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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Um relatório que não serve para (quase) nada

Por: António Costa

O relatório da comissão de inquérito ao Banif, leia-se o projeto assinado pelo deputado socialista Eurico Brilhante Dias, faz um esforço de cronologia de uma falência anunciada e que deveria ter sido definida logo em 2012, de forma organizada, pelo anterior governo e pelo Banco de Portugal. Mas não servirá para nada, porque vai ser usado apenas como instrumento de guerra político-partidária.

 

 

A banca é, neste momento, a arena de confronto entre o Governo e a oposição, e, ironicamente, por responsabilidades partilhadas. Pedro Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque geriram, debaixo do tapete, os problemas dos balanços dos bancos, António Costa e Mário Centeno estão a comportar-se como elefantes numa loja de porcelana. Cada um dos lados, à sua maneira, está a contribuir para fragilizar uma realidade que já é difícil e as conclusões do Banif serão mais uma ‘oportunidade’ para passar responsabilidades.

 

 

O que sabemos, hoje, é que o Estado foi obrigado a ‘meter’ mais de três mil milhões de euros para vender o Banif ao Banco Santander, dinheiro público, dos contribuintes, para evitar um colapso ou, no mínimo, o recurso ao dinheiro dos depositantes. Foi esta a escolha de António Costa, o primeiro-ministro, em resposta à pressão do BCE. Entre os depositantes e os acionistas, escolheu os contribuintes e prometeu que seria a última vez. Já tínhamos ouvido esta promessa antes, de outras figuras, agora é certo num novo contexto de regras europeias.

 

 

A solução final, claro, não foi a melhor, foi a possível, e não foi determinada pela notícia da TVI24, como também fica claro. Nem na resolução, nem no tempo da resolução, nem sequer no valor associado à resolução. Sobra o que (não) foi feito antes, pela administração e acionistas do Banif até 2012, e pelo acionista Estado e pela gestão de Jorge Tomé daquela data até dezembro de 2015. E, neste tempo todo, pela própria supervisão, o Banco de Portugal, que já em 2015 corrigiu as contas do Banif com impacto material nos seus rácios e nas suas necessidades.

 

 

 

Como era previsível, o projeto de relatório não serve a ninguém quando se trata do apuramento das responsabilidades políticas. Faz um esforço de recomendações – 16 – ao legislador e aos supervisores, até aos europeus, mas na verdade são mais umas quantas, depois das que foram feitas nas comissões do BPN e do BES. O que fica?

 

 

 

Para já, fica a discussão política, sem responsabilização efetiva de ninguém. E as achas para a comissão que se segue, a da CGD, que, pelas mesmas razões, não dará em (quase) nada. Mas fica a fragilidade do nosso sistema financeiro, uma história do que não deveria ter sucedido e a convicção de que se o Governo anterior tivesse seguido a solução defendida pela comissão Europeia, que não acreditava no futuro do Banif. Desta vez, pelo menos, Bruxelas não pode ser o bode expiatório, vai ser encontrado outro.

 

 

 

As escolhas

A temperatura subiu, a política ainda mais, como se pode ler aqui. E Marcelo Rebelo de Sousa já percebeu que a estratégia dos afetos não chega. A relação com Passos Coelho não é a melhor – como se percebe pelo facto de não ter comparecido em Belém -, os dados económicos não ajudam e as sondagens começam a dar os sinais a António Costa de que as eleições antecipadas são mesmo uma probabilidade que ganha força.

publicado às 18:25

Somos só pessoas estupidamente normais

Por: Rute Sousa Vasco

Há semanas em que todos aqueles que escrevem sobre o que se passa no mundo não evitam o que, em regra, tentam evitar. Ou seja, escrever sobre as mesmas coisas que outros já escreveram. Quem publica à sexta-feira, depois de uma semana intensa de acontecimentos (Nice, Turquia, Convenção Republicana, para nomear os mais globais), fica com um problema ainda maior. Isto para dizer que também eu não consigo evitar. Trump, Erdogan, extremismos, ignorância, medo. Como evitar?

 

 

As escolhas democraticamente eleitas por todo o mundo têm nos obrigado a uma reflexão ampla sobre a democracia. É um tema difícil que, inevitavelmente, acaba com a frase de todos conhecida: “não é um sistema perfeito, mas não se encontrou ainda melhor”. O que, até prova em contrário e face às alternativas, é, sem dúvida, verdade. Mas também é verdade que o conceito de participação popular se alterou radicalmente nos últimos cinco anos, mercê da explosão das redes sociais, e com consequências, aos mais diferentes níveis, que ainda ninguém conseguiu efectivamente perceber.

 

 

Por causa dos acontecimentos em França e na Turquia, na semana passada, falei com várias pessoas que vivem em cidades como Paris, Nice, Istambul, Ancara e Londres. Pessoas que não se conhecem umas às outras – nenhuma delas. Pessoas com contextos de vida diferentes, com profissões diferentes, com idades diferentes. Em todas, senti a mesma apreensão. Em nenhuma, senti ódio ou vontade de alinhar por qualquer extremismo. Uma delas falou comigo, ao telefone, enquanto a noite de Istambul era disputada pelos militares ditos golpistas e o “povo de Erdogan”, aquele que as mesquitas chamaram à rua para defender a nação. Ainda o desfecho era incerto e já me dizia do outro lado da linha que, de certeza, que Erdogan teria tudo controlado. “Acho que no domingo está tudo resolvido”, comentava na madrugada de sábado. No domingo, estava tudo não apenas resolvido como perdida qualquer réstia de esperança que a Turquia não se torne mais um problema – um problema de uma dimensão que só conseguimos imaginar e temer.

 

 

Em Istambul, como em Paris, ou em Nice, as pessoas com quem falo só querem ter uma vida normal. Tomar o pequeno-almoço com a família, levar as crianças à escola sem recomendações especiais, ir trabalhar sem pensar duas vezes no trajecto, ter amigos sem pensar no bilhete de identidade, visitar amigos sem que lhes seja pedido bilhete de identidade, jantar fora porque é sexta-feira, talvez ir dançar, talvez ir ouvir música. Na loucura, quem sabe ir assistir a um fogo de artifício. E poder rir, mesmo que se seja mulher – a quem a tribo Erdogan recomenda recato na via pública. Uma vida estupidamente normal.

 

 

Esta normalidade daqueles com quem falo não é exactamente a mesma que as televisões me mostram.  Nem aquela que as redes sociais comentam. Em Cleveland, nos Estados Unidos, terra que consagra como primeiro postulado da constituição o direito a procurar a felicidade, vejo pessoas iradas com Hillary Clinton, gritando pela sua prisão, vomitando ódio a cada sílaba. Hillary está longe de ser uma candidata entusiasmante. Nem vale a pena dizer que nunca será Obama, porque isso era admitir que sequer estava no mesmo plano. Não se comparam metros com litros.

 

 

Mas este ódio? Katty Kay, jornalista e apresentadora da BBC, vai na 17ª convenção republicana que acompanha. Diz que nunca viu nada como isto. “Sinceramente, não sei se é por Mrs. Clinton ser mulher. Talvez seja porque está há tanto tempo na política ou porque o seu servidor de email faz parecer que ela pensa que está acima da lei. Mas o ódio que lhe votam é viciante e visceral. Isto tornou-se a convenção do ‘prendam-na’. Perguntem aos delegados sobre Mrs. Clinton e vejam-lhes o brilho nos olhos – ela é o “mal”, uma “mentirosa”, e “perigosa”."

 

 

Reparem, estas são as mesmas pessoas que querem ver Donald Trump presidente da América. As mesmíssimas pessoas que não querem a sua opositora porque, deduz-se, não se reconhecem na maldade, na mentira e no perigo. 

 

 

A insanidade.

 

 

Trump, o agitador, o atiçador de serpentes, o quase-inimputável, parece até um tipo de moderado quando a isto apenas responde: "Vamos derrotá-la em Novembro”.

 

 

Se a democracia é a escolha da maioria, precisamos mais do que nunca de saber quem é esta maioria. Há ódio nas pessoas normais – sempre houve. Mas esse tem sido sempre o triunfo da humanidade sobre a bestialidade: vencer o ódio, começando pelos ódios de cada um, em prol de um bem maior, que é a sobrevivência.

 

 

Tenham um bom fim-de-semana.

