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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Abaixo a carne, o sexismo e o capitalismo

Por: Márcio Alves Candoso

 

O mote é a ‘Abolição dos Matadouros’. Mas o movimento, que existe em vários países desde 2012 e que agora chega a Portugal, é muito mais do que isso. Trata-se de uma verdadeira plataforma conservacionista e abolicionista do consumo de carne, que proclama, entre outras necessidades do meio ambiente, a ‘redução da população humana no planeta, através do incentivo do Estado ao aborto e do fomento do casamento gay que não procria’. 

 

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São perto de uma centena, os manifestantes que pelas quatro e meia em ponto da tarde de sábado, dia 4 de junho, se juntam em frente ao Campo Pequeno, palco de outras lutas (anti-touradas), que têm tudo a ver com a que agora se inicia. Representam várias sensibilidades da defesa dos animais, e saem pouco depois das cinco horas – a hora, por excelência, da tourada – rumo à Assembleia da República. A polícia, em número razoável no local, tem a vida facilitada. Não há qualquer espécie de anti-manifestação.

 

Explicam o que são. Anti-carnistas – ou seja, pela abolição do consumo de carne – e anti-especistas – que o mesmo é dizer, contra a supremacia do ‘animal-humano’ sobre os outros. Mas reivindicam-se, se não todos pelo menos uma boa parte, de irmandades várias, que vão desde a ‘imposição coerciva do veganismo através da força legal do Estado’, até outras lutas que consideram como definidoras do ‘progresso da humanidade’, onde esta se insere, a saber: ‘o aborto livre pago pelo Estado, o casamento gay, a adopção de crianças por pares de invertidos (sic], a procriação medicamente assistida para toda a gente, a legalização das ‘barrigas de aluguer’ e a legalização da eutanásia’. ‘Chegou o momento dialéctico de avançarmos na nossa luta pelo progresso da humanidade’, lê-se no manifesto que convoca a manifestação de hoje à tarde. E esse é o da abolição de matadouros.

 

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Quisémos saber se, ao falarem de matadouros, deixavam de fora a criação particular – vulgarmente, o galinheiro da aldeia, ou mesmo a caça. ‘Podemos ter alguma compreensão pela falta de informação dessas pessoas, mas o movimento é totalmente abolicionista do carnismo, que é uma forma de opressão ligada ao sexismo e ao capitalismo’, diz-nos Beatriz Costa, da organização da manifestação. No entanto, há uma vertente que reprova, de forma mais dura, a ‘exploração agro-industrial tipicamente capitalista’.

 

Depois de deambular por grupos maioritariamente jovens e – digamos – com aspecto alternativo, juntamo-nos ao único pequeno grupo passível de se identificar com a razoável profusão de cabelos brancos do jornalista. Sérgio é veganista completo há apenas ano e meio, mas antes já foi macrobiótico. ‘Comia peixe, ovos, mas depois deixei’, refere. Um outro manifestante – não identificado – revela-se asmático desde nascença, mas tem estado muito melhor desde que deixou ‘suplementos alimentares e qualquer fonte de proteína animal, incluindo o leite, que faz um mal terrível’. ’Então em Portugal, onde uma couve tem muito mais cálcio que o leite, isso não é preciso para nada’, sustenta. Teme pelo esqueleto das galinhas, ‘obrigadas a pôr muito mais ovos do que é natural, e que com isso perdem cálcio’

 

Outros manifestantes alertam para as ‘más condições’ em que vivem os animais de abate. Mas confrontados, pelo jornalista, com o touro bravo que tem uma qualidade de vida muito superior à dos animais de criação, logo referem que a luta ‘não é só contra as más condições, mas sim pelo abolicionismo’.

 

Por outro lado, não são só os seres humanos que devem ser em muito menor número. Também os porcos e os bovinos, por exemplo. ‘Há muita poluição criada pelos animais de abate, e se deixarmos de comer carne eles serão muito menos; os restantes poderão ficar em reservas para animais selvagens, como acontece actualmente com os veados e os alces, por exemplo’, defende outro manifestante.

 

Há todo um estilo de vida saudável e uma ética por detrás destes manifestantes. Mas também uma ideologia, com laivos de revisionismo de ideias vulgarmente aceites. ‘O ser humano é essencialmente um herbívoro que deixou de ruminar quando se inventou a propriedade privada’, refere o manifesto que apela à abolição dos matadouros. Segundo a mesma fonte, foram os homens, ‘de raça branca e heterossexuais’, que colocaram uma vedação num terreno e que ‘convenceram outras pessoas que o terreno era seu’. Quando começaram a criar gado ‘isso foi um grande retrocesso para a humanidade’, refere o mesmo texto.

