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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Progresso alimentar: matar a fome já não é o que era

Por: José Couto Nogueira

 

Os alimentos orgânicos são um requinte da civilização ou a salvação da Humanidade? O que não falta são pessoas a seguir dietas específicas, seguindo as suas próprias convicções ou a conselho de nutricionistas. Os supermercados abrem secções de alimentos "orgânicos" e as lojas da especialidade multiplicam-se. Até os animais de estimação têm hoje direito a uma dieta natural a preços proibitivos para muitas famílias.

 

 

Enquanto durante grande parte da História – e da pré-História – os homens se preocupavam sobretudo em ter o que comer, nesta época final da Civilização Ocidental o problema já não é obter alimentos suficientes, mas sim os alimentos certos – isto é, aqueles que proporcionam bem estar e prolongam a vida saudável. Paralelamente, há a preocupação de praticar uma agricultura que não esgote os solos, permitindo a manutenção permanente de boas colheitas.

 

Tudo isto é relativamente novo; foi em 1911 que o agrónomo norte-americano F. H. King estudou as culturas milenares orientais, isentas de produtos químicos – tanto fertilizantes como pesticidas artificiais – e as comparou com a agricultura ocidental. Nos países industrializados, as necessidades alimentares duma população crescente tinham obrigado a recorrer a uns e outros para obter alimento abundante e barato: matava-lhes a fome mas fazia-lhes mal.

 

É preciso notar que a alimentação de grande parte do século XX, que hoje em dia os defensores dos produtos orgânicos criticam como sendo “impura”, era bastante natural para os padrões actuais. As galinhas, por exemplo, eram cultivadas ao ar livre, os porcos alimentados com os restos domésticos e o gado em geral comia o que se encontra na natureza. Foi a intensa industrialização alimentar – agora chamada “agro-indústria” como sinónimo de ganância empresarial, assassinato em massa, alimentos transgénicos e outros crimes horrendos – foi essa industrialização que criou o movimento contrário, dos pequenos agricultores, dos galinheiros e das vacas soltas no prado.

 

Não adianta os cientistas cépticos, certamente comprados pelas multinacionais gananciosas, afirmarem que todos os cereais e a maioria dos vegetais que comemos foram geneticamente modificados ao longo dos séculos

 

A alimentação dita orgânica começou a surgir em Portugal na década de 1990 e acabou por se tornar ela própria uma indústria, já neste século. Como aliás aconteceu um pouco por toda a Europa, que vai buscar muitos alimentos a África e à Ásia, mas mantém um controlo contínuo junto dos produtores, para garantir que eles não se deixam tentar pelos demónios do aceleramento e protecção químicos ou, pior ainda, vá de retro Satanás, dos horríveis transgénicos.

 

Não adianta os cientistas cépticos, certamente comprados pelas multinacionais gananciosas, afirmarem que todos os cereais e a maioria dos vegetais que comemos foram geneticamente modificados ao longo dos séculos, para se tornarem mais nutritivos, resistentes às pragas e abundantes; a desconfiança está lançada. E também não é segredo que os animais são criados em barracões ao modelo de Dachau, alimentados por sucedâneos do petróleo cheios de antibióticos, ansiolíticos e esteróides. Temos alimentos baratos e abundantes e vamos viver mais dez ou vinte anos que os nossos avós, mas entupidos de toxinas industriais e higienizados por detergentes químicos. Ou seja, morreremos mais tarde, mas muito menos saudáveis que os nossos antepassados, que se lavavam com mijo uma vez por ano e comiam carne podre durante o inverno – daí o sucesso da pimenta da Idade Média, que encobria a putrefacção da carne.

 

Então, a alimentação orgânica é o que está a dar. Batatas que lembram alienígenas de filme de terror, tomates parecidos com o corcunda de Notre Dame, alfaces com o dobro do peso em terra, e frangos que parecem, esses sim, fugidos de Dachau – tudo ao triplo do preço pois, é claro, cultivar e criar sem ajudas artificiais rende menos e portanto custa muito mais.

 

compramos duas postas de pescada “capturada com anzóis e aparelhos de anzol”, que nos garantem ser “pesca artesanal e sustentável da região de Sesimbra” e embalada em plástico a vácuo, com rótulo autocolante impresso a quatro cores

 

Este sobre-preço dos alimentos naturais leva, evidentemente, a uma saudável selecção económica: só as famílias mais abonadas se podem dar ao luxo de comprar nos novos empórios onde os produtos tinham, até há pouco tempo, o desejável mau aspecto das coisas extraídas das entranhas da terra. E dizemos que tinham, e não que têm, porque entretanto a procura intensa por tanta natureza levou – adivinhe! – à necessidade de industrializá-la.

 

Graças a mais este avanço da civilização, que consiste na origem natural dos produtos combinada com a embalagem pós-industrial das doses, podemos comprar cereais de pequeno-almoço colhidos à mão por camponeses de rusticidade garantida e embalados em alumínio plastificado impresso por serigrafia a laser.

 

Por exemplo, no mais novo supermercado biológico de Lisboa, muito mais chique que o La Redoute de Paris ou as secções gourmet dos melhores supermercados nacionais, compramos duas postas de pescada “capturada com anzóis e aparelhos de anzol”, que nos garantem ser “pesca artesanal e sustentável da região de Sesimbra” e embalada em plástico a vácuo, com rótulo autocolante impresso a quatro cores. (A cola do autocolante é um químico altamente poluente, mas não vamos ingeri-la, não é verdade?) Aliás, o supermercado tem garagem própria na cave e um arrumador que nos leva e traz o carro, não vá uma caminhada com os produtos pela rua poluída estragar os efeitos benéficos de tanta natureza.

Sim, nós merecemos comer do melhor – isto é, do industrialmente mais natural que é possível fazer passar pela longa cadeia de distribuição que leva um produto colhido à mão em Trás-os-Montes a chegar à Av. Duque d’Ávila, no coração da capital, possivelmente trazido em carroça de madeira natural puxada por burros alimentados a fava. Mas, se nós merecemos, o que dizer dos nossos queridos animais de estimação?

 

É preciso ver a estante dos produtos orgânicos para animais! É preciso ver porque, sinceramente, é um progresso impensável que, apenas 100 anos depois de se dar os restos das refeições aos bichos da casa, agora se gaste uma pipa de euros para lhes dar iguarias que os sem-abrigo nem saberiam identificar. Tudo embalado no tal alumínio multi-colorido selado contra bactérias.

 

A resposta está dada: não, a alimentação orgânica não é uma preciosidade da decadência, mas sim o retorno à glória do ditado sempre presente: “mente sã em corpo são”. Porque a sanidade mental é um bem cada vez mais escasso!

publicado às 11:51

E se as máquinas fizerem "delete" da raça humana?

Por: Helena Oliveira

 

Marvin Minsky, um dos precursores da inteligência artificial (IA), morreu há poucos dias sem realizar o seu sonho: o de dotar as máquinas de consciência e sentimentos. Mas é exatamente esta possibilidade que está a gerar uma onda de ansiedade entre vários reputados cientistas e académicos. E já há quem garanta que, se nada for feito para controlar os progressos na área, as máquinas terão a possibilidade de carregar no botão e fazer um “delete” da raça humana. Paranoia, histeria ou uma boa oportunidade de prevenir o que poderá não ser possível remediar?

 

 

Bastava ter vivido mais alguns dias e Marvin Minsky teria testemunhado o mais recente triunfo na área que ajudou a criar há 60 anos. Desenvolvido pela Google, o Alpha Go cometeu a proeza de ganhar a um campeão humano naquele que é reconhecido como o mais intelectualmente complexo de todos os jogos de mesa, o milenar e chinês Go [sobre o qual até Confucio falou] e uma década antes do que a maioria dos especialistas no assunto previa. Minsky, pioneiro da inteligência artificial, morreu no passado dia 24 de Janeiro, aos 88 anos e, para os que acreditam no além, pode estar neste preciso momento a discutir com Einstein a comprovação científica da existência das ondas gravitacionais que este previra há 100 anos, isto se, e entretanto, nesse além-vida ou além-morte, a barreira da língua não existir. Ainda jovem, Minsky almoçou com o famoso físico alemão, mas o sotaque carregado deste último ao falar a língua de Shakespeare impediu que os dois génios pudessem ter uma experiência intelectual à altura do cérebro de ambos.

