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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O banco mau e os três porquinhos

Por: Paulo Ferreira

Mais de 30 anos depois da abertura do sector, das privatizações e da desregulação, voltamos a andar com a banca ao colo e a pagar o lastro de dívidas que vão deixando. Alguma coisa de estrutural haverá para mudar também no sector financeiro, não?

 

Era uma vez três porquinhos-mealheiros. Iam vivendo a sua modesta e esforçada vida de trabalho até que um dia apareceu um banco mau…

 

O leitor conhece a história infantil e facilmente fará o paralelo com o que se vai passando no sistema bancário.

 

O principal problema da eventual criação de um “banco mau”, como sugeriu o primeiro-ministro em entrevista ao DN e à TSF, não está na proposta de António Costa, mas na muito provável necessidade de o fazer para “limpar” os balanços dos bancos. Podemos chamar-lhe “veículo especial”, mas mais não será mais do que uma entidade que recebe os activos problemáticos do bancos e tenta rentabilizá-los.

 

Uma segunda questão, mais aterradora, é que este tipo de mecanismos não é virgem em Portugal.

 

No início da década de 80, o Banco de Portugal e a banca comercial criaram a Finangeste, uma empresa que teve precisamente essa missão: ficar com os créditos malparados que os bancos foram acumulando. Na altura os bancos eram quase todos do Estado, portanto tudo estava dentro da esfera do contribuinte. Havia limites de crédito por instituição definidos pelo Governo e as taxas de juro eram fixadas por lei e publicadas no Diário da República - sim, as gerações mais novas podem achar estranho, mas bem-vindos ao país onde o preço da “bica” e do papo-seco eram decididos em Conselho de Ministros e tinham a força de lei.

 

Com a limpeza feita através da Finangeste, os bancos ficaram mais bonitos e puderam, na década seguinte, ser privatizados.

 

A ironia é que a saída do Banco de Portugal da Finangeste aconteceu apenas há sete meses, quando vendeu os 44% do capital da empresa a um grupo privado, dando por concluído “com sucesso o essencial daquela missão”. Não se conhecem detalhes oficiais do negócio, a começar pelo preço, e muito menos conheço qualquer balanço decente sobre os custos ou proveitos que a operação Finangeste teve para os contribuintes ao longo dos mais de 30 anos em que teve capitais públicos.

 

Somos pouco dados a contas e a aprender alguma coisa com elas, mas era importante que se fizesse esse balanço, agora que, muito provavelmente, vamos entrar numa nova operação de limpeza do lixo bancário.

 

Mas a Finangeste não é a única experiência que já temos na matéria.

 

Conhecem a Parvalorem, a Parparticipadas e a Parups? São as três empresas criadas pelo Estado há seis anos e para onde foi transferida toda a tralha que resultou do desmantelamento do BPN e do grupo de empresas que o integrava. São uma espécie de “banco mau” e é daí, caro contribuinte, que vai saindo a sua parte da factura que resulta do escândalo e da posterior nacionalização. E há o “banco mau” do BES e o rasto de encargos que nos fica do Banif.

 

A nossa experiência em “veículos” já é grande, como se vê. E não só para acorrer a falências verificadas ou aos escombros de “casos de polícia”.

 

O país já foi financeiramente resgatado três vezes em pouco mais de 30 anos, significando isso que o problema tem mais de estrutural do que de conjuntural, como teimosamente vamos evitando encarar.

 

Com a banca não é muito diferente. Limpámos os bancos para os vender a privados. Podemos ficar com o conforto mental de atribuir os desequilíbrios de então aos desvarios das nacionalizações, à pobre economia e ao comando político de tudo o que mexia na economia.

 

Mas 30 anos depois da abertura do sector, das privatizações e da desregulação, voltamos a andar com a banca ao colo e a pagar o lastro de dívidas que vão deixando.

 

Então alguma coisa estrutural haverá também para mudar no sector financeiro, não? Os gestores bancários não podem assumir tantos riscos como fizeram no passado, as regras impostas ao sector não podem permitir a elevada alavancagem - basicamente, a transformação de cada euro de depósito de 1,5 ou mais euros de crédito concedido - que permitiu e a regulação e supervisão tem que se focar mais na prudência do que na emergência. 

 

O que não podemos é passar a vida a passar cheques aos bancos, de forma mais directa e assumida ou de forma mais encapotada e discreta, como aconteceu com a Finangeste.

 

Ao contrário do que é comum nos contos para crianças, este é um sector onde é raro que os “bons” saiam por cima e vivam felizes para sempre e que os “maus” aprendam a lição da sua vida e nunca mais apareçam por ali. E já andamos todos fartos de histórias que nos adormecem.

 

 

OUTRAS LEITURAS 

  • Não é novo que o nível médio de qualificações dos portugueses é baixo e este estudo da Fundação Belmiro de Azevedo confirma-o. Pior do que isso é que a vontade de melhorar seja pouca. Essa é a má notícia, até porque o mesmo estudo nos diz que quem tenta, consegue alcançar os objectivos.

 

  • António Costa demorou meses a perceber que o estatuto de seu “melhor amigo” não chega para colocar alguém, de forma totalmente informal, a negociar em nome do Estado e dos contribuintes. Ainda por cima podendo tê-lo como consultor contratado e a preço de saldo. Sim, 2.000 euros brutos é muito pouco para os predicados que são atribuídos a Diogo Lacerda Machado.
publicado às 10:51

Estado social ou Complex social?

Por: Paulo Ferreira

O edifício kafkiano que o Estado continua a construir para fazer a redistribuição de rendimentos é assustador. São dezenas, centenas, de mecanismos, sistemas, subsídios, benefícios, taxas e taxinhas que, nalguns casos, consomem mais recursos na burocracia do que a chegar às famílias.

  

Maria Manuel Leitão Marques volta a ter em mãos uma tarefa que é daquelas em que deposito mais esperança neste Governo: a continuação da desburocratização do Estado ou, se quisermos utilizar a marca que criou há uma década, do Simplex.

 

Algum avanço já foi conseguido, mas passou essencialmente pela concentração física de serviços públicos e privados essencias nas Lojas do Cidadão, facilitando dessa forma a vida aos utentes, e pela “informatização” ou “webização” da burocracia, permitindo que muita da papelada seja tratada através da rede.