 

 

Outras sugestões:

 

O que pode a tecnologia fazer por nós, além de naturalmente nos permitir jogar Pokémon Go (o incontornável tema lúdico desta semana)? Muita coisa e com pensamento politico à mistura. Senão veja-se esta história dos robôs-manifestantes expostos numa sala do Instituto de Tecnologias Interactivas da Madeira.

 

Era uma vez um reino a que chamamos unido e que em virtude de uma votação está em grande agitação interna e externa. Este reino, tem novo governo, este governo tem novas missões, estas missões são provavelmente problemáticas. Da Idade Média ao século XXI, aqui fica um retrato, mais que factual, contextual, dos dias que se vivem no reino de Sua Majestade. Um texto imperdível do José Couto Nogueira.

 

publicado às 15:59

Um circo romano nos EUA

Por: Pedro Rolo Duarte

Às vezes pergunto-me: que mais pode a candidatura de Donald Trump fazer, a começar no próprio candidato, para demonstrar que não quer governar um país, mas quer montar um circo romano em Washington? A esta pergunta, espanto dos espantos, responde o “povo” com apoios, aplausos, uma Convenção rendida ao populismo tragicamente funcional, e uma sequência de dias em que raramente passam 24 horas sem que haja mais um escândalo, mais uma surpresa, mais qualquer coisa que nos deixa boquiabertos ou incrédulos.

 

 

Sou sincero: incrédulo, já não. Tudo é possível naquele mundo onde, depois de um discurso da barbie Melania Trump cheio de frases “roubadas” a Michelle Obama, vem uma colaboradora do marido, Meredith McIver, pedir desculpa pelo erro cometido. Terá sido ela a escrever o discurso, a partir de “pensamentos” da mulher do candidato - e como não confirmou a origem das frases, tomou-as como originais… É extraordinária a forma como tudo isto passa incólume e Trump, sem hesitações, não aceita a demissão da “autora” e afirma que “as pessoas cometem erros inocentes”…

 

 

É isto que os americanos estão a aprender a aceitar como possível e normal, para não dizer desejável. A mentira, a xenofobia, o racismo, o populismo, o plágio, todo este conjunto ideológico e ético, que na Europa crescemos aprendendo a rejeitar e a combater, é agora arma de propaganda barata para que o cidadão americano comum, seguramente na mais profunda ignorância sobre as consequências de tal opção, se deixe levar e acredite que resolve os problemas do seu país.

 

 

Os Estados Unidos da América conseguem, neste começo de século XXI, juntar o melhor e o pior sem distinção nem razão. O país das oportunidades e da meritocracia, o país onde todos têm oportunidade, o país que descobre-inventa-fabrica-vende, o país onde errar faz parte do caminho e não é argumento de exclusão, o país multicultural que nasceu e cresceu justamente por causa dessa miscigenação - esse mesmo, é o país onde a erva daninha de um Donald Trump tem terra fecunda para crescer sem que pareça haver quem lhe faça frente. Dizem que é o preço a pagar pela democracia - eu acho que são apenas juros de agiotas…

 

 

A Casa Branca tem tido inquilinos perigosos e pouco confiáveis - o apelido Bush seria suficiente… -, mas nunca esteve tão perto do abismo como em 2016, com este homem que começou por ser um “fait-divers” e é hoje um caso sério. Muito sério.

 

 

Se a História das ultimas décadas nos tem provado que a globalização não é apenas uma palavra para encher a boca dos economistas e gestores, a caminhada de Donald Trump até à Presidência dos EUA não é um problema apenas “deles”. É de todos nós. No período negro que temos vivido, entre crises profundas e terrorismo extremo, um homem destes a mandar na América não é ameaça menos grave. Sérgio Godinho bem disse que “Isto anda tudo ligado”. Há forma de desligar? Parece tarde demais.

 

 

Leituras na rede a não perder (porque a morte dos blogues foi noticia claramente exagerada…)

 

Luís Naves é um credenciado jornalista do Diário de Notícias, além de escritor com romances publicados. Ligado ao blog Delito de Opinião, tem escrito, sob a “tag” “cadernos contemporâneos”, alguns posts tão enxutos quanto valiosos. Assinalando os 80 anos da Guerra Civil Espanhola, aqui vos deixo um exemplo desse minucioso, delicado e excelente trabalho de jornalismo e memória. Que tanta falta nos faz…

 

 

“Eu escrevia. Sempre escrevi. E tinha medo. Também sempre tive medo. Escrevia para ser lida e tinha tanto medo de ser lida: e se não prestasse para nada?”. Presta. O que escreve Eugénia de Vasconcellos (e pode ser lido em livro, por exemplo em “Camas Politicamente Incorrectas da Sexualidade Contemporânea”) é um dos valores acrescentados do blog Escrever é Triste, onde se junta um generoso numero de excelentes autores, de Manuel S. Fonseca a Pedro Bidarra, de Henrique Monteiro a Diogo Leote. Recomendo todos, mas sublinho o meu gosto especial pela escrita de Eugénia.

 

 

Já há um livro que carimba o blog e lhe prolonga o nome: “Por Falar Noutra Coisa”, de Guilherme Duarte, é um dos fenómenos de sucesso que marca os tempos actuais no mundo dos blogues. Entre o humor e o sarcasmo, entre a critica e o gozo puro, Guilherme vai a todas, da política à vida comum, das tendências às suas manias pessoais. No começo pode provocar alguma comichão, mas depois percebe-se o autor e a coisa passa…

publicado às 11:16

A dama de pés de tigre e os três brexiteiros

Por: José Couto Nogueira

 

A guerra entre a Inglaterra e a Escócia, uma tradição que remonta à alta Idade Média, está de volta. E não é somente por causa do Brexit e dos submarinos; é porque de facto a diferença entre Sturgeon, uma liberal de esquerda (só em Portugal é que o termo liberal se aplica à direita) e a ultra conservadora Theresa May não só tem um conceito imperial da Grã Bretanha como escolheu um Gabinete dos tempos pré-União Europeia. Se havia políticos contemporâneos no Partido, da linha de Cameron, evaporaram-se. Long Live Britania.

 

 

 

Nicola Sturgeon, a pespineta primeira-ministra da Escócia, não hesitou nas palavras: “A escolha de Theresa May é a tomada do poder pela ala mais conservadora do partido conservador". Sturgeon está furiosa com o Brexit, como toda a gente sabe, e tem a seu favor a derrota completa da proposta na Escócia. Já depois do referendo, esta semana, houve uma votação sobre gastar 31 mil milhões de libras na renovação da frota de submarinos nucleares, estacionada em Clyde, na Escócia. Todos os parlamentares escoceses – menos um – votaram contra o projecto, apesar de representar milhares de empregos. Disse Sturgeon, numa manifestação londrina que a juntou a Jeremy Corbyn, o (ainda) líder dos Trabalhistas: “Estas armas têm um inenarrável poder e brutalidade, e são capazes de provocar terror e sofrimento numa escala fora da nossa compreensão”.

Isto, quando Teresa May afirma, peremptoriamente, que se preciso fosse não hesitaria um minuto em carregar no botão vermelho.

 

Na área da moda e das modas, onde também há um fosso cheio de crocodilos entre Ralph Lauren e Vivienne Westwood, os especialistas não deixaram de notar a preferência de May pelos sapatos de pele de tigre e saltos rasos – um símbolo das classes superiores que frequentaram colégios finos e coleccionam prataria. Ou não fosse o marido da senhora, Philip, gestor de topo no Capital Group, uma empresa que “gere portfolios”. (O equivalente em Portugal seria se Costa fosse casado com Maria Luís) Mas o Capital Group já veio dizer que marido e mulher não falam de trabalho em casa e que ele não tem influência nos milhares de milhões de que a empresa toma conta.

 

As opiniões de May são conhecidas há muito tempo e ela até se encarregou de as por em dia depois de escolhida pelos seus pares. É a favor de um controle apertado na emigração, pouco preocupada com as chamadas “liberdades civis” e contra a convenção europeia de Direitos Humanos. Quando foi Ministra do Interior, apresentou um projecto que incluía sanções para “extremistas que incitam verbalmente ao ódio”. Na prática, propunha-se fazer censura prévia da programação das rádios e televisões – não de cada programa, mas dos autores e conceito dos programas. Também queria que os senhorios reportassem e fossem responsáveis por arrendar casas a imigrantes ilegais. E a deportação para quem incita ao ódio e – aqui o mais complicado – de todos os imigrantes que não consigam ter um rendimento anual mínimo. Dentre desse grupo, os pior remunerados teriam de se ir embora, e os remunerados assim-assim podiam ficar, mas não trazer a família.

