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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

O dia de todas as decisões

 Por: Pedro Rolo Duarte

 

Hoje é o dia. Hoje vamos saber se a Grã-Bretanha vai fazer desmoronar a União Europeia - ou se, não a desfazendo, a vai deixar ferida, enquanto o país recupera da explosão programada que criou no reino de vários reinos…

 

As sondagens foram variando ao longo do tempo, mas é evidente que todas mostram o mesmo cenário: uma profunda divisão interna, provocada por fenómenos tão díspares quanto a imigração e a moeda única, o terrorismo e a balança comercial. Neste quadro, o debate foi de tal forma confuso, que até a intenção de voto dos ingleses se foi dispersando ao longo do tempo.

 

Como português, e defensor da causa europeia, espero que o referendo mantenha o Reino Unido debaixo da bandeira azul estrelada. Mas não deixo de pensar nos paradoxos desta “união”, um mês depois de ter aterrado em Manchester, onde estuda o meu filho, e me ter voltado a confrontar com duas moedas, câmbios e taxas de juros nas operações bancárias. Na verdade, a Grã-Bretanha tem estado sempre com um pé dentro e outro fora do projecto europeu, numa fina mistura entre o “adepto” e o “sócio”. Sem colocar numa balança o que ganha e perde com esta postura, ela traduz uma eterna desconfiança em relação à UE, e uma ameaça permanente sobre a ideia fundadora desta União. Por outro lado, ao mesmo tempo, enquanto trocava euros por libras, não deixava de notar em placas como a que está pregada numa pequena ponte no MediaCityUK, uma renovada zona da cidade onde hoje funcionam, entre outras, a BBC: “This project has been part-financed by the European Community”...

 

… O melhor dos dois mundos, portanto. Não deixa de recorrer aos financiamentos possíveis na Europa, como não deixa de criticar políticas sociais que podem levar a um fluxo migratório indesejável neste momento. Duvida da União, mas beneficia por lhe pertencer, ainda que parcialmente.

 

O que daqui resulta, neste dia de referendo, é uma questão mais global e abrangente: saber até que ponto o Reino Unido, centro da democracia mundial, vai saber, com a palavras dos seus cidadãos, mostrar que permanece fiel às ideias humanistas que também orientam a União Europeia, mesmo quando falha nas suas intenções. E tem falhado bastante.

 

Porém, há que reconhecer a evidência: estaríamos hoje bem piores se não tivesse havido quem pensasse um projecto europeu. E não falo apenas dos países mais pobres. Falo também daqueles que, no equilíbrio possível entre economias diferentes, puderam crescer num espaço sem ameaças maiores nem abismos nas fronteiras. Nesta Europa cheia de imperfeições, todos ganhamos com a União - ao contrário da ideia feita segundo a qual os países mais pobres beneficiam mais do que os ricos… -, e até o dividido Reino Unido faz parte dos que têm mais a ganhar do que a perder. Mais logo saberemos se os britânicos pensam o mesmo…

 

 

Leituras boas da semana

 

Excelente o artigo de Nora Kelly na revista norte-americana The Atlantic sobre a relação entre Donald Trump e a televisão, e como pensa o putativo candidato resolver a questão…

 

José Milhazes é, indiscutivelmente, o português que melhor conhece a Russia e o que a rodeia. Num excelente artigo publicado há dias no jornal online Observador, explica com clareza as relações entre o país de Putin e os seus vizinhos - ou seja, nós, os europeus…

 

Aconteça o que acontecer com a nossa selecção no próximo sábado, o conselho serve: perdoar, esquecer, prolonga a vida. O artigo vem na insuspeita Time e serve para qualquer resultado: se sairmos vitoriosos, podemos perdoar os erros passados. Se perdermos, é mais saudável esquecer do que ficar a remoer e a culpar os Ronaldos desta vida…

 

publicado às 08:34

Centeno quer mudar o BdP. Boa sorte, senhor ministro

Por: Paulo Ferreira

 O medo de indispor banqueiros vigorava no Banco de Portugal, até porque as portas giratórias entre regulador e regulados não são um exclusivo da política. A supervisão com base nos quilométricos relatórios enviados pelos supervisores era a prática comum, ficando o BdP refém da auto-denúncia. E esperando sentado, claro.

 

O ministro das Finanças deu esta segunda-feira posse aos dois novos administradores do Banco de Portugal, Elisa Ferreira e Luís Máximo dos Santos. Há muito tempo - 24 anos, mais precisamente, quando Braga de Macedo desancou no BdP e levou à demissão do então vice-governador, António Borges - que não assistia a críticas públicas tão fortes de um titular da pasta das Finanças em funções à entidade de supervisão bancária.

 

Foram várias as feridas em que Mário Centeno colocou o dedo durante o discurso que leu na cerimónia - que está aqui na íntegra. O ministro tem boas razões para o fazer.

 

Primeira: “A reputação, que leva décadas laboriosamente a construir, pode ser rapidamente posta em causa”.

Têm sido demasidas, e demasiado grandes, as falências bancárias em Portugal. Entre casos de polícia e má gestão de risco, somamos quatro quedas em sete anos: BPN, BPP, BES e Banif. A Caixa não cai porque os seus accionistas, os contribuintes, têm os bolsos fundos. É impossível não responsabilizar também a supervisão pela proporção que alguns destes casos assumiram. E é difícil não questionar se podemos confiar nas garantias que nos dão sobre os bancos a quem confiamos o dinheiro.

 

 

Segunda: “O Banco de Portugal (…) goza de um estatuto de independência que as economias

desenvolvidas decidiram atribuir aos Bancos Centrais. Esta independência constitui um direito. Mas esse direito tem que ser exercido como um dever. Os Bancos Centrais não se podem tornar entidades isoladas do resto da comunidade.”

 

 

Não é de hoje nem sequer da era Sistema de Bancos Centrais na Europa. Os tiques de “casta” são demasiado antigos no Banco de Portugal, com reflexos vários: nas regalias, nos pornográficos sistemas de pensões vitalicias que terminaram há 10 anos, no desprezo que durante décadas a entidade colocou na supervisão comportamental dos bancos, na forma como eram tratados ou ignorados os clientes que de queixavam dos atropelos das entidades financeiras. Eram demasiado aristocratas e com uma missão demasiado nobre para sujarem as mãos com coisas menores. Uma delas era incomodar os banqueiros que, como se sabe, são só pessoas de bem.

 

 

Terceira: “O Banco Central tem responsabilidades acrescidas de transparência e de informação para com a sociedade”.

Tardou até que o Banco de Portugal reconhecesse falhas e passividade na supervisão. Aconteceu após o caso BES mas, ainda assim, ficou na gaveta a auditoria efectuada à sua actuação. E recordam-se da atitude de Vítor Constâncio na Comissão Parlamentar de Inquérito ao BPN, a fazer lembrar o ministro da Informação de Saddam Hussein? Que estava tudo bem e o BdP tinha atuado com zelo… Continua a aguardar-se uma avaliação séria à estrutura, funções, procedimentos e eficácia da regulação e supervisão do BdP.

