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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Os idiotas perderam a modéstia

Por: Rute Sousa Vasco

 

Não tens opinião? Não és ferozmente contra o livro de Henrique Raposo sobre o Alentejo ou inequivocamente a favor do fim dos happy meals para o menino e para a menina? Não tens opinião? Não achas abominável o fim dos exames de aferição ou inominável o processo de reversão da privatização da TAP? Não és absolutamente a favor ou contra o aborto, a eutanásia, as despesas do veterinário para efeitos de IRS, a baixa do IVA na restauração, e, já agora, o Trump, o Lula, o Brexit, o Estado Islâmico?

 

Não tens opinião?! Que triste. Como és digno da tua existência?

 

A vida pública transforma-se assustadoramente num derby contínuo e em ambiente de rivalidade primitiva. Todo e qualquer tema é passível de se tornar numa enorme questão fracturante da nação e todos aqueles que não tomem partido por um dos extremos são vistos como xoninhas.

 

A futebolização da vida pública está a assumir traços francamente assustadores, em Portugal, como no Brasil, nos Estados Unidos ou em tantos outros sítios.

 

Há quem veja nesta radicalização da ‘conversa pública’ um efeito directo da facebookização das nossas vidas. Ou, sendo mais precisa, da permanente ‘socialização’ das nossas vidas. Estamos sempre em contacto, sentimos necessidade de ter coisas para dizer e o enorme espaço online é propício à emergência dos egos dos valentaços. Depois, é o efeito liceu. Cada valentaço ergue a sua corte e as cortes de vários valentaços confrontam-se como modo de afirmação. Da discussão de temas políticos à adopção de animais, tudo é terreno fértil para que imploda a grande cisão.

 

Na realidade, desconfio que somos todos pessoas muito mais sensatas, equilibradas e até interessantes ao vivo.

 

Há uns meses, Salvador Martinha contava em conversa com Rui Unas no podcast Maluco Beleza um episódio sintomático disto tudo. Segundo o Salvador, "uma pessoa muito conhecida, um colega nosso" recebeu, a certa altura, uma mensagem privada de alguém que lhe  dizia que devia morrer e outras coisas suaves como esta. A pessoa visada ficou incomodada com a agressividade e foi ver ao perfil da pessoa que enviou a mensagem como o podia contactar. Ligou para a empresa onde trabalhava, pediu para falar com ele e quando foi atendido explicou quem era e porque ligava. Do outro lado, já não estava um valentaço indignado. Era só um tipo normal que pedia desculpas e dizia que era tudo um mal-entendido. “Era a brincar”.

 

A intolerância perante opiniões contrárias – pior que isso, a indisponibilidade sequer para ouvir outras opiniões – está a transformar o mundo num sítio mais e mais perigoso. Como se Putins, Assads, Kim Jong-uns e, como não?, Trumps se multiplicassem no meio de nós, as pessoas comuns, os cidadãos que votam. Ou o inverso – como se eles só existissem porque, por alguma razão do foro psicológico, precisamos de líderes extremados, desequilibrados, que sejam a frente visível da humanidade mais animal e mais primitiva.

 

Há uns dias, alguém me falava do valor incrível da conversa. De como é importante conseguir conversar e não apenas discutir. Conversar é coisa humana. Conversar é cada vez mais coisa de humanos evoluídos e não trogloditas num tempo em que o recuo civilizacional é diário.

 

Os idiotas perderam a modéstia. Li esta expressão num artigo publicado pelo jornal online brasileiro de nome muito próximo a este onde escrevo, o 247. A autoria é de um jornalista, escritor e dramaturgo brasileiro, Nelson Rodrigues. O artigo que a menciona tem um ano e meio e relata a agressão verbal e quase física a Gregório Duvivier, humorista da Porta dos Fundos, por ter declarado apoio à reeleição, à época, de Dilma Roussef.

 

Duvivier não estava num comício. Não estava em palco a fazer piadas. Não estava a discutir com ninguém. Estava num restaurante, no Rio de janeiro, simplesmente, a almoçar.

 

Tenham um bom fim de semana.

 

Outras sugestões

 

Já que falamos de Gregório Duvivier, de radicalização, de Brasil, e da opinião forte sobre tudo e nada, aqui fica uma crónica assinada pelo próprio.

 

Sobre extremismos e afins, aqui fica outra visão. A vitória de Donald Trump nas eleições americanas é tão perigosa quanto o avanço do jihadismo, considera o Economist Intelligence Unit no estudo sobre os dez maiores riscos para o mundo.

 

Versão corrigida a 21 de março às 12h15:

 

Na primeira versão deste texto, o parágrafo sobre o Salvador Martinha tinha uma redacção diferente. Mediante o alerta de um leitor, fica feita a correcção e a explicação aos leitores. O episódio em causa tinha sido relatado desta forma por alguém que conhece bem os vários interlocutores. O que não dispensa a validação dos detalhes exactos, sobretudo quando a história nos chega oralmente e lá diz o ditado que quem conta um conto, acrescenta um ponto. 

Feita a correcção à história - é o Salvador Martinha que a conta, mas não ele quem a protagoniza- mantém-se a moral que fez com que a escolhesse para ilustrar o tema da crónica: os indignados e os valentaços que todos os dias encontramos online.

 

Há uns meses, Salvador Martinha contava em conversa com Rui Unas no podcast Maluco Beleza um episódio sintomático disto tudo. O Salvador escreveu um texto e um determinado senhor que ele não conhecia não gostou. Para expressar o seu desagrado escreveu na página de Facebook do humorista que ele devia morrer e outras coisas suaves como esta. O Salvador ficou incomodado com a agressividade e foi ver ao perfil da pessoa que fez o comentário como o podia contactar. Ligou para a empresa onde trabalhava, pediu para falar com ele e quando foi atendido explicou quem era e porque ligava. Do outro lado, já não estava um valentaço indignado. Era só um tipo normal que pedia desculpas e dizia que era tudo um mal-entendido. “Nada disso, senhor Salvador, eu até gosto muito do seu trabalho”.

 

 

publicado às 10:37

Nicolau, Cristas e Cruz: isto anda tudo ligado

Por: Pedro Rolo Duarte

Sei que já se disse tudo sobre Nicolau Breyner. A sua morte, além de nos apanhar de surpresa, revelou o lado transversal da sua existência. Não foi apenas o grande actor que morreu. Nem o realizador, ou o criativo, ou o humorista. Ou até mesmo o ser humano generoso. Foi um pouco mais do que isso: foi o artista que tocou toda a gente, todas as gerações, na multiplicidade de Nicolaus que nos mostrou ao longo de décadas de vida pública, enquanto actor - mas numa única personalidade. A sua.

