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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O país de riscos precisa de cultura de prevenção

Por: Sena Santos

Em 18 de agosto de 1756 Rousseau enviou a Voltaire o que ficou conhecido como Carta sobre a Providência. Continha os argumentos de contestação de Rousseau às ideias que Voltaire tinha colocado no Poema sobre o Desastre de Lisboa. Na origem da polémica entre os dois filósofos, discussão que depois foi alargada, esteve o terramoto e o maremoto que meses antes, em 1 de novembro de 1755, tinha devastado a cidade de Lisboa.

 

 

Se Deus é omnipotente e bondoso, que diabo o levou a deixar que Lisboa fosse sujeita a uma chacina assim terrível, é, genericamente, a questão suscitada no poema de Voltaire, tendo em fundo a recusa do otimismo filosófico que marcava aquele tempo e que Leibniz tinha teorizado. Responde-lhe Rousseau, desmontando a questão da responsabilidade de Deus: não foi ele quem colocou as pessoas e as casas nos lugares de risco de Lisboa.  

 

 

Em suma: Rousseau subtrai ao domínio da metafísica e do divino a culpa pela tragédia no terramoto de Lisboa e transporta-a para o epicentro dos territórios da ética e da política. Na prática, Rousseau remete a questão para a consciência da responsabilidade da sociedade. A questão está nas escolhas públicas, nas decisões que são ou não são tomadas.

 

 

É assim que continuamos 260 anos depois. Os terramotos na espinha dorsal de Itália avivam-nos a lembrança de que Portugal é um mosaico de fragilidades e que também tem, designadamente na área de Lisboa, em porções do Algarve e em ilhas dos Açores, exposição ao risco sísmico que deve obrigar-nos a fazer o que pode ser feito para prevenir a desgraça.

 

 

O Japão, a Califórnia e até o Chile já nos têm mostrado que uma aldeia, uma vila ou uma cidade não têm de ficar pulverizadas sempre que a terra treme com mais força.

 

 

Em Itália, nestes dias, também ficou à vista como é valioso preparar os edifícios para o risco sísmico. Em Amatrice como em Pescara del Tronto, as ruínas das casas estão a deixar a descoberto a fragilidade das suas paredes. Já estão a ser detetadas múltiplas falhas estruturais naquelas casas que ruíram. Eram quase todas casas antigas da Itália que parece mesmo eterna e que tinham sido modificadas e ampliadas nos tempos modernos. Em vários casos a estrutura terá ficado demasiado pesada para as débeis paredes de suporte. Há dúvidas sobre os materiais usados nas ampliações, classificadas de beneficiações mas feitas sem estudo de sustentação.

 

 

Logo ao lado de Amatrice e de Pescara del Tronto, no mesmo território sísmico, está Norcia. Apesar de estar a apenas 17 quilómetros do epicentro, em Norcia o terramoto não levou nenhuma vida, enquanto nas terras vizinhas os mortos são quase 300. Não foi milagre, há um pormenor decisivo: é que em Norcia, após a evidência de alto risco com crises sísmicas em 1979 e em 1997, foi decidido dar prioridade ao esforço máximo pela segurança do território local. Passou por investir no estudo do solo onde estão os alicerces de cada casa, análise de cada construção e ter a coragem de assumir que o que tinha risco ia para reconstrução com modelos anti-sísmicos. Isso implicou a coragem política de desviar dinheiros que faltaram em outras necessidades. Mas, verifica-se, garantiu salvar vidas.

 

 

Renzo Piano, lenda da arquitetura contemporânea italiana, ocupa-se há 40 anos da arquitetura e engenharia dos edifícios. Já várias vezes denunciou que “somos herdeiros, indignos, do grande património que herdámos, indignos porque não o protegemos”. Insiste que “perante as catástrofes não podemos atirar culpas para o destino e a fatalidade, mas para nós que não ouvimos os alertas”. Piano defende há muito um audaz e consistente plano de reabilitação quer das degradadas periferias das cidades italianas quer das zonas de risco sísmico. Renzo Piano foi das primeiras pessoas a quem o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, falou quando começou a tratar as tarefas de reconstrução das zonas de desastre. A conversa, no último domingo, prolongou-se por quatro horas. Piano colocou uma exigência: não fazer remendos, tratar de raiz, como deve ser. Com diagnósticos exigentes como os da medicina, com, por exemplo, a termografia a permitir saber do estado da saúde das paredes. E intervenções de micro-cirurgia para as urgências imediatas em edifícios. Com a noção de que o dinheiro gasto, e será muito, é investimento que gera riqueza: salva vidas humanas e dá trabalho a tanta gente.

 

 

Falta-nos informação sobre o estado destas coisas em Portugal. Uma responsável pela área de sismos na Ordem dos Arquitetos alertou para motivos de preocupação, em particular com as obras de reabilitação que proliferam em cidades como Lisboa. O governo, através do ministro do Ambiente, respondeu que esta é uma matéria que está em estudo, designadamente o regulamento sobre resistência dos edifícios. É preciso.

 

 

Em Portugal há grandes melhorias, nos últimos 20 anos, no que tem a ver com segurança e proteção civil. Isso ficou evidenciado no começo deste mês no Festival Andanças, junto a Castelo de Vide. Estavam reunidos milhares de participantes e um incêndio propagou-se em cascata no parque automóvel, fazendo arder 422 carros. Os carros ficaram perdidos mas a segurança foi garantida com eficácia de modo a que nenhuma vida ficasse em risco.

 

 

Precisamos dessa determinação em todos os domínios. A prescrição anti-sísmica é devidamente regulamentada e verificada? Será que cada edifício pode ter, sem burocracias, um bilhete de identidade que nos diga sobre a sua segurança, incluindo a certificação anti-sísmica?

 

 

Seria bom termos respostas a questões como estas e muitas mais colocadas pelos peritos. O físico e sismólogo Charles Richter, introdutor da escala de medição dos sismos a quem dá o nome, deixou o alerta: “O que causa maior número de mortos não é o terramoto mas as construções feitas pelo homem”. Sabemos que a prevenção custa muito dinheiro, mas custa muito menos que a intervenção em fase amarga e trágica depois da catástrofe.

 

 

As catástrofes naturais são inevitáveis. Os seus efeitos, podem ser atenuados. As lições dos desastres, lastimavelmente, depois do recorrente reality show da dor com a vida e a morte em direto, caem depressa no esquecimento.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

António Guterres lidera, de modo constante, a corrida para a eleição do secretário-geral da ONU. Será que a chave decisiva está, como admite o The Guardian, na negociação do voto russo? Há sinais de que a reunião ministerial, em Moscovo, de Augusto Santos Silva com Lavrov deixou portas abertas. O voto de Angola também é crucial para a seleção pelos 15 membros do Conselho de Segurança.

 

 

Espanha está em ponto morto político à espera de um acordo para governo desde as eleições de 20 de dezembro do ano passado. Rajoy volta esta tarde a tentar passar no parlamento, mas a falta de seis votos anuncia novo fracasso aritmético. Será que os espanhóis vão voltar a eleições, as terceiras, já apontadas para o Natal? Será que as eleições regionais de 25 de setembro na Galiza e no País Basco vão ajudar a negociação de compromissos para o governo do Reino de Espanha?

 

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS, esta do Estadão e esta do Correio Braziliense. Fica uma pergunta: como é que os historiadores, num futuro próximo, vão definir o que fica hoje decidido no Senado de Brasília?

 

publicado às 08:29

Agir, e não apenas reagir

Por: Pedro Rolo Duarte

Sem preconceitos: é no mínimo estranho que o “mundo pule e avance” a ritmos e passadas tão diferenciadas conforme as áreas que queiramos observar. Dos anos 60 até ao começo do século XXI, e refiro-me apenas à Europa, vimos os homossexuais ganharem os direitos mais que legítimos ao casamento ou, nos casos mais avançados, à adopção; vimos a discriminação sexual, racial, religiosa, diminuir ou mesmo desaparecer; vimos a liberalização ou, pelo menos, a descriminalização do consumo de algumas substancias “perigosas”… Enfim, poderia elencar uma lista longa de mudanças sociais que, se pensarmos nos séculos passados, foram rápidas - e que foram acompanhadas pelas leis de cada país, de forma a harmonizar e equilibrar a vida dos cidadãos.

