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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Um aeroporto com nome

Por: Pedro Rolo Duarte

 Uma coisa é certa: dei por isso. Terça-feira passada, aterrando em Lisboa depois de alguns dias fora, o habitual discurso da assistente de bordo da TAP incluía uma novidade - saudava os passageiros à chegada ao “Aeroporto Humberto Delgado”. Nem Portela, nem Lisboa. Humberto Delgado. Desde sábado, dia 15, é este o nome oficial do primeiro Aeroporto Internacional de Portugal, depois de o Governo adoptar a proposta que a Câmara de Lisboa aprovou em Fevereiro de 2015. Curiosamente, António Costa era o Presidente da CML nessa altura, e é agora o primeiro-ministro que torna a proposta (de resto, aprovada por unanimidade) efectiva.

 

Confesso que senti alguma emoção. Humberto Delgado não é do meu tempo, só o conheço pela campanha que o notabilizou (e matou…), mas esta nova designação da Portela consagra algo que sempre defendi: os nomes que as ruas, as praças, os edifícios, ostentam, não são meros carimbos evocativos - são formas de perpetuar aqueles cuja vida nos deve orgulhar na identidade, na ética, na forma como deram o seu melhor pela comunidade. Gosto de saber quem foi a pessoa que convocou o nome de uma rua ou avenida. Por que motivo uma rua se chama assim ou assado.

 

Uma vez escrevi sobre este tema - quando, num táxi, fui surpreendido com uma memória que provavelmente se apagaria se não houvesse uma rua com o seu nome: ouvi uma chamada de um cliente para a Rua Helena Vaz da Silva. Esse aparentemente banal e corriqueiro acto levou-me a recordar a grande mulher do Centro Nacional de Cultura. E a falta que nos faz. É para isso que servem os nomes das ruas e dos edifícios: para que nunca esqueçamos aqueles que marcaram um tempo - mas cujo correr dos dias, pela sua natureza, se encarrega de esfumar, na memória e tantas vezes, por essa via, na importância.

 

No caso de Humberto Delgado, juntam-se dois factores relevantes para que o principal Aeroporto português tenha o seu nome: não apenas foi um dos ícones da oposição ao regime ditatorial de Salazar, como foi um dos pioneiros da aviação civil nacional, presidindo à fundação da TAP, em 1945, e definindo os seus contornos iniciais. Claro que o seu nome chega aos dias de hoje pela “ousadia” de ser candidato presidencial de oposição a Américo Tomás, em 1958, e pela coragem de, à pergunta sobre que destino daria a Salazar, caso fosse eleito, ter “criado” o primeiro soundbyte do século XX português: “Obviamente, demito-o!”. Ficou conhecido pelo nome de “General Sem Medo”, o que lhe custou a vida. A polícia política de então, a PIDE, percebeu nesse momento o que havia a fazer: eliminá-lo. Fê-lo em 1965.

 

Cinquenta anos depois, faz-se justiça ao General Humberto Delgado - e agora, para todo o sempre, quando um avião aterra na Portela, o seu nome é dito, e por muitos recordado. Mais do que aulas de História ou museus adormecidos, é desta forma que perpetuamos os que merecem esse reconhecimento. É raro, mas aconteceu: foi com um sorriso de felicidade e comoção que voltei a Lisboa na terça-feira.

 

UMA SEMANA MARCADA POR…

 

Em 2012, um pequeno grupo de humoristas brasileiros criou o conceito “Porta dos Fundos”, pequenos videos de humor no You Tube. O sucesso foi de tal forma grandioso que hoje o grupo está presente no canal de TV Fox e tem um filme em estreia, “Contrato Vitalício”. Mal comparado, é o Gato Fedorento do Brasil…

Um dos seus elementos, Gregório Duvivier, anda por cá com o monólogo “Uma noite na Lua”, uma peça que Duvivier recuperou em 2012. O actor é um dos muitos críticos do impeachment da presidente do Brasil, Dilma Roussef. Numa entrevista ao nosso Diário de Notícias, foi claro: "Me apavora o Temer. Porque além de corrupto é conservador e autoritário”. Duvivier pode ser visto ao vivo até dia 22 em Lisboa, e depois em Matosinhos (24), Braga (25), Porto (26), Póvoa do Varzim (27), Ourém (28), Sintra (2 de junho), Oliveira de Azeméis (dia 3), Coimbra (4) e Castelo Branco (5).

 

“Apoio Hillary Clinton para presidente. Ela é a segunda pior coisa que poderia acontecer na América” - o começo promete. E o meu Vasco Pulido Valente americano é mesmo o jornalista e escritor P.J. O’Rourke, que podemos ler no The Daily Beast. O mais recente artigo é mesmo sobre o confronto Trump Vs Clinton. Imperdível.

“Thrown Under the Omnibus” é o seu último livro, de 2015, uma antologia das melhores reportagens e crónicas de imprensa.

 

Repentinamente, o Facebook entra no alinhamento noticioso pelas piores razões: será verdade que o nosso feed de notícia tem uma agenda política e social próprias? Há uma espécie de “livrinho vermelho” - ou negro, ou apenas cinzento - sobre a hierarquia das noticias que entram na rede? As revelações não param, como se pode ler aqui.

 

 

publicado às 08:54

A festa continua: como sobreviver ao caos com honestidade?

