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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Luta de egos

Por: Adriano Freire

 

Sabia que a personalidade de Passos Coelho é parecida com a de Jerónimo de Sousa? E que Paulo Portas tem muito em comum com Catarina Martins? Já António Costa tem um posicionamento muito invulgar… E é por isso que a luta pelo poder está ao rubro!

 

Quer compreender realmente a atual situação política em Portugal? Comece por conhecer melhor os seus protagonistas. Afinal de contas, são os líderes partidários que conduzem o jogo do poder. E prepare-se para ficar muito surpreendido. Porque na política, as aparências enganam mesmo…

 

Para entender bem as jogadas dos políticos, é necessário conhecer primeiro o tabuleiro onde se posicionam as suas personalidades, o Mapa EGOS, mais abaixo.

 

Como seria de esperar, todos os líderes políticos em qualquer parte do mundo evidenciam fortes características do perfil Empreendedor. Por isso é que conseguem superar os seus oponentes internos e ascender à posição cimeira nos respetivos partidos. Mas as semelhanças terminam aqui…

 

De facto, a orientação ideológica de cada partido reflete-se geralmente no seu posicionamento distinto no Mapa EGOS. Ideologias políticas de direita, como o liberalismo e o conservadorismo, sendo defensoras da liberdade de atuação dos cidadãos e de uma reduzida intervenção estatal, tendem a fomentar o individualismo e a competição (características do perfil Empreendedor), a par com o pragmatismo e a adaptação às circunstâncias (características do perfil Operacional).

 

Inversamente, ideologias políticas de esquerda, como o socialismo e o comunismo, sendo defensoras de uma sociedade igualitária e de uma elevada intervenção estatal, tendem a fomentar a utilização coletiva dos recursos e a cooperação (características do perfil Social), a par com a planificação e a regulação governamental (características do perfil Governador).

 

Qualquer ideologia política pode ainda ser adotada num sistema democrático, que tende a fomentar o envolvimento alargado dos cidadãos (característica do perfil Social) e a luta pelos votos dos eleitores (característica do perfil Empreendedor), ou num sistema totalitário, que tende a fomentar controlo absoluto do estado (característica do perfil Governador) e a passividade da população (característica do perfil Operacional).

 

Por exemplo, enquanto na Holanda, uma nação atualmente com um regime liberal (ideologia de direita) e democrático, é acentuada a livre iniciativa e a orientação prática para a ação, na Coreia do Norte, uma nação atualmente com um regime comunista (ideologia de esquerda) e totalitário, é imposta a submissão à autoridade do líder e o cumprimento estrito das diretrizes presidenciais.

 

Portanto, a par das suas características do perfil Empreendedor, os dirigentes partidários também costumam assumir características típicas das ideologias que promovem. Assim se compreende que os líderes políticos em Portugal tenham posicionamentos diferentes no Mapa EGOS: 

  • Passos Coelho: personalidade EG, mediamente introvertida, que combina características liberais (E) com algum sentido regulatório (G), como é habitual num partido social-democrata europeu.
  • Paulo Portas: personalidade ES, bastante extrovertida, que combina características individualistas (E) com alguma preocupação social (S), como é habitual num partido de direita com inspiração católica.
  • Catarina Martins: personalidade SE, bastante extrovertida, que combina características coletivistas (S) com alguma orientação competitiva (E), como é habitual num partido de esquerda gerado pela fusão de várias doutrinas.
  • Jerónimo de Sousa: personalidade GE, mediamente extrovertida, que combina características normativas (G) com algum pendor de luta revolucionária (E), como é habitual num partido comunista de raízes soviéticas.

 

O posicionamento das personalidades destes quatro líderes partidários no Mapa EGOS reflete bem as suas semelhanças e diferenças. Na realidade, apesar de Passos Coelho e Paulo Portas partilharem a predominância do perfil Empreendedor, contrastam na abordagem às questões políticas: Passos Coelho é bastante mais estruturado (G) e Paulo Portas muito mais impulsivo (S). Por isso, poucos acreditavam que a coligação conseguisse durar os 4 anos da legislatura, e o episódio da demissão irrevogável pareceu dar razão a todos os céticos. Porém, para surpresa geral, a rutura não aconteceu e ambos os líderes passaram mesmo a ser mais flexíveis e convergentes na condução do Governo: Passos Coelho passou a ser mais comunicativo (S) e menos controlador (G), enquanto Paulo Portas passou a ser mais regrado (G) e menos emotivo (S). E dessa forma a rivalidade inevitável entre as suas personalidades Empreendedoras também ficou muito atenuada.

 

Por outro lado, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa divergem bastante na abordagem às questões políticas, apesar de comungarem de ideologias de esquerda. Catarina Martins é mais inspiradora (S), como é típico da esquerda urbana moderna, enquanto Jerónimo de Sousa é mais dogmático (G), como é típico da esquerda comunista tradicional. E como ambos também são competitivos (E), não admira que o entendimento entre os dois partidos não seja fácil...

 

Mas o mais curioso é que estes quatro líderes políticos podem ser agregados em dois grupos que cruzam as fronteiras ideológicas. Na verdade, Passos Coelho (EG) e Jerónimo de Sousa (GE) têm personalidades muito próximas, tal como Paulo Portas (ES) e Catarina Martins (SE) têm muitas características em comum! Assim se compreende que estas posições políticas tanto se possam complementar, como tem sido o caso à direita com o PSD e o CDS-PP, como possam competir entre si, como tem sido o caso à esquerda com o Bloco de Esquerda e o PCP.

 

Falta contudo analisar um último líder partidário para compreender bem o atual jogo do poder político…

  • António Costa: personalidade EO, mediamente introvertida, que combina características de ambição (E) com um sentido prático e improvisador (O), o que é pouco habitual num partido socialista europeu.

 

Na realidade, António Costa tem poucas características dos perfis Social ou Governador evidenciadas pela maioria dos líderes do PS (Mário Soares, Vítor Constâncio, Jorge Sampaio, António Guterres e António José Seguro), e apenas revela algum do forte pendor Empreendedor de José Sócrates. O que torna António Costa único é mesmo o elevado peso das características do perfil Operacional na sua personalidade. E isso ajuda a compreender melhor a sua atuação política antes e depois das eleições…

  • Só avançou contra António José Seguro quando achou que a posição dele estava fragilizada (pragmatismo)
  • Tomou decisões precipitadas no apoio a Sampaio da Nóvoa e na preparação dos cartazes (improvisação)
  • Conduziu a campanha eleitoral de uma forma algo errática, com aproximações à direita e à esquerda (maleabilidade)
  • Promoveu múltiplas reuniões com os outros líderes partidários sem qualquer pressão temporal (paciência)

 

Esta atuação tanto foi criticada como elogiada com argumentos políticos e morais, mas a verdade é que António Costa apenas evidenciou a sua própria personalidade EO: combinando de uma forma invulgar a competitividade (E) com a adaptabilidade (O), reinventou o jogo do poder em Portugal. Contudo, esta abordagem pioneira também explica a sua dificuldade em ser bem sucedido. É que as jogadas de António Costa podem ser muito diferentes, mas as regras do jogo não mudaram…

 

Na realidade, Passos Coelho e Paulo Portas desconfiam da indecisão do líder do PS e criticam a sua hesitação em assumir plenamente os compromissos europeus, não se revendo portanto nas suas características mais Operacionais. Por seu lado, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa desconfiam da necessidade de protagonismo do líder do PS e criticam a sua argumentação economicista, não se revendo portanto nas suas características mais Empreendedoras.