 

Um homem como nós. Artista, mas igual a nós. Com uma pontinha de génio, mas igual a nós. E em muitas frentes, capaz de ser melhor do que a maioria de nós. O seu exemplo é uma lição que serve artistas, políticos, agentes culturais: a autenticidade é a mais rica e sábia forma de viver a vida - e quando essa vida é pública, obter reconhecimento e sincera admiração. A transparência com que Nicolau Breyner viveu, da forma como encarava a profissão até ao apego genuíno às origens alentejanas, resultou nesta unanimidade.

 

Num mundo de actores e personagens, de figuras construídas em gabinetes, de sorrisos falsos e aparências, é sempre a autenticidade que acaba por ganhar a taça. Lembremos Raul Solnado, ou Eusébio. E vejamos agora Nicolau Breyner…

 

Pode parecer exótico, ou mesmo forçado, o que se segue, mas a verdade é que dias antes da morte de Nicolau, e de assistir a esta comoção nacional, tinha estado a conversar com um amigo sobre esta ideia da autenticidade, da verdade interior tornada exterior, a propósito de outra figura, e num contexto radicalmente diferente. Debatíamos a chegada à liderança do CDS de Assunção Cristas e a entrevista que deu, na semana passada, ao Victor Gonçalves, na RTP. E eu, que estou longe de ser um apoiante daquele partido e das suas ideias, senti nas palavras de Cristas coerência, sinceridade, e acima de tudo essa mesmíssima característica: autenticidade. Pensei: esta mulher pode, por esta via, conquistar votos para o seu partido. Contrariar o folclore da política do costume com uma atitude sincera, despida de floreados e chavões, com menos preconceitos e maior pragmatismo. Dizendo o que pensa sem previamente pensar naqueles que quer conquistar.

 

Mais do que fartos da política em si, os portugueses parecem estar fartos da conversa oca, dos lugares-comuns, do mais do mesmo - e talvez desejem, de uma vez por todas, clareza, verdade e transparência. Neste quadro, a atitude de Assunção Cristas, desde que tomou conta do CDS, pode ganhar uma expressão inesperada em eleições futuras. Não necessita de ser populista para ser popular - se for autêntica e não enrolar o discurso no vazio habitual.

 

E é por entre estes pensamentos que sou surpreendido com a entrevista (uma vez mais, de Victor Gonçalves) a Carlos Cruz, na prisão da Carregueira. Carlos, cuja afirmação de inocência prolonga a sua prisão, que já demonstrou em livro os erros crassos do seu julgamento, e a certeza de que devia estar livre e absolvido, sublinha o poder da autenticidade. Sem ressabiamentos nem desejos de vingança, sem agressividade ou sequer acusações gratuitas, afirma a sua liberdade da forma mais consistente que é possível: uma vez que é inocente, sente-se livre dentro de uma prisão - enquanto aqueles que o julgaram podem porventura sentir a prisão da injustiça. As palavras de Carlos Cruz tocam-me por terem o poder do desprendimento que só os homens autênticos conseguem atingir.

 

Numa entrevista que deu à minha amiga Anabela Mota Ribeiro, e que se pode ler na íntegra aqui, Nicolau Breyner afirmou: “Tenho vergonha enquanto ser humano, enquanto cidadão, de coisas que vejo. O meu desacreditar é tão grande que já não estou a falar só de Portugal. Isto passa-se em todo o mundo, de outras maneiras. É promíscuo, é porco. Somos cada vez mais números e cada vez menos seres humanos”. Esta desabrida sinceridade, em que tantos se revêm, é um começo de mudança, e tem eco um pouco por todo o lado.

 

E é nesse medida que, ouvindo Assunção Cristas, percebi que talvez o CDS tenha ganho a liderança certa no tempo certo. Como pude manter a certeza que alimento desde o primeiro dia: Carlos Cruz é um homem inocente. Tudo uma questão de autenticidade. Quer estejamos ou não de acordo.

 

Envolver estas três figuras, estes três protagonistas, numa única crónica, debaixo de um chapéu comum, pode parecer bizarro. Mas eu sempre achei que Sérgio Godinho tinha razão: isto anda tudo ligado.

 

 

COISAS QUE ME DEIXARAM A PENSAR ESTA SEMANA

 

No mês de todas as modas - isto é, de todas as semanas da moda - descubro uma revista francesa, que já existe há algum tempo, e que além de estar sempre em cima das tendências (se é que isso existe, é tema de debate…), é gratuita. Em papel, se andar por terras de França, ou na net, onde a encontra na íntegra. Na ultima edição anuncia-se: Cores são o novo preto! Onde é que a moda irá parar?!…

 

Passados 40 anos sobre o PREC - Processo Revolucionário em Curso -, que sucedeu à revolução do 25 de Abril de 1974, é no mínimo divertido revistar alguns documentos dessa época. A RTP tem, naturalmente, o mais rico arquivo de imagens, documentários, reportagens, ou apenas noticias, desse tempo, e passear por ali é um prazer, uma fonte de conhecimento, e muitas vezes um motivo de sorriso irónico sobre o passado…

 

A edição de Abril da revista norte-americana The Atlantic, umas das mais clássicas analistas do mundo, em todas as suas perspectivas, traz o Presidente Obama na capa e uma excelente matéria sobre a sua actuação na Casa Branca, as suas ideias, a sua doutrina. Ainda que assinada por Jeffrey Goldberg, considerado um “neoliberal”, é um texto de fundo que vale a nossa atenção. Claro que a revista também fala de Donald Trump, mas faço de conta que não. E leio a análise, já disponível online…

 

 

publicado às 09:49

Estado social ou Complex social?

Por: Paulo Ferreira

O edifício kafkiano que o Estado continua a construir para fazer a redistribuição de rendimentos é assustador. São dezenas, centenas, de mecanismos, sistemas, subsídios, benefícios, taxas e taxinhas que, nalguns casos, consomem mais recursos na burocracia do que a chegar às famílias.

  

Maria Manuel Leitão Marques volta a ter em mãos uma tarefa que é daquelas em que deposito mais esperança neste Governo: a continuação da desburocratização do Estado ou, se quisermos utilizar a marca que criou há uma década, do Simplex.

 

Algum avanço já foi conseguido, mas passou essencialmente pela concentração física de serviços públicos e privados essencias nas Lojas do Cidadão, facilitando dessa forma a vida aos utentes, e pela “informatização” ou “webização” da burocracia, permitindo que muita da papelada seja tratada através da rede.

 

Mas isto não é verdadeira desburocratização. O sistema fiscal, por exemplo, está mais complexo do que nunca, apesar de podermos hoje lidar com essa complexidade sem ter que ir fisicamente a uma repartição. Repararam, por exemplo, no sistema e-factura, no tempo que cada um de nós tem que lhe dedicar para ter o benefício, na máquina que ali teve que ser montada para gerir aquilo tudo e na papelada, ainda que sem papel, que aquilo implica?