 

É natural que estas medidas agora sejam postas em prática, uma vez que não só May tem mais poder como também teve o cuidado de escolher um ministério que pensa como ela. Três deles já têm um nome colectivo: os Três Brexiteiros. Porque estão encarregados de assuntos directa ou indirectamente ligados a separação do Reino Unido do Continente. E porque são a favor da Grã Bretanha imperial que terá morrido algures entre 1945 e a entrada para a União Europeia.

 

Boris Johnson, o mais mediático, toda a gente conhece. Fica muito bem como Ministro dos Negócios Estrangeiros, um homem que se notabilizou por insultar vários países e dirigentes, amigos e inimigos (como tão bem o Independent retratou neste mapa)

 

Alguns exemplos mostram como vai ser fácil o seu relacionamento nas águas da política internacional. Não gosta de nenhum dos candidatos americanos. Acha que “Hillary Clinton tem o sorriso olhar metálico de uma enfermeira sádica num hospício para malucos”, mas também considera que “Donald Trump é uma boa razão para evitar Nova Iorque”. Quanto ao actual Presidente, Boris atirou outro dia que “Obama tem um ódio ancestral aos ingleses porque é meio queniano”. Poder-se-ia pensar que talvez seja por Obama ser democrata (além de meio queniano). Mas não. Também disse, na devida altura, que “George W Bush é um brutamontes texano vesgo”. Quanto ao Presidente turco, não é a sua política que o incomoda, mas a vida pessoal: “Erdogan não passa dum masturbador que gosta de bodes”. Lindo.

E a China? “Todos os desportos foram inventados pelos ingleses e os chineses só são bons a jogar ping-pong.”

Só mais uma pérola: “A Papua Nova Guiné faz orgias de canibalismo.”

 

David Davies, mais discreto, ficou com a pasta específica do Brexit. Já tem uma solução maravilhosa: a Grã-Bretanha pode fazer acordos comerciais bi-laterais com os países da União Europeia, um a um. O facto de os ditos países estarem impedidos pelo Tratado Europeu de fazer acordos individuais de comércio não o incomoda. Por acaso – a História tem destas voltas – neste momento está pendente no Tribunal Europeu um processo de Davies contra May, a propósito das leis de vídeo-vigilância que ela queria implantar e ele discordava. Mas é a favor da pena de morte e contra a adopção por gays.

 

O terceiro Brexiteiro é Liam Fox, no cargo de ministro para o Comércio Internacional. Médico de formação, Fox tem contudo um fino sentido comercial. Em 2009 descobriu-se que gastava mais do que devia em despesas pessoais como ministro-sombra (sim, são pagos pelo erário) e teve de devolver algum. Em 2011 resignou do cargo de ministro da Defesa de Cameron, porque fazia negócios com um fornecedor do ministério, Adam Werritty. Ficou a saber-se que até o levava nas suas viagens ao estrangeiro e o deixava participar em reuniões do seu gabinete. Politicamente, Fox é contra o casamento de pessoas do mesmo sexo (“igual a incesto”) e quis processar o “The Guardian” por publicar textos de Edward Snowden sobre a vigilância norte-americana em Inglaterra.

 

Voltando aos submarinos, o ministro da Defesa, Michael Fallon, é favor do investimento nos novos equipamentos, como seria de esperar. Talvez seja por aí que Nicola Sturgeon pegue para separar a Escócia, sem mesmo esperar que os Três Brexiteiros cumpram os seus papéis. A dama dos pés de tigre apoia-o, evidentemente.

Se não, não terá botão vermelho para apertar quando os amigos do masturbador de bodes vierem por aí acima.

publicado às 09:47

Bizarro, perigoso ou só estranho? 26 casos da saga Pokémon Go

Por: Pedro Fonseca

 

Como o Pokémon Go obriga os utilizadores a deslocarem-se para obterem troféus,  o jogo tem também sido notícia por casos bizarros e perigosos. Há de tudo e em vários países:

 

 

1. Boon Sheridan descobriu que, apesar da sua casa não ser uma igreja há mais de 40 anos, ela passou a ser um "gym" para a Niantic. Preocupado com a vizinhança, que podia facilmente "especular" que venda de droga ou outro tipo de crimes ocorresse no local, este residente em Holyoke (Massachusetts, nos EUA) ficou a saber que a empresa que gere o Pokémon Go só retira localizações que possam representar algum perigo físico, não aceitando,actualmente, removê-las "por outras razões";

 

2. Tom Currie, de 24 anos, deixou o seu emprego em Auckland para viajar pela Nova Zelândia nos próximos dois meses para capturar todos os Pokémon do jogo. Até 16 de Julho, em menos de uma semana, já tinha conseguido 90 dos 151 personagens. A experiência mais "excitante" foi em Sumner (Christchurch), onde acompanhou mais de 100 pessoas à caça de Pokémons;

 

3. A polícia em Darwin, na Austrália, pediu aos jogadores para não entrarem na esquadra, que foi registada como um PokeStop;

 

4. O jovem de 21 anos, Mike Schultz, cortou a mão em Nova Iorque enquanto andava no seu "skate" à procura de Pokémons;

 

5. Louis Park, um norte-americano de 26 anos, anda no Iraque a lutar contra o ISIS e a caçar e a divulgar publicamente os Pokémons ali capturados;

 

6. Dois militares jogavam Pokémon Go, em Fullerton (EUA), quando descobriram um homem que incomodava crianças num parque público, vindo a saber-se depois que estava também relacionado com uma tentativa de assassínio em Sonoma;

 

7. Uma jovem de 19 anos descobriu um morto num rio em Fremont, no Wyoming (EUA), enquanto procurava Pokémons. A descoberta não a faz desistir de "encontrar um Pokémon na água”, disse à CNN. “Vou tentar”;

 

8. A polícia de O’Fallon, no Missouri (EUA) descobriu quatro suspeitos, entre os 16 e os 18 anos, que atraíam vítimas para as roubarem em locais onde estariam personagens difíceis de obter no Pokémon Go. Algo que já tinham feito igualmente noutras cidades próximas, num total de ataques a "oito ou nove pessoas";

 

9. Um cemitério em Evansville, no Indiana (EUA), foi invadido por jogadores a pisarem as campas, tendo o responsável do local chamado a polícia para encerrar os portões do local;

 

10. Dois homens de cerca de 20 anos caíram de uma arriba em San Diego, no sul da Califórnia, e tiveram de ser resgatados por bombeiros, após terem transposto uma vedação para capturar Pokémons;

 

11. Ainda na Califórnia, dois homens foram assaltados e ficaram sem o carro num parque do Sacramento County, na sua busca por troféus do jogo;

 

12. O responsável de uma clínica para cura de alcoólicos em San Luis Obispo (EUA), revelou que a mesma tinha sido considerada um dos "hotspots" para o jogo. Dan De Vaul tornou público que a clínica albergava acusados de assédio sexual e que por isso não queriam ter crianças aqui por perto;

 

13. Um homem de Sunnyside (EUA) descobriu que a namorada vigiava a casa da sua ex-mulher, ao verificar a captura de Pokémons nesse local;

 

14. Um casal foi preso num jardim zoológico em Toledo, no Ohio (EUA), após terem sido apanhados a saltar uma vedação perto dos tigres para capturarem personagens do Pokémon Go;

 

15. Um condutor em Nova Iorque despistou-se contra uma árvore enquanto jogava. A polícia considerou que o condutor teve sorte, ao contrário do veículo, e que "é um exemplo de como é fácil os acidentes ocorrerem quando alguém está empenhado num jogo e não presta atenção" à estrada;

 

16. Michael Baker, de 21 anos, caminhava em Forest Grove, no Oregon (EUA), quando foi apunhalado por um estranho que fugiu. Em vez de se dirigir ao hospital, continuou na sua captura de Pokémons. Só mais tarde foi tratado, com oito pontos no ombro;

 

17. O canal norte-americano WTSP 10 apresentava o boletim meteorológico quando a jornalista Allison Kropff atravessou "acidentalmente" o palco à procura de Pokémons;

 

18. A Casa Branca foi registada como um "gym" e a entrada no local é um dos mais requisitados prémios no Pokémon Go. O personagem é um Pidgeot que se assemelha a uma águia. Sucedeu o mesmo com o Pentágono, sendo ambos locais de difícil acesso pelo que a sua captura se torna de elevada retribuição social;