Depois de, na semana passada, termos sabido que alguns agentes e responsáveis pelas investigações policiais no tráfico de droga, no activo ou na reforma, eram parte interessada do negócio, recebendo luvas, camuflando operações, ou mesmo desviando o olhar das autoridades para horizontes dourados enquanto, nas suas costas, os traficantes agiam tranquilamente, esta semana foi a vez das finanças: quinze detidos pela Polícia Judiciária no âmbito de uma operação da Unidade Nacional de Combate à Corrupção na zona da Grande Lisboa. Estão envolvidos, tanto quanto se sabe, pelo menos três técnicos das finanças, três chefes de repartição e um inspector tributário. “Presumível prática dos crimes de corrupção activa e corrupção passiva para acto ilícito, recebimento indevido de vantagem e falsidade informática” são os módicos de comportamento em causa…

 

Com noticias deste calibre dentro de casa, torna-se difícil dar atenção aos Panama Papers. Não pelos níveis de relevância de cada um dos casos, mas pela proximidade - que todas as leis do jornalismo determinam que interessam mais ao consumidor. É uma rendição à facilidade (a mesma que nos leva a sentir mais profundamente atentados em Bruxelas do que em Ancara, independentemente do número de vitimas…), mas não há como dar-lhe a volta.

 

Os casos internos destas ultimas semanas, que parecem querer tornar-se recorrentes, e que são bem mais fáceis de entender do que os meandros do dinheiro que navega em paraísos fiscais, demonstram a irrelevância de medidas de austeridade para quem pode “contorná-las”, explicam em boa medida fenómenos como o parque automóvel lisboeta, os espectáculos sempre esgotados, os restaurantes cheios - e desanimam quem, apesar de tudo, vai tentando sobreviver ao caos com honestidade.

 

Apetece desistir, já o disse na semana passada - mas, acima de tudo, impede o cidadão comum de confiar em quem quer que seja.

 

Um policia que se dedica a desmantelar o tráfico de droga, e é afinal parte integrante desse mesmo negócio? Um chefe de finanças que prefere deixar-se subornar a cumprir a mais básica das suas funções, garantir o cumprimento da lei? Onde chegámos?

 

E a seguir: o que nos falta saber? Onde está o bando que se segue? Deixámos definitivamente de ter autoridade para, como fazíamos, falar de forma sobranceira sobre a Itália ou os países da América do Sul. Já não observamos o problema - fazemos parte dele. E o Portugal dos últimos anos, a austeridade, a Troika, o empobrecimento generalizado, começa agora a revelar a sua forma de responder à letra. Lamentavelmente, aplica e dá sentido a um ditado popular: ladrão que rouba ladrão…

 

 

ESTA SEMANA NÃO PASSO SEM…

 

O El Pais é um gigante do jornalismo mundial, e o investimento que tem vindo a fazer no universo digital é um dos muitos bons exemplos do que pode vir a ser o futuro do jornalismo, com ou sem papel impresso…

Agora que o Brasil está no topo da informação diária, a edição local do El Pais é indispensável. Que outras razões não houvesse, consegue manter uma independência, face aos diversos interesses em jogo, difícil de distinguir na restante imprensa brasileira…

  

É aproveitar! A excelente revista “The New Yorker” acaba de lançar a sua app para smartphones: “The New Yorker Today”. Além de juntar as diversas frentes em que a revista se tem desmultiplicado (rádio, podcast, etc…), e de actualizações diárias de informação, ainda tem oito mil dos seus melhores cartoons para nos ajudarem a levar a vida a sorrir. Digo “É aproveitar!” porque a fase de lançamento da app é gratuita… 

Para dar um cheirinho do que se pode ler na “The New Yorker” online e na nova app, uma crónica da divertida Emma Rathbone (cujo primeiro livro, “The Patterns of Paper Monsters", tarda em chegar até cá…) sobre o significado de cada expressão que usamos para nos despedirmos daqueles a quem mandamos mails: do Bjs ao Abraço, é só adaptar…

 

 

publicado às 10:30

A “tirania do medo”

Por: Pedro Rolo Duarte

Todas as guerras em que as partes em confronto não têm as mesmas armas são, por natureza, injustas. Todas as guerras em que as partes em confronto têm princípios diferentes sobre a forma de combater, e sobre ideias simples como “não matarás à traição”, estão por natureza perdidas por quem, apesar de tudo, mantém módicos de ética em combate. A guerra também tem regras. Ou tinha.

 

Estamos a assistir à instauração e “normalização” de um novo tipo de combate (ou velho, mas afastado da Europa desde os tempos da ETA, das Brigadas Vermelhas e de outras organizações do mesmo tipo) numa guerra sem tréguas: o que utiliza a democracia para, subvertendo-a, indo directamente ao seu coração ideológico, aproveitar-se das “brechas” que são a essência da liberdade, e matar indiscriminadamente, sem qualquer espécie de lógica que não seja cultivar o terror do medo.

 

Não há um alvo a atingir, há um sentimento para alimentar: o medo. A insegurança. Os limites da liberdade em nome de uma presumível segurança. Bertrand Russel, esse génio que uniu a filosofia à matemática, falava da tirania do medo. Escreveu: “O nosso mundo vive demasiado sob a tirania do medo e insistir em mostrar-lhe os perigos que o ameaçam só pode conduzi-lo à apatia da desesperança. O contrário é que é preciso: criar motivos racionais de esperança, razões positivas de viver. Precisamos mais de sentimentos afirmativos do que de negativos. Se os afirmativos tomarem toda a amplitude que justifique um exame estritamente objectivo da nossa situação, os negativos desagregar-se-ão, perdendo a sua razão de ser. Mas se insistirmos em demasia nos negativos, nunca sairemos do desespero”.

 

Em teoria, Russell tinha razão - na prática, acordarmos numa terça-feira de Primavera com bombas a explodir no meio da Europa e dezenas de mortos e feridos inocentes, cujo único erro (em rigor, azar…) foi estarem na hora errada no lugar errado, não deixa margem de manobra para esses “motivos racionais de esperança”. Tanto mais que aqueles que nos decretam a tirania do medo são seres humanos como nós. São pessoas. Movidas pelo ódio, filhos da guerra, fanáticos, loucos, fundamentalistas, não adianta muito ir procurar a motivação desta gente - mas adianta parar para pensar que, quer queiramos ou não, aqueles assassinos nascem iguais a nós. Lá está: em igualdade e direitos.