 

Quarta: “A supervisão financeira deve atuar de forma preventiva, utilizando a análise de risco disponível, mas sendo também uma fonte de informação à sociedade. Esta função deve ser desempenhada de forma proactiva e, portanto, as autoridades de supervisão financeira devem ser atuantes, não passivas na sua análise de riscos. Devem ser parceiros ativos na gestão dos riscos financeiros e não apenas meros instrumentos de reporte dos riscos passados”.

 

O BdP tem sido uma espécie de Instituto de Medicina Legal do sistema bancário: incapaz de prevenir a sinistralidade, faz depois a autópsia. A cultura de “banqueiro é sempre pessoa de bem”, que cegou Constâncio no BPN, estava muito presente. O medo de indispôr banqueiros vigorava, até porque as portas giratórias entre regulador e regulados não são um exclusivo da política. A supervisão com base nos quilométricos relatórios enviados pelos supervisores era a prática comum, ficando o BdP refém da auto-denúncia. E esperando sentado, claro.

 

Quinta: “A condição primordial de execução de cargos públicos é a sua contínua disponibilidade. Nunca podemos colocar a ambição pessoal em cargos públicos acima dos interesses da nação. Não há instituições que se possam interpretar a si próprias como jangadas de pedra”. De volta ao isolamento e, aqui, arrisco a ver a “alfinetada” mais pessoal do ministro ao governador, conhecidas que são as suas divergências pessoais.

 

Mário Centeno conhece muito bem o BdP - foi de lá que saiu quando decidiu ajudar António Costa na elaboração do programa eleitoral. Faz um diagnóstico que bate certo com as falhas do BdP, que se metem pelos nossos olhos dentro. Mas mais do que mudanças de governador e administradores, é a cultura do BdP que importa mudar. Só pode acabar mal, quando o polícia tem medo e respeita demasiado o delinquente. E foi a isso que assistimos nas últimas décadas.

Boa sorte, senhor ministro.

 

 

Outras leituras

 

  • Depois do BPP e do BES/GES, vêm aí os “lesados da PT”. A troca da Vivo pela Oi feita pela empresa portuguesa há seis anos ameaça ser o negócio mais estúpido de sempre. Mas muita gente enriqueceu com ele.

 

  

 

publicado às 01:41

Os eleitores britânicos e os espanhóis vão a penaltis

Por: Francisco Sena Santos

 

O primeiro campeonato europeu de futebol de seleções, realizado em 1960, foi um quase fiasco, por escassa mobilização. A ideia de juntar os países europeus e apurar os melhores foi de um francês, Henri Delaunay. Nessa década já tinha sido criada, impulsionada por políticos da França, Alemanha Ocidental, Itália e os três países Benelux, a CECA, embrião da CEE que gerou a atual União Europeia.

 

Foi um quebra-cabeças juntar seleções para aquele primeiro Euro com a bola: os ingleses, que se tomam por pátria do futebol, ficaram ciumentos com a iniciativa francesa e não quiseram entrar. Alemães (ao tempo a RFA) e italianos, entre outros, também não. Inscreveram-se 17 países para a fase de qualificação, mas a Espanha renunciou, por ordem política do ditador Franco, que recusou o passaporte para a seleção jogar o apuramento em Moscovo com a comunista União Soviética. Nesse 1960, concorreram ao Euro as seleções de 17 países. Agora, foram 53. A Europa da CEE começou por ter seis países-membros e agora a União Europeia tem 28. A Europa do futebol cresceu, tornou-se pujante e gera paixões, a Europa política também cresceu mas definha como ideal e crescem os desapegos.

 

Se perguntarmos por aí, em inquérito de resposta instantânea, o nome de suecos famosos, o mais provável é que o futebolista Ibrahimovic seja o mais nomeado, muito mais que Ingmar Bergman, August Strindberg ou até Alfred Nobel. Talvez alguns se lembrem de Henning Mankell, mestre do policial e amante de Moçambique. Vão aparecer mais nomes suecos do futebol, como o do treinador Eriksson, mas ninguém saberá que um tal Stefan Lofven é o primeiro-ministro em Estocolmo. Há uns tempos, nas décadas de 70 e 80, toda a gente responderia logo Olof Palme, o político paradigma da social-democracia progressista, solidária e tolerante. Palme assumia-se utópico: “Não podemos viver sem utopias”, disse numa visita a Portugal pouco tempo antes de ter sido assassinado. Nessa viagem a Lisboa, Palme explicou numa entrevista à então RDP que “a política tem de ser feita num diálogo contínuo entre realidade e sonho, porque sem sonho a nossa ética e ideologia desaparecem”. Esse último quarto do século XX foi um tempo de expansão e até de sonho com o ideal de uma Europa luminosa, atraente para todos. Entrámos no século XXI e a coisa começou a correr mal. Houve a infâmia do 11 de setembro que desencadeou guerras e terrorismos que nunca mais pararam, houve os golpes financeiros de 2007, a Europa cresceu e arranjou uma moeda sem estar consistentemente preparada para estas duas coisas, veio a atual geração de dirigentes europeus, veio a austeridade e os cortes sociais, e estamos nisto, sem faísca, sem entusiasmo político, uma Europa frustrante – embora com potencial de ideias e energia para ser radiosa, assim a saibam estimular.

 

Chegámos a um momento em que as eleições e referendos em cada país são um confronto entre sistema e anti-sistema ou partidos tradicionais e forças anti-política. Neste último domingo, em Itália, candidatas de um movimento, o Cinco Estrelas (M5E), que se assume contra o sistema político, conquistaram a presidência de cidades como Roma ou Turim. É facto que Virginia Raggi, eleita em Roma com 67% dos votos, não pode ser etiquetada de populista (rótulo habitualmente atribuído ao M5E do comediante Beppe Grillo, com tendência para propor soluções primárias), é uma política que fez uma campanha afável a prometer “a legalidade, a honestidade e a transparência”, e a propor “uma revolução gentil” que faça “mudar a velha política dos partidos”. Tem na agenda desmontar as redes mafiosas que controlam os serviços, recuperar o civismo, fazer a revolução da normalidade. Ela não apelou ao extremismo da plebe, tratou de juntar uma equipa plural de gente reconhecida como competente em diferentes domínios da gestão de uma cidade, e assim triunfou. Pode ser um bom exemplo de regresso da política com boa chama. Fica para se ver.

 

Estamos numa semana que toda a gente vê determinante para o futuro da Europa. Já depois de amanhã é o referendo britânico sobre o isolacionismo ou a permanência europeia, três dias depois, no domingo, é a repetição de eleições em Espanha. Num caso como noutro, há tendência para o desempate entre os blocos que se confrontam ser feito nos penaltis, ou seja, o resultado só com o apuramento dos últimos votos.

 

 A campanha para a escolha britânica foi deprimente e atingiu níveis impensáveis de divisão, radicalização e até de loucura. O desafio naval entre Neil Farage e Bob Geldof no rio Tamisa pareceu uma cena de Monty Python num filme em que, como em toda a campanha, as duas partes (brexit e pro-UE) exploraram o medo dos cidadãos. Foram usados panfletos xenófobos alertando para a possível invasão do Reino Unido por milhões de turcos e acrescentados mapas sobre alta criminalidade na Turquia. Foi evocada a resistência britânica a Napoleão e a Hitler por entre proclamações de combate aos refugiados como os invasores de agora. Na campanha “remain” também não faltaram  ameaças, desde o colapso da libra ao risco de os reformados perderem os passes e as pensões. Todos abusaram, todos foram demasiado longe na exploração do medo dos votantes.

