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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Brasil: o Carnaval que todos levam a mal. E os Jogos Olímpicos estão à porta

 Por: José Couto Nogueira

 

Preocupados com o tiro no pé do Brexit, as declarações biliosas de Schaüble, as inconveniências de Juncker e a sorte que espera esta Europa, os portugueses não têm prestado muita atenção ao Brasil. Mas no Brasil acontecem coisas que chegam para cobrir qualquer desgraça que se lhe contraponha. O clima tem a tensão e agressividade de pré-guerra civil – embora não haja uma guerra civil à vista.

 

 

Hoje que é dia de se falar de selecções, no Brasil onde nada corre bem, até a selecção da casa desistiu de dar uma alegria ao ser vergonhosamente eliminada da Copa América, perdendo por zero a um com o Peru. Para a população, foi mais uma machadada no prestígio nacional e motivo para lamentações. Em termos desportivos, seguem-se os Jogos Olímpicos, marcadas para Agosto. Ora, a menos de um mês do maior evento desportivo do mundo, a cidade do Rio de Janeiro ainda tem várias obras fundamentais por acabar, caiu a ponte duma ciclovia, matando duas pessoas, e a baia da Guanabara, onde decorrerão as provas náuticas, continua uma boca de esgoto. Os últimos vídeos mostram sofás a flutuar numa água castanha cheia de dejectos sintéticos e orgânicos. Os maiores investimentos urbanos, a vias rápidas Transolímpica, a Transcarioca e o metro, talvez não fiquem prontos a tempo. As razões para todos estes atrasos e desaires, são as mesmas de sempre: esquemas corruptos em que grande parte das verbas são desviadas, o que leva a construção deficiente e lenta. A administração da cidade entregou as obras a empresas de familiares ou amigos, que sobrefacturam a troco das habituais luvas (“propinas”). A situação chegou a tal ponto que a cidade se declarou oficialmente falida, o que obriga o Governo Federal a conceder mais uns milhares de milhões de reais de financiamento.

 

Internacionalmente, não faltam críticas ao que se passa no Rio, com receios de que os atletas apanhem doenças na baia ou sejam picados pelo mosquito zika. Também há o problema da segurança; os trombadinhas andam à solta pela cidade, roubando por puxão tudo o que o transeunte possa trazer, às vezes com violência. A polícia e os bombeiros fazem greve, com salários atrasados; e o Governador interino do Estado, Francisco Dornelles, de 81 anos, limita-se a dizer que está tudo sob controle, quando é gritante que não está. Antigo ministro da Ditadura Militar, mantém o estilo arrogante e não se sente obrigado a responder às incertezas colocadas pelos jornalistas.

 

Mas os problemas das Olimpíadas e o extremo perigo que é andar nas ruas do Rio de Janeiro não são os temas dominantes no país. O que realmente arrebata uma opinião pública cada vez mais radicalizada é a intensa luta política do dia a dia. Formalmente, é uma disputa jurídica, em torno dos vários casos de corrupção em julgamento, mais os novos casos que aparecem todas as semanas. Mas o corpo a corpo entre os elementos das partes interessadas é muito mais complexo e difícil de esclarecer, até porque as alianças fazem-se e desfazem-se conforme a sobrevivência imediata.

 

Em termos judiciais, o sistema funciona da seguinte maneira: as procuradorias federais (dos Estados) descobrem um caso de corrupção, a Polícia Federal prende os suspeitos, estes são julgados em primeira e segunda instância. A prisão torna-se efectiva (transita em julgado) a partir da segunda instância, mesmo que os réus recorram para o Supremo Tribunal Federal (STF). Perante uma pena de prisão normalmente pesada (12, 15, 25, 30 anos) o réu aceita denunciar novos ilícitos (a famosa “delação premiada”), o que leva a novos processos. Existe uma proposta para que o réu continue em liberdade até à decisão do STF, o que mudaria completamente a situação; não estando preso, é muito menos provável que se resolva a falar. Se a proposta for para a frente, a capacidade de investigação das procuradorias estatais fica reduzida a quase nada. Acresce ainda que os políticos em exercício só podem ser julgados pelo STF – é o chamado “foro privilegiado”. O Congresso votou o fim dessa benesse, mas o STF ainda não concretizou o processo, por razões óbvias: todos os actuais “privilegiados” deixariam de o ser e ficariam na mão das procuradorias estatais.

 

Dois anos e três meses após o início das investigações da Operação Lava Jato, fica cada vez mais evidente o contraste entre a celeridade dos julgamentos que levam a condenações em massa, em Curitiba, e a lentidão dos processos envolvendo réus com direito a foro privilegiado, em Brasília.

Estas são as disputas de fundo.

 

 

Depois, há as disputas caso a caso. O STF não tem prazo para decidir os processos, permitindo-se avançar com uns muito rapidamente e empatar outros meses ou anos. Nos 59 inquéritos, envolvendo 134 investigados, até agora enviados pela Operação Lava Jato ao STF, nenhum caso foi levado a julgamento e, portanto, ninguém foi condenado. Nem há previsão para que isso aconteça tão cedo. Há processos, como o de Aloísio Mercadante, que estão parados há anos no STF, sem qualquer explicação. O STF também pode devolver o caso ao juiz federal, alegando questões processuais, ou pedindo mais esclarecimentos, ou ainda eliminando partes da investigação. É o caso de Lula. O ministro do STF, Teori Zavascki (nomeado por Dilma), começou por tirar as investigações contra o ex-presidente das mãos de Sérgio Moro. Moro não podia investigar Lula e, evidentemente, personagens com foro, como Dilma e os seus ministros.  As apurações já feitas por Moro tratavam, por exemplo, da suspeita de que construtoras envolvidas em corrupção na Petrobras prestaram favores ao ex-presidente na reforma de uma quinta em Atibaia e de um apartamento em Guarujá. Mas a pressão foi tal que Zavascki acabou por enviar processo de Lula para Moro; contudo retirou dos autos a famosa conversa entre Lula e Dilma em que ela lhe oferece um lugar no ministério para lhe dar foro privilegiado. Sem essa conversa, Dilma fica protegida da acusação de obstrução da justiça. As mudanças de opinião dos juízes do STF (de onze, só três não foram nomeados pelo PT), andam ao sabor das conveniências e filiação política.

 

Entre os políticos, o único que já se tornou réu é o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, o político que liderou o processo de impeachement contra Dilma. Na semana passada, por unanimidade, os onze ministros do STF acataram nova denúncia feita pela Procuradoria Geral da República. Cunha é acusado pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e “falsidade ideológica” (adulteração de documentos). Esta semana, e após uma reunião com o presidente em exercício Michel Temer, Cunha demitou-se da presidência da câmara baixa do Congresso, ensaiando um melodrama no momento do anúncio.

 

Outro exemplo: Paulo Bernardo, ex-ministro do PT, foi apanhado num esquema terrível: ele e os seus apaniguados criaram uma empresa, a Consist, para gerir informaticamente os empréstimos feitos por funcionários públicos reformados. Por cada empréstimo o reformado pagava, sem saber, um real por mês para a Consist. O esquema teria dado cerca de 100 milhões de reais ao grupo. Paulo Bernardo é casado com Gleisi Hoffmann, a senadora que defende o Dilma no processo de impeachment e tudo indica que parte do dinheiro foi usado para gerir a sua eleição. Dos oito acusados, sete foram detidos e um oitavo apareceu envenenado. Mas, antes que a investigação prosseguisse, o juiz do STP Toffoli mandou libertá-los, indicando tratar-se de um “constrangimento ilegal”...

 

A politica do país transformou-se num carnaval, não no sentido de todos se divertirem, mas na imagem de uma festa de brincadeira onde os mascarados pulam de acordo com objectivos pouco claros, no meio do chinfrim das declarações e contra-declarações, entre o ridículo e o despudorado.