 

Agora podem ser PDFs e ficheiros, mas a obrigatoriedade dos papéis, dos procedimentos, das provas disto e daquilo continuam lá. Tal como continua lá a dificuldade que os serviços do Estado têm em falar uns com os outros. A Segurança Social continua a pedir-nos papéis que estão nas Finanças, estas pedem o documento que está nos tribunais, estes exigem que vamos aos Registos Civis buscar um papel para lhes entregar e por aí fora, num carrossel de papeladas capaz de levar ao extâse o mais doentio dos burocratas.

 

Tudo isto se construiu e se mantém em franco desenvolvimento em nome do cumprimento da lei, do rigor, da verificação, do combate à fraude e ao pequeno “golpe”. Todo este edifício foi crescendo porque o Estado começa por desconfiar dos cidadãos - o que, sejamos honestos, em muitos casos até faz sentido.

 

O problema é que o aumento da complexidade da máquina afasta dela os cidadãos que dela precisam, tornando a sua vida num calvário, aumenta as possibilidade de a driblar e enganar por parte de quem tem essas intenções e, muito relevante também, faz com que sejam consumidos mais recursos a manter toda a papelada em funcionamento do que a servir os cidadãos - que é, já agora, a finalidade última disto tudo.

 

Um dos papéis fundamentais do Estado é a redistribuição de riqueza. Não vou aqui discutir se essa redistribuição deve ser maior ou mais pequena ou se os que mais têm deviam pagar mais, para os que menos têm receberem mais, ou ao contrário. O ponto não é esse. Não se trata de políticas mas sim de organização e burocracia.

 

O problema são as dezenas, centenas, de mecanismos, sistemas, subsídios, benefícios, taxas e taxinhas que o Estado continua a criar para fazer essa redistribuição. A começar no IRS - são dezenas as possibilidades de deduções e benefícios, muitos suspensos durante a austeridade - e a acabar na Segurança Social.

 

O menu “Formulários” do site da Segurança Social dá 217 resultados e acredito que muitos outros nem estão disponíveis online. Há sete tipos diferentes de subsídio de desemprego, seis tipos diferentes de apoio a cidadãos com deficiência, três mecanismos para acorrer à invalidez - a terminologia também não ajuda: pensão de invalidez, pensão social de invalidez, protecção especial na invalidez -, onze subsídios diferentes para maternidade e paternidade, seis relacionados com a morte e por aí fora.

 

As familias de menos recursos que têm filhos têm acesso ao abono de família, algumas ao Rendimento Social de Inserção, apoios sociais na escola além, claro, da dedução no IRS. Saberão as próprias entender-se no meio disto tudo? Agora, com este orçamento, o IMI também vai ser mais baixo para quem tem filhos. E os mais pobres vão beneficiar de uma taxa de audiovisual mais baixa, além do alargamento da tarifa social de energia. Não paramos, portanto, de construir o enorme edifício.

 

Repito: não estou aqui a discutir a justiça social de tudo isto nem do que se aqui investe mas apenas a estrutura kafkiana que o Estado constroi para atingir os fins.

 

No fim do dia, o objectivo de um Estado Social é garantir os meios mínimos de subsistência a quem não os tem nem os consegue, garantir o acesso à Educação, à Saúde, à Justiça e a bens essenciais, alguns culturais, à generalidade dos cidadãos, independendentemente de estes os poderem ou não pagar. E não me parece difícil que se tenha um sistema muito mais simples, justo, amigo dos beneficiários, transparente e mais barato de gerir do que estas centenas de portas, janelas e gavetas, taxas, taxinhas, subsídios e apoios. Garantindo que quem deles precisa os recebe na mesma ou até recebe mais, mas fazendo com que a carga burocrática que eles implicam seja muito mais reduzida.

 

Além de isto ser um inferno para os cidadãos potencialmente beneficários, duvido que alguém faça as contas - mas é bem possível que para alguns destes apoios seja muito maior o dinheiro gasto pelo Estado na máquina para os gerir do que o benefício que chega às famílias. 

 

Fazer uma enorme limpeza neste labirinto burocrático, poupando na estrutura para libertar recursos, seria uma reforma que valeria uma legislatura.

 

A tarefa da ministra da Modernização Administrativa é grande e os principais opositores costumam sentar-se na sala do Conselho de Ministros e no Parlamento, como se vê. Neste Governo, nesta legislatura, mas também em todos os outros que por lá passaram no passado.

 

 

OUTRAS LEITURAS 

publicado às 10:33

“Meu querido…”

Por : Roberto Pereira

 

Há pessoas que nos marcam mais do que outras. O Nicolau era uma dessas pessoas.

 

 

Quis o destino que fosse com ele o meu primeiro projecto profissional enquanto argumentista. E era também para ele que estava a escrever o meu mais recente projecto. Pelo meio, houveram tantos outros. Televisão, teatro, cinema… fizemos muitas coisas e outras tantas ficaram por fazer. “Mas ainda as vamos fazer, meu querido”, dir-me-ia ele se me ouvisse agora.

A sua energia e vontade de fazer coisas, eram, de facto, impressionantes.

 

Nunca dei por perdido um minuto que estivesse na sua companhia. A falar de trabalho, de futebol, de política ou meramente do tempo mais frio que ele tanto detestava, agradeço-lhe o privilégio que tive em cada um desses minutos. E agradeço, também, o facto do Nicolau nunca ter sido pessoa de tratar dos assuntos pelo telefone ou por email. Foi sempre cara a cara, como fazem as pessoas que gostam de pessoas.

 

Mas hoje sinto-me triste. Muito triste. Não consigo sorrir, nem mesmo quando me recordo das suas histórias contadas na primeira pessoa. A sensação de vazio é enorme. Pessoal e profissionalmente a sua partida é insuperável. Portugal é hoje um país ainda mais pobre. Humana e artisticamente. Porque partiu o melhor de todos.

 

Não fui capaz de ligar a televisão mais do que meia dúzia de segundos, mas uma coisa deu para perceber: há muito tempo não via uma programação tão boa. O Nico estava em todos os canais… como, aliás, sempre esteve – coisa que apenas está ao alcance de alguns. Dos especiais.

 

Vou ter saudade suas. Muitas. Do seu olhar terno e expressivo, da sua educação, do seu sorriso sincero, das suas sábias e amigas palavras e, principalmente, da sua boa disposição. Foi uma honra enorme conhecê-lo e privar consigo, Senhor Nicolau Breyner!

Fico, em parte, aliviado porque tive a oportunidade de lhe dizer o quanto o admirava e gostava de si. E vou gostar sempre. Que falta me vão fazer os telefonemas que começavam geralmente com “Meu querido, temos de falar…”. E temos mesmo!

