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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Perante "The Donald", venha a Madam President, ainda que lhe falte faísca

 

Por: Francisco Sena Santos

 

Donald, o impetuoso, abrutalhado, exuberante, misógino e multimilionário, candidato do bullying político que despreza os valores da solidariedade e a sabedoria sensata, ou Hillary, a velha raposa que representa a casta do fatigado sistema tradicional de governação, qual dos dois, o anti-político ou a política do costume, vai conseguir fingir melhor e conquistar a presidência dos Estados Unidos da América? O “Election Day” é já daqui a 180 dias e a campanha para a escolha do sucessor de Obama vai ser um concurso de impopularidade: quem consegue menos hostilidade do eleitorado, quem assusta menos?

 

É de prever que Hillary Clinton vá aparecer nos próximos meses reenvernizada com cores progressistas para tentar captar o eleitorado progressista, liberal e vagamente social-democrata que Bernie Sanders soube mobilizar e sacudir do ceticismo. O marketing de  "The Donald" vai optar pelo “Trump paz e amor” a ver se constrói uma postura presidencial e amacia as resistências tanto no fragmentado campo republicano como no decisivo eleitorado oscilante. Ela e ele vão ter de mudar ou maquilhar o discurso para tentarem conseguir a eleição em 8 de novembro.


Vender “The Donald” como uma boa pessoa é uma tarefa que parece quase impossível. Que imagem é que ele mostrou nos últimos meses? Racista (“Build the Wall”). Isolacionista (“America First”).  Sexista (“Women, you have to treat them like shit”, comentário nos anos 90 ao New York Magazine). É definido por vários outros adjectivos, todo negativos: hipócrita, narcisista, histriónico, autoritário, prevaricador, ridículo, islamofóbico. Há quem o resuma numa palavra: bimbo. Mas poderoso. O léxico e a sintaxe do candidato são rudimentares mas a mensagem simplista dele é eficaz, galvaniza muita classe média e baixa, branca, atingida pelo grande sismo das guerras bushistas e pela grande recessão pós-2007. Um eleitorado enfurecido ou obcecado com a suposta perda da grandeza americana. Donald Trump entra por esses eleitores com o discurso representado pelo slogan ”Make America great again”.  Mobiliza muitos empreendedores frustrados. Seduz a América que gosta da força bruta.


Ele, “The Donald”, pode vir a ser presidente dos EUA? Não é o mais provável mas não deixa de ser uma possibilidade que nem sequer é remota. Como as coisas estão, já nem espantaria se no topo da Casa Branca aparecesse daqui a um ano o anúncio luminoso com letras maiúsculas “THE TRUMP PRESIDENCY”. Quando Reagan surgiu na política, quantos acreditavam que o cowboy do cinema chegasse a presidente? Quando Donald Trump apareceu nas primárias republicanas quantos não se riram? Ele entrou a ganhar primárias, umas após outras, disse-se então que o fenómeno Trump acabaria por estoirar. Não implodiu e vai discutir a eleição com Hillary.  O impensável afinal pode acontecer.


As sondagens mostram tendência para, depois de Obama, a América ter uma Madam President. Mas a “Clinton Fatigue” pode ser fatal para Hillary. Há uma grande revolta contra o sistema que ela representa. Hillary é, reconhecidamente, pouco entusiasmante em campanha, com discursos banais e monótonos, e o seu perfil político substancialmente no centro moderado conservador não entra pelo eleitorado que com Sanders, o visionário que promete utopias e propõe o reformismo da velha (boa) Europa, passou a acreditar na política. Há gente de Sanders tão hostil a Hillary que admite preferir Trump.


Hillary também sabe que aqueles muitos que na direita republicana se mostram recalcitrantes ou hostis a “The Donald” ainda podem tender para uma rendição de conveniência ao nacional-narcisismo do candidato que oferece como programa político a sua “mágica capacidade para ganhar”. Ele pode ainda conseguir unificar depois de ter dividido. É que os republicanos temem que o Great Old Party, desagregado nestas Primárias, fique varrido do poder, não só continuando fora da presidência mas também sem a maioria que tem mantido no Senado e na Câmara dos Representantes.


A América promete ao seu povo felicidade. Está na Declaração de Independência. É um dos três “inalienáveis direitos” – os outros são o direito à vida (bastante mal tratado numa sociedade onde todos têm uma arma) e à liberdade.


Donald Trump na presidência dos EUA pode ser uma ameaça à felicidade e estabilidade americana e mundial? Muitos peritos pensam que sim. Ele quer desfazer o acordo nuclear que Obama promoveu com o Irão. Fecha a porta a qualquer refugiado. Quer políticas sem concessões aos clandestinos. Despreza o protecionismo frente ao comércio global. Promete, com o seu populismo económico, obrigar as farmacêuticas a baixar o preço dos medicamentos mas põe o Estado a gastar muito menos em Segurança Social. A reforma fiscal dos estrategas trumpistas implica enorme baixa das receitas fiscais (reduz o imposto sobre as empresas dos atuais 35% para o máximo de 15%), portanto grandes cortes na função do Estado e disparo da dívida americana. Ele faz graçolas com o aquecimento global e despreza o acordo sobre o clima. A guerra comercial que promete à China, a quebra de alianças com o Japão e a Coreia do Sul, a par do menor envolvimento na NATO, a acontecerem, representariam um mundo em turbulência com a América cada vez mais fechada sobre si própria. Não é um bom mapa para o futuro. É por isso que, já foi dito, vamos ter saudades de Obama. É por isso que, apesar da falta de faísca, venha Madam President.


Todos precisamos de uma América generosamente envolvida com o que Alexis de Tocqueville abordou em 1840 no famoso livro Democracy in America: a “paixão democrática”.



TAMBÉM A TER EM CONTA:


A hashtag  #YesWeKhan está no topo por estes dias: Londres, a capital mais cosmopolita da Europa, ao escolher para mayor o muçulmano, feminista e ativista dos Direitos Humanos Sadiq Aman Khan, demonstra que a verdadeira Europa, aquela que se levantou das ruínas da Segunda Grande Guerra existe e resiste contra os nacionalismos, a xenofobia e outras discriminações. O filho do motorista paquistanês é o mayor da capital britânica. Boa resposta ao apelo lançado pelo Papa para uma Europa rejuvenescida onde se “construam pontes e não muros”. Às vezes a política traz boas notícias. Mas os problemas de fundo permanecem.

 

Um encontro sobre o futuro da transformação digital em curso.

 

O dia contado em imagens escolhidas por La Vanguardia.

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: esta, que mostra como a política do Brasil está no circo.

 

 

publicado às 08:25

O ajudante de Mário Nogueira

 

 

Por: António Costa

 

Os contratos de associação do Estado com as escolas privadas são mais uma linha que separa os que defendem um modelo de sociedade em que o Estado é o centro de tudo dos que entendem que os serviços públicos podem ser prestados por entidades públicas ou privadas, e em concorrência. É a ideologia, sim, que está em causa.

 

Os contratos de associação do Estado com as escolas privadas, convém recordar, serviram para compensar as insuficiências do Estado na prestação de um serviço absolutamente central, o da Educação. Foi para isso que foram criados, mas serviram também para permitir um nicho, de forma enviesado, é certo, de abertura dos privados a prestarem serviço público, como já acontece em tantas e tantas áreas, desde logo na saúde. A decisão do ministro da Educação - ou terá sido de Mário Nogueira? - de cortar nos referidos contratos nem sequer um ano depois de terem sido celebrados é por isso, mais do que uma reversão de uma medida, uma oportunidade que o Governo aproveita para garantir o apoio dos sindicatos e da Fenprof em particular.

 

Sim, quem defende o princípio da prestação de serviços públicos por entidades privadas, em concorrência com as públicas, defende a liberdade de escolha das famílias e isso, no limite, só é possível com o cheque-ensino, com o financiamento direto às famílias. Os contratos de associação são outra coisa.