 

19. O Museu do Holocausto, em Washington (EUA), pediu aos visitantes para deixarem de ali caçar Pokémons - sabendo-se que existem pelo menos três PokéStops em vários sítios no local. "Não é apropriado no museu, que é um memorial às vítimas do nazismo", explicava Andrew Hollinger, director de comunicação do museu;

 

20. Também a procura de personagens do jogo no antigo campo de concentração de Auschwitz, na Polónia, foi considerada "inapropriada";

 

21. Responsáveis do Carolinas HealthCare System, nos EUA, estão a impedir a entrada nos estabelecimentos hospitalares ou na sua periferia a jogadores do Pokémon Go. "Para segurança dos pacientes e por razões de privacidade, esta actividade não pode ser permitida", dizem;

 

22. O presidente de Israel, Reuven Rivlin, colocou na sua conta do Facebook a imagem de um Pokémon na residência oficial;

 

23. Hillary Clinton realizou a 16 de Julho um evento num "ginásio" do Pokémon Go, em Lakewood, no Ohio. "Juntem-se a nós no PokéStop em Madison Park", revelava o seu site oficial, para "obter pokémon gratuitos, lutarem entre si e registarem votantes e saberem mais sobre" a candidata;

 

24. No Connecticut (EUA), dois jovens à caça de Pokémons descobriram uma mulher nua a vandalizar a igreja de St. Luke em Westport;

 

25. Em Brandon, na Flórida (EUA), a comunidade católica renovou a igreja para convidar à recolha no local de Pokémons e "aproveitar para encontrar Jesus";

 

26. Em Espanha, o El País revelou a história de dois jovens que procuravam personagens no cemitério de La Almudena, enquanto um outro procurava o mesmo na catedral da cidade. O padre Ángel, da igreja de San Antón em Madrid, quando vê jovens à procura de Pokémons, "aproveita para mostrar os supostos restos mortais de São Valentim, patrono dos namorados", considerando que "o mundo de hoje é melhor do que há 200 anos e o que virá será melhor. As provas são estas aplicações, que nos ajudam a conviver mais".

 

And counting.

publicado às 12:41

É isto o novo normal? E vamos habituar-nos a ele?

Por: Paulo Ferreira

Terrorismo, derrocada da banca, extremismos. O pior caminho que podemos trilhar é o de olhar para isto tudo como uma nova normalidade, encontrando um outro equilíbrio e o conforto possível. Porque daí não virão nunca respostas, nem soluções, nem mudanças tão firmes quanto sensatas.

 

Os sobressaltos sucedem-se e cada um deles aumenta os riscos que pendem sobre as nossas cabeças. É o terrorismo e as suas variadas formas, propósitos e geografias. É a prolongada estagnação económica, que ameaça os equilíbrios que fomos construindo durante décadas. É a banca, que tomou como refém o dinheiro dos contribuintes. É o Brexit e a machadada que dá na União Europeia. É a crise de refugiados com o humanismo a que nos obriga. É agora a Turquia, num reforço da deriva autoritária contra tudo o que são os valores que gostamos de atribuir à Europa. É o crescimento dos extremismos e do radicalismo ideológico.

 

Chegámos até aqui lentamente, passo a passo e começamos a ter a perigosa percepção de que “isto” é normal.

 

Cada novo ataque terrorista, por mais hediondo que seja, é cada vez mais um. Todos lamentamos, todos choramos as vítimas e nos indignamos com a barbaridade: como é possível? Mas regressamos à nossa normalidade cada vez mais depressa. O 11 de Setembro - já lá vão 15 anos - e a série da Al Qaeda que continuou em Londres e em Madrid já estão tão longe… Já morreram outros milhares de inocentes depois disso e há quem defenda que temos que nos habituar poque vai continuar a ser assim. Temos mesmo? Devemos habituar-nos?

 

Outro plano, que nós portugueses conhecemos por experiência própria: a banca. Aqui não se trata de ceifar vidas humanas no sentido literal mas da ameaça à nossa forma de vida e à prosperidade a que temos direito. Lembram-se do BPN e do escândalo que foi a derrocada, a nacionalização e a conta que todos estamos a pagar? Dizia-se que tínhamos “batido no fundo”. Somos ingénuos, porque o fundo não era ali. O fundo está, afinal, lá muito mais abaixo e provavelmente ainda não chegámos lá. Depois disso foi o BPP, o BES e os efeitos colaterais na PT, o Banif, agora a capitalização da Caixa. Tudo cada vez mais olhado como fazendo parte da normalidade. Lá fora - que não é verdadeiramente lá fora, as contas destas coisas são sempre mais ou menos partilhadas - a Itália está com um problema bancário de 300 mil milhões e a Alemanha tem o seu Deutsche Bank com uma factura estimada de 150 mil milhões. Os problemas da banca tornaram-se tão normais como o calor em Agosto e o frio em Janeiro.

 

E os refugiados, que continuam a morrer às centenas e os cadáveres a darem às nossas costas, obrigando-nos a refazer as estatísticas?

 

Recordam-se quando os partidos extremistas eram vistos como uma ameaça por chegarem aos 4% ou 5% em eleições? Eles aí estão agora, a disputar o poder taco a taco, nalguns casos. Junte-se, para compor o quadro, a real possibilidade de virmos a ter Donald Trump na Casa Branca e Marine Le Pen no Eliseu. Assustador, não é? Aos nossos olhos pode ser, mas não desprezemos arrogantemente os milhões que votam neles e noutras propostas políticas extremas, venham elas da direita ou da esquerda.

 

Elas são sobretudo alimentadas pelos receios de cidadãos pacatos que, inquietos com a falta de respostas das instituições em que já confiaram no passado, decidem apoiar soluções radicais para resolver problemas que eles sentem como sendo também radicais. É a lógica do “para grandes males, grandes remédios”, embora estes remédios sejam verdadeiramente uma nova doença.

 

O pior caminho que podemos trilhar é o de olhar para isto tudo como uma nova normalidade, encontrando um novo equilíbrio e o conforto possível. Porque daí não virão nunca respostas, nem soluções, nem mudanças tão firmes quanto sensatas. Faltam lideranças capazes, é certo. Essa é mais uma perigosa normalidade.

 

Sobre os sapos conta-se a conhecida experiência laboratorial. São sensíveis à temperatura, claro, e se atirados para uma taça com água a ferver eles saltam imediatamente dali para fora. Mas se forem colocados num tacho com água à temperatura do lago onde vivem eles ali ficam quietos. E se esse tacho for aquecido em lume muito brando o animal vai-se acostumando e não é accionado o instinto que o leva a fugir. Até morrerem cozidos quando a água ferve. É assustador pensar que podemos estar hoje a ser estes sapos.

 

Outras leituras

 

Há cerca de um mês tivemos um momento alto de demagogia por parte de António Costa com a tirada (cito de cor): tantos problemas graves para resolver na Europa e Bruxelas preocupa-se é em aplicar sanções a Portugal. Independentemente da injustiça das sanções no nosso contexto, esta abordagem transborda a populismo. Senão, veja-se o que se passa hoje no nosso Parlamento: tantos problemas sérios para resolver no país e os deputados preocupados com os cogumelos shiitake.

 

Não aprendemos mesmo com os erros passados. Os contribuintes vão pagar 10 milhões de euros em vez dos automobilistas, que beneficiam de um desconto de 15% em algumas portagens. Era importante ter estudos sérios sobre o verdadeiro impacto desta redução de preços na circulação nestas auto-estradas. Quantos condutores deixarão de utilizar vias alternativas porque a portagem desceu de 10 euros para 8,5 euros? Quando as contas puderem ser feitas será já demasiado tarde.

publicado às 11:52

Uma selfie de Paul Ryan diz mais que mil palavras de Trump

Por: José Couto Nogueira

  

A questão do racismo sempre foi uma questão nos Estados Unidos. (Não quer dizer que não seja noutros países, mas cada um tem a sua maneira de não saber lidar com ela.) Nos EUA o problema nem cresce nem decresce – rola como uma onda, com altos e baixos. Ultimamente, a onda está em alta. Porque a polícia anda a matar muitos negros, o que é terrível. Porque o candidato republicano é, entre outras inconveniências, racista, o que não é menos grave. E agora, por um pormenor que poderia ter passado despercebido mas que, por causa das outras causas, explodiu como fogo de artifício nas redes sociais, na comunicação, em toda a parte. Do que se trata? Uma selfie.