 

A campanha cada vez mais agressiva foi estancada na passada quinta-feira com o chocante terrível assassinato da inspiradora deputada Jo Cox cujo apaixonante serviço público em trabalho solidário ficámos a conhecer. Não é ainda legítimo declarar o crime com motivação política, mas vários indícios sugerem essa probabilidade, com execução nas mãos de um perturbado seduzido por ideias de extrema-direita. Mas a campanha de violência verbal terá inflamado ódios que podem levar uma criatura mentalmente distorcida a um crime assim.  Esta tragédia terá servido para despertar a Inglaterra – como antes era conhecida – e fazê-la parar e repensar. O eleitorado líquido, como diria Bauman, flutuando na fronteira entre a abstenção e o voto de protesto, estará a juntar o coração à cabeça, e a emoção a puxá-lo para o lado da permanência britânica na Europa. Isso explicará a neutralização dos seis pontos percentuais de avanço que o “Brexit” tinha há uma semana. O mais provável é que tudo fique resolvido nos penaltis.

 

Em Espanha, no domingo, a mesma tendência para que seja preciso esperar pela decisiva contagem dos últimos votos. O que se joga nesta eleição é a modificação profunda do sistema de representação política: será que um movimento nascido na rua com o protesto dos “indignados” vai tornar-se chave para a formação do próximo governo de Espanha? Os partidos tradicionais estão a ficar obsoletos e a deixar de carburar para os eleitores? Há que esperar pela noite de domingo. Vivemos dias que podem ativar um dominó com consequências inimagináveis.

 

Na noite do próximo domingo já estarão apuradas seis das oito seleções que jogarão os quartos de final do Euro 2016. Há 56 anos, no primeiro campeonato, a final foi jogada pelas seleções de dois países que já não existem: a União Soviética que se impôs (2-1) no prolongamento à Jugoslávia. Agora, seria bonito ver na final, num país, a França, que quando foi preciso recebeu tantos emigrantes portugueses, a seleção de outro país, Portugal, que está a ser um raro bom exemplo europeu no dever de acolhimento dos refugiados. A Inglaterra (tal como Gales e a Irlanda do Norte) começou este Euro dentro da União Europeia, mas não é certo que no final continue a fazer parte da Europa política. Culturalmente, não há separação possível, ainda que a história europeia tenha como pilares a velha Grécia, o Império Romano, o Renascimento e o Iluminismo. Também a matriz cristã.   

 

A TER EM CONTA:

 

As cidades governadas por mulheres: Madrid, Barcelona, Paris, Turim, Roma, Colónia, Varsóvia e Estocolmo são algumas das cidades europeias com poder feminino.

 

O "pactómetro" proposto por La Vanguardia: como formar uma maioria de governo em Espanha?

 

A guerra continua no Iraque. A batalha por Falluja gerou dezenas de milhar de refugiados. Trinta mil só nestes últimos dias. O "EI" perde território, mas pode ser apenas um recuo estratégico.

 

A música tem mesmo poderes mágicos e leva à dança: um violinista embalava uma rua de Trieste com a música que é banda sonora do filme “O fabuloso destino de Amélie”; uma palestiniana, Rima Baransi, que estuda dança em Berlim, ia a passar com a família em férias, e foi assim. Com grande beleza.

 

Pela estrada fora, outra vez, sempre, na América.

 

As primeiras páginas britânicas a dois dias do referendo. The Guardian e The Daily Telegraph puxam a sua escolha para o topo.

 

O ocaso da Oi na primeira página do Estadão.

publicado às 09:44

Venha daí a CPI à Caixa

Por: António Costa

 

A Caixa Geral de Depósitos (CGD) está condenada a ser um instrumento político, foi durante anos um capital de risco dos governos do bloco central de interesses, financiada pelo dinheiro dos contribuintes, serve agora para o PSD recuperar a iniciativa política, contra um governo que está a gerir devagar e mal a nova vida do banco público. A comissão de inquérito vai ser uma realidade, já agora que sirva para alguma coisa.

 

Quem aterrou no país nas últimas duas semanas ficará com a sensação de que a Caixa Geral de Depósitos está em vias de fechar. Não está. Tem de aumentar o capital para cumprir os rácios de capital, por causa das imposições dos reguladores, porque é necessário digerir o que ainda não foi digerido ao nível do crédito mal-parado, também porque não se fazem reestruturações sem dinheiro.

 

A primeira responsabilidade para chegarmos ao dia de hoje e às necessidades de capital identificados e não desmentidas – cerca de quatro mil milhões de euros – deve ser procurada junto do anterior governo. Porque é que o reforço de capital ainda não foi feito? Não foi seguramente nos últimos seis meses que a CGD começou a atribuir crédito sem garantias ou mesmo a financiar projetos políticos como o da Pescanova ou do Vale do Lobo, este sob investigação judicial. Portanto, sabemos os nomes que estão em cima da mesa, a começar em José Sócrates e Armando Vara. A CGD já era um centro de financiamento da rede de interesses, Sócrates levou esse desígnio a um alto nível. E Passos Coelho disse ‘não’ a Ricardo Salgado. Sabe, por isso, que tem aqui, neste dossiê, uma oportunidade, talvez a primeira, para abalar António Costa e a geringonça.

 

José Sócrates já reagiu – esta segunda-feira, em texto de opinião no JN – e Pedro Passos Coelho agradece. A partir de agora, é Costa que não tem outro remédio senão o de aceitar a comissão de inquérito, sob pena de ficar do lado dos que estão contra a transparência das contas do banco público. A banca pode mesmo transformar-se no PEC IV de António Costa, e Passos já percebeu isso, essa oportunidade.

 

Não, não pode haver tabus nas discussões sobre a CGD, na estratégia de financiamento passada e no que a nova gestão de António Domingues à frente do banco público. Sobretudo quando está em causa tanto dinheiro. E, no momento em que entra uma nova equipa, há uma obrigação de transparência particular, de prestação de contas a todos os acionistas da CGD, ou seja, a todos nós.

 

A segunda responsabilidade é do próprio Governo. Foram António Costa e Mário Centeno os responsáveis pela fuga de informação que permitiu a discussão de nomes na praça pública, a discussão do valor da capitalização e até do plano de reestruturação. Estamos nisto há meses, com uma degradação crescente da imagem e reputação da CGD, para a qual também contribuiu o PSD, já agora.

 

Seria preferível uma auditoria especializada – por exemplo do Tribunal de Contas – a uma comissão de inquérito. Esta servirá para a luta partidária, e pouco mais, servirá para o PSD arranjar uma alternativa à comissão do Banif. Seja. Agora, mais importante é o governo tomar decisões, nomear a equipa de gestão, fechar o plano de reestruturação e a respetiva capitalização, para permitir que a CGD passe para uma nova vida.