 

Por isso tenho a certeza que nos vamos voltar a encontrar, e fica, desde já, uma promessa: nesse dia, eu levo o Pêra Manca.

 

 

*Roberto Pereira é argumentista

 

publicado às 14:04

Nico

Por: Rui Sinel de Cordes

 

Há uns anos, tive o meu primeiro trabalho profissional como guionista do “Aqui Não Há Quem Viva”, uma sitcom diferente, na qual Nicolau Breyner acumulava um dos papéis principais com a direcção de actores. Era normal, em todos os episódios, termos actores convidados com papéis pequenos e, na escrita de um dos guiões, apareceu uma personagem que me via capaz de interpretar. Na altura, estava a dar os primeiros passos no stand-up comedy e tinha frequentado um curso de teatro, curiosamente dirigido pelo saudoso José Boavida, na Guilherme Cossoul.

Comuniquei à produção que gostaria de ser eu a fazer aquele papel e depressa me informaram que teria de fazer um pequeno teste com o Nicolau. Pensei em desistir, a vontade de entrar na série não era maior que o stress de estar em frente ao Nico a demonstrar um skill que não possuía. Por outro lado, já estava pedida a “audição”, deixando-me sem outro remédio. Fui aos estúdios e disseram-me para esperar um bocadinho numa sala, que o Nicolau já lá ia ter comigo.

 

Quase 10 anos depois, não me recordo de ter estado outra vez tão nervoso como naquela tarde. Percebam isto, eu não estava nervoso por mim, eu já nem queria saber daquele pequeno papel. O que eu não queria era fazer figura de parvo em frente àquele que considerava ser o melhor actor português, ou fazê-lo perder o seu tempo. Numa sala de quatro metros quadrados, com ele sentado à minha frente, de guião na mão, batemos todas as falas da minha personagem. No final, depois de me perguntar pelas minhas ambições de carreira, sorriu e disse-me “podes vir fazer na segunda-feira”.

 

Eu só queria não me enganar, ele só queria que eu ficasse feliz, apesar de na altura, não ser claramente a escolha ideal para o papel.

 

Voltámos a encontrar-nos anos mais tarde, quando foi o meu entrevistado no episódio do Alentejo do Gente da Minha Terra. Recebeu-me com a generosidade do costume, no seu camarim, minutos antes de um espectáculo a solo no Casino de Lisboa. Novamente, ele calmíssimo, e eu nervoso por estar na sua presença. Dizia ele que “ter de ter graça é cansativo”. É, muito. Mas mais vale passar uma vida cansado, do que parar de criar, de inovar e de tentar (e de conseguir, tantas vezes) como ele.

 

Nicolau Breyner era um homem amado pelo público e também pelos colegas. Notável e invulgar.

 

No entanto, o que lhe invejo não é a vida. É a morte. Adorava poder um dia morrer como ele: lúcido, válido, no campo e em acção. A mexer. Sempre a trabalhar.

 

Que luxo, Nico! Até sempre. 

publicado às 11:01

Morreu o homem dos sete instrumentos

Por: Márcio Alves Candoso

 

 

Quando o autarca Carlos Meireles conheceu Maria, uma prostituta de alta roda que, mais tarde, viria a perceber-se que o levou à certa na triste sina da corrupção por chantagem, fez-lhe a seguinte pergunta: 'Diga-me uma coisa... O que é que você faz?' E ela respondeu: 'Tudo!' Nicolau Breyner também. O personagem que o actor interpretou no filme 'Call Girl', de António Pedro Vasconcelos, foi apenas mais um da multifacetada carreira de um homem que nos deixou ontem de surpresa - ele adorava pregar partidas.

 

Dele disse o crítico Eurico de Barros que não houve, em Portugal, cinema que chegue para o mostrar em toda a sua dimensão dramática. Os mais de 40 filmes que interpretou têm valores diferentes. E terá sido apenas já depois dos 50 anos que Nicolau brilhou, a espaços, no grande écrã.

 

'Anarquista de centro', como se denominou um dia em termos políticos, esteve nas eleições de 1969, como recordou ontem o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues; mas concorreu, já depois do 25 de Abril, com o apoio do CDS, à Câmara de Serpa, sua terra natal alentejana. 'Perdi para o candidato da CDU, de quem hoje sou grande amigo, e ainda bem, ele é um excelente autarca', afirmou Nicolau.

 

 É difícil encontrar quem tenha criado e mantido inimizades com Nicolau Breyner. 'Nunca vi ninguém chatear-se com ele', disse ao SAPO24 o actor António Capelo, que com ele trabalhou, muito, na área da ficção televisiva. 'Nunca o vi pôr-se em bicos de pés, tentar roubar protagonismo fosse a quem fosse'.

 

'Representar, para ele, era como respirar', sustentou António Capelo. 'Não fazia esforço nenhum, saía-lhe de uma forma natural: e era escusado, nunca sabia o texto', lembra o colega de profissão. O que vai de encontro à ideia que o próprio tinha sobre si. 'Dizem que isto de ser actor é 75% de esforço e 25% de talento; eu acho que é precisamente o contrário', afirmou numa entrevista.

 

'Ele não gostava de repetir', relembra Virgílio Castelo. 'Dizia que saía sempre melhor à primeira, e até assegurava, com graça, e enquanto director de actores, que primeiro se grava e depois se ensaia', revelou o actor. O que é corroborado pelo cineasta António Pero Vasconcelos, que, para além de admirar essa capacidade, se queixava de que isso, por vezes, impedia os outros de evoluírem. 'Às vezes são precisos vários 'takes', e para ele isso não era necessário', recorda.

 

A sua generosidade e falta de noção do dinheiro é quase lendária entre os colegas de profissão. 'Cada vez que ganho muito dinheiro há em mim um sentimento de vergonha', adiantaria noutro espaço. 'Ele falou-me de querer comprar uma quinta no Brasil, e eu andei por lá a ver se arranjava algo', recorda Capelo, ele próprio um apaixonado pelo país e que lá detém propriedade. 'Mas depois nunca mais aparecia com o dinheiro; foi o Moita Flores que me disse para tirar daí a ideia, já que ele nunca tinha que chegasse, não poupava', revelou a mesma fonte.

 

 

Muitos recordam que, sem Nicolau, nem nunca na vida teriam chegado a ser actores. Como Nuno Homem de Sá, que está nas novelas televisivas pela mão de Nicolau Breyner, e que recorda que 'aos 18 anos andava sem saber o que fazer da vida, e foi ele que me trouxe para aqui, que me deu a mão'. Ele, Nicolau, soube cedo que queria palco, embora a veia lhe latejasse mais para a ópera. Um dia percebeu que os cantores líricos tinham de levar uma vida muito regrada. 'Não era para mim', confessou.

