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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Até tu, Nova Zelândia?

Por: Márcio Alves Candoso

 

Quando se abre a Constituição da República Portuguesa, logo após o 'Preâmbulo', naquele capítulo que fala dos 'Princípios Fundamentais' – que vêm, note-se, ainda antes dos 'Direitos e deveres fundamentais' – dá-se de caras com 11-artigos-11 que descrevem as coisas básicas que há que saber e respeitar quando se é português. Está lá o território, a cidadania, a soberania, o hino... e a bandeira.

 

Diz lá que é a verde-rubra da República, com os castelos e as quinas ao centro, no meio de uma esfera dourada universal que, com seus arcos de metal, canta o meio-dia na Terra que lhe foi centro, entretanto substituída pelo Sol. Mais nenhum país do mundo ostenta tal ornamento no estandarte nacional. Dir-se-ia que o Mundo, e mesmo o Universo todo, é uma descoberta de Portugal. Que a esfera tenha sido inventada na China, antes ainda de Cristo descer à Terra, é coisa que não nos contaram na primária.

 

Vamos falar de bandeiras. Não de todas, mas aquelas que as Nações, as Pátrias e os Estados – que às vezes, com muita sorte, são tudo uma mesma coisa – têm por símbolo distintivo. Um pano, não mais do que isso, ao lado do qual se perfilam militares, que se ergue quando ganhamos nos Jogos Olímpicos, se vê de longe nos edifícios públicos e por vezes até cobre caixões de heróis ou de simples mortais.

 

 

É de guerra que se fala quando se procura a aurora primeira da bandeira. Ao princípio, as cores que pintavam panos distinguiam batalhões e armadas. Se as flâmulas eram iguais, eram dos nossos; diferentes, do inimigo. Foi assim com os romanos e na Alta Idade Média. Começaram por roubar os símbolos aos escudos e a outros sinais de comando já existentes desde a Antiguidade. Foi só transformá-los em panos.

 

As bandeiras mudam com a circunstância. Mas não para os circunspectos dinamarqueses. Desde o século XIII que aquela gente vive debaixo da cruz branca sobre fundo vermelho. É, de longe e sem interrupções, a bandeira há mais tempo ao serviço oficial. O século XIII é, aliás, um tempo em que as bandeiras nacionais encontram lar. Foi Afonso X, o 'Sábio', rei de Leão e Castela que fazia cantigas de amor e missa na língua erudita da época – o galaico-português – que primeiro definiu o conceito e as regras das bandeiras. Um tipo decente – renunciou a ser rei do Algarve, em favor de Portugal.

 

As bandeiras contam histórias, mostram o País que representam ou os progressos que a eles estão associados. Prantam plantas, como a do Canadá ou do Líbano, tesouros nacionais, como o templo de Angkor na do Cambodja, ideologias, como as que têm estrelas amarelas de cinco pontas, típicas dos países comunistas que cantam a penta-unidade entre soldados, operários, camponeses, jovens e intelectuais, ou símbolos religiosos, como é exemplo a de Israel, ontentando a estrela de David.

 

Há as bandeiras pan-árabes, que têm a cor preta de Maomé, o branco do califado omíada, o verde dos fatimidas e o vermelho dos carijitas, uma espécie de protestantes do Islão. Há as eslavas, que torcem e retorcem o vermelho, branco e azul – a que a Ucrânia e a Bulgária fugiram – ou as africanas, com seu verde, amarelo, vermelho e até preto, unindo a tradição rastafari do Messias da Etiópia semi-cristianizada e desde sempre independente, com o negro da afirmação continental moderna.

 

Todas as bandeiras contam uma história. A da Índia tem o verde muçulmano ao lado do laranja hindu. A 'roda de bicicleta' ao centro tem 24 aros, que repesentam as 24 horas do dia. Diz-se que a da Áustria, com o duplo vermelho entrecortado de branco, nasceu quando Leopoldo IV, ao chegar de uma batalha, reparou que o seu uniforme alvo estava manchado de sangue; mas, na parte de dentro, tudo continuava branco. Por milagre, tratava-se do sangue de outro que não do arquiduque.