 

Se entrarmos no domínio científico, nomeadamente da medicina, temos uma revolução permanente. A investigação, a cura de algumas doenças, a evolução do pensamento sobre a dor, a eutanásia, o prolongamento ilimitado da vida, levaram a novas formas de actuar, e por consequência legislar, que acompanham, senão a par e passo, de muito perto, o conhecimento da prática legal.

 

No entanto, estas passadas civilizacionais não foram acompanhadas de outras, que mereciam uma igual reflexão e mudança. Os casos recentes da imunidade diplomática dos filhos do embaixador do Iraque (que terão agredido quase até à morte um jovem português), e a polémica recorrente sobre as penas - ou falta, ou leveza, das mesmas… - aplicadas aos incendiários, são apenas dois bons exemplos de como, na justiça, nem sempre conseguimos modernizar procedimentos e leis ao ritmo dos factos e da sua recorrência.

 

 

O episódio dos filhos do embaixador iraquiano é, em termos criminais, uma excepção, mas acordou o país para uma medida que vem dos anos 60 do século passado, à época enquadrada num ambiente peculiar, e que talvez hoje não faça grande sentido, pelo menos nas formas de que se reveste. Na verdade, os miúdos, em legítima defesa ou não, puseram um seu semelhante entre a vida e a morte, de forma bárbara, e não podem passar incólumes pelo que fizeram. Tenham 17 ou 20 anos, sejam filhos de quem forem. E o facto, ainda que pontual, merece que se repense o conceito de “imunidade”. Não apenas para diplomatas e seus familiares, mas também para deputados e outros detentores de cargos públicos. Num tempo marcado pela corrupção e pelo lóbi desenfreado, parece-me razoável repensar a ideia de “imunidade” e, no mínimo, limitar essa “mordomia” em toda a frente política…

 

Já no caso dos incendiários, invariavelmente tidos como inimputáveis, ou libertados poucos dias depois de detidos, a coisa é mais grave. O país é anualmente delapidado de uma das suas maiores riquezas - e as causas da tragédia passam tanto pelo louco fascinado por chamas como pelos negócios que a terra queimada proporciona. Nesse quadro, a legislação terá de ser mais dura, mais rigorosa, e mais eficaz. Os pirómanos deviam, mais do que estar presos, trabalhar para remediar o mal que fizeram; as investigações policiais deveriam ser mais eficazes e chegar ao cerne dos negócios que ganham com os incêndios; e o próprio crime associado ao fogo devia ser tipificado de forma a conseguir chegar a quem realmente põe Portugal, todos os anos, a arder.

 

No caso dos diplomatas como dos fogos, o problema é o mesmo: pela excepção ou pela sazonalidade, não tarda esquecemos o tema. Até à próxima tragédia. E é por isso que nuns casos o mundo “pula e avança”, e noutros fica em banho-maria…

 

 

Semana para ler, ouvir e ver…

 

Terminados os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, é tempo de balanços. A cidade não renasceu, mas ficou claramente diferente e, segundo o insuspeito The New York Times, melhor. Vale a pena ler a reportagem que sai fora do domínio das medalhas e das modalidades e entra pela cidade dentro…

 

“The Pigeon Tunnel: Stories from My Life” é o primeiro livro autobiográfico de John le Carré, e está a ser aguardado com enorme expectativa. Enquanto promete para 3 de Setembro a publicação de um excerto da obra, o britânico The Guardian convidou actores de primeira linha para lerem na edição online bocados dos clássicos livros do escritor. Eis aqui um dos exemplos: Tom Hiddleston lê um trecho de “The Night Manager” (“O Gerente da Noite”, na tradução portuguesa)… Que prazer ouvir!

 

E porque estamos a chegar ao fim das férias, prolongo-as um pouco mais sugerindo um olhar atento sobre a edição espanhola da excelente Condé Nast Traveller. Neste caso, escolhi uma infografia que dá que pensar: ela divide o mundo em função do número de pessoas que fala cada idioma. E se “a nossa pátria é a nossa língua”, então as fronteiras do globo andam muito longe da realidade…

publicado às 14:00

Dispam-se quanto lhes apetecer, vistam-se como quiserem - sem tapar a cara

Por: Sena Santos

Quando, no final dos anos 40 do século XX, a campeã de natação e estrela do cinema de Hollywood Esther Williams se deixou fotografar, à beira de uma piscina, com o corpo apenas coberto pelas duas peças de tecido de um biquíni levantou-se grande alvoroço, excitação entusiasmada de uns, reprovadora de outros.

 

Quase o mesmo rebuliço, no começo dos anos 60, quando a estilista Mary Quant pôs à mostra as pernas das mulheres que então ousaram a liberdade e a audácia de usar mini-saia. Neste verão de 2016, em países muçulmanos do Mediterrâneo sul, tal como nos anos anteriores, são muitas as mulheres que ousam ignorar o olhar agressivo e intimidatório dos que pretendem vexá-las por tomarem banhos na praia vestidas ou despidas, com um fato de banho, como lhes apetece.

 

Pouco se fala da coragem destas mulheres muçulmanas que desafiam o sistema opressivo instalado nos seus países. Mas em todo este verão tem-se discutido muito o uso do burquíni, uma versão menos tapada da burqa, concebida para que as mulheres muçulmanas vão à praia. Vê-se qualquer coisa mais do corpo: os pés, as mãos e parte do rosto. Chamar-se ao burquíni um fato de banho não encaixa bem, estamos perante uma espécie de fato-armadura que esconde quem o usa – em contraste com a nudez desarmada que pode estar esparramada logo ao lado.

 

O nome burquíni pretende obviamente fazer alusão ao biquíni e percebe-se de imediato que é uma resposta, da parte de quem cultiva uma mais fechada identidade muçulmana, aquele duas peças que a mulher ocidental conquistou com alguma luta e que até já deu lugar ao monoquíni, quando não, onde pode ser, para quem quer, a nudez total, tudo para o mais total aproveitamento dos benefícios do sol.

 

A discussão sobre o burquíni, à primeira vista, parece uma estéril polémica de verão ou de como é infinita a capacidade humana para misturar problemas reais com o que é fútil. De facto, o debate não fica ligeiro, porque estão em causa liberdades fundamentais. A discussão está mergulhada numa maré europeia carregada de tensões, emoções, traumas, preconceitos, medos e distorções. Até de ódios à flor da pele.

 

Há um ponto de partida que deve prevalecer o princípio fundamental de que cada pessoa é dona exclusiva do seu corpo e da sua vida. Não pode ser um Estado ou uma religião a ditar sobre a vontade de cada pessoa. Cumpre ao Estado, isso sim, proteger a liberdade individual de escolha. Cada pessoa, mulher ou homem, deve poder vestir-se – e até quase despir-se - como entende, em respeito pela norma básica de convivência humana e de respeito pelos outros. Alguém proíbe uma freira de ir, vestida com o seu hábito, para uma praia? Porquê então proibir a mulher que usa burquíni de entrar numa praia, como sucede em lugares do sul de França? A interdição é uma inútil intolerância, uma posição rígida que dificulta o diálogo e a integração. A proibição tende a produzir o efeito contrário: é oferecer argumentos à campanha dos fundamentalistas e oferecer-lhes novos simpatizantes.

 

Esta proibição deveria estar proibida num país (num continente) que proclama a liberdade de culto como pilar da sua cultura.

 

Nem sequer dá para julgar o quão irónico é que em França, onde há 60 anos Roger Vadim expôs o corpo despido de Brigitte Bardot e revelou o seu poder sedutor nos 15 segundos de abertura do filme “E deus criou a mulher”, agora possa haver interdições e multas para uma mulher que vai à praia demasiado vestida.

 

Quem quiser tapar-se, que se tape – é certo que quem nas últimas décadas foi ousando um fato de banho com cobertura cada vez mais mínima achará um desperdício que se esconda o corpo, e que este fique subtraído aos prazeres do sol. É natural que questionemos a satisfação que pode dar estar na praia ou na piscina com grande parte do corpo coberto pelo burquini. Mas é a opção de cada pessoa.