 

Universalmente considerado como pioneiro e uma das maiores autoridades mundiais na área da inteligência artificial (IA), Minsky começou por estudar Matemática em Harvard, interessou-se pelo campo da genética, mas seria à possibilidade de reproduzir a inteligência humana numa máquina – uma ideia inicialmente proposta por Alan Turing, de quem era amigo – que viria a dedicar a sua vida. Em 1958, e depois de terminado o seu pós-doutoramento em Matemática, e ainda em Harvard, mudar-se-ia para o MIT onde, juntamente com outro cientista da computação, John McCarthy, fundaria o primeiro laboratório de Inteligência Artificial, sendo também, já em 1986, membro fundador do famoso Media Lab da mesma instituição. Cientista e filósofo, a sua influência nas várias ciências computacionais foi sempre acompanhada pelos mistérios da inteligência e pensamento humanos, processos que, acreditava, não seriam assim tão diferentes quando transpostos para as máquinas.

 

Desde os anos 50 que Minsky trabalhou em “desafios” computacionais para caracterizar os processos psicológicos humanos, ao mesmo tempo que produzia teorias para dotar as máquinas de inteligência. No livro que publicou em meados da década de 80, “The Society of Mind” – e que combinava perspetivas sobre a psicologia do desenvolvimento infantil e a pesquisa da inteligência artificial, – sublinhava a sua crença inabalável de que não existia uma verdadeira diferença entre humanos e máquinas, na medida em que os primeiros eram, afinal, máquinas cujos cérebros eram compostos por muito agentes semi-autónomos, mas não inteligentes e que, para desenvolverem tarefas diferentes, exigiam mecanismos totalmente distintos. Tal como as máquinas. Esta teoria (desenvolvida em conjunto com o também cientista e pedagogo Seymour Papert) revolucionou o pensamento vigente sobre o funcionamento do cérebro e também sobre a aprendizagem humana.

 

Num paper escrito em 1982, Minsky explicava: “Tal como a Evolução alterou a visão do homem no que respeita à Vida, a Inteligência Artificial irá alterar a visão da Mente. À medida que encontramos mais formas de as máquinas se comportarem de uma maneira mais sensível, mais aprenderemos sobre os nossos processos mentais. E, ao longo deste caminho, encontraremos também novas formas de pensar sobre o ‘pensamento’ e sobre o ‘sentimento’. A visão que teremos de ambos alterar-se-á de mistérios opacos para redes complexas, mas ainda sim compreensíveis, para representar e utilizar ideias. Por seu turno, essas ideias irão originar novas máquinas e essas, por sua vez, permitir-nos-ão ter mais ideias. Ninguém pode afirmar até onde tudo isto nos irá levar e existe apenas uma certeza: não há nada, hoje, que nos permita afirmar que existem quaisquer diferenças básicas entre as mentes dos homens e aquelas que poderão existir em possíveis máquinas”.

 

Para o homem que, em outubro passado, foi entrevistado pela Technology Review do MIT e confessou considerar os avanços na inteligência artificial das décadas de 50 e 60 do século passado muito mais empolgantes do que os da atualidade, o que pensaria se soubesse que, dois dias depois da sua morte, a revista Wired pediria ao robot Wordsmith, o bot criado pela Automated Insights e que “redige” notícias “à medida das necessidades dos clientes”, para escrever o seu obituário?

 

A pergunta permanecerá sem resposta, mas são muitas outras as que se colocam face aos progressos da IA nas últimas décadas. Se as máquinas ainda não podem pensar ou sentir tal como Minsky considerava ser possível, a verdade é que o seu trabalho inspirou várias gerações e muitos dos seus alunos são hoje especialistas na área – como Ray Kurzweil, o visionário, inventor e defensor da Singularidade – conceito que defende que o progresso tecnológico irá culminar numa fusão entre a inteligência humana e a das máquinas -, ou Gerald Sussman, reconhecido investigador e professor no MIT ou ainda Patrick Winston, que sucedeu aos destinos do AI Lab depois de Minsky se ter retirado. E também não é de admirar que tanto Stanley Kubrick como Arthur C. Clarke o tenham consultado enquanto congeminavam o argumento de 2001: Odisseia no Espaço.

 

Mas e afinal, e em plena adolescência do século XXI, estão os humanos mais perto de dotar as máquinas de “consciência” ou estarão as máquinas, num futuro não muito distante, prestes a ultrapassar a inteligência dos humanos e a preparem-se, tal como temem muitos profetas da tecnodesgraça, fazer um “delete” da raça humana?

 

“A natureza darwiniana brutal da evolução tecnológica”

 

 Quando Isaac Asimov começou a escrever sobre robots na década de 40 do século passado, desenvolveu três regras para os ditos, sendo a número um aquela que clama que “um robot não pode causar mal a um ser humano ou, por inação, permitir que um humano sofra algum mal”. Provado que está que a realidade, em muitos casos, já ultrapassou a ficção científica, são muitos os cientistas, académicos, filósofos, empreendedores, especialistas em tecnologia e outros observadores do progresso acelerado que pauta as áreas da ciência e da tecnologia que têm vindo a alertar para uma ausência de controlo em todos estes avanços.

 

E, em alguns casos e sem histeria, é possível dar-lhes razão. Por exemplo, em Julho de 2015, na International Joint Conference on Artificial Intelligence, um conjunto de especialistas da área, entre os quais os (re)conhecidos Stephen Hawking, Elon Musk, Steve Wozniak ou Noam Chomsky, divulgariam uma carta aberta contra as denominadas “armas autónomas” que, graças à inteligência artificial, conseguem selecionar e atingir alvos sem qualquer intervenção humana. No documento que mais tarde viria a ser subscrito por mais de 14 mil outros cientistas de várias áreas, alertava-se para a inevitabilidade, caso não se faça nada, de este tipo de armas se transformar nas “Kalashnikovs de amanhã”. É que, ao contrário das armas nucleares, a produção deste tipo de armamento não exige custos elevados nem materiais difíceis de obter, sendo fácil a sua produção massificada. E, para os subscritores desta carta, é apenas uma questão de tempo até que as mesmas comecem “a aparecer no mercado negro e nas mãos de terroristas, de ditadores que desejam controlar melhor as suas populações, da senhores da guerra que pretendam perpetrar limpezas étnicas, etc.”.

 

Esta carta aberta, disponível no Future of Life Institute, é apenas uma das várias manifestações de apreensão que começa a ter cada vez mais adeptos no que respeita aos perigos e ameaças que se escondem por trás dos avanços na IA. E, apesar de, na generalidade, nem o mundo científico nem o mundo académico estarem convencidos que a inteligência artificial é uma ameaça iminente, a verdade é que alguns dos seus respeitados especialistas têm vindo a debater o assunto não só nos seus círculos internos, mas também e obviamente nos media e a apelar para que alguma coisa seja feita para que não chegue o dia em que poderá ser tarde demais para os humanos controlarem as máquinas.

 

Com menos ou mais histeria, e apesar de não existirem ainda máquinas – ao que se sabe – que estejam “no controlo”, também sabemos que a inteligência artificial faz parte integrante do nosso quotidiano, mesmo que tal facto não ocupe lugar ou preocupação alguma nas nossas mentes. Como escreve o repórter do Washington Times, Joel Achenbach, em The Resistance: Digital Dissent in the Age of Machines, “os computadores já pilotam aviões sozinhos, os carros sem condutor estão praticamente ao nosso dispor, os algoritmos antecipam as nossas necessidades e decidem que tipo de anúncios é que deveremos ver, as máquinas já criam peças jornalísticas e conseguem reconhecer o nosso rosto no meio de uma multidão”. Tudo isto em (con)fusão com a engenharia genética – basta estar atento aos media e vemos que a terapia de edição de genes, entre outros avanços inimagináveis, começa a ser notícia, e com a nanotecnologia (os bots de que fala Ray Kurzweil nos seus livros sobre a Era da Singularidade e que podem coexistir no interior do corpo humano e serem programados para tarefas específicas) a dar cartas em inúmeras áreas. E a lista poderia continuar.

 

Por outro lado, e apesar de o sonho de Minsky de dotar as máquinas de consciência ou sentimentos ainda não se ter verificado, também é verdade que a evolução tecnológica aparenta ser uma corrida rápida e sem limites preestabelecidos. Como escreve Tom Chatfield, num interessante artigo do The Guardian, intitulado “O que significa ser humano na era da tecnologia”, a nossa interdependência com as máquinas é um facto consumado e há que reconhecer “a natureza darwiniana brutal da evolução tecnológica”. Chatfield alerta também para o facto de “apesar de as nossas máquinas ainda não estarem ‘vivas’, as pressões evolucionárias que as rodeiam são tão intensas quanto as que existem na natureza, mas com uma dose muito menor dos seus constrangimentos”. E, a este propósito cita o filósofo Daniel Dennett, entre outros [que apesar de considerarem que a Singularidade, enquanto o “momento fatal em que a IA irá ultrapassar a inteligência dos seus criadores e tomar conta do mundo” está ainda a muitos séculos de distância, mas mais vale prevenir que remediar], que afirma que a lógica de atualização e aperfeiçoamento constante vai muito além de áreas como as finanças, a indústria do armamento ou a da produção. “Se se provar que um algoritmo pode produzir diagnósticos mais consistentemente rigorosos do que um médico, então a recusa em utilizá-lo será, em simultâneo, não ética e legalmente questionável”. A verdade é que neste momento, e apesar da frustração manifestada por Minsky face aos verdadeiros - ou questionáveis – avanços na inteligência artificial, são muito poucas as áreas de “esforço humano” que permanecem intocáveis em termos tecnológicos.