 

E é por isso que estamos claramente a perder a guerra. Porque não estamos ao mesmo nível de quem nos ataca - estamos moral e eticamente acima, o que nos deixa mais vulneráveis. Ou seja, mais abaixo. É isto que está em causa e é neste quadro que o futuro se desenha.

 

As opções são escassas e o tempo também. Ou a Europa-que-decide se une e reconhece que estamos em guerra - e nesse caso não chega aumentar níveis de segurança e defender-se, talvez tenha mesmo de conceber uma estratégia mais musculada… -, ou vai continuar a deixar-nos viver na roleta russa de todos os dias. Com sorte, muitos de nós continuarão a não estar à hora errada no lugar errado.

 

 

COISAS QUE ME DEIXARAM A PENSAR ESTA SEMANA

  

Esta foi a ultima semana do jornal britânico The Independent em papel. A saída de cena foi bem montada, agora resta-nos o online e as versões mobile. Ao mesmo tempo que esta mudança sucede, o seu “rival” The Guardian, salvaguardado pelo financiamento de uma fundação que o sustenta, vai-se mantendo de pé, ainda que com previsões vagas de um futuro sem papel. A sempre assertiva revista “Prospect” escreve sobre o tema, num excelente artigo em que observa e perspectiva o que pode ser o futuro do The Guardian e do seu dominical The Observer. Vale a pena ler.

 

A situação no Brasil é tão confusa para os próprios brasileiros que o jornal Estado de São Paulo descobriu o filão editorial: livros que ajudam a entender o que poucos percebem. Este artigo alinha os livros que estão a ser preparados sobre o momento…

 

Quem quiser entender melhor o que está em causa nos atentados de Bruxelas tem forçosamente de passar pelas páginas do The Guardian. E já agora espreitar algumas das primeiras páginas mais fortes de ontem…

publicado às 07:12

Nicolau, Cristas e Cruz: isto anda tudo ligado

Por: Pedro Rolo Duarte

Sei que já se disse tudo sobre Nicolau Breyner. A sua morte, além de nos apanhar de surpresa, revelou o lado transversal da sua existência. Não foi apenas o grande actor que morreu. Nem o realizador, ou o criativo, ou o humorista. Ou até mesmo o ser humano generoso. Foi um pouco mais do que isso: foi o artista que tocou toda a gente, todas as gerações, na multiplicidade de Nicolaus que nos mostrou ao longo de décadas de vida pública, enquanto actor - mas numa única personalidade. A sua.

 

Um homem como nós. Artista, mas igual a nós. Com uma pontinha de génio, mas igual a nós. E em muitas frentes, capaz de ser melhor do que a maioria de nós. O seu exemplo é uma lição que serve artistas, políticos, agentes culturais: a autenticidade é a mais rica e sábia forma de viver a vida - e quando essa vida é pública, obter reconhecimento e sincera admiração. A transparência com que Nicolau Breyner viveu, da forma como encarava a profissão até ao apego genuíno às origens alentejanas, resultou nesta unanimidade.

 

Num mundo de actores e personagens, de figuras construídas em gabinetes, de sorrisos falsos e aparências, é sempre a autenticidade que acaba por ganhar a taça. Lembremos Raul Solnado, ou Eusébio. E vejamos agora Nicolau Breyner…

 

Pode parecer exótico, ou mesmo forçado, o que se segue, mas a verdade é que dias antes da morte de Nicolau, e de assistir a esta comoção nacional, tinha estado a conversar com um amigo sobre esta ideia da autenticidade, da verdade interior tornada exterior, a propósito de outra figura, e num contexto radicalmente diferente. Debatíamos a chegada à liderança do CDS de Assunção Cristas e a entrevista que deu, na semana passada, ao Victor Gonçalves, na RTP. E eu, que estou longe de ser um apoiante daquele partido e das suas ideias, senti nas palavras de Cristas coerência, sinceridade, e acima de tudo essa mesmíssima característica: autenticidade. Pensei: esta mulher pode, por esta via, conquistar votos para o seu partido. Contrariar o folclore da política do costume com uma atitude sincera, despida de floreados e chavões, com menos preconceitos e maior pragmatismo. Dizendo o que pensa sem previamente pensar naqueles que quer conquistar.

 

Mais do que fartos da política em si, os portugueses parecem estar fartos da conversa oca, dos lugares-comuns, do mais do mesmo - e talvez desejem, de uma vez por todas, clareza, verdade e transparência. Neste quadro, a atitude de Assunção Cristas, desde que tomou conta do CDS, pode ganhar uma expressão inesperada em eleições futuras. Não necessita de ser populista para ser popular - se for autêntica e não enrolar o discurso no vazio habitual.

 

E é por entre estes pensamentos que sou surpreendido com a entrevista (uma vez mais, de Victor Gonçalves) a Carlos Cruz, na prisão da Carregueira. Carlos, cuja afirmação de inocência prolonga a sua prisão, que já demonstrou em livro os erros crassos do seu julgamento, e a certeza de que devia estar livre e absolvido, sublinha o poder da autenticidade. Sem ressabiamentos nem desejos de vingança, sem agressividade ou sequer acusações gratuitas, afirma a sua liberdade da forma mais consistente que é possível: uma vez que é inocente, sente-se livre dentro de uma prisão - enquanto aqueles que o julgaram podem porventura sentir a prisão da injustiça. As palavras de Carlos Cruz tocam-me por terem o poder do desprendimento que só os homens autênticos conseguem atingir.

 

Numa entrevista que deu à minha amiga Anabela Mota Ribeiro, e que se pode ler na íntegra aqui, Nicolau Breyner afirmou: “Tenho vergonha enquanto ser humano, enquanto cidadão, de coisas que vejo. O meu desacreditar é tão grande que já não estou a falar só de Portugal. Isto passa-se em todo o mundo, de outras maneiras. É promíscuo, é porco. Somos cada vez mais números e cada vez menos seres humanos”. Esta desabrida sinceridade, em que tantos se revêm, é um começo de mudança, e tem eco um pouco por todo o lado.