 

Evidentemente, quem escolhe o burquíni está a assumir uma afirmação: “esta é a minha identidade, esta é a minha religião”. Escolha livre, liberdade de indumentária. A liberdade individual é sempre sagrada e o Estado existe para defender os direitos das pessoas, não para os limitar.

 

Diferente é a questão do uso da burqa, que tapa o rosto. É insuportável vivermos numa sociedade onde há gente que tapa a cara em lugares públicos. Do mesmo modo que é inaceitável que alguém possa caminhar pela rua, sentar-se num café ou esplanada, entrar numa escola ou mercado com um capacete a cobrir-lhe a cabeça, também não é admissível que alguma mulher o faça com uma burqa – a burqa é uma limitação que o fundamentalismo, discriminatoriamente, impõe apenas às mulheres. O cara a cara é uma das bases na nossa convivência.

 

É facto que a sucessão de ataques terroristas instalou na Europa um modo desconfiado, atemorizado, de olhar para o que é diferente. Estaremos a distorcer tudo se não soubermos distinguir entre islão, fundamentalismo e terrorismo. Sem perder a noção da cultura de tolerância que é suposto marcar a modernidade ocidental. Já agora: distinguindo também entre a submissão da mulher – que nos habituámos a lastimar no mundo muçulmano, ainda que não seja exclusivo do grupo - e costumes atávicos, mas legítimos.

 

Não esqueçamos que até ao século XVIII nadar ou tomar banho de mar eram práticas reprovadas no ocidente cristão. Constata-se que há sociedades do mundo muçulmano onde subsistem práticas parecidas. Mas pretendermos catalogar as mulheres muçulmanas em função dos centímetros de roupa que usam parece abuso de arrogância. Impor-lhes um tamanho de tecido a cobrir-lhes o corpo é uma estúpida cruzada contra a liberdade individual.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

Feyisa Lilesa, o atleta etíope que nos alertou para mais uma das muitas tragédias em países do Corno de África.

 

A imagem de 12 dias no mar com uma operação de salvamento ao largo da costa da Líbia.

 

Os melhores filmes do que vai de século numa escolha para a BBC de 177 críticos de 36 países:  o topo do pódio para o inquietante Mulholland Drive, de David Lynch.

 

Primeiras páginas escolhidas hoje: esta, esta e esta. A Europa, como um grande navio, vai finalmente mover-se em boa rota? Mas era preciso que a reunião de Renzi, Merkel e Hollande fosse a bordo de um porta-aviões militar, mesmo que frente a uma ilha simbólica?

publicado às 08:17

O dragão das Filipinas

Por: José Couto Nogueira

 

Eleito numa plataforma de direita em Maio, o novo Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, está a cumprir o que prometeu na campanha: matar os suspeitos de tráfico de droga, sem julgamento.

 

A última vez que se falou das Filipinas à escala multicontinental foi quando se ficou a conhecer a colecção de sapatos de Imelda, a mulher do presidente/ditador Ferdinand Marcos. Em 1986, o marido foi obrigado a fugir do país por causa de uma revolução, ela deixou para trás mais de mil e duzentos pares. No país, um arquipélago de 7.641 ilhas com 11 grupos étnicos e 19 idiomas reconhecidos, mais de 99,5 por cento da população sequer tinha um par de sapatos.

 

Os sapatos de Imelda tornaram-se um símbolo da ditadura corrupta, até hoje lembrado por gerações que não fazem ideia quem é Imelda, ou onde ficam as Filipinas, habitadas por cem milhões de almas cristãs, protestantes, muçulmanas, animistas e comunistas.

 

Todavia, as Filipinas têm uma longa História, repleta de peripécias, injustiças, massacres, guerras civis, limpezas étnicas e tudo o mais que uma longa História pode proporcionar. Situada no mar da China, a Sul desta e a Norte da Indonésia, foi descoberta por Fernão de Magalhães (o nome vem de Filipe II) e ficou sob a coroa de Espanha até os americanos a conquistarem, na passagem do século XIX para o XX. Salvo uma curta e sangrenta ocupação japonesa, na Segunda Guerra Mundial, tem estado sempre sob a influência americana, mascarada de república presidencialista, democrática e independente.

 

 

Depois da deposição de Marcos, cuja brutalidade já não estava a dar resultados, o país conheceu vários presidentes, a começar por Coraçon Aquino, viúva de um opositor incómodo que Marcos mandara matar a tiro na placa do aeroporto de Manila. O discurso oficial é mais ou menos democrático, até onde é possível no meio da confusão de credos, idiomas e etnias, distribuídos por 99,9 por cento de muito pobres e 0,01 por cento de fabulosamente ricos. Num documentário recente sobre Manila podia-se ver um luxuoso centro comercial, ao nível de Milão ou Miami, ao lado de um cemitério onde vivem milhares de pessoas. Sim, as pessoas vivem dentro dos jazigos, dentro de anilhas de esgoto à espera de serem colocadas, na rua, na selva e na água. Às guerrilhas comunistas que há décadas massacram populações, também massacradas pelo exército, juntaram-se nos últimos anos as guerrilhas fundamentalistas muçulmanas, que já estão a dar uma boa contribuição para o terror anárquico geral.

 

 

Compreende-se que não é fácil governar um país tão complexo, e talvez por isso os filipinos têm escolhido personagens que parecem tirados de um mau filme de aventuras – daqueles em que um grupo de mercenários comandados por Chuck Noris ataca o palácio presidencial. Aliás, a lista de presidentes inclui um actor secundário retirado de Hollywood (Joseph Estrada) e vários filhos e filhas das eternas famílias dominantes, muito ao género de “Rich Kids of Beverly Hills”. O facto é que tem havido eleições municipais, estatais e nacionais, nas datas previstas, produzindo uma sucessão de presidentes eleitos por um único mandato de seis anos, com poderes muito abrangentes.

 

 

2016 foi ano de presidenciais, e quem ganhou por larga margem foi o Presidente da Câmara de Davao, Rodrigo Duterte, de cognome “O Castigador”. O adjectivo vem do modo como Duterte acha que a justiça deve ser servida e também da sua noção do que é justo ou decente. Por exemplo, em 1989 houve uma revolta de reclusos, que fizeram como reféns um grupo de religiosos protestantes que tinham ido à prisão dar-lhes apoio moral. Os bandidos, maus como as cobras, violaram todas as mulheres do grupo, entre outras barbaridades. Duterte mandou as forças policiais investir e assim morreram os 12 revoltosos e cinco reféns. Até aí podia dizer-se que foi uma negociação mal sucedida. Mas, ao percorrer a prisão depois do incidente, Duterte ficou gravado em câmara – e foi televisionado para todo o pais – ao lado do cadáver de uma das missionárias, Jacqueline Hamill, a dizer o seguinte: “Filha da mãe, que desperdício! Fico a pensar que eles se puseram em fila para a violar. Isso chateia-me, por um lado; mas ela era tão bonita, parecia uma actriz de cinema americano... acho que o Presidente da Câmara devia ter sido o primeiro.”

 

Rodrigo Duterte é assim, diz o que pensa, e o que pensa está muito além dos códigos civilizados.

 

Para a campanha presidencial, Duterte apresentou o seu currículo de lei e ordem em Davao, uma cidade infestada de crime e tráfico de drogas que ele conseguiu conter com políticas brutais. As associações de Direitos Humanos, tanto filipinas como internacionais, protestaram várias vezes, até Duterte encerrar o assunto: “Que se lixem os Direitos Humanos. Não estou nem um pouco preocupado com essas coisas.” Pelos vistos, 39 por cento dos filipinos concordam com esta visão. É preciso levar em conta que, sendo o país muito pobre, com fome, deportações forçadas e outras violências, a droga e o crime fazem parte do dia-a-dia. Drogas leves, pesadas e pesadíssimas são vendidas nas ruas por viciados que precisam de sustentar o vício, fornecidos por uma cadeia alimentar que possivelmente termina nos palácios dos administradores.

 

Há tribunais e leis, inclusive pena de morte. Mas o que Duterte pretende não é levar os criminosos a tribunal. Isso custa caro e leva tempo. Duterte disse aos seus cidadãos que, quando encontrassem um traficante, estavam à vontade para chamar a polícia, ou que resolvessem o assunto logo ali, se tivessem uma arma. "Não digo que o matem, mas a ordem é morto ou vivo." 

