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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

As mulheres não se interessam por ganhar. Apenas querem que lhes contem histórias.

 Por: Rute Sousa Vasco

 

[Este artigo começa com um longo e pausado suspiro. É uma espécie de reflexo pavloviano que ocorre quando persistências obtusas persistem.] Vamos lá então falar das mulheres.

 

Das mulheres em geral, das mulheres no mundo, das mulheres na política, nos negócios, nas artes … e nos olímpicos. Os Jogos do Rio têm batido alguns recordes de imbecilidade no que respeita à forma como as mulheres são referidas. Os comentadores da NBC, estação host do evento nos Estados Unidos, têm conquistado medalhas atrás de medalhas e o exemplo foi logo dado no dia do arranque da prova.

 

 

Um tal de John Miller, responsável pelo marketing da estação, explicou que a cerimónia de abertura dos Jogos não seria exibida em directo … por causa das mulheres. Porque os estudos de audiência mostravam, explicou, que há mais mulheres que homens a assistir aos Olímpicos e o sexo fraco é menos interessado nos resultados e mais interessado na narrativa. Ou seja, o que as mulheres querem mesmo é uma mistura de reality show com mini-série e a NBC preparou-se para servir esse menu. Claro que o facto de ter vendido 1,2 mil milhões de dólares de publicidade e de ser mais fácil colocar anúncios em olímpicos cortados às postas não teve nada a ver com essa opção – estes senhores são uns gentlemen, apenas querem agradar às senhoras.

 

 

Correu mal.

 

 

A NBC registou o pior resultado de audiência desde 1992. Com tantos estudos e uma preocupação tão esmerada com o público feminino, não se percebe. Mas também já se sabe, as mulheres são temperamentais. Se calhar, naquele dia, deu-lhes para ir às compras.

 

 

Depois deste arranque, houve já todo um desfile de comentários sobre várias atletas em várias modalidades.

 

 

A nadadora húngara Katinka Hosszu ganhou a medalha de ouro nos 400 metros individuais e bateu um recorde mundial. É chamada a dama de ferro. Mas nos ecrãs americanos o grande plano foi para o marido e treinador, Shane Tusup, o grande responsável pela sua vitória, segundo o comentador da NBC, Dan Hicks. Talvez algumas mulheres não se importem de ser troféu de maridos, namorados, treinadores e por aí fora – mas importam-se de pelo menos assumir que outras têm vida e mérito próprio?

 

 

Não fica por aqui.

 

 

Corey Cogdell-Unrein conquistou, nestes Jogos do Rio, a segunda medalha de bronze no tiro ao alvo. Dir-se-ia que dificilmente poderia ser chamada por outro nome que não o próprio. A não ser para o Chicago Tribune para quem o papel principal de Corey, mesmo quando se torna uma medalhada olímpica, é ser a mulher de um jogador dos Chicago Bears, cujo nome deliberadamente nem vou referir, não porque tenha culpa, mas porque simplesmente não é necessário.

 

 

A invisibilidade das mulheres ficou igualmente patente na entrevista que Andy Murray deu ao veterano John Inverdale depois de ter ganho, no domingo passado, a medalha de ouro no torneio de ténis. Inverdale que é um histórico dos eventos desportivos, um dos rostos da BBC, teve de ser lembrado pelo tenista britânico que não era dele o primeiro feito olímpico de conquistar duas medalhas de ouro – antes já as irmãs Venus e Serena Williams tinham conquistado quatro.

 

 

E, depois, claro, há Simone Biles. O prodígio destes jogos olímpicos. Uma gigante com menos de um metro e meio que só por ela já fez valer a pena ter havido um evento chamado Jogos do Rio. Um manifesto exagero, sim, mas porque qualquer tributo escrito que se faça ficará aquém do talento e das qualidades que esta miúda de 19 anos demonstrou.

 

 

Vamos dizer que a NBC também não deixou os seus créditos por mãos alheias no que respeita a Simone Biles. A começar pelo spot promocional dos olímpicos em que usava uma conversa dos pais da ginasta sobre o quanto ela gosta de ir às compras. Além de gostar de ir às compras, Simone também arranja as unhas – segue-se imagem com a atleta na manicure. É uma menina, percebem? Ou uma gaja, como passarão a dizer logo que deixe de ter um ar ainda infantil. O desporto, a performance, a incrível elegância e destreza demonstrada enquanto ginasta, isso vem depois – lembrem-se, às mulheres interessa menos os resultados e mais a narrativa.

 

 

Aliás, terá sido também a pensar na narrativa que a mesma NBC promoveu um encontro surpresa entre a equipa de ginastas americanas, em que se inclui Biles, e o actor Zac Efron, um ídolo da geração de Biles que cresceu a ver o High School Musical. Efron espetou com uma valente beijoca na bochecha de Simone, ela sorriu, a história foi para o Snapchat, escreveram-se linhas de coisa nenhuma em vários sites e redes. Arthur Nory Mariano, o atleta olímpico que Simone apelida carinhosamente de "namorado brasileiro", foi ao Instagram dizer que ela é a miúda dele, e isto deu matéria para muito comentário e partilha. Aposto que sobretudo feminino, claro.

 

 

As mulheres gostam de narrativas, lembrem-se disso.

 

 

E é no meio disto tudo que a miúda Simone dá uma entrevista e diz apenas: “Não sou o próximo Usain Bolt ou Michael Phelps. Sou a primeira Simone Biles”.

 

 

Por cá, andamos a discutir o conselho de administração da Caixa Geral de Depósitos. Uma missão grandiosa para a qual o Governo convocou 19 administradores. O BCE chumbou 8. Sobram 11. Nenhum é uma mulher. Mas em 2018, a Caixa terá no mínimo três mulheres no Conselho de Administração. Não é uma, não são dez. Porquê? Porque o Banco Central Europeu exige. Não se vá pensar que, por absurdo, seria porque há tantas mulheres qualificadas para gerir um banco como um homem.

 

 

Tenham um bom fim-de-semana.

 

 

Outras sugestões

 

 

Aqui pela redacção do SAPO24 andamos fãs deste podcast. E o primeiro episódio é a perfeita sugestão para o tema da crónica de hoje. Chama-se “The Lady Vanishes” e pode ser ouvido em Revisionist History, o podcast de Malcolm Gladwell.

 

 

E hoje é Dia Mundial da Fotografia, pelo que propomos uma volta ao mundo da imagem, também pelo fio condutor da História. Pode ser lida aqui, num artigo que revisitamos.

publicado às 12:36

A impunidade do Estado

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Se não fosse triste e lamentável, podia ser de rir, ou uma notícia do “Inimigo Público”: uma instituição do Estado, o Tribunal de Contas, num relatório sobre a execução orçamental da Administração Central, crítica o Estado a que pertence por exigir aos contribuintes o que o próprio Estado não cumpre…

Não percebeu? Nem eu.

 

 

Vamos devagar: uma das missões do Tribunal de Contas é fiscalizar a forma como o Estado, através dos Governos e da Autoridade Tributária, cumpre e faz cumprir a lei e os Orçamentos. Nesse âmbito, divulga relatórios em que analisa o que foi feito, o que está mal, o que está certo.

 

 

No Relatório divulgado há dois dias, e relativo a 2015, o Tribunal de Contas vem dizer algo que todos nós, cidadãos, já sentimos na pele de alguma maneira: que os atrasos do fisco, por exemplo, na devolução de impostos ou na correcção de erros, não é minimamente penalizada; ao contrário, se o cidadão se atrasa ou se engana, lá vem a multa, os juros, e às vezes a conta bancária congelada.

 

 

O Tribunal de Contas dá um exemplo: os prazos legais para fechar a contabilidade do Estado são invariavelmente “queimados” - mas exigidos aos contribuintes e sujeitos a multa caso os cidadãos escorreguem nas datas. Diz o relatório (e estou a citar o Diário de Notícias): "Pelas razões que levaram à implementação do E-fatura, em poucos meses, é mais do que oportuno que o Estado, o Ministério das Finanças e a AT também apliquem, como administradores de receitas públicas, os princípios e procedimentos que tornaram obrigatórios aos contribuintes por os reputarem essenciais para a eficácia do controlo dessas receitas”.

 

 

E é aqui que começa a gargalhada. É que o Tribunal vem debitando esta lengalenga todos os anos, mas nada acontece: não há multas ao Estado, não há responsáveis punidos, não há juros a reverter para os contribuintes. O contrário também se mantém inalterado: não é por o Estado ser incompetente, nem por o Tribunal de Contas o sublinhar, que o cidadão é premiado e, pelo menos, amnistiado ou absolvido dos seus delitos menores…

 

 

Estamos portanto no domínio da comédia, em rigor da farsa: as instituições fiscalizam, fazem relatórios, criticam. Nada muda, nada acontece. Impune, o Estado persiste em ser mau pagador, incumpridor, e laxista. Tudo o que não perdoa ao contribuinte que o sustenta e lhe dá sentido. Parece um gozo, uma espécie de brincar ao faz-de-conta entre instituições do mesmo Estado, jogando apenas entre elas - só que os peões do jogo são adultos, as suas vidas, o dinheiro de todos.