 

E parece ser este esforço de antecipação aos perigos que deles podem emergir que move figuras incontornáveis como Stephen Hawking, por exemplo, a darem a cara por movimentos que, apesar de não serem contra os progressos da AI, estão preocupados com as inúmeras questões éticas que lhes estão inerentes, em conjunto com a necessidade de existir algum tipo de “autoridade” que lhes imponha limites e controlos apropriados, seja lá o que isto queira dizer.

 

Max Tegmark, professor de física no MIT, tem vindo a encabeçar um destes movimentos. Como conta Joel Aschenbach no seu livro acima referido, Tegmark é um de vários cientistas que acredita que a inteligência artificial poderá vir a ser o melhor ou o pior que pode acontecer à raça humana.

 

Em 2014, Tegmark reuniu em sua casa 33 cientistas para discutirem as ameaças existenciais originárias dos avanços da IA, tendo de seguida persuadido várias personalidades do mundo da ciência, da tecnologia e do entretenimento para fundarem o já acima referido Future of Life Institute (FLI). A missão desta organização sem fins lucrativos visa catalisar e apoiar pesquisas e iniciativas que salvaguardem a vida [humana], ao mesmo tempo que espera contribuir para o desenvolvimento de visões otimistas para o futuro, incluindo formas positivas para a humanidade se manter no seu próprio caminho tendo em conta as novas tecnologias e respetivos desafios.

 

O próprio Hawking consta do quadro de fundadores do FLI e, dado o seu mediatismo, foi a figura estrategicamente escolhida para afirmar, numa entrevista à BBC, que a IA, se não eficazmente controlada, poderia ditar o fim da raça humana. Tegmark escolheu também para companheiros desta cruzada o laureado com o Nobel da Física Francis Wilczek, o famoso investigador em IA Stuart Russel, o ator Morgan Freeman, o fundador do Skype Jaan Tallinn e também Elon Musk que, por sua vez, é também o fundador de outra iniciativa sem fins lucrativos, a OpenAI que, em conjunto com muitos insiders de Silicon Valley, cientistas e engenheiros, pretende manter a inteligência artificial como uma “extensão das vontades humanas”, assente na premissa de que é tão difícil imaginar o quanto esta pode beneficiar a sociedade, como o quão perigosa a mesma pode vir a ser se construída ou usada de forma incorreta. De sublinhar também que Musk é um dos maiores investidores, em conjunto com Mark Zuckerberg do Facebook e o actor Ashton Kuchner, de uma empresa cujo principal objectivo é construir um robot que pense como uma pessoa, através de uma rede neural capaz de replicar a parte do cérebro que controla a visão, os movimentos do corpo e a linguagem. Todavia, é também da sua autoria a frase que reza que “com a inteligência artificial, poderemos estar a convocar o demónio”.

 

Superinteligência, superestupidez ou Xanax precisa-se?

 

 

Se, à luz da lógica e da inversão do ditado que afirma “casa roubada, trancas à porta”, estas iniciativas e movimentos parecem fazer sentido, também é verdade que os progressos ditados pela inteligência artificial constituem terreno fértil para muita imaginação e fundamentalismo. Que o diga o filósofo sueco Nick Bostrom, professor em Oxford e amigo e aliado intelectual de Tegmark, autor do livro “Superintelligence: Paths, Dangers, Strategies”. Bostrom é inigualável no que respeita a divisar cenários apocalípticos e, como refere Aschenbach, na sua mente “a extinção humana poderá ser só o início”. Se assim for, na verdade, não teremos muito com que nos preocupar, visto já termos entretanto desaparecido. Mas se existem muitos tecnoprofetas da desgraça - como existem outros tantos que passam a sua vida a tentar acertar no dia do juízo final – o que mais impressiona em Bostrom, fundador da Humanity +, uma organização internacional que defende a utilização ética da tecnologia para a expansão das capacidades humanas e também do Institute for Ethics & Emerging Technologies, é o facto de ser um académico mundialmente respeitado.

Muito resumidamente, a história que conta no seu mais recente livro tem como premissa uma determinada máquina (programada para fazer clips) que vai ganhando inteligência e poder contínuos sem nunca desenvolver quaisquer valores humanos, e que acaba por transformar, quando atinge a sua superinteligência, toda a Terra - inclusive a raça humana – em … clips. Sim, está na hora do leitor sorrir e convencer-se que Bostrom é completamente lunático. Mas bastará ler o resumo do livro disponível na Internet ou pesquisar um pouco mais acerca de Bostrom para, pelo menos, lhe dar algum crédito. Crente que chegará a altura, mais ou cedo mais tarde, em que os “cérebros das máquinas” ultrapassarão os dos humanos em termos de intelecto, gerando-se a tal superinteligência, será esta a poder substituir os humanos como forma de vida dominante na Terra. Máquinas suficientemente inteligentes poderão aperfeiçoar as suas capacidades de uma forma muito mais rápida comparativamente às dos cientistas humanos. E, como escreve “tal como o destino dos gorilas depende agora mais dos humanos do que das suas próprias ações, o mesmo acontecerá com o destino da humanidade futura, a qual dependerá das ações das máquinas superinteligentes”.

Apesar do tom catastrófico assumido por Bostrom nos seus livros, papers e nas inúmeras conferências que profere no mundo académico e científico, o filósofo é a favor da criação desta superinteligência, mas apenas se a mesma for alvo de uma cuidada e apertada vigilância, com salvaguardas suficientes que assegurem que estas máquinas não escaparão ao controlo humano e que não colocarão em perigo a existência futura da humanidade.

Bostrom é considerado como um dos expoentes máximos em termos de “ansiedade” face ao futuro da tecnologia. Mas e como refere o jornalista do Washington Post que acompanha esta área, esta “ansiedade” parece estar a ganhar cada vez mais adeptos, sendo similar à paranoia que se instalou nos anos 50 do século passado, quando óvnis e extraterrestres povoavam o imaginário humano e as telas de Hollywood. E dá um exemplo de um dos cenários imaginados por Bostrom: “imagine que os engenheiros humanos programam as máquinas para, e seguindo a regra de Asimov, não magoarem nunca os seus ‘criadores’. Mas vá ainda mais longe e imagine que as máquinas decidem que a melhor forma de obedecerem ao comando ‘não-magoar-os-humanos’ será através de uma prevenção ‘radical’ que passará por acabar com o nascimento de qualquer um deles”.

Apesar de o filósofo sueco não afirmar que isto vai acontecer (fazê-lo seria o mesmo que assumir uma completa insanidade) e de concordar que, graças às tecnologias, somos todos testemunhas de alterações radicais no que respeita à população humana e à prosperidade económica, na sua visão “a existência moderna é uma anomalia, criada em grande parte pela tecnologia, visto que as nossas ferramentas conseguiram esmagar, subitamente, as restrições da natureza”. Ou, como defende também, “estamos no comando agora ou pelo menos parecemos estar”. Por enquanto.

Bostrom, que pertence também ao quadro de fundadores do Future of Life Institute não está, de todo, sozinho, nesta cruzada e, tal como Hawking surpreendeu o mundo ao afirmar que “a IA pode vir a ser o maior erro cometido na nossa História”, os resultados que se seguiram a uma conferência, organizada por Tegmark para discutir as potenciais ameaças da IA, são dignos de reflexão: em pouco tempo, e em conjunto com os 10 milhões de dólares oferecidos por Elon Musk para financiar a pesquisa do FLI, 300 equipas de investigadores enviaram propostas para diminuir os potenciais riscos da inteligência artificial.

Claro que entre a comunidade científica as opiniões são muito divergentes. Por exemplo, Boriz Katz, também ele investigador em IA no MIT, afirma que, ao contrário do que defende Bostrom, “o que estamos a fazer hoje é produzir entidades super-estúpidas que cometem erros”, afirma. “As máquinas são perigosas porque lhes estamos a dar demasiado poder, poder esse que serve para agirem como resposta a inputs sensoriais. Mas o problema é que estas regras não estão a ser convenientemente pensadas, o que resulta em que, por vezes, a máquina aja da forma errada”, acrescenta, assegurando ainda que isto acontece, mas nada tem a ver com a possibilidade de as máquinas nos quererem matar.

