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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Os salários, o ovo e a galinha

O que nasce primeiro, o desenvolvimento ou os salários mais altos? A ordem não é indiferente e a confusão entre causas e consequências é comum

 

Há poucos temas que atraiam mais demagogia do que a discussão sobre níveis salariais e ordenados mínimos. E a confusão começa logo na mistura pouco inocente ou pouco informada entre causas e consequências.

 

Que em Portugal o salário mínimo é miserável e as retribuições médias são medíocres é um dado objectivo. E não é preciso comparar com os países mais próperos da Europa, basta ter a noção do que pode uma família fazer com os 530 euros de salário mínimo ou mesmo com os cerca de 1.000 euros de retribuição média para perceber que somos um país pobre.

 

Estes são os dados. E a questão é esta: os salários são baixos porque a economia é pouco desenvolvida e competitiva ou a economia é pouco desenvolvida e competitiva porque os salários são baixos?

 

Não tenho dúvidas que os baixos salários são uma consequência e não uma causa. São uma consequência de um dado essencial, que é a produtividade.

 

Diz-nos a Pordata - pode consultar aqui - que em 2014, em média, cada português produziu 70,1 enquanto cada trabalhador da UE produziu 100. Esta é a causa. E a consequência da pobre produtividade são, entre outras, os pobres salários.

 

Podemos e devemos discutir quais são os motivos de produzirmos tão pouco quando até trabalhamos mais horas e como devemos aumentar a eficiência do nosso tempo. Esse é um exercício fundamental para que alguma coisa se altere.

 

É da fraca gestão e organização das empresas. É dos custos de contexto que o Estado impõe. É de maus hábitos de trabalho e fraca qualificação de muitos de nós. É dos custos excessivos de alguns serviços básicos como as telecomunicações ou energia. É do facto de termos um tecido empresarial que ainda está muito posicionado em produzir com baixo valor acrescentado, baixa inovação, baixo design. É da probreza da nossa marca-país e da inexistência de marcas de produtos e serviços fortes que levem os consumidores a pagar mais por eles. É disto tudo e muito mais.

 

O caminho para o desastre, que já percorremos abundantemente nas últimas décadas, é pretender aumentar os salários administrativamente mais do que a produtividade. A consequência disso é a perda de capacidade competitiva das empresas, a incapacidade de estas conseguirem meios para investirem e se modernizarem, as falências, os despedimentos, o aumento do desemprego, num ciclo vicioso que perpetua a pobreza ou, quanto muito, o país de “remediados”.

 

Já tivemos tempo para aprender mas teimamos em olhar para as consequências, lamentando-as, sem observar as causas, combatendo-as.

 

E isso acontece porque discursos como o que fez o primeiro-ministro esta terça-feira são muito mais populares do que elaborar sobre a necessidade de aumentar a produtividade.

 

Disse António Costa: “Quando vemos alguns, cá dentro ou na Europa, a dizerem que em Portugal nós não nos desenvolveremos aumentando o salário mínimo nacional porque estamos condenados a viver num país de baixos salários e de pobreza, nós temos que dizer: Não. Não aceitamos viver num país de pobreza e de baixos salários”. De facto, são palavras capazes de fazer levantar uma plateia. É importante este inconformismo de não aceitar viver num país de pobreza e baixos salários. Mas é altamente demagógico insinuar que isso acontece porque há uma espécie de forças ocultas que nos impedem de ter retribuições mais altas. A haver conspiração, os conspiradores somos nós. Somos nós - governos, empresários, gestores, trabalhadores - que não temos sabido criar condições para produzir mais e ganhar em conformidade. É legitimo ambicionar ter ordenados à dimanarquesa. Mas não é possível tê-los, de forma sustentada, enquanto mantemos a produtividade à portuguesa. E se isto não é assim, António Costa está no sítio certo para o demonstrar. E para, a seguir, ganhar um Nobel e ser canonizado. Seria totalmente merecido.

 

 

OUTRAS LEITURAS 

- … e enquanto a economia não crescer bastante - a Irlanda anda já pela casa dos 5% ou 6% - durante vários anos, é certo que vamos continuar na mediocridade salarial e de properidade. As notícias são, nesta frente, más mas não surpreendentes. Se há coisa em que os políticos e governantes são peritos é em prever o futuro muito melhor do que ele acontece. No programa eleitoral do PS previa-se um crescimento de 3% para o próximo ano. A previsão do governo é agora de 1,8%.

 

- A ironia é que é um governo de esquerda a obrigar algumas empresas a aceitarem as regras de mercado mesmo quando os seus accionistas e gestores preferiam manter o seu “quintal” bem murado. A certeza é que o tema BPI está ainda no início. Aguarda-se a resposta angolana.

 

publicado às 09:44

No dia em que NY dá fôlego a Hillary e Trump: vamos ter saudades de Obama

 
Por: Francisco Sena Santos
 

 Daqui a precisamente nove meses Obama estará no último dia como presidente dos Estados Unidos. Na manhã seguinte, 20 de janeiro, toma posse o sucessor, provavelmente a experiente, belicosa e fria Hillary Clinton: nenhum aparelho político na eleição tem o poderio da Clinton Machine, que compensa a incapacidade da candidata para mostrar entusiasmo, paixão ou apenas calor.

Mas porque Hillary tem a debilidade de representar, em tempo de vontades de mudança, a expressão da continuidade dos lóbis do “establishment”, ainda não se pode excluir a hipótese de o presidente vir a ser Donald Trump, o xenófobo turbilhão populista que cavalga sobre os instintos dos eleitores e que explora a crise dos partidos políticos americanos. A alternativa Bernie Sanders é muito remota, as suas possibilidades eleitorais são ínfimas ou nulas, embora a sua influência sobre a política dos EUA vá permanecer como fermento para mudanças. Seja como for, vamos ter saudades da presidência Obama.


Antes de Obama, os EUA eram um país que gerava hostilidade em meio mundo pelo modo autoritário e guerreiro como impunha a todos o seu poderio. A eleição de Obama, no final de 2007, desencadeou uma onda de euforia e instalou uma atmosfera de desanuviamento geral, portanto de esperança. O mundo mudou a perceção que tinha dos EUA. O Nobel da Paz até terá sido atribuído antes de desempenhos que o justificassem, mas traduziu o clima novo trazido pela eleição na América de um presidente negro com um consistente programa de mudança – infelizmente, apesar do simbolismo da eleição, não há progresso substancial em direcção à igualdade racial.
 
Mas, decorridos sete anos de presidência Obama, a última página da Guerra Fria está fechada com os acordos que puseram fim a meio século de hostilidade com Cuba. O acordo nuclear com o Irão mostra como vale negociar com os inimigos de ontem para conseguir compromissos para amanhã. A promessa de retirar os soldados do Iraque e do Afeganistão está cumprida. Obama foi propulsor da drástica redução de emissões de CO2 causadoras das alterações climáticas: as energias renováveis triplicaram.
 