A opinião pública está farta, mas o cortejo de poucas-vergonhas ainda vai no adro.

 

 

publicado às 00:05

O que faz falta é animar a malta. Da banca, claro.

O vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), Vítor Constâncio, foi orador numa conferência organizada pela Universidade de Navarra onde, naquele jeito cabisbaixo de quem quer passar despercebido, partilhou com a audiência a sua visão sobre o que faz falta nestes tempos pós-Brexit. Disse Constâncio: “A situação atual, depois de uma nova onda de baixas nos preços das ações depois do ‘Brexit’, merece uma reflexão profunda sobre a compensação de algumas falhas de mercado com um pequeno apoio público para melhorar significativamente a estabilidade de alguns setores bancários”.

 

A afirmação pode parecer mais ou menos densa – Constâncio style – mas não percam o foco do essencial. Porque o essencial a reter do “pensamento” do vice-presidente do Banco Central Europeu e ex-governador do Banco de Portugal é que precisamos de dar um “pequeno apoio público” à banca para resolver “algumas falhas” do mercado.

 

Pequenos apoios públicos e bancos na mesma frase só pode ser produto de um problema de memória. Que, aliás, parece ser um problema recorrente em Vítor Constâncio. Para que não padeçamos todos da mesma doença, é importante recordar o que, ainda há pouco tempo, o mesmo Constâncio disse sobre a situação do Banif, um dos bancos, mais um, que nos obrigou a uma “reflexão profunda” sobre as falhas do mercado. A 28 de Junho, o vice-governador do BCE disse ter hoje uma memória "muito lacunar" dos assuntos em torno do Banif que lhe passaram pelas mãos. Conseguia apenas recordar-se o suficiente para garantir que, até 2010, o banco não apresentava "problemas significativos". Isto porque 2010 é precisamente o ano em cessou funções no Banco de Portugal, a entidade que tinha como responsabilidade supervisionar os bancos.

 

A memória que guarda dos seus tempos enquanto governador do Banco de Portugal é tão “lacunar” que para responder à comissão parlamentar de inquérito ao Banif – tarefa à qual se tentou escusar por todos os meios – Constâncio até teve de consultar a página de internet do Banco de Portugal, porque o Banif não figurava sequer na sua lista de prioridades enquanto governador do Banco de Portugal (não era suficientemente importante) e, como gosta de recordar, nunca teve a seu cargo o pelouro da supervisão. "O Banif não era dos bancos mais importantes do sistema e não suscitou durante o meu mandato problemas significativos que me tivessem sido apresentados a mim ou ao Conselho de Administração", afirmou.

 

Ora, Constâncio foi governador do Banco de Portugal durante dez anos, entre Fevereiro de 2000 e Maio de 2010. O mesmo periodo em que também não se apercebeu de que alguma coisa de relevante se passasse com outro banco, o BPN. E outro, o BPP. Para não falar mesmo daquele outro, o BES. Provavelmente, nenhum era suficentemente importante para entrar na agenda do governador.

 

Talvez fosse importante sabermos quais foram as prioridades desses dez anos de má memória para Vítor Constâncio, até para lhe fazer justiça. Vamos imaginar que ao descartar como problema bancos que se tornaram um grande problema, preveniu que situações bem mais graves acontecessem. Só que a história teima em não lhe fazer justiça porque quanto mais sabemos do que se passou nos últimos dez anos na banca, mais ficamos convictos de que, a existirem novidades, serão sempre piores e não melhores. Como aliás atesta a recente implosão do dossier Caixa Geral de Depósitos. É por isso que quando ouvimos falar de “pequenos apoios públicos” temos todas as razões para ficar nervosos.

 

Mas voltando ainda a Constâncio. Terminado o seu mandato em Portugal, foi indicado para exercer as funções de vice-governador do Banco Central Europeu, o que faz com que sempre que se fala deste tema seja irresistível concluir que se tratou de uma promoção pelo bom trabalho. É uma ironia amarga, mas valha-nos que Constâncio demonstra um inequívoco sentido de missão europeia. Só que é daquela Europa que nos trouxe aonde estamos hoje, nos tais tempos pós-Brexit. A Europa dos poderes centrais que nada devem nem temem às democracias de cada país.

 

Foi em nome dos sacrossantos processos europeus que Constâncio se recusou a prestar declarações ao parlamento português sobre o Banif, invocando a violação das normas que regem a União Europeia. Não é falta de vontade, terá dito, é mesmo e tão somente em nome do rigor das regras europeias. Foi imediatamente secundado pelo presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, em carta enviada ao parlamento português que pôs os pontos nos iis e lembrou a cada um o seu lugar: a partir do momento em que foi nomeado vice-governador do Banco Central Europeu, Vítor Constâncio passou a ser um quadro de uma instituição Europeia que responde apenas perante o Parlamento Europeu, conforme o Tratado da União Europeia.

 

Bom, então isso deve querer dizer que, de 2010 para cá, deverá poder responder como responsável do Banco Central Europeu e, nesse âmbito, ouvido pelas suas responsabilidades nessa função. Errado, uma vez mais.

 

No documento que enviou ao Parlamento Português, Vitor Constâncio não deixa margem para equívocos e não apresenta qualquer “memória lacunar”. Esclarece que o próprio BCE só passou a ter responsabilidades de supervisão a partir de novembro de 2014, através do Mecanismo Único de Supervisão. E sabem que mais? Este dito mecanismo está fora do pelouro do vice-presidente, lugar que Constâncio ocupa.

 

Mas se, mesmo assim, algum espírito mais teimoso e mal intencionado ainda procurar ver no lugar do vice-governador do BCE algum resquício de responsabilidade, Constâncio também tem resposta: as responsabilidades de supervisão do BCE só se aplicam aos maiores bancos de cada país, o que não era o caso do Banif, que era supervisionado diretamente pelo Banco de Portugal.

 

Constâncio foi secretário-geral do PS, ministro das Finanças, governador do Banco de Portugal e é, há seis anos, vice-governador do Banco Central Europeu. Só para avivar a memória de todos nós. Às vezes, também nos dava jeito não nos lembrarmos de que foi e é assim que chegámos a esta Europa e a este status quo da banca, dos negócios e da política.

 

P.S. – Para ajudar a suprir alguma “memória lacunar”, aqui ficam também alguns números: entre 2008 e 2014, os portugueses deram um “pequeno apoio” de 19,5 mil milhões de euros à banca - o equivalente a 1950 euros por contribuinte e, em contas mais macro, a 11,3% do produto interno bruto. Os dados são do Banco Central Europeu, por isso devem ser fidedignos.

 

Tenham um bom fim de semana.

 

Outras sugestões:

Portugal está entre os países com pior salário e segurança laboral, diz a OCDE. E somos, também de acordo com a mesma organização, o 10º país, numa lista de 38, com maior carga horária laboral: 1.868 horas, mais 102 horas que a média da OCDE. A Alemanha é, entre os países analisados, o que regista menos horas de trabalho ao ano, com 1.371 horas. Lá voltamos nós a falar de produtividade, trabalhar melhor em vez de trabalhar mais e de criar condições para que isso possa acontecer.

 

 

O que perguntam as mães e os pais ao Google sobre os seus filhos? Depende, se são meninos ou meninas. Dos primeiros querem saber se são inteligentes, das segundas se são bonitas. Mais um contributo para a discussão sobre os estereótipos de género.

 

A verdade – seja lá o que isso for. É essa a materia-prima de Karl Knausgård, o norueguês que é o actual rei da autobiografia com a saga “A minha luta”. O segredo do sucesso? “Para mim, escrever é como ler. É o lugar onde podemos ser livres. Talvez seja o único lugar onde o conseguimos experimentar essa sensação." Agora tem um novo projecto e o Brasil faz parte dele.