 

Os contratos de associação não são um financiamento aos privados a acrescentar ao que o Estado investe na Educação, simplesmente porque esses contratos são substitutos do que o Estado deveria investir e, por alguma razão, não investe. Outra história, para a qual há números para todos os gostos, é se o Estado gasta ou não mais do que os privados por aluno, e ainda não há dados credíveis para uma conclusão. Dito isto, na filosofia destes contratos, se o Estado passa a poder prestar esse serviço, os acordos deixam de fazer sentido como estão. Mas os contratos de associação poderiam ser, se a Fenprof deixasse, uma alternativa ao cheque-ensino e a um modelo estruturado de participação dos privados no ensino público obrigatório com financiamento dos impostos, o princípio de alguma coisa.

 

Não há ninguém que não defenda a centralidade da educação como a melhor ferramenta de uma economia para crescer e ser competitiva, a divergência é no modelo de educação que queremos. E, em seis meses de gestão, o ministro Tiago Brandão Rodrigues não só sinalizou que a exigência não é um fator relevante (e.g. exames), como entende que as escolas públicas não podem melhorar se tiverem, ao lado, a concorrência do setor privado.

 

Faço uma declaração de interesses: tenho três filhas, uma das quais já no 2º ano (antiga 2ª classe), e todas numa escola privada. Porquê? Em primeiro lugar, e mais importante, pela avaliação que fiz da qualidade do ensino prestado face à oferta de outras escolas, nomeadamente públicas, na minha zona de residência. Pela minha escolha, pago os impostos devidos para que o Estado preste a melhor educação possível e uma igualdade de oportunidades e pago as mensalidades respetivas da escola que as minhas três filhas frequentam. O que gostaria de ter? A liberdade para escolher a melhor escola possível, pública ou privada, sem ter mais custos do que aqueles - enormes – que já resultam dos impostos que pago todos os meses.

 

O ponto é este: o ministro da Educação deveria preocupar-se em garantir que o ponto de partida de todas crianças é o mesmo, mas o que faz só serve para assegurar que quem tem dinheiro pode escolher e quem não tem está condenado à sorte, ou azar, da sua zona de residência. Poderia ser de outra forma? Poderia e deveria, até porque os resultados do modelo que Brandão Rodrigues não só defende como acentua não deram os melhores resultados. Mas Brandão Rodrigues – que não nasceu para ser ministro – está preocupado em ter o apoio de Mário Nogueira, sem perceber que, na verdade, já é um seu ajudante.

 

As escolhas:

O Túnel do Marão é, todo ele, um dicionário político-financeiro de como aqui chegámos e de qual é o ponto de partida possível para consensos. Em primeiro lugar, as contas, uma PPP falhada e suspensa em 2011, quando entrou a troika, que comprometeria os próximos 30 anos. Era fácil e barato para o poder que governava, para José Sócrates. Depois, as vicissitudes de uma obra de infraestrutura relevante para o país, paga diretamente pela Infraestruturas de Portugal. Finalmente, a política. Na inauguração, a história de como Costa e Sócrates não apareceram juntos na fotografia, poder ler aqui, em 24.sapo.pt. Nem sequer numa ‘selfie’. E Passos, que jurou nunca ter estado em inaugurações apesar de tantas provas documentais, não apareceu.

 

Esteja atento aos números. A semana vai ser rica em indicadores económicos, do PIB às exportações, e do primeiro trimestre, isto é, do Governo de Costa, como pode ler aqui, em www.negocios.pt. Será a oportunidade para confirmar, ou não, as previsões mais pessimistas de todas as entidades externas ao Governo. Logo, a necessidade do famoso Plano B.

 

Boa semana

publicado às 10:27

Afinal, é Web ou web, Internet ou internet?

Por: Pedro Fonseca 

 

A partir de 1 de Junho, poderá ver grafias diferentes para estes termos. Em Portugal, a (reduzida) discussão sobre a forma de os escrever tem defensores de ambos os lados. E há ainda uma terceira razão: poupar toques no teclado.

 

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O anúncio foi feito em várias mensagens no Twitter: a Web vai passar a ser web e a Internet será internet, a partir de 1 de Junho. Quem o determinou foi a Associated Press (AP), que nessa data lança um novo livro de estilo para os seus jornalistas com as alterações. Como a AP é uma agência noticiosa de referência - tal como o seu "stylebook" - é previsível que muitos orgãos de comunicação social ou estudantes de jornalismo sigam o exemplo em todo o mundo, usando termos como página web, a web ou browser da web, para citar os exemplos dados pela agência no Twitter.

 

A mudança não é pacífica e tem originado debates sobre a adopção desta terminologia. O Poynter, um site dedicado aos media, recordou a origem da palavra Internet quando "inter-network" era "uma colecção de pequenas redes que comunicavam usando os mesmos protocolos". A revista Wired também tentou explicar o que sucedeu na sua própria redacção quando em 2004 tentou generalizar o termo internet - algo que foi revertido após a editora Condé Nast comprar a revista, dois anos depois.

 

O objectivo de usar o termo internet era, então, "parte de uma tendência linguística universal para reduzir a quantidade de esforço necessário para produzir e processar as palavras mais utilizadas" na escrita diária. Não só se evita um toque na tecla "shift" (a tecla no teclado para escrever as letras maiúsculas) mas, citando um site de marketing não nomeado, estas letras "são redutoras de velocidade para os olhos durante a leitura. Elas devem ser eliminadas quando possível".

 

Mas a revista cita igualmente Bob Wyman, da Google, a explicar que Internet deve ter o I maiúsculo para "clarificar a diferença no sentido entre a Internet (a rede global que evoluiu da ARPAnet" e "qualquer internet genérica, ou uma rede de computadores ligando um número de pequenas redes". Se não se usar a maiúscula, escreveu Wyman, "está-se apenas a indicar que não se percebe a distinção técnica entre a Internet e uma internet". Ou, como dizia a revista The Verge sobre o assunto, é como falar do "Sol que orbitamos e o sol de outro sistema planetário".

 

A própria Wikipedia tem uma entrada sobre o assunto, onde explica como organizações de normas e técnicas do sector (Internet Engineering Task Force (IETF), Internet Society, Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (ICANN), W3C e outras) usam a expressão Internet, embora também o termo internet seja frequente ou, como sucedeu num caso judicial em 1991, até mesmo INTERNET, "apesar de não ser um acrónimo".

 

É Rádio ou rádio?

 

Em português, a questão tem sido igualmente debatida, sem grandes resultados práticos. Em 1999, no seu Dicionário de Informática e Internet Inglês – Português, a autora braileira Márcia Regina Sawaya inscrevia Internet como a "maior rede de computadores do mundo, que se caracteriza pela forma descentralizada em que atua". Já a Web, entendida como "rede, teia, trama, entrelaçamento", era apresentada como "forma abreviada muito frequente para World Wide Web" e "um acervo universal de páginas da Web (Web pages) interligadas por vínculos (links), as quais fornecem ao usuário informações de um completo banco de dados multimídia, utilizando a Internet como mecanismo de transporte".

 

Num texto de Outubro de 2003, no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa uma questão apontava que "as palavras inglesas 'internet' e 'Internet' referem duas coisas diferentes. Em português, além do significado de 'Internet', parece-me que 'internet' é usada também com dois significados". A autora recordava a evolução tecnológica da Internet e as normas técnicas de "transmission control protocol/internet protocol" (TCP/IP), afirmando que "quando se refere o protocolo internet, a grafia é com letra minúscula". Mas, sendo um acrónimo e escrito em maiúscula, não se entende essa opção para o TCP/IP. Quando esses protocolos técnicos foram estabelecidos, nos anos 80 do século passado, passou-se a "chamar Internet à enorme rede assim obtida. Esta rede merece ser escrita com maiúscula!", enquanto para a World Wide Web "os anglófonos chamam-lhe 'Web' (Teia), e escrevem com maiúscula", segundo a autora.