 

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O Movimento para a Abolição dos Matadouros (MAM-Portugal), que encabeçou a manifestação ao lado da bandeira da bissexualidade, foi criado em Janeiro deste ano - esta foi a sua primeira manifestação em Lisboa – com o objectivo de combater esta ‘forma de opressão’ que é o especismo, que iguala em malefícios aos ‘demais sistemas de opressão’ – sexismo, capitalismo, sionismo, imperialismo, etc.

 

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Mas o jornalista tem de confessar que o ‘etc.’ ficava aqui bem e lhe dava jeito, mas iludiria uma parte da verdade, a qual se prende com a sua muita ignorância. Ao ler o rol das opressões que impendem sobre o mundo actual, incluindo sobre os 55 mil milhões de seres terrenos sencientes – os animais-humanos e os animais-não humanos, só aqui sendo contabilizados os terrenos, pela manifesta impossibilidade de contar os que por mar e ar fazem a sua vida -, especou com uma palavra que não conhecia.

 

Trata-se do cissexismo, que até a porcaria deste corrector ortográfico sublinha a vermelho, considerando que não existe. O cissexismo, fiquei hoje a saber, é um conjunto de noções discriminatórias que estabelecem que as pessoas ‘trans’ estão abaixo dos dois géneros comuns - masculino e feminino. É mais grave que a transfobia, e manifesta-se até em militantes LGBT. No novo tempo, estes manifestantes são contra a noção de género e alertam mesmo para o cissexismo que é usar pronomes pessoais e identidades. Finalmente, são a favor da geração de Quimeras, ou seja, animais sem sexo ou oriundos do cruzamento de várias espécies.

 

Não tenham pena de mim. Aprendi, com um cozinheiro brasileiro, como se faz ‘Alho-francês à Braz’. Vou experimentar.

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publicado às 21:03

O Portugal de “mexam esse traseiro” e o Portugal de “o meu irmão bateu-me primeiro”

 Por: Rute Sousa Vasco

Na semana que hoje termina, duas entrevistas merecem uma leitura atenta. Ambas falam de Portugal e dos portugueses, ambas trazem uma visão do que somos não encapsulada no que fica bem a toda a gente dizer que somos. Os entrevistados são de áreas políticas bastante diferentes e têm uma visão do mundo substancialmente distinta, mas ambas as entrevistas nos remetem para um país de pessoas pouco exigentes e de verdades feitas, o que na realidade é capaz de ser uma e a mesma coisa.

 

 

Os entrevistados são, respectivamente, Nuno Garoupa, professor universitário e ex-presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, ao SAPO24, e José Soeiro, deputado do Bloco de Esquerda e autor do livro “A Falácia do Empreendedorismo”, ao Jornal I, e os entrevistadores, pela mesma ordem, a Isabel Tavares e o Nuno Ramos de Almeida. A qualidade das duplas também se traduz na qualidade da conversa.

 

Sobre a exigência

 

Diz Nuno Garoupa: “Podemos fazer leis mais estreitas em relação aos períodos de nojo, por exemplo, mas se as pessoas quiserem dar a volta à lei continuam a fazê-lo. O problema é que a sociedade portuguesa não é muito exigente. Não vale a pena falar em nomes populares, mas há várias pessoas que publicamente se fazem facilitadores e continuam aí sem qualquer problema social, já nem digo legal ou de outra natureza, em vez de ficarem afastadas durante anos.”.

 

Os facilitadores são uma profissão altamente promissora em Portugal. E não são apenas os facilitadores-negociadores, aqueles que sabem coisas, que têm uma agenda de números de telefone valiosa e sobretudo pessoas que os atendem quando ligam. Há todo um outro escalão que vive em modo agenda de almoços, jantares e eventos a que não podem faltar, que não se esquece do telefonema sempre cortês a dar os parabéns, à direita e à esquerda, que está sempre ansioso de proximidade por qualquer lugarzito que cheire vagamente a poder. Este segundo escalão tem, por sua vez, amigos que deles não se esquecem porque sabem bem o quanto facilitam naquelas situações em que são precisas vozes para fazer o coro do aplauso ou da defesa da honra pública. Nice guys.

 

Sobre as verdades feitas

 

Diz José Soeiro ao Jornal I: “…começámos a frequentar cursos de criação do próprio emprego, cursos de empreendedorismo e para desempregados. Fomos, nomeadamente, a cursos da Associação Nacional de Jovens Empresários, num desses fóruns do empreendedorismo. Nós vamos para uma sessão que tinha como tema “Conquistar Emprego em Tempos de Crise – Estratégias para o Sucesso”, em que o formador, no final da sessão, revela a fórmula do sucesso, que era o MET ao quadrado, e pergunta às pessoas o que significava essa sigla. Umas dizem motivação, emprego, trabalhadores, tenacidade... Ninguém acertava, e ele revelou no fim que era “mexam esse traseiro ao quadrado”. Por um lado, é caricato e quase ridículo, mas é verdade que estas sessões existem e são financiadas pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional e são apresentadas a milhares de desempregados como uma saída para o problema do desemprego.”