Obama herdou um país com economia dramaticamente derrotada, mas que agora voltou a ligar os motores, embora a avançar ainda devagarinho. Com a energia mais barata, a maioria dos americanos vive melhor. A criação de emprego é pujante, com mais um milhão de postos de trabalho, e o desemprego está nos 4,9% e em queda consistente. A indústria automóvel ressuscitou, convertida aos novos tempos. Uma conquista extraordinária: 20 milhões de adultos que não tinham acesso a quaisquer cuidados de saúde passaram a estar protegidos com o Obamacare. Foi instalada uma perspectiva mais humana para com os imigrantes ilegais. Muita da mudança ambicionada por Obama esbarra na tenaz oposição do congresso com entrincheirada maioria republicana.

Ao mesmo tempo, a presidência Obama soma vários fracassos. As matanças em território americano sucedem-se. Vimos as lágrimas de revolta do presidente, mas ele não conseguiu impor a limitação às armas de fogo que todos têm. Obama prometeu defender intransigentemente as liberdades civis mas Edward Snowden é perseguido pelas revelações inconvenientes para o aparelho de poder na América. Obama também ainda não conseguiu fechar o campo prisional de Guantanamo. As acusações de tortura praticada por agentes dos serviços secretos americanos ficaram sem consequência. A maioria dos responsáveis pelo crash financeiro de 2007/08 escapa a sérios ajustes de contas. Obama, com o discurso no Cairo, impulsionou as “primaveras árabes”, mas o Egito é um desastre. A Síria é uma catástrofe  que agrava a tragédia dos refugiados. Obama apostou numa evolução digna, finalmente, para a questão palestiniana, mas não conseguiu. A ameaça terrorista está fora de controlo.
 
São muitas decepções, até porque as expectativas eram tantas, mas essa frustração não impede que Obama seja o presidente que tirou os EUA da grande depressão e que reconciliou meio mundo com a América. Foi eleito com o lema “Yes, he can”, talvez fique como “Yes, he tried”. Ele quis, tentou e o que conseguiu é bastante para deixar boa memória. Abriu caminhos, catapultou para o progresso. Mas a aspiração era a de que fosse muito mais.

Fica-se de pé atrás ante o que vem a seguir às eleições de novembro: Hillary ou Donald? A batalha preliminar (as primárias) tem hoje capital em Nova Iorque, com o voto de 5,8 milhões de eleitores democratas e 2,7 milhões de republicanos. Hillary Clinton e Donald Trump têm a promessa de vitórias que os deixem mais perto da nomeação para a final de novembro. Mas Sanders não vai deixar de pressionar Hillary, e Trump ainda vai ter batalhas com epílogo incerto.
 
Uma perspetiva curiosa: como o turbilhão de Trump pode vir a custar aos republicanos a perda do controlo do Congresso.


TAMBÉM A TER EM CONTA:

Os Pulitzer de 2016 premeiam os fotojornalistas do NYT e da Reuters que mostram o drama dos refugiados na Europa.
 

“Nos desenhos daquelas crianças (refugiadas) até o sol chora”. O Papa, com a visita ao campo de refugiados em Lesbos, um “cárcere a céu aberto”, deu um safanão aos dirigentes políticos egoístas que blindam as fronteiras. O Papa, com coragem, denunciou ao mundo como tantas crianças que fugiram da guerra estão ali, detidas em contentores dentro de cancelas e arames farpados, sem escola e sem possibilidade de brincar. Tal como mulheres grávidas e tantos anciãos. É uma indecência europeia. Causa fúria e vergonha. Ainda bem que há gestos como os deste Papa.
 
 
Viver por dentro a vida no Irão em tempos de abertura.
 
 
O Arco do Triunfo, de Palmira, recriado em Trafalgar Square.
 
 
30 novos museus de audazes arquitetos.
 
Duas primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta e esta. Parece decidido que Dilma vai cair. O processo foi conduzido no parlamento por Eduardo Cunha, um acusador sob forte suspeita. O Brasil está longe de dar certo.
publicado às 08:08

Crickhowell, o pequeno reduto galês que paga impostos como os super-ricos

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© Crown copyright (2011) Visit Wales 

 

Por: Pedro Fonseca

 

Uma cidade do País de Gales adoptou um modelo tributário de "offshore" para demonstrar as falhas nas cobranças fiscais permitidas pelos governos e até peticionou para o dono do café local ser o presidente da autoridade tributária do Reino Unido. Quando as "offshore" estão a ser questionadas, descubra como nem sequer fazem bem aos países que as acolhem.

 

Crickhowell é uma pequena cidade do País de Gales, com cerca de 2.800 habitantes. No ano passado, ficou conhecida por anunciar que ia ser a primeira localidade a usar as mesmas tácticas de fuga aos impostos utilizadas pelas empresas multinacionais, no programa televisivo "The Town That Went Offshore", emitido pela BBC2 a 20 de Janeiro passado. O movimento iniciou-se após Crughywel, do nome em galês, ter evitado a compra de um "pub" local por uma cadeia de supermercados. Segundo o Wales Online, a estratégia juntou 180 pessoas na aquisição do "pub" por 500 mil libras em Novembro passado.

 

O documentário televisivo demonstrou como era possível a empresas locais de uma pequena cidade usarem os mesmos subterfúgios fiscais das multinacionais, com algumas empresas de Crickhowell a criarem uma "offshore" na ilha de Man - um paraíso fiscal inglês situado entre a Irlanda e a Inglaterra, com taxação praticamente nula -, com ligações a uma outra entidade criada na Holanda.

A ilha de Man foi escolhida por a rede Caffé Nero ter ali a sua sede para efeitos fiscais - e um dos principais dinamizadores da iniciativa Fair Tax Town Scheme em Crickhowell ser o dono do café local. Mas outras multinacionais foram visadas.

 

O fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, foi convidado para participar num debate público no festival Hay, que decorre de 26 de Maio a 5 de Junho na região. O objectivo é questionar como o Facebook pagou menos impostos relativamente a um trabalhador inglês. "Nenhum homem inteligente poderia defender-me por pagar oito vezes mais do que os impostos do Facebook", disse Steve Lewis, proprietário do Number 18 Café, em Janeiro passado ao jornal The Independent, quando um político lhe pediu para moderar a campanha antes dela atingir níveis nacionais.

 

Em Novembro de 2015, o jornal francês L'Humanité explicava como as cadeias de cafés praticavam esta "injustiça fiscal". Elas apresentam "resultados negativos em todos os países da Europa há anos, mas um resultado global muito benéfico. Cada estabelecimento Starbucks ou Caffé Nero paga a uma primeira filial, baseada na Irlanda, pelo menos 20% dos seus resultados em termos de propriedade intelectual (pela utilização da marca e do conceito). Nesta ilha, os benefícios ligados aos 'royalties' não são impostos. Cada café deve em seguida comprar obrigatoriamente as suas matérias-primas a um levado preço numa outra filial muito rentável. É assim que a Suíça, país muito generoso em termos de impostos sobre os resultados, se tornou líder europeu na venda de grãos de café..."