 

Ainda assim, a análise do Mapa EGOS revela sem qualquer margem para dúvidas com quem é que António Costa se prefere aliar:

 

 

Enquanto numa aliança à direita António Costa fica numa posição subalterna e em competição permanente com Passos Coelho e Paulo Portas, numa aliança à esquerda António Costa assume a desejada liderança e ainda se posiciona como o elemento agregador de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. Nesta opção, a aproximação ao Bloco de Esquerda é obviamente a mais fácil, uma vez que as características Sociais de Catarina Martins propiciam um rápido entendimento. O problema é a aproximação ao PCP, uma vez que Jerónimo de Sousa é um líder bastante mais rígido e prefere partir a torcer…

 

Não admira pois que o futuro político de Portugal passe pela eventual flexibilização de Passos Coelho ou de Jerónimo de Sousa na interação com António Costa. Quem conseguir atenuar as suas características Empreendedoras ou Governadoras e reforçar as suas características Operacionais, estará em melhores condições para criar uma aliança parlamentar com o PS. Depois só terá de se preocupar com a sua manutenção ao longo do tempo…

 

O jogo do poder não se disputa portanto apenas no tabuleiro político. Em última análise, é também uma luta de EGOS!

 

  

MAPA EGOS

 

O Mapa EGOS é um inovador modelo de personalidade assente na combinação de quatro perfis distintos.

 

Empreendedor: competitividade, tomada de iniciativa, orientação para os objetivos, rapidez de atuação e pensamento estratégico.

Governador: lógica, rigor analítico, orientação para os processos, aversão ao risco e controlo normativo.

Operacional: improvisação, persistência, orientação para a execução, pragmatismo maleável e informalidade.

Social: cordialidade, comunicação persuasiva, orientação para as pessoas, idealismo emotivo e impulsividade.

 

Obviamente, cada pessoa integra à sua própria maneira características de todos os perfis EGOS na sua personalidade. Mas em função da sua natureza biológica e psicológica, tende a assumir sobretudo as características de determinados perfis ao longo da vida (personalidade natural). Ainda assim, em situações específicas, a pessoa pode precisar de acentuar outras características, adotando então temporariamente personalidades mais adequadas a esses contextos (personalidades adaptadas).

 

Adriano Freire é Professor da Universidade Católica e autor do livro Mapa EGOS.

publicado às 11:00

Jornalismo. Ou então vídeos de gatinhos

Por: Rute Sousa Vasco 

 Ontem foi lançado o livro “O Independente – A máquina de triturar politicos”, da autoria de Filipe Santos Costa e Liliana Valente. Pode parecer presunçoso, mas é claro que uma história destas tinha que ser contada por jornalistas. Porquê? Porque faz falta ter sentido, nem que seja uma vez na vida, esse turbilhão de emoções e sentimentos que se sente quando se está na iminência de dar ou de perder uma notícia. E ter por objectivo ‘dar notícias’, como rotina e com regras, ainda é trabalho desse grupo de pessoas que se chamam jornalistas. Like it or not.

 

O mundo de 2015 é muito diferente do mundo do final dos anos 80 e do início dos anos 90 em que o O Independente nasceu e singrou. E sendo certo que o O Independente é uma história muito singular e cheia de episódios rocambolescos, esse mundo é o mesmo em que projectos de referência como o Público, a TSF e a SIC nasceram. É tentador dizer que o mundo era o mesmo, mas os objectivos não. É tentador dizer que o O Independente sempre foi, antes de tudo, um projecto politico enquanto os outros foram, antes de tudo, projectos jornalísticos. É tentador e em boa parte verdade. Mas também é verdade que, à distância que mais de 20 anos permitem, seria miopia não reconhecer que dificilmente um projecto de jornalismo não é, de alguma forma, um projecto politico. E que tomar parte por ideias e causas, já agora, não é uma coisa má. É parte da democracia e do exercício de cidadania, desde que feita com regras e de forma transparente.

 

No mundo em que o O Independente nasceu não havia internet, menos ainda redes sociais, menos ainda modelos de negócio de media. A equação era simples. Os jornais tinham de se vender. Mais jornais vendidos era igual a mais pessoas a lerem as notícias. E porque mais pessoas estavam a ler as notícias fazia sentido colocar ao lado publicidade que empresas e marcas pagavam. Simples ou nem por isso. Não tenho grande memória de O Independente ser um projecto de grande atracção comercial. Estes eram os tempos em que o arquitecto Saraiva tinha ‘inventado’ o saco de plástico para vender o Expresso (o mesmo que ainda hoje perdura). E lembro-me de muitas campanhas no Expresso, além do saco que o transportava, mas não tenho igual memória de uma ‘máquina’ comercial tão forte do lado do O Independente.

 

No mundo em que o O Independente nasceu e no Portugal em que o O Independente nasceu, o jornalismo livre era tão jovem quanto a democracia. Foi o mesmo mundo em que um empresário como Belmiro de Azevedo, em curva ascendente na economia portuguesa, a estrear conceitos novíssimos como os de hipermercado, decidiu financiar um projecto de jornalismo de referência chamado Público. E fez tudo como deve ser feito: com os melhores jornalistas, com formação de gente nova, com tecnologia, com ambição.

 

O jornalismo – seja o do O Independente, seja o do Público – custa dinheiro. É preciso contratar pessoas que saibam pensar, antes de saber escrever ou falar. Pessoas que tenham cultura, que tenham curiosidade, que tenham humildade de perguntar o que não sabem. Pessoas que se submetam voluntariamente às regras de uma profissão que, diga-se o que se disser, tem regras. O jornalismo precisa de leitores, ouvintes, espectadores. É para isso que é feito – para os outros. Quando o jornalismo se torna um loop de e para jornalistas, politicos e meia dúzia de indigentes sociais, falhou na sua essência. Nunca gostei da expressão o ‘quarto poder’ e menos ainda da sua caricatura ‘o quarto do poder’. Quanto maior o poder, maior a responsabilidade, é por aí que as coisas devem ser vistas e escrutinadas.

 

O mundo de 2015 é diferente do mundo em que o O Independente nasceu. Hoje mais do que exemplares vendidos, falamos de cliques, de shares, de likes. Hoje confundimos mais, muito mais, volume e qualidade. Hoje lemos mais – talvez se deva dizer que hoje consumimos mais conteúdos. Não é detalhe, na realidade importa que hoje consumimos mais media. Hoje o problema é o excesso da oferta – a selva da informação, não o deserto. Hoje há outros que não os jornalistas a criar conteúdo em blogs, redes sociais, e também em media. Ainda bem.

 

O que hoje não está resolvido e é importante resolver é como vai ser paga esta liberdade vital que é fazer informação. Exceptuando aqueles que tinham móbil politico, as notícias que o O Independente publicava estiveram sempre nos antípodas daquilo que a classe empresarial, por natureza prudente e conservadora, entenderia como um investimento de marketing interessante. As notícias que o O Independente publicava dificilmente poderiam ser ‘conteúdo patrocinado’. O conteúdo de marcas será, certamente, uma das formas com que devemos contar neste presente e futuro para financiar os projectos de media – mas as notícias não se patrocinam. A notícia é, numa das suas melhores definições, aquilo que alguém não quer que se saiba.

 

Em que ficamos, então? Num mundo que vive de escala, o que valem 10, 20 ou 30 milhões de visitas a um site? Ali ao lado, porque as fronteiras desapareceram, estão os gigantes, sejam os media globais, sejam os chamados over the top como Google, Facebook ou Youtube que hoje têm os negócios – realmente – lucrativos, já agora sem terem de produzir um único conteúdo. Agregando, relacionando, partilhando.

 

Nos jornais de hoje, recordam-nos como foi o arranque do O Independente fundado por Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas. Conta o Observador: «Começar é fácil», escreveu Miguel Esteves Cardoso, na primeira linha de uma das suas coletâneas de crónicas de O Independente. Só faltava o dinheiro. E gente. Detalhes.

 

Fazer jornalismo custa dinheiro. Criar conteúdos originais custa dinheiro. Saber como é que se paga a conta é das discussões mais relevantes economica e politicamente. É por isso que hoje os jornalistas não se podem demitir de compreender o negócio de media, que já agora é o negócio da tecnologia, que já agora é o negócio da internet. É por isso que empresários, gestores e também politicos têm de fazer um pouco mais que a gestão preguiçosa by the numbers. Os números dizem-nos alguma coisa – não nos dizem tudo. Os números servem para ser interpretados e traduzidos na realidade, não para nos fornecer desculpas cómodas.