 

E é nesse medida que, ouvindo Assunção Cristas, percebi que talvez o CDS tenha ganho a liderança certa no tempo certo. Como pude manter a certeza que alimento desde o primeiro dia: Carlos Cruz é um homem inocente. Tudo uma questão de autenticidade. Quer estejamos ou não de acordo.

 

Envolver estas três figuras, estes três protagonistas, numa única crónica, debaixo de um chapéu comum, pode parecer bizarro. Mas eu sempre achei que Sérgio Godinho tinha razão: isto anda tudo ligado.

 

 

COISAS QUE ME DEIXARAM A PENSAR ESTA SEMANA

 

No mês de todas as modas - isto é, de todas as semanas da moda - descubro uma revista francesa, que já existe há algum tempo, e que além de estar sempre em cima das tendências (se é que isso existe, é tema de debate…), é gratuita. Em papel, se andar por terras de França, ou na net, onde a encontra na íntegra. Na ultima edição anuncia-se: Cores são o novo preto! Onde é que a moda irá parar?!…

 

Passados 40 anos sobre o PREC - Processo Revolucionário em Curso -, que sucedeu à revolução do 25 de Abril de 1974, é no mínimo divertido revistar alguns documentos dessa época. A RTP tem, naturalmente, o mais rico arquivo de imagens, documentários, reportagens, ou apenas noticias, desse tempo, e passear por ali é um prazer, uma fonte de conhecimento, e muitas vezes um motivo de sorriso irónico sobre o passado…

 

A edição de Abril da revista norte-americana The Atlantic, umas das mais clássicas analistas do mundo, em todas as suas perspectivas, traz o Presidente Obama na capa e uma excelente matéria sobre a sua actuação na Casa Branca, as suas ideias, a sua doutrina. Ainda que assinada por Jeffrey Goldberg, considerado um “neoliberal”, é um texto de fundo que vale a nossa atenção. Claro que a revista também fala de Donald Trump, mas faço de conta que não. E leio a análise, já disponível online…

 

 

publicado às 09:49

One Marcelo Show

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Ontem foi o dia de um homem só. Acompanhado, rodeado, acarinhado. Mas só. Ontem foi o dia de Marcelo Rebelo de Sousa, o novo Presidente da República, sozinho, sem partidos nem “apoios”, sem cadernos de encargos nem deves e haveres de fretes e favores, exibir a Portugal como pode ser diferente a política, como se pode ser institucional sem ser tradicional, como se pode chegar ao topo da estrutura do estado sem os trâmites habituais.

 

Marcelo chegou sozinho, subverteu o protocolo, trocou o banquete pelo espectáculo de rua. Foi claro na mensagem: quer ser um Presidente para os portugueses, não apenas dos portugueses. E nesta pequena nuance, entre o “para” e o “dos”, há toda uma história - que de resto o seu discurso inaugural bem revela.

 

Enquanto a maioria dos políticos - incluindo o Presidente que saiu - fala dos portugueses como uma massa homogénea, especie de “coisa” que não se distingue do resto da paisagem, Marcelo falou “de pessoas de carne e osso”. E acrescentou: “Que têm direito a serem livres, mas que têm igual direito a uma sociedade em que não haja, de modo dramaticamente persistente, dois milhões de pobres, mais de meio milhão em risco de pobreza, e, ainda, chocantes diferenças entre grupos, regiões e classes sociais”.

 

Em todas as palavras do seu discurso há intenção, não há acaso nem improviso. Em todos os actos do dia de ontem houve avisos, sinais, declarações de intenções. Se o seu exemplo for visto por aqueles que persistem em fazer da política um território cercado de arame farpado, a política terá começado a mudar ontem. Talvez possa ser mais para as pessoas e menos para os números, mais para a mudança e menos para a estagnação.

 

Não sou, porém, muito optimista. Não há duas pessoas iguais - e acima de tudo, não aparece com frequência no nosso universo público gente com a fibra, a garra e o talento popular - que não populista - de Marcelo. Provavelmente, este será um caso isolado - que, paradoxalmente, por isso mesmo, vai marcar a História. Que seja inspirador, não peço muito mais.

 

E agora que a fasquia se elevou a um nível nunca antes visto, esperemos que o novo Presidente a mantenha nas alturas. Se não for um homem que quebra o protocolo, e se mostra diferente desde a primeira hora, a pôr de lado o cinzento que domina a política nacional há 40 anos, não há mais ninguém que o possa fazer.

 

Nesse sentido, Marcelo ontem foi um homem só - mas teve muita gente do seu lado. Que continue a dormir pouco e nunca se cansar…

 

Uma ideia forte para esta semana

 

O jornal espanhol El Pais iniciou um processo de renovação interna profundo, que passa por uma redacção renovada (até em termos físicos), nas hierarquias (com destaque para uma ascensão dos quadros ligados à imagem), e que tem um objectivo claro: preparar o jornal para o mundo digital - se preciso for, sem papel. Vale a pena ler aqui a carta do director do jornal aos seus trabalhadores. Assim vai a imprensa, diria, mais potente da Europa…

publicado às 11:53

No fim de contas, Cavaco

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Daqui a poucos dias haverá menos um nome na lista dos “culpados” de tudo o que sucede em Portugal. Para o bem e para o mal. Ficará como “culpado” de males passados, mas já não de mazelas futuras. Cavaco Silva cede a Presidência ao recém eleito Marcelo Rebelo de Sousa, sai de cena, e teremos menos uma desculpa para continuarmos na mesma. Tenho dúvidas sobre esta “vontade” de mudança, mas enfim…

 