 

A positividade perante a vida é um traço que todos os que o conheceram realçam. 'Nunca remei contra a maré', afiançou já depois dos 70 anos. Mas pensou no que ainda havia para viver, quando há seis anos o cancro lhe bateu à porta. Aparentemente, não foi disso que morreu. Se bem que tenha frisado que, nessa altura, percebeu que tinha que pensar mais na sua mortalidade.

 

Nem naquele que foi, talvez, o maior papel da sua vida enquanto actor de cinema – o inspetor Joaquim Malarranha de 'Imortais' - deixou de ser, sempre e só, um extraordinário feitor de verosimilhança humana. A capacidade de identificar, aparentemente sem esforço, os traços dominantes dos papéis que lhe cabiam, fez dele, também, um dos actores mais populares do seu tempo e, eventualmente, mesmo o mais conhecido da sua geração. António Capelo costumava chamar-lhe 'Nossa Senhora de Fátima'. 'Onde ele aparecia, toda a gente o conhecia e queria vê-lo; era uma aparição', graceja.

 

Um talento que começou a revelar-se cedo. No Conservatório foi um aluno brilhante e, recém-formado, foi Vasco Morgado que o levou para a revista. A comédia é, aliás, o lado mais conhecido de um homem dos sete instrumentos. 'Andei vinte anos a fazer comédia e 20 anos a fazer drama', dizia como que em sumário. Mas 'fiz muitas coisas na vida que ainda hoje estou para perceber porquê'.

 

Boémio, lutador de pés e mãos pelos cabarets, coureur de femmes, Nicolau Breyner confessou que o pai o 'acusava' de fazer 'caridade sexual'. 'Não sabia dizer que não', revelou. Um dia, no meio de uma gravação de novela, o estúdio pára durante meia-hora. 'O Nicolau tinha ido divorciar-se', recorda António Capelo. 'Para ele, a conquista era um exercício lúdico permanente', recordou o actor Virgílio Castelo.

 

Carlos Matos Gomes, autor do livro Nó Cego (sob o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz) que levou António Pedro Vasconcelos a criar o argumento de 'Imortais', recorda ao SAPO24 que foi complicado encontrar o actor para a personagem do inspector Malarranha, que gostava de fados e tinha uma amante à moda antiga. 'Tinha de ser um tipo que gostasse de música', recorda o antigo coronel do Exército português. 'Foi o António Pedro [Vasconcelos] que se lembrou do Nicolau, e ele foi impressionante na interpretação que fez, até porque nunca tinha feito um papel daquele género', afirma.

 

'Ele olhou para o guião, leu uma parte do romance, e apanhou desde logo as características e todos os cambiantes do inspector', referiu Matos Gomes, que recorda com um sorriso a 'interpretação dele quando está com a Filó [a secretária de quem era amante no filme]'. Por curiosidade, conta que o mesmo esteve para ser rodado, em parte, em Moçambique, mas Samora Machel, então presidente daquele país africano, não deixou.

 

Do Nicolau Breyner precursor da indústria de ficção televisiva já toda a gente falou. 'Irritava-me que não fizéssemos coisas como os brasileiros', desabafou um dia, para justificar como, com Thilo Krassman e com o apoio da RTP, construiu 'Vila Faia', a primeira telenovela portuguesa. Anos mais tarde havia de montar a sua prórpia produtora, a NBP, que trouxe para o grande público um significativo número de novos actores, deu alento e visibilidade aos antigos e criou uma 'nova fórmula de fazer coisas com que o público se identificasse', como definiu ontem o actor Diogo Infante. A 'invenção' de Herman José, no 'Feliz e Contente' do ínício dos anos 80, terá sido certamente ao seu maior achado.

 

A televisão ficará sempre na história que todos contarão de Nicolau Breyner. O teatro não, 'aquela caixinha é muito pequena, muito fechada', dizia, como lembrou ontem a actriz Guida Maria, para quem Nicolau Breyner 'era desconcertante no seu humor; às vezes era preciso dizer-lhe para parar com as anedotas, porque antes de entrar em cena temos de nos concentrar; ele não, acabava de dizer uma graçola, entrava no palco e era um tipo completamente diferente e embrenhado no papel'.

 

'Tinha amigos de todos os géneros, sempre com grande calor humano; era impossível ficar-lhe indiferente', sustentou Virgílio Castelo. 'Era um menino de 75 anos', afirmou. Foi por ele que ontem, menos de uma hora depois da notícia da sua morte, Marcelo Rebelo de Sousa abandonou uma reunião para expressar a sua consternação, saudade e recordações ao país que recentemente o elegeu. 'Nunca tinha visto um Presidente da República fazer isto pela gente que pinta a cara', afirmou Simone de Oliveira.

 

Actor, cantor - chegou a concorrer ao Festival da Canção, em 1968, tendo arrancado o quarto lugar com 'Pouco Mais' -, produtor, realizador, professor – mantém uma escola de artes de palco, a NBA -, Nicolau Breyner fez de tudo um pouco.

 

Deixa saudades, ele que dizia que era 'o gajo menos saudosista do mundo'. Se não fosse católico praticante, seria 'adorador do sol', afirmou recentemente. Também por isso, gostava de ter morrido 'num daqueles dias chuvosos, frios, com vento, para não ter pena', dizia. Morreu num dia de sol. Ele não programava muito a sua vida, diz quem o conheceu.  

 

 

 

 

 

 

publicado às 08:09

Lula já foi o herói. Agora, aparece cabeça do polvo. Tudo se reduz a isto?

Por: Francisco Sena Santos

O Brasil segue e há-de seguir, como canta Jorge Ben, um país tropical, bonito por natureza. A canção garante que o Brasil também é abençoado por deus. Vemos múltiplos autocolantes a reclamarem que deus é brasileiro. Esta parte, porém, está por demonstrar, a menos que remeta para um deus em fase cruel, como a do Antigo Testamento. É que cada semana brasileira está mais dramática que a anterior, com o país arrastado pela enxurrada de uma crise que é moral, ética, política, social, económica e que, como se não bastasse, também tem uma emergência de saúde pública, com o vírus Zika contra o qual continua a não haver vacina.

 

O Brasil continua lindo nas músicas, o futebol não vai tanto assim, mas a política e os políticos vão ladeira abaixo na maré cada vez maior de protestos impulsionados pela parceria entre Ministério Público, Polícia Federal e a grande imprensa (com o grupo Globo na primeira linha) na denúncia da suja corrupção e lavagem de dinheiro pelo poder político do PT, o Partido dos Trabalhadores, de Lula e Dilma.

