descobrir uma maneira de eliminar o Califado sem se meter na tal batalha final na planície de Raqqa.

Paris não pode arder mais.

 

publicado às 10:17

E agora?

Por: Francisco Sena Santos

 

Tivemos a confirmação de que agora os terroristas matam também em Paris tal como fazem em Bagdad ou em Beirute. Já tinham atacado em Londres e em Copenhaga, como em Ankara ou em Tunes.

 

 

Os jihadistas que executaram, com máxima crueldade, demoradamente, a sangue frio, a carnificina no Bataclan e em outros cinco lugares na noite de barbárie em Paris, gritavam Allahu Akbar, literalmente Deus é Grande em árabe. São guerreiros kamikaze pela expansão de um califado que invoca abusivamente uma religião que nada tem de terrorista. Estes fanáticos que manipulam a religião como ideologia querem fazer vergar e submeter o mundo tolerante que é o nosso e que eles consideram de pecaminosos infiéis.

A motivação destes matadores é certamente a mesma dos que na véspera, em dois atentados, tinha causado a morte de 41 pessoas e ferimentos em mais de 200, em Beirute.

Também a dos assassinos que há dois sábados fizeram abater no Sinai egípcio um Airbus russo com 224 pessoas a bordo.

Ou a dos bombistas que há cinco sábados mataram 99 pessoas frente à gare ferroviária de Ankara.

É o mesmo terrorismo que em 26 de junho matou 38 turistas na praia de Sousse e que em 18 de março também levou 24 vidas no museu do Bardo em Tunes, estes dois ataques na Tunísia.

 

Estes são apenas alguns dos infames atentados que marcam este ano que começou com o ataque em 7 de janeiro ao Charlie-Hebdo. Aqui, o alvo eram os valores da França: a liberdade, a igualdade, a fraternidade. Alvo específico: a liberdade de expressão, a liberdade de denunciar pelo riso quem cultiva a intolerância. Já tinha sido um ato de guerra que nos fez a quase todos proclamarmos que também somos Charlie.

 

Agora, a frente de guerra amplia o seu alvo: todos passamos a estar na linha de mira desta barbárie. Os massacrados nesta noite de novembro em Paris são sobretudo rapazes e raparigas, jovens que tinham procurado o prazer de uma noite a ouvir música numa célebre sala de espetáculos de Paris, são os também jovens que petiscavam na esplanada de uma pizaria e os não tão jovens clientes de um restaurante asiático na zona da République, uma praça parisiense muito associada a manifestações pela liberdade. Eles tinham saído na noite que parecia amena desta sexta-feira para viver, beber e cantar. De facto, não imaginavam que lhes tinham declarado guerra.

Os passageiros do avião russo abatido há duas semanas no Sinai eram, a maioria, cidadãos russos de São Petersburgo que tinham ido em férias em Charm Al-Cheikh, praia no mar Vermelho.

 

Há um ponto comum a estas duas matanças nas últimas duas semanas: tanto a França como a Rússia iniciaram no final de setembro raids de bombardeamento sobre abrigos e campos de treino, na Síria, dos terroristas que pretendem devastar o Ocidente. Estamos em guerra e o campo de batalha não é apenas nos terrenos do Médio Oriente onde, com fatal precipitação, as potências ocidentais patrocinaram os ditadores em funções. Obviamente, eles mereciam ser combatidos, mas era preciso assegurar que a alternativa não seria uma terra de outros gangues ainda mais nocivos.

Este jihadismo do auto-proclamado califado islâmico está a ocupar esse espaço e tem sabido catequisar e converter jovens europeus para a sua guerra santa contra o Satã ocidental. Ou seja, o inimigo nem precisou de cavalos de Tróia para se infiltrar dentro da Europa. O inimigo nesta guerra também já está dentro da Europa, com passaporte europeu. Quantos serão os jihadistas nascidos, crescidos e residentes em França, à espera de serem ativados para o combate e prontos para o sacrifício em nome do que consideram ser a vontade de um deus? Muitos deles são jovens de segundas e terceiras gerações, descendentes de imigrantes chegados no século passado de África e do Médio Oriente. Tornaram-se combatentes ao serviço da causa terrorista e estão dentro da casa europeia.

