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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O jornalismo nestes tempos de guerra diferente

Por: Sena Santos

Uma vaga de suicídios correu a Europa em finais do século XVIII. Estima-se que terão sido uns 2800 apaixonados com amores não correspondidos que se inspiraram na dor e desespero final do jovem Werther, de Goethe. Publicado inicialmente em 1774, o romance epistolar Os Sofrimentos do Jovem Werther, trata a história do desenfreado amor impossível de Werther por uma Charlotte que está à beira de casar-se com outro. Ela casa-se mesmo e até continuam a ser amigos, mas o ousado Werther não aguenta a asfixiante turbulência passional daquele triângulo amoroso e decide matar-se com um tiro. É a morte escolhida como fuga a um mundo de convenções hipócritas.

 

 

Não há demonstração científica, mas toma-se como realidade que o exemplo de Werther influenciou milhares de apaixonados frustrados por toda a Europa e levou-os ao suicídio. Alguns países, temendo uma psicose coletiva, decidiram impedir a circulação desta obra-prima de Goethe. Nasceu e ficou instalada noção de “efeito Werther”.

 

 

Esta história remete-nos para a influência que pode ter um relato, uma notícia. Uma vaga de homicídios, já no começo do século XX, aparentemente influenciados pelos crimes atribuídos a Jack, o Estripador levou a língua inglesa a arranjar um vocábulo para definir essa eventual causalidade: copycat crime. Um crime influenciado por um outro que ficou envolvido por celebridade.

 

 

São casos que conduzem ao debate sobre a responsabilidade dos media e em particular dos jornalistas em cada palavra que dizem, em cada imagem que mostram, em cada história que contam. É inquestionável que a essência do jornalismo é a de informar e informar implica pesquisar com exigência para contar rigorosamente a verdade dos factos. Há que não esconder o que tem relevante interesse público. O jornalista tem de deixar claro o que são os factos adquiridos, seguros, e distingui-los do que é rumor.

 

 

É preciso que haja ponderação e critério, nervos de aço e bom-senso. Também importa não confundir narração, relato vivo dos acontecimentos, com dramatização. Como igualmente há que garantir que o relato não contem elementos de propaganda ou contrapropaganda, mas apenas a verdade dos factos.

 

 

Tudo isto é suscitado pela macabra progressão de atentados terroristas nos últimos meses na Europa. Todos ficámos horrorizados com todos os relatos. Tudo é revoltante, tudo é inumano. Seja quando o número de vítimas é elevado como em Paris, Bruxelas, Nice, Munique ou Istambul, seja quando esta barbárie tem por alvo o solitário respeitado e ancião pároco de uma aldeia no nordeste francês.

 

 

Como se lida com estas notícias? Rute Sousa Vasco já trouxe na passada sexta-feira aqui no Sapo 24 uma análise muito interessante sobre o modo como nos relacionamos com a informação.  

 

 

Em França cresceu nestes dias o debate sobre a publicação de certas informações sobre os assassinos, autores destes atos bárbaros. O filósofo Bernard-Henri Levy propôs “um grande acordo entre os media” para remeter os terroristas ao anonimato, recusar-lhes a exaltação da autoria ou a glória de heróis do mal. A intenção é a de tentar estancar o tal efeito copycat crime. O psiquiatra Fehti Benslama também reclamou no Le Monde “um pacto” em que os media se comprometem a não publicar qualquer informação biográfica que leve à identificação dos terroristas. Várias redações francesas alinharam com esta posição, designadamente o canal de informação mais visto, a BFMTV. Mas os diretores de jornais tão distintos como o Le Figaro e o Libération recusaram: “é importante identificar aqueles que nos combatem, é preciso fornecer todos os elementos para a compreensão do que está a acontecer entre nós”, defende Alexis Brézet, do Figaro; Laurent Joffrin, do Libération, pergunta se alguém acredita que esse blackout “contribuiria de alguma forma para dissuadir ou alterar a estratégia dos terroristas”; Jean-Marc Four, diretor da rádio pública France-Inter entende que a autocensura é um erro e que é preciso “chamar as coisas pelos nomes, como elas são”.