 

Em resultado disso, "a Starbucks é deficitária em França como no Reino Unido, pelo que ali paga muitos poucos impostos, mas tem um benefício líquido global de mais de dois mil milhões de euros".

 

 

Copiar estratégias para embaraçar governos

 

A campanha Fair Tax Town também teve percalços. Steve Lewis avançou para um cargo na administração da HM Revenue & Customs (HMRC), a entidade tributária do Reino Unido, explicando no site da campanha que ia desistir de membro fundador para se focar nos abusos das multinacionais, pressionando-as a "pagarem impostos justos, expor as suas práticas e deixar o público julgar as suas verdadeiras intenções como cidadãos corporativos".

 

Lewis considera que "replicar" o modelo das multinacionais "não é uma opção", optando pela luta por um lugar na administração da HMRC, que deve vagar este mês, com a anunciada saída de Lin Homer, que obteve uma grande indemnização com a promessa de não ocupar cargos que possam "embaraçar ministros". Uma petição online para Lewis ocupar o cargo conseguiu mais de 140 mil assinaturas. "Enquanto eu pago 20% dos lucros do meu café em impostos, muitas grandes cadeias de cafés usam falhas legais para evitarem impostos ou negociarem com a HMRC para reduzirem a sua taxa de impostos para 0%", clarificou Lewis.

 

Ele considera que a HMRC deve "parar de ajudar as multinacionais a reduzirem as suas facturas fiscais e começar a trabalhar para o público britânico e as pequenas empresas britânicas a terem impostos justos para todos - grandes e pequenos", disse ao This Is Money. Lewis quer alguém na HMRC que entenda os "cidadãos normais ou os pequenos negócios". Além disso, quer promover a revelação e a negociação públicas dos acordos entre multinacionais e governos para uma menor taxação fiscal.

 

Jo Carthew, da empresa local de alimentos fumados Black Mountains Smokery, também explicou ao Financial Times que "o conceito que criámos pode demonstrar como, em princípio, as pequenas empresas, trabalhando em coligação, se podem tornar mais eficientes em termos fiscais ao copiarem estratégias usadas pelas multinacionais".

 

O dono da padaria, Steve Askew, considerou que o objectivo da campanha era embaraçar as grandes empresas e o governo, considerando que qualquer pessoa deve pagar impostos, mas "o que as pessoas não aceitam é a injustiça". Disse ainda, ao The Independent em Novembro passado, que "queremos pagar os nossos impostos porque todos usamos escolas e hospitais locais mas desejamos uma mudança da lei para que todos paguem a sua justa parte".

 

Também Irena Kolaleva, proprietária da empresa de serviços ópticos, explicou à BBC Radio Wales que pretendiam "chamar a atenção para o problema. É muito simples. Se uma empresa está baseada neste país e emprega pessoas neste país, que pagam os impostos neste país - pessoas normais que são taxadas -, porque usa subterfúgios legais pagando os seus imposto fora?"

 

 

Respostas são complexas

 

Um crítico da evasão fiscal através destes esquemas, Richard Murphy (conselheiro do trabalhista Jeremy Corbyn), compara a situação como se se fosse "protestar sobre o crime urbano indo cometer crime urbano" - é "irresponsável", considerou. No entanto, neste país, "tanto nas campanhas eleitorais de 2010 e 2015, cada partido prometeu reprimir a evasão fiscal, e ainda assim ela continua", com perdas nas receitas de impostos, explicava a Vice em Janeiro passado. "Parece muitas vezes que o contribuinte comum é totalmente impotente para fazer alguma coisa sobre as empresas que evitam os impostos, o tempo todo a serem forçados a pagar cada cêntimo da sua própria factura fiscal ou a enfrentar sérias consequências".

 

No início de Abril, Paul Heywood, professor de políticas europeias na universidade de Nottingham, colocava uma questão semelhante na The Conversation: se os Panama Papers não revelam quase nada de novo e sabendo-se que isto ocorre há várias décadas, porque se foi tão ineficiente a prevenir o problema? As respostas são "inevitavelmente complexas", mas ele aborda três factores para explicar "um dos maiores falhanços políticos nas recentes décadas".

 

Primeiro, se a corrupção existiu desde o pós-Guerra Fria, só no início dos anos 90 do século passado se constatou ser "endémica nos antigos estados comunistas e no mundo em desenvolvimento", contribuindo para a sua conceptualização e posterior erradicação ou controlo pelos estados ocidentais. Heywood considera que estudos da Transparency International ou do World Bank mostram uma "clara correlação entre os elevados níveis de desenvolvimentos sócio-político e económico e os baixos níveis de corrupção". Mas esses trabalhos focam-se num modelo desactualizado de corrupção (no pagamento de luvas, por exemplo), quando a mesma engloba diferentes níveis, desde sofisticadas redes transnacionais a um nível mais local envolvendo poucas pessoas.

 

Em segundo, e relacionado com a anterior falha, considera que o combate à corrupção ocorreu mais ao nível de estratégias nacionais mas não transnacionais - isto quando os Panama Papers demonstram serem "precisamente as operações transnacionais que são quase impossíveis para os estados de gerirem individualmente".

 

Por fim, questiona a generalização do termo, comparando o uso de "combate à corrupção" a um genérico "combate à doença". Não faz sentido, diz, devendo-se especificar que tipo de corrupção é, onde, quem está envolvido e as suas motivações ou que sectores estão implicados, entre outras considerações.

 

 

Super-ricos acima da lei

 

O próprio World Bank foi acusado em Abril passado pela ONG inglesa Oxfam de emprestar dinheiro para projectos na África subsariana a empresas que usam "offshores", diminuindo o nível de transparência na gestão dos subsídios. A acusação foi negada pelos responsáveis da International Finance Corporation (IFC), a entidade privada de financiamento do banco.

 

A IFC acusou a Oxfam de "trabalhar na ideia errada de que as jurisdições 'offshore' são inevitavelmente usadas para evasão fiscal". Frederick Jones, porta-voz da IFC, declarou: "há usos legítimos para estruturas 'offshore'". O problema é que a protecção destes paraísos fiscais e a fraca revelação dos seus segredos é enorme. E muito passa pelos chamados gestores de fortunas, que dão a cara para esconderem a dos seus clientes.

 

Em Outubro de 2015, na revista The Atlantic, a socióloga Brooke Harrington explicou como foi ameaçada ao confrontar um desses gestores de fortunas nas Ilhas Virgens britânicas, lembrando a sua sorte perante o trabalho da jornalista Leah Goodman. Esta preparava um trabalho para a revista Newsweek em 2013 sobre a ilha de Jersey, acusando-a de crimes fiscais, entre outros, e acabou impedida de re-entrar na ilha ou mesmo no Reino Unido durante alguns anos.