Aleluia, diremos nós, respirando de alívio. Mas, se voltarmos às visões da dupla Tegmark e Bostrom, que acreditam piamente que “a inteligência humana ocupa apenas um espaço minúsculo no grande esquema das coisas” e que será a nossa inteligência que nos permitirá “go galactic ou intergalactic”, Bostrom está convencido que será a IA a abrir portas a um conjunto alargado de possibilidades e capacidades e “que permitirá a colonização espacial ilimitada, o upload de mentes humanas nos computadores e também civilizações intergalácticas com mentes de dimensão planetária que viverão ao longo de milhares de milhões de anos”.

E, mais uma vez, este Bostrom é louco? É tão alegadamente louco que sublinha também que “se não excluímos a hipótese de que uma máquina possa criar uma simulação da existência humana, teremos de assumir que é extremamente provável que já estejamos a viver no interior dessa mesma simulação”. Se o filósofo é fã da trilogia Matrix, não sabemos. Mas a verdade é que ele não nega a possibilidade de ele próprio estar já numa máquina com esta natureza.

Quanto a Einstein e depois dos 100 anos que tiveram de passar para que a sua teoria fosse comprovada, foi também visionário quando afirmou que “se está a tornar assustadoramente obvio que a nossa tecnologia tenha ultrapassado a nossa humanidade”. Ao que Minsky provavelmente responderia com uma frase que também o tornou famoso: “nenhum computador foi ainda concebido para ter consciência daquilo que está a fazer; mas, e na maior parte do tempo, o mesmo acontece com os humanos”.

 

 

 

publicado às 11:17

Impostos: Você é concorrente. Venha daí jogar

Por: Rute Sousa Vasco

 

Não sou fã de concursos, nunca acreditei na sorte ao jogo e talvez por isso não senti qualquer emoção forte quando, a 6 de fevereiro de 2014, o Governo de Passos Coelho aprovou a criação de um sorteio chamado “Fatura da Sorte” com a finalidade de “valorizar e premiar a cidadania fiscal dos contribuintes”.

 

Mais tarde, nesse mesmo dia, o então ministro da Presidência, Luís Marques Guedes, anunciou que o sorteio fiscal iria ser televisionado e iria ter como prémio um automóvel.

 

Nesta altura, além do meu descrédito no jogo, recordo ter ficado um bocadinho mais amarrotada no meu orgulho enquanto cidadã de um Estado que gere a sua cidadania fiscal na base do jogo, da sorte e da televisão.

 

A verdade é que quem sabe, sabe. Um prémio que passa por juntar cupões por cada dez euros de facturas pedidas e que, no final, promete um carro de topo de gama tocou fundo aos portugueses. É a versão sorte aos impostos no campeonato da sorte ao jogo. E o afã com que, a partir dessa data, vi os cidadãos-contribuintes em cafés, mercearias, cabeleireiros – esses grandes evasores fiscais, com dinheiro nas mais conceituadas off-shores – a solicitar uma factura por aquelas transação de 0,60 cêntimos provou-me que não percebo nada dessa alavanca que move o sentimento de cidadania do povo. Afinal todos queremos ser excêntricos e custa tão pouco, basta uma factura e quem sabe até vou de carrinho dali a uns dias.

 

Parece que não é uma atitude lá muito europeia, mas também, caramba, se não devemos ser carneiros da Europa para umas coisas, também podemos manter as nossas idiossinacrasias noutras. Segundo um estudo da consultora PricewaterhouseCoopers (PwC), divulgado em Abril de 2014, na zona euro apenas a Eslováquia contava também com um sorteio fiscal para estimular a cidadania, atribuindo prémios em dinheiro e automóveis. E com resultados motivadores para os cofres do Estado: nos dois primeiros meses da lotaria, a Eslováquia tinha arrecadado receitas adicionais de IVA na ordem dos 130 milhões. Fora da zona euro, outros países como o Brasil, a Argentina, a Colômbia, Porto Rico ou Taiwan adoptaram soluções idênticas à “Fatura da Sorte” de Portugal.

 

Por cá, segundo dados do ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, citado pelo DN em dezembro do ano passado, a coisa também correu bem. Entre 2013 e 2014, o número de faturas comunicadas ao fisco aumentou 12,3% (passando de 4,28 mil milhões para 4,80 mil milhões) e as faturas com NIF (as relevantes para o sorteio) subiram 36,3 %, ultrapassando 635 milhões.

 

No princípio, a Quercus ainda disse que não era uma medida lá muito sustentável sortear carros de alta cilindrada. E o secretário-geral da Deco criticou um sorteio que considerou uma “versão pimba” do Ministério das Finanças, ou, nas palavras do bastonário da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas (OTOC), uma “visão folclórica” pouco dignificante do acto tributário.

 

Quase 100 carros sorteados depois, os factos ficaram à vista: os portugueses são concorrentes ao grande jogo dos impostos e gostam.

 

Até que esta semana aconteceram duas coisas.

 

O portal E-Fatura onde se validam as facturas registadas soluçou por vários dias e bloqueou na recta final do prazo para validação das facturas de 2015. Depois de umas respostas engasgadas e de muita indignação, o Governo anunciou que prolongava o prazo até dia 22 de fevereiro. E, na mesma semana, foi confirmada a substituição dos carros de topo de gama por certificados de aforro. O valor é o mesmo, o aparato é que não.

 

Destas duas ocorrências, ligadas entre si no espírito de cidadania fiscal, há algumas coisas que dão que pensar.

 

A primeira é que os incentivos começam por definir o tipo de políticos que temos mas, no fim do dia, retratam sempre o povo que estes mesmos políticos servem. E explicam muito da perpetuação de tantos vícios e dogmas da governação em Portugal.

 

A segunda é que quando aceitamos ser contribuintes-jogadores, não podemos mudar as regras quando a consola encrava. É aguentar, como dizia alguém, até voltar a jogar.

 

Para mim, que não gosto de sorteios e não acredito em jogos de sorte e azar, resume-se assim: nem jogadores, nem soldados à força do grande exército fiscal. Basta ir ver o Bruno Nogueira e a Manuela Azevedo no espectáculo “Deixem o Pimba em paz” para perceber que o pimba pode ter muita pinta, ser digno e encher salas. A cidadania também.

 

Tenham um bom fim de semana.

 

Sugestões de leitura

 

Agora que estamos oficialmente em contagem decrescente para os Óscares, o Netflix teima em não nos dar sossego. Este Love é mais uma razão para ficar em casa.

 

É um artigo longo do escritor e ex-ministro da Cultura espanhol, César Antonio Molina, mas vale a leitura. É sobre a esperança.

publicado às 11:04

O eucalipto na floresta

Por: Pedro Rolo Duarte

 

A notícia começa a ser recorrente: um jornal que decide “migrar” para o digital e deixar a versão em papel impresso, ou mesmo (como aconteceu com a revista FHM) fechar de vez e terminar um ciclo de vida. Esta semana, depois de meses de boataria, foi o britânico The Independent - e o excelente dominical complementar Independent on Sunday - que marcaram o final de Março para o fecho das respectivas edições impressas. Dos 500 mil exemplares diários de há dez anos caíram, sem apelo nem agravo, para os 50 mil actuais. Ou seja, 450 mil pessoas deixaram de comprar aquele jornal. 90% dos seus consumidores.

 

O facto já não surpreende ninguém - o mundo da informação mudou radicalmente desde que a Internet se tornou acessível a todos, e as novas gerações, que já cresceram a obter gratuitamente informação em cima da hora, não querem pagar pela manhã cadernos de papel desactualizados há horas.

 

Sobra a opinião, a análise, a investigação, e a própria hierarquização da informação. Mas essas coisas são caras - nem os jornais que ainda restam em papel querem pagá-las, nem os leitores parecem muito entusiasmados com o assunto. No limite, alguém copia a crónica do Miguel Esteves Cardoso, do Vasco Pulido Valente, ou da Clara Ferreira Alves, consegue postar no Facebook, e toda a gente acaba por ter acesso ao que ainda justificaria a ninharia que custa um jornal. Para quem, como eu, nasceu e cresceu com o hábito do jornal diário - aqui ou em qualquer parte do mundo - esta dura mudança dói. Dói muito. É inexorável - se tivesse nascido neste tempo, faria parte dela. Só mesmo a teimosia e o vício me fazem resistir…

 

Mas, por outro lado, sem culpas para assacar nem alternativas para oferecer, é difícil encontrar saídas. Para ainda conseguirem sobreviver, os jornais em papel têm de ser geridos com pinças - ou seja, rigor e pouco dinheiro -, e isso retira-lhes o poder de constituírem o ultimo reduto do saber. Já não há a figura do velho sábio nos jornais. Não podem, por outro lado, ser mais rápidos que a sua própria sombra, no caso a edição online. Se se antecipam à edição impressa, perdem o valor acrescentado. Se esperam por ela, correm o risco de perder o fluxo de informação.