 

De Maio para cá, o resultado tem sido fulminante: mais de 800 assassinatos sumários de presumíveis traficantes, feitos pela polícia e por grupos de vigilantes. E dezenas de milhares de outros supostos traficantes e consumidores entregaram-se voluntariamente nas esquadras, achando talvez que uma hipótese de ir a julgamento (se a polícia estivesse para aí virada) sempre era melhor que que ser sufocado com fita-cola enrolada à volta da cabeça, o método preferido pelos justiceiros.

 

Levanta-se imediatamente a questão de condenar à morte pessoas antes de serem julgadas, com o cortejo de injustiças, enganos e vinganças que este sistema proporciona. Mas Duterte, embora reconheça que possa haver enganos, tem a certeza de que vale a pena. Afirma que já matou três passadores com as suas próprias mãos e que o fará sempre que tiver oportunidade; e ainda que quem o fizer não será levado a tribunal. Ou seja, qualquer pessoa pode assassinar outra e depois dizer que era traficante.

 

Mas ainda o calvário dos supostos traficantes começou, já Duterte olha para um horizonte mais vasto. Há dias afirmou que a morte de alguns jornalistas pode justificar-se pela forma como andam a investigar os assassinatos e, pior ainda, casos concretos da corrupção generalizada que sempre navegaram tranquilamente pelas águas filipinas.

 

Em seis anos, o país vai ficar limpinho, a brilhar, sem a mancha das drogas ou das nódoas da corrupção. A comunidade internacional tem mais com que se preocupar do que com as receitas de limpeza de Rodrigo Duterte.

 

publicado às 09:37

As mulheres não se interessam por ganhar. Apenas querem que lhes contem histórias.

 Por: Rute Sousa Vasco

 

[Este artigo começa com um longo e pausado suspiro. É uma espécie de reflexo pavloviano que ocorre quando persistências obtusas persistem.] Vamos lá então falar das mulheres.

 

Das mulheres em geral, das mulheres no mundo, das mulheres na política, nos negócios, nas artes … e nos olímpicos. Os Jogos do Rio têm batido alguns recordes de imbecilidade no que respeita à forma como as mulheres são referidas. Os comentadores da NBC, estação host do evento nos Estados Unidos, têm conquistado medalhas atrás de medalhas e o exemplo foi logo dado no dia do arranque da prova.

 

 

Um tal de John Miller, responsável pelo marketing da estação, explicou que a cerimónia de abertura dos Jogos não seria exibida em directo … por causa das mulheres. Porque os estudos de audiência mostravam, explicou, que há mais mulheres que homens a assistir aos Olímpicos e o sexo fraco é menos interessado nos resultados e mais interessado na narrativa. Ou seja, o que as mulheres querem mesmo é uma mistura de reality show com mini-série e a NBC preparou-se para servir esse menu. Claro que o facto de ter vendido 1,2 mil milhões de dólares de publicidade e de ser mais fácil colocar anúncios em olímpicos cortados às postas não teve nada a ver com essa opção – estes senhores são uns gentlemen, apenas querem agradar às senhoras.

 

 

Correu mal.

 

 

A NBC registou o pior resultado de audiência desde 1992. Com tantos estudos e uma preocupação tão esmerada com o público feminino, não se percebe. Mas também já se sabe, as mulheres são temperamentais. Se calhar, naquele dia, deu-lhes para ir às compras.

 

 

Depois deste arranque, houve já todo um desfile de comentários sobre várias atletas em várias modalidades.

 

 

A nadadora húngara Katinka Hosszu ganhou a medalha de ouro nos 400 metros individuais e bateu um recorde mundial. É chamada a dama de ferro. Mas nos ecrãs americanos o grande plano foi para o marido e treinador, Shane Tusup, o grande responsável pela sua vitória, segundo o comentador da NBC, Dan Hicks. Talvez algumas mulheres não se importem de ser troféu de maridos, namorados, treinadores e por aí fora – mas importam-se de pelo menos assumir que outras têm vida e mérito próprio?

 

 

Não fica por aqui.

 

 

Corey Cogdell-Unrein conquistou, nestes Jogos do Rio, a segunda medalha de bronze no tiro ao alvo. Dir-se-ia que dificilmente poderia ser chamada por outro nome que não o próprio. A não ser para o Chicago Tribune para quem o papel principal de Corey, mesmo quando se torna uma medalhada olímpica, é ser a mulher de um jogador dos Chicago Bears, cujo nome deliberadamente nem vou referir, não porque tenha culpa, mas porque simplesmente não é necessário.

 

 

A invisibilidade das mulheres ficou igualmente patente na entrevista que Andy Murray deu ao veterano John Inverdale depois de ter ganho, no domingo passado, a medalha de ouro no torneio de ténis. Inverdale que é um histórico dos eventos desportivos, um dos rostos da BBC, teve de ser lembrado pelo tenista britânico que não era dele o primeiro feito olímpico de conquistar duas medalhas de ouro – antes já as irmãs Venus e Serena Williams tinham conquistado quatro.

 

 

E, depois, claro, há Simone Biles. O prodígio destes jogos olímpicos. Uma gigante com menos de um metro e meio que só por ela já fez valer a pena ter havido um evento chamado Jogos do Rio. Um manifesto exagero, sim, mas porque qualquer tributo escrito que se faça ficará aquém do talento e das qualidades que esta miúda de 19 anos demonstrou.

 

 

Vamos dizer que a NBC também não deixou os seus créditos por mãos alheias no que respeita a Simone Biles. A começar pelo spot promocional dos olímpicos em que usava uma conversa dos pais da ginasta sobre o quanto ela gosta de ir às compras. Além de gostar de ir às compras, Simone também arranja as unhas – segue-se imagem com a atleta na manicure. É uma menina, percebem? Ou uma gaja, como passarão a dizer logo que deixe de ter um ar ainda infantil. O desporto, a performance, a incrível elegância e destreza demonstrada enquanto ginasta, isso vem depois – lembrem-se, às mulheres interessa menos os resultados e mais a narrativa.

 

 

Aliás, terá sido também a pensar na narrativa que a mesma NBC promoveu um encontro surpresa entre a equipa de ginastas americanas, em que se inclui Biles, e o actor Zac Efron, um ídolo da geração de Biles que cresceu a ver o High School Musical. Efron espetou com uma valente beijoca na bochecha de Simone, ela sorriu, a história foi para o Snapchat, escreveram-se linhas de coisa nenhuma em vários sites e redes. Arthur Nory Mariano, o atleta olímpico que Simone apelida carinhosamente de "namorado brasileiro", foi ao Instagram dizer que ela é a miúda dele, e isto deu matéria para muito comentário e partilha. Aposto que sobretudo feminino, claro.

 

 

As mulheres gostam de narrativas, lembrem-se disso.

 

 

E é no meio disto tudo que a miúda Simone dá uma entrevista e diz apenas: “Não sou o próximo Usain Bolt ou Michael Phelps. Sou a primeira Simone Biles”.

 

 

Por cá, andamos a discutir o conselho de administração da Caixa Geral de Depósitos. Uma missão grandiosa para a qual o Governo convocou 19 administradores. O BCE chumbou 8. Sobram 11. Nenhum é uma mulher. Mas em 2018, a Caixa terá no mínimo três mulheres no Conselho de Administração. Não é uma, não são dez. Porquê? Porque o Banco Central Europeu exige. Não se vá pensar que, por absurdo, seria porque há tantas mulheres qualificadas para gerir um banco como um homem.

 

 

Tenham um bom fim-de-semana.

 

 

Outras sugestões

 

 

Aqui pela redacção do SAPO24 andamos fãs deste podcast. E o primeiro episódio é a perfeita sugestão para o tema da crónica de hoje. Chama-se “The Lady Vanishes” e pode ser ouvido em Revisionist History, o podcast de Malcolm Gladwell.

 

 

E hoje é Dia Mundial da Fotografia, pelo que propomos uma volta ao mundo da imagem, também pelo fio condutor da História. Pode ser lida aqui, num artigo que revisitamos.

publicado às 12:36

A impunidade do Estado

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Se não fosse triste e lamentável, podia ser de rir, ou uma notícia do “Inimigo Público”: uma instituição do Estado, o Tribunal de Contas, num relatório sobre a execução orçamental da Administração Central, crítica o Estado a que pertence por exigir aos contribuintes o que o próprio Estado não cumpre…

Não percebeu? Nem eu.