 

Ou então podemos simplesmente só consumir vídeos de gatinhos. São sucesso garantido de audiências.

 

Leituras sugeridas e zonas de desconforto

 

Já que falamos de media e de cidadania, aqui fica um estudo publicado pelo jornal Social Science Computer Review sobre facebook e envolvimento cívico de homens e mulheres.

 

Para o fim de semana que se aproxima, a primeira sugestão vai mesmo para o livro de Filipe Santos Costa e Liliana Valente, “O Independente – A máquina de triturar politicos”. Se estão com dúvidas, naveguem por esta galeria de capas e perceberão com o que podem contar.

 

Na televisão, estreia hoje em Portugal uma séria atípica, estranha, complexa, perturbadora. Chama-se Mr.Robot, pode ser vista na TV Séries e promete-nos uma zona de desconforto episódio a episódio.

publicado às 10:49

Uma história de "O Independente", o jornal que nasceu para acabar de vez com o cavaquismo

A máquina de triturar políticos - este é o subtítulo do livro de Liliana Valente e Filipe Santos Costa  sobre o jornal "O Independente", criado por Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso em 1988. Por entre capas inesquecíveis, "as cachas, os escândalos, as manchetes, os editoriais corrosivos de Portas, a ironia desenfreada de Esteves Cardoso", o livro faz-nos recordar muitas das figuras políticas que, quase 30 anos mais tarde, ainda cá andam, e algumas em papéis e com posturas bem diferentes.

 

Houve um tempo, em Portugal, em que um jornal inventava palavras que depois eram usadas para massacrar figuras públicas. Por exemplo - cadilhar (de Miguel Cadilhe), ou entaveirar (de Tomás Taveira, o tal do vídeo). Eram sobretudo políticos, e estava-se nos anos 80. As pessoas vestiam roupas com chumaços enormes, as Amoreiras reluziam de modernidade, Portugal tinha entrado havia pouco na comunidade europeia, não havia autoestrada para o Algarve. Paulo Portas ainda estava longe de ser ministro (mais longe ainda de ser vice-primeiro-ministro) e a seu lado, na direcção de "O Independente", tinha a verve fulminante de Miguel Esteves Cardoso.

 

Nesse jornal fizeram-se coisas que hoje em dia nos parecem impossíveis na imprensa. Capas, títulos, fotomontagens. Imaginação sem freio. Coisas que irritavam muita gente, que chocavam, que davam vontade de rir, que faziam troça aberta e sem pedir desculpa a ninguém, que deixavam os políticos nervosos todas as quintas-feiras, na véspera de cada nova edição de "O Independente".

 

Ainda não havia memes nem gifs animados. Se houvesse, Cavaco Silva - que ainda não era presidente, mas já era primeiro-ministro e foi, contra vontade, a musa inspiradora de inúmeras capas e páginas do jornal - estaria por aí a circular em tudo o que é rede social. Foi, afinal, o jornal em que o então jornalista Paulo Portas massacrou o então primeiro-ministro Cavaco Silva e os membros do seu governo. Basta olhar para esta selecção de capas para ver isso. O Independente - A Máquina de Triturar Políticos é uma edição da Matéria Prima, e pode saber mais aqui.

publicado às 18:02

Ela queria ser enfermeira mas foi obrigada a casar-se aos 15 anos

Casamentos forçados e gravidezes precoces anulam a esperança de evoluir nos estudos e mudar de vida para muitas meninas do Níger.

O sonho acabou. Ousseina, 15 anos, queria ser enfermeira. A frágil adolescente que vende ovos numa estrada perto da cidade de Maradi, no Níger, sabe que já não vai ter hipóteses de continuar os estudos e dar asas ao seu sonho. Tal como muitas meninas deste país da África Ocidental, Ousseina não tem outra opção senão casar-se muito cedo.

 

“O meu casamento já tem data marcada. Vai ser depois das colheitas, no fim de novembro”, conta a menina que queria ser enfermeira. O sonho foi anulado sete meses antes de Ousseina obter um certificado escolar que lhe iria permitir seguir os estudos.

 

Além de ser um dos países mais pobres do mundo, o Níger é também um dos países onde as mulheres têm piores condições de vida devido à tradição implacável de casamentos precoces e à imposição de grandes famílias, com muitos filhos. Tradições apoiadas pela maioria muçulmana.

 

Os esforços das Nações Unidas e de outros grupos que lutam pelos direitos humanos têm sido travados por uma resistência fervorosa. Muitos líderes religiosos condenam publicamente as campanhas de contraceção. Mesmo entre a população as razões para a exigência de uma idade mínima para casar (18 anos) são ignoradas.

 

Contra a vontade

 

Ir à escola é encarado como uma desculpa para fugir ao casamento. Apenas 4 em 10 meninas no Níger frequentam a escola primária, número reduzido para metade (2 em 10) nas que conseguem seguir para o ensino básico. Apenas 3 em 100 raparigas chegam ao ensino secundário.

“As raparigas casam-se com 15 anos, ou até mais jovens, com homens muito mais velhos e contra a vontade delas”, lamenta uma parteira de uma aldeia a sul de Maradi. Mais uma vez as estatísticas da ONU sobre os casamentos forçados comprovam esta dura realidade: 30 por cento das meninas casam-se antes dos 15 anos e 75 por cento antes dos 18.

 

O casamento é visto por muitas famílias como uma solução económica. Num país em que 60 por cento da população vive abaixo da linha da pobreza, quanto mais cedo uma filha casar, menos uma boca para alimentar.

 

Uma luta sem resultados

 

O casamento precoce traz consigo problemas de saúde que podem comprometer para sempre a vida de uma mulher. O corpo de uma menina ainda não está preparado para uma gravidez, o que provoca várias complicações, como fístulas e lesões em órgãos. Quando nestas condições, muitas mulheres são abandonadas pelo marido e ficam à mercê de cuidados de saúde quase inexistentes nas zonas mais pobres.

 

Apesar de ter uma das taxas de natalidade mais altas do mundo - 7,6 filhos por mulher, impulsionada pelos casamentos precoces - o Níger tem também uma das taxas mais elevadas de mortalidade materna.

 

As Nações Unidas, através da Unicef, tentam lutar contra as estatísticas e melhorar a vida das meninas do Níger. Mas, após uma década de trabalho no terreno, os resultados são mínimos. Fatima Kako, responsável de uma organização não governamental que luta pelos direitos das mulheres, reconhece que “falta vontade política” no país para que algo mude. Mas culpa também as imposições culturais e religiosas que continuam a travar o livre arbítrio das mulheres.

 

“Hoje em dia uma mulher que apareça na televisão é considerada ordinária e irresponsável”, denuncia a ativista. “Mas vamos continuar a nossa luta pela liberdade das mulheres, não vamos desistir”, afirma Fatima Kako, esperando que nos próximos anos as meninas do Níger possam decidir por elas sobre o seu futuro.

 

com AFP

publicado às 12:40

Pão e circo (mas sem pão…)

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Na passada terça-feira, quem circulasse de automóvel na zona central de Lisboa pela hora do almoço sentiria na pele o sufoco de uma cidade paralisada. O trânsito estava caótico, as filas entupiam o Marquês de Pombal, e só para dar uma ideia do fenómeno, o percurso de Entrecampos a Campo de Ourique demorava pelo menos 40 minutos (normalmente faz-se, no máximo, em 15 minutos). Não havia razão aparente para aquela balbúrdia. Quase nunca há. Mas que ela existe quando menos se espera, é um facto.