 

Mas isto não é verdadeira desburocratização. O sistema fiscal, por exemplo, está mais complexo do que nunca, apesar de podermos hoje lidar com essa complexidade sem ter que ir fisicamente a uma repartição. Repararam, por exemplo, no sistema e-factura, no tempo que cada um de nós tem que lhe dedicar para ter o benefício, na máquina que ali teve que ser montada para gerir aquilo tudo e na papelada, ainda que sem papel, que aquilo implica?

 

Agora podem ser PDFs e ficheiros, mas a obrigatoriedade dos papéis, dos procedimentos, das provas disto e daquilo continuam lá. Tal como continua lá a dificuldade que os serviços do Estado têm em falar uns com os outros. A Segurança Social continua a pedir-nos papéis que estão nas Finanças, estas pedem o documento que está nos tribunais, estes exigem que vamos aos Registos Civis buscar um papel para lhes entregar e por aí fora, num carrossel de papeladas capaz de levar ao extâse o mais doentio dos burocratas.

 

Tudo isto se construiu e se mantém em franco desenvolvimento em nome do cumprimento da lei, do rigor, da verificação, do combate à fraude e ao pequeno “golpe”. Todo este edifício foi crescendo porque o Estado começa por desconfiar dos cidadãos - o que, sejamos honestos, em muitos casos até faz sentido.

 

O problema é que o aumento da complexidade da máquina afasta dela os cidadãos que dela precisam, tornando a sua vida num calvário, aumenta as possibilidade de a driblar e enganar por parte de quem tem essas intenções e, muito relevante também, faz com que sejam consumidos mais recursos a manter toda a papelada em funcionamento do que a servir os cidadãos - que é, já agora, a finalidade última disto tudo.

 

Um dos papéis fundamentais do Estado é a redistribuição de riqueza. Não vou aqui discutir se essa redistribuição deve ser maior ou mais pequena ou se os que mais têm deviam pagar mais, para os que menos têm receberem mais, ou ao contrário. O ponto não é esse. Não se trata de políticas mas sim de organização e burocracia.

 

O problema são as dezenas, centenas, de mecanismos, sistemas, subsídios, benefícios, taxas e taxinhas que o Estado continua a criar para fazer essa redistribuição. A começar no IRS - são dezenas as possibilidades de deduções e benefícios, muitos suspensos durante a austeridade - e a acabar na Segurança Social.

 

O menu “Formulários” do site da Segurança Social dá 217 resultados e acredito que muitos outros nem estão disponíveis online. Há sete tipos diferentes de subsídio de desemprego, seis tipos diferentes de apoio a cidadãos com deficiência, três mecanismos para acorrer à invalidez - a terminologia também não ajuda: pensão de invalidez, pensão social de invalidez, protecção especial na invalidez -, onze subsídios diferentes para maternidade e paternidade, seis relacionados com a morte e por aí fora.

 

As familias de menos recursos que têm filhos têm acesso ao abono de família, algumas ao Rendimento Social de Inserção, apoios sociais na escola além, claro, da dedução no IRS. Saberão as próprias entender-se no meio disto tudo? Agora, com este orçamento, o IMI também vai ser mais baixo para quem tem filhos. E os mais pobres vão beneficiar de uma taxa de audiovisual mais baixa, além do alargamento da tarifa social de energia. Não paramos, portanto, de construir o enorme edifício.

 

Repito: não estou aqui a discutir a justiça social de tudo isto nem do que se aqui investe mas apenas a estrutura kafkiana que o Estado constroi para atingir os fins.

 

No fim do dia, o objectivo de um Estado Social é garantir os meios mínimos de subsistência a quem não os tem nem os consegue, garantir o acesso à Educação, à Saúde, à Justiça e a bens essenciais, alguns culturais, à generalidade dos cidadãos, independendentemente de estes os poderem ou não pagar. E não me parece difícil que se tenha um sistema muito mais simples, justo, amigo dos beneficiários, transparente e mais barato de gerir do que estas centenas de portas, janelas e gavetas, taxas, taxinhas, subsídios e apoios. Garantindo que quem deles precisa os recebe na mesma ou até recebe mais, mas fazendo com que a carga burocrática que eles implicam seja muito mais reduzida.

 

Além de isto ser um inferno para os cidadãos potencialmente beneficários, duvido que alguém faça as contas - mas é bem possível que para alguns destes apoios seja muito maior o dinheiro gasto pelo Estado na máquina para os gerir do que o benefício que chega às famílias. 

 

Fazer uma enorme limpeza neste labirinto burocrático, poupando na estrutura para libertar recursos, seria uma reforma que valeria uma legislatura.

 

A tarefa da ministra da Modernização Administrativa é grande e os principais opositores costumam sentar-se na sala do Conselho de Ministros e no Parlamento, como se vê. Neste Governo, nesta legislatura, mas também em todos os outros que por lá passaram no passado.

 

 

OUTRAS LEITURAS 

publicado às 10:33

A medida orçamental mais estúpida do ano

Por: Paulo Ferreira

 Não se entende como se vai discriminar positivamente um sector como o da restauração que, nos últimos anos, tem mostrado uma dinâmica invulgar quando a generalidade das outras actividades está carregada de impostos

 

Chegam a ser comoventes o amor e dedicação demonstrados pelo primeiro-ministro ao sector da restauração, materializados na anunciada descida do IVA aplicado ao sector, que deverá passar de 23% para 13% a partir de Julho.

 

Dir-se-á que se trata do cumprimento de uma promessa eleitoral, só por isso um acto meritório. É verdade. Tão habituados estamos a ver a generalidade das promessas ir parar à gaveta entre o dia das eleições e a tomada de posse dos governos que até estranhamos quando elas são cumpridas.

 

No caso presente, o que se estranha é a sobrevivência desta promessa quando tantas outras foram já arquivadas. Primeiro foi a descida da Taxa Social Única para todos os trabalhadores que ficou pelo caminho. Igual destino teve a mesma medida depois de mitigada pelo acordo à esquerda, quando passou a prever aplicar-se apenas aos trabalhadores com ordenados até aos 600 euros. Esta medida custava 327 milhões de euros por ano. Era cara e, quando Bruxelas obrigou a baixar o défice previsto, foi também colocada na gaveta.

 

Mas o IVA na restauração, que custa 350 milhões por ano, sobreviveu. Primeiro porque iria contribuir para a descida de preços, aumentar o volume de negócios do sector e, assim, criar emprego.