 

Para muitos, o empreendedorismo é simplesmente a pílula do dia seguinte para todos os que ficaram ou nunca encontraram sequer um emprego. Já assisti pessoalmente a dezenas de discursos iguais, com as mesmas palavras “curativas” – aquelas que, depois de ouvidas, transformam para sempre a vida de quem as escuta e fazem nascer o "homem novo". Há várias premissas na bula desta pílula magnífica: 1) Todas as pessoas têm ideias e já agora boas ideias de negócio 2) Todas as pessoas são capazes de executar ideias de negócio 3) Se há pessoas que não têm ideias ou capacidade de execução para serem empreendedoras, têm de ser treinadas, admoestadas, corrigidas. MET ao quadrado – mexe esse traseiro, pois então.

 

Esta verdade feita de que somos todos empreendedores, porque essa é a maneira certa de viver nos dias de hoje, provoca danos a vários níveis. Em primeiro lugar, aos elos mais fracos – aos que não são, não têm qualquer aspiração ou capacidade para ser, mas, por se encontrarem em situação de desemprego, procuram uma solução, qualquer solução. Muitos destes já foram medicados com a pílula e muitos já sofreram efeitos secundários perversos – como, por exemplo, ficarem ainda em pior situação sendo patrão do que na condição de desempregado.

 

Em segundo lugar, esta verdade universal prejudica também quem efectivamente tem ideias e capacidade de execução, quem efectivamente é empreendedor – e sim, felizmente, temos hoje um número crescente de pessoas que, por opção e pelas competências que detêm, querem ser donas do seu próprio projecto, seja ele um negócio ou outra coisa qualquer. São óptimas notícias num país avesso ao risco e ao fracasso. Mas é péssimo quando este grupo é confundido, o que não acontece poucas vezes, com a tribo de wanabees que gastam o léxico do empreendedorismo, não perdem romaria a conferências e afins e a única ideia que efectivamente têm em mente é que é preciso saber aproveitar a “onda” do empreendedorismo. Têm bico amarelo como um pato, têm penas como um pato e andam como um pato. Logo, devem ser um pato. Neste caso, um empreendedor.

 

A presunção de que uns e outros são a mesma coisa é apenas intoxicação – e em alguns casos veneno.

 

Facilitadores e ‘empreendedores-wanabee’ são faces diferentes de uma mesma moeda. O Portugal pouco exigente consigo próprio de que fala Nuno Garoupa. O Portugal em que os amigos e conhecidos dão um jeitinho a quem não for muito incómodo e souber estar no sítio certo. O Portugal em que não se fazem juízos críticos, porque nunca se sabe quando nos calhará a nós. Nuno Garoupa refere-se a este modus operandi como a infantilidade de o meu irmão bateu-me primeiro: “Quando se colocou a discussão de Maria Luís Albuquerque ir para a Arrow Global, um dos argumentos do PSD e da direita mediática foi que havia o caso de Maria de Belém na Espírito Santo Saúde e de Manuela Ferreira Leite no Santander. Ou seja, o argumento não foi se pode ou não e por que motivo, mas sim é aceitável porque outro já fez. Isto é um argumento de recreio (…) Provavelmente, Maria Luís estava errada, como esteve Maria de Belém, como esteve Manuela Ferreira Leite e esta dinâmica reflecte alguma falta de maturidade da nossa sociedade nestes assuntos”.

 

Estes tiques nacionais que teimam em não desaparecer são uma espécie de nuvem por cima das nossas cabeças, mesmo que invisível, mesmo nos dias de sol. Ajudam certamente a explicar que, de acordo com o Índice Vida Melhor que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) divulga de dois em dois anos, Portugal seja o país mais insatisfeito com a vida que leva. Lê-se no Público: “Como é a vida em Portugal em 2016? Os rendimentos estão abaixo do nível médio da OCDE. A insegurança no mercado de trabalho é grande. A taxa de desemprego de longa duração atinge os 8,3%. Desde 2009, há cada vez mais pessoas a trabalhar longas horas por rotina.”

 

Isso faz de nós insatisfeitos, mas não exigentes. À excepção de facilitadores e empreendedores-wanabee. Eles andam por aí e dão-se bem com o nosso clima.

 

Tenham um bom fim de semana.