 

Para Harrington, na sua análise aos gestores de fortunas que facilitam a existência de negócios em "offshores", o que descobriu no decorrer do estudo "não foi apenas uma visão sobre a realização da grande desigualdade crescente da riqueza em todo o mundo. Havia também algo maior, e ainda mais preocupante: um domínio da fantasia libertária tornada real, em que a intervenção profissional tornou possível às pessoas mais ricas do mundo ficarem livres não só das obrigações fiscais mas de quaisquer leis que considerem inconvenientes".

 

Estes super-ricos "estão acima da lei" e isto é "potencialmente muito perigoso", considera. Harrington clarifica que não é a posse do dinheiro que permite este estado das coisas "mas a aplicação do conhecimento financeiro-legal", pelo que é necessária a contratação dos tais gestores de fortunas para os elucidarem sobre a melhor forma de sigilo e desconhecimento geral para a aplicação dos seus bens - legais ou não - e para garantir que essa riqueza "se mantém na família, geração após geração".

 

Este conhecimento não beneficia a população local do Panamá. Um recente artigo da Al Jazeera demonstrava como os benefícios de uma sociedade baseada em ricos "offshores" não chegavam aos pobres do país. Dos quase quatro milhões de habitantes (com quase metade na capital Panama City), 12,7% de pessoas vivem em zonas rurais e a pobreza nesse segmento chega aos 70%, com a probreza extrema a atingir os 40%, com enormes falhas no acesso a água, cuidados de saúde e de sanidade.

 

Apesar de ter registadas 214 mil empresas, segundo os Panama Papers, e de ser um dos países com maior crescimento económico (6,2% no PIB em 2014, apontam dados do World Bank), a população local não beneficia das "offshores".

 

A muitos milhares de quilómetros, Crickhowell descobriu que pode tentar mudar esse mundo.

publicado às 23:54

Brasil na hora da ressaca

Por: José Couto Nogueira

 

Agora que está dado o primeiro passo no longo processo que levará, quase inevitavelmente, à deposição da Presidenta Dilma Roussef, será a altura de fazer um balanço do que se passou e do que está para acontecer

 

 

Quanto ao que se passou, é bom dizer que o espectáculo da votação do impeachment de Dilma Roussef na Câmara dos Deputados deixou os brasileiros com a boca aberta de incredulidade. Os comentários de surpresa, desilusão, repúdio e troça nas redes sociais e blogues mostram que a maioria não tinha realmente percebido o baixo nível dos seus deputados. Muitos apresentaram-se com cartazes pró e contra, como se estivessem numa manifestação de rua; e nas declarações de voto facultativas, uma grande maioria afirmou que iam votar em nome dos filhos, de parentes, de associações recreativas, de causas despropositadas e princípios obscuros, muito poucos se referindo ao essencial – que estavam a representar os seus eleitores.

 

Mas, se a maioria das declarações foram ridículas, cheias de erros de português e frases sem sentido, algumas surpreenderam pelo lado aterrador – como o deputado Jair Bolsonaro do Partido Progressista (de direita), que dedicou o seu voto a um dos maiores torturadores da ditadura militar, Carlos Ustra. Logo a seguir o deputado Jean Wyllys, do PT, cuspiu-lhe em cima. Tudo isto no meio de uma balbúrdia inenarrável, onde pontificava o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, notório delinquente, com vários processos instaurados, sorrindo beatificamente. Os tribunais já têm provas de que Cunha, a mulher e a filha têm cinco milhões de dólares na Suíça, embora legalmente viva do seu salário.

 

No meio deste carnaval, que aliás já decorre há semanas, é difícil para a maioria dos cidadãos perceber o que estava em jogo no domingo. Com efeito, e ao contrário do que o PT tem afirmado, não se trata de uma luta ideológica entre esquerda e direita, e muito menos de um “golpe”. O impeachment de Dilma Russeff baseia-se em operações ilegais que ela fez – e admitiu ter feito – sem a aprovação do legislativo. Havendo a tipificação comprovada de que ela cometeu o crime de utilização indevida de fundos (“responsabilidade fiscal”), formou-se um comissão parlamentar para avaliar, ouviu-se a defesa, e foi decidido levar o impedimento à Câmara. O facto dela se declarar uma mulher honesta, perseguida pela reacção, em nada desqualifica a acusação e não conseguiu evitar que o relator desse parecer favorável à abertura do processo.

 

No zoológico do Congresso viu-se espectáculo deprimente de má gramática, religiosidade despropositada e ufanismo regionalista, com beijinhos para os filhotes, padrinhos de crisma, titios e titias pelo lado do SIM; pelo NÃO, assistimos ao mesmo espectáculo, acrescido de bordões velhos da década de 1960, do tipo "não passarão", "pelas invasões", "pelos que morreram lutando contra a ditadura", "pelos cadáveres dos torturados", "por Zumbi e os Quilombolas" - como se a consequência inevitável da votação para a abertura do processo de impedimento fosse a re-instauração de um regime não democrático.

 

O próximo carnaval será no Senado (o Brasil é bi-cameral) onde bastará a aprovação por maioria simples – sendo que muitos senadores estão incriminados nas investigações do processo Lava-Jato, inclusive o presidente, Renan Calheiros. A decisão está prevista para ocorrer na segunda semana de Maio. Se os senadores decidirem abrir o processo, Dilma ficará afastada até 180 dias (seis meses) à espera do julgamento; enquanto isso, o vice Michel Temer (PMDB) assumiria o cargo interinamente. No julgamento final pelo Senado, a Presidente será definitivamente deposta caso 54 senadores votem pelo impeachment. Nesse caso, Temer assumiria o posto até a passagem do mandato para o próximo presidente eleito da República, em 1 de Janeiro de 2019.

 

Independentemente de todas as singularidades, todo o processo está perfeitamente de acordo com a lei e previsto na Constituição. Na verdade, a tese do golpe, e as outras teses alarmistas, como as que consideram não submeter ao rigor da lei um Presidente delinquente, é que constituiria um retrocesso ao autoritarismo. Num golpe, a coisa acontece de maneira súbita e repentina: alguém ou alguma coisa vai lá e toma o que quer à força e sem recurso, o que não é o caso.

 

Os que alegam que a utilização indevida de fundos (as tais "pedaladas") foi prática costumeira em governos anteriores, desvalorizam a escala em que o crime foi praticado por este governo, e pretendem que um erro justifique o outro. Com efeito, não é preciso ser advogado para saber que o criminoso não pode alegar em sua defesa que outros cometeram o mesmo crime.