 

 

Há a bandeira do 'Decepado', Duarte de Almeida, que segurou o estandarte de Portugal mesmo depois de lhe cortarem as mãos, na malfadada batalha de Toro, era Afonso V rei de Portugal e pretendente de Castela. Há as bandeiras brancas da paz ou da rendição – que não são a mesma coisa - e as negras da miséria, que é sempre igual. Há as do arco-íris, adoptadas por aqueles que defendem a semelhança dos sexos na diversidade do amor. E há a bandeira hasteada ao contrário, que em termos militares simboliza a tomada do território pelo inimigo e um lancinante pedido de socorro; não era essa a ideia do Presidente cessante quando içou a verde-rubra de pernas para ao ar, comemorando a República, a 5 de Outubro de 2012. E no entanto...

 

Os impérios deixam marcas nas colónias. Não é por acaso que a bandeira de Ceuta tem os campos triangulares a preto e branco, como Lisboa, ostenta o escudo de armas do reino de Portugal e a cidade tem como lema 'sempre nobre, leal e fidelíssima cidade de Ceuta'. O mesmo ocorre em muitas possessões do antigo Império Britânico, que ainda hoje levam a 'Union Jack' – bandeira do Reino Unido – num dos cantos do rectângulo flamular.

 

Bandeira actual da Nova Zelândia, com a Union Jack

 

Os casos mais conhecidos de identificação britânica são, hoje em dia, a Austrália e a Nova Zelândia. Ou eram. A partir de hoje e até ao próximo dia 24 de Março, os neo-zelandeses são convidados a votar, através de referendo, na persistência da actual bandeira ou na sua substituição por outra, entretanto escolhida como possível alternativa.

 

É preciso perceber o que é a Nova Zelândia para comprender o porquê da possibilidade de mudança. Há uma piada recorrente que diz que a Nova Zelândia não existe. Na maior parte dos planisférios, que gostam de pôr o Oceano Pacífico nas pontas e a Europa e a África ao centro, a Nova Zelândia é aquela coisa retorcida, lá em baixo ao fundo à direita; às vezes nem sequer se vê, porque a partição do mapa corta os antípodas.

 

 

Mas o pior de tudo é que não é qualquer um que distingue a bandeira da Nova Zelândia da da Austrália. E, já se sabe, os pequenos é que têm de se pôr em bicos de pés, os grandes vêem sempre o espectáculo como se estivessem na primeira fila. A Nova Zelândia, coitada, além de ainda ficar mais longe do resto do planeta do que os seus vizinhos mais próximos – de Sidney a Wellington são uns 'meros' 2200 quilómetros, tantos como daqui à Holanda, pátria da velha Zelândia – tem como estandarte algo muito semelhante ao que se ergue na enorme Austrália.

 

Mas há mais. Ao contrário dos aborígenes australianos, cuja sorte malvada faz corar de vergonha os índigenas norte-americanos, os povos autóctones da Nova Zelândia têm vindo, paulatinamente, a afirmar os seus direitos. Desde o início do século XX, aliás, que as armas do brazão da Nova Zelândia ostentam, ao lado de uma mulher branca – a cara chapada de Alice Spragg, uma 'socialite' de Wellington – um guerreiro maori. Tanto ou tão pouco que os 'pakheas' – nome maori para os colonizadores brancos, mas que muitos descendentes de europeus assumem sem qualquer afronta, até para se distinguirem de imigrantes recentes, os 'tauiwi' – já começam, nas suas franjas mais conservadoras, a torcer o nariz. Há quem diga que ser maori, na Nova Zelândia, já é um privilégio.

 

Daí que manter as armas do Reino Unido esteja a ficar fora de moda. E há que inovar. Para isso, o Governo local lançou um concurso público de ideias, que pudesse trazer à estampa uma nova bandeira para ombrear com a velha. Foram exactamente 10.292 os desenhos que, ao longo do ano passado, deram entrada nos escritórios do comité oficial instalado de propósito para escolher a alternativa. Nesse caminho, o Executivo de Wellington já gastou 26 milhões de dólares locais (qualquer coisa como 16 milhões de euros) na empreitada.

 

O processo passou por diversas fases. Em primeiro lugar, foram escolhidos 40 desenhos, que foram postos à consideração dos 4,5 milhões de neo-zelandeses residentes, mais os cerca de um milhão de emigrantes. Depois foram escolhidas quatro possíveis bandeiras, três das quais muito parecidas. Uma ganhou. E é essa, a par da actual, que vai ser posta em referendo a partir de hoje.

 

Imagem da bandeira que a Nova Zelândia vai referendar em março de 2016. 