 

 

Vamos devagar: uma das missões do Tribunal de Contas é fiscalizar a forma como o Estado, através dos Governos e da Autoridade Tributária, cumpre e faz cumprir a lei e os Orçamentos. Nesse âmbito, divulga relatórios em que analisa o que foi feito, o que está mal, o que está certo.

 

 

No Relatório divulgado há dois dias, e relativo a 2015, o Tribunal de Contas vem dizer algo que todos nós, cidadãos, já sentimos na pele de alguma maneira: que os atrasos do fisco, por exemplo, na devolução de impostos ou na correcção de erros, não é minimamente penalizada; ao contrário, se o cidadão se atrasa ou se engana, lá vem a multa, os juros, e às vezes a conta bancária congelada.

 

 

O Tribunal de Contas dá um exemplo: os prazos legais para fechar a contabilidade do Estado são invariavelmente “queimados” - mas exigidos aos contribuintes e sujeitos a multa caso os cidadãos escorreguem nas datas. Diz o relatório (e estou a citar o Diário de Notícias): "Pelas razões que levaram à implementação do E-fatura, em poucos meses, é mais do que oportuno que o Estado, o Ministério das Finanças e a AT também apliquem, como administradores de receitas públicas, os princípios e procedimentos que tornaram obrigatórios aos contribuintes por os reputarem essenciais para a eficácia do controlo dessas receitas”.

 

 

E é aqui que começa a gargalhada. É que o Tribunal vem debitando esta lengalenga todos os anos, mas nada acontece: não há multas ao Estado, não há responsáveis punidos, não há juros a reverter para os contribuintes. O contrário também se mantém inalterado: não é por o Estado ser incompetente, nem por o Tribunal de Contas o sublinhar, que o cidadão é premiado e, pelo menos, amnistiado ou absolvido dos seus delitos menores…

 

 

Estamos portanto no domínio da comédia, em rigor da farsa: as instituições fiscalizam, fazem relatórios, criticam. Nada muda, nada acontece. Impune, o Estado persiste em ser mau pagador, incumpridor, e laxista. Tudo o que não perdoa ao contribuinte que o sustenta e lhe dá sentido. Parece um gozo, uma espécie de brincar ao faz-de-conta entre instituições do mesmo Estado, jogando apenas entre elas - só que os peões do jogo são adultos, as suas vidas, o dinheiro de todos.

 

 

No fim, como sempre, quem se lixa é o mexilhão. Lá está: se não fosse triste, dava para rir.

 

 

Para ler obrigatoriamente esta semana…

 

 

A reportagem da Esquire norte-americana sobre as consequências práticas da legalização e/ou descriminalização do consumo de drogas leves em alguns estados dos EUA. Ou melhor: como os grandes cartéis e traficantes de drogas pesadas responderam a esta aparente machadada no seu negócio…

 

 

A imprensa francesa reflecte a forma como se deve cobrir o tema “terrorismo” e os ataques que a Europa tem sofrido. Eis aqui, na Motherboard, o que está a acontecer e a forma inteligente como se pode encarar esta ameaça diária.

 

 

O Diário de Notícias tem vindo a publicar excelentes entrevistas no âmbito de uma época, o Verão, em que teoricamente temos mais tempo para ler. Há dias, publicou uma conversa entre Céu Neves e a realizadora Leonor Teles (jovem premiada pelo filme “Balada de Um Batráquio”), que é um belíssimo exemplo do que pode constituir uma nova geração de criadores. Mais focada, mais atenta, mais humilde. A ler.

publicado às 10:41

Se fosse atleta olímpico, preferia a medalha de prata ou a de bronze?

Por: Pedro Fonseca

Por vezes, menos é mais. É o caso dos medalhados olímpicos. As razões parecem simples, depois de se perceber porquê - razões que curiosamente podem ser aplicadas a outras actividades.

 

Os Jogos Olímpicos no Brasil antecipavam entregar 812 medalhas de ouro, outras tantas de prata e 864 de bronze. A previsão pode não ser fiável, devido aos empates que se têm sucedido.

 

Mas, se fosse um dos mais de 10 mil atletas presentes, e ficasse afastado do primeiro lugar, preferia receber a medalha de prata ou a do terceiro lugar?

 

A resposta não é fácil mas, por razões emocionais, os atletas que recebem a medalha de bronze aparentam ficar mais felizes do que aqueles que se posicionam em segundo lugar. O que motiva essa aparente felicidade? Porque o perdedor do primeiro lugar compara-se com quem o ganhou, enquanto quem fica em terceiro analisa a sua performance atlética perante quem não recebeu qualquer galardão.

 

E porque se fala de "aparente felicidade"? Porque a investigação científica que valida esta ideia baseia-se na análise de imagens, fotografias ou vídeos, dos medalhados nos pódios olímpicos.

 

Um dos estudos mais citados neste tipo de investigação, "When Less Is More: Counterfactual Thinking and Satisfaction Among Olympic Medalists", data de 1995 e analisou os atletas dos Jogos Olímpicos de 1992, em Barcelona (Espanha).

 

Victoria Medvec, Scott Madey e Thomas Gilovich, do departamento de psicologia das universidades de Cornell e de Toledo, declaram que não podem sugerir uma certeza de que ficar em segundo lugar "leva sempre a uma menor satisfação", até porque não estudaram a "duração dos efeitos" ao longo do tempo.

 

O trabalho destes investigadores incluiu três estudos diferentes, em que analisaram a cobertura televisiva dos Jogos, um outro de análise a entrevistas tidas após os resultados e um último em que entrevistaram os próprios atletas.

 

No primeiro caso, os participantes no estudo viram as imagens das reacções imediatamente após o fim das provas olímpicas dos segundo e terceiro lugares. Depois, fizeram o mesmo quando estes atletas subiram ao pódio para receberem as medalhas.

 

Esses participantes, que tinham de validar a "emoção expressa de cada atleta", foram 20 estudantes da universidade de Cornell, desinteressados e desinformados dos desportos, para evitar qualquer conhecimento prévio sobre os atletas.

 

As competições atléticas providenciam uma óptima precisão, uma "ordem linear" validada e objectiva (os empates são raros). Nesse ambiente, as "respostas emocionais" mostraram que os bronzes pareciam mais felizes do que os pratas.

 

Perante estes "pensamentos contrafactuais", como lhes chamam os investigadores (e que, de forma simples, significam o que as pessoas comparam dos seus triunfos com o que podiam ter atingido), é verdade que os vencedores da medalha de prata também estiveram perto de perderem para o bronze, "mas uma comparação social, para baixo", não é indicativa de "uma mudança de 'status'", porque nenhum venceu a prova "mas ambos ganharam medalhas". Além disso e por causa dessa situação, a comparação entre o terceiro e o quarto lugar é totalmente diferente.

 

Os medalhados com bronze "são susceptíveis de concentrarem os seus pensamentos contrafactuais para baixo", enquanto isso "não existe na comparação ascendente entre segundo e terceiro lugar". Por isso, nesta "assimetria na direcção da comparação contrafactual, a pessoa que está objectivamente pior (o medalhado com bronze) pode mesmo assim sentir-se mais recompensado do que a pessoa que é objectivamente melhor (o medalhista de prata)".

 

Em resumo, há casos em que "menos é mais"...

  

 

Ouro, prata, bronze, muito bom, bom e suficiente

O estudo de Medvec, Madey e Gilovich demonstra um outro tipo de análise social interessante para áreas onde a competência pessoal dos melhores lhes pode trazer dissabores emocionais quando ela é avaliada por entidades externas para a hierarquizar.

 

Na escola, um estudante que falha um "muito bom" e apenas recebe "bom" pode sentir-se menos gratificado do que um outro que consegue um habitual "suficiente". Ou "considere uma pessoa que acerta correctamente em todos menos num número da lotaria. Esse indivíduo perde o jackpot mas normalmente ganha um prémio" considerável, num valor que, "sem dúvida, fornece algum prazer, mas o conhecimento de saber que perdeu o jackpot surge de vez em quando e arruína momentos de outra forma felizes".