 

O que também está em causa, para a opinião pública (93% na última sondagem) é que o Governo de Dilma Roussef fez uma série de promessas que não cumpriu. Os que defendem Dilma, ou Dilma e Lula, são os que acham que José Dirceu, actualmente a cumprir longa pena pelo “mensalão”, é uma vítima inocente e perseguido pelos “reaça-fascistas”, que o dito “mensalão” foi uma prática aceitável em nome da governabilidade, e que não existe problema nenhum no facto do PT ter falido os fundos de previdência públicos para financiar a campanha eleitoral de 201. Ou que acham que as "benesses" imobiliárias concedidas pelas grandes empreiteiras ao ex-Presidente são intrigas da oposição, e que há uma justificação para o desaparecimento de mais de mil e trezentos milhões de dólares na Petrobras.

 

Na verdade, a democratização e modernização do Brasil acelerou precisamente depois de outro processo de impeachment, o de Fernando Collor de Mello, em 1992. Foi nessa época, com os governos de Itamar Franco e de Fernando Henrique Cardoso, que se deu a estabilidade económica, a redução da inflação e o início dos programas sociais que abriram caminho para que depois o PT chegasse ao Governo, em 2003.

 

As esperanças eram imensas, e agora a desilusão e as frustrações são maiores ainda. Há a consciência de que destituir Dilma não resolverá a questão, uma vez que o poder ficará na mão de delinquentes já incriminados, Temer, Costa e Calheiros; mas também há a esperança de que em breve também estes políticos respondam pelos seus actos.

Neste momento de ressaca, é o que corre no Brasil.

 

publicado às 22:59

A rutura

A rutura das negociações entre o CaixaBank e Isabel dos Santos não é um problema apenas para o BPI – que não merecia isto. É mais um caso que abre novas fontes de incerteza num sistema financeiro que está longe de estar resolvido– leia-se, preparado – para ultrapassar a crise de negócio e de capital.

 

O BPI tinha até 10 de Abril para diminuir a sua exposição a Angola, que se materializa na posição maioritária que tem no BFA, em associação com Isabel dos Santos. Para que isso fosse possível, o acordo não poderia passar apenas por Angola, claro, porque Isabel dos Santos é a segunda maior acionista do BPI, com cerca de 20% do capital, a seguir ao CaixaBank, com 44%. E, sem acordo, sem solução, os rácios de capital do BPI vêm por aí abaixo.

 

Ainda não se sabe tudo das negociações falhadas no BPI. Já é certo, ainda assim, que Isabel dos Santos voltou a pôr em cima da mesa das negociações condições que já teriam sido ultrapassadas. E condições que, para a administração do BPI e, claro, do próprio CaixaBank, eram inaceitáveis. Sabe-se, isso sim, que o Banco de Portugal ainda não deu o ‘ok’ à administração do BIC, um outro banco em Portugal controlado pela empresária angolana. Se a justificação é esta, Isabel dos Santos faz mal, e põe-se numa posição de pressão que a deixa do lado errado das negociações. Legitima, até, intervenções na secretaria, do Governo, do Banco de Portugal, do BCE.

 

Sai mal, mas não sai mal sozinha. O primeiro-ministro convidou-a a entrar no Millennium bcp depois de sair do BPI, coisa que, pelos vistos, não articulou com o regulador que, agora, não lhe concede o regime de idoneidade necessário. Portanto, alguém se esqueceu de avisar António Costa e, já agora, Marcelo Rebelo de Sousa. Que, pela primeira vez desde que foi eleito, respondeu ‘à Cavaco’. Marcelo vai defender os interesses nacionais. Notícia seria o contrário, não era?

 

Agora, o problema já não é o passado, é o futuro. O CaixaBank lançou uma OPA – outra – sobre o BPI, o governo legislou sobre o fim dos limites aos direitos de voto nas empresas cotadas, coisa que existe no BPI e dá poderes ‘reforçados’ a Isabel dos Santos, o BCE poderá anunciar outras medidas para pressionar a empresária angolana. No limite, Isabel dos Santos é ‘corrida’ do BPI à força.

 

E depois? O problema mantém-se, isto é, o BPI continuará a ter uma participação maioritária num banco angolano e vai continuar a não cumprir as imposições do BCE e os limites aos grandes riscos. E qualquer decisão do BPI em Angola depende, claro, das autoridades angolanas, do Banco Nacional de Angola. Como se sai daqui sem um acordo? Das duas, uma: o BCE revê a sua avaliação da exposição do BPI a Angola e dispensa o banco de vender a sua posição no BFA porque, agora, passa a ser uma extensão do CaixaBank; ou impõe uma medida extrema, uma medida de resolução que separa a operação do BPI em Portugal da operação angolana.

 

Qualquer que seja o caminho, a presença do BPI em Angola mudará para sempre. O ‘novo’ BPI não será o mesmo, será outro. Durante anos, o BFA foi uma fonte de lucros, chegou a ser a única. Já em 2015 o BPI lucrou 90 milhões de euros só da atividade doméstica. Mas sem a operação africana, o BPI tem de encontrar outro caminho, agora sob o domínio do Caixabank. Até lá, é sobreviver no meio de uma guerra acionista, gerir o banco com o mesmo cuidado com que foi gerido nos últimos anos, sem o risco que se viu, por exemplo, no BES ou no BCP ou até no Banif. Mesmo tendo em conta as perdas com a dívida grega, o BPI tem um balanço saudável no quadro do sistema português. Ulrich seguiu no BPI uma estratégia de avaliação de risco que só tem paralelo no Santander.

 

A rutura das negociações no BPI, essa, tem impactos muito para além do próprio banco. Terá, por exemplo, no BCP, banco no qual a Sonangol tem 20% do capital e de que é o maior acionista. Dificultará a venda do Novo Banco e vai expor ainda mais a situação do sistema financeiro português no quadro europeu e internacional. Por último, mas não menos importante, vai ser uma fonte de choques entre Portugal e Angola, de consequências ainda imprevisíveis.

 

AS ESCOLHAS

Depois de Angola, o Brasil. O processo de impeachment de Dilma Roussef no congresso foi aprovado e vai agora para o Senado, como pode ler aqui. É, para o futuro do país, um caminho cheio de riscos, para a própria Democracia. Dilma deveria pedir a demissão, sim, é parte do problema e não da solução, já terá até contra si muitos dos milhões de brasileiros que a apoiaram e levaram à presidência. Mas, não dando esse passo, a linha que separa a legitimidade política do golpe político é ténue. Sobretudo quando o regime político brasileiro, tão dividido, não dá sinais de conseguir encontrar saídas para esta possível destituição.

publicado às 10:51

A parvoíce do género ou a generalidade do parvo

Por: José Couto Nogueira

 

O Bloco de Esquerda é o partido mais surpreendente da Assembleia da República (e, quiçá, mesmo fora da AR, incluindo os agrupamentos dos Srs. Marinho Pinto e Manuel Coelho, se ainda os têm). Para começar, não se chama Partido, mas sim Bloco, como aqueles grupos mais pequenos do Carnaval carioca, que não têm massa crítica para se chamar Escolas. Sendo um partido que dá pelo nome de Bloco, também é surpreendente que seja dirigido por mulheres, situação inédita nas democracias (e ainda mais nas ditaduras), o que muito incomoda comentadores como o Sr. Pedro Arroja, que as acha desagradáveis, ou como o Sr. César das Neves, que só as quer na cozinha. Mas adiante.