 

A estratégia de informação e comunicação meticulosamente desenvolvida ao longo dos últimos 19 meses por aqueles três pilares, com a sucessão de manchetes sobre escândalos envolvendo políticos e empresários, está a golpear, de forma que parece não permitir salvação, a cúpula do PT. O clamor popular, com o povo na rua de modo maciço, está a gritar: basta de vocês! O alvo em fundo neste Brasil fraturado, é Lula, o inimigo de classe.

 

Toda a gente já ouviu que no Brasil (como em outros países, claro), para fazer aprovar uma lei no parlamento, é preciso comprar o voto de deputados caciques. Deputados vendem o voto a quem pagar mais. Lula e amigos avançaram por esse caminho. Foram apanhados pela armadilha e são denunciados por muitos que são useiros e vezeiros nessa prática de submundo. Agora, chega para muitos, uma ocasião de ouro para ajustes de contas, desforra eleitoral e reversão do quadro político iniciado em 2003, com a eleição de Lula com 52 milhões de votos, correspondendo a 61,27% do eleitorado brasileiro.

 

Em 2009, no final de uma das pomposas cimeiras do influente G20, o presidente Obama, ao cumprimentar o presidente brasileiro, comentou: “Este é o homem, o político mais popular ao cimo da Terra”. O então presidente do Brasil, um Lula da Silva ex-operário metalúrgico que mal arranhava a fala em inglês, mas com 27 doutoramentos honoris causa de prestigiadas universidades europeias e americanas, era o símbolo mais poderoso da grande mudança ocorrida na América do Sul após o fim da Guerra Fria e com o avanço da globalização. Lula seguiu pelo caminho de reformas iniciado por um presidente com grande mérito, Fernando Henrique Cardoso, e ousou mexer profundamente na estrutura da sociedade brasileira, com demasiados muito pobres.


Nos oito anos da sua presidência (2003/2011), Lula tirou 36 milhões de pessoas da extrema pobreza. Fez funcionar o plano Fome Zero, que deu alimento a quem não tinha como comer. O salário mínimo subiu 77%. A energia eléctrica chegou finalmente a áreas rurais habitadas por milhões de pessoas. O analfabetismo recuou imenso. Foi uma década de vertiginoso crescimento económico, de remoção de algumas das antigas injustiças sociais e de aumento do prestígio internacional do Brasil com a diplomacia de Brasília a liderar a fundação, com a Rússia, Índia e China, do grupo BRIC de novas potências.

 

Esse Brasil, inspirador e que parecia feliz, beneficiava de um ciclo económico altamente favorável, quer com a expansão da exploração do petróleo num tempo de barril caro, quer com as exportações agrícolas. Mas esse Brasil potência internacional que passou a reivindicar lugar permanente no Conselho de Segurança da ONU e que investia milhões na construção de estádios de futebol para o Mundial de 2014 e para os Jogos Olímpicos deste ano, continuava a ser um país com serviços do Terceiro Mundo em setores fundamentais como a saúde, a escola ou os transportes. Foi contra este estado de coisas que começou a disparar há três anos a rebelião das classes médias urbanas – que tinham, em grande parte, ficado de fora das melhorias no tempo de Lula. As “passeatas” sucederam-se, depois houve alguma trégua. Mas a crise económica, que baixou o rendimento das exportações, a que se juntou a depressão com a enorme queda do preço do petróleo, mostrou logo a seguir como o Brasil é um país com pés de barro, com o desenvolvimento sustentado por alicerces frágeis em terrenos movediços e com a classe política habituada a viver na entranhada corrupção que envolve gente do governo e da oposição – tem sido sempre assim no Brasil.


E, no meio de tudo isto, surgiu um justiceiro: chama-se Sérgio Moro, tem 44 anos, é juiz federal e comanda a operação baptizada de Lava Jato, que está a abalar o mundo político e de negócios no Brasil. A popularidade de Moro, com estatuto de herói nacional, está a preencher o vazio político. Moro investiga a trama corrupta de subornos e lavagem de dinheiro. Começou a desmontar o polvo pela petrolífera pública Petrobrás. O fio da meada está a levar a investigação para dentro de ministérios e empresas, e a revelar a corrupção endémica. A impunidade dos mais poderosos acabou. Está em curso no Brasil uma operação “Mãos Limpas” idêntica à que António di Pietro conduziu - antes de, com controvérsia, se assumir político - na Itália dos anos 80 e 90.


Há quem se inquiete com dúvidas sobre a arbitrariedade dos investigadores e a sua hostilidade ao PT – a justiça estará na mão de forças políticas? Há quem também questione a assumida parcialidade dos mais poderosos grupos de media no Brasil.


Seja como for, a presidência de Dilma está bloqueada e a destituição parece no caminho. A economia em implosão. O povão, dividido, em ebulição. Quase toda a classe política está ameaçada. Lula, agora perseguido, depois de ter sido ídolo popular e presidente carismático está na corda-bamba – mas não se pode subestimar o seu instinto político e capacidade para lutar. Há, para Lula, depois de tantos formidáveis êxitos, um fracasso inquestionável: não conseguiu, por não querer ou não o deixarem, resolver o problema da corrupção institucionalizada que põe tanta gente a embolsar dinheiro ilegal.

 

O Brasil está agora extremado, muito bate-boca, muita emoção a puxar fúrias. Provavelmente, vem aí a punição das negociatas na era de Lula. Mas isso não basta para resolver a corrupção entranhada no sistema político. Já tinha sido assim com Collor de Mello, que em 1989 tinha ganho a Lula (53%/47%), mas que três anos depois foi derrubado num “impeachment” por corrupção e lavagem de dinheiro. O problema brasileiro continua a estar no sistema político profundamente inquinado.

TAMBÉM A TER EM CONTA:

Após cinco anos de guerra, há agora uma pontinha de esperança para a Síria? The New York Times vê a trégua iniciada em 27 de fevereiro mais consistente que o imaginado. Os refugiados são gente que está a sobreviver assim.

Achtung, sim, mas dizer-se que o populismo anti-imigração e anti-refugiados se impôs nas eleições estaduais alemãs será exagerar a realidade. Os mais votados, avisa-nos The Guardian, foram políticos que são pela Europa e por uma solução europeia para a crise dos refugiados. Mas a xenofobia e a islamofobia, com a sua linguagem racista, são patologias que passaram a infetar a Alemanha de agora.

Esta outra terça-feira é dia chave no apuramento de candidatos presidenciais nos EUA, com primárias em cinco grandes estados (Florida, Carolina do Norte, Missouri, Ohio e Illinois). A fragilidade de Hillary Clinton é o seu défice de credibilidade - não entra no eleitorado “sub 35”. Donald Trump aparece como um palhaço – mas a fúria dos cidadãos contra o establishment pode causar surpresas.