 

O moderador do Ciberdúvidas respondeu que "Internet é o nome próprio do sistema", enquanto "a informação (dados, comunicação), a linguagem, etc. são a prática do uso da rede. Ex.: «Ciberdúvidas é uma página da internet»; «recebi pela internet»; «procurei na internet»; «liguei-me à internet». Em minúsculas, da mesma maneira que escrevemos: «divulgado no jornalismo»; «vi na televisão»; «soube pela rádio»; etc." Ora Ciberdúvidas não é uma página da Internet mas da Web, tal como não se procura na Internet mas na web. No entanto, as últimas definições fazem algum sentido: ver na televisão (ou na TV?) ou saber pela rádio, indicam o meio tecnológico pelo qual é transmitida a informação e esse é escrito em minúsculas.

 

A maioria das páginas de tecnologia nos jornais portugueses ou das revistas tecnológicas usam Web e Internet, com maiúscula. Já o dicionário online Priberam regista-as em minúscula. O substantivo feminino "internet" é uma "rede informática largamente utilizada para interligar computadores através de modem, à qual pode aceder qualquer tipo de utilizador, e que possibilita o acesso a toda a espécie de informação", sendo escrita "geralmente com inicial maiúscula". O mesmo é dito para "web", uma "palavra inglesa, redução de world wide web, rede mundial".

 

Um pouco de história

 

A origem do termo Internet está ligada à abreviação de "internetworking" ou "interconnected network" (interligação de redes ou rede interligada), dinamizada pela criação do modem em 1958, pelos Bell Labs, que permitiram a comunicação entre computadores. O primeiro registo do conceito da Internet está num conjunto de memorandos de J.C.R. Licklider no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), em Agosto de 1962, sobre o conceito de uma "Intergalactic Network" ou "Galactic Network", segundo a Internet Society.

 

Sete anos depois, ocorre a primeira ligação entre dois computadores, um na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e o outro no Instituto de Investigação de Stanford, dando início à ARPAnet (a ARPA - ou Advanced Research Projects Agency - era o braço de investigação tecnológica do Departamento de Defesa norte-americano, sendo actualmente denominado de DARPA).

 

A palavra Internet terá sido usada inicialmente em Dezembro de 1974, num documento técnico (denominado "request for comments" ou RFC 675) sobre uma "especificação do Internet Transmission Control Program". No relato da Internet Engineering Task Force (IETF), este Transmission Control Program foi separado, em termos de arquitectura tecnológica, dando origem ao conhecido TCP/IP: o Transmission Control Protocol referia-se à camada do transporte de dados e o Internet Protocol para as redes, que evoluiu da versão 4 (IPv4) para a actualizada IPv6. As versões do IP 0 a 3 foram usadas apenas entre 1977 e 1979, como versões experimentais, e a 5 não chegou a ser usada mas apenas testada para incluir voz e vídeo.

 

Em 1990, a ARPAnet foi cedida às instituições de investigação, através da National Science Foundation, dando origem à rede NSFnet, que permitiu o acesso de utilizadores universitários ou de instituições científicas não só norte-americanas como europeias (o primeiro nó foi estabelecido em 1970 para o University College de Londres). A NSF entregou o acesso da rede em 1995 a quatro operadores comerciais (Sprint, MFS, Ameritech e Pacific Bell), generalizando-se o seu uso.

 

Foi neste contexto que, a 30 de Abril de 1993, o laboratório europeu de física das partículas (CERN) lançou ao público a World Wide Web - ou Web, como ficou conhecida de forma generalizada. No documento original em duas páginas,"o sistema global de informação ligado por computadores" era também denominado por W3 e pretendia dinamizar a "compatibilidade, práticas comuns e normas numa colaboração suportada em redes e computadores".

 

O W3, desenvolvido por vários investigadores, dos quais o mais célebre ficou Tim Berners-Lee, foi conhecido em 1991 e funcionava para computadores Macintosh ou estações de trabalho NeXT. Foi esta base de desenvolvimento tecnológico que permitiu o aparecimento da Web, a forma mais fácil de aceder actualmente à Internet. Ou, segundo a terminologia da AP, de aceder à web através da internet.

publicado às 11:38

TTIP. Fixe esta sigla e saiba o que propõe porque vai mudar a vida de milhões

Por: José Couto Nogueira

 

De vez em quando, surgem na comunicação social notícias sobre o tal tratado entre a Europa e os Estados Unidos que, segundo alguns, seria mais um passo positivo para as maravilhas da globalização, segundo outros, trata-se da machadada final nos benefícios dos trabalhadores e consumidores europeus.

 

 

Na semana passada dois acontecimentos trouxeram o TTIP - sigla inglesa do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento - de novo para a ribalta. A visita do Presidente Obama à Europa, declaradamente para acelerar as negociações, e o vazamento pelo Greenpeace das cláusulas que estão a ser secretamente negociadas. O debate tem sido contaminado com posturas ideológicas que, embora esclarecendo muitos pormenores, também obscurecem a compreensão das suas características. É uma boa altura para esclarecer o que está em jogo.

 

As negociações entre entre a Comissão Europeia e o Governo dos Estados Unidos começaram em Julho de 2013 e estão na terceira ronda. O objectivo é um tratado de livre-comércio entre os EUA e a UE, conhecido na Europa como TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership), nos Estados Unidos como TAFTA (Transatlantic Free-Trade Agreement) e em Portugal como APT (Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento) ou simplesmente Tratado Transatlântico.

 

As projecções indicam que o acordo vá acrescentar à economia da União Europeia cerca de 120 mil milhões de euros, à dos EUA cerca de 90 mil milhões e ao resto do mundo mais 100 mil milhões. Ou seja, o maior tratado comercial alguma vez feito, com um valor de metade do PIB mundial e um terço do fluxo de negócios à escala planetária. Afecta todos os sectores da economia, desde a agricultura aos serviços (com a estranha exclusão, por exigência francesa, da indústria musical e cinematográfica).

O objectivo é remover todos e quaisquer obstáculos às transacções, físicas e comerciais, entre a Europa e os Estados Unidos, e proteger os investimentos à escala internacional.

 

Em termos gerais, o TTIP tem sido criticado pelas esquerdas, pelos ambientalistas e pelos movimentos anti-globalização. Num ponto há que lhes dar razão prévia: o tratado tem sido negociado em segredo, o que não só é pouco democrático como suspeito. Afinal de contas, se se trata de um grande benefício para todos, porquê ocultar as diligências das partes? O argumento das entidades envolvidas é que, não estando todos os pormenores decididos, a sua publicação só iria levantar alarmes e falsas questões.

 

Mas apesar do secretismo, alguns pormenores têm chegado ao público, provocando reacções bastante violentas na Alemanha e em França, países onde a opinião pública segue as peripécias com mais interesse. O vazamento dos termos do tratado, obtido pela Greenpeace esta semana, revela aspectos de facto preocupantes, mesmo excluindo as opiniões politicas de quem analisa. Contudo, os defensores do TTIP já vieram afirmar que o leak da Greenpeace é falso. Segundo esses opinadores, a oposição ao tratado é meramente ideológica e vem da parte da extrema-esquerda proteccionista, e dos grupos antiglobalização e "altermundialistas” que são sempre contra

o comércio internacional.

 

Poderá ser. Mas o facto é que, para além do já mencionado secretismo, que leva naturalmente aos piores receios, sabem-se pormenores do tratado que levantam sérias dúvidas quanto às suas vantagens. Para começar, os sistemas de saúde e as condições de trabalho ficam ameaçados, assim como a regulação financeira e a protecção ambiental. Uma alínea perturbadora permitiria às empresas multinacionais processar os governos em tribunais especiais para eliminar restrições ao investimento. Outra alínea refere-se à liberalização das restrições aos produtos transgénicos e à imposição de patentes nos vegetais geneticamente modificados, abrindo caminho para o monopólio das sementes agrícolas por parte de grandes empresas como a Monsanto, a Syngenta ou a Bayer.