 

 

Outras sugestões de leitura

 

Sobre a exigência ou falta dela e as verdades assim-assim, temos mais um capítulo da novela Banif. Afinal não havia pressa, diz a Comissão Europeia, e as férias na neve não tiveram qualquer impacto na pressão para a decisão sobre o futuro do banco. A decisão foi das autoridades portuguesas, diz a Comissão. De certeza que a história não fica por aqui – stay tuned.

 

A Comissão Parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto realizou esta semana, no dia 1 de junho, uma Audição Parlamentar sobre “Os Novos Desafios da Comunicação Social”. Não tenho link para partilhar, mas estive presente e esta foi e é não apenas uma iniciativa que dá sentido ao espírito que uma Assembleia da República deve ter, como foi organizada tendo como primeira premissa efectivamente ouvir e não discursar. O Parlamento é um dos locais por onde deve passar a discussão sobre o futuro dos media e o impacto no tipo de democracia em que queremos viver e esta iniciativa só pode ser de saudar.

 

E fecho com uma ideia que primeiro se estranha e depois se entranha. O ‘culpado’ é Elon Musk, o senhor Tesla, o senhor SpaceX, o grande senhor da inovação nos dias de hoje. É provável, disse ele, que todos nós, humanos, não sejamos mais do que personagens de uma espécie de videojogo criado por uma civilização mais avançada. Ouçam-no e decidam se querem ou não entrar nesta discussão.

publicado às 13:43

Uns para os outros

 

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Desde que José Cid, num programa de rádio onde o entrevistei, em conjunto com o João Gobern, disse (e não estava a brincar…) que, se tivesse nascido em Inglaterra, era mais popular e amado que Elton John, porque acha que o inglês, ao pé dele, é artista de segunda, percebi todo o universo de Cid. As letras das favas e do chouriço e das bananas, a pose, a atitude em palco, e acima de tudo uma série de parafusos a menos.

 

Entrou na prateleira dos inimputáveis - dizem o que lhes passa pela cabeça, em geral ninguém presta grande atenção. Faz companhia a figuras como Alberto João Jardim, para citar apenas o mais óbvio.

 

Não me surpreendeu, por isso, a polémica instalada esta semana - mas pelos vistos em cima de uma entrevista que deu há alguns anos… - entre ele os transmontanos. Como não me surpreendeu a resposta trauliteira nas redes sociais (a ele e ao desgraçado do Nuno Markl, apanhado de lado sem culpa alguma…), que pelos vistos estão cheias de pequenos José Cid’s. Pessoas que usam a impunidade do anonimato para destilarem a bílis e fazerem das caixas de comentários, como alguém disse, o esgoto da internet. Ou seja, pessoas que estão bem para o José Cid, e vice-versa.

 

Porém, convém não confundir a mensagem com o meio. Não acho que as caixas de comentários sejam, em si, canos de esgoto. São o reflexo das tensões, dos ódios, das frustrações, que todos temos - e tanto servem para intoxicar a rede como para a limpar, nos momentos mais doces (basta Portugal marcar um golo no europeu…). Cada um de nós usa-as de acordo com a sua formação, os medicamentos que toma, ou apenas o bom senso, ou falta dele, que possa ter. São uma praça publica sem filtro, sem regra, sem controlo. Não consigo criticar aquilo que constituiu, no começo, a mais-valia da internet: o caos que resulta da liberdade total. Claro que tudo tem um preço, e quando o caos se transforma em difamação, mentira, plágio, ameaça, já há leis gerais que se aplicam - mas a tentação de regular mais e apertar a malha é grande. Sinceramente: isto é o que me preocupa mesmo quando sucedem casos como o de José Cid. É que estes casos são pontas de cigarro acesas na floresta dos que querem controlar, regular, legislar, e no fim de tudo censurar, o que é publicado na rede.

 

A tentação é grande e todos já a sentimos na pele. Um exemplo pessoal: sou admirador confesso do humor do João Quadros e do Bruno Nogueira - mas quando ouvi na rádio as crónicas que assinaram, há uns anos, na sequência da morte e da cremação do jornalista Carlos Castro, fiquei chocado. Mexeu comigo. Foram longe demais em relação à minha sensibilidade. A reacção imediata foi clara: “isto não devia ter ido para o ar”. Mas passados uns minutos, caí em mim e perguntei-me: quem sou eu para dizer que não devia ir para o ar, se sou o mesmo que defendo que o humor não tem limites?

 

Vejo agora Bruno Nogueira defender Nuno Markl e gosto do que vejo. Mas na verdade não andamos muito longe uns dos outros. Seja o Cid, o Bruno, ou o anónimo trauliteiro. A lógica é a mesma e tem uma frase popular que a define: “quem vai à guerra, dá e leva”. O Cid insultou os transmontanos, levou que contar. À medida e da mesma forma rasca e ordinária que usou para os gozar. Como se costuma dizer nos pátios das escolas: estão pagos. Uns com os outros. O único risco é que parvoíces desta natureza possam servir para limitar a liberdade de todos e de cada um. E isso já não tem graça alguma.