 

A discussão sobre esta abordagem não é nova. Em 1890, em "The Principles of Psychology", William James explicava o problema da auto-estima perante as pretensões e o sucesso: "assim, temos o paradoxo de um homem envergonhado até à morte porque é apenas o segundo pugilista ou o segundo remador no mundo. Ou seja, ser capaz de vencer toda a população do mundo menos um não é nada; ele comprometeu-se a si mesmo a ganhar a esse um e, enquanto o não fizer, nada mais conta".

 

As pretensões prévias à competição olímpica são também o que pode revelar algum desapontamento entre os medalhados de prata e de bronze, afirma um outro estudo, "Expectations and emotions of Olympic athletes".

 

Peter McGraw, Barbara Mellers e Philip Tetlock, das universidades do Colorado e da Califórnia, explicaram em 2004 que os medalhados de prata "são mais propensos a ficarem desapontados porque as suas expectativas pessoais são mais elevadas do que as dos medalhados de bronze".

 

O estudo partiu do "aspecto surpreendente" do trabalho de Medvec e dos outros investigadores ao afirmar que "as expectativas anteriores dos atletas não tinham efeito significativo nas suas emoções".

 

Ao re-examinarem esse estudo, usando técnicas semelhantes de visualização de resultados dos jogos de Barcelona mas para os atletas nos Jogos Olímpicos de 2000 (Sydney, na Austrália), os investigadores usaram 26 estudantes da Ohio State University igualmente desinteressados em desporto.

 

A visualização das imagens, classificadas em termos de sentimentos entre 1 (agonia) e 10 (felicidade), mostrou que os vencedores tinham uma média de 7,9, enquanto os medalhados com prata chegavam aos 6,6 e os de bronze aos 6,3. Os atletas sem acesso ao pódio ficavam numa média de 4,3.

 

Os autores introduziram uma outra variante de análise, explicando a diferença entre atletas. Um medalhado de prata que se aproximou da vitória e bateu por larga margem o terceiro no pódio terá sentimentos diferentes daquele que ficou longe do primeiro lugar mas próximo do medalhado de bronze. Ou seja, "a única maneira razoável de imaginar o medalhado de prata a fazer uma comparação para cima seria se tivesse expectativas prévias de ser medalha de ouro".

 

 

De volta às medalhas (e ao IRS)

Perante a emoção e o triunfo das medalhas, é bom recordar que elas são "recentes" nos Jogos Olímpicos.

 

Os Jogos Olímpicos remontam a 776 antes de Cristo e foram banidos durante séculos até Pierre de Coubertin os ter reinventado no século XIX, mas foi apenas nas competições de 1904, na cidade norte-americana de St. Louis, que surgiram as medalhas.

 

Até 14 de Agosto, Portugal já conquistou 24 medalhas olímpicas – 12 de bronze, oito de prata e quatro de ouro (a última foi o bronze da judoca Telma Monteiro nestes Jogos Olímpicos no Brasil).

 

Monteiro recebeu uma medalha pesada e diferente dos anteriores galardoados, e muito diferente das primeiras obtidas pelos portugueses nos Jogos Olímpicos de 1924 (Paris). "As medalhas dos Jogos Olímpicos do Rio são as maiores e mais pesadas da história", porque cada medalha tem um diâmetro de 85 milímetros e pesa meio quilo.

 

Cada medalha de ouro é, na realidade, pouco dourada e muito mais prateada. Ela é composta por 92,5% de prata, 6,16% de cobre e apenas 1,34% é realmente ouro. Mesmo assim, cada uma vale cerca de 600 dólares, segundo o Conselho Mundial de Ouro, sem ir a leilão, onde a importância do medalhado e a data do triunfo acrescentam valores à licitação.

 

Além das medalhas, um triunfo olímpico implica ainda outros ganhos para os desportistas portugueses. Segundo uma portaria de 2014, um campeão olímpico recebe 40 mil euros, enquanto um segundo lugar vale 25 mil euros e um terceiro classificado se fica pelos 17,5 mil euros.

 

Se existir um recorde olímpico ou do mundo, o desportista arrecada 15 mil euros. E, refere Abílio Rodrigues, da Faculdade de Direito da Universidade do Porto, pode nem sequer estar sujeito a IRS.

 

Como os olímpicos têm bolsas atribuídas pelo Comité Olímpico de Portugal para a sua preparação, pretende-se "que os atletas integrados nos programas de preparação de cada ciclo olímpico beneficiem de melhores condições que desejavelmente lhes possibilitem o alcance de resultados desportivos que dignifiquem o país, demonstrando assim a importância política e social assumida pelo Direito Fiscal".

 

Sabendo que há países que pagam muito mais aos seus medalhados e outros que cobram impostos por esses prémios, falta um estudo sobre o impacto não apenas emocional mas financeiro nos vencedores olímpicos das medalhas de ouro, prata e bronze.

publicado às 11:49

Trump à beira da derrota, mas a fúria contra o estado das coisas ameaça Madam President

Por: Sena Santos

A dúvida que chegou a pairar parece hoje resolvida: Donald Trump, “The Donald”, vai perder as eleições. Os eleitores dos EUA vão, em 8 de novembro, fazer de Hillary Madam President.

 

É facto que ainda faltam onze semanas para o dia do voto, que ainda está para se ver o efeito de três debates de máxima audiência, sabendo-se que em política tudo pode sempre acontecer, mas ficou evidente no último mês que “The Donald” ultrapassou a crucial linha vermelha do eleitorado republicano moderado e atingiu um ponto de quase impossível retorno. Toda a gente tinha constatado no último ano de campanha que “The Donald” é uma criatura extrema, um instável e excêntrico provocador sem ética, sem um mínimo sentido de decência, uma aberração na tradição política, tanto moral como cultural, da América conservadora.  

 

“The Donald” tem mostrado - com a linguagem sexista, racista e violenta que usa - um espantoso talento para se autodestruir. Muitos republicanos não o suportavam, alguns deles condescendiam. Neste último mês, com os disparates ditos ao apelar aos portadores de arma para resolverem o problema Clinton, ao insinuar que Obama é o fundador do “Estado Islâmico” e, sobretudo, ao ofender os pais de um soldado americano que perdeu a vida, “The Donald” ultrapassou os limites, exasperou esses republicanos moderados que tentavam manter fidelidade ao partido. Donald Trump deixa assim de ter probabilidade de reunir uma base de apoio que lhe permita ser competidor elegível. Embora continue na eleição e haja que esperar pelos votos, está muito desqualificado.

 

Tanta gente nos EUA não gosta de Hillary, há muitos que a detestam. Incomoda nela o que é sentido como falta de autenticidade. Por mais voltas que os estrategos de campanha tratem de dar, não conseguem humanizar a figura distante, não afetiva, de Hillary. Mas, mesmo sem levantar ondas de entusiasmo, ela vai ganhar por ser a alternativa que resta. E esta eleição americana até vai outra vez entrar para a história: os eleitores dos EUA, depois de terem em primeira vez eleito um negro para presidente, agora vão pela primeira vez eleger uma mulher.

 

O retrato da geografia política dos EUA tem definições muito nítidas e constantes: há maioria dos democratas nos estados costeiros, do Maine à Virgínia na fachada atlântica e do Canadá ao México na frente do Pacífico; no meio há um imenso território, mas muito menos povoado, do Texas ao Dakota do Norte, do Utah ao Kentucky, dominado pelos republicanos. A análise mais detalhada destes mapas mostra que mesmo nos estados costeiros, a maioria democrata está concentrada nas grandes cidades, Nova Iorque, Filadélfia, Chicago, Minneapolis, Seattle, Los Angeles ou São Francisco; mas basta afastarmo-nos algumas dezenas de quilómetros dessas grandes cidades e a maioria passa a ser republicana. Ou seja, é, genericamente, um clássico: as áreas económica e culturalmente mais dinâmicas voltam-se para os democratas, as áreas rurais e as grandes pradarias confiam nos republicanos. Este é o retrato geral. Que também nos mostra que quase 90% dos negros e 60% dos hispânicos tende a votar democrata.