 

E agora? Esta é a pergunta que costumava colocar Paulo Cunha e Silva ao juntar gente de múltiplas origens e saberes a quem desafiava para construir pontes que fizessem avançar soluções. Os líderes das maiores potências mundiais reúnem-se em cimeira G-20 este domingo em Antalya, na Turquia, com uma agenda que vai da economia ao clima, mas passando muito pela crise dos refugiados (tantos, tantos em espera de desesperar, da Turquia aos Balcãs, passando pelas ilhas gregas) e a guerra contra o terrorismo. Vão ter de pensar nas duas frentes desta guerra: a que está na Síria e no Iraque e a que está a avançar na Europa. Sendo que, frente ao ódio, importa que triunfe a liberdade, o que implica unidade, clareza e democracia. Os valores da França, liberdade, igualdade e fraternidade são a referência. Os ataques em Paris são ataques à liberdade, ao nosso modo de vida, são ataques a todos nós. Têm por alvo a alma da nossa sociedade.  Apetece clamar Je Suis Français e colocarmo-nos mobilizados ao lado dos cidadãos de um país que nos habituámos a sentir terra de asilo.

publicado às 09:54

O dia a seguir ao 25 de Novembro

Por: Rute Sousa Vasco

 

Lamento, mas não me lembro. O que felizmente me dispensa de manifestações exacerbadas sobre o perigo comunista ou sobre a reacção fascista. Sei o que aconteceu, li nos livros da História, acho que compreendi razoavelmente bem os factos e o contexto da época, mas, desculpem lá, estamos em 2015 e não é desse 25 de Novembro que estou a falar.

 

O meu 25 de Novembro é o próximo – daqui a exactamente 12 dias – e, na realidade, aquilo que me interessa é mesmo o dia a seguir.

 

O que é que a acontece a 26 de Novembro? Será o dia em que, na Assembleia da República, serão debatidos dois temas de governação importantes: a reposição dos salários dos funcionários públicos e a redução da sobretaxa do IRS.

 

As propostas a debater e a votar são apresentadas pelo partido socialista e os dois temas estão na cidade proibida dos acordos das esquerdas. Ou, se quiserem, na sua lista negra – aquela onde estão as coisas para as quais não se encontrou “acordo quanto às condições da sua concretização”, mesmo que exista “convergência quantos aos objectivos a alcançar”.

 

Ou seja, isto é tudo muito bonito, mas o problema é mesmo governar. O acto da governação, com a sua necessidade de tomar opções concretas por um lado ou por outro, é que na realidade estraga a harmonia das ideias elevadas e dos estados de alma com afinidade. O inferno são os outros, dizia o Sartre; na realidade, o inferno é mesmo a governação.

 

Só uma breve síntese das propostas sobre estes dois temas:

  1. Sobretaxa do IRS
  • O PS propõe um corte de 50% em 2016
  • O PCP e o BE pretendem que seja eliminada com efeitos imediatos
  1. Reposição dos salários dos funcionários públicos
  • O PS propõe uma redução gradual dos cortes nos salários, começando por 25% no primeiro trimestre de 2016, 50% no segundo trimestre, 75% no terceiro trimestre e repondo totalmente os salários no fim do próximo ano
  • O Bloco de Esquerda concorda com a reposição gradual dos salários
  • O PCP pretende que a reposição integral dos salários seja imediata

 

Claro que, qualquer que seja a opção sobre estas medidas, existirá um impacto nas contas públicas e claro que, como as contas públicas são escrutinadas por Bruxelas no âmbito dos acordos a que voluntariamente nos comprometemos, mais cedo ou mais tarde, os quatro aliados à esquerda vão ter de falar daquele tema delicado que se chama Europa ou política europeia. Na realidade, todos sabem que este é o tema. Todos sabem que de uma forma ou de outra é aqui que tudo começa ou que tudo acaba. Está nos livros, nos filmes e na vida das famílias – a forma como superamos, ou não, os temas-tabu, aquilo de que não se fala porque se antecipa conflito e mesmo ruptura, é exactamente aquilo que irá deixar o registo histórico.