 

 

No fim, como sempre, quem se lixa é o mexilhão. Lá está: se não fosse triste, dava para rir.

 

 

Para ler obrigatoriamente esta semana…

 

 

A reportagem da Esquire norte-americana sobre as consequências práticas da legalização e/ou descriminalização do consumo de drogas leves em alguns estados dos EUA. Ou melhor: como os grandes cartéis e traficantes de drogas pesadas responderam a esta aparente machadada no seu negócio…

 

 

A imprensa francesa reflecte a forma como se deve cobrir o tema “terrorismo” e os ataques que a Europa tem sofrido. Eis aqui, na Motherboard, o que está a acontecer e a forma inteligente como se pode encarar esta ameaça diária.

 

 

O Diário de Notícias tem vindo a publicar excelentes entrevistas no âmbito de uma época, o Verão, em que teoricamente temos mais tempo para ler. Há dias, publicou uma conversa entre Céu Neves e a realizadora Leonor Teles (jovem premiada pelo filme “Balada de Um Batráquio”), que é um belíssimo exemplo do que pode constituir uma nova geração de criadores. Mais focada, mais atenta, mais humilde. A ler.

publicado às 10:41

Se fosse atleta olímpico, preferia a medalha de prata ou a de bronze?

Por: Pedro Fonseca

Por vezes, menos é mais. É o caso dos medalhados olímpicos. As razões parecem simples, depois de se perceber porquê - razões que curiosamente podem ser aplicadas a outras actividades.

 

Os Jogos Olímpicos no Brasil antecipavam entregar 812 medalhas de ouro, outras tantas de prata e 864 de bronze. A previsão pode não ser fiável, devido aos empates que se têm sucedido.

 

Mas, se fosse um dos mais de 10 mil atletas presentes, e ficasse afastado do primeiro lugar, preferia receber a medalha de prata ou a do terceiro lugar?

 

A resposta não é fácil mas, por razões emocionais, os atletas que recebem a medalha de bronze aparentam ficar mais felizes do que aqueles que se posicionam em segundo lugar. O que motiva essa aparente felicidade? Porque o perdedor do primeiro lugar compara-se com quem o ganhou, enquanto quem fica em terceiro analisa a sua performance atlética perante quem não recebeu qualquer galardão.

 

E porque se fala de "aparente felicidade"? Porque a investigação científica que valida esta ideia baseia-se na análise de imagens, fotografias ou vídeos, dos medalhados nos pódios olímpicos.

 

Um dos estudos mais citados neste tipo de investigação, "When Less Is More: Counterfactual Thinking and Satisfaction Among Olympic Medalists", data de 1995 e analisou os atletas dos Jogos Olímpicos de 1992, em Barcelona (Espanha).

 

Victoria Medvec, Scott Madey e Thomas Gilovich, do departamento de psicologia das universidades de Cornell e de Toledo, declaram que não podem sugerir uma certeza de que ficar em segundo lugar "leva sempre a uma menor satisfação", até porque não estudaram a "duração dos efeitos" ao longo do tempo.

 

O trabalho destes investigadores incluiu três estudos diferentes, em que analisaram a cobertura televisiva dos Jogos, um outro de análise a entrevistas tidas após os resultados e um último em que entrevistaram os próprios atletas.

 

No primeiro caso, os participantes no estudo viram as imagens das reacções imediatamente após o fim das provas olímpicas dos segundo e terceiro lugares. Depois, fizeram o mesmo quando estes atletas subiram ao pódio para receberem as medalhas.

 

Esses participantes, que tinham de validar a "emoção expressa de cada atleta", foram 20 estudantes da universidade de Cornell, desinteressados e desinformados dos desportos, para evitar qualquer conhecimento prévio sobre os atletas.

 

As competições atléticas providenciam uma óptima precisão, uma "ordem linear" validada e objectiva (os empates são raros). Nesse ambiente, as "respostas emocionais" mostraram que os bronzes pareciam mais felizes do que os pratas.

 

Perante estes "pensamentos contrafactuais", como lhes chamam os investigadores (e que, de forma simples, significam o que as pessoas comparam dos seus triunfos com o que podiam ter atingido), é verdade que os vencedores da medalha de prata também estiveram perto de perderem para o bronze, "mas uma comparação social, para baixo", não é indicativa de "uma mudança de 'status'", porque nenhum venceu a prova "mas ambos ganharam medalhas". Além disso e por causa dessa situação, a comparação entre o terceiro e o quarto lugar é totalmente diferente.

 

Os medalhados com bronze "são susceptíveis de concentrarem os seus pensamentos contrafactuais para baixo", enquanto isso "não existe na comparação ascendente entre segundo e terceiro lugar". Por isso, nesta "assimetria na direcção da comparação contrafactual, a pessoa que está objectivamente pior (o medalhado com bronze) pode mesmo assim sentir-se mais recompensado do que a pessoa que é objectivamente melhor (o medalhista de prata)".

 

Em resumo, há casos em que "menos é mais"...

  

 

Ouro, prata, bronze, muito bom, bom e suficiente

O estudo de Medvec, Madey e Gilovich demonstra um outro tipo de análise social interessante para áreas onde a competência pessoal dos melhores lhes pode trazer dissabores emocionais quando ela é avaliada por entidades externas para a hierarquizar.

 

Na escola, um estudante que falha um "muito bom" e apenas recebe "bom" pode sentir-se menos gratificado do que um outro que consegue um habitual "suficiente". Ou "considere uma pessoa que acerta correctamente em todos menos num número da lotaria. Esse indivíduo perde o jackpot mas normalmente ganha um prémio" considerável, num valor que, "sem dúvida, fornece algum prazer, mas o conhecimento de saber que perdeu o jackpot surge de vez em quando e arruína momentos de outra forma felizes".

 

A discussão sobre esta abordagem não é nova. Em 1890, em "The Principles of Psychology", William James explicava o problema da auto-estima perante as pretensões e o sucesso: "assim, temos o paradoxo de um homem envergonhado até à morte porque é apenas o segundo pugilista ou o segundo remador no mundo. Ou seja, ser capaz de vencer toda a população do mundo menos um não é nada; ele comprometeu-se a si mesmo a ganhar a esse um e, enquanto o não fizer, nada mais conta".

 

As pretensões prévias à competição olímpica são também o que pode revelar algum desapontamento entre os medalhados de prata e de bronze, afirma um outro estudo, "Expectations and emotions of Olympic athletes".

 

Peter McGraw, Barbara Mellers e Philip Tetlock, das universidades do Colorado e da Califórnia, explicaram em 2004 que os medalhados de prata "são mais propensos a ficarem desapontados porque as suas expectativas pessoais são mais elevadas do que as dos medalhados de bronze".

 

O estudo partiu do "aspecto surpreendente" do trabalho de Medvec e dos outros investigadores ao afirmar que "as expectativas anteriores dos atletas não tinham efeito significativo nas suas emoções".

 

Ao re-examinarem esse estudo, usando técnicas semelhantes de visualização de resultados dos jogos de Barcelona mas para os atletas nos Jogos Olímpicos de 2000 (Sydney, na Austrália), os investigadores usaram 26 estudantes da Ohio State University igualmente desinteressados em desporto.

 

A visualização das imagens, classificadas em termos de sentimentos entre 1 (agonia) e 10 (felicidade), mostrou que os vencedores tinham uma média de 7,9, enquanto os medalhados com prata chegavam aos 6,6 e os de bronze aos 6,3. Os atletas sem acesso ao pódio ficavam numa média de 4,3.

 

Os autores introduziram uma outra variante de análise, explicando a diferença entre atletas. Um medalhado de prata que se aproximou da vitória e bateu por larga margem o terceiro no pódio terá sentimentos diferentes daquele que ficou longe do primeiro lugar mas próximo do medalhado de bronze. Ou seja, "a única maneira razoável de imaginar o medalhado de prata a fazer uma comparação para cima seria se tivesse expectativas prévias de ser medalha de ouro".

 

 

De volta às medalhas (e ao IRS)

Perante a emoção e o triunfo das medalhas, é bom recordar que elas são "recentes" nos Jogos Olímpicos.

 

Os Jogos Olímpicos remontam a 776 antes de Cristo e foram banidos durante séculos até Pierre de Coubertin os ter reinventado no século XIX, mas foi apenas nas competições de 1904, na cidade norte-americana de St. Louis, que surgiram as medalhas.