 

Leituras obrigatórias esta semana:

 

Basta verem a assinatura da entrevista para perceberem quão suspeita é a minha sugestão - mas mais do que o trabalho em si, sublinho uma história de vida incomum, daquelas que dava um filme para Oscar e tudo. Não conto mais nada…

 

A arte da entrevista tem que se lhe diga. Em Portugal, desde há uns anos, a jornalista que melhor tem tratado este formato nobre do jornalismo é indiscutivelmente Anabela Mota Ribeiro, nas páginas do Público. Boa parte do seu trabalho está felizmente disponível no blog que criou, o que nos permite recuperar conversas extraordinárias, diálogos ricos e saborosos, e uma variedade de personalidades que nos alargam horizontes. É bom passear por ali...

 

Há notícias que, por serem recorrentes - atentados nos países árabes, por exemplo - nos escapam por entre os dedos da mão. Felizmente, analistas como o espanhol Alberto Priego, vê mais longe - ou como costumo dizer, “vê mosquitos na outra margem”. Aqui, nesta análise sobre um atentado, no Iraque, cometido durante a final da Liga dos Campeões, coloca em cima da mesa a relação entre o desporto, a diversão, o ócio, e o que pensam sobre isso os fundamentalistas árabes…

 

publicado às 14:07

As melhores cidades para quem não vai de férias sem internet

Por : Pedro Fonseca

 

Há um site que indexa diferentes localidades com mais potencial para quem gosta de viajar e trabalhar com uma boa ligação à Internet. Mas as propostas também passam por outros factores, como a temperatura ou a verba mensal necessária para viver nesses locais. As primeiras cidades portuguesas da lista são uma surpresa.

 

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Braga, Aveiro e Funchal são as melhores cidades em Portugal para os turistas que pretendem ter um bom acesso à Internet, um bom clima e não querem gastar muito. Só depois surgem Lisboa, Porto e Coimbra. Os dados constam da Nomad List, um índice actualizado regularmente e que analisa vários parâmetros para cada uma das 633 cidades registadas no final de Maio.

 

Na 24ª posição, Braga tem uma temperatura média de 17° centígrados, um acesso à Internet de 30 megabits por segundo (Mbps) e um orçamento mensal necessário de 1.077 euros. Em 31º, Aveiro tem a mesma velocidade de acesso à Internet, para uma necessidade orçamental de 1.811 euros por mês, enquanto o Funchal se fica pela 52º posição, também com um acesso a 30 Mbps mas um custo mais acessível de 1.416 euros.

 

Seis posições depois, surge Lisboa, com um custo mensal de 1.578 euros mas acesso à Internet a 40 Mbps, a mesma velocidade que oferece o Porto (classificado em 84º), com um valor mensal de 1.563 euros. Por fim, nas cidades portuguesas, surge Coimbra na 119ª posição, com um valor mensal de 1.818 euros e um débito de 30 Mbps.

 

No total, as cidades portuguesas nem sequer estão mal classificadas, comparadas com outras como Madrid (182ª posição), Bruxelas (341ª), Barcelona (376ª), Paris (389ª) ou Amesterdão, que surge no 437º lugar. No entanto, estas cidades acabam por ser penalizadas pelas necessidades financeiras mais elevadas do que as cidades de Portugal.

 

O mesmo sucede com Maputo, em Moçambique, que ocupa a 597ª posição, com um custo mensal de 2.478 euros e uma rede de acesso à Internet a apenas 2 Mbps, ou a capital angolana Luanda (608ª), com uma necessidade de orçamento mensal de 3.697 euros e um acesso a 5 Mbps.

 

No topo da Nomad List estão cidades da Tailândia, com velocidades de acesso entre os 15 e os 40 Mbps mas custos mais acessíveis. A lista é liderada por Banguecoque (1.268 euros mensais), seguindo-se Ko Samui (818 euros), Ko Lanta (730 euros) e a ilha de Phuket (899 euros).

 

Na quinta posição, surge Las Palmas, nas ilhas Canárias (Espanha), com um valor mensal de 1.385 euros, regressando-se depois à Tailândia com Chiang Mai, por um valor mensal de 851 euros e acesso à Internet a 20 Mbps. Curiosamente, quando a Nomad List foi lançada há dois anos, era a localidade líder, segundo a Slate France. Em sétimo lugar surge Budapeste, com um custo por mês de 1.316 euros e, depois, a primeira cidade norte-americana, Austin (no Texas), com um valor mensal necessário de 2.322 euros e acesso à Internet a 80 Mbps.