 

Mas a corporação sectorial apressou-se a desenganar os mais incautos: que não esperassem uma descida de preços, alegando que eles não subiram quando o IVA subiu. Não é verdade, como mostram os dados do INE. O IVA subiu em Janeiro de 2012. Pois entre Dezembro de 2011 e Janeiro de 2016, os preços no sector subiram 8,5% - uma subida verificada em grande parte logo no início de 2012. No mesmo período, os preços médios de produtos e serviços em toda a economia aumentaram apenas 1%. Portanto, o sector fez-se pagar pelo aumento do IVA, transferindo quase todo o custo fiscal para os consumidores, como é, aliás, natural.

 

Então o argumentário passou a ser apenas o da criação de emprego. Mas como e porquê? Se os preços não baixarem com a redução de IVA, que aumento da procura virá daí? E sem mais procura por motivos fiscais, para quê mais empregados? E se o sector português já é o que tem o volume de facturação por empregado mais baixo da Europa, o caminho é aumentar a mão de obra?

 

Alguém se anda a enganar nas contas. Ou a enganar-nos nas contas.

 

É normal que um sector que durante anos se habituou em larga medida a viver na “informalidade” - o eufemismo que nos salões bem frequentados se utiliza para dizer “fuga aos impostos” - esteja a conviver mal com os sistemas electrónicos que dificultam a sub-facturação e com o e-factura, que transformou cada cliente num fiscal das finanças.

 

Mas essa é uma adaptação que o sector tem que fazer nas suas práticas. É um mau sinal político colocar a generalidade dos contribuintes a pagar as dificuldades que agora sentem no cumprimento das obrigações fiscais.

 

Que pagamos impostos demasiado elevados, é um facto. Mas isso é verdade na restauração e no vestuário e calçado. Nos electrodomésticos e nos imóveis. Nos combustíveis e nos rendimentos do trabalho.

 

Não se entende como se vai discriminar positivamente um sector que, nos últimos anos, tem mostrado uma dinâmica invulgar quando a generalidade de todas as outras actividades está carregada de impostos.

 

Neste contexto, de austeridade continuada e com aumentos inferiores a um euro para as pensões mais baixas por falta de margem, dar 350 milhões de margem comercial adicional à restauração é, provavelmente, a medida orçamental mais estúpida do ano.

 

Esta é uma promessa que devia estar na primeira linha das que caem por manifesta falta de racionalidade económica e financeira. Só por teimosia política se insiste no erro.

 

OUTRAS LEITURAS 

publicado às 01:28

Há mais vida para além do défice

Por: Paulo Ferreira

Fruto dos necessários entendimentos para chegar ao poder, António Costa trocou a sua “visão para a década” pelo orçamento possível para os próximos nove meses. Pouco ou nada resta dos planos iniciais dos socialistas, que eram um guião consistente, independentemente de se concordar ou não com a sua bondade.

 

Independentemente das motivações de cada partido, esta terça-feira foi, sem dúvida, um dia histórico. Ter um Orçamento do Estado aprovado com os votos favoráveis do Bloco de Esquerda e do PCP é coisa inédita. Não o perfilharam, acham que o documento é modesto para as suas políticas mas não deixaram de o aplaudir de pé quando chegou o momento.

 

Não deixa de ser irónico que os dois partidos que não valorizam a redução do défice - acham mesmo que se ele foi criado é para ser grande - e que sempre criticaram o que chamam de obsessão com esse indicador tenham decidido apoiar o Orçamento que prevê o défice mais baixo da democracia - Bruxelas e mercados “obligent”.

 

É claro que nas contas que os dois partidos fazem há certamente mais vida para além do défice. Há, sobretudo, um governo do PS visto como um mal menor quando a alternativa seria um novo governo PSD/CDS. É sobretudo isso que move a esquerda, o que é absolutamente legítimo.

 

Este Orçamento já foi criticado por tudo e pelo seu contrário, como disse Mário Centeno na semana passada na conferência organizada na semana passada pela Conceito e pelo ISCTE. O ministro das Finanças tem razão. Este orçamento é, ao mesmo tempo, visto como austeritário e despesista. Como irrealista e pouco ambicioso. Como eleitoralista e penalizador dos contribuintes.

 

Provavelmente conseguimos encontrar todos esses traços num documento que teve que ser negociado em dois tabuleiros distintos e com visões opostas do que deve ser o Orçamento do Estado português nesta altura.

 

Primeiro, tivemos a negociação interna à esquerda, que o carregou de despesa e devolução de rendimentos. Depois, foi submetido ao crivo de Bruxelas, que obrigou a uma redução do défice que o Governo resolveu carregando em impostos sobre o consumo.

 

Pelo caminho ficou a estratégia económica que o PS tinha desenhado durante a pré-campanha, de que a política orçamental era um elemento central. Fruto dos necessários entendimentos para chegar ao poder, António Costa trocou a sua “visão para a década” pelo orçamento possível para os próximos nove meses. Pouco ou nada resta dos planos iniciais dos socialistas que eram um guião consistente, independentemente de se concordar ou não com a sua bondade.

 

O orçamento a que chegámos - não se esperam alterações de monta na discussão na especialidade - pode ser, de facto, um pouco de tudo e o seu contrário. Mas uma coisa não é: um instrumento que possa ajudar a relançar a economia, que era a pedra de toque do modelo socialista. 

 

O desafio será agora executar o documento sem derrapagens significativas ou aflitivas, o que já não é pouco. Em caso de necessidade, já sabemos com o que podemos contar. O acordo à esquerda impede que se cortem salários e pensões e que se aumentem os impostos sobre os rendimentos do trabalho. Por isso, os impostos sobre o consumo estão na primeira linha dos sacrificados se forem necessárias novas medidas para atingir a meta do défice. E como não resta muito mais, poderemos também não escapar a uma maior tributação sobre as empresas - alguns sectores? algumas empresas? - e sobre alguns tipos de rendimentos individuais para além dos do trabalho.

 

Bom mesmo era que os astros se conjugassem para que tudo isto fosse desnecessário. Que as nuvens mais negras sobre os mercados de exportação desaparecessem e as empresas portuguesas conseguissem vender mais lá para fora. Que os aumentos de rendimento fossem mesmo dirigidos ao consumo de produção interna e não fossem colocados em poupança ou gastos em bens importados. Que o investimento, sobretudo estrangeiro, subisse para fazer baixar o desemprego. Que a despesa do Estado não derrapasse, como sempre acontece, obrigando a mais aumentos da carga fiscal.