 

No fundo, trata-se de mandar, ou não, para os anais da História a Union Jack, substituindo-a pela folha de feto que é endémica na flora neo-zelandesa, e que já representa o país nas camisolas das selecções de vários desportos, e desde logo no mais importante, o râguebi. A 'silver fern' deverá aparecer sobre fundo negro e azul, de forma oblíqua na diagonal do rectângulo, acima das quatro estrelas da constelação do Cruzeiro do Sul que já fazem parte da bandeira actual. Ganhou a uma outra em tudo igual, excepto na cor preta – tinha essa parte a vermelho.

 

Segundo as sondagens mais recentes, cerca de metade dos neo-zelandeses estão disponíveis para uma mudança; mas 24% adiantou que faz depender o seu voto da hipótese escolhida. Espera-se uma luta renhida, na terra planetária que mais tarde foi habitada. Só há sete séculos – o tal XIII desta história das bandeiras – é que chegou gente da Polinésia, da Malásia e, eventualmente, da China insular, à Nova Zelândia.

 

Eu, por mim, cheguei mais tarde. Quando, em 1998, aterrei em Wellington, tinha a ideia de ir encontrar uma Austrália mais pequena. Vinha de Sidney, Melbourne e arredores e estava fascinado com a alegria, a liberdade, o mar surfista e as belezas naturais ou maquilhadas da ilha que é um continente. Nada mais falso. As neo-zelandeses de compridas saias pretas e golas até ao pescoço ficam coradas quando a gente as interpela nas ruas. Os homens pouco elegantes que povoam os bares às seis da tarde são de trato distante. Pode ter sido pouca sorte minha. Afinal, nem tive tempo de ver as ovelhas.

 

publicado às 15:21

No fim de contas, Cavaco

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Daqui a poucos dias haverá menos um nome na lista dos “culpados” de tudo o que sucede em Portugal. Para o bem e para o mal. Ficará como “culpado” de males passados, mas já não de mazelas futuras. Cavaco Silva cede a Presidência ao recém eleito Marcelo Rebelo de Sousa, sai de cena, e teremos menos uma desculpa para continuarmos na mesma. Tenho dúvidas sobre esta “vontade” de mudança, mas enfim…

 

Ao longo dos últimos 30 anos, Cavaco foi uma figura tutelar e permanente na cena política nacional - e resistiu a todas as criticas, todos os ataques, todos os cercos, com um talento que, confesso, não sei onde aprendeu, nem compreendo como soube manejar (o que me obriga a, no mínimo, respeitar a figura…). Se nos dermos ao trabalho de compilar tudo o que sobre ele se disse e escreveu, todas as criticas, julgamentos, processos de intenção, estados de espirito, encontramos a mais rica colecção de insultos, acusações, condenações e arrasos de que há memória sobre uma só pessoa. Não sei se Salazar lhe ganha…

 

Porém, este mesmo Cavaco Silva conquistou - depois de “ganhar” o PSD em Congresso, na sequência de uma rodagem de um automóvel… - duas maiorias consecutivas em eleições legislativas, e foi Primeiro-Ministro entre 1985 e 1995. Depois disso, foi eleito Presidente da Republica duas vezes seguidas, em 2006 e 2011. Na prática, pragmaticamente, é isto: um dos mais odiados políticos do regime democrático foi, ao mesmo tempo, um dos dois homem que os portugueses mais vezes elegeram para conduzir os destinos da nação.

 

Como se explica esta contradição? Como se explica que haja contagens decrescentes para a sua saída de cena, depois de tantas eleições, votos contados, vitórias indiscutíveis?

 

Não imagino como será visto Cavaco Silva daqui a 200 anos, quando os historiadores o avaliarem - mas tenho a certeza de que ele representa, na essência e na acção, o português típico, no que tem de mais ancestral e enraizado, na pequenez do olhar sobre o Mundo como na ideia obediente do que “é necessário fazer”. O pai de quem nunca nos livramos - queremos livrar, mas no fundo fazemos tudo para manter. A maioria dos votos que Cavaco obteve demonstra esse desejo de estabilidade quase paternal, de alguém que aguente mesmo o que ninguém quer aguentar, de alguém que esteja lá para dar o raspanete figurativo. Não muda, mas alivia. Não faz, mas ameaça. Não desrespeita a lei, mas lembra que existe. Talvez se explique desta forma - ou talvez não. O mistério vai persistir para lá dele próprio.