 

Uma coisa surpreendente no Bloco são algumas das suas atitudes. Como afirmar que Jesus Cristo tinha dois pais, quando toda a gente estava convencida que Jesus Cristo tinha uma mãe e um pai. Quer dizer, até podia ter um pai e um amigo do pai; isso é discutível e, quiçá, blasfemo discutir, mas uma mãe teve com certeza, virgem ainda por cima. Adiante, outra vez.

 

Outra coisa surpreendente no Bloco são as propostas que faz e, ainda mais, a fundamentação dessas propostas.

 

Por exemplo, a que acaba de ocorrer: um projecto de resolução para mudar o nome do Cartão de Cidadão para Cartão de Cidadania, porque “não respeita a identidade de género de mais de metade da população portuguesa”. (…) “a designação não deve ficar restrita à formulação masculina, que não é neutra, e deve, pelo contrário, beneficiar de uma formulação que responda também ao seu papel de identificação afectiva e simbólica, no mais profundo respeito pela igualdade de direitos entre homens e mulheres”.

 

Percebemos agora, através desta proposta fracturante, como eram segregacionistas os pergaminhos da República. Mas, é claro, estamos sempre a tempo de aperfeiçoar a Constituição e todos os diplomas oficiais. Temos é que ir mais longe. Por exemplo: Cartão também é uma palavra masculina. Seria talvez melhor chamar-lhe cartolina. Cartolina da Cidadania soa bem, mas aí temos dois femininos, o que seria discriminação inversa. Poderá então ser Cartão de Cidadania ou Cartolina do Cidadão. Um referendo – ou uma referenda - resolvem a questão a contento de todos.

 

Mas os homens – que os há, e muitos, no Bloco e em toda a parte – também vão começar a protestar contra a indecência das palavras importantes que são femininas como, por exemplo, humanidade, consciência, ética, estética, saúde, revolução, luta e esquerda. Certamente que se encontrará masculino para todas estas palavras.

 

Este terrível problema, da parcialidade do género, já aliás foi levantado por uma precursora, por sinal da mesma área politica do Bloco, a Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff. Em vão lhe tentaram explicar que presidente é aquele que preside e portanto, não sendo derivado de um substantivo, mas sim de um verbo, não tem género. Ela quis, quis, e ficou Presidenta. Se calhar é por isso que agora querem derrubá-la, vá-se lá saber. Talvez o Bloco devesse levar o precedente em consideração.

 

No meio deste importante debate, resta-nos o consolo de haver palavras que não levantam problemas, pois não se consegue detectar o género. Parvoíce, por exemplo.

 

A fechar a semana, três sugestões de leitura sobre homens, ídolos e máquinas:

 

Kobe Bryant: amaram-no e odiaram-no, mas todos o admiraram.

 

"Dia do Sol". Quando a fechada Coreia do Norte se mostra ao mundo.

 

Robôs do Facebook ameaçam aplicações da Apple e da Google.

publicado às 09:22

A festa continua: como sobreviver ao caos com honestidade?

Depois de, na semana passada, termos sabido que alguns agentes e responsáveis pelas investigações policiais no tráfico de droga, no activo ou na reforma, eram parte interessada do negócio, recebendo luvas, camuflando operações, ou mesmo desviando o olhar das autoridades para horizontes dourados enquanto, nas suas costas, os traficantes agiam tranquilamente, esta semana foi a vez das finanças: quinze detidos pela Polícia Judiciária no âmbito de uma operação da Unidade Nacional de Combate à Corrupção na zona da Grande Lisboa. Estão envolvidos, tanto quanto se sabe, pelo menos três técnicos das finanças, três chefes de repartição e um inspector tributário. “Presumível prática dos crimes de corrupção activa e corrupção passiva para acto ilícito, recebimento indevido de vantagem e falsidade informática” são os módicos de comportamento em causa…

 

Com noticias deste calibre dentro de casa, torna-se difícil dar atenção aos Panama Papers. Não pelos níveis de relevância de cada um dos casos, mas pela proximidade - que todas as leis do jornalismo determinam que interessam mais ao consumidor. É uma rendição à facilidade (a mesma que nos leva a sentir mais profundamente atentados em Bruxelas do que em Ancara, independentemente do número de vitimas…), mas não há como dar-lhe a volta.

 

Os casos internos destas ultimas semanas, que parecem querer tornar-se recorrentes, e que são bem mais fáceis de entender do que os meandros do dinheiro que navega em paraísos fiscais, demonstram a irrelevância de medidas de austeridade para quem pode “contorná-las”, explicam em boa medida fenómenos como o parque automóvel lisboeta, os espectáculos sempre esgotados, os restaurantes cheios - e desanimam quem, apesar de tudo, vai tentando sobreviver ao caos com honestidade.

 

Apetece desistir, já o disse na semana passada - mas, acima de tudo, impede o cidadão comum de confiar em quem quer que seja.

 

Um policia que se dedica a desmantelar o tráfico de droga, e é afinal parte integrante desse mesmo negócio? Um chefe de finanças que prefere deixar-se subornar a cumprir a mais básica das suas funções, garantir o cumprimento da lei? Onde chegámos?

 

E a seguir: o que nos falta saber? Onde está o bando que se segue? Deixámos definitivamente de ter autoridade para, como fazíamos, falar de forma sobranceira sobre a Itália ou os países da América do Sul. Já não observamos o problema - fazemos parte dele. E o Portugal dos últimos anos, a austeridade, a Troika, o empobrecimento generalizado, começa agora a revelar a sua forma de responder à letra. Lamentavelmente, aplica e dá sentido a um ditado popular: ladrão que rouba ladrão…

 

 

ESTA SEMANA NÃO PASSO SEM…

 

O El Pais é um gigante do jornalismo mundial, e o investimento que tem vindo a fazer no universo digital é um dos muitos bons exemplos do que pode vir a ser o futuro do jornalismo, com ou sem papel impresso…

Agora que o Brasil está no topo da informação diária, a edição local do El Pais é indispensável. Que outras razões não houvesse, consegue manter uma independência, face aos diversos interesses em jogo, difícil de distinguir na restante imprensa brasileira…

  

É aproveitar! A excelente revista “The New Yorker” acaba de lançar a sua app para smartphones: “The New Yorker Today”. Além de juntar as diversas frentes em que a revista se tem desmultiplicado (rádio, podcast, etc…), e de actualizações diárias de informação, ainda tem oito mil dos seus melhores cartoons para nos ajudarem a levar a vida a sorrir. Digo “É aproveitar!” porque a fase de lançamento da app é gratuita… 

Para dar um cheirinho do que se pode ler na “The New Yorker” online e na nova app, uma crónica da divertida Emma Rathbone (cujo primeiro livro, “The Patterns of Paper Monsters", tarda em chegar até cá…) sobre o significado de cada expressão que usamos para nos despedirmos daqueles a quem mandamos mails: do Bjs ao Abraço, é só adaptar…

 

 

publicado às 10:30

O banco mau e os três porquinhos

Por: Paulo Ferreira

Mais de 30 anos depois da abertura do sector, das privatizações e da desregulação, voltamos a andar com a banca ao colo e a pagar o lastro de dívidas que vão deixando. Alguma coisa de estrutural haverá para mudar também no sector financeiro, não?