 

O trânsito na capital é um verdadeiro totoloto que acabou de vez com a chamada “hora de ponta” - basta que chova e é hora de ponta à hora da chuva… -, e cujo centro nevrálgico me parece localizado justamente na zona do Marquês de Pombal, desde que uma alma tresloucada decidiu transformar uma rotunda numa confusão de partes de rotunda. Adiante.

 

Nessa mesma terça-feira caótica, o executivo camarário de Lisboa anunciou ao povo da capital a boa nova: vai renascer a Feira Popular, num terreno que a Câmara comprou por mais de 11 milhões de euros. O resto, asseguram, será sustentado por privados e eventuais parcerias. Nada foi muito claro, no que aos dinheiros diz respeito, no anuncio do “pré-programa” da Feira. O costume. Talvez acrescentem uma taxazita de entrada no aeroporto, ou algo parecido, para ajudar a pagar a despesa…

 

Agora imaginem o cenário: estou parado no trânsito, tentando chegar a horas ao meu destino, num caos sem sentido e nunca resolvido. Lembro de imediato os mails, protestos, petições, denúncias, do excelente Fórum Cidadania Lx, que nos recorda diariamente o estado lastimável do património da cidade: o Cinema Paris, os palacetes do Principe Real, a Casa de Garrett, entre tantos outros. E enquanto tudo isto acontece, e enquanto sabemos o estado precário de tantos edifícios, de ruas e passeios, e enquanto assistimos à mais completa e desbragada desregulação dos serviços ao turismo no centro da cidade - bom, enquanto tudo isto sucede, a Câmara Municipal de Lisboa acha que o que é urgente e relevante é mesmo recriar a Feira Popular de Lisboa.

 

Foi irresistível voltar ao tempo dos romanos e da célebre política do “pão e circo” - mas agora é pior: querem dar-nos o circo sem nos darem o pão. Querem divertir-nos sem aconchegar o estômago…

 

Um pouco mais a sério. Que faz falta uma Feira Popular na capital, não duvido. Que o espectáculo obsceno que se nos oferece todo o espaço onde viveu a Feira em Entrecampos devia acabar muito antes de se pensar na nova Feira, parece-me óbvio - para não falar da desolação que é olhar as ruínas do Teatro Vasco Santana (e que nome, e que falta de respeito pela memória…). Agora, que se anuncie, num momento em que não podemos dizer com segurança que saímos da crise, e numa altura em que Lisboa se debate com tantos problemas para resolver e (aparentemente…) tão pouco orçamento para gerir, uma Feira Popular, parece um gozo à moda antiga. Um pátio das cantigas. Uma cena romana, porém sem leões nem gladiadores. Talvez adapte a frase do bom Astérix: “estes lisboetas estão loucos”. E os que não estão, vão enlouquecendo devagar…

 

Coisas que me deixaram a pensar esta semana

 

Há algum tempo que frequento o Mic. O Mic é um agregador de notícias, mas também um jornal online, que nasceu há 3 anos da cabeça de dois jovens, Chris Altchek e Jake Horowitz, com um propósito muito claro: fornecer a informação que interessa às gerações mais novas. Não pretendem abordar todos os temas - só não querem falhar os que interessam às gerações que vão governar o Mundo em breve. É um bom barómetro de uma certa classe média jovem norte-americana. Vale por isso.

 

Uma boa notícia para os tradutores: não há (ainda…) como contornar o conhecimento humano da língua. Se dúvidas houvesse, a noticia que veio de Espanha esta semana dá para rir mas também dá que pensar: deixando ao cuidado do Google a tradução, a tradicional “Feira do Grelo”, que se realiza na cidade vizinha de Pontes de García Rodríguez, transformou-se subitamente na “Feira do Clitóris”, “uma delícia gastronómica típica da cozinha galega”… A língua portuguesa é traiçoeira, mas a tradução na net ainda é mais…

 

Sei que chegou o Netflix e que há séries modernas e fabulosas para ver. Mas confesso: associo o Outono e o começo dos dias chuvosos à família Crawley e aos seus criados em “Downton Abbey”. Escrita e criada pelo vencedor de um Óscar, Julian Fellowes, é um fabuloso quadro de época e de tempos de mudança. Com apenas 100 anos. A sexta e ultima série estreou esta semana, todas as terças a Fox vai esperar por mim. Ou gravo. Ou, como se diz agora, “ando para trás” - como se o tempo andasse mesmo para trás…

publicado às 10:28

Uma gota no Oceano. Mas ir.

Por: Pedro Ribeiro

Nota do SAPO24: este texto foi publicado originalmente no blog do Pedro Ribeiro, Os dias úteis. Agradecemos ao Pedro a autorização para o republicarmos aqui, no SAPO24.

Ajuda a refugiados no campo de Gevgelija, Macedónia.

Quero falar-lhes de Kemal.

 

" i am just simple bosnian man my brother who want to others that what i want for myself"

 

Há ali um país, que é uma bomba relógio de tensões étnicas, e que um dia explodirá. Chama-se Macedónia, e a capital, Skopjie, está dividida entre uma parte mais moderna, macedónia, e uma mais desordenada e menos geométrica, de vielas e mesquitas, a parte albanesa. Ali a uns duzentos quilómetros, em direcção à Grécia, há uma deslumbrante estrada de montanha, com um rio em baixo, coisa de postal. Vai dar à cidade de Gevgelija, onde está instalado um campo de refugiados, gerido pela ACNUR, pela Cruz Vermelha, e por um exército de boa vontade formado por voluntários que decidiram estender a mão aos grupos, cada vez maiores, de pessoas que vinham a pé, da Grécia e do Inferno de países em guerra, países de pobreza extrema, estado islâmico assassino, à solta, cidades arrasadas, toda a esperança negada.

 

Esta cidade, em tempos chamada de Las Vegas dos Balcãs, por ter tantos casinos, tem um campo onde ninguém dorme. Está 24 horas seguidas a receber refugiados e a indicar-lhes o caminho para o comboio, os autocarros ou os táxis, que depois os levam mais para Norte, para o próximo campo, já na Sérvia. E daí hão de avançar sempre mais para norte: Croácia, Áustria, Alemanha. Talvez Noruega ou Suécia. O sonho de paz segue o sentido da bússola: é algures a Norte. 

 

No dia que lá passámos, no campo de Gevgelija, a ajudar como pudemos e soubemos, entraram neste campo mais de 10 mil refugiados. Da Síria, mas também da Somália, Eritreia, Sudão do Sul. E também Egipto. Sim. E Bangladesh, Paquistão, Irão e Afeganistão. Há de tudo. Um professor catedrático de História e História da Arte, que dava aulas numa universidade em Damasco e agora está ali, com a mulher e os dois filhos. A explicar que não entende como a Hungria fechou as fronteiras se, de 1946 em diante, assistiu a uma fuga em massa de refugiados que fugiam do controlo soviético e procuravam abrigo e futuro no ocidente europeu. "They must have forgotten", dizia ele, enquanto recebia a sandes, o sumo, as passas e, à entrada do campo, apresentava a mulher e os dois filhos. "If not Hungary, maybe Germany".

 

Um outro casal sírio perguntava-me, enquanto recebia a comida que nós tínhamos ali para lhes dar, acompanhada de um "welcome": de onde eu era. Portugal, respondi.

 

De trás dos pais, descobre-se um miúdo, 8/10 anos, que exclama, sorrindo "Portugal? Me too!", e aponta para a t-shirt onde está a foto e o nome de Cristiano Ronaldo.

 

Uma outra criança, esta de dois anos, com o pé ferido, chora, enquanto a minha mulher lhe limpa esse pé. Depois calçamos-lhe umas meias e uns ténis. E ilumina-se aquele rosto, um olhar de súbito conforto e o aconchego de uns pezinhos enfim quentes.

 

Uma mulher da Somália, com dois filhos pequenos, explica que perdeu marido, pais e sogros na travessia do mar que desaguou neste caminho das pedras, literalmente. E pergunta, na ingenuidade que diz muito sobre muitas destas pessoas e as expectativas que têm: "Germany, one day walk?