 

 

Uma simples selfie publicada por Paul Ryan, o republicano que, por vias da maioria do partido é o Presidente da Câmara dos Representantes. Ryan está em Cleveland, para a Convenção partidária que irá certamente eleger Donald Trump como a aposta do partido à Presidência. Resolveu fazer uma grande selfie, à frente de dezenas de “pagens” (os chamados “interns”, jovens que prestam serviço nos gabinetes dos representantes e senadores.) Todos sorridentes, felizes e bem vestidos – e todos brancos. É verdade, entre os pagens republicanos, rapazes e raparigas, não há sequer um tom mais escuro, muito menos um negro.

 

O Estados Unidos têm um Presidente negro, como todo o planeta sabe. Têm membros do Congresso (Senado e Câmara dos Representantes) negros, ministros negros e uma boa parte dos cargos de topo no executivo são exercidos por negros. Mas são todos democratas. O Partido Democrata não é historicamente o partido do integracionismo, ao contrário do que muita gente supõe por causa da presidência de John F. Kennedy, altura em que supostamente todos os racismos foram legalmente eliminados. Historicamente, basta lembrar que o Presidente Abraham Lincoln, que se meteu numa guerra civil para libertar os escravos, era republicano. Mas, o Partido Democrata é o partido das liberdades, várias, favorável aos imigrantes de todas as cores e, em geral, menos discriminatório nas questões ditas fracturantes.

 

Em compensação, o Partido Republicano, por albergar as forças políticas e sociais mais conservadoras, há décadas que tem uma certa dificuldade em ser visto como equitativo nestas questões, mesmo quando teve um secretério-geral negro. Desde os Bush, pai e filho, que o partido tem vindo a puxar à direita e a ficar mais radical. Os dez candidatos a candidatos presidenciais para a próxima eleição eram todos extremamente conservadores – a única coisa que variava era a religiosidade maior ou menor. Trump, que nem sequer era um militante dedicado com uma folha de serviços que se visse (Trump só se dedica a ele próprio) acabou por afastar todos os outros, inclusive Paul Ryan, com um discurso que, aqui na Europa, nem o UKIP ou o Front Nacional se atrevem.

 

Na política, os lugares eleitos obedecem forçosamente a uma série de critérios, e hoje em dia a imagem será dos mais importantes. Desde o candidato a vereador municipal até ao presidente, passando pelas assembleias e governadores dos Estados, tentam sempre apelar a um eleitorado o mais abrangente possível, mesmo que o façam desastradamente. Quer isto dizer que ser negro, ou hispano, ou asiático, pode ser uma vantagem para ir buscar essas minorias que, em muitos círculos eleitorais, afinal são maiorias.

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Agora, quando se trata de lugares que não são eleitos, ou seja, todos os cargos de gabinete e administrativos, já estas restrições não são tão importantes, e aí é que se vê quem é o quê. No caso dos pagens do Capitólio, como são normalmente chamados, trata-se de pessoas invisíveis. São jovens, escolhidos por influências e contactos pessoais, que assim começam a sua carreira política ou de funcionários públicos. Nunca ninguém se lembraria se verificar se respeitam os equilíbrios considerados politicamente correctos de cor ou de género. Durante muito tempo eram sempre rapazes, mas essa barreira foi ultrapassada há décadas. Pelos vistos a barreira da cor, no que diz respeito ao Partido Republicano, não foi. E esta infeliz grande selfie de Paul Ryan mostra exactamente isso.

 

Resta perguntar: terá isto alguma influência nas eleições, quer dentro do Partido, quer nas Presidenciais? Provavelmente, não. No fundo já toda a gente sabe como está o Grand Old Party. É só ver a escolha de um candidato que quer fazer um muro entre os Estados Unidos e o México, expulsar todos os muçulmanos e recusar vistos aos filhos de hispanos nascidos no país. (Se alguma destas propostas é exequível, não parece preocupar os republicanos por ora).

 

Muito mais efeito nas eleições terão os constantes assassinatos de cidadãos negros pela polícia, um pouco por todo o país. Contudo, a selfie de Paul Ryan ficará para a História por representar numa só imagem milhões de opiniões.

publicado às 12:06

Nem nos deixam tempo para pensar

Por: Sena Santos 

Será que poderemos contrariar a perda do sentido do tempo? Cada dia há um qualquer acontecimento que remove e monopoliza o foco que incidia sobre o que tinha acontecido 24 horas antes, sem termos tido tempo para, em volta do caso anterior, tentar encontrar uma resposta justa que nos conduza à esperança.

 

Numa noite foi o terrorista que usou como bomba um TIR branco para, numa canalhada impensável num ser humano, massacrar as pessoas em festa em Nice. Ele usou o camião contra todos nós, para nos atropelar a todos. Na noite seguinte foi a brutalidade do estanho golpe na Turquia do sultão Erdogan. Passadas outras 24 horas, a notícia era a intolerável violência persecutória do ambicioso autocrata turco que se serve do golpe para reforçar o poder. Pelo meio, outra história, uma agitação e consternação nas redes sociais escritas em português: lastimava-se a revelação de que Liedson, o levezinho no futebol, o avançado que era um 31 para as defesas adversárias, teria morrido subitamente de AVC. Revelação nas redes sociais, sem referência a qualquer fonte. Até que apareceu o próprio levezinho, estupefacto, a avisar que continua “bem vivinho”, mas sem saber como é que alguém o declarou morto aos 38 anos.

 

Emily Bell, diretora do Tow Centre for Digital Journalism na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, escrevia há semanas que “as redes sociais estão a engolir o jornalismo, mas não apenas o jornalismo, engolem também a política, as histórias das pessoas, até a segurança”. Bell comentava que o ecossistema das notícias mudou mais nos últimos cinco anos do que em qualquer outro período dos últimos cinco séculos, desde o tempo de Gutenberg.

 

Há exatamente uma semana, Katharine Viner, diretora do The Guardian, publicou um essencial artigo de opinião em que analisa as profundas transformações que o jornalismo está a atravessar em consequência da consolidação das redes sociais. Viner, escolhida há um ano para substituir na direção do The Guardian o mítico Alan Rusbridger que fez o jornal britânico tornar-se líder global nas edições digitais, é uma mulher jovem mas muito experiente, competente. Ela alerta no texto publicado no dia 12 deste julho que as redes sociais, em vez de divulgar notícias que contribuem para o bem da sociedade e que são a essência do jornalismo, tendem mais para difundir o que está baseado em opiniões ou até rumores em vez de factos verificados.

 

Como surgiu a notícia falsa que galgou pelas redes sociais de que Liedson teria morrido?

E quando são publicadas as imagens de pessoas em agonia tombadas num passeio depois de terem sido esmagadas por um terrorista, como aconteceu na noite de quinta-feira, a liberdade está a ser respeitada?

Como comenta Katharine Viner, precisamos de meios de comunicação fidedignos, que contrastem os factos, que sejam intransigentes no rigor e que tenham sentido crítico sobre o que é noticiável.

 

As redes sociais trouxeram milhares de vantagens, mas tornaram mais difícil distinguir factos de não factos. Viu-se com o caso próximo de Liedson como é fácil fazer propagar uma informação que é falsa. Tal como se tinha visto na noite de 13 de novembro de terrorismo jiadista em Paris com os rumores de que, depois do Bataclan, o Centre Pompidou e o Louvre também estavam a ser atacados. Ou na quinta-feira funesta em Nice com a angústia a ser ampliada com boatos sobre tomada de reféns. Com ou sem deliberada malícia. Sem jornalismo. Com métodos que o jornalismo só pode recusar.

 

Vivemos tempos alucinantes. É uma era que provavelmente tem início em 2001, o ano da matança terrorista de 11 de setembro nos EUA. Vale lembrar essas horas que todos vivemos aterrados com os olhos presos aos ecrãs. Vimos em direto o impacto do segundo avião nas torres do World Trade Center. Vimos em direto o ataque ao Pentágono.  Vimos em direto o desmoronamento das torres. Foi uma tarde (no horário europeu) que parecia de prelúdio ao fim de um mundo. Não se sabia o que viria a seguir, sabia-se que a Al Qaeda estava a declarar guerra total ao nosso modelo de vida.