 

 

Paris, domingo, 10 de julho, 20h. Marquem na vossa agenda.

publicado às 11:15

A queda do malvado preferido

Por: José Couto Nogueira

 

Mesmo num ambiente político onde não faltam vilões, há uma graduação de malvadeza, considerando o que deles se sabe. Na longa lista de Brasília, pode dizer-se que Eduardo Cunha, o deputado do PMDB que organizou e dirigiu o impeachment de Dilma Rousseff, está em primeiro lugar. Hoje,com a voz embargada e lágrimas nos olhos, anunciou que renunciava ao lugar de presidente da câmara baixa do Congresso, cargo de que estava afastado desde Maio.

 

 

Porque é Eduardo Cunha considerado o 'malvado preferido' do Brasil? Por três motivos. Primeiro porque, ao organizar o impedimento da Presidente Dilma, para desviar as atenções dos seus próprios ilícitos, conquistou a inimizade do PT e de toda a esquerda; depois porque, tendo apoiado inicialmente o governo petista, para se proteger de falcatruas há muito sabidas, desde sempre teve a inimizade da direita. Finalmente, porque Cunha é um dos poucos cuja culpa já está formada há muito tempo e amplamente documentada, e mesmo assim continuava a agir impunemente.

 

É por tudo isso que nas redes sociais é chamado de “o meu malvado preferido” - precisamente por ser considerado o mais esperto dos corruptos. De facto, há cerca de um ano que se provou que Cunha recebeu luvas no esquema de corrupção da Petrobras, e inclusivamente os bancos suíços enviaram os extractos das contas dele, da mulher, Cláudia Cruz, da filha adulta, Daniele. Circulam pelos jornais e redes sociais os recibos das despesas sumptuosas das duas, isto enquanto na declaração de rendimentos do deputado apenas está listado o seu salário na câmara. Aliás, estão ambas detidas na Polícia Federal.

 

Pois bem, esta quinta-feira Eduardo Cunha anunciou que renuncia à presidência da Câmara, cargo de que estava afastado desde Maio, uma decisão do Supremo Tribunal Federal, por causa das acusações que sobre ele pendiam. Cunha leu a carta de renúncia com a voz embargada e lágrimas nos olhos. Listou os seus feitos como presidente da câmara baixa do Congresso, dos quais o mais relevante será, sem dúvida, ter chefiado o processo de impeachment da Presidente.

 

Depois dos auto-elogios, as lamúrias; Cunha queixou-se de ser perseguido e, sobretudo, do facto de a mulher e a filha estarem detidas (ele não está, por beneficiar de imunidade parlamentar). O deputado voltou a afirmar inocência nas acusações contra ele: "Quero reiterar que comprovarei minha inocência nesses inquéritos. Reafirmo que não recebi qualquer vantagem indevida de quem quer que seja".

 

Os observadores perguntam-se porque é que o maquiavélico Cunha terá tomado esta decisão, neste momento. No inicio da semana teve um encontro a sós como o Presidente interino Michel Temer, encontro esse que foi muito criticado, mas do qual nada saiu. Ao demitir-se agora da presidência da Câmara, alegou que foi para facilitar os trabalhos, pois o colectivo está a funcionar com um presidente interino, Valdir Maranhão, considerado por todos como um incompetente. Mas é lógico pensar que as razões sejam outras – quais, é difícil de saber, no emaranhado e manobras que diariamente ocorrem em Brasília.

 

É de salientar que, apesar de deixar definitivamente a presidência da Câmara, Cunha continua como deputado, portanto mantém a imunidade (“foro privilegiado”). Não se espera que o STF a levante, o que o deixaria nas mãos do juiz Sérgio Moro, para uma condenação certa e, certamente, pesada. Todavia, é evidente que esta demissão é o princípio do fim para Cunha. Em Brasília não se fala de outra coisa.

 

Ao terminar o seu discurso de renúncia, o ex-presidente da Câmara reiterou:

"Tenho a consciência tranquila, não só da minha inocência, mas de ter contribuído para que meu país se tornasse livre do governo criminoso do PT".

Quanto à primeira afirmação, vale e pena lembrar o grande filósofo brasileiro Millôr Fernandes:

“Uma consciência tranquila, geralmente é sinal de péssima memória.”

 

 

publicado às 21:05

Lisboa que sobe e desce

Por:Pedro Rolo Duarte

 

 Anualmente, a prestigiada e atenta revista “Monocle” dedica parte de uma edição ao ranking das melhores cidades do mundo para viver. A lista é elaborada a partir de uma série de critérios, nem todos óbvios, mas todos ligados à vida quotidiana das cidades: desde a facilidade em jantar depois das dez da noite às horas anuais de sol, passando pelo nível de aceitação de animais domésticos nos espaços públicos, a revista considera itens como estes ao lado dos clássicos desemprego, população, integração religiosa, etc.

 

Lisboa faz parte das 25 cidades “top” há vários anos, tendo vindo a subir na tabela: em 2014 estava no 22º lugar, em 2015 subiu para o 18º, e este ano ficou no 16º. O comentário do jornalista encarregue de justificar a classificação sublinha a cada vez maior convivência entre o lado histórico da capital portuguesa e o seu crescente cosmopolitismo e modernidade. No fim, nas recomendações para melhorar a qualidade de vida, fala de dramas verdadeiramente assustadores para todos, como os números do desemprego jovem (34,4%), e do caos do trânsito na cidade, que faz a cabeça em água, a muitos de nós, diariamente.

 

Tenho um especial interesse por estes olhares que vêm de fora e surpreendem com pormenores que nos escapam, mas também se equivocam com aparências sem fundamento. Nesse sentido, a classificação de Lisboa no ranking da “Monocle” mostra uma verdade - uma metrópole em mudança -, mas passa ao lado de uma ameaça real para quem vive na capital: cada vez é mais fácil ser turista na cidade, na mesma proporção em que é cada vez mais difícil viver nela.

 

É indiscutível que os últimos anos trouxeram vida a Lisboa, espaços públicos de qualidade, oferta cultural, requalificação de bairros, comércio cosmopolita, e uma diversidade de eventos e iniciativas que chegam a deixar-nos perdidos, de tanta oferta. Mas, ao mesmo tempo, além de se deixarem morrer ícones que faziam parte da nossa História e do nosso Património (ainda esta semana fechou mais uma loja clássica, a bicentenária “Tavares”, da Rua dos Fanqueiros…), tornou-se de tal forma prioritária a oferta turística que se negligenciaram as necessidades de quem vive e trabalha aqui. Lisboa é hoje uma cidade difícil para os lisboetas. Difícil na deslocação em transportes públicos, caótica no trânsito, cara na economia do dia-a-dia, escassa na possibilidade de habitar o centro da cidade. Em vez de servir os lisboetas, o poder local parece querer mandá-los para longe…

 

Quanto mais nos abrimos ao exterior, mais esquecemos quem já cá estava. Nessa medida, a qualidade de vida de Lisboa deteriora-se ano a ano, ao contrário do que faz crer o olhar distante e simpático da “Monocle”. Estamos a subir no ranking de quem nos visita - mas vamos a pique no coração de quem acorda todos os dias naquela que já foi, e cada vez menos é, a nossa “menina e moça”…

 

PS - Se calhar seria de esperar que escrevesse sobre o tema do dia, a passagem de Portugal à final do Euro 2016. Um orgulho para todos, sem dúvida. Mas eu não sou um especialista em futebol, sou apenas um espectador entusiasmado. E se passo a vida a criticar os “achistas” que enxameiam Portugal palpitando sobre tudo e todos, não quero ser mais um treinador de bancada a dizer o que me vem à cabeça. Só espero que domingo haja festa!

  

 

Para ler sem falta esta semana…

 

Uma matéria muito prática e objectiva sobre alguns dos “luxos europeus” que os britânicos vão perder em breve. Saiu há dias no suplemento Mercados do jornal El Mundo.