Em termos gerais, a UE tem normas mais restritivas do que os EUA quanto ao processamento de alimentos e inclusão de químicos e pesticidas, ou mesmo segurança dos veículos. Tudo isso seria eliminado.

 

O tratado pretende impor medidas restritivas na Internet, de modo a proteger as empresas de críticas, e liberaliza a utilização dos dados pessoais para efeitos comerciais. Esses dados podem ser adquiridos por bancos, seguradoras e outras empresas de modo a organizarem as suas carteiras de clientes, excluindo aqueles que eventualmente possam não interessar.

Quanto aos famigerados transgénicos, seriam abolidas as referências nos rótulos. É o caso, por exemplo, da “ractopamina”, uma droga usada para acelerar o crescimento de animais. Nos EUA, 80% dos porcos e 30% das vacas são criados assim, e o documento visa o “reconhecimento mútuo” bem como a intenção expressa de “ não criar barreiras injustificadas” ao comércio deste químico e dos animais assim criados. Advoga ainda a remoção das verificações e inspecções sobre a comida importada, pretendendo confiar apenas na palavra dos exportadores.

 

Passa a ser permitida também a extracção de petróleo pelo método chamado Fracking, um processo de injecção de fluido para dentro do solo a uma elevada pressão, a fim de fracturar a rocha de xisto para libertar o gás natural do seu interior. O Algarve é uma das áreas em consideração.

 

Ao nível empresarial, seria permitida e até incentivada a privatização de todos os sectores, inclusive a água. A liberalização abrange não apenas as empresas, mas também concursos, aquisição de bens e serviços por parte do estado e das entidades públicas, sejam centrais regionais ou locais. Assim, as multinacionais vão poder aceder livremente a todas as actividades até agora desempenhadas e/ou da responsabilidade do sector público.

 

Um aspecto complicado da desregulação financeira envolve uma figura jurídica chamada “Investor to State Dispute Settlement”. Concede a um investidor estrangeiro o direito de iniciar o processo de resolução de litígios contra um governo estrangeiro (o “Estado anfitrião”), sempre que a legislação ameace os seus lucros presentes ou futuros, com base no conceito de expropriação directa ou indirecta. O litígio corre em tribunais especiais de que não existe possibilidade de apelo e, em quase todos os casos, termina com elevadas indemnizações pagas pelos estados às grandes companhias.

 

Da parte dos Estados Unidos há grande urgência em fechar este acordo, devido à proximidade de eleições, no final do ano. E os governos europeus, especialmente o alemão, que se considera altamente competitivo a nível internacional, também não vê razões para adiar por muito mais tempo.

 

Resta às opiniões públicas dos países informarem-se de forma a fazerem parte de uma discussão que tem amplas repercusssões na vida de todos. TTIP pode ser uma sigla pouco interessante nos media instantâneos, mas, como se pode ver pelos temas que aborda, é bem mais decisiva que muitas das discussões efémeras.

 

 

publicado às 19:48

Brasil: Golpe contra o golpe, para evitar um contra-golpe

Por: José Couto Nogueira

 

Maior produtor mundial de novelas, o Brasil está agora a produzir a maior novela do mundo. Primeiro, porque é real, isto é, afecta a vida de 205 milhões de pessoas; segundo porque tem um guião que renova permanentemente a sua imprevisibilidade; terceiro, porque, apesar de ser terrivelmente real, tem um desenvolvimentos absurdamente surrealistas.

 

 

Na madrugada de quinta para sexta feira, os telespectadores foram surpreendidos com uma nova peripécia que, apesar de ter estado sempre no horizonte, não se esperava que ocorresse imediatamente. Isto é o melhor que se consegue em matéria de ficção: mostrar o inevitável, sugerir que pode ser evitável e, quando já se pensa que foi evitado, acontecer de repente, tornando o futuro (im)provável no presente inexorável! Mas não é ficção: Eduardo Cunha, considerado o pior bandido (numa competição de bandidos de nível olímpico) e o mais inexpugnável dos protagonistas, de repente é atropelado por um rolo compressor e esfrangalhado para a berma da estrada – onde, apesar de desfeito, ainda se pensa que poderá manter o protagonismo.

 

Para compreender tudo isto, o que não é fácil, torna-se necessário esquematizar os antecedentes. Eduardo Cunha, do PMDB, é (era, até quinta, dia 5) o Presidente da Câmara dos Deputados, a câmara baixa do Congresso bicameral brasileiro. Assumidamente evangélico, Cunha é considerado um dos parlamentares mais conservadores do país. No Congresso Nacional desde 2003, tem se notabilizado como defensor de valores tradicionais, por exemplo, posicionando-se contra a união de pessoas do mesmo sexo, a descriminalização do aborto e a liberalização do consumo de canabis.

 

Em 2010, apresentou um projecto para criminalizar o “preconceito contra os heterossexuais” e é o autor do projecto para a instituição do “Dia do Orgulho Heterossexual” e de outro para punir com prisão de até 10 anos os médicos que auxiliarem mulheres a fazer aborto. Mas os valores morais de Cunha não chegam à sua prática cívica: em Agosto do ano passado foi denunciado no processo Lavajato por corrupção e lavagem de dinheiro. São do domínio público provas de que ele, a mulher e a filha têm cinco milhões de dólares em contas na Suíça. Há fotocópias dos depósitos e saldos, assinaturas, tudo o que é necessário para indiciação. Mas os congressistas brasileiros estão a coberto daquilo a que se chama “foro previlegiado”; só podem ser indiciados e julgados pelo Supremo Tribunal (STF). Estranhamente, ou não tão estranhamente assim, o STF não tomou qualquer acção em relação a Cunha.

 

Entretanto, em Janeiro deste ano, Cunha entrou em rotura com o Governo de Dilma Rousseff (o PMDB fazia parte da coligação que apoiava o PT no poder) e iniciou o processo de impeachment da Presidenta, baseando-se em acusações de gastos excessivos e escondidos. É a discussão sobre se estes gastos são motivo para impedimento de Dilma que gerou a interminável disputa sobre se há ou não há um golpe para derrubar a Presidenta.

 

Eduardo Cunha é o rosto do impeachment: foi ele que levou a questão para o Congresso e foi ele que conseguiu que a Câmara dos Deputados votasse a favor – naquela sessão picaresca que ficou famosa pelas declarações ridículas dos deputados, a que Cunha presidiu impávido. Certamente Cunha é o político mais odiado pela opinião pública brasileira, ainda mais do que Lula ou Dilma; o PT e os que são contra o impeachment, porque sabem do seu papel preponderante no processo; os que são a favor, porque o reconhecem como ultra-reaccionário em questões morais e um corrupto que tudo tem feito para se manter no poder, inclusive articular os trabalhos da Câmara, desviando a atenção dos processos em que está envolvido.

 

Estes são os antecedentes. O que aconteceu na quinta-feira foi que o partido de Marina Silva (REDE) apresentou ao STF um pedido de impedimento de Cunha, baseando-se nos processos contra ele. A intenção de Marina era impedir o impeachment da Presidenta através de um truque processual; se Cunha fosse impedido, todos os actos ocorridos durante a sua permanência como Presidente da Câmara seriam nulos, inclusive o impeachment de Dilma. Marina, que foi aliada de Dilma mas já não é, quer que a Presidenta continue no cargo até ao final, em 2018, porque acha que assim ela, Marina, tem mais hipóteses de ganhar a eleição presidencial.

 

Perante este quadro, dois dos conselheiros do STF decidiram por conta própria (isto é, sem consultar os restantes) andar com o processo contra Cunha que estava parado, suspendendo-o imediatamente do cargo. É que com a suspensão os actos anteriores da Câmara, inclusive o impeachment da Presidenta, continuam válidos. Claro que não falta quem critique o STF pela decisão, uma vez que mantém o processo de impeachment de Dilma; como não falta quem festeje a queda de Cunha, carinhosamente chamado de “o meu bandido preferido” por todos aqueles que querem que Dilma desapareça de cena.