 

Não, minha senhora, ainda tem muito caminho de pedras para andar.

 

Fomos à Macedónia com a ideia de ajudar a descarregar as mais de 30 toneladas de ajuda que milhares de portugueses reuniram, para minorar o sofrimento destes refugiados em fuga. A associação "It's Our problem" e "A Solidariedade não conhece Fronteiras" lançaram esta iniciativa, as companhias de transportes TorresTir e Garland ofereceram os camiões e os serviços dos motoristas. A burocracia e a falta de um papel (parece um sketch, mas não) mantiveram os camiões, motoristas e carga humanitária retidos na alfandega da Macedónia primeiro e depois na da Sérvia. Dias de angústia, frustração e a constatação de que estes países estão prisioneiros de uma lógica de exercício do pequeno poder, corrupção latente, uma cortina de ferro que vive dentro das cabeças de funcionários mal pagos e sem mundo nem vontade de facilitar um milímetro. 

 

A ajuda do ACNUR em português foi decisiva e a carga humanitária foi enfim entregue a quem precisa, já na Croácia. Os milhares de portugueses que deram roupa, brinquedos e comida podem ficar descansados: a ajuda chegou. E, daquilo que vi, pode mesmo fazer a diferença. 

 

Mas gostava que conhecessem Kemal. 

 

"Leave emotions out of the camp", recomendava ele, de olhos cheios de lágrimas, perante uma mulher em pânico porque de repente não sabe da família, naquela confusão de gente e tendas com letras que ela não conhece, numa língua que não é a sua, num chão que lhe é tão estranho como seria Marte. 

 

Kemal é um bósnio que é o mais próximo que conheço de santidade em forma humana. Altruísmo, desapego a valores materiais, entrega total à causa da ajuda ao próximo. E gentileza em todos os momentos. Um exemplo que me ficará, para a vida. Um dia quero mostrar-lhe a minha terra, os nossos filhos, e explicar-lhes que foi este senhor de barba rala e olhos profundos que ficou com as mochilas da Maria, do Francisco e do Miguel cheias de brinquedos que foram deles e agora estão nas mãos de outras crianças, para quem um Capitão Gancho, um Dinossauro, um Homem Aranha são um tesouro e uma espécie de portal da imaginação de novo aberta para a infância, que está a acontecer e tem de acontecer, mesmo no meio deste pesadelo. 

 

Ter ido com a minha mulher, num labour of love, até este campo de refugiados. (Obrigado, Rita, por seres a minha Angelina Jolie. Gosto de pensar que isso faz de mim um bocadinho Brad Pitt. :-)) A sério, ter lá estado. E trabalhado para minorar o sofrimento daquela gente. Ter conhecido o Kemal, mas também a Mariana, a Cláudia, a Sandra e a Ana. O nosso improvisado guia que nos mostrou a cidade velha e nos deixou numa casa de chá turco, e nos ofereceu umas uvas sem graínha, enquanto ia fazer a sua reza do meio dia à mesquita. O Mohamed que tem uma loja e gasta boa parte do lucro a ajudar refugiados. 

 

Ter ido foi ter encarado de frente a diferença, e ter confirmado, uma vez mais, que mesmo nas mais extremas diferenças, somos mais parecidos do que pode parecer. Just people, não é?

 

Não sei como vai a Europa lidar com o que está a acontecer. Mas sei que ter o gesto de ajudar o próximo é um legado que se deixa. Todo o tempo da viagem pensei muito no Gonçalo, na Maria e na Mafaldinha. Da sorte que todos temos por nos termos a todos. Por termos nascido aqui e vivermos neste país. 

 

Esta viagem e esta experiência ficam para sempre, na pele e na memória. Como as experiencias da vida que marcam a fronteira entre um antes e um depois. 

 

Que tenha servido para ajudar, mesmo sendo uma gota no oceano como sabemos que foi. Oxalá. In sha Allah, como diria Kemal.

publicado às 15:05

Maldito empreendedorismo, que vingou

Por: Paulo Ferreira

 Já ouviu falar da Uniplaces? Então espreite aqui. É uma empresa que nasceu há três anos. Como quase todas, identificou um problema que podia ajudar a resolver. De um lado jovens universitários que vão estudar para outra cidade e precisam de alojamento. Do outro lado, proprietários que têm casas e quartos para arrendar. Uma plataforma electrónica que coloca uns em contacto com outros, permitindo que os senhorios anunciem e os estudantes façam a sua procura e um serviço de acompanhamento de uns e outros para que tudo corra bem. Faz-se pagar cobrando uma comissão.

 

Simples, não é? Pois é. Mas até Miguel Amaro, Ben Grech e Mariano Kostelec, os três ex-colegas universitários que tiveram a ideia, a terem posto em prática nunca ninguém o tinha feito. As boas ideias valem dinheiro mas a capacidade para as passar do papel ao terreno dando os passos certos vale muito mais.

 

A prova disso é que a Uniplaces acaba de conseguir um financiamento de 22 milhões de euros de um grupo de investidores que não anda nisto a “jogar a feijões”. Dinheiro que vai servir para financiar a expansão da empresa que já alugou mais de 30 mil quartos a estudantes de 140 nacionalidades, que emprega 120 pessoas, está presente em 38 cidades e gerou este ano cerca de 10 milhões de euros em contratos para os senhorios. Tudo a partir da sua sede, no Bairro Alto, em Lisboa e depois de ser incubada na Startup Lisboa.

 

Falo da Uniplaces por ser o exemplo que está mais à mão por proximidade temporal. A notícia do investimento é desta terça-feira e o montante foi o maior conseguido por uma empresa portuguesa em processos de levantamento de capital deste tipo. Mas também podia falar da Farfetch ou da Talkdesk, da Seedrs ou da Codacy. Da Followprice ou da Muzzley. Da iClio ou da Landing Jobs. E dezenas, centenas de outros, mais antigos ou mais recentes, mais ou menos tecnológicos, mais globais ou mais locais, que nascem em salas de estar, garagens, espaços emprestados ou incubadoras e aceleradoras como a Startup Lisboa, a Beta-i, a Fábrica de Startups, o Instituto Pedro Nunes de Coimbra ou o UPTEC do Porto, para falar apenas de alguns.

 

É o tal mundo do empreendedorismo, em que cada vez mais promotores tentam fazer e desenvolver negócios ou projectos sociais, com recursos escassos e poucos ou nenhuns apoios mas donos de uma ideia em que acreditam e da teimosia suficiente para a passar à prática. Alguns ficarão pelo caminho? Claro, mas certamente se levantarão.

 

 

Sim, é também este mundo que causa urticária a muita gente, naquela atitude típica de “não faças, não deixes fazer e tem raiva de quem faz”.

 

A diabolização e crítica ao empreendedorismo tem várias origens. Há quem ridicularize aquilo que acha que não passa de uma moda como as calças à boca de sino ou o gin. Sobre isso já João Vasconcelos, director-geral da Startup Lisboa escreveu há uns dias na Visão: "Já cheira terrivelmente a bafio dizer que o empreendedorismo é uma moda. Olhamos à volta e deparamo-nos com um movimento nacional com vida própria”.

 

Há também quem dispare contra tudo o que cheire a negócio, a iniciativa privada, à criação de empregos próprios e alheios, a uma cultura que prefere estar do lado das soluções e não dos problemas, de ver oportunidades em vez de obstáculos.

 

E também há os que preferem ter empresas e projectos dirigidos a trela pelo Estado, tutelados por favores avulso à margem das regras do mercado, onde o mérito de empresários e a escolha dos consumidores e clientes pouco ou nada vale.

 

A massa crítica que o empreendedorismo português já atingiu é uma má notícia para todos esses que recusam perceber que o mundo mudou.