 

É que o lastro da despesa pública fica sempre de uns anos para os outros. E esta só se paga de duas maneiras: impostos hoje ou impostos no futuro. Podemos iludir-nos com a tributação do consumo como alternativa aos impostos sobre os rendimentos. Mas não passa disso mesmo, de uma ilusão. No fim do dia, os impostos são sempre pagos pelos contribuintes. A diferença é que uns são pagos directamente à Autoridade Tributária e os outros são entregues a empresas que depois os entregam ao fisco. Podemos não dar conta deles, mas estamos a pagá-los na mesma.

 

OUTRAS LEITURAS 

 

 

publicado às 10:47

35 horas: expliquem-me como se eu fosse muito burro

Por: Paulo Ferreira

 Quando se diz que a função pública pode trabalhar menos 12,5% do tempo sem acréscimo de custos, não se está directamente a desvalorizar o trabalho no Estado, a sua qualidade e a produtividade dos funcionários?  Então o que têm os funcionários públicos feito durante as 20 horas mensais adicionais em que estão no local de trabalho? Não trabalham?

 

Ponto prévio. É legítimo e salutar que cada um de nós trabalhe apenas 35 horas por semana ou até menos. Funcionário público ou trabalhador no sector privado, homem ou mulher, novo ou velho, no campo ou na cidade.

 

Uma boa parte dos avanços civilizacionais das últimas décadas ocorreu, precisamente, na melhoria das condições de trabalho, na busca de uma melhor conciliação entre a vida profissional e a vida familiar e pessoal e nos apoios sociais que se desenvolveram para suportar essa mudança.

 

Se a trajectória ideal é esta, a questão que se segue é saber até que ponto podemos trabalhar menos e manter ou aumentar o nível de vida que também ambicionamos. Ou, dito de outra maneira, até que ponto a redução do horário de trabalho não compromete a produção, reduzindo-a ou aumentando o seu custo.

 

A discussão em curso sobre a redução do horário semanal de trabalho de 40 para 35 horas para toda a função pública - há áreas do Estado, como as autarquias, que mantêm as 35 horas - é sintomática de vários dos nossos problemas e vícios. E no final a Função Pública não sai bem na fotografia.

 

O primeiro vício é a qualidade da tomada de decisão.

 

O programa do Governo promete “o regresso ao regime das 35 horas semanais de período normal de trabalho para os trabalhadores em funções públicas sem implicar aumento dos custos globais com pessoal”. É suposto que o Governo prove previamente aos contribuintes, que são quem paga a factura, que o Estado vai, no mínimo, fazer o mesmo com toda a gente a trabalhar menos. Ou seja, que não haverá nem mais uma hora extraordinária paga para compensar a redução de horário nem um trabalhador admitido. É óbvio que isto não será possível, como, aliás, o ministro da Saúde já admitiu para a sua área.

 

Mas é fundamental estimar o custo da medida. O anterior governo, quando aumentou o horário semanal para 40 horas, estimou uma poupança inicial de 200 milhões de euros por ano e depois corrigiu-a para 153 milhões. Não é verdade? Foi menos? Foi mais? Que impacto teve na despesa pública e nos serviços que o Estado presta?

 

O ministro das Finanças tem-se mantido, e bem, no registo “se não houver custos” mas o primeiro-ministro já tratou de fixar uma data, 1 de Julho, para as 35 horas entrarem em vigor. Desconhece-se de que estudos dispõe António Costa que lhe garantam que a premissa do programa do Governo será cumprida. Não tem, obviamente. Mas o que é que isso importa? Depois logo se vê e no final os contribuintes pagam a factura, seja trabalho dentro do horário regular ou extraordinário. Não foi sempre assim?

 

Depois, não deixa de ser extraordinário que um agente económico admita que uma redução de 12,5% do horário dos seus trabalhadores sem equivalente redução de salário é feita sem custos. Então o que têm os funcionários públicos feito durante as 20 horas mensais adicionais em que estão no local de trabalho? Não trabalham? Ou trabalham mas o que produzem não tem valor e é economicamente irrelevante? É indiferente trabalhar sete ou oito horas por dia? Os organismos não precisam de reforços de pessoal para manterem o mesmo nível de serviço? Seguindo a mesma lógica e levando-a ao absurdo, podemos reduzir o horário para 30, 25 ou 20 horas semanais no Estado que o impacto será o mesmo, nulo?

 

Na função pública trabalha-se tão bem e tão mal como na generalidade das empresas privadas. Há de tudo, dos gestores ao último estagiário admitido. Há os incompetentes, os inadaptados, os preguiçosos mas há também profissionais como os melhores de qualquer organização. O problema no Estado é outro e está na ausência de racionalidade económica na decisão de políticas públicas e na forma como é gerido. Há pouca transparência nas contas, não há responsabilização por resultados, a avaliação de mérito é coisa de que ninguém quer ouvir falar e, no final, há sempre mais um imposto que se aumenta para pagar as ineficiências. Como o Estado não vai à falência, as contas não são para aqui chamadas.

 

Mas quando se diz que a função pública pode trabalhar menos 12,5% do tempo sem acréscimo de custos, não se está directamente a desvalorizar o trabalho no Estado, a sua qualidade e a produtividade dos funcionários?

 

Ah, já sei. Isto vai ser conseguido com “ganhos de produtividade”. Portanto, no dia 1 de Julho os serviços do Estado que reduzem o horário de trabalho vão aumentar a sua produtividade em 12,5% ou perto disso. Fantástico. Se o conseguem, porque não o fizeram nos últimos anos e décadas, no que teria sido um enorme contributo para evitar o “buraco” onde nos metemos?

 

Para dificultar um pouco as coisas, porque isto estava fácil demais de gerir, o Governo avança com a redução do horário semanal ao mesmo tempo que torna mais rígidas as regras de trabalho no Estado. Mobilidade de funcionários entre os vários departamentos, diz o Programa do Governo, só de forma voluntária e “sem excluir a adoção de incentivos especiais para este efeito”. Ou seja, mais dinheiro para cima do problema. Como é que o Governo garante que não há mais despesa se para acudir a uma área onde seja necessário reforçar quadros tem de pagar a funcionários que transitem de outros departamentos e, mesmo assim, tudo dependa da vontade destes?

 

Como se não bastasse, na última semana o Governo foi obrigado a assumir perante Bruxelas que vai continuar a reduzir o número de funcionários públicos em função das saídas para a reforma. Segundo as contas das Finanças, deverão aposentar-se este ano cerca de 20 mil trabalhadores o que, aplicando a regra do “só entra um por cada dois que saem” deverão deixar os quadros do Estado 10 mil trabalhadores, em termos líquidos.