 

Esta velocidade no acesso só é ultrapassada por Timisoara, na Roménia, com 90 Mbps, Hong Kong (95 Mbps), Bucareste (100 Mbps), as sul-coreanas ilha de Jeju e a capital Seul (ambas com 100 Mbps), e as norte-americanas Chattanooga (110 Mbps), Kansas City (150 Mbps) e a líder Provo, com uma velocidade registada de 165 Mbps.

 

Parâmetros em análise

 

O site emite ainda algumas comparações com a cidade de onde se está a aceder. Por exemplo, é dito que Provo "é 2% pior do que Lisboa para viver e trabalhar para os nómadas digitais", embora não se justifique porquê. Para hierarquizar as cidades mais apetecíveis para os viajantes, a Nomad List não usa só aspectos como a velocidade de acesso à Internet, a temperatura local ou o valor mensal necessário para ali viver.

 

Há outros parâmetros como o divertimento, a vida nocturna, Wi-Fi gratuito, locais para trabalhar ("coworking"), ar condicionado ou aquecimento, qualidade de vida, segurança, relação com estrangeiros, mulheres ou gays, a fluência em inglês e a tolerância racial.

 

Noutra secção, é analisado o custo de vida, com valores locais para preços em apartamentos, quartos de hotel ou arrendamento por serviços online, preços de viagens, bem como de um refrigerante, cerveja ou café. O site compila ainda informação sobre a região onde está localizada a cidade, incluindo temperaturas ao longo do ano, domínio religioso, melhor operadora aérea ou de telecomunicações. Numa parte mais interactiva, é possível falar com pessoas que estão ou estiveram nos locais.

  

Um de 12 projectos em 12 meses

 

A Nomad List foi lançada há dois anos por Pieter Levels, um holandês que se considera ele próprio um nómada digital. A 24 de Junho de 2014, disponibilizou uma hiperligação na sua conta de Twitter para uma folha de cálculo onde tencionava agregar os dados, preenchida por outros viajantes.

 

Num fórum online, onde também a divulgou, explicou que pretendia saber os valores de uma "curta estadia num hostel, hotel ou apartamento no centro [da cidade], trabalhar num espaço de 'coworking' e ter uma refeição básica três vezes por dia. É o estilo de vida médio do nómada digital", considerando desde logo que os valores por uma estadia mais curta seriam mais caros do que para um residente.

 

Na altura, dizia igualmente querer rentabilizar o site vendendo "guias urbanos específicos para nómadas", explicando que o projecto fazia parte do seu objectivo de lançar 12 startups em 12 meses, anunciado antes, a 1 de Março de 2014.

 

A então NomadList era um "índice vivo das melhores cidades para viver e trabalhar remotamente", que venderia os referidos guias mas também "kits nómadas" com passes diários para trabalhar em "coworking", um cartão SIM para o telemóvel ou tablet e uma estadia em hotel. Mas tudo se passava ainda num relativo segredo.

 

O anúncio público ocorreu por engano. A 29 de Julho, como explica no seu site, estava a actualizar o servidor informático quando colocou o site online, sem querer, e começou a receber mensagens no Twitter. No mesmo dia, um artigo no TechInAsia divulgava a intenção das 12 startups num ano.

 

Sobre a NomadList, dizia então que, "com uma crescente comunidade de trabalhadores à distância, penso que é uma grande audiência para desenvolver algo".

publicado às 00:32

Podem as palavras cruzadas ser plagiadas?

Por: Pedro Fonseca

 

Tecnologias de Big Data ajudaram a detectar algumas semelhanças num dos autores de palavras cruzadas mais reputados nos Estados Unidos. Como diz um cruciverbalista português ( se não sabe o que é, continue para a linha seguinte), "não façam isso, as coisas descobrem-se... sempre!”

 

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Timothy Parker é um dos autores de palavras cruzadas - ou cruciverbalista - mais divulgado no mundo dos media em inglês. Desde 1999, as suas palavras cruzadas foram das mais vendidas nos Estados Unidos mas, segundo revelou a FiveThirtyEight no início de Março passado, "mais de 60 puzzles individuais copiavam elementos" dos do jornal New York Times (NYT) publicados anos antes, sendo assinados com pseudónimos. "Temas, respostas, grelhas e pistas" do NYT foram re-utilizados, assim como problemas de palavras cruzadas antigas do próprio Parker, usando nomes de autores falsos.

 

O "escândalo", como lhe chamou a FiveThirtyEight, foi descoberto por fãs deste passatempo, usando "ferramentas digitais" para análise ao jornal norte-americano de larga circulação USA Today e ao Universal Crossword, um serviço de syndication que revende palavras cruzadas para centenas de meios de comunicação social, sendo o direito de autor para ambos detido pela empresa Universal Uclick.