Para a maioria, é um alívio deixar de ter Cavaco Silva na vida política nacional. Mas receio que essa mesma maioria não deixe de procurar, no futuro, um outro Cavaco que lhe traga o sossego de que precisa para continuar a ser como é. Ou seja, igual.

 

Coisas que me deixaram a pensar esta semana

 

Quatro dias depois da entrega dos Óscares, um olhar impiedoso sobre a cerimónia, das mãos de uma das minhas bloggers favoritas, Eugénia Vasconcelos: “Proponho que nomeiem para um Óscar, já no próximo ano, um rapaz negro, transgénero, vegan, anão, adoptado por um casal lésbico asiático, sobrevivente de, sei lá, qualquer coisa que a Lady Gaga possa indignadamente gritar, perdão, interpretar, ao piano”. Leiam o resto…

 

Adoramos adivinhar o futuro. Adoramos previsões e profecias. Eis um olhar sobre o futuro, menos imaginativo e mais realista, melhor pensado…

 

Está na moda a expressão “nómada digital” - gente igual a toda a gente, cuja característica particular é, pela natureza do seu trabalho, seja a escrita ou a computação, a publicidade ou o design, poder não ter poiso fixo e fazer da sua vida uma viagem permanente, de computador às costas, e com uma ligação à internet. Mas isto é simplificar demais o que pode ter outra filosofia de vida. Sugiro, por isso, uma passagem por este site, assinado por uma francesa, mas onde colaboraram pessoas de muitos países (portugueses incluídos), que constitui uma porta de entrada para um livro, um blog, um roteiro, um guia. Um excelente trabalho, que de uma vez por todas nos põe por dentro desta nova forma de viver e trabalhar.

 

publicado às 10:15

A medida orçamental mais estúpida do ano

Por: Paulo Ferreira

 Não se entende como se vai discriminar positivamente um sector como o da restauração que, nos últimos anos, tem mostrado uma dinâmica invulgar quando a generalidade das outras actividades está carregada de impostos

 

Chegam a ser comoventes o amor e dedicação demonstrados pelo primeiro-ministro ao sector da restauração, materializados na anunciada descida do IVA aplicado ao sector, que deverá passar de 23% para 13% a partir de Julho.

 

Dir-se-á que se trata do cumprimento de uma promessa eleitoral, só por isso um acto meritório. É verdade. Tão habituados estamos a ver a generalidade das promessas ir parar à gaveta entre o dia das eleições e a tomada de posse dos governos que até estranhamos quando elas são cumpridas.

 

No caso presente, o que se estranha é a sobrevivência desta promessa quando tantas outras foram já arquivadas. Primeiro foi a descida da Taxa Social Única para todos os trabalhadores que ficou pelo caminho. Igual destino teve a mesma medida depois de mitigada pelo acordo à esquerda, quando passou a prever aplicar-se apenas aos trabalhadores com ordenados até aos 600 euros. Esta medida custava 327 milhões de euros por ano. Era cara e, quando Bruxelas obrigou a baixar o défice previsto, foi também colocada na gaveta.

 

Mas o IVA na restauração, que custa 350 milhões por ano, sobreviveu. Primeiro porque iria contribuir para a descida de preços, aumentar o volume de negócios do sector e, assim, criar emprego.

 

Mas a corporação sectorial apressou-se a desenganar os mais incautos: que não esperassem uma descida de preços, alegando que eles não subiram quando o IVA subiu. Não é verdade, como mostram os dados do INE. O IVA subiu em Janeiro de 2012. Pois entre Dezembro de 2011 e Janeiro de 2016, os preços no sector subiram 8,5% - uma subida verificada em grande parte logo no início de 2012. No mesmo período, os preços médios de produtos e serviços em toda a economia aumentaram apenas 1%. Portanto, o sector fez-se pagar pelo aumento do IVA, transferindo quase todo o custo fiscal para os consumidores, como é, aliás, natural.

 

Então o argumentário passou a ser apenas o da criação de emprego. Mas como e porquê? Se os preços não baixarem com a redução de IVA, que aumento da procura virá daí? E sem mais procura por motivos fiscais, para quê mais empregados? E se o sector português já é o que tem o volume de facturação por empregado mais baixo da Europa, o caminho é aumentar a mão de obra?

 

Alguém se anda a enganar nas contas. Ou a enganar-nos nas contas.