 

 

Publicar é escolher. Não há escolhas neutras. É uma tarefa que exige critério na seleção dos factos e responsabilidade na publicação. Sempre com toda a liberdade e o devido respeito pela dignidade cada pessoa, designadamente quem é vítima. Sabemos que o sangue tende a atrair audiências mas também sabemos que na maior parte dos casos não é preciso expor o sangue. Há que evitar a tão frequente espetacularização da morte. A exploração dramática não faz parte do ofício do jornalista.

 

 

Os critérios tendem a ser questionados. A matança em Nice que devastou 84 vidas ocupou horas e horas de emissões e páginas e páginas de jornais, revistas e sítios na web. Mas de Bagdad a Aleppo há atentados quase diários com número tremendo de vítimas e essas notícias estão quase desaparecidas dos media europeus. O jornalismo está a servir os cidadãos ao eclipsar estas enésimas tragédias num Iraque ou numa Síria que se tornam cada vez mais distantes?  

 

 

Seja como for, parece evidente que estamos metidos numa guerra, que é assimétrica, que se ampliou do Médio Oriente para dentro da Europa, e que tem uma forte componente mediática. Vivemos numa sociedade que se liga através dos media. Os terroristas usam os media para amplificar a sua ideologia patológica e o medo que pretendem instalar com a sua violência medieval. Mas não é provável que os potenciais candidatos ao martírio que eles pretendem aliciar sejam leitores de jornais de referência ou seguidores de media tradicionais. A propaganda deles circula a partir da clandestinidade das nebulosas jiadistas através do extraordinário poder das redes digitais.

 

 

É sobretudo pelas redes sociais que passa a propaganda que leva ao risco de “efeito Werther” aplicado ao terrorismo destes bárbaros de agora. O ciberespaço está cheio de vídeos que fazem a apologia da violência. Uma razão mais para que o jornalismo cumpra com a máxima exigência a sua função de dar a entender o que acontece.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

Como vai Cuba, 10 anos depois de Fidel passar a liderança? A opinião de um experiente diplomata mexicano e a análise de um jornalista espanhol que se dedica às Américas que falam castelhano.

 

 

Os dias duros na Venezuela contados por um olhar italiano.

 

 

Os Jogos Olímpicos estão quase a começar. Uma das pistas para gente a seguir. Falta incluir desejados nomes portugueses.

 

 

Destinos com surpreendente magia. Uma escolha da BBC.

 

 

Primeiras páginas escolhidas hoje: esta, esta e esta. Também esta e esta.

 

publicado às 09:16

Amado vai ter de aprender mandarim

Por: António Costa

E se, nos próximos três anos, a União Europeia entrar em recessão profunda, os juros subirem de forma significativa e as matérias-primas caírem para níveis historicamente baixos, o que sucede ao balanço do Millennium bcp? Segundo os resultados dos testes de stress, não acontece nada de especial. O banco de Nuno Amado resiste claramente acima da linha de água, isto é, dos mínimos exigidos pelas autoridades europeias. Talvez por isso, Amado vai ter de aprender mandarim.

 

 

A banca em Portugal estava, ainda está, numa espécie de limbo, à espera de um movimento que pudesse ser um ‘game changer’, depois de um plano de intervenção externa que deixou o sistema financeiro debaixo do tapete. Era para ser a oferta do Caixabank sobre o BPI, mas continua parada, embrulhada em formalidades e legalidades. Era para ser o Novo Banco, mas não há maneira do Banco de Portugal e Fundo de Resolução encontrarem um comprador. E nunca esteve para ser a CGD, especialmente com esta gestão política do Governo que deixou o banco público parado desde pelo menos janeiro deste ano. Do BCP, esperava-se qualquer coisa, até porque a reestruturação orgânica não chegava e era, é, preciso capital novo.