 

Seria uma boa notícia se entretanto o Governo não se preparasse para carregar mais nos custos.

 

Menos 12,5% de horas de trabalho, menos 10 mil funcionários, ausência de mecanismos de mobilidade em benefício dos serviços, tudo sem mais despesa e com o mesmo nível de produção e serviços? A piada é boa. Mas agora a sério, quanto é que isto vai custar aos contribuintes?

 

OUTRAS LEITURAS 

  • A TAP fecha rotas? Se o mercado existe outros ocupam rapidamente o lugar deixado livre. Na aviação isso é hoje mais verdade do que nunca, com a liberalização das rotas que nos levam a mais sítios por muito menos dinheiro. 

 

  • Depois de ter desafiado a distribuição, o YouTube entra agora também na produção de conteúdos e hoje estreia quatro séries próprias. É o tradicional modelo de negócio da televisão que está em causa. 

 

publicado às 22:45

Isso? Já tentámos e não resultou

Por: Paulo Ferreira

 A nossa cultura de despesa, défice e dívida é tão sólida e está-nos tão entranhada que consideramos indigno que alguém nos diga para fazermos aquilo que, à partida, devia partir das nossas instituições, dos nossos governos, de uma generalizada vontade popular: não gastar mais do que se recebe. 

  

“Governo corta mais, Bruxelas diz que não chega”, “Bruxelas pressiona. ‘Mais medidas’ e ‘bom senso’”, “Bruxelas pede medidas adicionais a Portugal”. Nos últimos dois dias os títulos sobre a elaboração do Orçamento do Estado têm andado por aqui. Bruxelas pressiona, Bruxelas exige, Bruxelas pede.

 

Não se sabe como é que esta sessão de “esclarecimento” que o Governo português tem estado a prestar à Comissão Europeia vai terminar. Para já, as mesmas notícias dizem que o “esclarecimento” já vai num aumento dos impostos do selo, dos combustíveis, dos automóveis, das empresas, da banca e do tabaco. Ainda bem que Bruxelas só pediu um esclarecimento. Mau seria que se tratasse da exigência de medidas adicionais para baixar o défice mais do que o esboço de Orçamento previa.

 

O processo não é novo. Durante os quatro anos da troika isto foi uma constante. E se não aconteceu antes, desde os primórdios da nossa participação no euro, foi porque as regras então em vigor não o previam.

 

O que é que isto tem de perverso? Não é a “ingerência”, a “falta de soberania” ou a alegada “chantagem” da Europa. Estamos lá porque quisemos e queremos e porque ganhámos e ganhamos com isso. A perversidade está na nossa absoluta falta de vontade para, de forma voluntária e porque isso é o melhor para nós, equilibrarmos as nossas contas e baixarmos a nossa dívida.

 

Fazer e manter orçamentos equilibrados é um princípio básico de responsabilidade em qualquer lado, ainda que pontual e conscientemente possa haver momentos em que se gasta mais do que se recebe. Mas essas devem ser excepções e não a regra. No Estado e nas empresas, nas instituições e nas famílias.

 

A nossa cultura de despesa, défice e dívida é tão sólida e está-nos tão entranhada que consideramos indigno que alguém nos venha dizer para fazermos aquilo que, à partida, devia partir das nossas instituições, dos nossos governos, de uma generalizada vontade popular.

 

Mas não. Nunca, nem nos momentos das mais gordas vacas gordas conseguimos aproximar-nos durante um mês que fosse desta coisa simples: o Estado gastar apenas tanto quanto cobra de impostos. Ainda que os impostos sejam estratosféricos, como agora acontece, encontramos sempre modo de gastar mais, de fazer défices.

 

Podemos indignar-nos porque a austeridade da troika foi excessiva, cega, recessiva, injusta para muitos. Tudo isso pode ser verdade.

 

Mas o que é que fizemos por nós próprios desde o início dos anos 90? Onde aplicámos as dezenas e milhares de milhões que chegaram de fundos comunitários - pagos pelos contribuintes dos países mais ricos, é bom não esquecer? Onde derretemos a enorme folga orçamental dada pela descida dos juros na segunda metade dessa década, quando os mercados começaram a acreditar que podíamos entrar no euro? E as carradas de dinheiro recebidas pelo Estado com as privatizações nos últimos 30 anos?

 

Isso não nos indigna? Os nossos erros colectivos não nos envergonham? A continuada irresponsabilidade orçamental dos que elegemos para governar não aconteceu? Não fomos nós, no pleno uso da nossa soberania, que criámos o “monstro” que agora não conseguimos sustentar? Alguém nos obrigou a gastar ao ponto de em três décadas e meia precisarmos de três resgates para nos tirar da bancarota?

 

Temos que ter a noção que se alguém falhou fomos nós, antes de mais ninguém. Nós, colectivamente, país independente dotado de instituições, com sectores público e privado, classe política e sociedade civil.

 

Podíamos ter feito de maneira diferente, mas por falta de vontade ou capacidade não conseguimos. Apesar dos avanços nas últimas quatro décadas - o Portugal de 2016 é muito melhor do que o de 1973, apesar do aperto destes dias - temos uma economia pouco produtiva, instituições fracas, uma cultura pouco dada à responsabilidade financeira e orçamental e essa crença entranhada de que podemos gastar à tripa forra porque isso é bom para a economia e garante a nossa prosperidade futura.

 

Não garante, como se vê.

 

Diz agora o novo governo, e muitos o acompanham nisso, que é preciso mudar de política: vamos dar dinheiro às pessoas para elas gastarem e fazer crescer a economia; quanto ao défice, vamos baixá-lo mais devagarinho e mesmo assim só para os “talibãs” de Bruxelas não nos incomodarem demasiado. Mas que óptima ideia. Como é que nunca ninguém se tinha lembrado de tal coisa? Esperem, se calhar já nos tínhamos lembrado e praticado isso. Pois já. Aliás, durante grande parte das útlimas três décadas os governos não fizeram outra coisa senão atirar dinheiro para cima da economia para ver se ela crescia, se se desenvolvia de forma sustentada. Ela cresceu nalguns anos mas depois estagnou, apesar do dinheiro dos contribuintes que continuavam a atirar-lhe para cima.

 

Aqui chegados, já tentámos tudo. Ou quase.

Aumentos de rendimentos sem regra nos sectores público e privado? Já tentámos.

Aumento de subsídios e prestações sociais? Já tentámos.

Corte cego de rendimentos e prestações sociais? Já tentámos.