 

 

As escolhas

Brexit, sim ou não? É muito mais do que isto. No próximo dia 23, os ingleses vão referendar a permanência na União Europeia, já com um acordo único nas mãos que lhes permite ser ‘um diferente entre 28 supostamente iguais’. David Cameron fez uma jogada tão arriscada como irresponsável, estará hoje arrependido da decisão de marcar um referendo que servia, sobretudo, para ganhar as eleições e mostrar ao eleitorado que era um primeiro-ministro suficientemente cético em relação à União Europeia. A semana começou em alta nos mercados – como se lê em www.negocios.pt – com a expetativa de uma vitória do ‘sim’, mas as sondagens mostram que o país está dividido ao meio e qualquer que venha a ser o resultado – ‘voto’ no sim -, a União Europeia não será a mesma. E não é nada garantido que venha a ser melhor.

 

Tenham uma boa semana e, claro, Portugal allez

 

 

 

publicado às 10:21

O meu Euro é uma foto da Albânia

Por: Márcio Alves Candoso

 

Qual das duas melhores exportações da Madeira é a imagem mais adequada para Portugal? A pequena mas doce banana ou o grande e por vezes amargo Cristiano Ronaldo? O anúncio protagonizado por Dolores Aveiro, mãe do ‘melhor jogador do mundo’, faz-nos encarar um dilema. Mãe é mãe, e mesmo publicitária não tem dúvidas. Para ela é o seu ‘menine’, naquele foneticamente intransponível sotaque que, um dia, fez Herman José confessar os seus limites como imitador. Para nós… bem, tamanho – dizem – não é documento. Mais vale ser doce…

Só há 23 países no mundo com mais habitantes do que seguidores tem Cristiano no Facebook. Se a estes 60 milhões juntarmos os 15 do Twitter, então o número baixa para 18. Há mais ‘ronaldistas’ na rede do que franceses no planeta. Para quem não gosta de futebol, estas coisas deveriam fazer pensar.

 

Um dia, conheci um guarda-redes da Sanjoanense que tinha defendido um penalty de Eusébio. O homem tinha uma vida vulgar, mas haveria de levar para o túmulo – não sei o que é feito dele - um feito de que poucos se podem gabar. A partir de ontem, o poste direito da uma das balizas do ‘Parque dos Príncipes’, nessa segunda maior cidade portuguesa que é Paris, pode orgulhar-se de feito à altura do ’sapateiro’. Cristiano Ronaldo falha um penalty cada três anos. Aproveitou ontem para manter a regularidade…

 

Na noite quase de Verão que ontem apareceu por Lisboa, dizia a Isabel Tavares, minha querida camarada e novel colaboradora do ‘Sapo’, que não valia a pena escrever mais nada no FB, porque o melhor ‘poste’ tinha sido o do Ronaldo. Triste fado o da selecção portuguesa - atacámos como se não houvesse amanhã, e marcámos zero golos. Nem Quaresma de pés trocados – não há outro no mundo igual a ele, e acreditem que isto não é propaganda de cigano de feira - nem Nani de língua de fora nos valeram.

 

Mas talvez esteja na hora de mudar de fado. Kátia Aveiro, nascida Cátia Liliana, irmã do meio de Cristiano, e que começou sua carreira no ’music-hall’ como Ronalda, dá-nos hoje em dia uma visão muito diferente, e mais alegre, do que a triste melodia que carregamos em choro e mágoa, devaneio e realidade, silêncio, sombra e saudade, almas vencidas, noites perdidas, sombras bizarras.

 

O seu maior êxito proclama que ‘tu és a loucura que me faz vibrar/meu coração faz bum, bum sem parar’. É disto que a selecção precisa – um bater de corações, eventualmente apaixonado não pela Kátia mas por uma bandeira, um povo e um hino. Não vale a pena pedir menos a quem se propôs ser campeão da Europa.

 

Depois do jogo com a Áustria, estive a ver a actuação de Kátia no proverbial comício do PSD no Chão da Lagoa, e garanto-vos que pede meças e contornos roliços às melhores fintas do irmão mais novo. Com a vantagem, para apreciadores, de que a mini-saia é mais curta que os calções que a ‘Nike’ propôs à nossa selecção. Tenho para mim, aliás, que esta nova moda dos calções compridos afasta as senhoras das bancadas dos estádios e da televisão. Um assunto a rever…

 

Mas era suposto eu estar a falar de futebol. Opto pelos fãs, sem os quais não há 4-3-3 que resista. E os melhores do mundo são, com vossa licença, os irlandeses, que aliás, com grande pena minha, se arriscam a fazer as malas já no próximo jogo.

Faz-me confusão porque é que aquela gente se embebeda tanto ou mais que os ingleses, e em vez de distúrbios cantam o ‘Chiquitita’ dos ABBA com os seus opositores suecos. Deitam-se no chão às dezenas e o filme é passarem as pessoas aos semi-apalpões por cima deles. Toda a gente se ri. E fazem uma serenata a uma freira. E têm um cartaz, no tal jogo com a Suécia, em que convidam os fãs do adversário a ‘go back to your sexy wives’. Tem piada, só não sei se as irlandesas gostaram. Quantas Maureen O’Hara ainda há na ilha verde?

 

Enquanto isso, os russos arriscam-se a ser expulsos ainda antes de a sua frágil selecção ser eliminada, os ingleses fazem o que é costume – merda – e os croatas, turcos e albaneses estão na mira dessa impoluta agremiação que dá pelo nome de UEFA. Tudo jóia, se não fosse a vaca da Itália, que não joga uma pevide, mas ganha.

 

Voltando à história pátria, há coisas que não percebo. Estive a ver, todos ou quase todos os dias, os inquéritos da RTP aos tele-espetadores - segundo o acordo ortográfico, são os tipos que se espetam à frente da pantalha e que não a largam – e apontei os resultados. Seja a pergunta ‘Portugal vai ficar em 1ºlugar no Grupo F’, ‘Ronaldo é o melhor jogador dos últimos 20 anos’, ‘a actual selecção é melhor do que a de 2014’ ou ‘William Carvalho deve substituir Danilo’, o resultado é sempre o mesmo. Portalegre vota ao contrário do resto do País, às vezes acompanhado por Viseu e Évora. Não sei o que se passa com a interioridade, mas isto dava uma tese de Sociologia no ISCTE, eventualmente tutelada pelo Francisco José Viegas.

 

A verdade é que temos que ganhar aos húngaros. Até agora, o fado dos empates tem sido a sina que nos tolhe. A culpa, como dizia a minha amiga Magda Santos, é do ‘profeta’ Abrunhosa. ‘Tudo o que eu te dou, tu me dás a mim’, é a perfeita definição de um empate. Eu sempre disse que a canção, a ser uma do rapaz dos óculos, devia ser o ‘Talvez f.’, que bem traduzida para ouvidos austríacos haveria de lhes soar diferente da ‘Música no Coração’. Uma canção de amor não faz mossa. ‘Que mais te posso dar’? Quinze a zero, no mínimo, já lá dizia o grande Ricardo Araújo Pereira!

 

No entanto, está tudo em aberto. A esperança é a última a morrer. São onze para cada lado, se o árbitro não for italiano, e a bola é redonda. Prognósticos só no fim do jogo. Falho de mais lugares-comuns, vou contar uma história.

 

Eu já fui treinador de futebol. É verdade, tinha nove anos. O meu Pai tinha-me dado uma bola, o que me permitia ter alguma relevância no meio da rapaziada da 4ª classe da escola primária de Moncorvo. Torto de ambos os pés desde tenra idade, a única hipótese que tinha de jogar à bola era ser dono dela. Mas eu sempre gostei de ganhar e, graças a Deus, sempre tive a noção das minhas limitações.