 

Sofre de ansiedade? E se trocasse essa palavra por outra, que lhe retirasse a carga negativa que sempre lhe associamos? Um pequeno video - posso chamar-lhe reportagem… - da revista The Atlantic, explica como e porquê.

 

… E por falar em ansiedade, eis o site da revista mais zen que circula por aí. O preço de venda ao público não é muito zen - mas o site dá uma ajuda a tornar a nossa vida mais tranquila em torno do que é simples, natural, humano. Vale a pena descobrir a Kinfolk.

 

 

publicado às 09:38

Já vimos um filme parecido com este

Por: Paulo Ferreira

 A cada dia que passa a Europa torna-se um local mais instável. Em caso de tempestade, a debilidade da nossa economia, das nossas finanças e dos nossos bancos fará de Portugal uma das primeiras vítimas. Tudo isto recomendaria um reforço da cautela, das margens de segurança e de “dinheiro nos cofres” para eventualidades. Mas vamos seguindo o caminho contrário.

 

Sabem aquela sensação de “déjà vu”? Tudo isto não vos faz lembrar nada? Já vimos um filme com um desenvolvimento de enredo muito semelhante a este.

 

Os alertas cada vez mais frequentes e mais ruidosos vindos de fora. São analistas de bancos internacionais, agências de rating, instituições internacionais como a Comissão Europeia ou o FMI e alguns responsáveis europeus. Uns alertam para os riscos de aumento da dívida pública, tornando-a ainda mais insustentável. Outros falam da necessidade de tomar medidas para que o défice orçamental deste ano se cumpra. Todos apontam o optimismo do cenário macroeconómico em que tudo isto está assente.

 

Bastou que um deles tenha sido Wolfgang Schauble, o ministro das Finanças alemão que adoramos odiar, para que a atenção se fixasse no mensageiro e nas suas maquiavélicas intenções e não na mensagem. E esta devia fazer-nos parar para pensar e verificar contas.

 

Já vimos um filme parecido com este, onde o optimismo e a confiança do governo destoava cada vez mais do que estava à volta. Diz-se que a contas estão certas, que não são necessárias mais medidas, que está tudo a correr conforme previsto.

 

Também já vimos no passado que o primeiro-ministro fica cada vez mais isolado nesse papel. O próprio ministro das Finanças fez o alerta, em entrevista ao Público, para a necessidade de corrigir previsões macroeconómicas para este ano. Mas António Costa apressou-se a dizer que “os dados estão lançados e dão contas certas”. Não se sabe quem fez estas contas, se haverá um ministro-sombra das Finanças no próprio Governo que saiba o que mais ninguém parece saber. O que parece evidente é que a uma degradação do cenário económico costuma corresponder uma necessidade de revisão das contas públicas.

 

Outro dado que não é novo é o recurso a imprevistos externos para justificar derrapagens internas. Como se dentro de casa estivessemos a fazer tudo com segurança, consistência e executando um plano com poucos riscos. Nesta matéria, o Brexit ameaça ser o novo “o mundo mudou”. Servirá para justificar tudo e mais alguma coisa.

 

Já vimos um filme parecido com este, onde a cada mês os dados da execução orçamental são festejados e apresentados como prova inequívoca e definitiva de que tudo está no trilho certo. Gostava muito que fosse verdade mas as variações intra-anuais de despesas e receitas não permitem comparações directas. As análises mais detalhadas que foram feitas sugerem mais cautela sobre o andamento das contas públicas. Do outro filme sabemos que as boas execuções orçamentais mensais resultaram invariavelmente em desastres no fim de ano. O mesmo se passava com as emissões de dívida pública, que eram “vitórias” regulares. Como se viu.

 

O filme que vimos no passado não acabou bem, como sabemos. Agora, estamos ainda a tempo de rever o guião, produzindo um daqueles surpreendentes “volte face”. Porque nada é pior do que entrar para ver uma comédia-romântica bem disposta em que tudo só pode acabar bem e sair da sala depois de um desfecho de tragédia.

 

A cada dia que passa a Europa torna-se um local mais instável. O Brexit é um caminho desconhecido, com impactos económicos e financeiros imprevisíveis. Em caso de tempestade, a debilidade da nossa economia, das nossas finanças e dos nossos bancos fará de Portugal uma das primeiras vítimas. Tudo isto recomendaria um reforço da cautela, das margens de segurança e de “dinheiro nos cofres” para eventualidades. Mas vamos seguindo o caminho contrário, esperando que seja o mundo a adaptar-se às nossas contas e não o contrário.

 

Já vimos um filme parecido com este. Esperemos que o desfecho seja radicalmente diferente.

 

Outras leituras

  • Mas há coisas que correm bem, como o turismo. Vamos ver se conseguimos não estragar esta parte?

 

  • Se as forças armadas não conseguem recrutar candidatos num país onde a taxa de desemprego jovem é de 30%, atingindo mais de 100 mil pessoas que até aos 25 anos querem um emprego e não o têm, então a resposta só pode ser uma: as forças armadas estão a fazer alguma coisa de errado.

 

 

publicado às 09:39

Então isto não é uma guerra?

Por: Francisco Sena Santos

 

A guerra em curso ainda não entrou na Península Ibérica (desde a tremenda matança nos comboios suburbanos de Madrid, em março de 2004) mas estamos todos na linha de mira. Eles, os terroristas, escolhem lugares que estão no percurso da nossa satisfação: esplanadas, restaurantes, bares, geladarias, teatros, discotecas, hotéis, museus. E, naturalmente, também aeroportos. A estratégia passa por atacar-nos, de modo brutal, abominável, em lugares que estão ligados ao nosso prazer.

 

Do Bataclan de Paris à Holey Artisan Bakery de Dacca ou à mais antiga geladaria de Bagdad. Passando pelos aeroportos de Bruxelas e de Istambul, por hotéis em capitais africanas ou paragens de autocarros na Turquia. E tantos outros lugares que elegem para o seu teatro de horror. O autoproclamado “califado islâmico” está a mudar o modo de vida no mundo, aquele que invadiu e ocupou, e aquele que ameaça com os seus inúmeros grupúsculos, alguns rivais entre si, mas unidos no propósito de nos massacrar – eles dizem: castigar. Serão apenas umas centenas de assassinos, muitos deles que optam por imolar-se propondo-se como mártires, mas que devastam milhares de vidas e ameaçam com o seu terrorismo difuso milhões de pessoas. O papa Francisco, pessoa de palavras bem pesadas, já avisou que está em curso uma nova guerra mundial, dita de baixa intensidade.

 

É notório o atual recuo territorial do “califado” que também se apresenta como “estado islâmico”(EI). Já perdeu metade do território que controlava há dois anos no Iraque e na Síria. Um bastião, Falluja, a 56 quilómetros de Bagdad, foi recuperado há uma semana pelas forças governamentais iraquianas apoiadas pela aviação dos EUA. As tropas regulares estão em evidente reconquista. Um dia, talvez não muito distante, será a libertação da segunda cidade principal no Iraque, Mosul, e também de Raqqa, a cidade na Síria que se tornou o posto de comando do EI. A noção de “estado” na ideia de “estado islâmico”, embora nunca tenha existido Estado propriamente dito, está em colapso. Tal como a ambição de “califado”. O problema trágico é que o fim do território controlado pelo “EI” não significa o fim do “EI”. Porque o “EI” passou a existir em células terroristas dispersas pelo mundo. E o seu ideário trata de conquistar adeptos e combatentes entre os revoltados contra a ordem política, socioeconómica ou religiosa instalada. Admite-se que haja pelo mundo umas centenas de terroristas em células adormecidas, a que se juntam milhares de “foreign fighters” (julga-se que uns 30 a 40 mil) nos campos de treino do EI.  Têm agora menos território mas aparecem até mais perigosos a atacar-nos pelo mundo através de ataques suicidas.