 

O problema dos próximos meses é que estão cheios de temas espinhosos como estes. Não é por acaso que o PS traz para a frente da agenda legislativa e política temas como a despenalização do aborto ou a adopção por casais do mesmo sexo. Estes são o espaço perfeito de lua de mel, não apenas com os partidos de esquerda, mas com várias camadas da sociedade que se revêem num código de costumes e de valores progressista e não refém de dogmas religiosos ou outros. Como diria o Jorge Jesus: “Costa, isso é peaners”. Vai gerar discussão, vamos voltar a ouvir argumentos absurdos, mas essa é a “good fight” do país da Esquerda onde, imagine-se, se conseguem encontrar inclusive alguns amigos de direita do mesmo lado da barricada.

 

O problema mesmo é a chatice de governar o país todos os dias. As contas, bolas, as contas. O dinheiro que não chega para tudo. “Eles” – o Estado – que na realidade somos “nós”, todos os nós, e os impostos que pagamos. Como gerir este dinheiro? Vamos governar-nos com o que temos ou vamos mas é pedir dinheiro emprestado porque, e é mesmo verdade, as dívidas gerem-se, como dizia um aluno de Ciência Política muito falado em Portugal. Mas as dívidas também se pagam, enquanto se gerem, e, lá está, governar o país também obriga a contar com isso.

 

E por muito que toquem os violinos, é aqui, é sobretudo aqui, que saberemos, em Portugal e na Europa, que politicos teremos. Se teremos funcionários da política, motivados quais hamsters pela perpetuação da sua roda de poder, ou se teremos homens e mulheres com coragem para desafiar status quo e encontrar novas soluções e rever velhas regras. É uma batalha muito solitária durante muito tempo e provavelmente uma batalha que mais facilmente faz perder votos do que ganhá-los. Porque para ser feita em consciência implica decisões espinhosas, compromissos difíceis e um enorme sentido de responsabilidade.

 

Um conhecido meu costumava dizer que no plano ideal todos queremos só duas coisas: paz no mundo e uma casa na praia.

 

No plano ideal, todos queremos emprego para todos, pensões dignas para todos, impostos justos em que os mais ricos pagam – efectivamente – mais e não se escapam nas malhas da lei, boas escolas, bons serviços de saúde, boas estradas, bons transportes públicos. E sim, porque não, a perspectiva de todos podermos gozar pelo menos uma vez ao ano umas boas férias, mesmo que sem casa de praia.

 

Todos queremos isto e ainda bem. O bem-estar e o progresso devem ser as razões de fundo de qualquer governo, de qualquer sociedade. O problema é que, pelo meio, é preciso fazer escolhas, contas, leis e isso é muito pouco romântico, dá imenso trabalho e exige garantidamente mais do que acordos de princípio.

 

No dia 26 de novembro, a “família” de esquerda ainda não vai ter a sua prova de fogo, mas vai experimentar o desconforto de ter de tocar em assuntos de que não se fala à mesa para não estragar o jantar.

 

Sobre opções, dos Governos e das nossas

 

Os estudantes universitários nos Estados Unidos manifestaram-se contra o aumento das dívidas contraídas para pagar um curso e exigiram a eliminação de propinas nas universidades públicas.

“Isto é uma escola ou uma empresa?”, era uma das perguntas que se ouvia nas ruas.

 

O Papa Francisco propôs esta semana que o telemóvel não fizesse parte da ementa do nosso jantar. Ou seja, que não estivesse à mesa. Decerto muitos, quase todos, concordamos, decerto muitos, quase todos, experimentamos a cedência à tentação – ansiedade? paranóia? – de termos de saber o que outros estão a dizer ou a fazer naqueles minutos em que nos desligamos do mundo. Também por isso, vale a pena ler isto.

 

Tenham um bom fim de semana

publicado às 10:20

Nem muro nem vedação

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Sinceramente, a crise política que vivemos interessa-me pouco. Não porque ela não vá ter peso e influência na vida de todos nós - oh se vai… -, mas porque me irrita ouvir as mesmas palavras em bocas diferentes, os mesmos argumentos em sentidos contrários. A repetição aborrece e cansa-me. Já ouvi deputados do PS dizerem há anos o mesmo que ouvi há bocado da boca de deputados do PSD. E o contrário. Incomoda-me, a sério. E o confronto de terça-feira foi mais do mesmo, com cobranças que foram até aos tempos de Manuel Monteiro no CDS…

 

Na verdade, não espero muito do CDS, do PSD, do PS - já sei que hoje dizem o contrário de amanhã, que quando chegam ao Governo se “surpreendem” com quadros mais negros do que esperavam, e que este debate sobre quem deve governar ainda vai, daqui a uns anos, servir o PSD para lembrar ao PS que em 2015 também blá-blá-blá…