Ao longo dos últimos 30 anos, Cavaco foi uma figura tutelar e permanente na cena política nacional - e resistiu a todas as criticas, todos os ataques, todos os cercos, com um talento que, confesso, não sei onde aprendeu, nem compreendo como soube manejar (o que me obriga a, no mínimo, respeitar a figura…). Se nos dermos ao trabalho de compilar tudo o que sobre ele se disse e escreveu, todas as criticas, julgamentos, processos de intenção, estados de espirito, encontramos a mais rica colecção de insultos, acusações, condenações e arrasos de que há memória sobre uma só pessoa. Não sei se Salazar lhe ganha…

 

Porém, este mesmo Cavaco Silva conquistou - depois de “ganhar” o PSD em Congresso, na sequência de uma rodagem de um automóvel… - duas maiorias consecutivas em eleições legislativas, e foi Primeiro-Ministro entre 1985 e 1995. Depois disso, foi eleito Presidente da Republica duas vezes seguidas, em 2006 e 2011. Na prática, pragmaticamente, é isto: um dos mais odiados políticos do regime democrático foi, ao mesmo tempo, um dos dois homem que os portugueses mais vezes elegeram para conduzir os destinos da nação.

 

Como se explica esta contradição? Como se explica que haja contagens decrescentes para a sua saída de cena, depois de tantas eleições, votos contados, vitórias indiscutíveis?

 

Não imagino como será visto Cavaco Silva daqui a 200 anos, quando os historiadores o avaliarem - mas tenho a certeza de que ele representa, na essência e na acção, o português típico, no que tem de mais ancestral e enraizado, na pequenez do olhar sobre o Mundo como na ideia obediente do que “é necessário fazer”. O pai de quem nunca nos livramos - queremos livrar, mas no fundo fazemos tudo para manter. A maioria dos votos que Cavaco obteve demonstra esse desejo de estabilidade quase paternal, de alguém que aguente mesmo o que ninguém quer aguentar, de alguém que esteja lá para dar o raspanete figurativo. Não muda, mas alivia. Não faz, mas ameaça. Não desrespeita a lei, mas lembra que existe. Talvez se explique desta forma - ou talvez não. O mistério vai persistir para lá dele próprio.

Para a maioria, é um alívio deixar de ter Cavaco Silva na vida política nacional. Mas receio que essa mesma maioria não deixe de procurar, no futuro, um outro Cavaco que lhe traga o sossego de que precisa para continuar a ser como é. Ou seja, igual.

 

Coisas que me deixaram a pensar esta semana

 

Quatro dias depois da entrega dos Óscares, um olhar impiedoso sobre a cerimónia, das mãos de uma das minhas bloggers favoritas, Eugénia Vasconcelos: “Proponho que nomeiem para um Óscar, já no próximo ano, um rapaz negro, transgénero, vegan, anão, adoptado por um casal lésbico asiático, sobrevivente de, sei lá, qualquer coisa que a Lady Gaga possa indignadamente gritar, perdão, interpretar, ao piano”. Leiam o resto…

 

Adoramos adivinhar o futuro. Adoramos previsões e profecias. Eis um olhar sobre o futuro, menos imaginativo e mais realista, melhor pensado…

 

Está na moda a expressão “nómada digital” - gente igual a toda a gente, cuja característica particular é, pela natureza do seu trabalho, seja a escrita ou a computação, a publicidade ou o design, poder não ter poiso fixo e fazer da sua vida uma viagem permanente, de computador às costas, e com uma ligação à internet. Mas isto é simplificar demais o que pode ter outra filosofia de vida. Sugiro, por isso, uma passagem por este site, assinado por uma francesa, mas onde colaboraram pessoas de muitos países (portugueses incluídos), que constitui uma porta de entrada para um livro, um blog, um roteiro, um guia. Um excelente trabalho, que de uma vez por todas nos põe por dentro desta nova forma de viver e trabalhar.

 

publicado às 10:15

Portugueses no mundo

Por: Pedro Rolo Duarte

 

O debate entre António Guterres e Durão Barroso, que a RTP promoveu na terça-feira passada, teve todo o tipo de comentários e análises. Mas houve duas tendências maioritárias e divergentes nessas reacções: as que elogiaram a carreira internacional de ambos, e os conhecimentos e sabedoria que daí resultaram; e as que recuperaram o facto de ambos terem “desistido” de Portugal e desertarem para portos mais seguros.

 

Confesso que vi o debate sem qualquer espécie de preconceito. Para mim, é tão legítima a vida de Tony Carreira em França como a de Durão Barroso em Bruxelas ou a de Ronaldo em Espanha. Somos livres de escolher o nosso caminho - e é triste, ou pelo menos injusto, que se peça aos políticos o que nem sequer se põe em causa nos futebolistas ou nos gestores. Orgulhamo-nos da carreira de Horta Osório na Banca inglesa, ou de Mourinho no futebol europeu, mas depois queremos que Guterres fique aqui a aturar a mediocridade reinante, que tanto o julga pelo que faz, como pelo o que não faz. Parece que ser politico é uma devoção - tudo o resto é carreira…

 

Não consigo julgar assim, e por isso analiso o percurso de Guterres como o de Ronaldo ou Paula Rego: portugueses que perceberam que o mundo era global, e que podiam ir mais longe fora do rectângulo. Tenho orgulho naqueles que conseguem dar esse passo. E até tenho a saloia tentação de admitir que as suas vidas trazem mais-valias para a imagem de Portugal no Mundo.

 

Dito isto, e depois de os ver debater - mais do que um debate, foi um encontro e uma entrevista dupla… -, impressionou-me, no que a impressão pode ter de saudável e positiva, o olhar global que ambos têm do mundo actual. A quintarola onde sempre vivemos, e de que vivem os habituais debates televisivos, foi substituída pela riqueza de um olhar que vê para lá do óbvio, que consegue analisar à distância, e que tem a noção clara da complexidade dos problemas que nos rodeiam. Ambos estão uns anos-luz à frente da pequena política nacional, da guerrilha de lugares e de empregos e de carreiristas - e com essa clareza conquistam-nos, porque nos exibem um cenário onde cabemos todos por igual.