 

A última semana foi de atroz violência do terrorismo islâmico associado ao “califado”: 42 mortos no ataque suicida no principal aeroporto de Istambul; 20 num restaurante de Dacca; 213 vidas dizimadas numa casa de gelados  e na área em volta em Bagdad. A estas vítimas acrescentam-se centenas de feridos. Ontem à noite o ataque foi em Medina, junto à Mesquita do Profeta, e em outras duas cidades sauditas.

 

Tudo se precipitou com a chamada, feita em 21 de maio, por um porta-voz do EI, Mohammed al-Adani, para um Ramadão de sangue. Ele chamou os seus seguidores à matança de civis, proclamando que “ninguém está inocente”. Desde então os ataques sucedem-se com alta intensidade. Basta percorrer o diário das notícias que já quase nem aparecem como notícia: explosão de carros-bomba em Bagdad, Falluja, Kerbala e Bassora, no Iraque; massacre de civis e militares em Deir ez-Zour, na Síria, e em Sirte, na Líbia. E mais, muito mais: 11 mortos em ataques, em 6 e em 21 de junho, na Jordânia; 20 civis mortos no ataque que em 24 de junho destruiu pelo fogo uma aldeia de Kot, no Afeganistão; 43 militares massacrados na caserna de Mukalla, no Iraque; sete civis mortos no ataque, em 27 de junho, à aldeia cristã de Al-Qaa, no Líbano. Depois houve, na passada terça-feira, o massacre no aeroporto Ataturk de Istambul e, neste fim de semana, as matanças em Dacca e em Bagdad.

 

Fixemo-nos no último ano e meio: primeiro foi a matança no Charlie Hebdo, em Paris. Depois passaram ao Magrebe: massacres no Museu do Bardo e na praia de Sousse, na Tunísia. Veio o ataque múltiplo de novembro, em Paris. E o terror nos aeroportos de Bruxelas e de Istambul. Pelo meio, muito mais chacinas cruéis, na Síria, no Iraque, no Paquistão, na Líbia, no Iémene, no Egito, no Líbano, na Jordânia, na Nigéria, no Mali e nas Filipinas. Houve o ataque a um café em Sydney. Também a matança, é certo que ainda por esclarecer, na Pulse, uma discoteca de Orlando, nos EUA.

 

Então isto não é uma guerra? O “EI” pode estar a ser eliminado dos mapas geográficos mas os seus terroristas ameaçam-nos cada vez mais, já não escondidos no imenso deserto, mas instalados, como lobos solitários ou em minúsculas células, a escaparem invisíveis aos serviços de intelligence, nas nossas cidades. Nas cidades europeias, nas cidades do mundo e nos lugares procurados por viajantes e turistas.

 

Como responder a esta ameaça geral é a necessária prioridade para quem define as políticas. É também um desafio para o jornalismo: como lidar com este espetáculo da crueldade terrorista? As imagens que nos são mostradas são quase sempre pornografia do horror. É facto que precisamos de saber para entender, mas talvez não precisemos de ver os detalhes obscenos do terror. Há o desafio de definir a fronteira entre o jornalismo que mostra o que importa para entendermos o que está em causa, e a exibição da orgia de sangue que até funciona como marketing (as vítimas como troféu) nas estratégias de comunicação e recrutamento dos terroristas.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

Tanta gente que admiramos e que desapareceu nestes dias: Abbas Kiarostami, artista eclético,  cineasta que realizou filmes plenos de poesia, filosofia e política; Elie Wiesel, farol insubstituível, símbolo mundial da dignidade, lega-nos o dever de perpetuar a memória do Holocausto;  Michael Cimino, o cineasta que mostrou com O Caçador a tormenta da América incapaz de conviver com a síndrome da derrota no Vietname; Michel Rocard, o ideólogo reformista que tentou mas não conseguiu reformar o socialismo democrático.

 

A sonda Juno já está na órbita de Júpiter. A NASA vai trazer para a Ciência notícias do maior planeta do nosso sistema solar.

 

O Brexit tornou-se Brexodus, está a dar cabo dos seus falcões: depois de Boris Johnson, agora a renúncia de Nigel Farage. O referendo britânico derruba mesmo todos os líderes políticos britânicos: Cameron caiu, Farage demitiu-se, Corbyn está na corda-bamba. Depois do Brexit, como votarão os holandeses se houver referendo Nexit?

 

Duas entrevistas no El País, para ler e reler: Koolhaas e Steiner.

 

O museu em Chaves projetado por Siza Vieira para mostrar Nadir Afonso.

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: esta. Mas também há o futebol, com o mercado de transferências a voltar aos portugueses, na véspera do salto para a final do Euro 2016.

publicado às 08:04

Saia da Europa, mas não me convide

Por: José Couto Nogueira

 

No Brasil vendem-se umas t-shirts que têm estampado: “Vá ao teatro” em letras garrafais, e depois por baixo, em pequenino: “Mas não me convide!”. Certamente que, no Reino Unido, uma adaptação desta ideia faria sucesso, sobretudo entre os políticos insulares: “Brexit. But don’t invite me”. Com o anúncio feito ontem por Nigel Farage, de que se retira da arena inglesa, parece não sobrar nenhum dos promotores do referendo para conduzir o país para uma solução tranquila.

 

 

A sequência de eventos é de deixar qualquer um estupefacto. David Cameron, afirmando que foi derrotado no referendo que ele próprio convocou, demite-se da direcção do Partido Conservador e de primeiro-ministro. O que ele não quer é tomar conta dum processo inédito e certamente penoso e complicado. Pela lei inglesa, os conservadores continuam a governar até às próximas eleições, em 2020. Portanto terão de escolher outro. Boris Johnson, pois claro, e que até é a favor do Brexit. Mas Johnson vem logo dizer que não concorre, porque também não quer ser o responsável por aquilo que defendeu.

 

Um pensamento que vem logo à cabeça é que o Monty Pyton fez escola. Ou que previram o futuro. Há uma cena num filme deles – “A vida de Brian” ?, “O cálice sagrado” ?– que poderia muito naturalmente ser invertida para a realidade britânica actual. Uma praça cheia de populares esfarrapados. Os líderes revolucionários, em cima dum palanque improvisado, gritam: “Vamos atacar o castelo!”. A multidão em uníssono responde: “Vamos, vamos! Todos ao castelo!” Desata tudo numa correria em direcção ao castelo, a brandir foices e enxadas, enquanto os organizadores do motim se abraçam, dão palmadas nas costas, e depois seguem para o pub para beber uma merecida cerveja. O trabalho deles está feito, a turba que se desenrasque.

 

E entre os líderes que incitaram a populaça a atacar o castelo, temos o mais truculento e reaccionário, Nigel Farage. Eleito para o Parlamento Europeu, notabilizou-se por insultar os colegas regularmente e acusar a União Europeia de ser uma espécie de entidade nazista. Uma vez disse na cara de van Rampuy, então presidente do Conselho Europeu, que ele tinha o carisma de um esfregão de cozinha. Doutra, afirmou peremptoriamente que a União foi criada para impedir os impulsos imperialistas dos alemães e que afinal falhou redondamente. Agora, já depois do Brexit, voltou ao hemiciclo de Bruxelas para dizer que os parlamentares à sua volta nunca tinham trabalhado um dia na vida.

 

Pois bem, Farage, o campeão do Brexit, acaba de afirmar que, cumprido o seu objectivo de vida, se retira da política. No Reino Unido não tem qualquer cargo público – perdeu a eleição para deputado, em 2015 - portanto sair ou ficar não faz diferença. Mas acrescentou que continuará a ir regularmente ao Parlamento Europeu achincalhar os colegas e “vigiar com olhos de águia” o cumprimento da separação.

 

O Partido Conservador terá de fazer eleições internas. Os seus 150 mil filiados escolherão dois entre cinco candidatos e depois os deputados do partido optarão por um deles. Espera-se que o processo esteja concluído até 9 de Setembro. Então quem são essas cinco vítimas da dislexia nacional, numa altura em que o pedido de novo referendo tem cinco milhões de assinaturas?