 

Agora, passados 15 anos, a Al Qaeda parece ter ficado desmembrada e enterrada com a morte de Bin Laden, mas das areias do deserto emergiram grupos e grupúsculos que estão a realizar a desestabilização terrorista do Ocidente ambicionada por Bin Laden. Dois anos e meio depois do 11 de setembro, em 11 de março de 2004, foi a matança de 200 pessoas e um milhar de feridos nos hospitais com as bombas nos comboios de Madrid. No ano seguinte, em 7 de julho de 2005, foram os ataques no metro de Londres, 56 mortos e 700 feridos. Veio 2007 e fomos apanhados pelo colapso do sistema de especulação financeira – desespero para tantos milhões de pessoas.  O terrorismo alastra de modo contínuo, por meio mundo. Os EUA estão massacrados por uma sucessão de episódios de violência racial. Há a infernal sequência de atentados terroristas na África central e mediterrânica, no Médio Oriente, no Paquistão, na Índia, no Bangladesh. E nem é preciso relembrar Paris e Bruxelas. Uma potência europeia decidiu sair da União Europeia. O que pode significar a separação de uma cidade universal como é Londres?  

 

As coisas acontecem e mal temos tempo para pensar na resposta justa. Provavelmente, é o que mais convém a quem nos ataca, sendo que o pensamento sereno e a inteligência estratégica são armas fundamentais para a nossa esperança.

 

A informação, rigorosa, sem dramatização, sem efeitos especiais, é outra arma vital num tempo em que, como evocou David Grossman numa entrevista ao La Repubblica, “o terrorismo está com uma força imensa, capaz de paralisar uma sociedade civil e reforçar os estereótipos racistas”. Grossman, grande escritor hebraico, valente militante pacifista, vive no centro de uma história dramática, a da guerra entre Israel e a Palestina, sofreu a dor da perda de um filho na guerra do Líbano, ele avisa-nos nesta entrevista ao La Repubblica: “É previsível que quanto mais uma sociedade estiver exposta ao terrorismo, tanto mais fortes se tornem as forças nacionalistas e racistas. Assim veremos nos próximos tempos a instalação de mais governos de direita que ao imporem medidas duras vão empurrar minorias para a posterior radicalização”.

 

Nestes dias decorre em atmosfera de epopeia a entronização de Donald Trump como candidato presidencial dos republicanos e não apenas os menos moderados nos EUA. Parece evidente que o derramamento de sangue como aconteceu em Dallas ou em Baton Rouge dá votos a Trump. Também parece claro que o triunfo das ideias de Trump não é coisa boa para a democracia.

 

As ferramentas que tínhamos para entender o que se passa à nossa volta não estão a responder. Os media serão preciosos se forem capazes de dar a mão para fazer compreender. Isso também implica saber dar consistência ao tempo.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

A repressão humilhante imposta pelo vencedor na Turquia. Milhares de soldados, juízes e procuradores, acusados de cumplicidade com os golpistas e com a oposição, estão na primeira linha da repressão desencadeada pelo regime de Erdogan. As imagens da agência ANSA que fazem a primeira página no L’Unità e no Corriere della Sera evocam as purgas na URSS de Estaline, na Alemanha de Hitler ou na China de Mao e Deng: centenas de militares prisioneiros, como se fossem animais lidados com desprezo, vergados, com o tronco nu, mãos algemadas atrás das costas. É a lógica do arbítrio de um regime que ameaça voltar à pena de morte.

 

 

O arrependido ghostwriter de Donald Trump: com remorso e com temores.

 

 

Faltam duas semanas para o começo dos Jogos Olímpicos. O que mexeu no Rio de Janeiro.

 

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: o assunto também é o calor.

publicado às 10:09

Tudo, mas mesmo tudo, o que sempre quis saber sobre o Pokémon Go (desde há uma semana...)

Por: Pedro Fonseca

 

A que se deve o delírio com este jogo de realidade aumentada, acessível em dispositivos móveis e que chegou na passada sexta-feira a Portugal? E porque está a atrair milhões de fãs, a ser usado por políticos, a preocupar as autoridades, a ser elogiado e criticado por entidades médicas e até a ser motivo de teorias da conspiração? E tudo isto quando surgiu de uma mentira de 1 de Abril...

 

 

 

O Pokémon Go é a conjugação perfeita, aquilo que os tecnólogos gostam de apelidar de "killer app": uma aplicação que, sem que as empresas criadoras percebam porquê ou o antecipem, se transforma num inesperado e lucrativo sucesso pela adesão dos utilizadores. O jogo alia a realidade aumentada nos smartphones com acesso ao sistema de localização GPS à captura de personagens virtuais, marcados pela nostalgia de uma existência de 20 anos, num jogo gratuito.

 

COMO FUNCIONA?

Diferente da realidade virtual, que leva os jogadores para mundos virtuais através de um capacete visual, a realidade aumentada coloca entidades (ou informações) virtuais sobre paisagens reais. Exemplos do potencial desta tecnologia têm sido publicitados por empresas como a Magic Leap.

Já o Pokémon Go usa a localização por GPS do smartphone e o relógio para "perceber" onde está o utilizador e a que hora, fazendo então aparecer Pokémons no dispositivo, ao qual se tem de atirar uma PokéBall para o capturar. O mesmo local de manhã pode revelar um Pokémon, enquanto à tarde ou noite pode mostrar um outro para ser capturado.

Os personagens têm de ser apanhados nesses locais para se subir de nível e ganhar mais poderes - sozinho ou numa das três equipas Mystic, Instinct ou Valor -, para completar o Pokédex (há outras vertentes, como a pertença a "gyms", que incentivam acções colectivas, por exemplo).

Ao capturar os diferentes personagens, os utilizadores podem partilhar as imagens dos mesmos em locais reais, propiciando outros a lá se deslocarem para conseguirem apanhar personagens que ainda não tenham.

Os Pokémons contam agora com mais de 720 personagens, mas neste jogo apenas estão disponíveis os 151 originais, de Charizard a Rattata.

O objectivo do jogo é apanhar todos eles - ou "catch ’em all", como está generalizado em inglês.

 

 

O QUE SE PASSA EM PORTUGAL?

O jogo foi lançado oficialmente em Portugal na sexta-feira, 15 de Julho, mas já havia jogadores por cá a usá-lo, criticando a falta de personagens disponíveis. No sábado seguinte, um total de 26 países tinha acesso ao jogo e, tal como tinha sucedido com o lançamento nos EUA, a 6 de Julho, os servidores da Nantic para o seu acesso falharam na Europa e também nos EUA. O grupo de hacking PoodleCorp assumiu a responsabilidade pelo feito mas a criadora do jogo não comentou o assunto.

Lançado gratuitamente para os dispositivos da Apple (iOS 8) e Android (versões superiores à 4.4), chegou a Portugal, Espanha e Itália após ter sido lançado dias antes no mercado europeu no Reino Unido e Alemanha. Neste país e antevendo o seu sucesso, John Legere, director-geral da T-Mobile, anunciou na sua conta pessoal de Twitter que a operadora telefónica vai disponibilizar acesso gratuito a dados ao jogo, durante um ano e a partir de 19 de Julho.

O atraso na generalização internacional do jogo nas lojas de aplicações da Apple e da Google provocou a criação de software infectado com "malware", sucedendo-se os alertas para o "download" do jogo ser feito apenas nas lojas oficiais dessas plataformas.

Em Portugal, a Nintendo salientou em comunicado como "milhares de portugueses saíram à rua para procurar personagens como Pikachu, Charmander ou Bulbasaur nos sítios mais improváveis", como "igrejas, praias, restaurantes" ou "instalações de arte públicas, marcos históricos e monumentos", quando ainda não estava disponível de forma oficial.

Em paralelo, o site de ofertas e leilões OLX anunciou já existir a disponibilidade para Portugal - nomeadamente Lisboa - de serviços de táxi para apanhar os Pokémons. Um dos anúncios que já tinha mais de 2500 visualizações dizia: "se quiserem apanhar pokemons rapidamente, por 30€ por hora levo-vos a qualquer parte da zona de Lisboa. Se quiserem podem trazer amigos e dividem a tarifa".

 

Em paralelo, o site de ofertas e leilões OLX anunciou já existir a disponibilidade para Portugal - nomeadamente Lisboa - de serviços de táxi para apanhar os Pokémons.

 

QUAIS AS ORIGENS?

Lançado em 1996 por Satoshi Tajiri para a consola portátil GameBoy, da Nintendo, o jogo original do Pokémon vendeu mais de 280 milhões de cópias nas últimas duas décadas. Dois anos depois, os personagens foram lançados nos Estados Unidos, dando origem ao seu sucesso ocidental, em jogo de cartas e série televisiva, entre outras oportunidades comerciais.