 

O mundo mudou e o país vai mudando graças à evolução da tecnologia. Há uns anos, muitos destes negócios que nascem em incubadoras privadas, associativas ou de polos universitários estariam condenados pela falta de massa crítica da economia pequena que somos, pela dificuldade de acesso ao mercado global e pela histórica falta de capital e de verdadeiros capitalistas, que arriscam à espera de um retorno incerto.

Um bom projecto de comércio electrónico ou uma solução tecnológica com mercado podem nascer em qualquer lugar e, a partir daí, chegar a todo o lado com um investimento relativamente baixo. As plataformas tecnológicas são hoje um poderoso nivelador de oportunidades e de capacidades. A democratização económica e social que permitem são uma das melhores notícias dos últimos tempos. Quem prefere as castas pode ficar com as dos vinhos, certo?

 

Outras leituras

 

Já passaram duas semanas desde o dia em que António Costa saiu de Belém a dizer que estava pronto para formar Governo com o apoio do PCP e do BE e ainda não há um entendimento fechado. Perante o Muro de Berlim, não se sabe se o líder do PS o derrubou ou se vai contra ele.

 

Investimento público do bom? Aqui está ele, finalmente: o Túnel do Marão. Para obras destas vale a pena pagar impostos.

 

publicado às 01:12

O feminismo tramou as mulheres

Por: Diana Ralha

 

Eu, desde pequena, digo que quero ser mãe e dona-de-casa. Digo isto e todos acham que estou a gozar. A minha mãe tem razão: o feminismo lixou as mulheres, incluindo aquelas que, como eu, queriam ser mães e donas-de-casa, e que renunciariam sem hesitações ao seu lugar no exigente e canibal mercado de trabalho. O feminismo também devia ser isso.

Comemoração do Dia Internacional da Mulher em Estocolmo. Foto: Karin Beate Nøsterud/norden.org

 

Ouvi isto, desde sempre, fulgurosamente apregoado pela minha mãe, que decidiu estar desconfortavelmente inquieta nos antípodas da sua beleza renascentista, esculpida a cinzel em porcelana fina. Ela queimou soutiens, cobriu as suas longas pernas com roupas que transformavam instantaneamente qualquer saco de batata em alta costura, renunciou ao rouge e ao baton, prendeu as madeixas de ouro do cabelo num carrapito de velha. Libertou-se das cintas e dos espartilhos, mas enclausurou na solitária qualquer vestígio da sua feminilidade. Mais do que exigir igualdade, lutou pelo respeito que lhe era devido. Que é devido a todos os seres humanos, independentemente da raça, do credo e do sexo com que nasceram.

 

Foi feminista fervilhante no tempo da antiga senhora. Não foi fácil. Nunca o é para as mulheres. Muito menos para as incrivelmente bonitas. Mas depois o feminismo tramou-a, saiu-lhe o tiro pela culatra.

 

Nunca a minha mãe se serviu da sua beleza botticelliana.

 

Desprezou-a, viu-a sempre como um defeito, pior: uma deficiência, uma maldição que perseguia sempre, e que lhe dificultava o já de si árduo caminho de ser levada a sério.

 

Por mérito braçal, de jornadas de trabalho intermináveis em África — reza a lenda que Hergé se cruzou com o meu avô Manga-Manga no Congo e assim nasceu o imortal ‘Oliveira da Figueira’ —, a minha mãe cresceu numa gigantesca casa em Viseu no seu Rossio, com cortinas de brocado, móveis de madeiras perfumadas, cheios de torcidos, rococós e embutidos, tapetes da Pérsia e de Arraiolos, pratas e mármores, e um reboliço de criadas que se viam aflitas para lidar com os pioneiros electrodomésticos que vieram revolucionar a vida como hoje a conhecemos: frigoríficos, rádios e televisões.

 

A minha mãe tocava piano e falava francês. Na parte mais infeliz da sua vida, foi sendo expulsa de vários colégios católicos. Era uma miúda de África: apanhava cobras e largava-as aos pés das freiras, levando-as à loucura, e suportando depois castigos medievais que se seguiam com a coragem de um soldado.

 

Enquanto fazia todos os possíveis para ser excomungada (ou pelo menos regada em água benta), a minha mãe privou com a ‘fina flor do entulho’ da sociedade portuguesa. Sem brasões, sem linhagens reais, ou apelidos difíceis de pronunciar, a minha mãe estava a ser educada para cumprir a santíssima trindade: esposa exemplar, exímia dona-de-casa, excelsa figura maternal.

 

Mas não era esse o seu destino.

 

Teve sorte em ter um pai velho, um homem do início do século, mas mais jovem do que muitos que para aí andam no século XXI, na sua compreensão e humanismo. O meu avô foi pai pela primeira vez aos 48 anos — esteve ocupado a construir um império nas décadas anteriores —, e julgara ter estado a fazer o melhor pelo futuro da adorada primogénita, entregando a sua educação aos melhores e mais caros colégios da altura.

 

Construção de um avião militar, EUA, 1942. Foto de Alfred T. Palmer

Rapidamente concedeu que a fibra da filha era outra, e que o mundo era composto de mudança: se ela queria fazer diferente, tentar outro papel, restava-lhe a ele apoiar a sua marcha solitária, tratá-la exactamente da mesma forma que aos dois filhos homens.

 

Ser uma grande mulher não tem a ver com carreiras brilhantes, e feitos que mudam o curso do mundo.

 

No decurso desta história, a feminista desiludida de que vos falo, e que é por acaso minha mãe, deixou dois cursos superiores de Medicina e Farmácia a meio, para cuidar dos filhos. Não foi a mulher-bibelô que podia ter sido: era tão linda, que podia ter ‘casado bem’ (expressão que hoje ainda se usa tanto por aí). Rebelde com causas, casou com um artista, o meu pai, uma alma livre e por demais desprendida destas coisas de que se faz o dia-a-dia, como pagar contas e ter comida no prato e roupa lavada. A minha mãe foi, por isso, obrigada a mutar-se em mulher-amazona, criando dois filhos totalmente sozinha.

 

Fez um brilhante trabalho: devemos-lhe tudo o que somos, e a nossa fibra é a dela, corre-nos no sangue. Esta é a grandeza dessa mulher a que chamo mãe, que nunca se arrependeu da escolha que foi obrigada a fazer. Por amor. Pôs o feminismo na gaveta. Haverá alguma coisa mais poderosa do que uma escolha de amor?

 

Eu, desde pequena, que digo que quero ser mãe e dona-de-casa.

 

Digo isto e todos acham que estou a gozar.

 

A minha mãe tem razão: o feminismo lixou as mulheres, incluindo aquelas que, como eu, queriam ser mães e donas-de-casa, e que renunciariam sem hesitações ao seu lugar no exigente e canibal mercado de trabalho. O feminismo também devia ser isso.

 

Christine Lerolle a bordar, de Auguste Renoir

 A minha mãe soube-me sempre capaz de feitos incríveis (todos nós somos: basta termos quem acredite e nos garanta que sim), confiou na (sua) genética e na força do cromossoma xis.  Dobrou quase totalmente o meu âmago astrológico de caranguejo, de querer viver todos os segundos da minha vida para a família e para a construção e desconstrução de um ninho, desistiu a certa altura de tentar impedir-me de me embonecar toda, usar saltos altos e decotes grandes (e não nasci esculpida pelo mesmo mestre que ela),mas ainda trago algum ressentimento e muita incompreensão pela sua recusa em comprar-me uma máquina de costura quando era miúda e desejava a Singer mais do que a Barbie, e de ter esperado até aos meus 30 anos para me ensinar a fazer crochet (o meu e seu poderoso e altamente adictivo ansiolítico natural).

 

Fez tudo para matar a Fada do Lar que há em mim. Não conseguiu totalmente, mas o feminismo também já me lixou a mim também.

 

O destino trocou-me as voltas. Parece que corre na família este desaire.