 

Vai daí, fui ler um livro de táctica – acho que era do Heleno Herrera – que havia lá na biblioteca moncorvina. Os putos ranhosos, descalços ou aburguesados que me acompanhavam na escola, não tinham grande respeito por mim, no que concerne a andar à porrada, mas sabiam da minha enorme superioridade intelectual. O que, diga-se de passagem, em Trás-os-Montes nos anos 60 não era lá muito boa qualidade para ser chefe da malta. Mas convenci-os à custa de lábia – é assim que um gajo fraco e feio conquista, primeiro os miúdos e depois o resto…

 

Lembro-me dos nomes deles. Grandes craques, até ganhámos à 5ªclasse. O Meireles na baliza, como o pai dele também era nos seniores do Moncorvo. Nas laterais o Orlando, que era canhoto e rápido, e o Gomes, com um olho sempre no contra-ataque. No meio da defesa o Reis e o Teixeira, ou então o Olímpio, que era muito burro mas enorme; contava que lhe tinha caído um raio em cima, lá na quinta da Vilariça onde a família trabalhava, e que a partir daí tinha ficado taralhouco.

 

No meio-campo era o Artur, que depois viria a jogar a sério, e que era dos poucos que olhava para cima ao mesmo tempo que dominava a bola. A seu lado tinha o Mesquita, que não gostava de perder nem a feijões, e o Norberto que corria como Deus o dava pela extrema direita. Na frente, o Nélson Choça era uma espécie de Nené – nunca sujava os calções mas estava sempre à mama. O goleador por excelência. O Amândio era o distribuidor de jogo e eu, coitado, ficava para as dobras quando não havia mais ninguém.

 

Miúdos valentes. Lembro-me de dar uma sandes ao Norberto, o meu protegido, e a minha Mãe achar que eu era um alarve, porque chegava a casa cheio de fome. E do Branquinho, que não tinha sapatos e fugiu da escola na terceira classe para França, com o pai. E do Biló, que tinha como mãe uma senhora que não lhe sabia dizer quem era o pai. E do Salazar, que morreu de tuberculose ainda não tinha feito vinte anos. Coisas de antigamente.

 

Isto de jornalismo está pelas ruas da amargura. Só agora reparei que desleixei o título que dei a este texto. Então é assim: a foto mais partilhada, até agora, do Euro 2016, é a de duas albanesas bem nutridas e simpáticas, que fazem com as mãos o voo da águia que está na bandeira do seu país. Os homens, principais utilizadores desta coisa linda que se chama futebol, de vez em quando reparam no que é realmente importante.

publicado às 17:59

O passado é sempre imprevisível

Por: Rute Sousa Vasco

Só mesmo os desatentos podem pensar que afinal está tudo na mesma. Nesta segunda-feira, dia 13 de junho, Espanha assistiu ao debate entre os quatro principais candidatos às eleições de 26 de junho. Rajoy, Sánchez, Rivera e Iglesias. Um debate que contou com uma audiência de 10 milhões de pessoas e que, de acordo com os analistas, se tornou tanto mais relevante quanto maior é percentagem de indecisos, 32,4%, segundo o El Pais.

 

O debate visto pelos olhos de uma portuguesa, esta portuguesa, teve várias notas dignas de registo.

 

A primeira, mesmo que seja do timbre espanhol, é a capacidade de chamar os bois pelos nomes e de não temer o confronto. Assim se ouviu, a título de exemplo, que Rajoy, líder do PP, enviou SMS de conforto ao tesoureiro do seu partido, figura central numa investigação de financiamentos ilegais e alegado detentor de contas paralelas de milhões de euros em bancos na Suíça; assim se ouviu que Iglesias, líder do Podemos e crítico do enfeudamento dos partidos à banca, obteve financiamento da Venezuela de Hugo Chávez. As palavras são ditas, sílaba a sílaba. A indignação, que tão precioso apanágio é da classe política, manifesta-se, mas fica dito e registado.

 

A segunda nota é a forma como os números se tornaram a mais potente arma de arremesso. Foi um debate cheio de números: do défice, do desemprego, das pensões, do investimento. Todos os candidatos os tinham e todos os manejaram a seu bel-proveito. É evidente a forma como estes anos da crise europeia nos afectaram a todos – e Espanha, mesmo sem troika, não é excepção. Hoje é fundamental fazer a pergunta: como quero que seja usado o dinheiro dos meus impostos? Os cidadãos estão, finalmente, a perceber que o dinheiro do Estado é o seu dinheiro e que por isso não só têm uma palavra a dizer como contas a pedir a quem gere. A parte perigosa desta evolução de cidadania é o seu excesso, nomeadamente nas mãos de políticos e gabinetes experientes na arte do excel. Um número em si mesmo não contém uma verdade absoluta. Muitos números jogados para cima das pessoas podem simplesmente tornar qualquer verdade invisível.

 

A terceira nota é a naturalidade com que Espanha já assimilou uma efectiva mudança de moldura política. No debate a quatro estiveram dois nomes impensáveis há cinco anos: Rivera, dos Ciudadanos, e Iglesias, do Podemos. Lado a lado com os líderes vamos chamar-lhes clássicos, Rajoy, pelo PP, e Pedro Sánchez, pelo PSOE. Não foi por acaso que alguns dos momentos mais agudos do debate foram protagonizados, respectivamente, por Rajoy/Rivera e Sánchez/Iglesias. Em Espanha, não se discute apenas uma eleição. Discute-se a evolução da espécie – lá como, aliás, no resto do mundo.

 

De resto, a vida em Espanha sigue corriendo. A noite de Madrid continua animada, o Museu do Prado tem polícias armados com metralhadoras à porta e, mesmo nos hóteis mais estrelados, continua a ser difícil encontrar espanhóis a falar inglês (aliás, esta é uma proposta de Pedro Sanchez, o ensino obrigatório do inglês … Espanha, em 2016). É também a Espanha que ao sábado e domingo continua a ter jornais que fazem justiça ao ideário de ‘leitura de fim de semana’. Sabe bem um café prolongado com muitas páginas para desfolhar num El Pais ou El Mundo, mesmo que seja só ao fim de semana.

 

Há cinco anos, a Porta do Sol em Madrid era um acampamento de Indignados. O Podemos nasceu deste movimento. Há uma semana, alguma Espanha, nomeadamente a mais conservadora, indignava-se porque o líder do Podemos decidira reintroduzir a palavra ‘pátria’ no debate politico (com o slogan La patria eres tú). De quem é a pátria afinal, nestes tempos perigosos, em que voltamos a debater conceitos que são velhos conhecidos e nem sempre por boas razões?

 

Muitos diziam que nada ia mudar, tudo iria passar. Cinco anos é muito pouco tempo. Mas quando se olha para trás e se recordam algumas análises, é tentador recordar que não só a História é escrita pelos vencedores, como, para quem pode impor a ‘sua’ História, o passado é sempre imprevisível – ou pode ser aquilo que se quiser.

  

Tenham um bom fim de semana

  

Outras sugestões de leitura:

 

Por estes dias e até setembro, ir a Madrid e não ver a exposição dos 500 anos de Bosch no Museu do Prado é como ir a Roma e não ver o Papa. Recomenda-se a exposição, atenção às marcações prévias (é boa ideia fazê-las) e já agora fiquem também com um texto de opinião que fala do PSOE e do Jardim das Delícias.