 

Agora, no meio da balbúrdia, há coisas sérias. A esquerda, especialmente o PCP, vestiu em Portugal, durante 40 anos, o fato completo da virtude e da coerência (mesmo quando ser coerente era negar as evidências, e basta recordar o bloco de leste, o muro de Berlim, e Cunhal que preferiu não ver o óbvio e persistir em ouvir amanhãs que cantavam). O Bloco de Esquerda foi menos taxativo, mas ainda assim não deixou de surfar a onda da coerência. As esquerdas, em geral, foram donas e senhoras da seriedade, da coerência, da manutenção de um rumo e de um ideia, mesmo que mitificada. Toda a gente reconhecia. A palavra de honra era a sua coutada, e a coerência o seu monopólio.

 

Esta semana, o mito caiu e o animal mostrou os dentes: o mesmo PCP que queria sair do euro assina sabe-se lá o quê com o PS - mas que não prevê a saída do euro. O mesmo euro sobre o qual Catarina Martins decretava há um ano: “Nem mais um sacrifício pelo euro. Quanto um país tem de escolher entre ser um Estado viável ou o euro, deve escolher ser um Estado viável”. Dou de barato a discussão da TSU, dos impostos, da divida, do orçamento e até da composição do futuro Governo. Fico-me por aqui.

 

A partir de hoje, para o bem ou para o mal, deixem de dizer que, apesar de tudo, o PCP é coerente. Ou o Bloco. Não. Esqueçam. Arrumaram-se  definitivamente na prateleira do PS, do PSD e do CDS. Começa a ser válida a velha frase popular: “são todos iguais”!

 

Não sobra nada. Nem uma vedação, quanto mais um muro.

 

Coisas que me deixaram a pensar esta semana

 

Todas as estações é notícia, mais pela beleza das manequins do que propriamente pela relevância da mostra. Mas pronto: habituámo-nos a ouvir falar com regularidade da marca Victoria’s Secret e da sua lingerie. Terça-feira passada ocorreu mais um dos desfiles “planetários” da marca. Confesso que gostei de saber que, entre as mais belas, estavam três portuguesas: Sara Sampaio, Sharam Diniz e Maria Borges. Num universo onde a concorrência é feroz e o desempenho altamente valorizado, ainda que no mundo da aparente futilidade, é uma boa noticia.

 

Há ideias que valem por si. Aquela, lançada há já uns anos, pela Porto Editora, de escolher anualmente, com a ajuda dos internautas, a palavra do ano, é das mais divertidas que conheço. Recordo que em 2014 foi “corrupção”, como em 2013 foi “bombeiro”. Mas também já houve “esmiuçar” e “entroikado". A votação para a palavra de 2015 começou agora: basta ir ao site www.palavradoano.pt e o processo começa aí. Será depois cruzado com outros elementos, recolhidos pela editora, e mais para o final do ano saberemos resultados.

 

Só para quem anda por Lisboa: de vez em quando, ao domingo, realiza-se uma Feira da Buzina. Ideia simples: inscreve-se quem quer, paga qualquer coisa pouca por essa inscrição, e pode encher o seu carro de bugigangas para vender. Instala-se no Parque de Estacionamento do Arco do Cego, e durante um dia vende o que tem. De vez em quando toda a gente buzina para animar a coisa. “O mercado onde pode vender o que quiser na bagageira do seu carro” é o mote. E tudo passa, e só, pelo Facebook. Ainda dizem que as redes sociais isto e aquilo…

publicado às 07:49

Bom dia. E boa sorte

Por: Paulo Ferreira

 

O dia foi histórico mas nada teve de heróico. Foi histórico porque, pela primeira vez em quatro décadas de democracia, o PCP e o Bloco de Esquerda aceitaram fazer um compromisso que permite dar posse a um governo. E independentemente do que se pense sobre isso, este é um facto que pode mudar as regras do jogo político que todos os eleitores e partidos se tinham habituado a jogar.

