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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Pão e circo (mas sem pão…)

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Na passada terça-feira, quem circulasse de automóvel na zona central de Lisboa pela hora do almoço sentiria na pele o sufoco de uma cidade paralisada. O trânsito estava caótico, as filas entupiam o Marquês de Pombal, e só para dar uma ideia do fenómeno, o percurso de Entrecampos a Campo de Ourique demorava pelo menos 40 minutos (normalmente faz-se, no máximo, em 15 minutos). Não havia razão aparente para aquela balbúrdia. Quase nunca há. Mas que ela existe quando menos se espera, é um facto.

 

O trânsito na capital é um verdadeiro totoloto que acabou de vez com a chamada “hora de ponta” - basta que chova e é hora de ponta à hora da chuva… -, e cujo centro nevrálgico me parece localizado justamente na zona do Marquês de Pombal, desde que uma alma tresloucada decidiu transformar uma rotunda numa confusão de partes de rotunda. Adiante.

 

Nessa mesma terça-feira caótica, o executivo camarário de Lisboa anunciou ao povo da capital a boa nova: vai renascer a Feira Popular, num terreno que a Câmara comprou por mais de 11 milhões de euros. O resto, asseguram, será sustentado por privados e eventuais parcerias. Nada foi muito claro, no que aos dinheiros diz respeito, no anuncio do “pré-programa” da Feira. O costume. Talvez acrescentem uma taxazita de entrada no aeroporto, ou algo parecido, para ajudar a pagar a despesa…

 

Agora imaginem o cenário: estou parado no trânsito, tentando chegar a horas ao meu destino, num caos sem sentido e nunca resolvido. Lembro de imediato os mails, protestos, petições, denúncias, do excelente Fórum Cidadania Lx, que nos recorda diariamente o estado lastimável do património da cidade: o Cinema Paris, os palacetes do Principe Real, a Casa de Garrett, entre tantos outros. E enquanto tudo isto acontece, e enquanto sabemos o estado precário de tantos edifícios, de ruas e passeios, e enquanto assistimos à mais completa e desbragada desregulação dos serviços ao turismo no centro da cidade - bom, enquanto tudo isto sucede, a Câmara Municipal de Lisboa acha que o que é urgente e relevante é mesmo recriar a Feira Popular de Lisboa.

 

Foi irresistível voltar ao tempo dos romanos e da célebre política do “pão e circo” - mas agora é pior: querem dar-nos o circo sem nos darem o pão. Querem divertir-nos sem aconchegar o estômago…

 

Um pouco mais a sério. Que faz falta uma Feira Popular na capital, não duvido. Que o espectáculo obsceno que se nos oferece todo o espaço onde viveu a Feira em Entrecampos devia acabar muito antes de se pensar na nova Feira, parece-me óbvio - para não falar da desolação que é olhar as ruínas do Teatro Vasco Santana (e que nome, e que falta de respeito pela memória…). Agora, que se anuncie, num momento em que não podemos dizer com segurança que saímos da crise, e numa altura em que Lisboa se debate com tantos problemas para resolver e (aparentemente…) tão pouco orçamento para gerir, uma Feira Popular, parece um gozo à moda antiga. Um pátio das cantigas. Uma cena romana, porém sem leões nem gladiadores. Talvez adapte a frase do bom Astérix: “estes lisboetas estão loucos”. E os que não estão, vão enlouquecendo devagar…

 

Coisas que me deixaram a pensar esta semana

 

Há algum tempo que frequento o Mic. O Mic é um agregador de notícias, mas também um jornal online, que nasceu há 3 anos da cabeça de dois jovens, Chris Altchek e Jake Horowitz, com um propósito muito claro: fornecer a informação que interessa às gerações mais novas. Não pretendem abordar todos os temas - só não querem falhar os que interessam às gerações que vão governar o Mundo em breve. É um bom barómetro de uma certa classe média jovem norte-americana. Vale por isso.

 

Uma boa notícia para os tradutores: não há (ainda…) como contornar o conhecimento humano da língua. Se dúvidas houvesse, a noticia que veio de Espanha esta semana dá para rir mas também dá que pensar: deixando ao cuidado do Google a tradução, a tradicional “Feira do Grelo”, que se realiza na cidade vizinha de Pontes de García Rodríguez, transformou-se subitamente na “Feira do Clitóris”, “uma delícia gastronómica típica da cozinha galega”… A língua portuguesa é traiçoeira, mas a tradução na net ainda é mais…

 

Sei que chegou o Netflix e que há séries modernas e fabulosas para ver. Mas confesso: associo o Outono e o começo dos dias chuvosos à família Crawley e aos seus criados em “Downton Abbey”. Escrita e criada pelo vencedor de um Óscar, Julian Fellowes, é um fabuloso quadro de época e de tempos de mudança. Com apenas 100 anos. A sexta e ultima série estreou esta semana, todas as terças a Fox vai esperar por mim. Ou gravo. Ou, como se diz agora, “ando para trás” - como se o tempo andasse mesmo para trás…

publicado às 10:28

O que procuram os turistas numa cidade? A resposta pode estar escrita nas paredes

O que procura um turista quando visita uma cidade? Vida cultural pulsante, gentes genuínas, monumentos, centros históricos ou uma boa gastronomia. A pergunta pode ter uma centena de respostas, mas há uma delas que está escrita nas paredes: a arte urbana.