 

Para que serve um jornal? Este ponto de vista no Jot Down.


Primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta do JN, esta do Público e esta do DN. Faz-nos falta este sorriso que passa otimismo. 

publicado às 07:09

“É melhor ser alegre do que ser triste”

Por: José Couto Nogueira

 

 

É impossível não gostar de Nicolau Breyner. Porque é solar, admiravelmente bem disposto, e tem aquele olhar de menino mimado e malandreco que entorna as mulheres e não chateia os homens. Logo tinha de morrer agora, neste período em que têm morrido tantos apoios morais do colectividade. Mas teve sorte, foi uma morte rápida, apopléctica, como merece quem nos fez rir e chorar tantas vezes, sempre com o coração nas mãos.

 

Teve inimigos? Terá tido, como toda a gente, mas talvez menos do que toda a gente. Era difícil não gostar da sua rabugice, não apreciar os muitos amores incendiários e rápidos – casou e descasou cinco vezes, fora as ameaças – não desdramatizar as origens latifundiárias e a opção política (muito passageira) pelo CDS.

 

É que para cada senão, Nicolau tinha um 'sessim'. Gostava de touradas (ui!), ramboiadas, bebedeiras e outras impertinências politicamente incorrectas, mas também era generoso, pai extremoso e incentivador benemérito dos jovens chegados à profissão com mais ambição do que talento.

 

Teve um papel incontornável no teatro, no cinema (mais de 40 filmes) e na televisão, como actor, produtor, encenador, director e empresário. Azar aos negócios, sorte na vida. Mesmo as mais negras maledicências passavam por ele como se fosse revestido de Teflon, porque os cozinhados nunca chegavam a pegar; levantava fervura, punha em banho Maria e, quando parecia que o caldo estava entornado, já ele estava noutros cozinhados.

 

Inegavelmente – e o público veio a descobri-lo tarde, mas não tarde de mais – era um excelente actor, versátil e convincente, que se prestava à comédia desabrida como ao dramalhão, tanto fazia de bondoso reitor das pupilas (grande papel!) como de patife sem escrúpulos.

 

Filho de proprietários falidos de Beja, veio cedo para Lisboa e cedo ganhou versatilidade nas amizades, que pela vida fora foram dos meninos da fidalguia aos excluídos das periferias, entre touradas e luta livre, noitadas no Caruncho (exclusivo, na época) e no Cantinho dos Artistas (inclusivo, na mesma época), intelectuais – amigo de Natália Correia, David Mourão-Ferreira, etc – e comediantes de vaudeville.

 

O pai, que foi Presidente do Grémio da Lavoura (e os do ancien regime sabem o peso que isto tem) também ensinava filosofia e aceitou bem que o filho único entrasse no Conservatório. Lá lhe disseram que seria actor dramático e estreou (no Trindade) com os monstros sagrados da época, Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Canto e Castro. Mas cedo lhe fugiu o talento para a comédia, com a deusa Laura Alves e os olímpicos (de Olimpo) Vasco Santana e António Silva.

 

Dez anos de teatro, praticamente desconhecido, a fama veio com a televisão, onde pode exercer à vontade a sua extraordinária versatilidade. Brevemente ostracizado no PREC, depressa a sua bonomia e leveza ideológica lavaram o preconceito, e ei-lo na ribalta, com o imensamente popular “Sr. Feliz e Sr. Contente”.

 

Fez-se produtor e empresário de tv e durante anos só aparecia na televisão. Em coisas tão diferentes como “Gente fina É Outra Coisa” e “Vila Faia” (ambas de 1982). Ainda teve tempo para contrair e sarar de um cancro e, no ano passado, iniciar uma academia de actores. Em 2010 Sarah Adamoupolos escreveu-lhe uma excelente biografia “É melhor ser alegre do que ser triste”. A frase diz muito da personalidade exuberante de Nico e da sua postura na vida. Perdemos um grande actor, e também perdemos um amigalhaço. Felizmente, está tudo gravado para a posteridade que ele merece.

publicado às 00:11

Cristas tem de ganhar o país

Por: António Costa

 

A Direita portuguesa move-se, o CDS-PP toma a iniciativa de abrir um novo tempo na oposição e ganha um novo espaço de intervenção. Assunção Cristas já tem a sua agenda e também os seus adversários e, da primeira intervenção, fica claro que quer deixar de ser o partido de suporte do PSD, por isso, Pedro Passos Coelho tem de mudar de vida se quiser voltar a ser primeiro-ministro.

 

A partir de agora, vamos assistir a um fenómeno, à Direita, semelhante ao que se verificou nos últimos dois anos à Esquerda. A ascensão eleitoral do Bloco de Esquerda e da liderança de Catarina Martins foi ‘alimentada’ de forma discreta, mas empenhada, por um governo que queria fragilizar António Costa e o PS. Agora, será seguramente o governo PS a ‘apoiar’ Assunção Cristas, a sublinhar a sua responsabilidade política, por contra-ponto à estratégia de Passos Coelho e do PSD. É a vida, mas a nova líder do CDS já percebeu que a nova realidade política, as novas contas em eleições, dá-lhe uma oportunidade que Paulo Portas nunca teve.

 

Desengane-se o PSD, o CDS vai ser um problema, Assunção Cristas é mais pragmática, menos ideológica, quer o CDS ao centro, como se percebe pelas intervenções no congresso do partido. O CDS deixará de ser o partido dos grupos, dos reformados, da lavoura, dos contribuintes. Passará a ser um partido que quer falar aos portugueses do centro-Direita, sim, o espaço político do PSD,

 

A concorrência com o PSD não se fará apenas na disputa do mesmo espaço político. Far-se-á também na capacidade de fazer parte das soluções. Assunção Cristas não é Paulo Portas, distanciou-se por exemplo, e bem, da ‘inacreditável’ descoberta do antigo líder sobre Carlos Costa. E quer participar nas reformas. Já sabemos quais são: a segurança social, a reforma da supervisão, a convergência dos setores público e privado.

 

Ao contrário de Passos Coelho, que tem um passado e ainda não conseguiu ultrapassar a forma como António Costa chegou a São Bento, e isso explica a formo como está a fazer oposição, Cristas tem as mãos livres. Para fazer o que quiser, para fazer as pontes que quiser, e até tem agora em Belém um Presidente que também permite novas geometrias políticas, novos acordos.

 

A nova líder do CDS ainda não conquistou o partido, o CDS foi-lhe ‘dado’, seguramente porque mostrou competências pessoais e políticas. Mas para ganhar o partido, vai ter de ganhar o país e, tendo em conta o quadro político e económico em vigor, não vai ter muito tempo para isso.