 

António Guterres é menos optimista do que Durão Barroso (o que talvez possa ser explicado pela diferença entre andar no terreno e estar num gabinete aquecido em Bruxelas). Durão Barroso, pelo seu lado, valoriza mais a ciência e a tecnologia, e acredita que a evolução de ambas trará vantagens de que todos beneficiaremos. Os olhares de ambos são diferentes, mas completam-se na dimensão humanista que perseguem, e no reconhecimento de que o nosso futuro passa mais pelos equilíbrio que conseguirmos juntos do que pelas guerrilhas que persistimos em alimentar.

 

A RTP fez serviço público ao juntar os saberes de António Guterres e Durão Barroso num único encontro - e os dois usaram esse serviço para nos enriquecerem com ideias, perspectivas e pistas para um futuro que é mais presente do que outra coisa qualquer.

 

Por momentos, tive orgulho em ser português. Há melhor?

 

Coisas que me deixaram a pensar esta semana

 

No momento em que a notícia mais corriqueira de todos os dias é o fecho de mais uma edição em papel de um jornal, os donos do britânico Daily Mirror decidem surpreender: no final do mês nasce em Inglaterra o New Day - um novo jornal diário, exclusivamente em papel, que se vai ligar às redes sociais e à web apenas para efeitos de criação de debates e comunidades. A notícia não podia ser mais optimista e surpreendente, com um piscar de olho às mulheres…

 

Chama-se “birthday cam” e é a mais recente brincadeira inventada pelo Facebook para nos mantermos ainda mais dependentes da rede social. No dia do aniversário dos nossos amigos, o facto já nos era lembrado - agora, o Facebook criou uma funcionalidade que permite fazer um pequeno vídeo e enviar os parabéns aos aniversariantes de uma forma ainda mais próxima. Que mais vão inventar a seguir?

 

Rir é essencial: é isso que nos garante Shannon Reed neste delicioso texto, publicado há dois dias na edição online da revista The New Yorker. Ele responde à misteriosa questão de domingo que vem: quem são os obscuros membros da Academia que vão eleger o Óscar para Melhor Filme? As respostas são, no mínimo, hilárias…

publicado às 09:44

O eucalipto na floresta

Por: Pedro Rolo Duarte

 

A notícia começa a ser recorrente: um jornal que decide “migrar” para o digital e deixar a versão em papel impresso, ou mesmo (como aconteceu com a revista FHM) fechar de vez e terminar um ciclo de vida. Esta semana, depois de meses de boataria, foi o britânico The Independent - e o excelente dominical complementar Independent on Sunday - que marcaram o final de Março para o fecho das respectivas edições impressas. Dos 500 mil exemplares diários de há dez anos caíram, sem apelo nem agravo, para os 50 mil actuais. Ou seja, 450 mil pessoas deixaram de comprar aquele jornal. 90% dos seus consumidores.

 

O facto já não surpreende ninguém - o mundo da informação mudou radicalmente desde que a Internet se tornou acessível a todos, e as novas gerações, que já cresceram a obter gratuitamente informação em cima da hora, não querem pagar pela manhã cadernos de papel desactualizados há horas.

 

Sobra a opinião, a análise, a investigação, e a própria hierarquização da informação. Mas essas coisas são caras - nem os jornais que ainda restam em papel querem pagá-las, nem os leitores parecem muito entusiasmados com o assunto. No limite, alguém copia a crónica do Miguel Esteves Cardoso, do Vasco Pulido Valente, ou da Clara Ferreira Alves, consegue postar no Facebook, e toda a gente acaba por ter acesso ao que ainda justificaria a ninharia que custa um jornal. Para quem, como eu, nasceu e cresceu com o hábito do jornal diário - aqui ou em qualquer parte do mundo - esta dura mudança dói. Dói muito. É inexorável - se tivesse nascido neste tempo, faria parte dela. Só mesmo a teimosia e o vício me fazem resistir…

 

Mas, por outro lado, sem culpas para assacar nem alternativas para oferecer, é difícil encontrar saídas. Para ainda conseguirem sobreviver, os jornais em papel têm de ser geridos com pinças - ou seja, rigor e pouco dinheiro -, e isso retira-lhes o poder de constituírem o ultimo reduto do saber. Já não há a figura do velho sábio nos jornais. Não podem, por outro lado, ser mais rápidos que a sua própria sombra, no caso a edição online. Se se antecipam à edição impressa, perdem o valor acrescentado. Se esperam por ela, correm o risco de perder o fluxo de informação.

 

No quadro existente, a ideia de um jornal diário, impresso em papel, e fechado pelo menos 8 horas antes de estar à venda é, em si, um contra-senso. E o leitor não é parvo. Porém, continua a não haver nada semelhante a um recorte de jornal para credibilizar uma noticia - como nenhum canal de informação resiste a um olhar sobre as primeiras páginas do dia seguinte antes de fechar a noite. Aqui chegado, e vendo morrer mais um (bom) titulo em papel, The Independent, num egoísmo meio parvo mas ao mesmo tempo realista, agradeço aos meus pais terem tido a “generosidade” de me produzirem a tempo de viver todos estes tempos - o dos jornais à antiga, máquina de escrever e montagem à mão, depois a chegada da informática que os profissionalizou, e ainda o tempo da net - que lhes deu uma segunda vida e aparentemente mais estrada…

 

Sou sincero: preferia não estar cá para ver a morte de projectos como The Independent - que vi nascer e era, há 30 anos, o futuro de uma imprensa viva, opinativa, assertiva, de jornalismo real, ligada à imagem, atenta ao design. Pelos vistos, não chegou. Tenho a tentação de dizer, parecendo um velho do Restelo, que a Internet é mesmo o eucalipto desta floresta cheia de diversidade onde cresci e me fiz homem. Nada contra o eucalipto - mas que seca tudo à sua volta, lá isso seca.