 

Até 14 de Agosto, Portugal já conquistou 24 medalhas olímpicas – 12 de bronze, oito de prata e quatro de ouro (a última foi o bronze da judoca Telma Monteiro nestes Jogos Olímpicos no Brasil).

 

Monteiro recebeu uma medalha pesada e diferente dos anteriores galardoados, e muito diferente das primeiras obtidas pelos portugueses nos Jogos Olímpicos de 1924 (Paris). "As medalhas dos Jogos Olímpicos do Rio são as maiores e mais pesadas da história", porque cada medalha tem um diâmetro de 85 milímetros e pesa meio quilo.

 

Cada medalha de ouro é, na realidade, pouco dourada e muito mais prateada. Ela é composta por 92,5% de prata, 6,16% de cobre e apenas 1,34% é realmente ouro. Mesmo assim, cada uma vale cerca de 600 dólares, segundo o Conselho Mundial de Ouro, sem ir a leilão, onde a importância do medalhado e a data do triunfo acrescentam valores à licitação.

 

Além das medalhas, um triunfo olímpico implica ainda outros ganhos para os desportistas portugueses. Segundo uma portaria de 2014, um campeão olímpico recebe 40 mil euros, enquanto um segundo lugar vale 25 mil euros e um terceiro classificado se fica pelos 17,5 mil euros.

 

Se existir um recorde olímpico ou do mundo, o desportista arrecada 15 mil euros. E, refere Abílio Rodrigues, da Faculdade de Direito da Universidade do Porto, pode nem sequer estar sujeito a IRS.

 

Como os olímpicos têm bolsas atribuídas pelo Comité Olímpico de Portugal para a sua preparação, pretende-se "que os atletas integrados nos programas de preparação de cada ciclo olímpico beneficiem de melhores condições que desejavelmente lhes possibilitem o alcance de resultados desportivos que dignifiquem o país, demonstrando assim a importância política e social assumida pelo Direito Fiscal".

 

Sabendo que há países que pagam muito mais aos seus medalhados e outros que cobram impostos por esses prémios, falta um estudo sobre o impacto não apenas emocional mas financeiro nos vencedores olímpicos das medalhas de ouro, prata e bronze.

publicado às 11:49

Trump à beira da derrota, mas a fúria contra o estado das coisas ameaça Madam President

Por: Sena Santos

A dúvida que chegou a pairar parece hoje resolvida: Donald Trump, “The Donald”, vai perder as eleições. Os eleitores dos EUA vão, em 8 de novembro, fazer de Hillary Madam President.

 

É facto que ainda faltam onze semanas para o dia do voto, que ainda está para se ver o efeito de três debates de máxima audiência, sabendo-se que em política tudo pode sempre acontecer, mas ficou evidente no último mês que “The Donald” ultrapassou a crucial linha vermelha do eleitorado republicano moderado e atingiu um ponto de quase impossível retorno. Toda a gente tinha constatado no último ano de campanha que “The Donald” é uma criatura extrema, um instável e excêntrico provocador sem ética, sem um mínimo sentido de decência, uma aberração na tradição política, tanto moral como cultural, da América conservadora.  

 

“The Donald” tem mostrado - com a linguagem sexista, racista e violenta que usa - um espantoso talento para se autodestruir. Muitos republicanos não o suportavam, alguns deles condescendiam. Neste último mês, com os disparates ditos ao apelar aos portadores de arma para resolverem o problema Clinton, ao insinuar que Obama é o fundador do “Estado Islâmico” e, sobretudo, ao ofender os pais de um soldado americano que perdeu a vida, “The Donald” ultrapassou os limites, exasperou esses republicanos moderados que tentavam manter fidelidade ao partido. Donald Trump deixa assim de ter probabilidade de reunir uma base de apoio que lhe permita ser competidor elegível. Embora continue na eleição e haja que esperar pelos votos, está muito desqualificado.

 

Tanta gente nos EUA não gosta de Hillary, há muitos que a detestam. Incomoda nela o que é sentido como falta de autenticidade. Por mais voltas que os estrategos de campanha tratem de dar, não conseguem humanizar a figura distante, não afetiva, de Hillary. Mas, mesmo sem levantar ondas de entusiasmo, ela vai ganhar por ser a alternativa que resta. E esta eleição americana até vai outra vez entrar para a história: os eleitores dos EUA, depois de terem em primeira vez eleito um negro para presidente, agora vão pela primeira vez eleger uma mulher.

 

O retrato da geografia política dos EUA tem definições muito nítidas e constantes: há maioria dos democratas nos estados costeiros, do Maine à Virgínia na fachada atlântica e do Canadá ao México na frente do Pacífico; no meio há um imenso território, mas muito menos povoado, do Texas ao Dakota do Norte, do Utah ao Kentucky, dominado pelos republicanos. A análise mais detalhada destes mapas mostra que mesmo nos estados costeiros, a maioria democrata está concentrada nas grandes cidades, Nova Iorque, Filadélfia, Chicago, Minneapolis, Seattle, Los Angeles ou São Francisco; mas basta afastarmo-nos algumas dezenas de quilómetros dessas grandes cidades e a maioria passa a ser republicana. Ou seja, é, genericamente, um clássico: as áreas económica e culturalmente mais dinâmicas voltam-se para os democratas, as áreas rurais e as grandes pradarias confiam nos republicanos. Este é o retrato geral. Que também nos mostra que quase 90% dos negros e 60% dos hispânicos tende a votar democrata.

 

É ilustrativo compararmos o que tem acontecido num estado cuja cultura está centrada na família, como o Utah: em 2004, o republicano George W. Bush recebeu 72% dos votos deste estado do Oeste. Quatro anos depois, o também republicano McCain alcançou 63%. Em 2012, Mitt Romney, na oposição a Obama chegou aos 73%.  Agora, as sondagens estão a dar Trump abaixo dos 40%, empatado com Hillary no Utah. Neste estado do Utah, é muito forte o peso dos mórmons que, embora tradicionalmente próximos dos republicanos, rejeitam o discurso de Trump que rompe com valores instalados e encaminha para a perseguição a grupos religiosos, no caso, os muçulmanos. Os mórmons sabem o que é sofrerem hostilidades, rejeitam quem as promove.

 

Trump, “The Donald”, uma anomalia nesta campanha presidencial nos EUA, parece-me, claramente, um caso arrumado. Não tem continuidade política depois de 8 de novembro. Mas o facto de ter chegado aqui é muito relevante e revelador do descontentamento que avança pela sociedade dos EUA. Trump não passa mas o trumpismo, tal como o sanderismo, vão continuar e esse vai ser um desafio crucial para a Madam President Hillary Clinton. É a revolta generalizada contra o “establishment” e contra o estado das coisas. É o profundo mal-estar que sucede à quebra do poder de compra e dos empregos e ao colapso da coesão social. Algo que disparou com o desmoronamento de 2007/2008, mas que já vinha de antes.

 

Os americanos cultivavam orgulho no seu país e nas suas instituições. Tinham-se habituado, no pós-guerra, a considerar os EUA como potência planetária para o bem. Intocável, segura, terra de futuro. Havia o racismo, a segregação, mas havia orgulho no espírito da nação americana.  Ainda que com periódicas ondas de incerteza. Aconteceu em 1957, quando os soviéticos lançaram o primeiro foguetão para o espaço, mas a confiança regressou logo a seguir com Kennedy a prometer a lua. A guerra do Vietname foi outra era de incerteza, a que se somou a crise energética que derrubou o presidente Carter.

 

Agora, depois da infâmia no 11 de setembro de 2001, tudo está de pernas para o ar. A América deixou de ser um país seguro. O medo instalou-se. A globalização transferiu para o estrangeiro muita indústria e, também com a revolução tecnológica, muita gente perdeu o posto de trabalho. Os salários dos não qualificados baixaram. A falta de emprego favoreceu a subida da hostilidade com imigrantes. A América mudou muito no século XXI. O capital social do país está abalado, há declínio do número de postos de trabalho, muitos deles suprimidos pelos avanços da tecnologia. A nova economia atirou para o limbo muitos milhões de pessoas, maioritariamente brancos e com escassa qualificação. Passaram a sentir-se ultrapassados ou até excluídos dentro do seu país. É entre esta gente revoltada contra o sistema que “The Donald” conquistou a relevância que fez dele um ciclone sobre as primárias da campanha eleitoral.

 

A fúria contra o sistema que alimentou ao longo de um ano a campanha de Trump é a mesma, embora com segmentos sociais diferentes, que deu tanto fôlego à campanha de Bernie Sanders. Trump explorou o populismo radical mais à direita, Sanders cresceu com os apelos mais à esquerda pela justiça social. Ambos são expressão de um profundo e justificado descontentamento social nos EUA. Um sentimento que em muitos casos se traduz por revolta, e que vai continuar depois de eleita a nova presidência.