Nacionalização de bancos falidos? Já tentámos.

Encerramento de bancos falidos? Já tentámos.

Investimento público em betão? Já tentámos.

Corte no investimento público? Já tentámos.

Incentivos ao investimento estrangeiro? Já tentámos.

Choque tecnológico? Já tentámos.

Brutais aumentos de impostos? Já tentámos.

Auto-estradas sem portagens? Já tentámos?

Portagens nas auto-estradas que não as tinham? Já tentámos.

A lista podia seguir.

 

Uma coisa ainda não tentámos com pés e cabeça: dimensionar o Estado a um nível que a economia e os contribuintes possam pagar, permitindo uma descida de impostos para que empresas e particulares não trabalhem maioritariamente para pagar impostos.

 

Ainda não é desta que isso vai acontecer. De quantos resgates precisamos para lá chegar é a questão que sobra. Porque isso vai acontecer. A bem ou a mal.

 

OUTRAS LEITURAS 

  • Por falar em falhanço nas políticas, cá está mais uma à vista. Vamos descer o IVA na restauração mas isso não resolve os problemas do sector, como diz este estudo. E os empresários juram a pés juntos que vão contratar mais pessoas se o IVA baixar, mas temos o volume de negócios mais baixo por empregado da Europa. Faz tudo muito sentido…

  • Não só devíamos saber o custo como saber todos os que recebem a subvenção vitalícia. Não há qualquer razão para que essa informação não seja pública.

 

publicado às 09:17

Oh não! Outra vez o filme do “manguito”

Por: Paulo Ferreira

O Governo tem que convencer os analistas com números realistas e não com insinuações de incompetência. É que os incompetentes das agências de rating têm um poder muito superior aos dos gabinetes ministeriais, porque os primeiros é que decidem a que taxas de juro é que os segundos conseguem financiar o país. É tão simples como isso.

 

Não há muitos anos assistimos a um filme que começou da mesma maneira. Estávamos, como agora, nos últimos dias de Janeiro. O governo recém empossado num pequeno país europeu preparava o Orçamento do Estado, com as habituais promessas de rigor, de contas certas e de previsões realistas - está para nascer o governante que admita o contrário. As agências de rating faziam contas, olhavam para o aumento da dívida, diziam que a descida prevista no défice era escassa para as necessidades e a ameaçavam cortar o “rating”. Os governantes juravam que tudo estava sob controlo e devolviam acusações às agências de rating, acusando-as de servirem “interesses comerciais” - o que é, em grande parte, verdade, mas não nos serve de nada nem ajuda a pagar as nossas contas.

 

Esse país era Portugal e estávamos no ano da graça de 2010. O resto da história nós conhecemos e sabemos que não acabou bem - pode recordar aqui como começou.

 

De então para cá, o país descobriu que havia uma coisa chamada “rating” e soube o que era. Diabolizou as agências que os fixam, indignou-se quando nos atiraram para o “lixo” é até colocou o Zé Povinho a fazer um “manguito” à Moody’s. Lembram-se?

 

O filme tem então este cheirinho a “déjà vu” mas todos queremos acreditar que, conhecendo já o guião e não gostando dele, o vamos reescrever agora.

 

Já alguma coisa mudou nas últimas semanas. O PS previa, no seu programa eleitoral, um défice orçamental de 3% para este ano, que caiu para 2,8% na previsão do programa do Governo e que acabou por descer mais ainda, para 2,6%, no esboço de orçamento que seguiu para Bruxelas. Aumentam-se alguns impostos e cortam-se outros, a sobretaxa de IRS e o IVA dos restaurantes.

 

Aumenta-se alguma despesa na reposição salarial na função pública e prometem-se cortes de despesas de funcionamento e consumos intermédios na ordem dos 600 milhões.

 

O esforço está lá. Cortar cerca de 700 milhões de euros no défice previsto em pouco mais de meia dúzia de meses é obra para um governo que diz ser contra a austeridade, que gostava de poder rasgar o Pacto Orçamental e que preferia equilibrar as contas públicas a um ritmo mais lento.

 

O esforço existe. O problema é que essa existência ainda é só no papel. E “o papel aguenta tudo”, como é costume dizer-se daqueles planos de negócio que garantem que ir vender areia às carradas para o deserto vai ser um sucesso, com o EBIDTA a tornar-se positivo ao terceiro ano.

 

O que a Fitch diz é que as previsões em que assenta o Orçamento podem ser irrealistas. Sendo assim, o Excel do ministro das Finanças não bate certo com a realidade.

 

Os próximos dias vão ser importantes, até porque falta conhecer a proposta definitiva de Orçamento que vai ser entregue na Assembleia da República.

 

O Governo tem que convencer os analistas com números realistas e não com insinuações de incompetência. É até possível que na Fitch, na Moodys ou na Standard and Poors - a DBRS é boazinha porque é a única que nos mantém acima de “lixo”, permitindo que os títulos de dívida sejam aceites pelo BCE - o rácio de incompetentes seja superior ao dos nossos governantes, deputados, analistas, comentadores, jornalistas e o mais que quisermos.

 

A grande diferença é que mesmo os incompetentes não são todos iguais. Neste caso, os das agências de rating têm um poder muito superior aos dos gabinetes ministeriais, porque os primeiros é que decidem a que taxas de juro é que os segundos conseguem financiar o país.

 

É tão simples como isso.

 

Os senhores das agências de rating podem ser o diabo com gravata de marca mas são eles e mais ninguém quem avalia o risco de um devedor nos mercados internacionais. A escassez desta informação é tanta que os bancos centrais confiam neles para decidir que títulos de dívida aceitam como garantia quando diariamente emprestam dinheiro aos bancos.

 

Sim, estamos reféns das agências de rating e dos humores dos mercados. Sim, não há alternativa a isso. Ou melhor, alternativa há: trazer a dívida rapidamente para níveis sustentáveis para deixarmos de ter que pedir emprestado tanto dinheiro de cada vez que temos que amortizar um empréstimo que chega ao fim do prazo. Mas para isso é preciso acabar com os défices públicos anuais, o que implica cortar na despesa ou aumentar impostos… Bom, vocês já sabem como é. 

 

Tomem nota: em Maio temos que amortizar cerca de 7 mil milhões de euros e até lá mais uns trocos de quase 5 mil milhões. A nossa falta de soberania anda nestas escalas de valor. Afinal, quem é que está em condições de fazer um “manguito” a quem?