 

 

Depois dos testes de stress, em que o BCP apresentou um rácio, sob stress, de 7%, acima dos 5,5% exigidos, chegou o capital, ou pelo menos a intenção firme de investimento da Fosun, um grupo chinês que já tem em Portugal a Fidelidade e o grupo de saúde Luz. Já tinha concorrido ao Novo Banco há um ano, quer agora ter até 30% do BCP, banco que é hoje dominado pelos angolanos da Sonangol. A Fosun está disponível para investir cerca de 500 milhões de euros, mas a segunda tranche, de 250 milhões, implica um aumento de capital para todos os acionistas do banco, que Nuno Amado muito agradeceria, apesar das declarações públicas de que o BCP não precisa disso. Precisa, pois.

 

 

Há, ainda, formalidades a ultrapassar, a primeira das quais o impacto da venda do Novo Banco no capital dos bancos que são os ‘donos’ do Fundo de Resolução. Depois, a aprovação dos reguladores, leia-se do BCE, a mais capital chinês na Europa e no sistema financeiro. Em ambos os casos, as respostas serão mais determinadas pela necessidade de capital do que pela nacionalidade.

 

 

 

O BCP passará a ser chinês, Angola perderá peso, e isso pode ser um ‘game changer’, desde logo para o BCP, que passa a estar mais capitalizado, num setor ainda à procura de melhores dias e mais negócios rentáveis. Sobretudo depois de ter aumentado as provisões no primeiro semestre para digerir, de uma vez, parte significativa das imparidades que continuam a pesar nas contas. O que quer, agora, o BCP neste novo quadro acionista relativamente à operação de venda do Novo Banco? Ninguém sabe, pelo menos ainda.

 

 

Além disso, o BPI, o outro candidato bancário ao Novo Banco, está paralisado por uma oferta e por uma guerra de acionistas que torna praticamente impossível uma oferta firme no prazo necessário quando, em setembro, o governador do Banco de Portugal exigir novos compromissos.

 

 

 

O setor começa a ficar arrumado, sem bancos de capital privado português, como se antecipava, mas com bancos privados a falarem línguas diferentes, em concorrência, desejavelmente para benefício dos que têm de pedir financiamento. À língua portuguesa da CGD, já temos o castelhano e catalão, soma-se agora o mandarim, e veremos, depois, que nacionalidade vai ter o Novo Banco.

 

 

 

 

Escolhas

 

 

E por falar em bancos, o Novo… Banco tem um novo presidente. A partir de hoje, é António Ramalho, um homem dos bancos que, de forma intermitente, passou por outros setores, o último dos quais a Infraestruturas de Portugal. Se não é inédito, é quase: Ramalho substitui Eduardo Stock da Cunha a meio de uma operação de venda do Novo Banco que ainda ninguém arrisca dizer como vai acabar. Em setembro, já depois das férias, saber-se-á, mas com a informação disponível hoje, arrisco um desfecho: a venda de uma participação minoritária a um investidor ou mais e entrada no mercado de capitais, à espera de melhores dias, do próprio mercado e das contas do Novo Banco, que no primeiro semestre fechou com prejuízos de 362,6 milhões de euros.

 

 

Agora que o país vai a banhos, podemos sossegar, nem que seja por umas semanas, poucas, porque o segundo semestre vai ser difícil. Basta ver o detalhe da execução orçamental e o que indicam os principais indicadores económicos para o resto do ano.  Portugal escapou às sanções, sim, mérito de António Costa, que continua a demonstrar habilidade política. Mas já tem outras sanções a caminho, e agora não pode invocar a Comissão Europeia como fonte de todos os males. O BE e o PCP já perceberam isso. Ao contrário de Pedro Passos Coelho, que continua parado em outubro de 2015, à espera de chegar ao poder na sequência de uma crise. Assunção Cristas agradece. E que tal, Passos Coelho, apresentar um plano, ou umas quantas ideias, pelo menos, que reformem o país, coisa que a geringonça, pela sua natureza, será sempre incapaz de o fazer? Os banhos, esses, pode acompanhar aqui, em www.sapo24.pt.

 

 

Eu, da minha parte, entro hoje numa espécie de férias, a preparar o lançamento do ECO, um novo jornal económico digital, ‘mobile first’, que chegará ao mercado no último trimestre. Pode acompanhar em www.eco.pt as últimas novidades, a equipa e ao que vimos.

 

 

 

Boas férias para os que podem, bom trabalho para todos os outros.

publicado às 10:26

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