Por: Alice Barcellos

 

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Mural sobre o fado, em Lisboa. Foto: AFP

 

Apesar de ainda existir em algumas cabeças a ideia de que a arte urbana é vandalismo ou uma expressão artística de menor valor, a verdade é que a maioria das pessoas já se deixa tocar e impressionar por este género de arte, conseguindo distingui-la bem do puro (e mau) vandalismo.

 

Quem nunca observou com cuidado um grande mural pintado num edifício ou guardou uma frase escrita naquela esquina a caminho do trabalho? Esse é um dos trunfos da arte urbana: passar mensagens e fazer-nos pensar. Quer seja em obras de maiores dimensões ou em pequenos stencils espalhados pela cidade.

 

De Inglaterra para o mundo, Banksy conseguiu pôr a arte urbana ao mesmo nível das obras mais conceituadas, presentes nas galerias, museus e leilões. Vários dos seus trabalhos foram vendidos por quase meio milhão de dólares. Com os seus desenhos provocativos e inteligentes, Banksy marca uma viragem na percepção que temos da arte urbana. Ao mesmo tempo, o artista continua a manter o anonimato, o que ajuda a adensar o mistério e a curiosidade sobre a sua identidade e, por conseguinte, as suas obras.

 

Por cá, os artistas que fazem das paredes e muros as suas telas têm cada vez mais visibilidade e cidades como Lisboa e Porto têm apostado numa crescente política “amiga” da arte urbana. A identidade de uma cidade também se desenha nas suas paredes. E as histórias que lá vão sendo contadas chamam a atenção de locais e turistas.

 

Em Lisboa, a arte urbana ganhou um novo impulso no início desta década com o programa Crono. Com o objetivo de dar uma nova a cara a zonas da cidade que estavam degradadas, artistas de renome, nacionais e internacionais, intervieram em vários edifícios. Algumas das obras deste projeto, pintadas na Avenida Fontes Pereira de Melo pelos artistas brasileiros Os Gémeos e pelo italiano Blu, ganharam visibilidade mundial através de fotos partilhadas na internet e entraram para o top 10 do The Guardian, entre os melhores trabalhos de street art do mundo.

 

Desde então, a arte urbana vem conquistando os lisboetas e não só. Prova disso, é o surgimento de empresas e serviços que organizam visitas guiadas às várias obras da capital. Aí, é possível ver trabalhos pintados em zonas menos turísticas e também conhecer um pouco da história do artista e da própria obra.

 

300 quilómetros mais acima, o Porto vive um período fértil neste campo. Após anos mais complicados, em que a câmara tanto apagava trabalhos de artistas de renome, como rabiscos sem valor, a cidade decidiu, agora, abraçar esta manifestação artística e facilitar o processo para quem queira expressar-se numa parede. O primeiro mural legal de arte urbana, junto à estação de metro da Trindade, pintado no ano passado pelos artistas Hazul e MrDheo, marca esta nova fase.

 

Depois disso, outras ações têm acontecido. Desde o primeiro festival de arte urbana e ilustração da cidade, o Push Porto, até ao mais recente projeto Locomotiva, que apoiou várias intervenções de arte urbana, entre elas o maior painel comunitário de azulejos da cidade – ideia do artista Miguel Januário, criador do maismenos.

 

São 3.300 azulejos, pintados por portuenses e turistas, de várias idades e quadrantes sociais, que foram afixados num edifício na Rua da Madeira, junto à estação de São Bento. O projeto foi o culminar de um trabalho de meses e tenta responder à pergunta “Quem és, Porto?”. E se os turistas interessam-se cada vez mais pelas histórias que contam as nossas paredes, também nós podemos encontrar respostas sobre a nossa identidade urbana nestas mesmas paredes. Basta olhar com cuidado e parar para pensar.

 

Alice Barcellos é jornalista de profissão e poeta de coração. Nasceu no Rio de Janeiro, em 1986, mas trocou a cidade Maravilhosa pela cidade Invicta há 15 anos. Adora contar estórias, quer seja em texto, fotografia ou vídeo. Quando não está a trabalhar no SAPO (e em outros projetos que vai participando), gosta de ter a cabeça voltada para o mar e para os livros, para os seus gatos e cadela ou deitar conversa fora com amigos.

publicado às 10:17

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