 

 

OUTRAS LEITURAS

 

  • O “golpe” eleitoral da devolução da sobretaxa é daqueles que devia envergonhar quem o fez. Não havia mesmo necessidade.


  • Não chegamos aos Óscares mas ganhámos um Hoscar. Com H grande.

 

 

publicado às 00:23

Os outros donos disto tudo

Por: Paulo Ferreira

Houvesse um Ali Babá na história e o título desta crónica era outro. Mas não há. Os 30 deputados que pediram ao Tribunal Constitucional para verificar a constitucionalidade da redução das subvenções vitalícias optaram por fazê-lo pela calada. Entende-se porquê. O despudor é tão grande que até eles o perceberam.

 

Quem recorre ao Tribunal Constitucional para contestar a validade de uma qualquer lei ou norma à luz da Constituição costuma fazê-lo com prévio e bem audível anúncio público e como prova de empenho numa luta por uma causa que considera justa.

 

Tivemos muito disso nos últimos quatro anos, como sabemos, com ameaças consequentes de pedidos de verificação de muitos diplomas que sairam da maioria PSD/CDS.

 

Mas desta vez foi diferente. Os 30 deputados que pediram ao Tribunal Constitucional para verificar a constitucionalidade da redução das subvenções vitalícias para titulares de cargos políticos optaram por fazê-lo pela calada, em silêncio e na esperança de que nunca se soubesse quem eram os autores de tal iniciativa. Entende-se porquê. O despudor é tão grande que até eles o perceberam.

 

O TC analisou e decidiu. Depois, os jornalistas fizeram o seu trabalho e hoje sabemos quem são. A lista está aqui, no final deste artigo. Devemos conhecê-la e guardá-la.

 

Há ali gente dos dois principais partidos, PS e PSD. E haverá ali de tudo em termos de seriedade, competência, entrega à causa pública, honestidade financeira e intelectual e o mais que quisermos. Uma lista de 30 é suficientemente abrangente para lá ter de tudo.

 

Mas uma coisa, pelo menos, os une a todos: a ideia de que têm o direito a receber de forma vitalicia uma renda mensal paga pelos contribuintes equivalente a 80% do seu último ordenado só pelo facto de terem desempenhado cargos políticos durante pelo menos 12 anos. Isto independentemente de terem outras fontes de rendimento, pensões de reforma, ordenados, o que quer que seja. E é uma ideia tão forte, esta de que o privilégio desproporcionado é um direito, que até estiveram dispostos a lutar juridicamente por ele, dando-se ao trabalho de o contestar junto do TC.

 

É uma falta de vergonha sem nome. Sobretudo porque o contexto em que aconteceu é o que sabemos. Nos últimos anos, foram milhões os portugueses que viram cortados direitos que davam como adquiridos: salários, reformas, subsídios de subsistência, indemnizações em caso de despedimento e tudo o que sabemos. Mas também porque a norma que constava do Orçamento do Estado de 2015 e que o TC agora declarou inconstitucional salvaguardava a eventual necessidade dos beneficiários da subvenção vitalícia: só era cortada a quem não tivesse rendimentos superiores a 2.000 euros por mês. Apesar disso eles avançaram. Chocante, não é? Mas aconteceu.

 

Não diabolizo o TC, que tem que fazer aplicar a Constituição que existe, de acordo com o entendimento do seu colectivo, e não outra qualquer que não temos. Mas não deixa de ser curioso que muitos dos que aplaudiram as decisões do TC que reverteram muitas medidas de austeridade nos últimos anos e acusaram o governo anterior de estar a governar contra a Constituição sejam agora os mesmos que criticam esta decisão dos juízes. Incluo aqui o PCP e o BE que estão contra a existência da subvenção vitalícia, posição que subscrevo na íntegra. Mas temos que apelar aos deputados destes dois partidos que sejam consequentes com essa sua posição: apresentem no Parlamento uma lei que acabe com ela de vez para todos e, se necessário for, avancem com uma proposta de revisão da Constituição que o permita. Passem das palavras aos actos que a causa bem o merece.

 

Em 2005, o Governo de José Sócrates deu um enorme contributo para se acabar com este absurdo privilégio ao legislar que ele terminaria daí para a frente. Resta agora completar o serviço e terminar com as sinecuras antigas que ainda sobrevivem e que tão bem simbolizam o chamado Bloco Central dos interesses. Um país que obriga os contribuintes a um pagamento vitalício a Armando Vara e Dias Loureiro pelos bons serviços prestados ao Estado - só para citar dois casos que beneficiavam dele em 2013 - não é um país decente. É um sítio que teima em manter-se mal frequentado.

 

 

OUTRAS LEITURAS

 

publicado às 00:59

Um profundo desprezo pelos cidadãos

Por: Paulo Ferreira

Temos, provavelmente de forma exagerada, horror à chamada instabilidade política. E se das eleições não sai uma maioria absoluta? E se não é possível formar uma coligação estável? E se daqui a uns meses vamos novamente para eleições? E se a legislatura não se cumpre até ao fim?

 

Para a generalidade dos agentes políticos e comentadores estes cenários são sempre discutidos como o pior mal a evitar. Muitas vezes até parece que a estabilidade política - um governo que governa a legislatura inteirinha - é um fim em si mesmo e não um meio para chegar a um fim.

 

E o fim, sabêmo-lo, é uma perspectiva de médio prazo na governação, é a possibilidade de se desenharem políticas com princípio, meio e fim, é um horizonte mais largo de regras básicas que é dado aos agentes económicos e aos cidadãos para que organizem a sua vida e tomem as suas decisões.

 

Mas a estabilidade política, só por si, vale muito pouco. É quase um formalismo burocrático que, no fim do dia, pouco ou nada contribui para a nossa felicidade individual ou colectiva.

 

Muito mais importante do que a estabilidade política é a estabilidade de políticas. E o que está em causa é muito mais do que um jogo de palavras.

 

O que se está a passar por estes dias com as mudanças na avaliação escolar é um bom exemplo disso. Esta é a enésima alteração que se faz nos métodos de avaliação. As contas do Conselho Nacional de Educação dizem que nos últimos 16 anos os regimes de avaliação dos alunos do Ensino Básico já foram alterados 20 vezes. Sim, 20 vezes em 16 anos, o que nos dá uma média de 1,25 mudanças por ano. Note-se que muitas mudanças foram realizadas com o mesmo governo em funções, o que nos mostra que a estabilidade de políticas pouco ou nada tem a ver com a estabilidade política - e, já agora, as mudanças de governo decorrentes de eleições realizadas no prazo certo não podem ser vistas como sinal de instabilidade.