 

É normal que um sector que durante anos se habituou em larga medida a viver na “informalidade” - o eufemismo que nos salões bem frequentados se utiliza para dizer “fuga aos impostos” - esteja a conviver mal com os sistemas electrónicos que dificultam a sub-facturação e com o e-factura, que transformou cada cliente num fiscal das finanças.

 

Mas essa é uma adaptação que o sector tem que fazer nas suas práticas. É um mau sinal político colocar a generalidade dos contribuintes a pagar as dificuldades que agora sentem no cumprimento das obrigações fiscais.

 

Que pagamos impostos demasiado elevados, é um facto. Mas isso é verdade na restauração e no vestuário e calçado. Nos electrodomésticos e nos imóveis. Nos combustíveis e nos rendimentos do trabalho.

 

Não se entende como se vai discriminar positivamente um sector que, nos últimos anos, tem mostrado uma dinâmica invulgar quando a generalidade de todas as outras actividades está carregada de impostos.

 

Neste contexto, de austeridade continuada e com aumentos inferiores a um euro para as pensões mais baixas por falta de margem, dar 350 milhões de margem comercial adicional à restauração é, provavelmente, a medida orçamental mais estúpida do ano.

 

Esta é uma promessa que devia estar na primeira linha das que caem por manifesta falta de racionalidade económica e financeira. Só por teimosia política se insiste no erro.

 

OUTRAS LEITURAS 

publicado às 01:28

Hillary tem um plano para travar o voo de Trump? House of Cards na Casa Branca?

Por: Francisco Sena Santos

 

A festa dos Óscares celebra com pompa a excelência no cinema de Hollywood, mas também uma monocultura dos Estados Unidos da América. As estrelas e os heróis continuam sempre a ser de cor branca, ainda que desta vez o anfitrião tenha sido um negro. A diversidade com os não-brancos fica nas sobras do guião. Ação e fantasia têm a primazia. Este entretenimento populista e o quadro racial encaixa em pleno na atmosfera que envolve um demagogo populista, Donald Trump, candidato a suceder a Obama na Casa Branca. Estaremos preparados para conviver com a ideia de um mitómano que dispara slogans ameaçadores em hipérbole ultranacionalista e o lema 'Make America Great Again' vir a ser o próximo presidente dos EUA? A possibilidade de Donald vir a ser eleito tornou-se real.


Há um ano, tudo encaminhava para Hillary Clinton vir a ser eleita “Madam President”, em marcha triunfal. Ninguém ousava imaginar que o socialista Bernie Sanders pudesse causar alguma mossa às aspirações da senadora para conseguir a nomeação em glória como candidata dos Democratas. E não se via no campo republicano alguém com envergadura para o desafio. Erro grosseiro na análise. Faltou ter em conta que a maioria dos cidadãos nos EUA de hoje continua sob o trauma profundo da crise de 2008 e culpa as elites da política por essa devastação que é vista como traição ao povo.


É facto que Sanders já esgotou as possibilidades competitivas. Repetiu brilharetes nos prólogos eleitorais nos pequenos estados brancos do nordeste, mas encalhou quando a votação chegou aos estados mais a sul, onde o peso negro é relevante. Viu-se na Carolina do Sul como os afroamericanos catapultam Hillary como herdeira de Obama. Vai ser também certamente assim nos apuramentos desta “super terça-feira” da corrida presidencial americana.

 

Hillary vai hoje ganhar grande vantagem - mesmo que Sanders triunfe no Massachussets -  na contabilidade de delegados para a convenção Democrata, a decorrer entre 25 e 28 de julho, em Filadélfia. Hillary é a inevitável candidata dos Democratas. Mas a excitação progressista inicial em torno de Sanders mostrou como falta a Hillary a fibra vital para gerar uma onda maciça de entusiasmo capaz de envolver os eleitores. Já começou a ver-se que Hillary consegue captar a simpatia da América multirracial - e nenhum Democrata entra na Casa Branca sem o voto dos negros e dos latinos. Mas este voto não chega. Ela precisa de ser capaz de reinventar-se e gerar uma até agora inexistente mobilização emocional para enfrentar o republicano Donald Trump na escolha final, em 8 de novembro.