 

Era uma vez três porquinhos-mealheiros. Iam vivendo a sua modesta e esforçada vida de trabalho até que um dia apareceu um banco mau…

 

O leitor conhece a história infantil e facilmente fará o paralelo com o que se vai passando no sistema bancário.

 

O principal problema da eventual criação de um “banco mau”, como sugeriu o primeiro-ministro em entrevista ao DN e à TSF, não está na proposta de António Costa, mas na muito provável necessidade de o fazer para “limpar” os balanços dos bancos. Podemos chamar-lhe “veículo especial”, mas mais não será mais do que uma entidade que recebe os activos problemáticos do bancos e tenta rentabilizá-los.

 

Uma segunda questão, mais aterradora, é que este tipo de mecanismos não é virgem em Portugal.

 

No início da década de 80, o Banco de Portugal e a banca comercial criaram a Finangeste, uma empresa que teve precisamente essa missão: ficar com os créditos malparados que os bancos foram acumulando. Na altura os bancos eram quase todos do Estado, portanto tudo estava dentro da esfera do contribuinte. Havia limites de crédito por instituição definidos pelo Governo e as taxas de juro eram fixadas por lei e publicadas no Diário da República - sim, as gerações mais novas podem achar estranho, mas bem-vindos ao país onde o preço da “bica” e do papo-seco eram decididos em Conselho de Ministros e tinham a força de lei.

 

Com a limpeza feita através da Finangeste, os bancos ficaram mais bonitos e puderam, na década seguinte, ser privatizados.

 

A ironia é que a saída do Banco de Portugal da Finangeste aconteceu apenas há sete meses, quando vendeu os 44% do capital da empresa a um grupo privado, dando por concluído “com sucesso o essencial daquela missão”. Não se conhecem detalhes oficiais do negócio, a começar pelo preço, e muito menos conheço qualquer balanço decente sobre os custos ou proveitos que a operação Finangeste teve para os contribuintes ao longo dos mais de 30 anos em que teve capitais públicos.

 

Somos pouco dados a contas e a aprender alguma coisa com elas, mas era importante que se fizesse esse balanço, agora que, muito provavelmente, vamos entrar numa nova operação de limpeza do lixo bancário.

 

Mas a Finangeste não é a única experiência que já temos na matéria.

 

Conhecem a Parvalorem, a Parparticipadas e a Parups? São as três empresas criadas pelo Estado há seis anos e para onde foi transferida toda a tralha que resultou do desmantelamento do BPN e do grupo de empresas que o integrava. São uma espécie de “banco mau” e é daí, caro contribuinte, que vai saindo a sua parte da factura que resulta do escândalo e da posterior nacionalização. E há o “banco mau” do BES e o rasto de encargos que nos fica do Banif.

 

A nossa experiência em “veículos” já é grande, como se vê. E não só para acorrer a falências verificadas ou aos escombros de “casos de polícia”.

 

O país já foi financeiramente resgatado três vezes em pouco mais de 30 anos, significando isso que o problema tem mais de estrutural do que de conjuntural, como teimosamente vamos evitando encarar.

 

Com a banca não é muito diferente. Limpámos os bancos para os vender a privados. Podemos ficar com o conforto mental de atribuir os desequilíbrios de então aos desvarios das nacionalizações, à pobre economia e ao comando político de tudo o que mexia na economia.

 

Mas 30 anos depois da abertura do sector, das privatizações e da desregulação, voltamos a andar com a banca ao colo e a pagar o lastro de dívidas que vão deixando.

 

Então alguma coisa estrutural haverá também para mudar no sector financeiro, não? Os gestores bancários não podem assumir tantos riscos como fizeram no passado, as regras impostas ao sector não podem permitir a elevada alavancagem - basicamente, a transformação de cada euro de depósito de 1,5 ou mais euros de crédito concedido - que permitiu e a regulação e supervisão tem que se focar mais na prudência do que na emergência. 

 

O que não podemos é passar a vida a passar cheques aos bancos, de forma mais directa e assumida ou de forma mais encapotada e discreta, como aconteceu com a Finangeste.

 

Ao contrário do que é comum nos contos para crianças, este é um sector onde é raro que os “bons” saiam por cima e vivam felizes para sempre e que os “maus” aprendam a lição da sua vida e nunca mais apareçam por ali. E já andamos todos fartos de histórias que nos adormecem.

 

 

OUTRAS LEITURAS 

  • Não é novo que o nível médio de qualificações dos portugueses é baixo e este estudo da Fundação Belmiro de Azevedo confirma-o. Pior do que isso é que a vontade de melhorar seja pouca. Essa é a má notícia, até porque o mesmo estudo nos diz que quem tenta, consegue alcançar os objectivos.

 

  • António Costa demorou meses a perceber que o estatuto de seu “melhor amigo” não chega para colocar alguém, de forma totalmente informal, a negociar em nome do Estado e dos contribuintes. Ainda por cima podendo tê-lo como consultor contratado e a preço de saldo. Sim, 2.000 euros brutos é muito pouco para os predicados que são atribuídos a Diogo Lacerda Machado.
publicado às 10:51

Os levantados da Nuit Debout em Paris estão a dizer-nos qualquer coisa que faz pensar

 Por: Francisco Sena Santos

Os cidadãos que se classificaram de indignados, e que há faz agora cinco anos acamparam na Puerta del Sol de Madrid e noutras praças de Espanha, desencadearam o estilhaçar da ordem partidária espanhola, como agora fica evidenciado com o impasse pós-eleições. Depois dos indignados espanhóis, surgiram os Occupy Wall Street e outros movimentos de gente predisposta a mostrar o seu descontentamento e protesto com a prática dos governantes. Agora, é em Paris, com o movimento Nuit Debout (noite em pé), apesar do frio, da chuva e da repressão, a ocupar a Place de la République para uma espécie de Woodstock da palavra em sucessivas noites de discussão e luta.

 

Esta praça grande de Paris, habituada a acolher manifestações, está a ser palco para uma nova ágora ou assembleia popular permanente, onde todos tomam a palavra e se fazem ouvir ao lado do altar laico da república francesa, a estátua em bronze da Marianne, que mostra um ramo de oliveira na mão direita e que apoia a mão esquerda na carta dos direitos do homem. Naquelas intervenções, eles descarregam as muitas desilusões, fúrias, combates e alguns dos sonhos. São sobretudo jovens mas também alguns não tão jovens. Algumas bandeiras vermelhas desfraldadas confirmam a cor do protesto, que no entanto incomoda quase todos os partidos. Jogam com as palavras gréve (greve, claro) e rêve (sonho) e proclamam, em atmosfera que evoca o Maio de 68, rêve générale (sonho geral) e préavis de rêve (pré-aviso de sonho).