 

Theresa May, a Ministra da Administração Interna (Home Secretary) era contra o Brexit, mas já disse que aceita o resultado. Muito conservadora, tem uma linha dura quanto a imigração, segurança social e segurança. Seria a hipótese mais drástica em termos de forçar as ideias relacionadas com o Brexit. Disse que não aceitará contribuir para o orçamento da UE, o que torna a sua posição negocial insustentável à partida.

 

Michal Gove, o Ministro da Justiça. Como ele próprio declarou, com humor britânico, não tem carisma nenhum. Não acrescentou, mas poderia tê-lo feito, que é uma combinação da simpatia de Shaüble com o bom humor de Jeroen Dijsselbloem. O Partido só o escolherá se estiver mesmo decidido a desaparecer do mapa politico.

 

Os outros três são praticamente desconhecidos do eleitorado: Andrea Leadsom, actual Ministra da Energia e Mudanças Climáticas, Stephen Crabb, Ministro do Trabalho e Pensões, e Liam Fox, Ministro da Defesa. Ou seja, cinco desconhecidos – por ora, uma vez que um deles será o próximo primeiro ministro. Têm em comum uma linha dura quanto a imigração, o que poderá dificultar muito as negociações com a UE; a livre circulação de pessoas será certamente um exigência básica para qualquer acordo.

 

Depois há o Partido Trabalhista, dirigido pelo homem invisível,Jeremy Corbyn. Sabia-se que era favorável ao Brexit, num partido que é contra, e talvez por isso mal se viu durante a campanha. No Governo-sombra trabalhista as demissões são ao molhe.

 

Para a Europa que fica na União, e que sofreu um abalo telúrico com consequências inimagináveis, quanto mais cedo o Reino Unido sair, melhor. Mas quem tem de tomar a decisão são os ingleses, e só eles, invocando o famigerado artigo 50° do Tratado de Lisboa. Um líder que ainda ninguém sabe quem é, decidirá quando fazê-lo, e isso deixa os europeístas furiosos. O menino que já não quer brincar é que decide quando a brincadeira acaba, onde já se viu?

 

Entretanto há outros acontecimentos europeus que podem influenciar a decisão britânica e que serão influenciados por ela, numa interdependência diabólica. Por exemplo, como lembra Wolfgang Münchau, editor do “Financial Times”, as eleições francesas são em 2017 e Marine le Pen é a favor do Frexit – saída da União Europeia e do euro. François Hollande, caso concorra, quer que o Reino Unido pague as despesas do Brexit. Em 2017, os ingleses podem não ter ainda activado o artigo 50º e terão toda a vantagem em esperar pelos resultados franceses antes de o fazer.

(Por falar nele, Münchau é alemão. Arranjará visto para continuar a dirigir o FT?)

 

Enquanto isto, e mesmo sem artigo 50º, os ingleses já estão a pagar a sua decisão: muitos pedidos de cidadania (dos imigrantes que o podem fazer), muitas saídas das ilhas (dos britânicos que querem e podem), desvalorização da libra, deslocalização de bancos e serviços financeiros (entre 50 a 70 mil postos de trabalho), baixa do rating, clivagens territoriais e geracionais, racismo sem precedentes.

 

Toda a gente prevê o fim da Europa, mas ninguém consegue prever como será. No Continente, a questão são os maus líderes: Merkel, Juncker, Draghi, Schulz, Schäuble, Hollande, Renzi, Groysman, Orbán, e tantos, tantos, que seria tedioso enumerar.

Na ilha, o problema é a falta deles.

publicado às 01:07

Bater contra a parede

Por: António Costa

 

Marcelo Rebelo de Sousa anda a pedir consensos há meses, o PS e o PSD fizeram-lhe a vontade, numa espécie de união nacional contra a Comissão Europeia e a possibilidade de sancionar Portugal por mau comportamento orçamental. É claro que escolheram a pior das bandeiras, pelos piores motivos. O PSD quer expiar o passado, o PS quer as mãos livres para assegurar o (seu) futuro.

 

Agora que se sabe que a Comissão Europeia vai dar três semanas a Portugal para apresentar um plano B de correção do défice orçamental, o global e, mais importante, o estrutural, quem é que pode dizer-se surpreendido? Seguramente, nem Passos Coelho, nem António Costa. Ambos fizeram, à sua maneira, o que era preciso para Portugal ser a principal preocupação europeia – a Grécia já está noutro campeonato há muito. É mais fácil apontar o dedo ao ministro das Finanças alemão, o novo bode expiatório que serve para quase tudo. E o Brexit, claro.

 

Maria Luís Albuquerque – e Passos Coelho e Paulo Portas – falhou objetivo de défice público de 2015 por puras razões eleitorais. O que não fizeram em 2015 estragou o que fizeram nos três anos e meio anteriores. É bom recordar, parece que MLA já se esqueceu, que anunciou uma meta de défice de 2,5% e acabou em 3,1%. Pior ainda, o défice estrutural agravou-se. Deveria ter pudor em falar, sobretudo quando afirmou que se estivesse nas Finanças não haveria sanções. O Governo de coligação seguiu a troika até 2014, recuperou a credibilidade do país, e depois seguiu as eleições. Depois, Mário Centeno e António Costa desenharam uma política exatamente ao contrário do que o país precisa. Puseram os interesses do PS em primeiro lugar, e apostaram numa estratégia económica e orçamental para ganharem eleições antecipadas. Resultados são os que se sabem, o investimento parou, a criação de emprego também, e o crescimento económico será claramente inferior ao previsto. O FMI já aponta para 1%, claramente abaixo dos 1,8% do Orçamento. Não, o Brexit não explica quase nada.

 

Já se esqueceram das negociações do Governo com Bruxelas por causa do orçamento deste ano, das sucessivas revisões que deram, depois, origem aos aumentos de impostos indiretos, por exemplo? É neste quadro que a Comissão Europeia se prepara para anunciar sanções a Portugal ou, melhor, um prazo de três semanas para o Governo mudar de vida. Em Portugal, os políticos gritam, Marcelo Rebelo de Sousa diz que é esta Europa que nos trouxe aqui. Errado. Estamos, outra vez, à beira de um resgate, por motivos económicos e financeiros. E os juros da República (ainda) não dispararam por causa do programa de compras do BCE, o quantitative easing, que também tem limites e estão, eles próprios a aproximar-se. Não por acaso, o presidente do Mecanismo Europeu de Estabilidade, Klaus Regling, disse no final da semana passada que Portugal é a principal fonte de preocupação na Europa.

 

Na verdade, a Comissão está a dizer que não quer sancionar a derrapagem orçamental de 2015, provavelmente por simpatia política com o anterior governo, mas não vai dar qualquer folga em 2016.

 

Qual é o estado da nação? A economia portuguesa patina, o Governo afastou a iniciativa privada e, sobretudo, o investimento estrangeiro, a banca é um mundo de problemas ainda por resolver que o anterior Governo meteu debaixo do tapete. Estão mesmo surpreendidos com as anunciadas sanções?  Melhor faria o Governo em apresentar um plano B com pés e cabeça, e reverter algumas das reversões decididas nos últimos seis meses.

 

É claro que Costa não tem alternativa realista senão a de ceder a Bruxelas, vamos ver a repetição da crise política de fevereiro. Veremos se será capaz de segurar o apoio do BE e do PCP ou se joga a carta das eleições antecipadas e tenta beneficiar das reversões salariais e de pensões dos últimos meses. A outra alternativa, claro, é continuar com a estratégia que seguiu até agora e levar-nos contra uma parede.

 

As escolhas

Entre a parede financeira e o céu futebolístico, que alimenta a alma de um país e faz esquecer a carteira, nem que seja por uma semana. Somos de extremos. Portugal é um país de treinadores de bancada, que sai de casa nos grandes jogos. Na quarta-feira, a seleção volta ao relvado para as meias-finais do Europeu. Portugal allez, também aqui em 24.sapo.pt.