 

Menos jornalistas, mais redes sociais, menos receita, mais bloqueadores de publicidade. Como estamos a consumir as notícias, que regras aceitamos por boas, como se paga a informação, são algumas das questões fundamentais no sector dos media hoje. A ler o último relatório do Reuters Institute.

publicado às 11:47

O vizinho do lado

Por: Pedro Rolo Duarte

É de uma enorme presunção auto-citar-me, bem sei - mas depois do massacre de Orlando, no fim de semana passado, tornou-se irresistível. Escrevi neste mesmo espaço, há oito dias: “O Ocidente receia o Estado Islâmico, o fundamentalismo, a loucura que não poupa nada nem ninguém, que não olha a meios para atingir fins - e que, acima de tudo, tem conseguido quase sempre surpreender nos momentos menos esperados, nos lugares mais improváveis.

 

Nessa medida, o mais provável é que o Campeonato Europeu de Futebol decorra com normalidade, sem ataques, sem ameaças, sem mácula. Mas o objectivo fundamental do terrorismo islâmico já está mais do que conseguido: incutir em todos nós a semente do medo, o culto de prevenção, e a tranquila aceitação de políticas violadoras da nossa privacidade, e da nossa liberdade de movimentos, em nome da segurança, em nome da paz”.

 

Infelizmente, tive razão. Mas bem pior do que isso, irrelevante face à dimensão dos acontecimentos, é perceber que nesta guerra surda entre nós e “eles”, nem é preciso organização ou estrutura: qualquer ser, nem me atrevo a chamar-lhe humano, pode ter a iniciativa de se armar e atirar a matar, seja pela causa (que provavelmente nem sabe bem qual é…), seja por pura homofobia, racismo ou loucura. E nunca tardam 24 horas até que o denominado estado islâmico venha reclamar os louros.

 

É mais grave do que há oito dias escrevi. É um caos imprevisível e incontrolável, impossível de prevenir ou detectar. Como um vírus, dissemina-se sem que se veja, é aproveitado por quem tem algo a ganhar com isso - e é improvável que venhamos a saber se tem algum fundamento organizado ou sequer uma vaga ideologia, religião, causa, que justifique o massacre. Entrámos no reino da loucura - e neste quadro, aproveita quem quer e pode, e sofre quem não tem sequer forma de se defender.

 

O atentado, massacre, carnificina, como queiram chamar-lhe, de Orlando, é talvez a mais grave ameaça à cultura ocidental desde há muitos anos. Porque passa ao lado de organizações, estruturas, planos de ataque, terrorismo organizado. Resulta apenas da vontade de um homem, influenciado por essa sombra escura, religiosa, cultural, social, que paira sobre nós permanentemente. Durante muito tempo, chamámos-lhe fundamentalismo religioso, que desembocava em terrorismo - o que pressupõe organização e planificação.

 

Agora, temos de lhe arranjar outro nome. Porque passou a ser a ameaça do vizinho do lado, onde se confundem e misturam preconceitos, credos, psicoses. E já ninguém põe as mãos no fogo pelo vizinho do lado.

 

Para ler na rede por estes dias…

 

Nada como ir à fonte quando o tema é quente: a cobertura do jornal New York Times sobre o atentado de Orlando, que vitimou mais de 50 pessoas e se tornou no maior massacre em solo americano desde o 11 de Setembro, tem sido exemplar. No rigor, no cuidado com a especulação, na actualização permanente. Um exemplo, de que os assinantes usufruem totalmente, mas os visitantes também podem acompanhar.

 

De hoje a oito dias, a Grã-Bretanha vai às urnas, em referendo, decidir se quer ou não permanecer na União Europeia, num processo a que se chamou, para facilitar a linguagem, “Brexit”. Para quem ainda tem dúvidas sobre o que está em causa, esta página da BBC põe tudo em pratos limpos. Vale a pena.

  

No dia 26 de Junho, a Espanha tenta, pela segunda vez este ano, encontrar estabilidade governativa, entre os novos partidos que agregaram a indignação e a contestação gerais, e os velhos partidos que andam aos papéis, a tentar recuperar o espaço perdido. Ainda que seja claramente apoiante do PSOE, o diário El Pais tem feito uma cobertura mais clara, explicativa e inteligente do que os seus concorrentes. Fica a minha sugestão.

 

 

 

 

publicado às 11:03

Não há dinheiro para as pensões mas há dinheiro para a banca?

Por: Paulo Ferreira

 

Uma boa parte da esquerda está agora, com esta experiência de governo, a perder a virgindade nas difíceis opções da governação. Só não perdem a inocência porque esta nunca a tiveram.

 

Este ano a pensão social do regime não contributivo foi aumentada em 0,81 euros, para 202,34 euros. Já o complemento extraordinário de solidariedade subiu sete cêntimos, para 17,61 euros, para quem tem menos de 70 anos, e 14 cêntimos, para 35,20, para os que têm mais de 70 anos.

 

 

Paralelamente, a administração da Caixa Geral de Depósitos vai passar de 14 para 19 membros e, com as alterações que estão a ser preparadas, deverá passar a custar mais 70%. Com o fim do tecto salarial no banco do Estado, o novo presidente, António Domingues, poderá passar a ganhar na ordem dos 46 mil euros por mês - tanto quanto ganhou, em média, no BPI nos últimos três anos. O presidente cessante, José de Matos, ganha 16 mil euros por mês.

 

Está também a ser preparada uma capitalização da instituição na ordem dos 4.000 milhões de euros. Uma boa parte deste montante é para fazer face a perdas na concessão de crédito e a operações como a que financiou Joe Berardo em cerca de 600 milhões de euros para comprar acções do BCP, na década passada.

 

E estamos no meio de uma polémica com a redução do âmbito dos contratos de associação com escolas privadas onde o Estado prevê poupar 30 milhões de euros.

 

Sim, estes argumentos são altamente demagógicos. Colocar estes dados uns ao lado dos outros, comparando-os, é populismo em estado puro. Pessoalmente, até concordo com algumas destas opções do governo. Defendo que o Estado deve pagar bem se quer contratar os melhores para gerir os seus activos. Deve pagar bem e deve fazer depois uma avaliação criteriosa dos resultados desses gestores. E também concordo - já o escrevi - com o príncipio de não duplicar custos a financiar ensino privado se a rede pública tiver capacidade instalada para acolher mais alunos e isso for mais barato para os contribuintes.

 

Satisfeitos estes critérios, não discordo das opções para a liderença da Caixa nem dos cortes no financiamento de turmas em escolas privadas.

 

Se coloquei estes dados lado a lado foi para mostrar como uma boa parte da esquerda está agora a provar do seu próprio veneno. Nada como uma experiência de governo para perceber que as opções nem sempre são fáceis e que não é bom quando nos vemos ao espelho da demagogia. Não há dinheiro para aumentar decentemente as pensões de miséria. Mas há para equipas de luxo no banco do Estado. Não há dinheiro para a educação das nossas crianças. Mas há para acorrer a perdas que esse banco do Estado teve a financiar negócios privados que correram mal e que agora são pagos pelo contribuinte. Tão fácil de dizer, tão bom efeito que estas frases têm. E tão demagógico.