Trump, há uns meses, parecia um candidato efémero. O seu discurso excessivo, impróprio para tantos, com promessas de banir os muçulmanos, deportar imigrantes e levantar um muro na fronteira com o México, mais outros insultos e gaffes, teria destruído qualquer político tradicional. Mas ele está a revelar a astúcia de um animal político a explorar o enorme descontentamento e até raiva dos eleitores contra os políticos. Trump (tal como Sanders, este no campo oposto, o dos Democratas) apresenta-se em guerra declarada aos aparelhos tradicionais do poder, tanto o político como o financeiro, e assim vai ao encontro do instinto dos muitos que estão em fúria contra o circo político de Washington.


Como é que a América chegou a isto, como é que esta personagem que aparece sem credenciais respeitáveis se impõe assim? O multimilionário Donald Trump, patrão do grande Casino de Atlantic City e dono de vários dos luxuosos arranha-céus de Nova Iorque, entrou pela casa dos americanos nos últimos 10 anos como animador de um programa de tele-realidade na NBC, “The Apprentice”.

 

Armado com essa notoriedade que cultivou entre as massas mais populares, entrou pelos terrenos da política, sempre a denunciar a incapacidade das instituições (o Presidente, o Congresso, o Governo os tribunais, os partidos) para responder às necessidades das pessoas. Passou a explorar o poder das redes sociais. Obama já o tinha feito, com grande eficácia, nas campanhas de 2008 e 2012, para expor, detalhadamente, a sua visão política sobre os principais assuntos. Trump usa os mesmos canais mas para propagar slogans. As mensagens são sempre redutoras: cavalga a xenofobia e diaboliza os imigrantes muçulmanos e hispânicos, rejeita o liberalismo da globalização, quer construir o muro físico com o México e comercial com a China. Elogia a autoridade de Putin e ataca a diplomacia americana que ao favorecer a queda dos ditadores do Médio Oriente deixou que se instalasse o caos. Está farto de ser apanhado em contradições, mas isso não parece interessar aos apoiantes seduzidos pela mensagem "Make America Great Again".


Um grande número de republicanos não esconde a sua inquietação com esta personagem. Não se reconhecem em Trump e procuram consensos para que o candidato do partido que foi de Lincoln e de Eisenhower, também de Reagan ou dos Bush, possa ser alguém mais apresentável. O problema é que uma das alternativas, o texano Ted Cruz (vai hoje triunfar nas primárias do Texas) no altar da extrema-direita religiosa é ainda menos de fiar. A elite do aparelho republicano tem um “golden boy”, Marco Rubio, mas os eleitores não lhe ligam grande coisa. É assim que Donald Trump está a impor-se como inevitável candidato republicano. Ainda não é. Ainda não atingirá nesta “super tuesday” a maioria de delegados para a Convenção Nacional Republicana, que vai acontecer entre 18 e 21 de julho em Cleveland. Mas é muito provável que no final deste mês de março já tenha essa maioria.

 

Agora, parece já ser tarde para travar Trump no palco republicano.


Assim, salvo qualquer improvável reviravolta (não é de excluir que apareça um candidato que se apresente como independente, fala-se de Bloomberg), em 8 de novembro, os eleitores dos Estados Unidos da América vão escolher entre Hillary Clinton e Donald Trump para suceder a Barack Obama na presidência. Se os europeus também votassem nesta eleição, mesmo considerando os ventos xenófobos que por aqui se agitam, Hillary teria a presidência na mão. Tal como é, uma escolha só dos americanos, o desfecho deste confronto entre a política tradicional e a rebeldia populista tem desfecho imprevisível num eleitorado irritado.

 

Talvez valha, entretanto, pormos os olhos nos golpes do malvado “presidente” Frank Underwood que esta semana volta aos ecrãs do mundo ocidental em nova temporada da série House of Cards. O tempo está para personagens de ficção.

 

Também a ter em conta:

 

Há na Índia quem esteja a levantar-se contra degradantes primitivas práticas de casta.

 

A Espanha, perante todas as contradições, vai conseguir arranjar um governo? Vai precisar de repetir eleições no final de junho? As eleições desfazem o impasse?

 

As eleições iranianas, com o êxito dos moderados do presidente Rohani, são uma vitória para Obama e uma derrota para Netanyahu. 

 

Primeiras páginas escolhidas nesta "super terça feira": esta The Wall Street Journal, esta do The New York Times e esta do Libération. Também esta do NRC de Amesterdão que vê Washington em pânico com o cenário real deste Donald na Casa Branca.

 

E agrava-se todos os dias a tragédia dos refugiados. Veja-se aqui, como é em Calais.  E aqui, uma amostra de como está a ser nos Balcãs.

publicado às 09:20

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