 

É certo que ao menos vivo o sonho de ser mãe — e tenho o privilégio de ser mãe a multiplicar por quatro (muito perto daquele sonho de infância cor-de-rosa). Só que trabalho que me desunho (e por acaso desunho mesmo; parti há instantes uma unha a escrever este texto, que já vai longuíssimo), dentro e fora de casa, e às vezes não há como evitar: falto às reuniões da escola (nem sequer sou a encarregada de educação, já para reduzir as minhas falhas e ansiedade a níveis suportáveis), e já houve dias da Mãe e festas de Natal em que não apareci. Quase nunca fico com as crianças em casa quando têm febre e só querem a mãe, e por vezes chego tarde a casa, e cansada, depois de as rotinas de amor já terem sido executadas magistralmente sem eu lá estar para, pelo menos, assistir.

 

Mas já não me consumo com esta inevitabilidade de não conseguir estar em dois sítios ao mesmo tempo e de grande parte das vezes ter de fazer a escolha errada: a escolha do trabalho em vez da família. Sinto uma picada de dor fininha, mas já não me flagelo pelas minhas ausências, que tento que sejam as mínimas e as indispensáveis.

 

Tenho uma família muito grande para os parâmetros actuais, e não quero que nada lhes falte. Por isso não paro, estou sempre inquieta, ou não fosse, ao que dizem, neta do ‘Oliveira da Figueira’ do Tintim.

 

A minha mãe fez de mim uma líder.

 

Estou (por agora) incansável. Atrevo-me até a dizer invencível.

 

Mas tenho um trunfo que a minha mãe não teve: eu não faço esta viagem sozinha, não travo esta batalha de ser uma mulher e ter sucesso sozinha.

 

Ao meu lado (e não atrás, não é uma mera inversão do género do provérbio tristonho do ‘Atrás de um grande homem está uma grande mulher’)  tenho um homem que não ‘ajuda lá em casa’ (outra frase feita do feminismo que entalou a grande maioria das mulheres).

 

Tenho ao meu lado um marido esculpido a cinzel (tem o nariz mais perfeito do mundo — quem dera que os nossos filhos tenham o teu nariz) que faz, que faz inclusive mais do que eu, que ando sempre de um lado para o outro a sirigaitar em tantos palcos, arenas e ringues.

 

Sou uma grande mulher por causa deste grande homem, que me facilita tudo, e nada me cobra. Construo com ele a família numerosa com que sempre sonhei (até tenho dois filhos loiros e uma tem olhos azuis; é tudo como nas revistas), e que me elevou ao ponto alto de onde escrevo estas linhas. Ele fica na sombra porque quer — não gosta mesmo de holofotes.

 

Para mim ele é uma sombra fresca, é a minha sombra, inseparável, é o meu refúgio de paz. Este homem que tive a sorte de encontrar é único no mundo; é a generosidade revestida de pele e ossos. Eu tenho um homem que me deixa ser uma mulher de sucesso, sem culpas, sem acertos de contas, sem se sentir emasculado ou diminuído.

 

Vivo com um feminista ferrenho. Este é o homem que casou comigo e que, para espanto de todos, adoptou o meu último apelido no seu nome, em último lugar, e depois fez aplicar a mesma regra no nome dos nossos filhos, na simples constatação de que as mulheres também podem passar o seu nome pelas gerações; não é território só dos homens.

 

Não minto também se vos disser que não sei há quanto tempo não ponho roupa a lavar, ou no estendal, que há anos que não tenho nada a ver com o caixote dos gatos, e que o cão também nem se lembra do que é ir comigo à rua, ou que mesmo as minhas adoradas orquídeas, aquelas que coleccionava mesmo antes de ser mãe, é ele quem cuida delas (deixo-o ser desarrumado à vontade, acho que já não refilo tanto com a bagunça: pelo menos faço um esforço para não me tirar do sério). Nunca me falou com maus modos (e todos temos dias maus — eu não posso dizer o mesmo, infelizmente já fui parva com quem só me fez bem ao longo de quase dez anos) e só muito de vez em quando os nossos quatro filhos o tiram do sério.

 

Sei que não inverteremos nunca os papéis. Ele é das pessoas mais brilhantes e inteligentes que conheço, mas não tem absolutamente nada a provar a ninguém e o feminismo não o pôs entre a espada e a parede. Eu visto as calças (na verdade esta também é uma imagem parva porque eu quase nunca visto calças) e ele, que também trabalha que se farta a partir de casa, na profissão mais solitária do mundo, a de tradutor e revisor, cuida da família, esse território outrora exclusivo das mulheres.

 

Sejamos justos: o feminismo afinal não me tramou assim tanto.

 

Agora tenho duas gigantescas missões — garantir que as três filhas se sentem, como eu, capazes de ser e fazer o que bem lhes passar pela moleirinha, mas, mais importante ainda, educar o meu filho a ser tão feminista quanto o pai.


Nota final muito importante: Na empresa onde trabalho no ofício cada vez mais difícil da comunicação e da assessoria de imprensa, há quatro colaboradores com quatro filhos. Há pelo menos um com três, e dezenas com o casalinho ‘piroso’. Neste momento estão três bebés para nascer até ao final do ano: um verdadeiro baby boom. Somos uma empresa líder de mercado, posição que conquistámos e garantimos, pela excelência dos serviços prestados pelos melhores profissionais. Eu e os meus colegas temos um dos trabalhos mais exigentes e stressantes à face da terra, e ainda assim esta empresa regista uma taxa de natalidade muitíssimo superior à da média nacional. Alguma coisa corre verdadeiramente bem por aqui. O que é essencial quando falamos de igualdade e oportunidades. Devo também ao meu patrão e à segurança social portuguesa a possibilidade de, por duas vezes, ter podido tirar oito meses de licença de maternidade, uma pausa longa e importante no ritmo frenético, e que me permitiu ter a certeza que nasci mesmo para ser mãe e dona-de-casa.

 

publicado às 11:49

Vamos fazer outro filho? O Estado consente?

Por: Francisco Sena Santos

 

É de crer que muitos casais chineses tenham passado a noite de quinta-feira a fazer amor sem restrições, a celebrar o fim da imposição de filho único, política que vigorava na China há 35 anos. Na manhã de sexta-feira apareceu quem saudasse a evolução decidida pelos donos do poder em Pequim. Convém, no entanto, que ninguém se deixe enganar pela natureza da cedência do regime: a infame política do filho único chegou ao fim, mas o Estado chinês continua a invadir a intimidade dos casais e a impedir que cada família tenha os filhos que queira. Agora, passam a ser permitidos até dois filhos por cada casal. É uma violação por parte do Estado da liberdade individual e doméstica.

 

A política do filho único (“o pequeno imperador”) foi instalada por Deng Xiao Ping, em 1979, o tempo da grande descolagem da economia chinesa. Foi justificada com a intenção de “garantir que os frutos do crescimento económico” não fossem “devorados pelo crescimento populacional”. É um facto que a bomba demográfica estava instalada: em 27 anos, de 1949 a 1976, a população da República Popular da China passou de 540 milhões para 940 milhões.

 

A China saía então, no final da década de 70, dos anos de fome e grande pobreza coletiva dos tempos revolucionários de Mao, o timoneiro que incentivou políticas de fértil natalidade porque via nas “imensas massas populares” a principal força do país frente ao capitalismo ocidental. O sucessor, Deng, mudou tudo e deu prioridade ao “glorioso crescimento da economia”. A economia chinesa, de facto, disparou, galopante, mas à custa de direitos fundamentais das pessoas.

 

Um dos absurdos na reforma Deng é a política de planeamento familiar, com imposição do filho único, forçada por sanções financeiras, laborais e sociais para quem ousasse exceder-se a procriar.  