 

Uma boa parte da esquerda está agora, com esta experiência de governo, a perder a virgindade nas difíceis opções da governação. Só não perdem a inocência porque esta nunca a tiveram. Lá no fundo, quando passaram os últimos anos ou décadas a argumentar desta maneira, sabiam que estavam a ser tudo menos inocentes. Mas nem por isso deixaram de o fazer, com a plena consciência do que faziam.

 

O PCP diz que o aumento dos gestores da Caixa “é inaceitável”. Mas lá terá que aceitar.

 

O Bloco de Esquerda “estranha” esse aumento. Mas, como Pessoa disse da Coca-Cola, primeiro estranha-se, depois entranha-se. É uma questão de hábito.

 

Também o PS, sempre de palavra fácil a denunciar injustiças sociais e a prometer que nem mais um tostão iria para a banca, está a caminho de uma média de cerca de mil milhões de euros por mês de governação para acorrer ao sector financeiro (Banif+CGD). E é ouvir agora o PS a defender o aumento de remunerações na administração do banco com o argumento dos “valores de mercado”. Claro, sabemos como é: “you pay peanuts, you get monkeys”. Só descobriram agora?

 

Sapos engolidos, todos dariam um enorme contributo ao pobre funcionamento das nossas instituições se promovessem uma verdadeira auditoria independente à gestão da Caixa no passado. Que abrangesse a última década e meia, por exemplo. Um período em que tivemos governos de vários partidos, várias administrações com vários formatos, uma época pré-crise e outra de crise. Para perceber o que foi feito, por quem, com que objectivos, com que méritos e com que falhas. E tirando consequências legais ou criminais, se as houvesse.

 

Podia ser uma espécie de colocação dos contadores a zero, antes deste novo ciclo. Mas as instituições são fracas, os telhados de vidro são muitos e o regime funciona muito na lógica de “uma mão lava a outra”.

 

Com a generalidade da esquerda agora também integrada no arco da governação e a ser cúmplice destes branqueamentos do passado não há esperança de que alguma coisa mude. Para mal dos nossos pecados.

 

Outras leituras

 

 

  • Diz um estudo da Reuters: "uma segunda onda de disrupção abateu-se sobre as organizações noticiosas a nível mundial, com consequências potencialmente profundas, tanto para os editores como para o futuro da produção jornalística”. Nada que não saibamos já: metade de nós já acede às notícias através das redes sociais. A crise dos media segue dentro de momentos.

 

publicado às 01:30

O que leva a tanto ódio?

Por: Francisco Sena Santos

 

O que é que leva a tanto ódio? Que tempestade de raivas e frustrações pode desestruturar a cabeça de uma criatura ao ponto de a levar a matar a sangue-frio 50 pessoas e ferir outras tantas num tiroteio continuado ao longo de duas horas de atrocidade que teve por alvo minorias sexuais e étnicas? O que é que está a derrapar numa sociedade para suscitar uma tão brutal intolerância? Como é que um homem de 29 anos, desequilibrado homófobo e, supõe-se, militante jiadista auto-radicalizado, pode ter, como teve este matador, acesso fácil a armas de fogo assim letais? O que é que se passa com o sofisticado sistema de informações do FBI para, embora tendo aquela criatura no seu radar, não ter sabido parar a tempo alguém que é um inimigo assim tão perigoso? O que é que se sobrepõe à vontade de um presidente como Obama que o impede de, apesar de sucessivas terríveis matanças, com potencial contagioso, fazer impor um controlo eficaz à venda e posse de armas de fogo? Que papel poderão ter os media nesta tragédia americana? Que efeito poderá ter a carnificina de Orlando na eleição presidencial nos Estados Unidos? São tantas as perguntas, estas e muitas outras, e a tantas faltam respostas claras.

 

Na discoteca Pulse de Orlando, nos EUA, como há sete meses no Bataclan de Paris, as vítimas são pessoas que amam a vida. Foram condenadas à morte, pelos demónios que tomaram conta da cabeça de gente perturbada e infetada por uma onda de ódio que anda no ar. Morreram pelo crime de viverem a vida com paixão. Em Paris, um bando de terroristas movidos pelo fanatismo político-religioso, quis castigar quem se diverte, se diverte a sorrir, a cantar e a dançar a ouvir música. Em Orlando, um desequilibrado motivado por um confuso misto de ideologia religiosa e preconceito, atacou os que se divertem assumindo com orgulho que são homossexuais. O pai do matador conta que ele tinha ficado enfurecido ao ver dois homens a beijarem-se com carinho.

 

A diversidade é uma característica da nossa sociedade ocidental que cresceu capaz de se tornar liberal sobre as escolhas de cada pessoa. A tolerância é um modo fundamental de estar na sociedade que foi construída para nós. Uma mulher com véu, duas mulheres ou dois homens de mãos dadas e que se beijam na boca é uma liberdade que faz parte do modo de vida nesta nossa sociedade ocidental de liberdade. Alguns ainda podem sentir incómodo ao verem o que poderia ser apenas privado, mas o costume tende a tornar-se banal. É um assunto de cada pessoa, livremente. Mas há sociedades, com interpretações retorcidas de religião e ideologia, que ainda vivem num tempo passado em que essa liberdade é tomada como heresia.

 

A chacina deste último fim de semana nos EUA junta três ingredientes que são feridas abertas na sociedade americana: terrorismo, homofobia e posse indiscriminada de armas de fogo. Todos os políticos, quase toda a gente, expressa nestes dias horror pela matança.  Não falta hipocrisia nessa condenação.  

 

Muitos dos que lastimam são os mesmos que bloqueiam qualquer tentativa de controlo da posse e uso de armas de fogo – num país onde qualquer um consegue comprar e ter licença de porte de pistola ou espingarda, o que leva a que, em média, cada americano tenha consigo uma arma letal. São mais de 300 milhões. Supostamente, os americanos possuem armas para se protegerem, mas de facto são dos mais desprotegidos no mundo: no que vai de ano, até ontem, estavam registados nos EUA 5.931 mortos em casos com armas de fogo.

 

Ao mesmo tempo, muitos dos que agora condenam mais esta matança são os mesmos que apoiam uma plataforma política que propaga o clima de medo e ódio anti-islâmico e anti-gay que progride nos EUA e que são combustível para perturbados lobos solitários como o matador na discoteca Pulse de Orlando.

 

A tragédia de Orlando é um crime praticado por um perturbado que se deixou tomar pelo ódio homofóbico e pelo clima de hostilidade que está instalado na América em campanha. A consumação do crime foi facilitada pela legislação americana que permite que uma criatura vulnerável tenha acesso a máquinas de guerra como esta idêntica à que serviu para matar 14 pessoas em San Bernardino (dezembro de 2015), também para matar 26 pessoas na escola de Sandy Hook e 12 num cinema de Aurora (estes dois massacres em 2012). Agora, mais 49 na matança homofóbica em Orlando.

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

O único debate entre todos os que podem vir a entrar para o governo de Espanha mostrou um derrotado (Pedro Sanchez) e nenhum vencedor. É facto que quem resiste (Mariano Rajoy) pode safar-se, mas não será fácil. Será que as eleições de 26 de junho não vão servir para resolver o governo de Espanha?