 

As escolhas

 

As corporações voltaram a agitar-se, e isso mostra como este governo é percecionado. As manifestações, e os bloqueios, dão resultados, pagam, por isso é que os suinicultores e os produtores de leite prometem a maior manifestação de sempre. Será um teste a António Costa e à sua capacidade de dizer ‘não’ e de não usar o dinheiro dos contribuintes para pagar os votos e a paz partidária.

 

Dilma Roussef já não é a ‘Presidenta’ de todos os brasileiros, será na melhor das hipóteses de alguns, poucos, como se viu pelas manifestações de ontem em cerca de 450 cidades brasileiras. Está agarrada à cadeira - e está a dar os sinais errados no momento errado, isto é, a admitir proteger Lula das investigações judiciais. O que nos diz isto? O Brasil é um país paralisado do ponto de vista politico e económico e a afundar do ponto de vista social.

 

E como nos recorda o SAPO24, hoje é o dia do Pi. Para matemáticos e não-matemáticos. É possível celebrar o Pi, o 3,14, o rácio da circunferência pelo diâmetro? É, sim. Saiba como.

publicado às 10:08

Bem-vindos ao cabaret. Willkommen, Bienvenue, Welcome.

Por: Rute Sousa Vasco

 

 Há temas que podemos apostar, logo quando surgem, que rapidamente vão fazer parte da galeria dos debates fracturantes da nação. O encerramento de salas de espectáculo ou lugares com história ou histórias é garantidamente um deles. Na sua crónica no Observador, Helena Matos chama-lhes ‘espaços míticos’. Para que não se argumente que arregimentei um contra-parte da cronista, vou socorrer-me de um nome em alta por estes dias e chamar-lhes antes ‘lugares de afectos’, usando a palavra talismã do presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa.

 

O que aborrece realmente quando estas discussões surgem é que tudo se torna um retrato a preto e branco. Ou somos uns bota de elástico que não querem saber da cultura, ou uns burgueses da esquerda caviar que não querem saber como se pagam as contas. Aparentemente, parece impossível encontrar na mesma pessoa a vontade de manter ‘espaços míticos’ com a preocupação de que sejam autosuficientes e bem geridos.

 

Que é mais ou menos a mesma razão pela qual uma mesma pessoa tem excelentes qualidades de gestão se trabalhar para um empregador privado, mas torna-se automaticamente um gestor perdulário se o empregador for o Estado.

 

A esta altura, já estão alguns leitores desse lado a bufar de impaciência com ‘mais uma’ que vem defender as discotecas do Cais do Sodré e apelar ao erário público.

 

Sosseguem-se esses.

 

Sou pouco de petições inflamadas e temo, cada vez mais, os movimentos que se dizem ‘orgânicos’. Tenho por convicção – e por experiência – que é sempre mais fácil influenciar uma turba do que uma mente esclarecida ou disponível para se esclarecer.

 

A questão é outra. Ou são duas questões.

 

A primeira, sobre o turismo e como vamos gerir algo de bom que está a acontecer na nossa economia e impedir que se transforme em algo de mau que pode acontecer no nosso país.

 

A segunda é sobre essa espécie de nojo que algumas pessoas têm em relação à utilização de dinheiros públicos em cultura ou simples promoção de espaços de ócio (por oposição aos de negócio).

 

Uma das razões porque cidades como Lisboa e o Porto são hoje coqueluches dos roteiros internacionais são os seus costumes. Por costumes entendem-se coisas tão diferentes como sítios onde vamos petiscar, bancos onde nos sentamos a olhar para o rio e ruas assumidamente estreitas e antigas onde há tascas e mercearias. Sim, desta lista fazem também parte discotecas old school onde a mesma playlist corre desde os anos 80 e não faz mal.

 

Este ‘pitoresco’ não é inventado – é real, ou tem sido real, e é também por causa dele que uma nova geração de turistas, diferentes na origem, na idade e nos hábitos, sente curiosidade de conhecer Lisboa. Alguém lhes contou, alguém lhes disse, que naquela cidade que também tem o fado, os pastéis de Belém e os Jerónimos, há disto.

 

As pessoas que fazem a cidade ‘pitoresca’ também são reais, e vivem cá. Algumas à distância do metro do Cais do Sodré, outras a precisar de trocar de linhas de transporte mais vezes. Mas todas convergem nas mesma cidade, usam-na e dão-lhe vida.

 

A razão pela qual as discotecas do Cais do Sodré são importantes não é pelas discotecas do Cais do Sodré. As discotecas são importantes para pensarmos se queremos uma cidade cheia de hóteis para acomodar os turistas que vêm a Lisboa para ver essa cidade que vive em ruas onde existem discotecas que passam a mesma playlist há 40 anos.

 

As discotecas são importantes para ter ‘pensamento público’ sobre que cidade queremos que Lisboa seja – se aquela que apaixona pessoas do mundo inteiro ou se uma cidade artificial para inglês ver.

 

As discotecas são importantes para mudar mentalidades – de inquilinos e senhorios. Inquilinos que têm um bom negócio podem pagar uma boa renda. Senhorios que descuraram prédios e que foram agora subitamente acometidos de uma vontade empreendedora têm de negociar e não de impor.

 

Fica sempre bem invocar Churchill nos grandes temas fracturantes e seria uma pena não o fazer aqui. Em vez de citações do estadista, fica uma análise do jornal conservador inglês "The Telegraph" à frase muito usada sobre os cortes na cultura. “Se o fizermos, estamos a lutar para quê?” - teria sido esta a frase de Churchill em plena II Guerra Mundial. Vamos assumir que não terá sido exactamente assim, com o país a ser bombardeado e os hospitais a receberem feridos a toda a hora. Mas, o que para o "The Telegraph" é uma ‘desmistificação’, na realidade é apenas a confirmação de que, mesmo na guerra, preservar o que faz a identidade de um país foi uma preocupação de Winston Churchill. “None must go”.

 

E para acabar no mesmo espírito revivalista, nada como fazê-lo ao som da música. Não se preocupem, não é a mesma playlist que há 40 anos passa no Jamaica. Esta é no Kit Kat Club e é ainda mais vintage. Come to the Cabaret old bum, come to the Cabaret.

 

Tenham um bom fim de semana!

 

OUTRAS SUGESTÕES DE LEITURA 

 

Depois do que escrevi, esta é de recomendação obrigatória. Pelo retrato, pela cor e pela ironia poética do Márcio Candoso a falar destas coisas. É a sua Ode ao Cais publicada no SAPO24.

 

E porque hoje as recomendações saem todas à casa, mais uma de um colaborador do SAPO24. O José Couto Nogueira escreveu sobre o casamento de Robert Murdoch e de Jerry Hall e a propósito disso escreveu sobre músicos e sobre media. Vale a leitura.

 

publicado às 10:35

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