Agora, o Pokémon Go é uma surpresa, em todas as frentes. "É um fenómeno social", mais do que um jogo, sintetizava a TechTimes. E é igualmente um fenómeno porque surgiu de uma mentira a 1 de Abril de 2014 nos Google Maps, denominada "Pokémon Challenge".

A piada de 1 de Abril obteve retorno, porque o CEO da The Pokémon Company, Tsunekazu Ishihara, já era jogador do Ingress (e antecedente tecnológico do Pokémon Go) e facilitou as conversações para se avançar no desenvolvimento do jogo. Mas será mesmo assim ou a empresa estava apenas a antecipar o jogo, com o apoio da Google?

 

 

QUEM SÃO OS "CULPADOS" PELO POKÉMON GO?

Apesar dos personagens terem sido criados na Nintendo, a versão móvel do jogo não é desta empresa japonesa. A responsável do sucesso dá pelo nome de Nantic e é um "spin off" da Google, com o marketing assegurado pela detentora dos direitos das personagens, a The Pókemon Company (cujos accionistas se distribuem igualmente pela Nintendo e as empresas de jogos Game Freaks e a Creatures).

O Pokémon Go foi lançado em versão de teste no final de Março passado no Japão, anunciado pela Nantic como a sua nova plataforma de “Real World Gaming”. Em Abril, os utilizadores da Austrália e da Nova Zelândia puderam testá-lo, seguindo-se em Maio os Estados Unidos.

Os registos de sucesso do jogo sucederam-se após o lançamento oficial a 6 de Julho: uma semana após ficar disponível nos Estados Unidos, ultrapassou o número de utilizadores da rede social Twitter, do Tinder (aplicação de ligação entre pessoas com os mesmos gostos) e até as horas gastas no Facebook. Segundo o SurveyMonkey, é o jogo de telemóvel mais popular de sempre nos EUA, com mais de 21 milhões de utilizadores diários activos, ultrapassando a saga "Candy Crush".

A Wikipedia revelou que o artigo sobre o Pokémon Go se tornou no mais popular, com um "tráfego de mais de 10 mil por cento", com mais de cinco milhões de visitas até 14 de Julho, tendo sido editado 900 vezes por cerca de 400 utilizadores.

 

uma semana após ficar disponível nos Estados Unidos, ultrapassou o número de utilizadores da rede social Twitter, do Tinder (aplicação de ligação entre pessoas com os mesmos gostos) e até as horas gastas no Facebook

 

 

ONDE ESTÁ O DINHEIRO?

Apesar do sucesso bolsista da Nintendo - as suas acções subiram mais de 20% e, segundo a Bloomberg, a empresa teve o seu melhor momento financeiro desde 1983, quando lançou a consola NES -, ela não será a empresa a obter mais dinheiro com o jogo.

O analista David Gibson, da Macquarie Capital Securities, acredita que "em cada 100 unidades" na App Store da Apple, a distribuição de lucros será igualitariamente de 30 para a Apple, para a Niantic, para a The Pókemon Company e apenas 10 para a Nintendo - uma empresa que passou ao lado da geração de smartphones para apostar nas suas consolas.

 

 

O QUE É A UNITY TECHONOLOGIES?

Qualquer jogo tem como base de software um chamado "motor de jogo", com capacidades gráficas e técnicas que o distinguem doutros softwares e agilizam o desenvolvimento de jogos. Em resumo, vários jogos podem usar o mesmo motor de jogo de uma empresa e esta lucra com essa adopção.

A Unity desenvolveu um motor de jogo para plataformas móveis e diz que o seu software está a ser usado em mais de 300 dos mil jogos móveis líderes e em 90% dos jogos de realidade virtual da Samsung ou do Facebook.

É também esse motor que o Pokémon Go usa e, segundo o New York Times e seguindo o sucesso do jogo nos Estados Unidos, a empresa conseguiu arrecadar na semana passada 181 milhões de dólares de investidores como a DFJ Growth, China Investment Corporation, FreeS Fund, Thrive Capital, WestSummit Capital e Max Levchin. No total, a empresa foi valorizada em 1,5 mil milhões de dólares.

Mas, perguntam os investidores e o público em geral, como se ganha dinheiro num jogo gratuito? Este integra a possibilidade de aquisições em determinadas lojas, bem como a compra da moeda PokéCoin, que pode ser usada para obter "power-ups" e outros itens. Só as microtransacções (para se obterem troféus) geraram numa semana um total de 14,4 milhões de dólares.

 

 

O QUE É A NIANTIC?

A Niantic Labs é uma empresa criada no ambiente Google, que se autonomizou em Outubro de 2015, com a Google, Nintendo e The Pokémon Company a investirem cada uma até 30 milhões de dólares na ronda inicial de investimento (20 milhões no arranque e 10 milhões posteriores, dependendo da empresa "atingir certas metas").

O Pokémon Go surge nessa empresa que há mais de três anos lançou um jogo semelhante (Ingress) e conseguiu desde então 11 milhões de "downloads", mas não revela o número de jogadores activos.

Segundo um comunicado da empresa, o capital obtido no ano passado será investido "para continuar o desenvolvimento do Pokémon Go, para fazer evoluir e crescer o Ingress" e "a sua próspera comunidade global".

Sendo um jogo também gratuito, a Niantic ganha no Ingress pela venda de itens e pode igualmente monetizar o enorme conjunto de dados pessoais que consegue agregar.  Os clientes deste jogo incluem a rede de farmácias Duane Reade, os cafés Jamba Juice, a empresa de aluguer de carros Zipcar e, no Japão, o Mitsubishi Bank, em Tóquio.

Com exemplos como estes, há oportunidades comerciais no Pokémon Go em que empresas, restaurantes, museus ou outro tipo de locais públicos se tornam PokeStops, onde se podem recolher troféus - incluindo personagens raras ou personalizadas.

Esse aproveitamento comercial ocorreu com a L’nizio Pizza Bar em Queens (Nova Iorque), que pagou 10 dólares para ter Pokémons no local e, segundo o proprietário Tom Lattanzio, o negócio aumentou 75%. Em São Francisco, uma casa de chá oferece um chá na compra de um outro a jogadores, enquanto em Harrisonburg (Virginia) um bar dá 10% de desconto a jogadores.

John Hanke, o CEO da Nantic, disse ao Financial Times que "localizações patrocinadas" serão um novo fluxo de receitas, a par das aquisições directas na aplicação. Atul Goyal, analista da consultora Jefferies, apontava que a "monetização" do jogo passa por "publicidade paga ou negócios pagos que encoragem os jogadores a ir a um determinado edifício ou loja. É uma enorme oportunidade".

 

 

QUAIS OS RISCOS E OS PROBLEMAS

Sendo um fenómeno social de tão larga e rápida dimensão, as críticas sucederam-se, nomeadamente quanto à privacidade dos utilizadores (eles não só conseguem "capturar" os Pokémon como partilham a sua localização no jogo e nas redes sociais). Os perigos são evidentes.

Por usar a localização por GPS, a Niantic foi novamente criticada, tal como tinha sucedido pelas autoridades militares norte-americanas, em 2014, quando os jogadores do Ingress tentavam entrar em bases militares para reclamar os prémios do jogo. Agora, são proprietários de locais a queixarem-se da intrusão por - erradamente ou não - o jogo considerar que são PokeStops.

Inicialmente, a Niantic cometeu vários erros na gestão das contas pessoais para inscrição no jogo. Nas contas do iPhone, o acesso era ilimitado a todas as funcionalidades, enquanto na Google existia o acesso total à conta pessoal. Este acesso permitia - como sucede indesejavelmente noutras aplicações - ver emails ou enviar novas mensagens, aceder a documentos no Google Drive ou fotografias no Google Photos, endereço IP, a página Web onde se esteve antes de aceder ao jogo ou outros.

Claro que se podia criar uma conta personalizada em pokemon.com, mas esta esteve inacessível durante dias.

A Nantic já alterou essa política de acesso a dados pessoais, que era também potencialmente perigosa para ela: quem acedesse ilegalmente *a sua base de dados (por "hacking"), colocava-a em problemas legais.

Os termos de serviço foram igualmente criticados pela The Consumerist, que descobriu ser difícil processar a empresa num tribunal normal.