 

Para já, Cunha perde a imunidade de ser julgado, mas continua a só poder sê-lo pelo mesmo STF que o suspendeu, o que quer dizer que ainda tem como recorrer aos seus expedientes e chantagens para que o processo não avance.

É uma perda de prestígio importante, mas não é o seu fim.

 

Também para já, o processo de Dilma continua os trâmites legais. É opinião geral que ela está perdida. Corre no Planalto que está muito deprimida e a tomar anti-depressivos em excesso. Os seus discursos são cada vez mais desconexos. Quem está muito preocupado é o ex-Presidente Lula, uma vez que Dilma já não tem a possibilidade de blindá-lo com o foro privilegiado dum ministério e sabe-se que o Procurador Moro tem o mandato de prisão pronto.

 

Por seu lado, Michel Temer, o inevitável próximo Presidente (que também tem processos a correr contra ele) tenta discretamente formar o futuro Governo. Já se sabe que não reduzirá o número ridículo de 39 ministros para poder trocar apoios em quantidade. Na quarta-feira indicou que escolherá para ministro da Ciência e Tecnologia um evangélico que “não acredita mas respeita” a Teoria da Evolução de Darwin.

Uma novela tem muitos personagens. E situações caricatas mais do que a conta. Em breve, cenas dos novos capítulos. Acontecerão previsivelmente reviravoltas imprevisíveis.

 

publicado às 00:05

Leicester é uma lição. Sobre egos a mais e a menos

 

Por: Rute Sousa Vasco 

 

O futebol é feito de mitos e de heróis, não necessariamente por esta ordem. Também é verdade noutros desportos, seja no SuperBowl, na fórmula 1 ou no ténis, mas a popularidade do futebol faz com que o poder de uma boa história seja elevado à máxima potência. E na grande história dos mitos e heróis do futebol, o Leicester é, perdoem a informalidade, um capítulo do caraças. Tem todos os ingredientes: um não-herói (a equipa), um falhado (Ranieri) e todo o favoritismo dos grandes (Chelsea, Manchester United, Manchester City, Arsenal).

 

 

E como se tudo isto não fosse suficiente, ainda conseguiu provocar um dos maiores rombos de sempre nas casas de apostas. Há dez meses era canja para as casas de apostas propor 5000 contra 1 na possibilidade de o Leicester ser campeão e, já agora, do seu treinador, Claudio Ranieri ser dos primeiros a ser despedidos na Liga inglesa. O Leicester foi campeão, Ranieri é agora o “Thinkerman” e tudo isto custou cerca de 15 milhões de dólares às casas de apostas. (só para efeitos comparativos, é de registar que as apostas nas possibilidades do Leicester ser campeão ombreavam, a significativa distância, com as apostas sobre a possibilidade de Bono, vocalista dos U2, ser o próximo Papa ou Kim Kardashian tornar-se presidente dos Estados Unidos, em que se pagava, respectivamente, 1000/1 e 2000/1).

 

O milagre, como lhe chamaram muitos, teve o seu desfecho na 2ª feira, no preciso minuto em que terminou o jogo entre o Chelsea e o Tottenham. Um empate que retirou ao Tottenham a hipótese que ainda lhe restava de adiar o título do Leicester mais uma jornada. Mas isto são os factos. O que realmente torna esta história elegível daqui para a frente como case study para livros sobre superação e liderança, documentários apaixonados para os amantes de futebol e palestras de motivação é, como sempre será, a matéria humana.

 

Muito se escreveu nas últimas semanas sobre Claudio Ranieri. Depois da vitória, multiplicaram-se as referências. No Twitter, vimos inclusive o treinador do Leicester como “The Godfather” ilustrado com a emblemática frase: “Great men are not born great, they grow great - Don Claudio Ranieri”.

Ranieri foi, até ao passado fim de semana, o homem que nunca tinha sido campeão nacional, apesar de ter estado na liderança de tantas e boas equipas. Leicester não era sequer a primeira equipa inglesa que treinava e com a anterior as casas de apostas tinham certamente demonstrado maior confiança, já que era o reputado Chelsea. Mas Ranieri falhou esses campeonatos todos. Com o Chelsea, como com o Atlético de Madrid, como com a Juventus, como com o Monaco e mais alguns. Chegou ao Leicester depois de ter sido despedido de selecionador da Grécia na sequência do não apuramento dos gregos para o Euro2016.

 

O que aconteceu então em Leicester e que torna a história ainda mais extraodinária? A forma mais convincente como o vi explicado foi no artigo escrito pelo Pedro Candeias, no Expresso de sábado passado, dois dias antes de Ranieri se tornar campeão. Intitulado “O homem a quem aconteceu não sei o quê”, o artigo citava Stan Collymore, ex-jogador e agora comentador, que falava sobre o “problema de Ranieri” até chegar ao Leicester: “Ele era ótimo com os miúdos, mas não tinha jeito para os egos.”

 

Não é nada difícil passar este exemplo do balneário para as empresas ou para qualquer ambiente que exija liderança de equipas. E é muito tentador, sobretudo neste clima de excitação em torno de um tomba-gigantes, fazer apenas o elogio dos second-best, dos jogadores anónimos em qualquer equipa, versus as rock stars ou, se quisermos, os tipos verdadeiramente extraordinários (que não são, forçosamente, nas organizações os que assumem a pose de rock star).

Mas, apesar da enorme simpatia que esta história me desperta, tenho as maiores reservas que as suas lições de liderança sejam lineares como parecem. Pelo contrário, tendo a achar que a história-de-encantar do Leicester encerra, na realidade, verdades aparentemente opostas, mas só aparentemente.

 

É verdade que num ambiente de baixas expectativas, sem confronto com egos poderosos, o desafio da superação é bem mais convincente. Tudo a favor (coisa que as casas de apostas não perceberam). Se quisermos, essa é também uma das razões porque tantas pessoas hoje preferem sair de grandes empresas e iniciar o seu próprio negócio ou projecto profissional, sem confrontos diários com os egos corporativos ou as hierarquias à moda antiga que ainda subsistem. É uma boa razão para quem sai e uma má razão para quem fica.

Mas, liderar uma equipa de underdogs – de não-favoritos - por si só não faz de Ranieri um líder carismático, como agora provavelmente muitos verão, mesmo que dê imenso jeito para colorir ainda mais uma história que é, efectivamente, arrebatadora. No fim do dia, ganha-se e perde-se por causa das pessoas. E é óbvio que um grande jogador que não tem sentido de equipa, serve de pouco ou nada e provavelmente até prejudica. É igualmente verdade que qualquer pessoa prefere não ter de lidar com egos gigantescos, ainda por cima quando alguns são só mesmo ego e nada mais. É um desafio para treinadores como para CEOs, como para um chefe-cirurgião ou um professor na sala de aula. Líder, que é uma palavra de que não gosto especialmente, é alguém capaz de unir várias pessoas em torno de um objetivo comum. E um líder que só se consegue afirmar se não tiver de conviver e liderar outros tão bons ou melhores que ele dificilmente será grande.

 

Gosto muito da filosofia – foi assim que ele lhe chamou – de Ranieri no que respeita a não se intimidar com rock stars. ("All the time I said to my players I don't care about the name on the badge or the name of the opponents”.] É um excelente princípio para enfrentar adversários. E pode ser uma excelente maneira de lidar com as “estrelas” de qualquer balneário. Mas, nesta semana,Ranieri também repetiu e insistiu que não quer ‘big names’ no Leicester. E isso já me desencanta porque no futebol como em qualquer outra coisa faz falta e dá um gozo enorme ver os Cristianos Ronaldos que por aí andam.