 

É ilustrativo compararmos o que tem acontecido num estado cuja cultura está centrada na família, como o Utah: em 2004, o republicano George W. Bush recebeu 72% dos votos deste estado do Oeste. Quatro anos depois, o também republicano McCain alcançou 63%. Em 2012, Mitt Romney, na oposição a Obama chegou aos 73%.  Agora, as sondagens estão a dar Trump abaixo dos 40%, empatado com Hillary no Utah. Neste estado do Utah, é muito forte o peso dos mórmons que, embora tradicionalmente próximos dos republicanos, rejeitam o discurso de Trump que rompe com valores instalados e encaminha para a perseguição a grupos religiosos, no caso, os muçulmanos. Os mórmons sabem o que é sofrerem hostilidades, rejeitam quem as promove.

 

Trump, “The Donald”, uma anomalia nesta campanha presidencial nos EUA, parece-me, claramente, um caso arrumado. Não tem continuidade política depois de 8 de novembro. Mas o facto de ter chegado aqui é muito relevante e revelador do descontentamento que avança pela sociedade dos EUA. Trump não passa mas o trumpismo, tal como o sanderismo, vão continuar e esse vai ser um desafio crucial para a Madam President Hillary Clinton. É a revolta generalizada contra o “establishment” e contra o estado das coisas. É o profundo mal-estar que sucede à quebra do poder de compra e dos empregos e ao colapso da coesão social. Algo que disparou com o desmoronamento de 2007/2008, mas que já vinha de antes.

 

Os americanos cultivavam orgulho no seu país e nas suas instituições. Tinham-se habituado, no pós-guerra, a considerar os EUA como potência planetária para o bem. Intocável, segura, terra de futuro. Havia o racismo, a segregação, mas havia orgulho no espírito da nação americana.  Ainda que com periódicas ondas de incerteza. Aconteceu em 1957, quando os soviéticos lançaram o primeiro foguetão para o espaço, mas a confiança regressou logo a seguir com Kennedy a prometer a lua. A guerra do Vietname foi outra era de incerteza, a que se somou a crise energética que derrubou o presidente Carter.

 

Agora, depois da infâmia no 11 de setembro de 2001, tudo está de pernas para o ar. A América deixou de ser um país seguro. O medo instalou-se. A globalização transferiu para o estrangeiro muita indústria e, também com a revolução tecnológica, muita gente perdeu o posto de trabalho. Os salários dos não qualificados baixaram. A falta de emprego favoreceu a subida da hostilidade com imigrantes. A América mudou muito no século XXI. O capital social do país está abalado, há declínio do número de postos de trabalho, muitos deles suprimidos pelos avanços da tecnologia. A nova economia atirou para o limbo muitos milhões de pessoas, maioritariamente brancos e com escassa qualificação. Passaram a sentir-se ultrapassados ou até excluídos dentro do seu país. É entre esta gente revoltada contra o sistema que “The Donald” conquistou a relevância que fez dele um ciclone sobre as primárias da campanha eleitoral.

 

A fúria contra o sistema que alimentou ao longo de um ano a campanha de Trump é a mesma, embora com segmentos sociais diferentes, que deu tanto fôlego à campanha de Bernie Sanders. Trump explorou o populismo radical mais à direita, Sanders cresceu com os apelos mais à esquerda pela justiça social. Ambos são expressão de um profundo e justificado descontentamento social nos EUA. Um sentimento que em muitos casos se traduz por revolta, e que vai continuar depois de eleita a nova presidência.

 

Trump vai continuar fanfarrão mas está derrotado, Sanders tende a optar por uma retirada digna, mas o espaço sociopolítico dos EUA está propício para o aparecimento de alternativas extremadas. E o próximo Trump provavelmente nem vai ser um “clown” como “The Donald”. Madam President vai ter de ser capaz de prodígios políticos para evitar que a América entre em erupção social.  

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

 

O jornalismo conta o que acontece no tempo presente. Parte do que o jornalismo trata entra depois para a história. É o que acontece com Fractured lands: How the Arab world came apart,  grande reportagem de extraordinária qualidade realizada ao longo de 18 meses pelo jornalista-escritor Scott Anderson a que se juntam as imagens captadas no terreno, durante 14 anos, pelo repórter fotográfico Paolo Pellegrin, e publicada no último fim de semana no New York Times Magazine. É uma reportagem profunda e preciosa, realizada com grande sensibilidade, essencial para decifrarmos, ao longo de cinco fascinantes capítulos, o que tem acontecido no Médio Oriente nas últimas quatro décadas e para compreendermos o caos de hoje. O mundo árabe, de 1976 a 2016, grande jornalismo, grande reportagem!

 

João Pina é um repórter fotográfico que vai ao fundo das coisas. Dedicou quase uma década de trabalho a investigar os horrores praticados há 40 anos por seis repressivas ditaduras militares da América do Sul que se coordenaram numa Operação Condor que perseguiu e eliminou 60 mil opositores. João Pina encontrou-se com uma centena de vítimas, estudou processos nos arquivos, acompanhou julgamentos, visitou prisões e centros de tortura. Muitas das estremecedoras fotografias a preto e branco estão publicadas no livro Condor (Tinta da China, 2014).  O trabalho de João Pina já foi mostrado em exposições em S. Paulo, em Santiago do Chile e, neste momento, na principal mostra europeia de tendências no mundo da imagem, os Encontros de Arles. A presença de João Pina em Arles está assim no Libération e já esteve assim no El País. Quando será a exposição Condor em Portugal?

 

O obstáculo de género à qualidade de Guterres: Ban Ki-moon resolve intervir para puxar por uma mulher para lhe suceder na secretaria-geral da ONU.

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje: esta e esta.  

 

E, hoje, grande salto para Nelson Évora e grande pagaiada para Fernando Pimenta.

 

 

publicado às 08:18

Demagogia é…

Por: Pedro Rolo Duarte

Quando era adolescente, havia nos jornais (e nos pacotes de açúcar?) uns casais de bonecos com um ar vagamente pateta que acompanhavam frases - igualmente tolas, na maioria dos casos - sob o genérico “Amor é…”.

 

Nas últimas semanas lembrei-me deste casalinho, mas por motivos um pouco mais sérios. Por exemplo, a polémica a respeito das novas taxas de IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis), que levou, no limite, a líder centrista Assunção Cristas a afirmar, no Facebook, que “O sol já paga imposto! Parece inacreditável, mas é mesmo verdade: as casas com boas vistas ou exposição solar, independente da localização ou do rendimento do proprietário, passam a ter o IMI agravado”. A ignorância da deputada já vinha a queimar mato nas redes sociais, com todo o estilo de gozos, críticas, e um coro indignado e revoltado.

 

Pois bem…

 

Demagogia é… vir dizer que “O Sol Já paga imposto”, quando a lei que agora se discute é de 2007 (por acaso também de um governo socialista, o de José Sócrates…), tem 13 itens sobre “qualidade e conforto”, e a única novidade que o actual governo introduziu foi reajustar (bem ou mal, é outra discussão…) as taxas, aumentando nuns casos, diminuindo noutros…

 

Demagogia é… virem os proprietários que vendem e arrendam casas por valores que variam conforme a exposição solar ou a vista, a varanda ou a localização, indignarem-se agora com um imposto que avalia os imóveis da mesma forma que eles próprios os avaliam. Para os donos, o preço pode subir porque os seus apartamentos têm vista - para serem taxados, não gostam da ideia. Dois pesos, duas medidas.

 

Mas há mais: é que nestas semanas também se tem falado muito das viagens a França, por ocasião do Euro 2016, que a GALP pagou a alguns membros do Governo, e que pôs meio mundo a exigir a demissão dos “beneficiados”. Sem dúvidas o afirmo: no lugar do Secretário de Estado Rocha Andrade, que é politicamente responsável por um conflito de milhões que a petrolífera deverá ao fisco, nem hesitava na demissão. Mas já sabemos que na política nem todos seguem o mesmo código de conduta ético e moral…

 

De qualquer forma…

 

Demagogia é… Fazer deste caso uma bandeira da moral e dos bons costumes, quando quase todos os jornalistas, directores de jornais, administradores, editores, em lugares relacionados com as empresas que têm orçamentos para estes convites, ou que são anunciantes dos meios, passam a vida nos camarotes dos estádios de futebol em jogos cujos bilhetes não são “low cost”, em viagens pagas a todos os cantos do mundo, nas zonas VIP dos Festivais de Verão, em almoços e “eventos” recheados com presentes de toda a espécie.