 

Mas neste momento histórico não há heróis. António Costa nunca poderá olhar um espelho e ver nele alguém que ganhou de um maior número de eleitores o direito próprio a ser primeiro-ministro - se os quase 20% de eleitores do PCP e do BE o quisessem a chefiar um governo teriam votado PS. E Catarina Martins e Jerónimo de Sousa viabilizam mas não se comprometem. Assinaram documentos separados de serviços mínimos e ficam inteligentemente fora do governo. De uma assentada, derrubaram um governo e fizeram outro refém. Na improbabilidade da aventura correr bem, lá estarão para dividir louros. Se correr mal, a responsabilidade é de quem tem as mãos no governo. Quem não gosta de investimentos de elevado risco onde só se repartem lucros e nunca prejuízos?

 

Certo é que nem os protagonistas de tão histórico momento se sentiram suficientemente orgulhosos da façanha para lhe darem a dignidade e solenidade que estas coisas costumam ter: documentos assinados de portas abertas para as televisões mostrarem e o povo ver, com os discursos da praxe e as habituais juras de amor. Não seria assim que se ajudaria a dar confiança ao país sobre a alegada nova política?

 

Não fossemos duvidar da existência do acto reservado, para a posteridade ficam três fotos amadoras, que mostram que os signatários nem se sentaram e lhes bastou uma esquina de mesa. Decididamente, não é assim que se registam actos históricos quando se acredita neles. À memória vem o registo feito com o telemóvel de Eduardo Catroga quando este fechou com Teixeira dos Santos o acordo que permitiu viabilizar o Orçamento do Estado de 2011. Cinco meses depois, o governo socialista cairia antes de chamar a troika.

 

Coreografias à parte, o conteúdo dos três documentos assinados pelo PS e pelos três partidos à sua esquerda é o reflexo da fragilidade do que se vai seguir e da falta de compromisso para além daquele que verdadeiramente os uniu: o derrube de Passos Coelho.

 

Nem de acordos podemos falar, porque eles próprios lhe chamam “posição conjunta sobre situação política”. Não uma, mas três posições conjuntas paralelas.

 

Lendo-os, ficamos a saber que BE e PCP não garantem ao PS mais do que a investidura e que a rejeição de qualquer moção de censura que venha da direita - contra a direita, sempre. De resto, não há garantias sobre orçamentos do Estado ou sobre a longevidade do governo. À esquerda, ninguém se compromete a não apresentar moções de censura próprias.

 

Será este o entendimento “estável e coerente” que Cavaco Silva pediu? Ele decidirá.

 

Certo, certo, só temos um conjunto de medidas que garantem o aumento da despesa e o corte de receita e um conjunto de generalidades que qualquer candidato a governante assinaria de olhos fechados: reforço da Saúde e da Educação, combate à precariedade e ao desemprego, mais apoio social e uma sociedade mais justa. E, claro, o fim da política dita de “empobrecimento”.

 

A questão que agora se coloca é como é que se vai passar para uma política dita de “enriquecimento”. Um enriquecimento sustentável e duradouro, e não um daqueles que tivemos na última década e meia que acabou com um pedido de resgate externo e com a troika por cá a impor as suas condições.

 

Se fosse com o aumento da despesa e com a distribuição de riqueza que o país não cria, já estaríamos bem instalados no pelotão da frente da Europa. Foi isso que fizemos durante décadas e, como se vê, o resultado não foi animador.

 

Foi isso que François Hollande prometeu há três anos e acabou a fazer o contrário. Foi isso que o Syriza jurou, com o resultado que conhecemos.

 

Vamos lá então repetir a fórmula para ver se o resultado é diferente. Boa sorte para todos nós.

 

Outras leituras

 

Nestas alturas não parece. Mas já fomos grandes e inovadores. Aqui está mais uma peça do puzzle, agora em Cabo Verde.

 

O céu a cair aos pedaços na nossa cabeça? Preocupante é que os peritos não saibam do que se trata. Depois de sexta-feira saberemos.

 

publicado às 09:57

O clima do povo

Por: Francisco Sena Santos

 

 Estamos a tornar-nos cada vez mais alheios a cimeiras políticas, assembleias e conferências internacionais. Esta apatia passa pelo ceticismo sobre a eficácia dessas reuniões e pela recorrente falta de repercussões que melhorem a vida das pessoas. Habituámo-nos a não esperar qualquer bom rasgo de quem tem estado a governar o mundo, políticos que, nestes últimos 20 anos, mais parecem gestores de uma confederação comercial do que defensores do bem comum. Há, no entanto, em Paris no final deste mês (entre 30 de novembro e 11 de dezembro) uma boa oportunidade para nos surpreenderem: é a 21ª conferência da ONU sobre o clima, conhecida como COP 21. E, ao contrário do que costuma acontecer nas cimeiras, até é de crer que desta vez as discussões sejam mobilizadoras. Pode ser agora.