 

As sondagens britânicas estão a apontar cada vez mais para o divórcio. Faltam nove dias para o referendo.

 

A Espanha perde para Itália o título anual de melhor restaurante do mundo nos óscares da gastronomia: a Osteria Francescana, em Modena, arrebata o topo do pódio ao catalão Celler de Can Roca.

 

Hoje é um dia para a seleção portuguesa de futebol e o talento de Cristiano Ronaldo mas não apenas o dele.

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta e esta.

 

 

publicado às 09:33

A estranha mania das armas

Por: José Couto Nogueira

 

É inegável, o bicho Homem gosta de armas. Mesmo quando não precisa nem tem uma boa desculpa para as guardar em casa ou trazer a tiracolo. Na Suécia, um pais civilizado e pacífico, 31,8 por cento das famílias tem pelo menos uma arma. Dito de uma maneira mais contundente, um terço da população sueca tem a possibilidade de dar uns tiros nos outros dois terços. Na Finlândia, mesmo ali ao lado em geografia, civilização e paz, um cidadão só pode ter um máximo de cinco armas, mas 12,8 por cento têm-nas.

 

Na verdade, os países que consideramos mais pacatos e menos temperamentais, são aqueles em que a posse de armas é mais livre. Na Suíça, que não entra em guerra desde o século XVI e teve as últimas escaramuças civis em 1802, todos os homens em idade militar têm uma arma de guerra em casa e 29% possuem uma licença adicional de porte.

 

Mas também há países que não relacionamos habitualmente com desenvolvimento e boas maneiras onde o armamento é deixado ao critério de cada um. No Panamá não há quaisquer restrições de porte, à vista ou debaixo do casaco, assim como em Timor, que tem mais restrições no que toca ao casaco.

 

Mesmo países médios, digamos assim, isto é, considerados normais numa escala ambígua de progresso e bom senso civil, o desnecessário porte ou posse de armas é bastante liberal. A França, por exemplo, ou o Canadá, onde 23,8 por cento dos lares estão defendidos.

 

Toda esta conversa para chegar ao cerne da questão: o problema das armas não são as armas, é a cultura que as carrega. Isto porque ainda ontem, na Florida, um maluco arranjou umas desculpas para matar cinquenta pessoas e ferir outras cinquenta, e lá veio o coro habitual sobre a tara norte-americana de andar toda a gente armada. Pois claro, um país onde qualquer um pode comprar uma metralhadora ou um lança granadas, têm de acontecer estas coisas – e acontecem, num ritmo alucinante. Para não mencionar os tiroteios diários, a violência policial, as polícias de choque que andam em carros blindados e com protecção pessoal igual à do Afeganistão. Ou o facto da população encarcerada ser a maior do mundo, em termos percentuais.

 

Por acaso ninguém se lembra dos países estatisticamente mais perigosos da face da terra, como a Federação Russa, o Paquistão, Brasil, ou El Salvador (não forçosamente por esta ordem).

 

Veja-se qual a situação legal nos Estados Unidos. O porte de arma é permitido pela Segunda Emenda da Constituição, que data de 1791. Filosoficamente, faz parte do conceito individualista de que qualquer homem tem direito a possuir o que quiser, incluindo armas para se defender. Historicamente, tem a ver com a luta pela independência contra os ingleses e a conquista de território aos donos anteriores, os índios. Os tempos mudaram, já não há colonialistas em ingleses a vencer, porque desistiram, nem indígenas a abater, porque ou morreram ou se aculturaram. Mas o princípio ficou e não são só os malditos fabricantes de armamento que o defendem; são também os cidadãos, como o provam incontáveis sondagens e eleições de governantes pró-armas. Dos 50 Estados norte-americanos, 30 permitem porte de arma (escondida) e quatro não têm restrições à compra: Arizona, Geórgia, Kentucky e Wyoming. Em apenas três, há grandes restrições: California, Connecticut e New York. Até 1934, a legislação nem separava as armas automáticas (vulgo metralhadoras) das outras. A partir de 1986, uma lei assinada por Reagan proíbe a venda de automáticas, mas permite as semi-automáticas (aquelas que é preciso apertar no gatilho a cada tiro, mas não é preciso armar a culatra). Contudo são legais os calibres que nós aqui consideramos de guerra (7.62mm e 9mm). Um tiro de 9mm derruba um homem só pelo impacto a um quilómetro de distância.

 

O argumento a favor de andar toda a gente armada é sobejamente conhecido e apregoado pelos seus defensores e pelo lóbi dos fabricantes: se for difícil ou quase impossível os homens de bem comprar uma arma, as armas ficam todas nas mãos dos bandidos, que não terão problema em encontrá-las. Quando foi o massacre na escola de Sandy Hook, a NRA (National Rifle Association) afirmou que a solução era os professores terem pistolas nas aulas, para proteger os alunos. É possível imaginar um maior contra-senso?

 

O Presidente Obama, que é contra as armas, tentou duas leis restritivas; na primeira, obrigava o comprador a identificar-se e apresentar registo criminal; na segunda, tornava obrigatório um dispositivo electrónico com o qual a arma reconhecia o dono, isto é, só disparava se fosse ele a premir o gatilho. Nenhum das leis passou no Congresso, para alegria geral dos mais de 200 milhões de americanos que se calcula que têm armas – no país das estatísticas, esta não existe... mas sabe-se que há 317 milhões de habitantes e 357 milhões de armas.

 

Todavia não é o número de armas nem a facilidade em obtê-las que dá aos Estados Unidos esta reputação de violência. É, em grande parte, o factor mediático; morre um miúdo abatido pela polícia em Pleasantville e a notícia sai no mundo inteiro, enquanto são assassinadas 160 pessoas por dia no Brasil ou mais ainda na Nigéria e nem chega aos noticiários nacionais. Por outro lado, é o motivo. As mortes no Brasil ou na Nigéria tem motivos tipificados: assalto, vingança. Nos Estados Unidos a maioria das mortes só encontram razões do foro patológico. O “lone wolf” (atirador solitário) que sobe à torre da igreja para atirar a eito para a praça, ou o “serial killer” são fenómenos tipicamente norte-americanos, nunca vistos na Suíça ou na Suécia. Do mesmo modo que, por exemplo, a violação de menores na maioria dos países ocorre entre pessoas que se cruzaram por acaso, e em Portugal acontece dentro do círculo familiar. Cada cultura tem os seus demónios próprios, os seus infernos profundos.

 

Do mesmo modo, todo o planeta sabe quem é Omar Mateen, o americano descendente de afegãos que se deu ao trabalho de percorrer 200km para matar 50 inocentes em Orlando, mas ninguém conhece, ou quer saber quem foi, o bombista suicida que no mesmo dia fez explodir mais de 100 inocentes em Bagdade. Omar tinha as suas desprezíveis razões, todas misturadas numa amálgama maldita: radicalismo religioso, homofobia, frustração pessoal, fanatismo místico. E, também, o tal factor cultural do país onde nasceu.

 

Conclusão? Não há conclusões. As armas não vão acabar, nem nunca será difícil obtê-las. O Homem, também parece que não muda. Mata porque acredita em algo superior ou, pior ainda, porque não acredita em si próprio.

 

 

 

publicado às 08:25

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