 

Coisas que me deixaram a pensar esta semana

 

 

Ainda sobre a morte (em papel) do diário britânico The Independent, sugiro a leitura desta análise de Andrew Marr, que chegou a ser editor do jornal, mas é mais conhecido como um dos pesos-pesados dos media ingleses, nomeadamente na BBC.

 

O livro “American Girls: Social Media and the Secret Life of Teenagers” resulta de um estudo de Nancy Jo Sales sobre a forma como a exibição de imagens pessoais nas redes sociais - nomeadamente de jovens em poses mais ou menos provocadoras - pode mudar a mentalidade e a forma de encarar o sexo das gerações que neste momento se formam no mundo ocidental. Se pensarmos que 92% das crianças americanas têm uma presença online antes dos 2 anos de idade, dá para imaginar a bola de neve em que tudo se transforma. A revista Time, na sua excelente newsletter, resume o livro. E deixa-nos a pensar…

 

No mundo da imprensa económica, inovar não é um verbo muito usado. Porém, em Espanha, a edição local da norte-americana “Forbes”, é uma lição de ousadia, inovação e criatividade. Não se vende em Portugal mas é possível assiná-la na rede. E dar-lhe uma vista de olhos no site da revista. Merece.

 

publicado às 09:42

Vão de carrinho...

Por: Pedro Rolo Duarte

 

Houve um tempo em que ter carro era coisa de rico. Reconheço a ideia em filmes dos anos 40 e 50 do século passado, e em muitos romances que recuam a essas décadas. Mas não era nascido na época em que o mundo ocidental considerava o automóvel um objecto de luxo.

 

Quando comecei a ter consciência de mim, na década de 70, o conceito era outro: qualquer um (em rigor, qualquer família…) podia ter o seu automóvel, “devia” ter o seu automóvel, porque havia modelos para todas as bolsas, e a mobilidade individual estava em plena expansão. Era o tempo do Fiat 127, do Opel Corsa, do Citroen AX, do Renault 5 - e a publicidade, que adoro rever (obrigado, You Tube, por existires!), exaltava o lado democrático da acessibilidade, o que me ajudou a crescer sem manias: ter carro era, em si, uma mais-valia - mas a diferença entre um FIAT e um BMW não me impressionava excessivamente…

 

Só voltei a preocupar-me com a questão no começo dos anos 80, quando tirei a carta e me confrontei com o preço dos carros, os seguros, os pneus, as revisões. O automóvel entrou na minha vida como na de toda a geração a que pertenço: indispensável para o trabalho e o namoro, mas uma despesa permanente. Quanto mais pobres, pior: o carro em segunda mão (sempre uma espécie de ovo kinder, nunca se sabia o que lá estava dentro…), os modelos novos baratos (porém cheios de defeitos, que se revelavam ao fim de poucos meses), os seguros muito caros para quem estava em começo de vida. Uma chatice. Quando estava à beira de decidir deixar de ter carro, a década mudou. Chegaram os anos 90.

 

Com eles vieram as modernices nos motores e tabliers, os créditos fáceis, as auto-estradas, e a falsa ideia de que qualquer pessoa, desde que trabalhasse e tivesse um rendimento acima do salário mínimo, podia ter o automóvel dos seus sonhos - desde que os sonhos não subissem a um Aston Martin ou a um Ferrari. Assim se modernizou um parque automóvel (parte boa) de uma população sem dinheiro para o pagar (parte má).

 

A crise, que na década passada decidiu tomar conta das nossas vidas, fez do sonho um tormento. Não foi apenas a impossibilidade repentina de cumprir as prestações e os leasings - foi o Estado a ver no universo automóvel mais um meio de sugar dinheiro para pagar a sua obesidade mórbida: imposto automóvel, portagens, impostos sobre gasolina, circulação, estacionamento pago na via publica. Vale tudo. E esta semana, perante a vergonhaça do Orçamento que chegou a Bruxelas, a resposta não se fez esperar: quem tem automóvel vai pagar mais 19% de impostos (rico ou pobre, tanto faz - coisa de esquerda, não é?!…), a ver se se conseguem arrecadar mais 580 milhões de euros de receita. Parece que vai nascer uma taxa para pagar a circulação entre a garagem do prédio e a rua…

 

Perante mais este atentado a quem vive do trabalho - e usa o carro maioritariamente para esse efeito -, voltei a ponderar deixar de o ter. Estudei percursos, alternativas, transportes públicos disponíveis. Consegui animar-me com a ideia - até me lembrar do pesadelo que vivi no Verão passado, quando achei “genial” a ideia de ir, sempre em transportes públicos, à Praia Grande (a 35 quilómetros de Lisboa), ver o meu filho trabalhar como nadador-salvador. É verdade que cheguei lá. Mas foi às 17:00, depois de três horas de comboios e camionetas. Porquê?

 

Porque o Estado, que decide agora aumentar em 19% os impostos sobre o universo automóvel, é o mesmo que privatiza - e ao fazê-lo, obriga a rentabilizar a quem comprou (isto é, reduzir horários e percursos) - o que era de todos: o transporte público. Com isso, mata as alternativas ao automóvel. Imobiliza os mais pobres, deixa via aberta aos mais ricos.

 

Dispensava com gosto o automóvel, cujo custo mensal é francamente superior ao beneficio que me dá - mas tinha alguma esperança de que uma “maioria de esquerda” cumprisse os desígnios que tradicionalmente lhe reconhecemos, e compensasse esse brutal ataque à classe média com medidas sociais: benefícios e melhorias na rede de transportes públicos. Nem isso sucede.

 

Parecem cheios de vontade de ir de carrinho. Não vai demorar muito tempo.