 

O que está em causa são as alterações climáticas. É facto que as chamadas grandes questões do clima ou do ambiente costumam parecer-nos distantes, abstratas. Ficamo-nos pelas arrelias meteorológicas que são uma chuvada mais carregada que nos ensopa ou a falta de sol num dia em que planeámos uma ida à praia. Passamos ao lado dos problemas do clima. Quase nem nos apercebemos, por exemplo, de como a seca está mesmo a ser, agora, uma angústia para olivicultores e outros agricultores.

 

Sobressaltamo-nos com casos como o das cheias de outro dia no Algarve. Mas tudo parece passageiro. Tendemos a meter trancas à porta apenas perante um perigo percetível, evidente e imediato. As coisas do clima aparecem-nos alheias, escapam-nos. Dizem-nos que é preciso reduzir o CO2 que está excessivo na camada de ozono que envolve o planeta. Até admitimos que seja assim, mas nós não vemos, não sentimos, não lhe tocamos. E assim deixamos andar. 

 

Mas a verdade é que peritos com grande reputação estão há muitos anos a alertar-nos para a urgência do combate às alterações do clima. Estão a explicar-nos que elas são as causadoras do avanço das zonas de seca, também de outras catástrofes naturais, tempestades, furacões, tufões, inundações em campos e cidades. Desgraça, miséria e milhões de pessoas empurradas para a migração.

 

Um primeiro grande alerta global foi a Cimeira da Terra, no Rio de Janeiro, em 1992, reunida para tentar compreender e procurar soluções para o problema das alterações do clima, geradoras de consequências hostis. Está adquirido que estas turbulências do clima são resultado da nossa ação e do modelo económico de sociedade que temos. Isso tem sido discutido nas sucessivas conferências anuais das partes (COP) que desde então se realizam. Kyoto, Copenhaga, Durban, foram alguns dos palcos para algum progresso. Até que chegamos a Paris, com uma agenda declarada vital para todos.

 

O objetivo principal para esta COP 21 é o de chegar a acordo sobre medidas que evitem que o aquecimento contínuo da temperatura da terra fique pelo limite de variação de dois graus centígrados até final do século. Esta ambição implica uma revolução. Implica repensar todo o modelo de energia que tem sido o nosso – e impõe sacrificarmos o carvão que até foi o motor para a generosa ideia de união europeia. Também teremos de desacelerar muito o consumo de petróleo. As implicações geopolíticas e económicas da mudança necessária são tão gigantescas que muitos decisores fazem o que podem para as ocultar. Mas os cientistas mostram que é imperioso agir.

 

O que está em causa é a capacidade dos líderes – e a formação da opinião pública, de modo a que os pressione – para governar as sociedades humanas. Isto leva a ousar imaginar e desejar um modelo de sociedade assente noutras energias que não sejam as que a prazo geram dano. O desafio é o de inventar novos caminhos para o desenvolvimento, superando os egoísmos nacionais e as resistências dos comandantes da atual mundialização económica e financeira. Será que há gente para liderar esta mudança? Obama, a um ano de deixar a presidência dos Estados Unidos, tem uma grande oportunidade para se confirmar estadista e mostrar a justeza do comité Nobel que lhe creditou um Prémio da Paz quando ainda pouco tinha feito. A COP em Paris também junta o russo Putin, o chinês Xi Jinping, a alemã Merkel, o indiano Modi, a brasileira Dilma, o canadiano Trudeau, o sul-africano Zuma e mais uma larga centena de chefes de estado ou de governo.

 

A grande tarefa é a de mudar a matriz industrial da nossa sociedade. De facto, implica acelerar a mudança do nosso estilo de vida. É uma revolução que, sendo ambiental, é sobretudo cultural, social e económica. Os líderes mundiais que vão estar em Paris no mês que vêm têm a oportunidade de inscrever a COP 21 e o nome deles na lista de grandes momentos que mudaram o curso do mundo. Cabe-lhes mudar o clima do povo.