Segundo o acordo assinado pelos jogadores quando se registam, a empresa impede acções conjuntas (vários utilizadores não se podem juntar para a levar a tribunal por um mesmo motivo) e as "disputas legais têm de ser geridas - numa base individual", fora dos tribunais e em modelo arbitral privado. Em resumo, mesmo que milhares de queixosos tenham o mesmo problema contra a empresa, cada um terá de se apresentar por si próprio. Isto permite que cada julgado arbitral possa decidir de forma diferenciada.

Qual é a alternativa? A empresa concede 30 dias após a assinatura inicial dos termos de serviço na sua activação para o jogador se desligar deste tipo de litigação, bastando enviar um email para termsofservice@nianticlabs.com com o assunto “Arbitration Opt-out Notice” e uma declaração a declarar o "opt out" deste modelo.

 

Uma das entidades financiadoras foi a In-Q-Tel, empresa de investimento tecnológico ligada à CIA, neste caso, através da National Geospatial-Intelligence Agency (NGA), cuja missão é "uma combinação única de agência de 'intelligence' e de apoio a combate”

 

E TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO?

O Pokémon Go está igualmente a ser visto como uma "conspiração" de vigilância governamental, por dar acesso à localização pessoal, videocâmara (funcionalidades sem as quais o jogo não funciona) e o referido acesso a dados das contas pessoais, como dizia a publicação online Gawker.

A base eram igualmente os termos de serviço em que a Nantic explicava poder divulgar qualquer informação pessoal (ou de criança autorizada a jogar) que "está na nossa posse ou controlo ao governo ou agentes das autoridades ou entidades privadas".

A acusação visava igualmente a origem da empresa.

A Niantic foi criada por John Hanke, fundador do site Keyhole em 2001, especializado em visualização de dados geo-referenciados. O site foi adquirido pela Google em 2004 e veio a dar origem ao Google Earth no ano seguinte e a desenvolvimentos dos Google Maps - um conhecimento que lhes permitiu desenvolver este Pokémon Go.

Uma das entidades financiadoras foi a In-Q-Tel, empresa de investimento tecnológico ligada à CIA, neste caso, através da National Geospatial-Intelligence Agency (NGA), cuja missão é "uma combinação única de agência de 'intelligence' e de apoio a combate”. A Niantic ainda não clarificou se partilhava os dados dos utilizadores com as empresas associadas, nomeadamente a The Pokémon Company.

Mas um jogo como o Pokémon Go permite saber onde estão milhões de utilizadores em simultâneo, o ambiente em redor - por fotos ou vídeos - e para onde se podem mover de seguida, através de uma proposta do Pokémon Go para recolher um troféu raro num dado local. E permite assim  acumular uma gigantesca base de dados de imagens de locais, impossível de obter com as (muitas delas desligadas) videocâmaras nas ruas. Quando as autoridades precisarem de aceder a um dado local, em termos históricos, a Niantic tem isso guardado.

 

MAS É TUDO NEGATIVO?

Não.

Segundo John Hanke, o CEO da Niantic, o jogo "foi concebido para fazer andar, prometendo os Pokémon como prémios, em vez de colocar alguma pressão" no jogador. É para "ver o mundo com novos olhos", "fazer a sua vida melhor de uma pequena forma" e "dar às pessoas uma razão para estarem juntas".

O Pokémon Go está a estimular relações pessoais positivas e a levar as pessoas a saírem de casa, contrariando uma crítica tantas vezes feita aos videojogos sedentários.

Como mostrava uma piada, com um cão extenuado no chão, que se questionava como é que o dono já o tinha levado à rua nove vezes nesse dia: "o que raio é o Pokémon?", inquiria o animal.

Esta é uma das razões pela qual o jogo está a ser defendido: as pessoas (nomeadamente crianças) deslocam-se para fora de casa, fazem exercício físico, conhecem novos locais - incluindo sítios históricos para os quais não estariam motivados a conhecer anteriormente - e é mesmo um potencial para ultrapassar problemas de agorafobia.

Uma jornalista do Wall Street Journal descreveu como, na cidade de Nova Iorque, conhecida pela sua dificuldade em gerar empatia com pessoas na rua, o jogo está a ser uma plataforma de relacionamentos. As pessoas conhecem e falam com outros jogadores sobre onde obter personagens que faltam para a sua galeria de Pokémons.

A Nantic também pensou nos truques dos potenciais sedentários. Por exemplo, os personagens não podem ser capturados quando se conduz um veículo a mais de 30 quilómetros por hora. Mas há sempre quem consiga usar a tecnologia contra as novas propostas tecnológicas: a revista Forbes explicava como se podia usar um drone para aceder aos Gyms e PokéStops sem "abandonar a vizinhança do frigorífico e do confortável sofá".

Para quem o faz, a possibilidade de se defrontar com casos estranhos ou proporcionar relatos de situações bizarras sucedem-se.

publicado às 08:34

Uma vergonha

Por: António Costa

O que se está a passar com a Caixa Geral de Depósitos é escandaloso e deveria fazer corar de vergonha o ministro das Finanças, Mário Centeno: o maior banco do país está parado há pelo menos seis meses e, pior, numa situação de incerteza total em relação à equipa, à estratégia e ao capital. Como se não faltassem já problemas numa economia em degradação crescente, o Governo encarregou-se de criar mais um a si próprio e ao país.

 

É difícil, até, perceber a forma plácida como a situação da CGD está a ser comentada, desde logo pelo Presidente da República que, ainda há 15 dias garantia que hoje já haveria equipa. Não só não há, como começa a ser claro que não haverá tão cedo. E as dúvidas do BCE – às quais se juntarão seguramente as da direção geral da Concorrência europeia – já conhecidas, permitem dizer que nada está seguro, nem sequer a manutenção da Caixa Geral de Depósitos como banco público.

 

A história da CGD não começou em novembro do ano passado, é certo, com a entrada do novo Governo. É evidente que a CGD precisava de capital nos anos anteriores, mas o governo de Passos optou por não o fazer. Por boas e más razões, a CGD ficou debaixo do tapete, mas os maus negócios e a ausência de rentabilidade, essas, não. Agora, não é possível, não é aceitável, que a gestão do banco público esteja demissionária desde o início do ano, de facto e de direito, e ninguém dê explicações. Ah, é verdade, Centeno falou ao país 15 minutos sobre a CGD antes do jogo de futebol entre Portugal e a Hungria para não dizer nada. Sabe-se, hoje, que António Domingues será o presidente executivo, e pouco mais. Tudo o resto são fugas de informação, organizadas ou não, e por confirmar.

 

 

Não se sabe quem é a equipa, não se sabe que estratégia terá, não se sabe qual será a necessidade de capital, não se sabe quantos administradores terá, e agora sabe-se que o BCE pede um Plano B para o banco público que permita a capitalização sem a ajuda pública.

 

 

É urgente que o ministro das Finanças pare para pensar, e dê explicações. Sem cachecol da seleção, apenas com o da governação. Porque os efeitos são tão negativos que a CGD estará hoje a perder depósitos para a concorrência, como disse, aliás, Stock da Cunha. E está a gerar um efeito negativo, de imagem e reputação, sobre toda a banca nacional que está exposta ao mercado de capitais, como se vê, também, nas cotações do BCP e na dificuldade de venda do Novo Banco.

 

O Governo está mais preocupado em responder às dúvidas das instituições internacionais com notícias sobre os novos administradores independentes para a CGD e com o Orçamento participativo – como se gerir um país fosse igual a gerir uma câmara – em vez de travar, de uma vez por todas, as confusões em torno do banco público e de concentrar os esforços em negociar uma solução tão rápida quanto possível.

 

As escolhas

António Costa garante que tem almofadas orçamentais para evitar uma nova derrapagem do défice, como por ler, e ouvir, em www.rr.pt. O plano B do Governo é, portanto, cortar o que estava já cativado, cerca de 360 milhões de euros. O problema é que a economia está em derrapagem acelerada, as previsões mais recentes já apontam para um crescimento da ordem de 1%, 0,8 décimas abaixo do previsto. 

 

E na Turquia, está em curso a construção de uma ditadura efetiva, depois de uma tentativa amadora de golpe de Estado. Erdogan está a endurecer um regime político, um sistema de um país que está, há anos, para entrar na União Europeia. Já foram detidas mais de sete mil pessoasler aqui em www.sapo24.pt – e é bom não esquecer que foi a União Europeia a pagar à Turquia para ‘receber’ refugiados, que continuam a chegar todos os dias.

 

 

publicado às 13:58

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