 

Trump vai continuar fanfarrão mas está derrotado, Sanders tende a optar por uma retirada digna, mas o espaço sociopolítico dos EUA está propício para o aparecimento de alternativas extremadas. E o próximo Trump provavelmente nem vai ser um “clown” como “The Donald”. Madam President vai ter de ser capaz de prodígios políticos para evitar que a América entre em erupção social.  

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

O jornalismo conta o que acontece no tempo presente. Parte do que o jornalismo trata entra depois para a história. É o que acontece com Fractured lands: How the Arab world came apart,  grande reportagem de extraordinária qualidade realizada ao longo de 18 meses pelo jornalista-escritor Scott Anderson a que se juntam as imagens captadas no terreno, durante 14 anos, pelo repórter fotográfico Paolo Pellegrin, e publicada no último fim de semana no New York Times Magazine. É uma reportagem profunda e preciosa, realizada com grande sensibilidade, essencial para decifrarmos, ao longo de cinco fascinantes capítulos, o que tem acontecido no Médio Oriente nas últimas quatro décadas e para compreendermos o caos de hoje. O mundo árabe, de 1976 a 2016, grande jornalismo, grande reportagem!

 

João Pina é um repórter fotográfico que vai ao fundo das coisas. Dedicou quase uma década de trabalho a investigar os horrores praticados há 40 anos por seis repressivas ditaduras militares da América do Sul que se coordenaram numa Operação Condor que perseguiu e eliminou 60 mil opositores. João Pina encontrou-se com uma centena de vítimas, estudou processos nos arquivos, acompanhou julgamentos, visitou prisões e centros de tortura. Muitas das estremecedoras fotografias a preto e branco estão publicadas no livro Condor (Tinta da China, 2014).  O trabalho de João Pina já foi mostrado em exposições em S. Paulo, em Santiago do Chile e, neste momento, na principal mostra europeia de tendências no mundo da imagem, os Encontros de Arles. A presença de João Pina em Arles está assim no Libération e já esteve assim no El País. Quando será a exposição Condor em Portugal?

 

O obstáculo de género à qualidade de Guterres: Ban Ki-moon resolve intervir para puxar por uma mulher para lhe suceder na secretaria-geral da ONU.

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje: esta e esta.  

 

E, hoje, grande salto para Nelson Évora e grande pagaiada para Fernando Pimenta.

 

 

publicado às 08:18

Se tuítar, não beba (entre outras coisas)

Por: Pedro Fonseca

 

Um grupo de investigadores norte-americanos estabeleceu uma relação entre o consumo de álcool e o envio de mensagens no Twitter. Em resumo, é conveniente não beber quando se acede a esta rede social (e outras), ou poderá ser-se registado numa nova técnica de análise em tempo real do comportamento humano.

 

 

 

Ao contrário dos grupos de ajuda, que apenas sabem dos problemas quando os alcoólicos se lhes dirigem, ou dos inquéritos porta-a-porta (demorados e com atraso na análise das respostas), o uso do Twitter permite inferir dados a partir da própria habitação do utilizador - o que "antes era impraticável", dizem os investigadores da universidade norte-americana de Rochester responsáveis peloestudo "Inferring Fine-grained Details on User Activities and Home Location from Social Media: Detecting Drinking-While-Tweeting Patterns in Communities".

 

Os seis investigadores usaram técnicas de aprendizagem por máquina ("machine learning") para detectar a emissão em tempo real de mensagens no Twitter e analisaram a correlação com o consumo de bebidas alcoólicas numa cidade (Nova Iorque) e numa localidade rural (Monroe County), mais a norte mas ainda no estado de Nova Iorque. Os dados de medição utilizados pertencem a uma nova categoria - a das mobimétricas - e deixam antever todo um novo mundo de análise de comportamentos mediante dados de mobilidade e localização que os nossos smartphones disponibilizam.

 

Ao contrário de outros estudos sobre actividades nas redes sociais e dados de geolocalização, os autores usaram novos métodos de "machine learning" para refinarem "a localização de actividades e dos lares", a partir de dados do Twitter. Descobriram assim padrões de consumo de álcool entre uma grande e uma pequena localidade, baseando-se nos utilizadores do Twitter e na "densidade" das lojas de venda ou locais de consumo de bebidas alcoólicas, com uma fiabilidade de até 80%.

 

A análise, que juntou elementos dos departamentos de ciências da computação e da medicina, deu diferentes pesos negativos ou positivos a denominadores nas conversas no Twitter, como "bêbado" ou "cerveja", "vinho" ou "ressaca". Esses termos eram igualmente confrontados com cerca de 50 expressões ligadas ao lar, como "sofá" ou "TV", "banho" ou "sono". Em resultado desta investigação, foi possível  perceber que em Nova Iorque os utilizadores do Twitter usam a rede social em casa ou numa distância até 100 metros, enquanto em Monroe County isso ocorria a mais de um quilómetro. "A capacidade de detectar casas e localizações onde os [consumidores de álcool] tuítam permite-nos comparar o consumo em casa e fora", dizem. E perceberam que numa grande cidade - proporcionalmente com mais lojas de venda de bebidas alcoólicas ou bares -, elas são mais consumidas, até porque nesse tipo de ambiente, com "mais pessoas a socializarem, é provável existir uma maior taxa de consumo de bebidas".

 

Esta equipa de investigação considera que a análise do Twitter para "estudos geo-espaciais do comportamento humano", no consumo de álcool, exercício físico, doenças ou mesmo depressão "não tenta distinguir meras menções de actividades ou estados de registos de actividades" feitos pelos próprios utilizadores, embora os métodos usados possam ser replicados para outro tipo de comportamentos, ou "contextos virtuais sociais", nomeadamente na investigação de dados da saúde pública - até pela divulgação pública dos utilizadores do Twitter sobre os seus consumos de álcool ou de drogas, por exemplo.

 

Apesar de os utilizadores do Twitter fornecerem dados refinados e ubíquos, eles não servem como uma "amostra representativa da população geral", porque normalmente esta rede social não é muito usada por jovens ou por algumas minorias, salienta o estudo. No entanto, até estes desvios analíticos - que sucedem em qualquer análise estatística - podem ser comparados (e corrigidos), tendo em consideração a recolha de dados muito mais exigentes, como os censos, em que a margem de erro é semelhante, afirmam.

 

Em paralelo, este tipo de estudo pode ser replicado para outras redes sociais, como o Facebook, dado que a metodologia em pouco difere, desde que se obtenha acesso aos dados dos utilizadores, eles sejam agregados e daí extraídos potenciais resultados. Foi o que sucedeu na China.

 

A Google da China consegue prever empregos e consumo

 

A agregação de uma enorme quantidade de dados em "contextos virtuais sociais" ou pela geolocalização permite análises não apenas do que aconteceu, mas também do que pode vir a acontecer. O maior motor de busca chinês usou-os de forma inovadora para prever as actividades de consumo e de empregos - exemplificando o que outras empresas como o Facebook, a Google ou operadoras telefónicas podem fazer com os dados móveis dos utilizadores.

 

A Baidu, também conhecida como o Google da China, registou diferentes locais em todo o país, de escritórios a centros comerciais, usando a sua aplicação Baidu Maps, para depois usar a geolocalização fornecida pelos registos dos seus milhões de clientes. Conseguiu assim verificar onde estavam os utilizadores, quantos e em que momento, desde o final de 2014 até este ano.

 

Os dados recolhidos representam uma fotografia da sociedade chinesa e uma excelente notícia para os investigadores da área de análise de grandes dados (Big Data), sintetizava a revista New Scientist. Para Yves-Alexandre de Montjoye, do Data Science Institute no Imperial College de Londres, trata-se de uma "tendência encorajadora ver que [os investigadores chineses] estão a ser abertos sobre a investigação que realizam", mas questiona o "poder" das grandes (e em reduzido número) empresas com acesso a este tipo de dados.

 

Os investigadores chineses introduzem no estudo "Measuring Economic Activities of China with Mobile Big Datao novo conceito de "mobimétrica" ("mobimetrics", contração de "mobile" e de "metrics"), que visa "quantificar as dinâmicas de um sistema social ao analisar enormes dados individuais de mobilidade gerados pelos smartphones" ou outros dispositivos móveis, incluindo carros autónomos, com aproximações de "machine learning", o que pode "mudar a paisagem" da economia e das ciências sociais.

 

A questão não é se certo tipo de métricas seriam ou não obtidas, mas a rapidez com que são conseguidas através da movimentação dos utilizadores dos smartphones. Por exemplo, os investigadores puderam registar o encerramento de uma grande fábrica de calçado em Dongguan, no sudeste da China, no primeiro trimestre deste ano, após verificarem uma "queda abrupta no número de funcionários". O mesmo sucedeu noutro exemplo com uma fábrica de telemóveis na província de Jiangsu, encerrada no final de 2015.