 

Também a ter em conta:

 

Hoje é um dia D (debate no parlamento, derrube do governo, discussão em todo o lado) na política

portuguesa. O Nicolau Santos é sempre um excelente guia para nos dar a entender o tempo que passa.

Também à volta do EXPRESSO: vale escutar este podcast. Vale ficar em linha para os próximos.

 

O triunfo da coragem e da persistência da “lady” de Rangoon. Aung San Suu Kyi, filha do herói carismático da independência da Birmânia, triunfa com vaga de fundo em eleições livres, 25 anos depois de a junta militar lhe ter roubado a primeira vitória eleitoral, metendo-a na prisão. Ela resistiu sempre, inspirada nos princípios não violentos de Mahatma Ghandi. O triunfo incontestável de Suu Kyi dá esperança ao país que agora se chama Myanmar.

 

A subtil guerra fria entre a Rússia e o Ocidente salta para o atletismo? A Agência mundial antidopagem (WADA) denuncia um laboratório secreto do Estado russo onde os atletas de topo são “limpos”. A acusação dispara contra Putin e os serviços secretos de Moscovo. A WADA propõe banir os russos dos Jogos Olímpicos de 2016 e pô-los fora de jogo em todo o atletismo. O Kremlin protesta pelas “acusações infundadas” e diz que é um ataque político. Depois dos escândalos FIFA no futebol, agora é o atletismo a tropeçar, mas com tensão política em fundo.

 

Foi escândalo em Paris quando, em 1918, Modigliani apresentou a sua coleção de aguarelas com a imagem erótica do corpo nu de uma mulher, a sua musa. Agora, um desses quadros foi leiloado por 158 milhões de euros. Só Picasso, com As Mulheres de Argel, tem um preço de venda acima daquele.

 

A Catalunha dá mais um passo rumo ao choque com a Espanha. Três primeiras páginas, a do El País, a do La Razon e a do El Punt, escolhidas hoje no SAPO JORNAIS. Merecem atenção.

publicado às 08:43

Porque é que o programa do PS é um erro

Por: António Costa

 

Pronto, já temos um governo de Esquerda, ou melhor, um governo minoritário do PS com o apoio da CDU e BE, e, à medida que se conhece a substância do acordo, a forma, as medidas, os números, as 138 páginas, mais reservas ele suscita, mais dúvidas se levantam sobre a sua credibilidade e consistência.

 

António Costa é um homem de bastidores, de águas profundas, e, para quem tivesse dúvidas, terão sido dissipadas. Percebeu, cedo, que não seria possível juntar à mesma mesa, e ao mesmo acordo, os três partidos, e por isso jogou em vários tabuleiros, com uma vantagem: quem não cedesse, seria responsável pela manutenção da coligação de Direita no poder. Foi assim mais uma forma de pressionar uma coligação negativa que está em formação.

 

Se uma coligação de Esquerda começava mal, fragilizada, porque o PS perdeu as eleições para a coligação PAF, a confirmação de que o governo será minoritário, e dependerá de dois partidos com quem tem tantas e tão profundas diferenças, só pode significar que o próximo governo tem tudo para correr mal. Costa dependerá, a cada momento, da boa vontade, da tática e da estratégia de dois partidos que, até ao dia 3 de Outubro, diziam que o PS era igual ao PSD e PP. Não são iguais, mas partilham os mesmos valores. Diferentes dos que defendem os dois partidos de Esquerda.

 

 

Os problemas não acabam aqui. À dimensão política, aquela que deveria ser o cimento de uma coligação, juntam-se duas outras, igualmente importantes. Em primeiro lugar, a nova troika política que vai assumir funções depois de chumbar o Governo diz-nos que tudo é possível, e mesmo assim, cumpre as metas orçamentais e os objetivos macroeconómicos. Em segundo lugar, propõem-nos um modelo que não muda nada de estrutural, acentua o perfil de economia assente no consumo, assusta o investimento e condena o país a prazo.