 

No quadro existente, a ideia de um jornal diário, impresso em papel, e fechado pelo menos 8 horas antes de estar à venda é, em si, um contra-senso. E o leitor não é parvo. Porém, continua a não haver nada semelhante a um recorte de jornal para credibilizar uma noticia - como nenhum canal de informação resiste a um olhar sobre as primeiras páginas do dia seguinte antes de fechar a noite. Aqui chegado, e vendo morrer mais um (bom) titulo em papel, The Independent, num egoísmo meio parvo mas ao mesmo tempo realista, agradeço aos meus pais terem tido a “generosidade” de me produzirem a tempo de viver todos estes tempos - o dos jornais à antiga, máquina de escrever e montagem à mão, depois a chegada da informática que os profissionalizou, e ainda o tempo da net - que lhes deu uma segunda vida e aparentemente mais estrada…

 

Sou sincero: preferia não estar cá para ver a morte de projectos como The Independent - que vi nascer e era, há 30 anos, o futuro de uma imprensa viva, opinativa, assertiva, de jornalismo real, ligada à imagem, atenta ao design. Pelos vistos, não chegou. Tenho a tentação de dizer, parecendo um velho do Restelo, que a Internet é mesmo o eucalipto desta floresta cheia de diversidade onde cresci e me fiz homem. Nada contra o eucalipto - mas que seca tudo à sua volta, lá isso seca.

 

Coisas que me deixaram a pensar esta semana

 

 

Ainda sobre a morte (em papel) do diário britânico The Independent, sugiro a leitura desta análise de Andrew Marr, que chegou a ser editor do jornal, mas é mais conhecido como um dos pesos-pesados dos media ingleses, nomeadamente na BBC.

 

O livro “American Girls: Social Media and the Secret Life of Teenagers” resulta de um estudo de Nancy Jo Sales sobre a forma como a exibição de imagens pessoais nas redes sociais - nomeadamente de jovens em poses mais ou menos provocadoras - pode mudar a mentalidade e a forma de encarar o sexo das gerações que neste momento se formam no mundo ocidental. Se pensarmos que 92% das crianças americanas têm uma presença online antes dos 2 anos de idade, dá para imaginar a bola de neve em que tudo se transforma. A revista Time, na sua excelente newsletter, resume o livro. E deixa-nos a pensar…

 

No mundo da imprensa económica, inovar não é um verbo muito usado. Porém, em Espanha, a edição local da norte-americana “Forbes”, é uma lição de ousadia, inovação e criatividade. Não se vende em Portugal mas é possível assiná-la na rede. E dar-lhe uma vista de olhos no site da revista. Merece.

 

publicado às 09:42

Referendos a liberdades individuais? Não, obrigado

Por: Paulo Ferreira

 

O conservadorismo moral e comportamental é absolutamente legítimo e cada um deve praticar o que quer para si. O que já não é legítimo é que os que o escolhem para si no uso da sua inalienável liberdade e em nome do ideal de sociedade que defendem, o queiram impor ao resto dos cidadãos.

 

É sempre assim. Não há tema dito fracturante que se discuta sem que o referendo seja chamado à conversa. Agora é a eutanásia, antes tinha sido o aborto. Vá lá que o casamento homossexual escapou sem se ter levantado grande vozeria a defender que o povo devia ser consultado.

 

É o exercício mais puro da democracia, dizem, ouvir os cidadãos em questões que dividem a sociedade. Discordo. Quando estão em causa liberdades individuais que não interferem em direitos alheios - e é só destas que falo - “chutar” a decisão para referendo é a) uma hipocrisia dos representantes eleitos do povo, que não querem ter o onús de decidir temas polémicos e b) é dizer a cada um dos cidadãos que ele tem todo o direito não só de de opiniar como de decidir sobre a vida privada e íntima do vizinho. Reforço, para que não restem dúvidas: quando está em causa o exercício de um direito próprio, de decisão individual, que não coloca em causa nenhum outro direito de terceiros, que legitimidade temos para, colectivamente, condicionar essa decisão? A eutanásia é um desses temas.

 

Defendo que deve ser concedido o direito a uma morte digna a doentes terminais que a ciência médica considera inequivocamente irrecuperáveis e que esse direito deve poder ser exercido por vontade consciente e manifesta do próprio. Se esse direito vier a ser legalizado com todos os cuidados que o tema impõe ninguém, nunca, está obrigado a exercê-lo. A decisão cabe sempre ao íntimo de cada um, em decisão individual ou familiar. Mas, e a perversidade está aqui, a não legalização da eutanásia condiciona e interfere na liberdade individual dos que preferiam exercê-la nas condições extremas em que pode ser aplicada.

 

O que se passa sempre nestes debates sobre questões comportamentais e liberdades individuais é que a fatia importante da sociedade que tem princípios mais conservadores tenta impor esses seus princípios a todos. O conservadorismo moral e comportamental é absolutamente legítimo e cada um deve escolher e praticar o que quer para si. O que já não é legítimo é que os que o escolhem para si no uso da sua inalienável liberdade e em nome do ideal de sociedade que defendem, o queiram impor ao resto dos cidadãos.

 

Referendar questões destas tem a perversidade de transmitir aos cidadãos que cada um deles tem uma palavra a dizer sobre os comportamentos alheios, interferindo na sua esfera de liberdades individuais. É dar a cada eleitor uma voz que é, a meu ver, ilegítima. Eu não quero decidir se o vizinho pode ou não praticar eutanásia, colocando-se-lhe essa questão. Nem tão pouco se ele pode ou não casar com uma pessoa do mesmo sexo. É com ele. Independentemente das opções dele, as minhas ficam intactas. Ele pode decidir que sim e eu que não, com a mesma legitimidade. E se ele não pode impor-me o sim eu não devo contribuir para impor-lhe o não.

 

Então e 230 deputados podem fazê-lo? Podem e devem. É para isso que são eleitos. Para tomar decisões informadas, esclarecidas, sustentadas pela melhor evidência científica, quando for caso disso. E para depois serem avaliados pelos eleitores sobre as decisões que tomam.

 

Querem referendar coisas? Aqui vai uma lista de temas sobre a organização do país (e não da casa de cada um), sobre direitos e deveres colectivos (e não individuais que em nada interferem com o colega do lado), sobre mudanças que interferem sempre na vida de cada um: regionalização, Segurança Social, tectos máximos para impostos e despesa pública, manutenção ou saída do euro, sistema eleitoral, mudanças profundas na educação pública. Se queremos aprofundar a democracia directa temas não nos faltam. Tão fracturantes quanto os outros mas com uma enorme diferença: nestes somos todos afectados directa ou indirectamente e estamos sempre a decidir sobre os nossos direitos e deveres. É muito mais saudável do que querer decidir sobre o que o vizinho pode ou não fazer quando nada disso interfere na nossa vida.

 

Outras leituras

  • O smartphone mais barato do Mundo custa seis euros e é indiano. Porque a democratização da tecnologia é também um factor de combate à exclusão e as comunicações deixaram de ser um luxo e passaram a ser um bem essencial.

  • Nem tudo na Europa está feito e moldado à vontade alemã. O Banco Central Europeu é a prova disso.
publicado às 10:53

Este país também pode ser para os mais velhos?

Por: Francisco Sena Santos

 

A campanha presidencial em curso nos Estados Unidos da América sugere uma questão: como é que em Portugal estamos a lidar com os nossos mais velhos? Seria possível, numa sociedade como a nossa, tão deslumbrada com o culto de quem é jovem e telegénico, como fica evidenciado no sistema mediático, termos um político que no alto dos seus 74 anos seja um ídolo dos jovens? Acontece na América, com Bernie Sanders.


Este homem, candidato à sucessão de Obama na Casa Branca, aparece como um Dom Quixote frente aos moinhos de vento das elites da finança de Wall Street e da política de Washington. A mensagem dele é poderosa para jovens que perderam a esperança de ter esperança e assenta num ingrediente genuinamente americano: “está nas nossas mãos conseguirmos”.

 

Numa América desde sempre alérgica a qualquer influência marxista e onde falar de socialismo remete para a velha União Soviética, Bernie Sanders assume-se socialista. É facto que está sempre a explicar que entende o socialismo como um modelo social-democrata como o que funcionou nos países escandinavos. Mas ousa propor uma “revolução política” com medidas radicais na América onde prolifera a injustiça social: cuidados de saúde garantidos para todos, estudos superiores gratuitos, investimento maciço na criação de emprego decente, progressividade fiscal e aumento do salário mínimo para 15 dólares por hora. Fica, no entanto em silêncio sobre o divisivo tema da posse por quase todos de armas de fogo.