 

No entanto, os dados também mostram crescimento de empregos num parque de software em Pequim, com "muitas empresas de software", que quase duplicou desde 2014. Também na capital chinesa, analisa-se o "rápido crescimento" de funcionários numa "start-up", que disparou após ter recebido um elevado investimento no segundo trimestre de 2015.

 

Os registos de "milhares de milhão de dados de geoposicionamento" possibilitaram ainda à Baidu a criação de três índices - de emprego, de consumo e de tendências de consumo. No primeiro caso, conseguiram detectar como as posições em fábricas tradicionais diminuíram, ao contrário do que sucedeu nos empregos tecnológicos.

 

No consumo, anteciparam "volumes de tráfego" de consumidores para as lojas da Apple ou de fraude e receitas nos cinemas, com "resultados satisfatórios", o que facilitou a criação do último índice para as tendências de consumo. Este antecipa despesas em várias indústrias, como vendas de carros, restaurantes, investimentos financeiros ou no turismo, dizem os investigadores.

 

Ao serem "os primeiros a medir a segunda maior economia [do mundo] pela mineração de dados numa escala sem precedentes", salientam que - apesar de não existirem "estatísticas paralelas nos relatórios governamentais" - não querem "substituir as estatísticas tradicionais baseadas em inquéritos, mas complementar esses indicadores". Até porque, salientam, os dados móveis são menos usados por crianças ou idosos, desvirtuando a fiabilidade da análise estatística.

 

O que deixam a perceber é que "a Internet móvel, especialmente os serviços de localização, são ubíquos nos nossos dias: de cada vez que abrimos uma aplicação, procuramos um restaurante, verificamos a estrada e o tráfego, alugamos um carro usando uma aplicação, usamos o mapa de navegação móvel, a localização do utilizador é registada através de várias tecnologias de posicionamento, gerando maciços dados de rastreamento" derivados dessa mobilidade.

 

É este uso da "mobimétrica", das técnicas de analítica para Big Data e da "machine learning" que agilizam a correlação entre o consumo de álcool e o envio de tuítes, por exemplo. Os "dados móveis têm uma maior cobertura, mais estruturada e robusta", o que permite "medir os comportamentos ao nível individual numa forma mais directa". Ou seja, o futuro interligado dessas tecnologias ainda agora começou.

publicado às 11:24

A minha praia, a sua praia e as praias às quais regressamos sempre

Por: Miguel Morgado 

 

Há mar e mar, há ir e regressar às praias onde aprendemos a nadar, boiar, mergulhar, surfar e namorar. Aqui não se pretende copiar o “guia” de Ramalho Ortigão - não temos esse dom! - nem fazer um guião moderno sobre areia e sal. Queremos, no entanto, deixar breves apontamentos que fazem parte da memória coletiva. Da bola de Berlim na praia do Barril, Tavira, aos croquetes do Palma, em Moledo, às ilhas, águas quentes e frias, ondas, neblinas matinais, ventanias estivais e nortadas, as barracas e o casario, as camisolas de lã, os escaldões e muito mais.

 

 

“Com os primeiros dias de setembro, terminou o período consagrado pela moda à vilegiatura de Sintra. Desde que o mês de agosto finda, até que S. Carlos começa, prescrevem as praxes que a estação marítima suceda à estação de montanha. Enchem-se nesta época, até deitar por fora, as praias de banhos da saída do Tejo e do litoral desde Setúbal até Âncora. Lisboa inteira debanda. [...] Mas de todas as praias portuguesas, é principalmente Cascais a que herda de Sintra a elite do seu verão”. O texto é retirado de “As Praias de Portugal: Guia do banhista e do viajante”, escrito por Ramalho Ortigão, em 1876, referindo-se a Cascais, rainha das praias portuguesas, sob o alto patrocínio da Família Real.

 

O autor de “As Farpas” retratou minuciosamente a paisagem, os hábitos, as "acomodações turísticas", deixou conselhos e recomendações, fossem elas "precauções higiénicas", duração de mergulhos e "socorros aos afogados", assim como uma "reconstituição dos temperamentos e dos caracteres pelo banho frio". 20 locais, todos a norte de Setúbal: Foz, Pedrouços, Póvoa de Varzim, Granja, Espinho, Ericeira, Nazaré, Figueira da Foz e Setúbal, praias de Leça e Matosinhos, as praias "de Pedrouços a Cascais" e as "praias obscuras", Âncora, Apúlia, Furadouro, Costa Nova, S. Martinho do Porto, Assenta, Santa Cruz, S. Pedro de Moel, Porto Brandão, Alfeite e Fonte da Pipa.

 

Ora reconheçamos que não temos o dom literário de Ortigão. E acrescentamos que a ida a praia há muito que deixou de ser privilégio da aristocracia e de gente fina que se fazia acompanhar pela criadagem, assim como as justificações para por o pé na água vão muito além dos fins medicinais.

 

Muitas das praias atrás elencadas, ainda hoje, são paragens obrigatórias de verão que passa de geração em geração. Sem pretender apresentar um guia exaustivo sobre a areia e sal, de praias mais bonitas ou mais in, começamos de chinelos e creme de proteção elevada e terminamos de casaco de lã vestido numa seletiva viagem pela costa continental portuguesa para depois apanharmos o voo e barco até aos Açores e Madeira. Há seguramente outras praias para além das que se seguem, não duvidamos, pelo que citamo-las quase de memória, com a certeza que estão, seguramente, cada uma delas, na cabeça de cada um de nós. 

 

Apanhar o comboio para a praia e comer uma bola de Berlim no Barril

 

As âncoras alinhadas na Praia do Barril, em Pedras d’el Rei, Tavira, para onde se chega passando uma ponte provisória com décadas e saltando para bordo de um comboio que faz lembrar o mítico anúncio dos chocolates de leite “Fantasia de Natal” são postais da praia com as melhores bolas de Berlim de que há memória e que, ano após ano, o “senhor Guerreiro” vende às famílias que em cada verão se estendem num areal que, infelizmente, vai estreitando.

Começa aqui a nossa viagem, numa praia que me é familiar, para onde fui em pequeno, durante os tempos de faculdade e agora casado, bom rapaz e com filhos. Esta zona do Algarve tem ainda como referência a praias de Monte Gordo e a Praia Verde, numa tradição que nasce na era democrática. Seguindo, damos um salto até à praia da Falésia, Albufeira, deslumbramo-nos com a Praia da Rocha, o Alvor ou com o areal da Meia Praia, em Lagos. Chegados a Sagres, soprados pelo vento, entramos na água gelada nas praias lá em baixo e assistimos ao pôr-do-sol cá em cima, na ponta mais ocidental de Portugal continental.

 

Rumamos a norte. A costa vicentina, outra tradição bem recente, servirá, por certo, para formar novas gerações de veraneantes. Aljezur, Odeceixe, Zambujeira do Mar, que entrou no mapa muito por culpa dos festivais de música, até Vila Nova de Mil Fontes. E aqui, neste refúgio alentejano, a divisão familiar ganha vida no areal e ondas do Malhão, uma praia que se divide em três, ou na paisagem escarpada dos Aivados.

 

Novo pulo. Grândola é Vila Morena e nas suas praias convivem ditas elites e famílias do Alentejo profundo que têm nestas areias finas a praia mais à mão. Entramos em Tróia, em Setúbal, e no mar azul turquesa da Figueirinha e chegamos a Sesimbra.  

 

Na Ericeira o Mar é mais azul e o sol só depois do meio-dia 

 

Neste jogo da memória, e no caso com propriedade de conhecimento de 25 verões bem passados, passamos para norte de Lisboa e para um local com tradição secular já referenciado por Ortigão. A Ericeira, vila de pescadores e de surfistas, hoje transformada em condomínios com piscina e vista de mar. A Ericeira do mar batido, dos limos e pedregulhos que subiam e desciam o areal consoante a força do mar, da areia grossa, das crianças atiradas para dentro de água quase à sua sorte para aprenderem a dar as primeiras braçadas com a ajuda dos “banheiros”, nome hoje substituído por Nadadores-Salvadores, da primeira ida para dentro de água com pranchas, dos toldos às riscas, dos queques e dos biscoitos comprados na Casa Gama, das brincadeiras nas Furnas e as noites na discoteca Ouriço (sim, porque sítio de praia que é praia tem de ter alguma desculpa para se ver o nascer do sol), em suma, na vila que se arroga em que ali “o mar é mais azul”. Sim, é. Mas, acrescentamos que para ver a cor do céu, que se espera ser azul nesta época, só mesmo, muitas vezes, depois do meio-dia.