 

Vamos por partes: qualquer português de bom-senso defende medidas que permitam a melhoria do nível de vida dos portugueses, o aumento dos salários, das pensões, como é evidente. E uma aplicação da austeridade justa, equitativa e que ao mesmo tempo permita olhar para a frente. Sobretudo depois de anos de um cinto apertado à medida das nossas possibilidades. Não é a Esquerda que tem esse património. Os caminhos são diferentes, sim, e este programa dá primeiro para, com isso, tentar mudar a economia depois. Uma profissão de fé que já mostrou ter falhado no passado. Todos erramos, mas seria desejável a aprendizagem com o erro. A realidade não é essa, por muito que quiséssemos.

 

António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa acordaram devolver a totalidade dos cortes de salários na Função Pública em 2016, extinguir a sobretaxa de IRS em dois anos, repor os abonos de família e as atualizações automáticas das pensões, descongelar as progressões nas carreiras do Estado e cortar a TSU para salários brutos de até 600 euros. E até reduzir o IVA na restauração. Tudo é possível, e coerente com a descida do défice, para 2,8% em 2016, com a queda da despesa pública em percentagem de um PIB com um aumento limitado, com a queda do peso das prestações sociais no total da despesa, e até a receita total também cai em percentagem da riqueza criada no país. António Costa é especialista em quadraturas do círculo, mas esta é impossível. A não ser que falte alguma coisa para dizer. E falta muito.

 

Estes números são opacos, propositadamente. Vem aí um enorme aumento de impostos, e não é para os ricos, porque esses já perceberam o que aí vem e já estão a fazer as malas, ou as doações em vida, ou a antecipação do pagamento de dividendos. Vem para os mesmos, os trabalhadores por conta de outrem que já hoje pagam uma enorme fatura fiscal. À luz do fisco, um agregado que ganha mais de 80 mil euros brutos por ano é rico. É? Não é. Estas taxas vão aumentar, e preparem-se para o pior. À francesa, um país inspirador para Costa. E o mérito e a competência, a atração dos melhores, fica para outros, os que percebem o que está em causa numa economia global.

 

Se isto já é arriscado, para não dizer outra coisa, o próprio caminho é um desastre. Até Mário Centeno já se deve ter arrependido do filme em que se meteu. Até a sua medida-chave – o regime conciliatório – caiu, a medida que permitiria contribuir para uma mudança da estrutura económica que deu passos, mas lentos, muito lentos para as necessidades. Não só caiu, como ficou escrito que caiu.

 

O programa de governo do PS, ao contrário, vai reverter as medidas laborais por exigência do PCP, ou melhor, da CGTP, vai recuperar medidas como as portarias de extensão e vai por fim à caducidade dos contratos coletivos. O salário mínimo vai aumentar 25% em quatro anos, portanto, é bom que as empresas garantam muita atividade até 2019. Mas não só. A reforma do IRC vai ser deitada ao lixo e até no Estado o novo governo promete acabar com a mobilidade de funcionários públicos.

 

Tudo isto, somado, só poderá ter maus resultados, porque o país precisa de capital, de investimento, só isso terá consequências no emprego, na estrutura da economia, na produtividade. Aí, sim, teríamos condições para adotar este programa do PS, pelo menos uma parte dele. Depois, não antes.

 

O anterior Governo não fez as reformas que deveria fazer, cumpriu regras, e mostrou que sabe fazê-lo, seguiu uma tabuada, fez as contas e tirou-nos da intervenção externa com a ajuda, sim, do BCE. Ficou muito aquém do que poderia e deveria. Foi uma pena, uma oportunidade perdida. O governo que está hoje em funções, com os mesmos líderes, promete fazer o que o anterior não fez. O programa anunciado de um governo do PS diz-nos de forma clara que vamos mesmo andar para trás. E depois, quando chegar a fatura dos 18 mil milhões de euros de juros que têm de ser amortizados em 2016, digam que a culpa é dos mercados.

 

*Espero estar errado.

 

As escolhas

 

No meio dos bastidores destas negociações políticas, emerge um homem, Arménio Carlos, que impôs a vontade da CGTP ao PCP. Tempos estranhos estes, mas por isso têm de ler a entrevista que o secretário-geral da central sindical dá ao Diário Económico. Qual é a primeira prioridade? Tirar a Direita do poder. Estamos conversados.

 

Não é só em Portugal que a política domina, como é óbvio. Dentro de um ano, os americanos vão às urnas, para as presidenciais. Ouçam na Monocle em versão rádio o que está em causa e o enquadramento económico e financeiro do país.

 

publicado às 11:19

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D