 

COISAS QUE ME DEIXARAM A PENSAR ESTA SEMANA

 

Confesso: tenho conta de Twitter, mas não uso nem consulto. De vez em quando recebo uns mails de sedução da plataforma, uma vez por outra leio citações na imprensa de pessoas importantes que publicaram coisas no Twitter. Sempre achei que escrever em cima da hora era o mesmo que escrever mal. Mantenho-me distante. Agora, saltam-me matérias, nos jornais e newsletters, pouco simpáticas sobre o Twitter. E até mesmo sobre alternativas como o Telegram. O que se passa?

  

Na segunda-feira que vem há festa no Cais do Sodré, em Lisboa. Festejam-se três anos de poesia dita, cantada, gritada, sussurrada, no bar O Povo. Já uma vez chamei a este encontro semanal “O milagre das segundas-feiras”: “Num país deprimido e triste, onde parece nada acontecer, e só ter sucesso o mínimo denominador comum, o milagres das segundas-feiras d’O Povo é o sinal mais animador da cidade e uma espécie de prova de vida regular da nossa existência”. A ideia mantém-se. E a vitalidade cresce. Um brinde à poesia n’O Povo e a festa mais do que merecida.

  

Para um americano, talvez não seja a mais clara e interessante das fontes - mas para um europeu, para mais pouco ligado a um processo eleitoral intrincado, confuso, e onde muitas vezes se confundem sondagens com eleições primárias, estados representativos com outros marcadamente democratas ou republicanos, e todo o processo eleitoral parece uma roleta de Las Vegas, a cobertura do britânico The Guardian é talvez a mais completa, transparente e esclarecedora, para a eleição deste ano. É a que leio, é o meu conselho.

 

 

 

publicado às 09:24

O problema do exemplo

Por: Pedro Rolo Duarte

Tenho lido e ouvido o depoimento de muitos profissionais da hotelaria que declaram, sem qualquer espécie de vergonha na cara, que os preços não vão baixar na restauração mesmo que o IVA volte aos 13% de há uns anos. Ou seja: os mesmos que, quando o IVA subiu para os actuais 23%, fizeram recair sobre o consumidor esse aumento, desculpando-se com a medida governamental, refugiam-se agora nas mais esfarrapadas argumentações para não repor o que lhes teria sido subtraído.

 

Mantem-se actual o clássico “quem se lixa é o mexilhão”, que somos todos nós, consumidores - e lembro-me imediatamente de quando o escudo deu lugar ao euro e, do café à sanduíche, o que antes custava 100 escudos foi facilmente “arredondado” para 1 euro… Ou seja, o dobro. Parece que há sempre alguém mais esperto do que nós.

 

Na verdade, oiço estas pessoas usarem argumentos estapafúrdios para manter os preços 10% mais altos e, por um lado, pasmo: é preciso lata. Mas, por outro, respeito e compreendo: não estão a fazer mais nem menos do que sucessivos governos - que, em teoria, também prometeram o que jamais cumpriram, tornaram definitivas as medidas provisórias, e arranjaram sempre boas desculpas para, “afinal”, não ser possível o que antes era óbvio. Se é verdade que o exemplo vem de cima, os profissionais da restauração estão a seguir o exemplo dos reembolsos que não se podem reembolsar, das taxas extraordinárias que o tempo tornou ordinárias, e dos abatimentos fiscais que anualmente minguam como gelo a derreter ao sol.

 

Se quisermos ser rigorosos, mesmo no “dossier” IVA já há ditos por não ditos: o que era uma promessa eleitoral de baixar o imposto na restauração, sem especificações de maior, foi limitado a parte dos produtos que a hotelaria comercializa - e não é já, é lá mais para a frente. Foi o Governo o primeiro a mudar de ideias. Mas os profissionais do sector, que também são profissionais do queixume permanente - “isto está cada vez pior” é o chavão de todos os dias… -, parecem excelentes alunos.

 

O problema maior vem depois e está estudado pelos especialistas: quanto mais se lhe aperta a garganta, mais rapidamente se empurra o contribuinte para a economia paralela, para a compra e venda sem papéis e sem registos, para o negócio quase comunitário da troca de bens e serviços. Há um limite acima do qual o “cobrador”, seja o Estado ou um restaurante, começa a asfixiar a galinha dos ovos de ouro. E ela morre. Ou deixa de pôr ovos. Na pior das hipóteses, reclama um subsidio ou pede um resgate financeiro. Para o que estamos guardados…

 

COISAS QUE ME DEIXARAM A PENSAR ESTA SEMANA

 

Yann Arthus-Bertrand é um nome mais conhecido do mundo da fotografia do que do cinema ou do documentarismo. Tornou-se popular pela qualidade e originalidade das suas fotografias aéreas, muitas vezes misturando arte e design com imagem. Tem mais de 50 livros publicados e muitas matérias editadas em revistas, nomeadamente na National Geographic. Nos últimos anos, no entanto, dedicou-se ao documentarismo, e realizou uma extraordinária série: “Human”. Reúne entrevistas editadas com mais de duas mil pessoas de 60 países. Depoimentos pessoais de memória, de vida, de ensinamento, que vale mesmo a pena ver. Demora tempo - mas não é tempo perdido…

  

No momento em que se assinalam 100 anos sobre o nascimento de Vergilio Ferreira, um dos mais relevantes escritores do século XX português, encontro na rede (apenas em som) uma entrevista quase desconhecida do escritor. Data de 1990. Está no site de Maria Augusta Silva e Pedro Foyos, Casa das Letras, e revela um pouco do homem para lá do escritor. É ouvir

 

Há revistas para todos os gostos, para todos os nichos. Como apreciador de café, apaixonei-me por esta: “Standart”. Já se vende em Portugal, numa edição em inglês, ainda que seja originalmente checa, produzida em Praga. Trata o café como se de planta rara se tratasse, sai apenas quatro vezes por ano, e tanto explora a produção, como aqueles que torram, comercializam, e vendem café por esse mundo fora. Além de cultivar a paz, o relax, e o prazer que um café pode proporcionar a meio do dia. Nem que seja o site, vale a pena conhecer.

 

 

 

publicado às 10:53

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