A neblina matinal é característica, aliás, de toda esta costa, começando antes na Praia das Maçãs, Praia Grande e estendendo-se por Santa Cruz, Peniche, Baleal, Foz do Arelho, São Martinho do Porto e São Pedro de Moel, com as rebentações na areia e a disposição e arquitetura das moradias de férias influenciadas pelo estilo modernista e marcadas pela personalidade dos projetos e em que, seguindo um roteiro pelas mesmas, deparamos com o nome das famílias, ou na Nazaré, outrora frequentada por gente fina acompanhada das suas empregadas que iam a banhos para tratar maleitas e cuja promoção externa alterna entre os gritos das peixeiras de “room, chambre e zimmer” e a praia do Norte com o “canhão” adormecido neste mês.

Seguindo a Costa de Prata, o extenso areal da Figueira da Foz e o Casino, local de muitos flirts, a Praia de Mira, única do país com Bandeira Azul há 30 anos consecutivos e a sua Barrinha, uma piscina gigante natural, local colocado no mapa com as “invasões francesas” de turismo, a Tocha, Quiaios ou Torreira e os fundões da Furadouro, já em Aveiro, é só repescar e refrescar a memória.

 

Os Casinos à beira-mar plantados nas águas que quebram ossos

 

Entrada na Costa Verde, às praias do Norte. Na Invicta, o copo de fim de dia nos Inglesinhos, Leme e Luz, a Praia de Leça, outrora a preferida da colónia inglesa que residia no Porto, com o Clube de Vela Atlântico e vista para o restaurante Brisa Mar ou para Marisqueira de Matosinhos, o areal de Espinho e da Póvoa do Varzim, com tradição cosmopolita e com Casinos à beira-mar plantados para animar os serões e Vila do Conde.

Para Esposende, se na Apúlia, dividida entre a pesca e a apanha do sargaço, colorida por toldos e barcos, com dunas que protegem do vento forte e águas pouco revoltas com iodo qb cujo efeito terapêutico está à vista, já em  Ofir com o seu Pacha, a cura é outra. 

Em Viana do Castelo, em Afife e a Praia do Cabedelo, spots da preguiça ao sol e das caminhadas nas dunas e do surf. Tal como Ramalho Ortigão escreveu, há também Vila Praia de Âncora, no Minho. Acrescentamos Moledo, em Caminha, rica em iodo, provavelmente uma das praias menos democráticas do país. As águas geladas, quebra-ossos, as ventanias estivais convidam mais às camisolas de lã do que a proteções solares. O mar aqui abraça o rio, namora a montanha e tem debaixo de olho o forte da Ínsua e Espanha, na outra margem. Este é o fim de linha na costa continental portuguesa de que nos despedimos em beleza alimentados pelo famoso croquete do “Palma”.

 

Águas quentes no meio do Atlântico

 

Voamos para as ilhas, a Madeira em primeiro lugar. Se a tradição de outrora muitos madeirenses faziam das Canárias, Espanha, a sua praia de eleição, o extenso areal da ilha de Porto Santo, as piscinas do Lido ou as piscinas naturais de Porto Moniz tem resistido no tempo neste paraíso de águas. Já os Açores, cada ilha, entre Fajãs, pedras e areia fina e escura, cada qual terá, com certeza, a sua história. Biscoitos e Prainha, na terceira, Almoxarife, no Faial e Ribeira Grande, em São Miguel, constituem exemplos que aqui destacamos.

 

Se começamos com o excerto de um clássico da literatura portuguesa, deixamos no final, como sugestão, em especial para uma nova geração, quiçá mais itinerante, o livro “Tanto Mar”, de Pedro Adão e Silva e João Catarino, escrito numa viagem num “Pão de Forma” pela costa continental portuguesa. Por certo, algumas das 10 praias descritas como as melhores para surfar lhe são familiares. Muitas outras poderíamos acrescentar. Para surfar, para nadar, mergulhar, bronzear ou namorar, umas fazem parte da nossa história e outras entrarão para memória futura.

publicado às 10:33

A Liga dos Aurélios?

Por: Miguel Morgado

 

Sabia que na época passada Maxi Pereira foi o rei da bola no pé (2639 toques), seguido do campeão europeu, João Mário? Já Gaitán com toque de Midas “deu” 14 golos. Jonas acertou sete vezes da marca de 11 metros e a cabeça de Slimani vale ouro em mais de 1/3 dos seus tentos. Que poderiam ser mais caso não tivesse falhado 20 golos certos. O Porto fez 570 remates e o Braga acertou 21 tiros no ferro. Dados que explicam o sucesso (e insucesso) passado e podem antecipar o que ai vem numa Liga onde moram, por enquanto, quatro “Aurélios”. Vamos às contas.

 

 

 

Aí está a Liga 2016-2017. No Seixal, em Alcochete ou no Olival, sabemos, por enquanto, que partiram Renato Sanches e Nico Gaitán, que os quatro “Aurélios” campeões europeus ainda moram, por enquanto, em Alvalade e que o Porto procura no “Somos Porto” a alma que perdeu no passado recente. Esses são os factos mais ou menos crus, mas que até ao fecho do mercado terão outros condimentos. Os números não mentem, diz-se, por isso olhemos para as estatísticas da época transacta para perceber a importância de jogadores e o sucesso (ou insucesso) das equipas. Números que, de certo, ajudam a perceber e antecipar a prova que está preste a arrancar. Um instrumento útil para treinadores e adeptos. E para presidentes dos clubes e empresários.

 

Ora bem. Peguemos então numa folha e apontemos. Sabemos de acordo com as estatísticas da 1ª Liga, que Jonas, avançado das águias, 16º jogador mais utilizado (33 jogos, 1 como suplente utilizado), contabilizou 2964 minutos e foi o melhor marcador com 32 golos. No outro lado da 2ª circular, morou, e mora ainda, Islam Slimani. Em 33 jogos acertou 27 vezes na baliza em 3013 minutos, o que fez do argelino o 15º jogador mais utilizado.

 

No duelo de pontas de lança, socorremo-nos de outras estatísticas. Esta disponibilizadas pelo “GoalPoint”, ficamos a saber que Jonas concretizou sete pontapés da marca de grande penalidade e foi quem rematou mais vezes (124 remates), o que fez do brasileiro o jogador com melhor taxa de concretização (25,80%). O clube que representa (15,90% taxa de concretização) liderou esses dados.

Já Slimani, com 65 remates enquadrados (entenda-se remates que poderiam ter resultado em golo) e o Sporting com 212 remates ficaram em 1ª lugar nessa estatística. A cabeça do avançado leonino vale ouro. Dos 27 golos marcados pelo argelino, 11 foram com a testa. Mas terá faltado algum discernimento, por vezes, na hora decisiva, desperdiçando 20 ocasiões flagrantes (de golo). Os leões forem quem também desperdiçou mais golos iminentes: 62 ocasiões no total. Números que poderiam ter alterado a história do campeonato e que explicam os menos 9 golos marcados que o velho rival.

 

De entre os “Aurélios” que jogam em Portugal, o muito cobiçado João Mário deu 2587 toques na bola ocupando a vice-liderança da estatística logo a seguir ao defesa direito portista Maxi Pereira (2639). Mas uma coisa é dar toques, a outra é ter um verdadeiro “toque de Midas” e colocar a bola no pé ou cabeça de um colega para que este finalize. E nesse campo, Gaitán foi o “rei” das assistências que levantaram os estádios: 14 que deram golo. Um número bem expressivo se olharmos que o clube que então representou, Sport Lisboa e Benfica, equipa que somou mais assistências (60) que resultaram nos 88 golos marcados. Com estes números, em especial os benfiquistas, podem começar a lamentar que o pé esquerdo do argentino vá, agora, entrar nas estatísticas da Liga Espanhola e do Atlético Madrid.  

 

Analisando ainda os dados disponibilizados pelo “GoalPoint”, o Futebol Clube do Porto foi a equipa que mais remates realizou, 570, sendo que desses, 66 provenientes de fora da área. Desses, 13 foram da responsabilidade do defesa Layún, que assim dividiu com Jonas as despesas do mais rematador antes dessa linha. Se Maxi Pereira foi aquele que mais vezes “levou a bola para casa”, o defesa da faixa contrária, Layún, tentou, de fora de área, fazer aquilo que os seus colegas não conseguiam: dar alegrias aos adeptos.

Mais motivos para sorrir poderia ter tido o Sporting Clube de Braga se algumas das 21 bolas enviadas ao ferro tivessem entrado. O avançado Hassan foi mesmo o mais “azarado” com cinco bolas a baterem onde não deviam.

 

Um Aurélio, dois Aurélios, três Aurélios...

 

O campeão em título, Benfica, parte para a nova época com o tetra como objetivo. Nas insígnias leva o título de equipa mais concretizadora com 88 golos (contra 22 golos sofridos o que a coloca como segunda melhor defesa da prova). A Liga atribui ainda às águias os prémios de Melhor treinador, Rui Vitória, revelação Renato Sanches e melhor jogador, a Jonas. Desses só o “bulo” da Musgueira já cá não mora. Até ver apostaram na contratação de diversos extremos (Carrilo) e na esperança de recuperação de outros (Sálvio).