 

O movimento nasceu no dia 31 de março, com uma manifestação contra leis do trabalho anunciadas pelo debilitado governo socialista de Hollande e Valls. Desde então, discutem tudo todas as noites. Instalaram uma espécie da aldeia dentro da praça, com enfermaria, gabinete de assistência jurídica, cozinha e, atentos aos novos códigos da comunicação, até instalaram a RadioDebout, que transmite tudo online. Denunciam “as violências praticadas pelo Estado”: apontam como principal a falta de emprego. Também se levantam contra o neoliberalismo, contra a indignidade para com os refugiados, contra a xenofobia e vários outros males. Objetivo mais proclamado por estes contestatários, em grande parte estudantes universitários e liceais: reinventar o modo de fazer política e desenhar projectos de esperança a partir do espaço público. São uma frente anti-resignação com o sonho ou a ilusão de poder mudar o mundo. Possivelmente, alguns destes noctâmbulos pouco terão de idealistas, mas a maioria move-se pelo sonho.

 

A sociedade de entretenimento coletivo em que estamos até costuma explorar estes protestos mas, desta vez, no turbilhão das notícias, não lhes está a dar grande atenção. Talvez seja um erro. Estes indignados de Paris refletem o grande mal-estar social num país que vale 20% da economia europeia. Eles representam uma convergência de combates: pelo direito ao trabalho, à educação, à habitação, à saúde, contra a corrupção. Seguem um calendário que inventaram e que prolonga o mês em que tudo começou: estão esta terça-feira no dia 43 de março. Até quando vão continuar levantados todas as noites? Eles são uma vanguarda que pode desaparecer de uma noite para a outra, mas a chama parece longe de se apagar. Têm o mérito de exprimir uma necessidade de mudança.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA

 

A Áustria começou a levantar um muro preventivo para barrar a entrada de refugiados. Acontece dois dias depois de, uma vez mais, a morte ter cortado o percurso a refugiados: uma mulher e quatro crianças naufragaram quando tentavam atravessar o mar Egeu na esperança de chegar à Grécia. Com a intenção de sacudir a indiferença do mundo para o destino trágico dos que tentam fugir da barbárie, o papa Francisco vai no sábado ao encontro dos refugiados na ilha de Lesbos, na Grécia. Ele já avisou que esta tragédia parece “minar as bases do espírito humanista que a Europa tanto gosta de apregoar”.  Esta reportagem ajuda-nos a saber algo mais sobre quem são estas pessoas que fogem da guerra.

 

A grande reportagem literária de Gay Talese está de volta, agora com o Motel do Voyeur. É a história de um homem que comprou um hotel no Colorado e remodelou-o de modo a poder espiar, a partir de um falso tecto, as práticas sexuais dos clientes.

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: esta, com o estado das coisas na política brasileira.

publicado às 08:01

Adeus BPI, olá Caixabank

 Por: António Costa

 Já está o que chegou a parecer impossível: o Caixabank e Isabel dos Santos chegaram a um acordo que vai transformar o BPI num banco catalão em Portugal. Ainda não se sabe quase nada do acordo, mas sabe-se o mais importante, o que preserva o BPI e a estabilidade do sistema financeiro. Mas as mudanças na banca portuguesa só agora começaram.

 

Há um ano, o BCE tinha imposto o dia 10 de Abril como data-limite para o BPI diminuir a sua exposição a Angola, por causa da posição maioritária que tinha naquele país no BFA, o maior banco angolano, em parceria com Isabel dos Santos. E logo se percebeu que a empresária angolana, com 20% do BPI, e o Caixabank, com 44%, tinham aqui a oportunidade para separar águas que, na verdade, sempre estiveram turvas. Era um casamento de interesse destinado a acabar em divórcio. Foi quase litigioso, e assinado no último dia possível.

 

Do acordo, não se sabe por exemplo o preço que o Caixabank vai pagar a Isabel dos Santos para comprar os 20% do capital, e esta informação é crítica para todos os outros acionistas. Porquê? Porque os catalães vão ter de oferecer o mesmo preço a todos os outros acionistas. Já se sabe uma coisa: é que Isabel dos Santos é talvez a única acionista nos últimos cinco anos em Portugal a ganhar dinheiro com o investimento na banca. Por outro lado, a empresária vai comprar o domínio do BFA, hoje nas mãos do próprio BPI.

 

Sabe-se que o BPI vai deixar de ter a operação em Angola – a maior fonte de lucros do banco desde há muito anos – e passará a ser um banco catalão. O BPI tem um balanço limpo, não entrou na estratégia de concessão de crédito aos amigos, mas tem uma operação cara e pouco eficiente, só disfarçada com os ganhos que apresentou nas aplicações financeiras. Ao passar a ser catalão – é inevitável, a prazo, a transformação do BPI em Caixabank BPI - vai beneficiar da estrutura do banco em Espanha, e os catalães vão na verdade tentar replicar o modelo Santander, que tem grandes resultados.

 

Para a empresária angolana, sair do BPI não é a melhor solução, até porque as vantagens da alternativa BCP são ainda difíceis de avaliar, mas uma coisa já conseguiu: ganhar dinheiro com a venda, o que não é pouco. Isabel dos Santos vai trazer o BFA para a bolsa de Lisboa, e em Portugal já tem o BIC. A prazo, antecipa-se a fusão dos dois bancos.

 

Resolvido o BPI – com um envolvimento do primeiro-ministro António Costa que ultrapassou os limites do que deve ser uma intervenção política que poderia ter corrido mal -, o futuro do Novo Banco e do BCP tem outros horizontes. O Novo Banco tem de ser vendido, o BCP tem de encontrar novos acionistas, às tantas ainda acabam casados. Sobra a Caixa Geral de Depósitos, que vai ter de receber um financiamento de cerca de dois mil milhões de euros para cumprir as suas obrigações e equilibrar os rácios de capital.

 

AS ESCOLHAS

 

Saiu um, entrou outro, saiu um ministro-poeta, entrou outro ministro-poeta. A cultura vai ser tutelada pelo embaixador Luís Filipe Castro Mendes. João Soares não foi um problema para António Costa, foi uma oportunidade, um seguro para problemas futuros mais graves e mais difíceis de ultrapassar.

 

E António Costa assinou um contrato com o seu emissário especial para os negócios, Diogo Lacerda Machado. O anuncio, na entrevista à TSF e DN, foi feito a contragosto, como se a transparência e a responsabilização fossem um custo. Não são; são uma obrigação de qualquer primeiro-ministro.

 

Boa semana a todos

 

 

publicado às 10:58

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