Bernie Sanders, com a cara cheia de rugas, óculos espessos, cabelo branco, velho leão solitário da esquerda americana, surge nesta campanha americana como ícone do progressismo democrático contemporâneo: ele faz a ponte entre a contra-cultura dos anos 60 e 70 do século XX e os novos movimentos de protesto nascidos com a agitação de Occupy Wall Street. Discursa com grande ferocidade moral. Não deixa de ser agreste com os jornalistas quando estes lhe colocam perguntas que ele considera frívolas. É aclamado pelos apoiantes – que vestem t-shirts onde se lê I love you Bernie, A future to believe in ou Feel the Bern - como se fosse uma estrela rock.


A eleição presidencial nos Estados Unidos decide-se no próximo 8 de novembro. Até ao verão, os dois grandes partidos políticos dos EUA, o Democrata e o Republicano, apuram em primárias, em cada um dos 50 estados, a escolha do seu candidato para a finalíssima em novembro.


É bem provável que o lado republicano (o que se coloca mais à direita, o partido que foi de Reagan e é dos Bush) chegue à convenção marcada para 18 a 21 de julho, em Cleveland, sem que algum dos aspirantes (Trump, Cruz, Rubio, Bush ou outros) se imponha à partida. Adivinha-se que ninguém tenha maioria absoluta de delegados. A ser assim, será uma convenção republicana aberta de resultado muito incerto, como não acontece há décadas.

 

Há que não menosprezar Donald Trump, o candidato multimilionário com os seus 70 anos disfarçados pela maquilhagem. Ele é, tal como Sanders, um candidato contra o sistema. Ambos estão a divertir-se nesta campanha. E o insurgente Trump, apesar do seu machismo e da rudeza do seu discurso populista e xenófobo, nem será entre os candidatos republicanos o que poderia provocar maior caos se fosse eleito. Os outros não expõem tanto o ridículo mas cultivam mais a divisão.


No campo dos democratas, Hillary Clinton partiu superfavorita: no verão passado, as sondagens davam-lhe mais de 60% das intenções de voto enquanto Bernie Sanders não chegava aos 10%. As primárias começaram neste fevereiro e Bernie Sanders tornou-se a surpresa: empatou com Hillary no Iowa e impôs-se com enorme margem (20%!) no New Hampshire. Sabia-se que Sanders estaria em casa neste pequeno estado próspero no nordeste, mas não se esperava um triunfo tão claro. Uma vitória assim robusta pode fazer embalar o apoio a Sanders, permitir-lhe ampliar a emoção em torno da candidatura e mexer com as previsões favoráveis a Hillary nas próximas duas primárias, no Nevada e na Carolina do Sul. Mas é improvável que Sanders possa resistir ao aparelho de Hillary na “super terça-feira” 1 de março, com 12 eleições primárias. Sabe-se que Hillary tem de há muito vantagem no voto negro e hispânico. Então, a mulher do ex-presidente Bill Clinton tenderá a descolar e a impor-se na corrida do lado democrata.

 

Tudo ainda pode acontecer, com Bernie a beneficiar de novas formas de mobilização política e de financiamento participativo, mas é pouco provável que sequer consiga aguentar até ao verão um ombro a ombro com Hillary. No entanto, o efeito Bernie Sanders pode ser devastador para a candidata: mostrou como ela tem falta de idealismo mobilizador. Ele, Bernie, aparece como uma pessoa autêntica, imagem que não cola à figura de Hillary, uma acrobata política, uma política de um sistema que gera uma grande vaga de hostilidade.


No meio de toda esta indefinição, pode ainda vir a surgir Michael Bloomberg, o multimilionário liberal, ex-mayor de Nova Iorque, a apresentar-se como o independente, moderado, que consegue atrair e juntar pedaços da América exasperada que não se revê em nenhum dos candidatos. Pode vir a tentar impor-se como o centro de uma América moderna.


Tudo está em aberto nesta eleição do sucessor de Obama. É possível que o impacto da crise de 2008-2009 sobre o imaginário de uma parte da América esteja a abrir uma brecha no ciclo político. Por agora, a estrela é Bernie Sanders.


Voltando ao princípio: seria possível, no actual sistema social português, um homem com 74 anos e que se assume veterano conseguir desencadear uma onda emocional com assim vasta mobilização dos sub-30?

Também a ter em conta

A morte de Antonin Scalia, o falcão mais ultra-conservador entre os nove juízes no Supremo Tribunal dos Estados Unidos abre uma batalha política em que Obama tenta virar a balança do Supremo a favor do lado progressista. Scalia chegou ao Supremo, com nomeação vitalícia, por Reagan, em 1986. Até agora o Supremo americano, comparável a um tribunal constitucional, tinha quatro juízes conservadores, quatro progressistas e um, Anthony Kennedy, cujo voto oscilava entre os dois campos. A escolha pode mudar a decisão política nos Estados Unidos.

O papa Francisco em Chiapas, diante de 100 mil indígenas, pede-lhes perdão pelo modo como são “sistematicamente excluídos da sociedade” e “expostos à cultura que tenta suprimir-lhes a cultura”.

A praia da Salema, no Algarve, entre as melhores do mundo na lista do The Guardian.

Uma primeira página escolhida hoje entre as reproduzidas pelo SAPO JORNAIS. E também esta. E como será a vida futura de tantos milhões de crianças e adolescentes sírios que cresceram a testemunhar a devastação e a fugir ao inferno?

publicado às 07:57

Um Governo à medida...

Por: António Costa

 

António Costa entrou em São Bento a promover uma viragem na página da austeridade, uma coisa que, como sabemos, nem chegou a ser, a página foi, no limite, virada do avesso com este orçamento e a respetiva errata. Ficou um governo à medida, à medida dos funcionários públicos, dos pensionistas e dos empresários da restauração, e pelos vistos Artur Santos Silva e Fernando Ulrich também querem acrescentar à lista o Caixabank.

 

A notícia – não desmentida – é do Expresso: “O Governo está a equacionar os ‘prós e contras’ de uma eventual alteração da lei que regula a blindagem de estatutos nas sociedades cotadas e as ofertas públicas de aquisição (OPA). Uma revisão da lei do Código de Valores Mobiliários que permitiria, em circunstâncias especiais, deixar cair as limitações estatutárias, nomeadamente a limitação do uso dos direitos de voto (...) A alteração que está a ser estudada pelo Executivo de António Costa facilitaria uma nova oferta pública de aquisição (OPA) do grupo espanhol La Caixa sobre o BPI. E está a ser equacionada, sabe o Expresso, no atual contexto com que se depara o banco liderado por Fernando Ulrich — está em marcha uma proposta da Comissão Executiva para desblindar os estatutos, e já conta com a oposição da Santoro de Isabel dos Santos (18,6%) e do grupo Violas (2,68%)”. É mesmo assim, fica a citação, para não ficarem dúvidas.

 

O Governo está a estudar uma lei à medida de um caso que deveriam ser os acionistas privados a resolver, está a admitir intrometer-se num diferendo privado e, mesmo tratando-se de um banco, se há alguma instituição que tem de ser chamada a envolver-se é o BCE, eventualmente o Banco de Portugal, se e só se o BPI deixar de cumprir os rácios de solvabilidade ou se entrar em situação de rutura de gestão.

 

Este Governo à medida é ainda pior, porque está a admitir entrar num conflito, favorecendo uns acionistas – neste caso, um, o CaixaBank – contra outros, não só Isabel dos Santos, mas também o grupo Violas e, sobretudo, os milhares de pequenos acionistas que serão prejudicados se os catalães tiverem a oportunidade de lançar uma OPA sobre o BPI. Porquê? Porque, caso se verifique mesmo o fim dos direitos de voto no BPI que estão hoje fixados em 20% do capital, o CaixaBank, que tem 44%, seria obrigado a lançar uma oferta, mas a que preço? O Conselho de Administração do BPI, ainda há um ano, fixou como mínimo os 2,25 euros por ação, muito acima da OPA entretanto lançada pelos catalães, que foi de 1,325 euros por ação.

 

Como é evidente para todos, incluindo Santos Silva e Ulrich, e também para o Governo, uma OPA agora seria lançada ao preço mínimo obrigatório, isto é, abaixo de um euro, tendo em conta que está, agora, em torno dos nove cêntimos. Pelos vistos, quem está a estudar tais soluções não está preocupado com as perdas que se perspetivariam no caso de uma OPA. Percebe-se, não é o seu dinheiro que está em causa.