 

Demagogia é… Os mesmos políticos que pedem agora cabeças a rolar no Governo, terem, no passado, quando governavam, aceitado o mesmo tipo de convites, viajado a expensas de empresas e grupos de empresários. Muitos deles, agora em companhias privadas (com quem antes se relacionaram enquanto governantes), continuam a sentar-se nos camarotes reservados.

 

E sem querer dramatizar o que é, em si, um drama maior, demagogia também é associar a calamidade dos incêndios a um Governo ou a um ministro. Ninguém, no seu perfeito juízo, quer ver Portugal a arder. O tema não devia servir de arma de arremesso político. Além de demagógico, é infeliz. O momento é de unir, não de dividir.

 

A carinha apatetada dos bonecos do “Amor é…” é a mesma que qualquer um de nós pode fazer perante estes “escândalos”, e este drama maior. Ainda que, como no amor, por detrás destas aparentes patetices, estejam assuntos muito sérios que ajudam a explicar o verdadeiro estado da Nação.

 

Talvez possa rematar assim: “Demagogia é… amar o próximo quando é conveniente. E dizer que nunca se amou quando a conveniência se torna muito inconveniente”.

 

 

Para ouvir esta semana…

 

E talvez ler também: aqui pode saber tudo o que há para saber sobre a morte, aos 81 anos, de Marianne Ihlen, a mulher que inspirou canções de Leonard Choen como a clássica "So Long, Marianne”. As canções, os links, os testemunhos, um excelente trabalho de rádio com extensão digital…

 

A “Mojo” é talvez a mais interessante revista sobre música pop/rock que se publica na Europa - por ser simultaneamente actual sem esquecer o passado. Isto, se ainda considerarmos que o Reino Unido pertence à Europa…

 

“Brexists” à parte, a “Mojo” está viva e recomenda-se, no meio do pandemónio de falências e insolvências que assola o mundo dos media. Neste mês de Agosto, está à venda a sexta edição de uma das suas marcas laterais: a “Mojo’60", uma revista trimestral sobre a música dos anos 60. A capa desta edição é dedicada a Jimi Hendrix, do Verão de 1966 até ao final de 1967. Uma revista nostálgica, mas cheia de boa música…

 

As eleições nos EUA também chegam à música - a revista Rolling Stone revela esta semana um video com uma versão de "Born in the USA”, de Bruce Springsteen, interpretada pelos Arcade Fire em Ontário, no WayHome Festival. Ainda que seja no Canadá, a revista interpreta o facto como um sinal de oposição à eleição de Donald Trump. Seja ou não, vale a pena ouvir…

 

 

publicado às 10:10

Portugal tem mesmo de continuar a ser assim?

Por: Paulo Ferreira

 

A prevenção e combate aos fogos florestais é um assunto que precisa de todos os ingredientes em que, por regra, somos medíocres: estudo e planeamento, acção coordenada e colaboração entre várias “capelinhas”, estabilidade de políticas, avaliação e eventuais correcções.

 

 

Não preciso de consultar as estatísticas para perceber que o último ano em que houve uma vaga de incêndios invulgarmente trágica foi em 2010. Como é que sei? Porque nas últimas horas foram várias as pessoas que republicaram artigos escritos em Agosto desse ano nos jornais ou nas suas páginas de redes sociais. Fizeram “copy+paste” sem tirar nem pôr, sem mudar uma vírgula, para mostrar que a única coisa que muda são as árvores que ardem porque o que desapareceu há seis anos já não desaparece agora.

 

 

Dois exemplos: Pedro Ivo Carvalho, no Jornal de Notícias e Francisco Seixas da Costa, - a quem abusivamente pedi “emprestado” o título deste artigo - que na sua página de Facebook escreveu na terça-feira:

 

“FLORESTAS

Porque será que, acabado o verão, acabam de imediato as reuniões e reflexões sobre política florestal, ninguém mais fala da questão da limpeza das matas e tudo entra num total esquecimento até ao ano seguinte, até aos primeiros incêndios, altura em que tudo recomeça, da mesma forma, como no ano anterior?

Portugal tem mesmo de continuar a ser assim?

(Escrevi isto no meu blogue a 13.8.2010)”

 

 

Em Portugal a floresta é duas vezes vítima na nossa falta de planeamento, de organização, de exigência, de execução de políticas públicas e posterior avaliação e de responsabilização: a primeira é com a quantidade de árvores abatidas para se imprimirem os "n" relatórios, estudos e reflexões sobre a reforma do sector, a prevenção e combate aos fogos; e a segunda é quando tudo arde porque nada de relevante se fez.

 

Não há governo que não prometa uma “Reforma da Floresta” e António Costa não foi excepção, como acabámos de assistir. Mas já os anteriores governantes anunciaram mudanças de fundo que ou não foram aplicadas ou estavam mal desenhadas desde o início. Foi assim em 2006 e já tinha sido assim em 2003. Isto para ficar apenas na primeira metade da primeira página de uma arcaica pesquisa no Google.

 

Já chamámos especialistas norte-americanos e chilenos para nos ajudarem a combater os fogos.

 

Na década passada, a chamada sociedade civil deu um contributo para o assunto através da Cotec. Foi feito um estudo aprofundado financiado por mais de uma dezena de empresas sobre a prevenção e combate aos fogos florestais, a partir da experiência das melhores práticas internacionais.

 

O que se desconhece é o resultado de todas as reformas, contributos e iniciativas. Não sabemos o que foi feito ou não foi e que impacto teve na floresta, na sua conservação e valorização sustentável porque em Portugal não há o bom hábito de avaliar o resultado das políticas públicas ou os danos causados pela sua ausência.

 

Por estes dias, dada a tragédia sobretudo na Madeira, não será o momento para grandes ou pequenas reflexões. O tempo é de controlar danos e cuidar da melhor forma de todos os afectados. Vai fazer-se o rescaldo, tudo vai acalmar e os incêndios deixam os alinhamentos dos telejornais. Daqui a algumas semanas, é muito provável que Fátima Campos Ferreira conduza mais um debate sobre o tema no Prós e Contras, quando o programa regressar em Setembro. Será mais um e é um clássico dos anos em que arde demasiada floresta. Aliás, se quisermos perceber o que não funciona no país basta revisitar a longa carreira deste programa da RTP e verificar os temas que são recorrentes sem que, discussão após discussão, se encontre alguma evolução - já agora, o primeiro programa foi em Outubro de 2002 e colocava a pergunta: “Os portugueses são pouco produtivos?”. Não nos soa estranho, pois não?

 

O que nunca foi feito foi passar à pratica um plano com cabeça, tronco e membros, que resista às mudanças de ministro ou de governo e que, daqui a uns anos, possa ser avaliado e corrigido se necessário for.

 

 

O assunto é complexo. Tem uma enorme diversidade de partes interessadas - “stakeholders”, como agora se diz - que vão da família com uma pequena parcela de terreno onde construiu a sua casa até às grandes empresas de celulose. Tem um enorme impacto económico. Requer uma coordenação forte entre o Estado central e o poder local. Precisa de importantes contributos dos registos de cadastro das propriedades mas também de medidas penais para os incumpridores a vários níveis. Requer mudanças de hábitos, de educação e de espírito cívico por parte de grandes e pequenos proprietários que podem ser incentivadas com as medidas correctas.

 

Ou seja, o assunto precisa de todos os ingredientes em que, por regra, somos medíocres: estudo e planeamento, acção coordenada e colaboração entre várias “capelinhas”, estabilidade de políticas, avaliação e eventuais correcções.

 

Não estando estas coisas no nosso ADN, talvez a responsabilização dos decisores políticos pelo que não fizeram e deviam ter feito pudesse dar uma ajuda.

 

Daqui a algumas horas Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa aterrarão no Funchal para mostrar solidariedade e confortar as vítimas. Até à próxima tragédia, com estes ou outros actores políticos, onde os discursos se repetirão.

 

 

Outras leituras

 

 

Assunto encerrado, diz António Costa sobre o caso dos governantes que viajaram a convite da Galp. Com sorte e o esquecimento da opinião pública nem é necessário fazer a prometida alteração à lei para clarificar este tipo de situações.

publicado às 13:46

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