 

Boa semana.

publicado às 12:02

Semana laboral de 35 horas? E porque não 33, 20 ou mesmo 15 horas?

Por: Pedro Fonseca

 

A redução do tempo de trabalho tem sido uma miragem. Com o aumento da produtividade tecnológica, era suposto o ser humano ter mais tempo de lazer. Isso não sucedeu e não vai acontecer a breve prazo. Em Portugal, os trabalhadores do sector público têm de volta, desde ontem, uma semana de 35 horas mas, no lado privado, é um assunto que nem vale a pena discutir. Porque não?

 

 

Os trabalhadores da Função Pública vão passar a ter um "período normal de trabalho" de 35 horas semanais, segundo o decreto-lei aprovado a 20 de Junho, promulgado pelo Presidente da República (com alerta para uma fiscalização sucessiva pelo Tribunal Constitucional, para evitar aumentos na despesa pública) e que entrou em vigor a 1 de Julho.

 

As despesas com pessoal "não podem exceder os montantes relativos à execução de 2015", excepto quando "razões excecionais fundadamente o justifiquem" e com autorização do Ministério das Finanças. As soluções departamentais serão negociadas entre os ministérios e os sindicatos do sector, diz ainda o decreto-lei.

 

No sector privado, as 35 horas são assunto tabu e a Confederação Empresarial de Portugal (CIP) revelou que nem sequer é tema a discutir. Porque não, sendo um assunto com tantos pontos de vista diferentes e alguns bem sustentados por empresários?

 

Por exemplo, em 1970, o consultor de gestão Riva Poor defendeu no livro "4 Days, 40 Hours" um maior horário laboral diário mas também um maior fim de semana, de três dias. Apesar da polémica, só algumas empresas e instituições públicas nos EUA adoptaram um modelo intermédio, libertando a tarde de sexta-feira.

 

Este tipo de semana laboral mais encurtada pode ter vantagens, como escrevia Andrew Simms, autor de "Cancel The Apocalypse: The New Path To Prosperity", em Fevereiro de 2013 no The Guardian. Simms salientava o ter-se mais tempo livre, menor poluição nos dias com reduzidas deslocações para o local de trabalho e recordava a decisão do governador Jon Huntsman do estado norte-americano do Utah que, em 2008, percebeu como podia poupar dinheiro ao encerrar cerca de 900 edifícios públicos, colocando 18 mil dos 25 mil funcionários a trabalhar apenas quatro dias por semana. Os serviços essencias - como a polícia - não foram abrangidos pela medida. "Em seis meses, as queixas caíram para zero", refere Rex Facer, da Brigham Young University, que defendeu e analisou a medida e os seus impactos.

 

Claro que, sem a sua remuneração ter sido afectada, oito em 10 dos trabalhadores afectados "gostou" da medida e dois terços considerou mesmo ser mais produtivo. A moral no trabalho aumentou e decresceu o absentismo, assim como as emissões de carbono. Aliás, um estudo do Centre for Economic and Policy Research apontou que a diminuição das horas de trabalho a nível mundial podia diminuir o aquecimento global para metade até 2100. O programa no Utah terminou em 2011, quando o presidente Obama nomeou Huntsman para embaixador na China.

  

E na Europa?

 

A maioria dos países europeus parece ter aversão a diminuir o tempo de trabalho, como revela a posição da portuguesa CIP, sem sequer a querer discutir. Um outro estudo, revelado em Maio passado e sobre trabalhadores de um lar de reformados em Svartedalens (Suécia), demonstra como um dia de trabalho de seis horas - sem cortes remuneratórios - é mais satisfatório, contribuindo para menos faltas ao trabalho, mais produtividade e melhor saúde dos trabalhadores.

 

O estudo, financiado pelo governo sueco (após ter abandonado um outro, que se desenvolveu entre 1989 a 2005 por falta de dados), comparou a produtividade das enfermeiras naquele estabelecimento com um outro lar e revelou que foram pedidas menos de metade de baixas médicas ou ausências no horário laboral do que no "grupo de controlo", segundo um dos investigadores, Bengt Lorentzon.

 

Na Holanda, o modelo seguido foi diferente e, segundo Simms, relativamente à década de 1990, os serviços públicos contrataram mais 80% de novos funcionários, sendo dos maiores apoiantes do trabalho parcial - um terço dos homens e 75% das mulheres adoptaram este modelo.

 

A Holanda é o país europeu com mais população a trabalhar a tempo parcial, segundo dados do Eurostat relativos a 2014. Enquanto a média europeia é de 8,7% para homens e 32% de mulheres, esse valor sobe neste país para 26,8% e 76,6%, respectivamente para homens e mulheres que trabalham menos de 36 horas por semana. Em Portugal, ambos os valores não ultrapassavam os 15% (a média masculina acompanhava a europeia, com as mulheres ligeiramente mais à frente).

 

No Reino Unido, com uma semana média de 48 horas no trabalho, a "mensagem" do ainda primeiro-ministro David Cameron "parece ser de que podemos todos esperar trabalhar mais e durante mais tempo, e muito provavelmente com um menor salário", referia Simms, notando a existência de horas de trabalho sem remuneração - "cinco milhões de trabalhadores dão o equivalente a um dia livre aos seus empregadores por semana", afirma.

 

A união Reino Unido-EUA

 

No mundo anglo-saxónico, quem parece trabalhar mais são os ricos e as mulheres com mais formação. No estudo "The rich best-educated revealed as 'super-working class'", de Abril de 2014, elaborado por Jonathan Gershuny e Kimberly Fisher da universidade inglesa de Oxford, eles notam que o trabalho pago em 16 países desenvolvidos - incluindo a Europa continental mas não Portugal - passou de 5h50 para as 6h10. "Os mais bem formados trabalham mais do que o faziam" na década de 1960, mas a explicação pode estar por os "seus empregos serem mais satisfatórios, emocionalmente e intelectualmente", nota Gershuny.

 

Na introdução ao trabalho, os autores lembram que o economista John Maynard Keynes defendeu em 1924, perante a "mudança tecnológica" que poderia garantir um crescimento na produtividade económica, um objectivo para uma semana de trabalho de "apenas 10 ou 12 horas" (tese que abandonou mais tarde). Nas décadas seguintes, "e por variadas razões", socialistas, liberais e conservadores olharam para a diminuição do tempo de trabalho como algo "natural" e "concomitante com o progresso económico", questionando-se igualmente o que fariam as pessoas com esse tempo livre.

 

Na realidade, Keynes antecipou que o progresso tecnológico levaria a uma semana de 15 horas de trabalho mas apenas em 2030, com o futurólogo Herman Kahn a seguir-lhe os passos e a antecipar nos anos de 1960 que os EUA haveriam de ter "um dia, 13 semanas de férias e uma semana de quatro dias de trabalho", como lembrava a Bloomberg.

 

Segundo a OCDE, os norte-americanos trabalham cerca de 38,6 horas por semana - sendo "uma nação de 'workaholics'", nas palavras de Pramila Rao, professora de gestão de recursos humanos da Marymount University. Mas o número de horas laborais pode ser maior: eles trabalham em média 47 horas por semana e um quinto chega mesmo às 59 horas semanais - com uma nota adicional: são os ricos ou aqueles em posições mais bem pagas (advogados, gestores, engenheiros, financeiros - homens, na sua maioria) quem trabalha durante mais tempo, refere a The Week.

 

O que dizem os ricos?

 

Neste assunto, todos têm as suas opiniões e, dependendo da idade, as suas convicções. Por exemplo, a ligação entre a duração do tempo de trabalho e a felicidade é muitas vezes colocada em contraponto. Um exemplo: num inquérito a 4.600 pessoas feito por investigadores da universidade canadiana de British Columbia, nota-se como as pessoas (principalmente aquelas com mais idade) tendem a preferir o tempo ao dinheiro, em termos de maior felicidade.