 

Parker recebeu menções no livro de recordes Guinness, foi considerado multimilionário devido a esta actividade e tinha alegadamente um grupo de 60 pessoas a trabalhar na Universal, onde era o editor responsável pelo resultado final. Esta empresa confirmou "algumas das alegações" no início de Maio e suspendeu Parker durante três meses, afirmando que no seu regresso haverá uma "forte segunda linha" na revisão dos desafios e que ele não voltará a colaborar para o USA Today.

 

O cruciverbalista explicou entretanto que se tratava de "uma coincidência" e não olhava para as palavras cruzadas do NYT "há anos". No entanto, mais de mil desafios de palavras cruzadas da Universal e quase 450 do USA Today tinham 75% de semelhanças com outros anteriores. O jornalista do FiveThirtyEight validou a existência de dezenas de "réplicas" - em termos de letras e espaços a negro -, no caso de Parker. Ao desvalorizar o caso, ele declarou que tendo editado "mais de 15 mil [palavras cruzadas], não estou de todo surpreendido", e que no caso da arrumação gráfica, não se preocupava se ela já tivesse sido usada, "se for boa para a minha audiência".

 

Plágio sem intenção

 

O negócio das palavras cruzadas não é pequeno mas requer alguma criatividade num processo que facilmente se pode tornar repetitivo. O site Crossdown explica as regras que se devem seguir na criação de bons desafios de palavras cruzadas, seguindo as indicações da editora Simon & Schuster, que primeiro as comercializou, e não é uma tarefa fácil. O alegado plágio pode mesmo ocorrer sem intenção.

 

Em 2009, o cruciverbalista Matt Gaffney criou um problema muito semelhante ao de um outro autor. Na revista Slate, assumiu o erro e explicou detalhadamente o que sucedeu, lembrando que a comunidade de criadores de palavras cruzadas nos EUA era pequena - cerca de 300 pessoas a trabalhar para os maiores meios de comunicação social - e, "assim como no jornalismo ou na literatura, o plágio é criticado no mundo das palavras cruzadas" e facilmente descoberto. Mas Gaffney concorda que só devem existir "umas duas dúzias de temas" nas palavras cruzadas, e que muitos dos criadores as repetem.

 

A industrialização das palavras cruzadas

 

Os elogios na descoberta do alegado plágio de Parker vão para a base de dados informática que permitiu validar as coincidências. Foi uma "ferramenta de justiça", considerou Gaffney, enquanto Will Shortz, responsável pelo passatempo no NYT, declarou que "isto nunca seria conhecido excepto na idade electrónica, quando se podem detectar estas coisas".

 

O caso iniciou-se em Fevereiro passado, quando Ben Tausig, um outro cruciverbalista, revelou na sua conta de Twitter que um problema seu de 2004 entregue à Universal e publicado no USA Today fora re-utilizado com pseudónimo em 2008 e novamente usado já este ano. Ele detectou todas as variações usando uma base de dados criada por Saul Pwanson e que integra mais de 51 mil problemas de palavras cruzadas de 11 meios, incluindo as do NYT desde 1942, do Washington Post desde 1992 ou do Los Angeles Times desde 1996.

 

Segundo Tausig, o mais estranho nesta história é a existência de 65 temas do NYT reproduzidos na Universal ou no USA Today, mas só um exemplo replicado em sentido contrário. Mesmo se esses 65 pudessem ser duplicados por acaso, as hipóteses de irem todos num único sentido "são minúsculas".

 

Pwanson, que apenas estava a testar correlações entre grandes quantidades de dados (Big Data), confessa que não esperava por estes resultados. "É a industrialização", quando "é difícil criar umas boas palavras cruzadas". Mas, como explicava Gaffney, as "palavras cruzadas são como flocos de neve" e "mesmo as que parecem muito semelhantes ainda são únicas".

 

Em Portugal, o cruciverbalista Paulo Freixinho também aconselha sobre o plágio nas palavras cruzadas: "não façam isso, as coisas descobrem-se... sempre!”

publicado às 00:21

Ensina-nos como se faz, Autoeuropa

 

Por: Paulo Ferreira

 

A Autoeuropa é o exemplo mais mediático e de maior dimensão de que muito do nosso fado laboral não tem que ser uma inevitabilidade e que o maniquísmo do “nós contra eles” é um disparate quando o que está em causa é a manutenção de postos de trabalho e o rendimento dos trabalhadores, a vitalidade de unidades produtivas e a sua competitividade global.

 

Numa empresa, trabalhadores e administração chegam a um acordo laboral para responder a variações de encomendas e de produção.