 

No Futebol Clube do Porto, o homem que celebrizou a frase “Somos Porto” estará no banco dos dragões. A recuperação da mística está nas mãos de Espírito Santo que, para além dos milhões à disposição para investir, tem ainda muita massa crítica no Olival. Basta olhar para o umbigo do Dragão e perceber que aí mora não só o vencedor da 2ª Liga como também os campeões nacionais juniores. André Silva é um exemplo de recrutamento feito dentro de portas.    

 

Rui Patrício, Adrien, William Carvalho e João Mário, são os quatro “Aurélios” campeões europeus de futebol. Se o melhor guarda-redes da Liga (e do Europeu, diga-se), 4º jogador mais utilizado do campeonato português, com 3137 minutos e o tridente do meio-campo se mantiverem por Alvalade, apesar do forte assédio, em especial a João Mário, apelidado de “calminhas” pelo Mestre Aurélio Pereira, a equipa leonina ganha “reforços” de peso na luta pelo título nacional.

 

Caberá a Bruno de Carvalho e a Jorge Jesus avaliarem se podem, ou não, abdicar de um ou mais “Aurélios”, colocando no cesto, de um lado, o encaixe financeiro e, do outro, os pontos que esses jogadores podem valer no final da época. É por isso, no fiel da balança entre a cobiça e a cedência à tentação da venda dos “produtos” de Aurélio Pereira que poderá ditar o nome da Liga que agora inicia, podendo ser a Liga dos “Aurélios” caso estes campeões europeus nascidos em Alcochete não sigam as pisadas dos seus outros seis homónimos que andam por outras Ligas.

 

 

 

 

 

publicado às 09:16

Na tua multidão ou na minha?

Por: Rute Sousa Vasco

Esta semana começa o campeonato de futebol. Mas, mesmo que o que se segue lhe pareça vagamente familiar com o pior do futebol, não tem nada a ver. Até porque para os verdadeiros fãs, o futebol é o melhor pretexto para se ser um selvagem, mas sempre com princípios. Que é exactamente o que não se passa com os hooligans, no futebol, na política e no governo do mundo.

 

As multidões sempre me impressionaram e quase sempre pela negativa. Na presença de muitas pessoas, o indivíduo tende a fundir-se no colectivo e há um efeito de contágio imprevisível que me assusta. Os políticos adoram multidões – só isso explica o fascínio da popular arruada, coisa que qualquer ser humano no estado normal dispensaria. Alguns políticos, os mais perigosos, adoram o ecstasy das multidões – e são especialistas em elevar as suas multidões ao nível seguinte.

 

Esta semana foi notícia que Erdogan conseguiu reunir em Istambul a maior multidão de que há memória nos últimos anos. Três milhões de pessoas, estima-se. Muitas bandeiras nacionais, caras pintadas com as cores da Turquia, coros inflamados que sequenciavam as palavras de comando de quem comanda. "Se o povo quiser a pena de morte, os partidos respeitarão a sua vontade", disse Erdogan. E o povo respondeu em coro: "pena de morte!”. A pena de morte não existe na Europa, diz Erdogan. Mas, isso não significa avanço civilizacional, conclui. Porque nos Estados Unidos, na China ou no Japão existe.

 

Em multidão, não há discussão moral de certo ou de errado. Não há errado. São factos. E os factos que Erdogan exibe mostram que quem está mal são os que pensam diferente de nós. Neste caso, essa Europa fraca que tantos desprezam. Segundo a Amnistia Internacional, 140 países aboliram - por lei, ou na prática – também a pena de morte, o que contabiliza pelo menos mais 112 do que aqueles que fazem parte da União Europeia. Mas tudo isso são detalhes quando se tem um microfone na mão, se é projectado num palco e se tem um público de três milhões de fãs.

 

Que é mais ou menos o clima que Trump tem desfrutado nos seus get-together pelos Estados Unidos. Esta semana, provou que podemos esperar sempre mais dele. Começou em Wilmington, na Carolina do Norte, com o incentivo aos partidários da manutenção e posse de armas a que travem Hillary Clinton. “Hillary quer essencialmente abolir a segunda emenda, aliás, se ela puder escolher os juízes [do Supremo Tribunal] não há nada que vocês possam fazer, pessoal. Se bem que para as pessoas da segunda emenda talvez ainda exista [algo que possam fazer], não sei. Mas digo-vos, esse será um dia horrível”. Tome-se boa nota do tom: “não há nada que vocês possam fazer, pessoal”. Pessoal, multidão, gente que me segue de forma cega, surda e …ruidosa. Depois do apelo a que pessoas com armas possam travar Hillary – e Trump deixou à imaginação de todos o que pode querer dizer “travar” – o delírio continuou. Desta vez, em Fort Lauderdale, na Flórida. "Obama é o fundador do ISIS! O ISIS honra o presidente Obama. E diria que a co-fundadora é a vigarista Hillary!". E o que grita a multidão de Trump cada vez que ouve a palavra Hillary: “Lock her up” (prendam-na). Sob a bruma dos gritos da multidão, Trump apenas acena e sorri.

 

Algures em Moscovo, alguém assiste a tudo isto com um sorriso silencioso e gelado. Chama-se Vladimir Putin. Esta semana recebeu Recep Erdogan num palácio da era dos Czares, em São Petersburgo. Há dois meses, Putin e Erdogan disputavam o título de melhores inimigos. Hoje, Erdogan tem no currículo uma oposição dominada, milhares de adversários presos e mais de 240 pessoas mortas na sequência da tentativa de golpe de estado. A Europa e os Estados Unidos não gostam do que vêem – Putin diz-lhe que “todos nós queremos recomeçar o diálogo”.

 

Michael Morell trabalhou 33 anos na CIA e dirigiu a agência interinamente na qualidade de vice-diretor. Na semana passada escreveu uma coluna de opinião no New York Times em que expressava o seu apoio a Hillary Clinton a par com a sua preocupação com Donald Trump. E também aquilo que escreveu constitui um novo nível na forma como olhamos para eleições em países democráticos, e para a manutenção de um status quo nas relações internacionais. Diz Morell: "Putin explora as fraquezas de Trump, fazendo-lhe elogios. Nos Serviços de Inteligência, diríamos que Putin recrutou Trump como agente involuntário da Federação Russa".

 

O mesmo New York Times avançava, no editorial de ontem, com a possibilidade de Trump estar simplesmente a testar uma estratégia impensável em democracia. A de ganhar pelo tumulto o que já percebeu que não poderá ganhar pelo voto. “Neste momento, Mr. Trump está a perder e possivelmente isso aterroriza-o. Talvez ele não se saiba controlar ou perceber porque o deveria fazer. Ou talvez esteja apenas a satisfazer a sua necessidade ilimitada de atenção. Mas o seu comportamento nesta semana coloca ainda uma hipótese mais perturbadora. Talvez ele tenha desistido de ganhar através dos meios civis e não queira saber das consequências da sua campanha de incitação”.

 

Eu nunca gostei de multidões, foi aquilo que comecei por vos dizer.

 

Tenham um bom fim-de-semana

 

Outras sugestões:

 

São 19 minutos que valem a sua atenção. Primeiro porque é o John Oliver. E depois porque é o John Oliver a explicar porque é que o jornalismo não é apenas um problema dos jornalistas.

 

É impossível resistir a tanta beleza, graça, destreza e qualquer coisa que efectivamente faz parte do Olimpo. Chama-se Simone Biles e entrou nas nossas vidas esta semana, arrisco-me a dizer que para sempre, tal como a sua antecessora, Nadia Comaneci.

 

E esta noite há jazz na Gulbenkian e é ao ar livre e com sorte talvez tenhamos uma chuva de estrelas.

publicado às 10:47

Demagogia é…

Por: Pedro Rolo Duarte

Quando era adolescente, havia nos jornais (e nos pacotes de açúcar?) uns casais de bonecos com um ar vagamente pateta que acompanhavam frases - igualmente tolas, na maioria dos casos - sob o genérico “Amor é…”.

 

Nas últimas semanas lembrei-me deste casalinho, mas por motivos um pouco mais sérios. Por exemplo, a polémica a respeito das novas taxas de IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis), que levou, no limite, a líder centrista Assunção Cristas a afirmar, no Facebook, que “O sol já paga imposto! Parece inacreditável, mas é mesmo verdade: as casas com boas vistas ou exposição solar, independente da localização ou do rendimento do proprietário, passam a ter o IMI agravado”. A ignorância da deputada já vinha a queimar mato nas redes sociais, com todo o estilo de gozos, críticas, e um coro indignado e revoltado.