 

Por outro lado, há quem olhe para o modelo "tempo é dinheiro". O mexicano Carlos Slim, que já foi o homem mais rico do planeta devido aos seus negócios nas telecomunicações ou no sector mineiro, defendeu em 2014 uma semana de trabalho de uns três dias - não para ele mas para todos. "Deve-se ter mais tempo na vida para si próprio e não apenas quando se tem 65 anos e se é reformado", disse à CNN. A contrapartida era ter um horário laboral de 11 horas diárias e uma reforma a partir dos 75 anos, dando assim mais tempo aos trabalhadores para "o entretenimento, família e formação para melhores empregos".

 

A posição de Slim foi sustentada em Fevereiro passado por investigadores num documento publicado pela universidade australiana de Melbourne. Para os trabalhadores com mais de 40 anos, trabalhar cerca de 25 horas por semana é mais produtivo, em termos cognitivos. Apesar de não analisar as camadas etárias abaixo daquela idade, o estudo é "potencialmente significativo" se extrapolado para uma população mais envelhecida e que se reforma mais tarde.

 

O trabalho "Use It Too Much and Lose It? The Effect of Working Hours on Cognitive Ability", que avaliou trabalhadores da Austrália, não nota diferenças significativas entre homens e mulheres, sugerindo que os trabalhadores com mais idade "podem manter a sua capacidade cognitiva trabalhando a tempo parcial", cerca de 20 a 30 horas por semana (25 a 30 para homens e 22 a 27 para mulheres). Em resumo, dizem os investigadores, "demasiado trabalho pode ter efeitos adversos no funcionamento cognitivo".

 

Perante isto, convém perguntar: quem quer ter trabalhadores com "efeitos adversos no funcionamento cognitivo"?

 

publicado às 14:31

Não é como acaba. É como começa.

Por: Rute Sousa Vasco

 

Não, não é um engano. A frase-talismã da selecção portuguesa virada do avesso é perfeita para retratar aquilo a que estamos a assistir por estes dias na Europa das nações. A sucessão de declarações infelizes, a falta de vontade para o consenso, as velhas intrigas e rivalidades postas a nu. Começa assim, começou sempre assim. É uma espécie de semente danada à qual anos de história em comum não chegaram para pôr cobro e a que anos de história de suposta união deram a ilusão de tudo estar sanado. Não está.

 

Com a particularidade de que hoje o Velho Continente está, efectivamente, velho, e que o mundo se tornou, efectivamente, plano. Todos estamos com todos em todo o lado – mas somos cada vez mais desiguais. Com resquícios da Europa aristocrática da 1ª Guerra Mundial e com mais do que resquícios da Europa desagregada e deprimida da 2ª Guerra Mundial.

 

Façamos uma breve e não exaustiva revisão da matéria dada na última semana do curso Como destruir a Europa em 28 capítulos (agora já são 27).

 

Na terça-feira, dia 28 de Junho, o Parlamento Europeu viveu uma das suas sessões mais animadas de sempre. Foi votada a resolução que pede a saída imediata do Reino Unido da União Europeia. Nigel Farage exibiu a proa ufana de vencedor (perdoem-lhe, que a ignorância é mesmo atrevida) e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, perguntou-lhe, sem meias medidas, "o que estão aqui a fazer?". "Estão em negação de que a vossa moeda está a falhar, o vosso projecto político falhou", retorquiu Nigel Farage.


Houve vaias e houve palmas e teria sido divertido se não fosse trágico.

 

Na quarta-feira, dia 29, o nosso velho conhecido ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, atirou para o ar que Portugal deve pedir um novo programa de resgate. Não parece próprio de um alemão não saber exactamente o que quer dizer e menos ainda corrigir-se em poucos minutos, mas foi o que aconteceu. Schäuble voltou atrás e declarou que o Governo português pode não precisar de voltar a pedir ajuda desde que cumpra as regras. Tudo isto acontece enquanto o grande banco alemão, Deutsche Bank, mete água por vários buracos. Diz o FMI: “o Deustche Bank é a instituição financeira com maior risco no mundo enquanto fonte potencial de choques externos ao sistema financeiro”. O que dá a toda a cena europeia aquela ambiente acolhedor de orquestra do Titanic que não pára de tocar.


Hoje, dia 1 de julho, a Eslováquia assume pela primeira vez a presidência da União Europeia. Na segunda-feira, dia 27 de junho, o partido eslovaco de extrema-direita LSNS lançou uma campanha para recolher assinaturas para um referendo que consulte o povo sobre a saída do país da União Europeia. É o mesmo partido que obteve 8% nas eleições legislativas de Março e que, segundo podemos ler no Público de hoje, tem um líder, Marian Kotleba, governador da região de Banská Bystrica, que chama "parasitas" aos ciganos. Já o primeiro-ministro, Robert Fico, fez a sua campanha de reeleição tendo como lema “nem um único imigrante muçulmano”. Hoje discursa ao lado de Juncker sobre os desafios da Europa e nos próximos seis meses a presidência eslovaca continuará a ter a crise dos refugiados como um dos grandes temas da agenda europeia.


É caso para usar a frase-cliché da época balnear de 2016, entre adolescentes e não só: está tranquilo, está favorável.


Também hoje, dia 1 de julho, chegou a notícia que confirma a repetição das eleições presidenciais na Áustria, na sequência de uma decisão sem precedentes do Tribunal Constitucional em resposta ao recurso apresentado pelo partido FPO do candidato de extrema-direita, Norbert Hofer. O ecologista Alexander Van der Bellen venceu as eleições de 22 de Maio por 30.863 votos de diferença em relação a Hofer. Agora, em resposta à alegada existência de irregularidades, os austríacos vão ser chamados de novo a votar. "Se as eleições forem canceladas será uma desgraça", tinha dito ao semanário Österreich o ministro do Interior, Wolfgang Sobotka.


Há uma semana estávamos sob o efeito do choque Brexit. Uma semana depois, como podemos ver, a Europa tem um menu muito mais diversificado de problemas para nos oferecer, distrair e entreter. E de acidente democrático em acidente democrático, cá vamos andando e acreditando que a história não se repete.


Dizia Frank Underwoord que as eleições, e de certa forma a democracia, são sobrevalorizadas. Mas claro que isto é só na ficção.


Tenham um bom fim de semana!

 

Outras sugestões:

E o Facebook baralha e volta a dar de novo. Depois do namoro, em 2015, às marcas de media, nomeadamente com a sedução dos instant articles (conteúdos jornalísticos publicados directamente nas páginas do Facebook), o gigante das redes sociais anuncia agora uma mudança de algoritmo de forma a dar mais importância nos murais dos utilizadores aos posts publicados por família e amigos em detrimento dos que são partilhados directamente pelos meios de comunicação social. Se atendermos ao volume, cadência e irrelevância seguidas por algumas estratégias de social media, não podemos propriamente levar-lhes a mal. E já agora, ajuda a que nos lembremos que o Facebook é uma empresa privada que define as suas próprias regras.

Quando falarmos de futuro, vamos lembrar-nos dele. Alvin Toffler, o autor de livros como Choque do Futuro e A Terceira Vaga (entre tantas outras coisas que fez na vida) morreu ontem aos 87 anos. Obrigada ao futurólogo que primeiro quis ser poeta.

Hoje, sexta-feira, é dia de dizer adeus a dançar aos Buraka Som Sistema. O concerto é gratuito e tem lugar junto à Torre de Belém, às 22h00. Se gosta, não perca; se não conhece, tem aqui provavelmente a última oportunidade de ver ao vivo a banda que assume ter ajudado a criar “uma identidade musical nova para Lisboa”.

 

 

 

publicado às 15:02

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