 

Nas empresas portuguesas, a quem é apontado sistematicamente um défice de gestão, o caso Ranieri podia ser um bom pretexto para discutir como se motivam pessoas, sejam elas underdogs, rock stars ou simplesmente medianas. E como se faz com que todas juntas resultem efectivamente numa equipa. Se conseguíssemos mais vezes que isto acontecesse, provavelmente a vida das empresas corria melhor. Provavelmente, a vida do país corria melhor. Mas, suspeito, que tal como provavelmente aconteceu a Ranieri, muitas vezes não se ganham campeonatos apenas por problemas de egos. De quem lidera, sobretudo.

 

Não termino sem a lição mais óbvia que o caso Ranieri poderá deixar e que provavelmente mais falta faz a quem por ela procura. Ranieri foi o homem que nunca foi campeão com grandes equipas e que acabou campeão à frente de uma equipa pequena. Nunca saberemos se não aconteceu mais cedo por falta de capacidade ou mera infelicidade, mas sabemos que chegou o dia em que, com as pessoas certas e no momento certo, a vitória lhe sorriu. E isso, seja como for, será sempre uma inspiração para todas as vezes que se tenta e se falha.

 

Tenham um bom fim de semana!

 

Outras sugestões:

 

O Netflix estreou ontem a sua primeira produção europeia. "Marseille", conta com Gérard Depardieu e Benoît Magimel e não quer ser o novo "House of Cards", mas sim outra coisa. Vamos ver o quê.

 

 

E Marselha foi sempre uma terra de segundas oportunidades, escreve a BBC ao contar esta história de uma sinagoga que está a ser vendida a uma organização muçulmana que aí pretende fazer uma mesquita. Vale a pena ler.

 

 

Este artigo teve uma 2ª edição às 14h30 para inserir link do The Telegraph com informação mais detalhada sobre as apostas referentes às possibilidades de o Leicester ganhar o campeonato inglês.

publicado às 11:48

Aqui mesmo ao lado

 

Por: Pedro Rolo Duarte

 

“Os canais e os meios mudam, mas o jornalismo continua a ser o mesmo: procurar a notícia, decidir da sua relevância, exercer o contraditório com rigor, contá-la bem e publicá-la com liberdade”. As 34 palavras que fecham o editorial de ontem do diário espanhol El País, assinalando os seus 40 anos de vida, resumem o que fez deste jornal um dos mais respeitados do mundo, um dos maiores do mercado latino, e um exemplo de adaptação ao mundo digital e à informação nos tempos da tecnologia.

 

Baluarte da democracia que a Espanha viria a adoptar nos anos 70, o El Pais nunca escondeu a sua proximidade aos socialistas do PSOE, mantendo a tradição de boa parte da imprensa europeia (que em Portugal, lamentavelmente, não existe), de não esconder, antes assumir, as suas inclinações políticas. No caso espanhol, o jornal está bem acompanhado pelo concorrente El Mundo, próximo do PP, outro excelente exemplo de jornalismo, porventura mais ousado e moderno, mas não menos sério na abordagem da informação.

 

Ambos os diários enfrentam com ousadia o desafio das novas tecnologias, numa interacção cada vez mais dinâmica entre as edições impressas e as plataformas digitais - há reportagens do El Pais que ganham uma vida própria, complementar, enriquecida, nos videos que os leitores podem depois ver na Web -, enquanto perseguem um estilo de jornalismo que não exclui a informação dita mais popular, nem foge das matérias mais polémicas.

 

Num editorial recente no El Mundo, a respeito de uma entrevista que o jornal decidiu publicar com um preso, condenado a 40 anos de prisão pelo assassinato dos seus dois filhos em 2011, o director David Jimenez escrevia: “O jornalismo não é uma viagem à Disneylândia, porque a vida também não é; ignorar o mal não o faz desaparecer. Contá-lo e tratar de o desvendar perante a opinião publica é uma causa não apenas legitima, mas necessária”.

 

É esta abertura a todas as frentes da notícia que contribuem para que possamos olhar para El Pais e El Mundo como materiais que no futuro farão História. E é essa realidade que nos falta em Portugal.

 

Há amigos que estranham o facto de ser comprador habitual do “Público” e do “Correio da Manhã” (CM), e eu explico sempre a mesma coisa: se ler apenas um deles, fico com uma imagem distorcida da realidade - no CM, Portugal vive em estado de sitio, entre violações, catanadas, mortos, roubos, corrupção e Sócrates; pelo contrário, no “Público” praticamente não há criminalidade, a televisão não tem lixo nem reality-shows, há descobertas cientificas fascinantes e as pessoas que realmente marcam a nossa vida têm o obituário que merecem (exemplo recente: a morte do fotógrafo Pedro Cláudio ocupou duas páginas no “Público”, e não mais de 20 linhas no “Correio da Manhã”. Era o “Público” que estava certo, claro). Ou seja: no cruzamento da leitura dos dois jornais acabo por ficar diariamente com uma ideia do mundo em que vivo. Mas não é natural que tenha de ler dois jornais distintos para chegar a uma aproximação da realidade. E talvez esta obtusa circunstância explique o sucesso do “CM” e o declínio inexorável do “Público”: o primeiro por força do seu jornalismo popular, o segundo pelo desinvestimento claro na edição em papel e consequente fragilidade da plataforma online. Mas também pelo preconceito que o levou a ignorar meses a fio o caso Barbara Guimarães/Manuel Maria Carrilho - ou, esta semana mesmo, a polémica biografia onde se acusa Emídio Rangel de ser “culpado” pelos presumíveis vícios da ex-mulher Margarida Marante (sem que o próprio se possa defender, sem factos, sem provas…).

 

O exemplo do El Pais e do El Mundo, aqui mesmo ao lado, deveriam inspirar e convocar os editores da nossa imprensa de referência. Mas não me parece que tal suceda. Este aniversário redondo do diário que nasceu para “ajudar” a democracia espanhola a caminhar, depois de gatinhar, prova que os 40 são mesmo os novos 30. Mas não para todos…

  

 

ESTA SEMANA NÃO PASSEI SEM…

 

Ir ao Museu da Electricidade ver a edição 2016 da World Press Photo, exposição que reúne 150 das melhores fotografias que o jornalismo nos deu no último ano. Realidades cruéis, aqui e ali apaixonantes, sofridas, sentidas, há de tudo, até mesmo um português premiado - curiosamente, foto-jornalista de uma agência nacional, mas que foi ao Senegal por conta própria, e de licença sem vencimento, para captar a imagem que acabou por ser premiada…

Quem não puder vir a Lisboa, tem a exposição toda na net, ao alcance de um clique.

 

A matéria já tem alguns dias, mas vale a pena recuperá-la. O premiado Chef Tom Colicchio escreveu na “Time” sobre o desperdício alimentar. E disse: “Quando eu descobri que a América desperdiça 40% da sua comida, fiquei chocado. Este é um país onde cerca de 50 milhões de pessoas não têm a certeza sobre como vão conseguir a sua refeição seguinte… Ainda assim, deitam fora milhões de toneladas de alimentos por ano”. E reflecte sobre este crime sem punição e paradoxo sem explicação…

 

Num tempo em que a imprensa diária vive mais online do que no papel impresso, não podemos considerar perder tempo dar uma vista de olhos regular pelos jornais que, em todo o Mundo, vão vivendo entre um mundo e o outro. Este portal é mesmo uma porta aberta, organizada por continentes e por línguas (português incluído), dos jornais de todo o Globo. Nem que seja por passeio, vale a pena navegar aqui…

 

publicado às 09:59

Mulheres e mães: por que não uma TSU mais baixa?