 

Pois bem…

 

Demagogia é… vir dizer que “O Sol Já paga imposto”, quando a lei que agora se discute é de 2007 (por acaso também de um governo socialista, o de José Sócrates…), tem 13 itens sobre “qualidade e conforto”, e a única novidade que o actual governo introduziu foi reajustar (bem ou mal, é outra discussão…) as taxas, aumentando nuns casos, diminuindo noutros…

 

Demagogia é… virem os proprietários que vendem e arrendam casas por valores que variam conforme a exposição solar ou a vista, a varanda ou a localização, indignarem-se agora com um imposto que avalia os imóveis da mesma forma que eles próprios os avaliam. Para os donos, o preço pode subir porque os seus apartamentos têm vista - para serem taxados, não gostam da ideia. Dois pesos, duas medidas.

 

Mas há mais: é que nestas semanas também se tem falado muito das viagens a França, por ocasião do Euro 2016, que a GALP pagou a alguns membros do Governo, e que pôs meio mundo a exigir a demissão dos “beneficiados”. Sem dúvidas o afirmo: no lugar do Secretário de Estado Rocha Andrade, que é politicamente responsável por um conflito de milhões que a petrolífera deverá ao fisco, nem hesitava na demissão. Mas já sabemos que na política nem todos seguem o mesmo código de conduta ético e moral…

 

De qualquer forma…

 

Demagogia é… Fazer deste caso uma bandeira da moral e dos bons costumes, quando quase todos os jornalistas, directores de jornais, administradores, editores, em lugares relacionados com as empresas que têm orçamentos para estes convites, ou que são anunciantes dos meios, passam a vida nos camarotes dos estádios de futebol em jogos cujos bilhetes não são “low cost”, em viagens pagas a todos os cantos do mundo, nas zonas VIP dos Festivais de Verão, em almoços e “eventos” recheados com presentes de toda a espécie.

 

Demagogia é… Os mesmos políticos que pedem agora cabeças a rolar no Governo, terem, no passado, quando governavam, aceitado o mesmo tipo de convites, viajado a expensas de empresas e grupos de empresários. Muitos deles, agora em companhias privadas (com quem antes se relacionaram enquanto governantes), continuam a sentar-se nos camarotes reservados.

 

E sem querer dramatizar o que é, em si, um drama maior, demagogia também é associar a calamidade dos incêndios a um Governo ou a um ministro. Ninguém, no seu perfeito juízo, quer ver Portugal a arder. O tema não devia servir de arma de arremesso político. Além de demagógico, é infeliz. O momento é de unir, não de dividir.

 

A carinha apatetada dos bonecos do “Amor é…” é a mesma que qualquer um de nós pode fazer perante estes “escândalos”, e este drama maior. Ainda que, como no amor, por detrás destas aparentes patetices, estejam assuntos muito sérios que ajudam a explicar o verdadeiro estado da Nação.

 

Talvez possa rematar assim: “Demagogia é… amar o próximo quando é conveniente. E dizer que nunca se amou quando a conveniência se torna muito inconveniente”.

 

 

Para ouvir esta semana…

 

E talvez ler também: aqui pode saber tudo o que há para saber sobre a morte, aos 81 anos, de Marianne Ihlen, a mulher que inspirou canções de Leonard Choen como a clássica "So Long, Marianne”. As canções, os links, os testemunhos, um excelente trabalho de rádio com extensão digital…

 

A “Mojo” é talvez a mais interessante revista sobre música pop/rock que se publica na Europa - por ser simultaneamente actual sem esquecer o passado. Isto, se ainda considerarmos que o Reino Unido pertence à Europa…

 

“Brexists” à parte, a “Mojo” está viva e recomenda-se, no meio do pandemónio de falências e insolvências que assola o mundo dos media. Neste mês de Agosto, está à venda a sexta edição de uma das suas marcas laterais: a “Mojo’60", uma revista trimestral sobre a música dos anos 60. A capa desta edição é dedicada a Jimi Hendrix, do Verão de 1966 até ao final de 1967. Uma revista nostálgica, mas cheia de boa música…

 

As eleições nos EUA também chegam à música - a revista Rolling Stone revela esta semana um video com uma versão de "Born in the USA”, de Bruce Springsteen, interpretada pelos Arcade Fire em Ontário, no WayHome Festival. Ainda que seja no Canadá, a revista interpreta o facto como um sinal de oposição à eleição de Donald Trump. Seja ou não, vale a pena ouvir…

 

 

publicado às 10:10

Eles querem tornar o sarcasmo online mais fácil de entender

Por: Pedro Fonseca

 

Investigadores portugueses e dos EUA desenvolveram uma rede neuronal para a detecção automática do sarcasmo nos media sociais. O modelo é mais fiável do que outros semelhantes, que usam a análise manual para obter resultados quase semelhantes.

 

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O sarcasmo nas redes sociais já pode ser detectado automaticamente, segundo um grupo de investigadores de Portugal e dos EUA, que desenvolveram um modelo de análise informática para entenderem o que pode ser um potencial enorme negócio. Silvio Amir, Paula Carvalho e Mário Silva, do INESC-ID Lisboa e do Instituto Superior Técnico (Universidade de Lisboa), com Byron Wallace e Hao Lyu, da Universidade do Texas em Austin (EUA), explicam em "Modelling Context with User Embeddings for Sarcasm Detection in Social Media" como criaram uma "rede neuronal" para a detecção automática do sarcasmo nas interacções em redes sociais, baseando-se na informação contextual de publicações anteriores dos autores.

 

A investigação incidiu na rede social Twitter e os investigadores apenas puderam, devido a restrições técnicas desta rede social, ter acesso a mil tuítes de cada utilizador, acabando por analisar 11.541 tuítes de 12.500 diferentes utilizadores.

 

No seu trabalho, os autores citam a definição do sarcasmo como um "caso especial de ironia", em que o seu "sentido literal é entendido como um insulto indirecto" - mas consideram que, "tal como outras formas de expressão subjectiva", os termos são difíceis de definir.

 

No caso das redes sociais, a questão não é a análise fraseológica - "uma exacta mesma frase pode ser interpretada como literal ou sarcástica" - mas depende de quem formula ou escreve com sarcasmo, assim como de um "terreno comum entre partes para ser entendido". Ao analisarem "o contexto" - ou seja, o autor - conseguem "ganhos significativos na precisão" dessa análise.

 

Apesar de assumirem que o trabalho não é inovador, por já existirem outros sistemas de análise de media sociais baseados no contexto passado do utilizador, o problema com estes últimos é a necessidade de terem funcionalidades complexas de classificação manual e a "incapacidade para detectar de forma fiável e interpretar linguagem figurativa".

 

Segundo os investigadores, "isto é particulamente relevante em domínios como as ciências sociais e políticas, em que o uso de dispositivos de comunicação figurativa como a ironia verbal (ou, de outra forma, o sarcasmo) é comum". Como explicava a TechCrunch, "a mesma exacta frase e pontuação podem significar coisas muito diferentes provenientes de diferentes pessoas. Imagine-se, por exemplo, a frase "Make America great again" a ser escrita no Twitter por um apoiante de Trump e por quem se opõe a ele. As mesmas palavras, [mas] significados completamente diferentes".

 

Perante um recente modelo de análise semelhante, mas manual, os investigadores asseguram conseguir uma "fiabilidade absoluta" de 87%, ou 2% acima dos modelos concorrentes. Por outro lado, acreditam que o seu modelo será "mais fácil de desenvolver noutros diferentes ambientes de media sociais".

 

Também a revista New Scientist demonstrava que, sem a ajuda de uma "hashtag" (classificador de expressões, como #ironia), analisar o "sarcasmo online pode ser difícil, mesmo para os seres humanos", pelo que para os computadores "é muitas vezes uma grande dor de cabeça". Mas é "um grande negócio", quando os "anunciantes publicitários registam as atitudes e estados de espírito das pessoas, [e] as empresas e os governos acompanham a opinião pública".

 

Assim, perceber o que realmente é dito nas redes sociais - sem as potenciais armadilhas irónicas - torna-se um desafio. E um potencial negócio.

 

O modelo, além de funcionar noutras redes sociais, também pode ser usado para diferentes línguas. E, como explicava Mark Carman, da australiana Monash University, será relativamente fácil integrar este modelo na análise emotiva dos utilizadores de redes sociais, tendências bolsistas, na análise de marcas e de apoio a clientes, ou em assistentes virtuais como o Siri.

 

Em resumo, "diga-me do que fala e eu posso dizer quem você é", explicava Silvio Amir à New Scientist.

 

O estudo, será apresentado amanhã, 11 de Agosto na conferência CoNLL, organizada pelo SIGNLL (Special Interest Group on Natural Language Learning) da Association for Computational Linguistics, em Berlim (Alemanha).

 

 

Créditos de imagem: http://time.com/3966291/donald-trump-insult-generator/

publicado às 21:33

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