 

Os acionistas do BPI têm de encontrar uma solução para um divórcio anunciado. Definitivamente, os catalães, os angolanos e os portugueses não falam a mesma língua, e, neste caso, o que parece óbvio hoje é que o Caixabank não está disposto a pagar pelo que quer, prefere os bastidores, a secretaria, e quer que o Governo alinhe numa estratégia à medida, para ficar com o BPI ‘de borla’.

 

Esta é a árvore. A floresta é ainda pior. O mercado de capitais português já quase não existe, o PSI20 já é PSI17 e as perspetivas são para diminuir. Então, qual é a melhor forma de acelerar uma morte lenta? Um governo à medida de um grande acionista contra todos os outros. Depois do que sucedeu no Novo Banco com os obrigacionistas seniores, não (nos) faltava mais nada. Só mesmo enviar uma nota às agências de rating para garantir que não lhes escapa nada.

 

As escolhas

 

Imperdíveis são os vídeos do primeiro-ministro. E não é pelas melhores razões. António Costa não está satisfeito com a forma como a comunicação social noticia o Orçamento do Estado para 2016 – porque será? – e quer agora falar diretamente aos portugueses. A recriação das conversas de família em versão ‘redes sociais’ é mais do que uma explicação das opções, é uma ação de propaganda sem contraditório. Que deve ver, para saber como é.

 

Não é uma escolha, é mais uma obrigação e uma necessidade... Termina hoje o prazo para validar as suas faturas no sistema E-Fatura. Com os níveis de carga fiscal que já suportamos, se calhar convém não perder a oportunidade de deduzir alguns dos custos que teve ao longo do ano de 2015.

 

As decisões políticas fazem-se, e muito, de economia, já sabíamos. No momento em que o Reino Unido discute e vai referendar a sua permanência na União Europeia, o HSCB admitia mudar a sua sede de Londres para Hong Kong. Mas não passou de uma ideia. O maior banco do mundo vai ‘continuar’ em Londres, um bom trunfo para os defensores do sim à União Europeia.

 

Tenha uma boa semana

publicado às 09:24

Afinal, porque nos beijamos?

Por: Pedro Fonseca

 

O dia 14 de Fevereiro é, provavelmente, o dia em que mais beijos de amor são trocados. Mas porque nos osculamos neste chamado dia dos namorados? E porque roçamos as nossas bochechas com as de outras pessoas nos restantes dias?

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 O beijo, "durante uns instantes, suspende a realidade e o mundo é perfeito", permitindo o esquecimento "das banalidades" diárias, explicava o antropólogo Marcel Danesi no The Guardian. Mas o ritual do beijo (nomeadamente na boca) não é generalizado e não está relacionado com o sexo, tanto que certas sociedades até o desincentivaram por variadas razões. No entanto, é uma prática com muitos séculos. Textos da Índia antiga e o próprio Kama Sutra abordam os beijos, lembra o psiquiatra Neel Burton em "The History of Kissing", na revista "Psychology Today".

 

No século V antes de Cristo, também Heródoto fala do beijo entre os persas, "que saudavam os homens de igual valor com um beijo na boca e os de classificação ligeiramente inferior com um beijo na bochecha". Os egípcios, segundo o Antigo Testamento, igualmente se beijavam, com o exemplo de um amante a pedir: "beije-me ele com os beijos da sua boca, porque o seu amor é melhor do que o vinho".

 

Os romanos prosseguiram a arte da osculação, beijando "os seus parceiros ou amantes, família e amigos, e governantes". O beijo distinguia-se de ser "na mão ou no rosto (osculum) de um beijo nos lábios (basium) e de um beijo profundo ou apaixonado (savolium)", nota Burton, tendo importância na forma como se beijava o imperador, "da bochecha ao pé", assim como nos casamentos, com o beijo entre casal a ser efectuado perante uma assembleia, numa "prática que continuou até aos nossos dias".

 

Praticamente eliminada foi a prática do beijo facial entre cristãos - o chamado "beijo sagrado" que estava "associado à transferência do espírito" -, devido ao infame beijo de Judas antes de trair Cristo. No entanto, "fora da igreja, o beijo era usado para cimentar a posição e a ordem social", beijando-se "o manto do rei ou o anel ou os chinelos do Papa".

 

"O beijo nos lábios 'romântico' (não 'sexual') é uma invenção que surge, com toda a probabilidade, das tradições medievais do amor cortês", impregnado do amor "verdadeiro" e não das relações estabelecidas entre hierarquias ou famílias, segundo Danesi. Esse beijo romântico parece ter ressurgido com "o amor cortês". As origens desse beijo romântico remontam pelo menos ao século XIII, com Paolo e Francesca imortalizados pelo poeta Dante Alighieri no seu "Inferno". Francesca de Rimini rejeita Giovanni Malatesta num acordo entre famílias para optar pelo irmão Paolo, numa união reproduzida posteriormente na escultura "O beijo", de Rodin. É uma história forte e triste, também mais tarde retratada com o "pecado" labial entre Romeu e Julieta, que esta considera "irresistível", ainda segundo o testemunho de Danesi.

 

Neste tipo de "literatura do amor cortês, as mulheres aparecem retratadas como seres 'angélicos'" e não como objectos sexuais, porque o beijo era entendido "como um caminho para o amor espiritual". O "beijo transporta os amantes para outro plano de existência", diz Danesi, e é "um intoxicante 'elixir'". Mas o beijo não é universal entre os seres humanos e algumas culturas nem sequer o consideram. "Isto sugere que beijar não é inato ou intuitivo", explica Neel Burton.

 

"Outra possibilidade é que o beijo é um comportamento aprendido que evoluiu do 'beijo alimentar', o processo pelo qual as mães nalgumas culturas alimentam os seus bebés, passando comida mastigada boca-a-boca. No entanto, existem algumas culturas indígenas modernas em que o beijo alimentar é praticado, mas não o beijo social. Beijar também pode ser uma forma culturalmente determinada de comportamento de limpeza ou, pelo menos, no caso de profundo ou erótico beijo, uma representação, um substituto e complementar à relação sexual com penetração".

 

Qualquer que seja a explicação, diz Burton, "o comportamento de beijar não é exclusivo dos seres humanos", e outras espécies o fazem, provavelmente para se prepararem, cheirarem ou comunicarem entre si, "mas mesmo assim o seu comportamento implica e fortalece a confiança e o vínculo".

 

Créditos da imagem: AUGUST RODIN O beijo (detalhe) [Mus. Rodin - Paris]

publicado às 12:00

Desculpe-me, senhor presidente, não queria faltar-lhe ao respeito

Por: Rute Sousa Vasco

Fazer rir é difícil. É muito mais difícil do que fazer chorar. Fazer humor é, por inerência, mais difícil do que fazer drama e em Portugal é ainda mais difícil. Desde a falta de inteligência até ao excesso de preconceitos, vale quase tudo para que vingue o grande desígnio da nação que é, continua a ser, “o respeitinho é muito bonito”.

 

Vem isto a propósito do filme protagonizado por Johnny Depp – sim, Johnny Depp, o pirata, aquele a que qualquer bom pai de família acha piada numa matiné de domingo à tarde – e que, basicamente, faz o que tem de ser feito quando o tema é Donald Trump. E que é, por mar, por terra ou por ar, explicar aos americanos que se não percebem que o homem é perigoso, percebam pelo menos que é ridículo. E que essa é uma razão de peso para não o elegerem presidente da nação mais poderosa do mundo, porque os efeitos seriam à escala planetária.

 

Donald Trump’s The Art of the Deal: The Movie estreou e foi produzido pelo site "Funny or Die", um projecto que envolve vários nomes do cinema e da televisão americana (entre os quais está, por exemplo, Adam McKay, realizador do filme The Big Short em exibição nos cinemas e que é outra forma de fazer política e cidadania, além, naturalmente, de espectáculo). E Donald Trump’s The Art of the Deal: The Movie  estreou exactamente no mesmo dia em que Donald Trump confirmou a sua vitória nas primárias americanas no estado de New Hamphire. O que por si só nos deveria fazer chorar em vez de rir.

 

Sobre o filme podem ler toda a história aqui, no artigo ontem publicado pelo "Público". Ou ainda melhor, podem ver o filme aqui, no site "Funny or Die, sem qualquer restrição". Mas, acompanhem-me só mais um pouco, que o filme tem quase uma hora e só vos tomo mais cinco minutos.

 

Fazer humor, produzir documentários “sem respeitinho”, criar formatos para televisão, para um site, para uma rádio é hoje (foi sempre?) provavelmente das formas mais poderosas e eficazes de chegar às pessoas. Chegar às pessoas é o grande desígnio dos políticos e das marcas. Uns para serem eleitos, outros para serem consumidos. Mas em Portugal todo este discurso esbarra num medo asfixiante de “parecer mal”, de alguém fazer um telefonema a alguém a dizer que não gostou ou de simplesmente haver discussão, divergência, polémica em relação a um determinado tema. Que horror! Polémica! Que horror! Opiniões fortes e contraditórias! Que horror! Pessoas importantes que se sentiram incomodadas.