 Por: Paulo Ferreira

 

Se as empresas fazem contas aos custos da maternidade, vamos então jogar com as mesmas regras: tornar os custos salariais das mulheres mais baixos na fatia que reverte para o Estado

 

 

Estamos em pleno Inverno demográfico e, apesar das notícias animadoras que nos dizem que no ano passado nasceram mais bebés em Portugal, nada nos garante que isso seja o início de inversão da tendência que se arrasta há décadas. O relatório “Determinantes da Fecundidade em Portugal”, realizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e pelo Instituto Nacional de Estatística - declaração de interesses: integrei a equipa que, a partir desse documento, criou e produziu a obra digital Nascer em Portugal - foi à procura das motivações que nos levam a ter ou não ter (mais) filhos.

 

As questões económicas e financeiras são importantes, naturalmente. Se no passado - perdoem-me o linguajar economicista - os filhos eram um activo representado em mais braços para ajudar nas actividades familiares, hoje são um passivo a quem queremos proporcionar todo o conforto e condições para serem excelentes pessoas e profissionais realizados. Mas são, naturalmente, o passivo mais querido do mundo.

 

Mas depois há as condicionantes mais imateriais: o tempo que se tem ou não para os acompanhar e ver crescer, a articulação entre o trabalho e a família ou a divisão de tarefas domésticas.

 

Não é a primeira vez que este tema me ocupa nestas crónicas - em Dezembro escrevi este Quotas e direitos, homens e mulheres e, por coincidência, na mesma altura Luis Aguiar-Conraria escreveu no mesmo sentido no Observador - e agora retomo no ponto em que então acabei.

 

Atalhando, é bem vindo o alargamento de direitos e benefícios que se começam a discutir - aumento da licença de maternidade para seis meses e paga a 100%, nova licença pré-parto de duas semanas e por aí fora - mas teme-se o impacto que isso possa ter noutro plano importante: a igualdade de tratamento e de oportunidades no local de trabalho.

 

Sabemos das disparidades salariais que há entre homens e mulheres para tarefas iguais, sabemos da discriminação que há em relação a mulheres grávidas, sabemos como muitos empresários e gestores com visão medieval fazem contas de merceeiro quando se trata de contratar um homem ou uma mulher, sobretudo jovens. Provavelmente, mais cedo ou mais tarde ela vai ter filhos e isso tem óbvias implicações na dedicação às tarefas profissionais.

 

É estúpido, mas é assim. E isto não se muda numa ou duas gerações. Provavelmente nunca se vai alterar de forma aceitável.

 

A lei pode fazer muita coisa para tentar equilibrar direitos mas há uma coisa que não pode mudar: a biologia. A gravidez e a amamentação é delas e não deles.

 

Mas se as regras não mudam a biologia, podem, pelo menos, ajudar a esbater diferenças. Aos olhos dos gestores e empresários de vistas mais curtas, enquanto o “custo” da maternidade for essencialmente da mulher, elas estarão em desvantagem. E quanto mais se aumentar esse “custo” - porque é assim que muitos vêem alguns direitos - maior será a desvantagem delas.

 

Tão importante como alargar licenças de maternidade seria obrigar - sim, obrigar - o pai a gozar idêntica ausência do trabalho. Não é fácil? Pois não.

 

Mas já que se fala tanto da alteração da Taxa Social Única e para tudo e mais alguma coisa será que o Estado não podia usar esse instrumento para tentar anular estas diferenças?

 

A ideia é simples. É facil saber com mediana exatidão qual é a probabilidade de uma mulher que tem hoje 20 anos ser mãe aos 25, aos 30 ou aos 35. E é fácil, a partir daí, fazer uma estimativa média das ausências e custo laboral associado. Se baixarmos a TSU das mulheres e/ou aumentarmos a dos homens nessa porporção, as motivações economicistas e de vistas curtas na contratação e desenvolvimento de carreiras deixam de fazer sentido, em grande parte. Se as empresas fazem contas aos custos, vamos então jogar com as mesmas regras: tornar os custos salariais das mulheres mais baixos na fatia que reverte para o Estado.

 

Se ao longo de uma carreira profissional o custo salarial de uma mãe de dois ou três filhos for semelhante ao de um pai com os mesmos dois ou três filhos talvez alguma coisa possa mudar.

 

Discriminação? Mas ela já é feita nos seguros automóvel - parece que eles batem mais e, por isso, pagam mais - ou nos seguros de saúde e de vida - elas são mais saudáveis e vivem mais anos e, por isso, pagam menos.

 

Nada, mas nada, terá no futuro um custo maior do que uma população envelhecida como a que estamos a construir.

 

 

Outras leituras

 

 

publicado às 10:25

Um dia para a coragem de informar

 

Por: Francisco Sena Santos

 

Machado de Assis é um dos mais notáveis e inspiradores escritores na língua portuguesa. Cronista acutilante, ele definiu, em meados do século XIX, a imprensa como “a verdadeira forma de república do pensamento.” Machado foi mais fundo no esquadrinhar do papel da imprensa: “É a reprodução diária do espírito do povo, o espelho comum dos factos e dos talentos, locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, literatura comum universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das ideias e o fogo das convicções.”

 

Neste dia 3 de maio, data anual da celebração por todo o mundo da liberdade de imprensa, será pertinente pensarmos em como está essa “faísca da inteligência”, prolongamento da liberdade de expressão, garante do acesso de todos à informação plural que nos permite compreender o que se passa tanto à nossa volta como lá longe.


Os diagnósticos globais inquietam: “Estamos no 12º ano consecutivo de declínio global da liberdade de imprensa pelo mundo”, alarma-se a Freedom House, de Washington, no seu relatório anual com foco sobre 199 países. A análise dos Repórteres Sem Fronteiras (RSF) confirma que a liberdade de imprensa está a ser dinamitada: “Todos os indicadores (independência dos jornalistas, auto-censura, transparência, abusos e legislação vigente) mostram que a liberdade de imprensa está a degradar-se em todas as regiões do mundo; que entramos numa nova era de propaganda, com vários países onde as autoridades tentam limitar o debate público, e que há um elevado grau de violência contra quem representa a informação independente.” Os relatórios coincidem na avaliação de situação particularmente agravada na América Latina, onde é constatada violência institucional na Venezuela e no Equador, ameaças do crime organizado nas Honduras, impunidade na Colômbia, crise dramática no México, corrupção no Brasil e concentração da propriedade dos media na Argentina. O Washington Post espanta-se com o resultado que mostra a África a ultrapassar as Américas no quadro da liberdade de imprensa. Síria, China, Coreia do Norte, Irão, Cuba e Rússia estão no fundo da lista negra em que Turquia, Polónia, Hungria e Bulgária também aparecem miseráveis em liberdade. A França, com a legislação anti-terrorista, está em queda vertiginosa no índex da liberdade de imprensa.


Cabo Verde está no relatório RSF como bom exemplo de imprensa livre, Moçambique tem registo de liberdade parcial e Angola aparece entre os países sem liberdade de imprensa, embora com liberdade parcial na internet.


Portugal aparece na avaliação RSF num simpático ou indulgente 23º lugar entre 180 países. O quadro legislativo português protege obviamente a liberdade de imprensa. A censura acabou com o 25 de abril. Mas há várias ameaças sobre o dia a dia da qualidade de informação nestes tempos de crise com erosão de valores.


As condições laborais nas redacções puxam para que a necessária determinação e coragem ceda ao medo de ficar indigesto perante quem manda e assim perder o lugar inseguro – não será esse um motivo para o declínio dos vitais conselhos de redacção? A precariedade está a disparar e a enfraquecer o jornalismo livre, promovendo a docilidade. Os despedimentos e as reformas precoces são outro barómetro do mal: nos últimos oito anos Portugal perdeu 1200 jornalistas.


A diluição das fronteiras entre jornalismo, comunicação e publicidade é uma ameaça cada vez mais séria – requer jornalistas e redacções fortes na defesa da deontologia.


A convergência dos media é a realidade actual e tornou-se um sistema – mas coloca preocupações sobre a liberdade e o pluralismo.