 

Esta opção política tem imensas e dramáticas consequências humanas. Levou, por exemplo, à realidade atual e das últimas três décadas de um número incontável de crianças “invisíveis”. São crianças que por serem supranumerárias nunca puderam ser registadas, não podem ter documentos, nunca puderam ir à escola. Vivem uma vida kafkiana na margem da sociedade. São crianças nascidas de casais que já tinham declarado um filho. Os filhos “excedentes”, ocultados pelos pais, oficialmente, não existem. Não são cidadãos da República Popular da China, não têm acesso a um passaporte, portanto também lhes fica difícil a escapadela clandestina para o estrangeiro. Mas a política do filho único gerou outros dramas.  

 

O regime favoreceu, nas gerações dos últimos 35 anos, o filho varão. Por ser suposto, argumentaram, que os homens, na competitiva sociedade chinesa, poderiam contribuir mais para o crescimento económico. Isto levou a abortos seletivos: se a criança que está para nascer é uma menina, elimina-se. Tenta-se até aparecer um rapaz. Assim se explica que nos registos de nascimentos na China desde 1980 haja um desequilíbrio de género, com mais de 60% de rapazes e menos de 40% de raparigas. É de pensar que um número crescente de homens vai ficar sem esposa por insuficiência de parceiras. Tudo isto parece uma alucinada ficção de experimentação social, mas é a realidade da vida no país mais populoso do mundo e segunda economia global.

 

Estima-se que a política do filho único evitou uns 400 milhões de nascimentos. Mas agora escasseiam talentos novos e dispara dramaticamente o número de grisalhos.

 

Os líderes chineses de agora já concluíram que este sistema não funciona nem mesmo para o interesse económico: com a fertilidade estancada, a China envelhece demasiado depressa e começa a confrontar-se com o risco de falta de trabalhadores ativos em número que chegue para sustentar o sistema de reformas com cada vez mais pensionistas. Daí passarem de um para dois a limitação de filhos por casal. Nada que ponha os fabricantes de preservativos a coçar a cabeça.

 

O essencial é que continuam a intolerável autoritária invasão da intimidade e os controlos punitivos para quem não acata o planeamento familiar decidido pelo Estado. É uma cruel e inaceitável interferência do Estado chinês na vida das pessoas. É impensável que seja o Estado ou o partido (neste caso é o PC da China que se assume como Estado) a fixar o tamanho de cada família.

 

Há uma lição que interessa à Europa neste recuo chinês sobre o filho único: precisamos de mais gente, ou seja, faz-nos falta a chegada de migrantes, para construirmos a prosperidade futura. E Portugal, tal como entre outros a Alemanha, é um país em alerta vermelho pela baixa natalidade.

 

Também a ter em conta

 

A Espanha tende a tornar-se um imenso Portugal? Tem a ver com cenários pós-eleitorais. Os espanhóis vão a votos em 20 de dezembro e todas as sondagens, como esta ou esta, anunciam um terramoto no quadro parlamentar, que passa de duas para quatro forças políticas principais. O PP de Rajoy está na frente mas pode confrontar-se com a maioria para governar de uma aliança de oposições. No caso espanhol, Ciudadanos, ao centro (ora mais à esquerda, ora mais à direita), aparece como partido charneira para fazer maioria.

 

Passam amanhã 20 anos sobre o assassinato do Nobel fazedor de Paz Yitzhak Rabin, quando discursava num comício em Telaviv. Don Ephron conta-nos no livro “Killing a King: The Assassination of Yitzhak Rabin and the Remaking of Israel” aquela noite e o que se seguiu. Há um excerto aqui. Neste fim de semana, 40 mil pessoas estiveram naquela praça para lembrar a mensagem de Rabin. Fica o alerta de Daliah, a filha: “O sangue verte outra vez. O ódio cresce. O meu país muda de cara. Não aprendemos a lição.”

 

Volta a vontade política para cuidar o clima? Vem aí, em dezembro, em Paris, a COP 21, que recoloca as alterações no clima no centro das discussões. Também está aqui.

 

José Fonseca e Costa vai hoje a enterrar. O cinema dele deu-nos gosto de vida.

 

Uma primeira página escolhida no SAPO JORNAIS.

publicado às 06:57

Catarina (ministra) Martins

Por: António Costa

 

Catarina Martins já tem pose de ministra, já fala como ministra, por isso, só falta mesmo ser ministra do mais do que provável governo de coligação de Esquerda, uma nova troika sem um cheque de 78 mil milhões de euros, mas com a responsabilidade de não deitar fora o que foi feito no país nos últimos quatro anos.

 

A líder do Bloco de Esquerda é mesmo a principal novidade deste momento político do país. Tinha sido na campanha eleitoral, foi na noite das eleições e, passado quase um mês das legislativas, continua a ser a que marca o tom. Sem medo de assumir essa responsabilidade, como se percebe da entrevista que concedeu ontem ao DN. Sim, a disponibilidade do PCP para negociar uma participação no Governo é surpreendente, e muda as regras do jogo, mas percebe-se o desconforto de Jerónimo de Sousa, a luta interior, a si e ao próprio partido, entre o desejo de deitar abaixo o governo de Pedro Passos Coelho e o receio de levar o PCP pelo mesmo caminho de outros PC’s europeus que se juntaram aos socialistas.

 

Catarina Martins, não, pelo contrário, quer estar, quer participar, quer impor uma agenda e está a fazê-lo. Porquê? Porque António Costa decidiu que fará tudo o que for necessário para ser primeiro-ministro e por isso precisa de fazer um acordo com o BE, condição necessária para o PCP ser obrigado a alinhar. Vale a pena reler algumas das respostas de Catarina Martins. “O compromisso político que estávamos a fazer permite aos pensionistas recuperar as suas pensões ao longo da legislatura. Se tivessem um governo de direita iam perder com cortes, se fosse governo do PS ficariam congeladas, e o que posso dizer agora é que há acordo para que as pensões vão ser todas descongeladas e as mais baixas terão mesmo um aumento real”.

 

Querem mais? “Depois de estarem fechados todos os pontos políticos naturalmente tem de haver um acordo formal e aí assumiremos as responsabilidades que forem necessárias para que a solução seja a mais forte possível na defesa dos compromissos políticos que estão no acordo”. E não só. “Estamos muito interessados na consolidação das contas públicas porque quando não há o país fica mais dependente de fatores externos e perde soberania”, sim, é uma afirmação de Catarina Martins, poderia ser o ‘novo’ Tsipras. As contas deste acordo de Esquerda, esse, fica prometido para mais tarde, e até nisto, na forma, já age como ministra.

 

Catarina Martins tem o partido nas mãos, talvez até como nunca Francisco Louçã tenha tido como líder histórico do Bloco. Recuperou-o depois da liderança bicéfala que quase acabava com ele. E o BE está mais perto de ser governo do que alguma vez esteve. Claro que, depois, lá vêm também o discurso anti-austeridade básico, como se não fosse necessário equilibrar as contas, as críticas ao Tratado Orçamental, sem perceber que é uma peça fundamental para que uma zona euro funcione, e à necessidade de reestruturação da dívida à grega, que tão bons resultados deu, como se sabe.

 

Se Catarina Martins chegar mesmo ao Governo, isso passa-lhe. Ou nós, portugueses, é que nos vamos passar.

 

Para ver

 

A TVI passou este fim-de-semana uma reportagem de serviço público sobre a caravana Ayalan Kurdi, uma iniciativa voluntária para levar mantimentos de todo o tipo aos refugiados que estavam a chegar à Europa dita civilizada e que tem tido, tantas vezes, uma resposta pouco melhor do que selvagem. Fica a capacidade de mobilização de tantos portugueses, particulares e empresas, que quiseram apenas ajudar. Ficará para sempre o nome de Ayalan Kurdi, o nome do menino curdo de três anos que morreu a fugir de uma guerra e numa travessia que o deveria levar à costa da Turquia. Não chegou vivo, mas a sua imagem chegou ao mundo. E ficou. E expôs as nossas vergonhas. Vejam e revejam a reportagem de Alexandra Borges e Tiago Donato, para nunca se esquecerem dos valores que deveríamos todos ter.

publicado às 09:50

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