 

É provavelmente por esta razão que devemos ser o país recordista de boas ideias e bons projectos guardados na gaveta. É também provavelmente por isto que permanence tanto imobilismo e ignorância em temas que são realmente importantes para a vida das pessoas. E é garantidamente por isto que se espera que algumas das pessoas mais criativas do país salvem o mesmo país da sua indigência intelectual e cultural (e não, não estou a falar de coisas que só meia dúzia percebe e aplaude) mercê de serem miseravelmente pagos, se mesmo pagos. Os Gato Fedorento, que hoje todos querem ter, só nasceram porque uma televisão lhes deu espaço, mesmo que sem orçamento.

 

Um amigo que trabalha nestas coisas do humor disse-me um dia que um humorista nunca pede desculpa. Não por arrogância, mas por coerência. Humor é humor. E tem um papel chave para desconstruir coisas que “as pessoas sérias” dizem e que precisam ou devem ser desconstruídas.

 

Precisamos de pessoas inteligentes, curiosas, corajosas, livres e em funções com poder de decisão para que filmes como Donald Trump’s The Art of the Deal: The Movie ou The Big Short aconteçam em Portugal, entre tantas outras coisas. Isso, mais que tanta palestra e filme institucional maçador, vai de facto fazer a diferença e, como tanto se gosta de dizer, chegar às pessoas. Sem paternalismos, o problema não é o povo. O Eça já dizia que o problema são as elites. E não é que são mesmo?

 

Tenham um bom fim-de-semana e assistam a Donald Trump’s The Art of the Deal: The Movie 

 

OUTRAS LEITURAS 

 

As guerras perduram muito além do seu tempo e teimam em não ficar guardadas para todo o sempre nos livros da História. Esta semana começou o julgamento de um ex-guarda de Auschwitz, hoje com 94 anos. Vieram testemunhas de vários pontos do globo e durante os próximos meses os fantasmas da 2ª Guerra Mundial vão regressar a Detmold, na Alemanha.

 
Ainda não é hoje, mas um destes dias vamos voltar a este tema. É sobre as espantosas razões por que em 2016 as mulheres continuam a ganhar menos que os homens. Em Inglaterra as empresas com mais de 250 empregados vão ter de divulgar quanto pagam de salários e bónus a homens e mulheres. E, sabe-se lá porquê, não estão a gostar da ideia e conseguiram mais um adiamento.

publicado às 10:58

Vão de carrinho...

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Houve um tempo em que ter carro era coisa de rico. Reconheço a ideia em filmes dos anos 40 e 50 do século passado, e em muitos romances que recuam a essas décadas. Mas não era nascido na época em que o mundo ocidental considerava o automóvel um objecto de luxo.

 

Quando comecei a ter consciência de mim, na década de 70, o conceito era outro: qualquer um (em rigor, qualquer família…) podia ter o seu automóvel, “devia” ter o seu automóvel, porque havia modelos para todas as bolsas, e a mobilidade individual estava em plena expansão. Era o tempo do Fiat 127, do Opel Corsa, do Citroen AX, do Renault 5 - e a publicidade, que adoro rever (obrigado, You Tube, por existires!), exaltava o lado democrático da acessibilidade, o que me ajudou a crescer sem manias: ter carro era, em si, uma mais-valia - mas a diferença entre um FIAT e um BMW não me impressionava excessivamente…

 

Só voltei a preocupar-me com a questão no começo dos anos 80, quando tirei a carta e me confrontei com o preço dos carros, os seguros, os pneus, as revisões. O automóvel entrou na minha vida como na de toda a geração a que pertenço: indispensável para o trabalho e o namoro, mas uma despesa permanente. Quanto mais pobres, pior: o carro em segunda mão (sempre uma espécie de ovo kinder, nunca se sabia o que lá estava dentro…), os modelos novos baratos (porém cheios de defeitos, que se revelavam ao fim de poucos meses), os seguros muito caros para quem estava em começo de vida. Uma chatice. Quando estava à beira de decidir deixar de ter carro, a década mudou. Chegaram os anos 90.

 

Com eles vieram as modernices nos motores e tabliers, os créditos fáceis, as auto-estradas, e a falsa ideia de que qualquer pessoa, desde que trabalhasse e tivesse um rendimento acima do salário mínimo, podia ter o automóvel dos seus sonhos - desde que os sonhos não subissem a um Aston Martin ou a um Ferrari. Assim se modernizou um parque automóvel (parte boa) de uma população sem dinheiro para o pagar (parte má).

 

A crise, que na década passada decidiu tomar conta das nossas vidas, fez do sonho um tormento. Não foi apenas a impossibilidade repentina de cumprir as prestações e os leasings - foi o Estado a ver no universo automóvel mais um meio de sugar dinheiro para pagar a sua obesidade mórbida: imposto automóvel, portagens, impostos sobre gasolina, circulação, estacionamento pago na via publica. Vale tudo. E esta semana, perante a vergonhaça do Orçamento que chegou a Bruxelas, a resposta não se fez esperar: quem tem automóvel vai pagar mais 19% de impostos (rico ou pobre, tanto faz - coisa de esquerda, não é?!…), a ver se se conseguem arrecadar mais 580 milhões de euros de receita. Parece que vai nascer uma taxa para pagar a circulação entre a garagem do prédio e a rua…

 

Perante mais este atentado a quem vive do trabalho - e usa o carro maioritariamente para esse efeito -, voltei a ponderar deixar de o ter. Estudei percursos, alternativas, transportes públicos disponíveis. Consegui animar-me com a ideia - até me lembrar do pesadelo que vivi no Verão passado, quando achei “genial” a ideia de ir, sempre em transportes públicos, à Praia Grande (a 35 quilómetros de Lisboa), ver o meu filho trabalhar como nadador-salvador. É verdade que cheguei lá. Mas foi às 17:00, depois de três horas de comboios e camionetas. Porquê?

 

Porque o Estado, que decide agora aumentar em 19% os impostos sobre o universo automóvel, é o mesmo que privatiza - e ao fazê-lo, obriga a rentabilizar a quem comprou (isto é, reduzir horários e percursos) - o que era de todos: o transporte público. Com isso, mata as alternativas ao automóvel. Imobiliza os mais pobres, deixa via aberta aos mais ricos.

 

Dispensava com gosto o automóvel, cujo custo mensal é francamente superior ao beneficio que me dá - mas tinha alguma esperança de que uma “maioria de esquerda” cumprisse os desígnios que tradicionalmente lhe reconhecemos, e compensasse esse brutal ataque à classe média com medidas sociais: benefícios e melhorias na rede de transportes públicos. Nem isso sucede.

 

Parecem cheios de vontade de ir de carrinho. Não vai demorar muito tempo.

 

COISAS QUE ME DEIXARAM A PENSAR ESTA SEMANA

 

Confesso: tenho conta de Twitter, mas não uso nem consulto. De vez em quando recebo uns mails de sedução da plataforma, uma vez por outra leio citações na imprensa de pessoas importantes que publicaram coisas no Twitter. Sempre achei que escrever em cima da hora era o mesmo que escrever mal. Mantenho-me distante. Agora, saltam-me matérias, nos jornais e newsletters, pouco simpáticas sobre o Twitter. E até mesmo sobre alternativas como o Telegram. O que se passa?

  

Na segunda-feira que vem há festa no Cais do Sodré, em Lisboa. Festejam-se três anos de poesia dita, cantada, gritada, sussurrada, no bar O Povo. Já uma vez chamei a este encontro semanal “O milagre das segundas-feiras”: “Num país deprimido e triste, onde parece nada acontecer, e só ter sucesso o mínimo denominador comum, o milagres das segundas-feiras d’O Povo é o sinal mais animador da cidade e uma espécie de prova de vida regular da nossa existência”. A ideia mantém-se. E a vitalidade cresce. Um brinde à poesia n’O Povo e a festa mais do que merecida.

  

Para um americano, talvez não seja a mais clara e interessante das fontes - mas para um europeu, para mais pouco ligado a um processo eleitoral intrincado, confuso, e onde muitas vezes se confundem sondagens com eleições primárias, estados representativos com outros marcadamente democratas ou republicanos, e todo o processo eleitoral parece uma roleta de Las Vegas, a cobertura do britânico The Guardian é talvez a mais completa, transparente e esclarecedora, para a eleição deste ano. É a que leio, é o meu conselho.

 

 

 

publicado às 09:24

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