A competição pelo share dita cada vez mais a agenda – fica cada vez mais reduzida a autonomia dos jornalistas para contarem histórias que não prometem à partida grande audiência mas que são preciosas para fornecer dados objectivos e compreendermos o que acontece no mundo em que vivemos.


A reportagem e a investigação jornalística recuam enquanto crescem os espaços de opinião e debate ocupados maioritariamente por políticos – tantas vezes metidos num pugilato sectário desprovido de sentido de interesse público. Esgotam o espetador. Felizmente a rádio escapa a esses diálogos de surdos onde raramente é possível algum reconhecimento de mérito ao adversário.


A ânsia de imediatez e a proliferação do direto televisivo sem critério está a tornar-se uma ameaça – a falta de mediação especializada é o jornalismo a demitir-se da sua função.
O culto da híper-rapidez tende a ser inimiga da fiabilidade. É necessário algum recuo para que o enquadramento seja rico.


O valor de mercado do jornalismo original está a ficar espalmado – alguns circuitos das redes sociais instalam e credibilizam rumores que sugerem ser notícia, mas com realidades remodeladas. Ainda que esses rumores não sejam jornalismo contribuem para a quebra de confiança e respeito pelos media.


A publicidade está a reduzir o fôlego aos jornais – o World Press Trends Report de 2015 mostra que em 2014 os jornais pelo mundo conseguiram maior volume de receita nas vendas e assinaturas do que na publicidade.


Há alguns bons exemplos de adaptação de media de referência, agora também em Portugal, a este tempo digital – mas a publicidade digital cresce menos que o previsto e até um titã do jornalismo como é The Guardian está ameaçado por grave crise.


O jornalismo existe para ajudar o cidadão a pensar com liberdade e para proporcionar cultura. – não para o convencer, doutrinar ou estupidificar.


Seja como for, apesar de muitas e inquietantes ameaças, o jornalismo em Portugal escapa ao terror de perseguições violentas, assassinatos, sequestros ou detenções como acontece em tantos países do mundo. Há neste momento centenas de jornalistas que operam, sem mínimas garantias de segurança, em cenários de alta tensão. Estão lá para nos contar a vida de quem não tem voz. No último ano, diz-nos a RSF, pelo menos 63 jornalistas foram assassinados por exercer o seu ofício. Algumas vezes quem vai às linhas de risco são bravos repórteres portugueses – estou a lembrar-me de José Manuel Rosendo, de Paulo Moura e de Cândida Pinto, entre outros.


Machado de Assis acreditava que a imprensa seria uma arca poderosa ou um banco inteletual onde se discutiriam as ideias, as questões e os problemas, mostrando o pensamento humano, desenvolvendo a confiança, a riqueza e os melhoramentos. Portanto, Machado, sendo um inquiridor da modernidade e um percursor de tendências, também era um utópico.

 


TAMBÉM A TER EM CONTA NESTE DIA MUNDIAL DA LIBERDADE DE IMPRENSA:

Jornalistas turcos denunciam a “caça às bruxas” desencadeada por Erdogan.


El Pais dedica um especial à liberdade de imprensa “sob ameaça constante”.


Também no El País, uma exposição multissensorial celebra os 40 anos deste grande jornal europeu – que também não está imune à crise e que já despediu alguns dos seus melhores.

 

La Repubblica abriu um inquérito aos leitores sobre como melhorar a informação online.

 

Primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta, esta e esta.

 

 

publicado às 07:03

A reflexão dos manifestos bancários

 

Por: António Costa

Vem aí mais um grupo que quer uma reconfiguração da banca portuguesa e até tem um site oficial, com personalidades que, elas próprias, já tiveram o poder de influenciar o desenho do sistema financeiro, e fizeram-no, não necessariamente da melhor forma, como se constata hoje. O que quer este novo grupo?

 

Em primeiro lugar, é um grupo de reflexão que foge, e bem, da lógica primária do manifesto anti-qualquer coisa, neste caso anti-Espanha, a pior forma de por o problema. Se há problemas, e há, temos de olhar para Lisboa em primeiro lugar e não para Madrid. Estas iniciativas podem até ter um fim bondoso, desde logo evitar que seja o BCE a decidir o que se passa em Lisboa do ponto de vista acionista dos bancos, mas parecem esquecer que o que determina a configuração de um sistema – bancário ou outro – é a disponibilidade de quem tem capital para nele participar. Quando são outros os interesses, regra geral dá maus resultados, porque não é sustentável. Mais ainda quando os destinatários destes pedidos são os governantes que decidem envolver-se com o dinheiro de terceiros, leia-se dos contribuintes.

 

O grupo de reflexão – promovido por João Salgueiro à cabeça e com nomes como Bagão Felix, Eduardo Catroga, Rui Rio ou Diogo Freitas do Amaral – apresenta-se com um documento de 14 pontos em que dá o exemplo (mau) do Banif. Que, seguramente, ninguém quer repetir. O verdadeiro alcance, esse, é outro, é o destino do Novo Banco, primeiro, e do Millennium bcp, depois. E poderia incluir-se aqui a Caixa Geral de Depósitos, que o governo de António Costa quer manter 100% pública a todo o custo, falta saber qual, e com que objetivos.

 

É público que este grupo nasceu numa lógica anti-espanholização da banca portuguesa, mas esta é a sua primeira e maior dificuldade. Só Espanha tem interesse em meter dinheiro nos bancos portugueses e pouco de preferência. Com o apoio do BCE, sim, que prefere tratar Portugal como uma nova província espanhola. Mas não há capital privado em Portugal, Angola já não tem a disponibilidade financeira de outros tempos e os chineses desapareceram. Sobram, em última análise, os mesmos de sempre, os contribuintes, para participarem à força num qualquer movimento de nacionalização, provavelmente do Novo Banco.

 

Nas próximas semanas, vamos todos perceber que este grupo de reflexão tem, em última análise, esta proposta a fazer. Porquê? Porque a venda do Novo Banco será um calvário, e salvaguardadas as devidas distâncias, vai aproximar-se do que foi o processo do Banif. Ainda chegaremos ao momento em que estaremos a discutir as consequências do futuro do Novo Banco, para os contribuintes e para os outros bancos do sistema.

 

Quais serão os efeitos práticos previsíveis deste novo grupo de reflexão? Além da promoção de umas reuniões com Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, além da discussão pública, desejável, muito poucos. Seria muito desejável que os bancos portugueses tivessem capital português e de várias outras origens para garantir concorrência na afectação do financiamento, mas isso (já) não está nas mãos do Governo, deste ou de outro.

 

O que os governos podem fazer – e devem – é criar as condições para a atração de investimento estrangeiro de várias nacionalidades, para a banca e para outros setores, e para a formação de riqueza no país que permita ter empresas capitalizadas que não dependam dos bancos para o seu futuro. Se fizerem isto bem, já não é pouco.

 

 

As escolhas:

António Costa vai perceber que não basta garantir a sobrevivência da ‘geringonça’. O líder da CGTP, seguramente coordenado com o PCP, vai promover uma semana de luta entre os dias 16 e 20 de Maio. E promete tudo, isto é, greves, manifestações e concentrações. Com um objetivo em mente, como se pode ler em www.economico.pt. É preciso acabar com a caducidade dos contratos e renovar a contratação coletiva, ou seja, é preciso proteger o que resta do poder da CGTP nas empresas.

 

Finalmente, descubra a Semana do Empreendedorismo de Lisboa, que começa hoje e prolonga-se até ao próximo dia 8. Parece uma brincadeira do destino, depois de uma semana em que a Uber foi alvo de todas as ameaças, em que os organismos públicos, incluindo as câmaras de Lisboa e Porto, dão os sinais errados de apoio a uma corporação contra o novo tempo, chega a semana dos empreendedores que sonham ser um novo Uber. Uma semana cheia, que pode consultar aqui www.lisboastartupcity.pt.

 

Tenha uma boa semana.

publicado às 12:09

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