 

Do comunicado divulgado para anunciar o entendimento aparecem, entre outras, duas citações desses responsáveis: a) “Acreditamos que a redução para um turno é uma situação transitória e que o futuro está ao nosso alcance. Queremos também mostrar à casa-mãe que sabemos adaptar-nos às circunstâncias”; e b) “Esta solução permitirá a manutenção do emprego e do rendimento dos colaboradores, sem colocar em causa a produtividade da unidade".

 

A pergunta é: qual destas frases é a da administração e qual é a da Comissão de Trabalhadores?

 

Não é óbvio, contrariando o que estamos habituados. E se soubermos que a primeira frase (a) é a dos trabalhadores e a segunda (b) a que cita a administração, temos a sensação de estar a ver um pouco do nosso mundo ao contrário. A administração a sublinhar a manutenção do emprego e dos rendimentos e os trabalhadores a pensarem no futuro da unidade e na imagem dentro do grupo multinacional. Onde é que já se viu? Viu-se, vê-se, na Autoeuropa, por exemplo.

 

Bem sei que a fábrica portuguesa do grupo Volkswagen é o exemplo fácil que está sempre à mão. Mas só é fácil porque eles, administrações e representantes dos trabalhadores, o têm feito assim de forma continuada, responsável e equilibrada para todos os interessados.

 

Há uns anos, um director-geral da Autoeuropa mostrou-me dados que comparavam a fábrica com outras do grupo VW. A produtividade era das mais elevadas, o absentismo era dos mais baixos e a generalidade dos indicadores de qualidade, eficiência e eficácia estava muito bem situada no ranking global da marca que inclui fábricas em várias geografias, na Europa (Espanha, França, Alemanha, Itália, vários países do Leste da Europa), América Latina ou Ásia.

 

O ambiente laboral, a forma como administração e Comissão de Trabalhadores negoceiam e se entendem, não é seguramente alheia a estes resultados.

 

 

Isto acontece há décadas e tendo como protagonistas vários directores-gerais de várias nacionalidades - alemães, um espanhol, dois portugueses -, o que indicia que mais do que as pessoas, as suas personalidades ou habilidades negociais, há uma cultura no grupo de envolvimento dos trabalhadores na gestão laboral que dá bons resultados.

 

Mas o segredo também está do lado dos trabalhadores, de quem os representa e defende os seus interesses: António Chora, o histórico líder da Comissão de Trabalhadores. Não consta que Chora seja passivo nessa sua tarefa, senão não seria reeleito sucessivamente pelos cerca de 3500 trabalhadores. Também já aconteceu uma proposta de acordo laboral negociada com a administração ter sido rejeitada por uma larga maioria dos trabalhadores, obrigando à sua renegociação, o que mostra que ali ninguém facilita na defesa de direitos e no cumprimento de deveres.

 

António Chora e os seus colegas sindicalistas estão certamente mais preocupados com a Autoeuropa, a sua sustentabilidade e a repartição justa de benefícios do que na criação de focos de instabilidade laboral ou social, reais ou fictícos, que possam abrir o Telejornal e contribuir para a impopularidade mediática dos governos. E prestam contas aos seus pares trabalhadores da empresa sem a preocupação de mostrar serviço político a qualquer Comité Central partidário ou à direcção de uma central sindical, como acontece com os representantes dos trabalhadores em tantas outras empresas.

 

A Autoeuropa é o exemplo mais mediático e de maior dimensão de que muito do nosso fado laboral não tem que ser uma inevitabilidade. Que a produtividade pode ser tão boa ou melhor do que na generalidade dos países, que a formação permanente é fundamental, que uma gestão que responda também aos anseios dos colaboradores, envolvendo-os, tem bons resultados, e que o maniqueísmo do “nós contra eles” é um disparate quando o que está em causa é a manutenção de postos de trabalho e o rendimento dos trabalhadores, a vitalidade de unidades produtivas e a sua competitividade global.

 

Num momento em que assistimos a conflitos laborais mal resolvidos - veja-se o desfecho do caso dos estivadores, que conseguiram essa coisa fantástica que é impedir as empresas de contratar novos trabalhadores - e a decisões tomadas a régua e esquadro que vão custar muito dinheiro aos contribuintes - a sinuosa gestão do regresso às 35 horas no Estado - os protagonistas da Autoeuropa podiam ajudar ainda mais o país ensinando como se fazem as coisas bem feitas. Bem sei que a missão deles é construir automóveis, mas só lhes podemos ficar gratos por mais esse esforço adicional.

 

 

Outras leituras

 

  • Marcelo, lentamente, a começar a marcar a agenda. Isto vai ser muito mais do que banhos de multidão e simpatia distribuida a todos.
publicado às 10:33

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