 

O que espanta é que quase 50 anos depois de o Homem ter pisado a Lua, em Portugal ainda não haja uma base mínima consensual sobre a forma como devem ser avaliados os miúdos na escola: se é com exames nacionais no 4.º e 6.º anos ou se o que é mesmo indicado é o exame no 9.º ano e provas de aferição no 2.º, 5.º e 8.º anos; ou se é o contrário de tudo isto ou qualquer coisa ali no meio.

 

Tantos conselhos e conselheiros, peritos e estudiosos, pedagogos e professores e, nesta coisa básica, achamos que estamos pernanentemente a redescobrir a roda.

 

Noutras áreas o panorama não é diferente. Em Dezembro foi publicado um estudo - os autores são Joaquim Miranda Sarmento e Inês Duarte - que nos diz que nos últimos 26 anos as leis fiscais foram alteradas uma média de 19 vezes por ano. Sim, foram 492 alterações em pouco mais de duas décadas e meia. Isto é o terror de qualquer gestor ou cidadão que gosta de saber com o que conta e de planear a sua vida económica e financeira. E é o paraíso de consultores fiscais que ganham honestamente a vida a explicar a esses gestores e cidadãos como hão-de sobreviver no meio dessa vertigem de mudanças permanentes.

 

E se formos para áreas menos mediáticas que passam pelos regulamentos a que as empresas estão sujeitas em múltiplas áreas de actividade, aos acessos a apoios e subsídios a negócios e pessoas, regras da segurança social e afins, o que se passa não é diferente: tudo se muda para que tudo fique na mesma. Ou pior.

 

É evidente que nada disto são reformas dignas desse nome. São alterações, mudanças, muitas  vezes mais destinadas a acomodar conveniências dos serviços do que a tornar o país um melhor sítio para se viver.

 

Espanta que não haja um consenso mínimo em regras e práticas processuais e que depois, com essa base de estabilidade, cada governo e cada ministro possa fazer as suas opções políticas de fundo.

 

Esta vertigem legislativa e de mudança pela mudança reflecte, antes de mais nada, um profundo desprezo e desrespeito pelos cidadãos.

 

 

OUTRAS LEITURAS 

  • No têxtil como no calçado, a concorrência já não pode ser feita pelo preço. Que o diga a Inspiration Time.

 

 

 

publicado às 09:35

Marcelo contra Marcelo

Por: Paulo Ferreira

 

Desta vez ninguém poderá queixar-se de falta de debate ou de défice de esclarecimento. São 14-debates-14 os que as televisões estão a fazer entre os candidatos à presidência da República. Todos contra todos, como num campeonato de futebol.

 

Não sabemos se o voto vai ser mais esclarecido ou mesmo se alguém mudará de ideias em função de um debate.

 

O que a maratona tem feito é dar aos “outsiders” os cinco minutos de fama a que aspiraram quando legitimamente se candidataram e confirmar os posicionamentos que conhecíamos a cada candidato. Ou, no caso de Marcelo Rebelo de Sousa, os vários posicionamentos que lhe vamos conhecendo sobre o mesmo tema.

 

Há meses, quando Marcelo apresentou a candidatura e apareceu favoritíssimo nas sondagens, alguém disse ou escreveu - e esse alguém que me perdoe a falta de memória que me impede de atribuir o devido crédito - que para o candidato o melhor era que as eleições se realizassem logo ali, bem depressa, porque a partir daí estaria sempre a perder até ao dia do voto. E que quanto mais falasse, mais perderia. E quanto mais longa fosse a campanha mais desceria nas intenções de voto. Faz todo o sentido que assim seja.

 

A posição de professor, de conselheiro e de explicador, que tanto comentava a crise no Médio Oriente como o último jogo do Braga, tudo de forma naturalmente inconsequente para além de irritar os que criticava e deixar satisfeitos aqueles que elogiava, era uma posição cómoda e popular.

 

Mas isso acabou no dia do anúncio da candidatura. Daí fica a imensa popularidade e notoriedade, fica o à vontade com que se movimenta em todos os ambientes, dos que apreciam “foie gras” aos que preferem iscas de fígado.

 

Mas fica também outra coisa: um imenso registo documental em que o professor aparece a comentar tudo e mais alguma coisa, a tomar posição, a distribuir elogios e a sublinhar críticas sobre qualquer assunto que tenha marcado a vida do país na última década e meia. Dos importantes aos irrelevantes.

 

Não admira que com tantas horas de vídeo público que está por aí, Marcelo comece agora a ser confrontado com o que disse no passado, que pode não bater certo com o que defende agora.

 

É que o comentador que tinha opinião sobre tudo transformou-se entretanto no candidato que, tacticamente, prefere não ter posição sobre nada. Marcelo não quer comprometer-se. Nem com a direita nem com a esquerda. Com os capitalistas ou com os proletários. Não tem opinião sobre a austeridade nem sobre o despesismo.

 

Repare-se no que disse esta terça-feira: “Não sou o candidato da direita”, e apresentou-se como um candidato “heterodoxo e independente”; e sobre a possibilidade de o Novo Banco se tornar num banco do Estado: sim, se as condições de venda não forem positivas.

 

Haverá maior descomprometimento do que isto?

 

A polémica com Marisa Matias acerca da crítica ao chumbo do Tribunal Constitucional aos cortes nos subsídios de férias e Natal dos funcionários públicos e pensionistas previstos no Orçamento do Estado de 2012 é um exemplo disso mesmo. E é lapidar a reacção do candidato: não quer polémicas. Obviamente. Uma campanha eleitoral lá é momento para levantar polémicas?

 

Este desencontro entre o passado e o presente vai certamente repetir-se nas próximas semanas. E se vier a ocupar o Palácio de Belém, como provavelmente acontecerá à primeira volta, Marcelo-presidente terá como principal adversário político uma outra figura de peso e das poucas que apresentam uma popularidade à sua altura: Marcelo-comentador. Neste momento, este é já o seu principal opositor. Porque a mediatização é sempre um pau de dois bicos.

 

OUTRAS LEITURAS 

 

Nada como um governo de esquerda para poder praticar sem polémicas políticas que geralmente associamos à direita. Universidades vão manter contenção orçamental e terão que encontrar receitas privadas

 

Enquanto isso, felizmente há uma nova geração para quem todas estas polémicas são estranhas. Há startups portuguesas que são referência mundial.

publicado às 01:36

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