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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Como a América irá por ordem no mundo (se Trump for presidente)

Por: José Couto Nogueira

 

Existe, indubitavelmente, a possibilidade de Donald Trump ser o próximo Presidente dos Estados Unidos. Embora abundem as paródias sobre “o Donald” (como lhe chamam os desafectos), e apesar de os seus comícios serem cada vez mais tumultuados, com cenas de pancadaria e demonstrações inequívocas de racismo, não há como ignorar que Trump tem ganho sistematicamente as primárias do seu partido e, não acontecendo um milagre, ou uma catástrofe, será o candidato republicano às presidenciais de Novembro.

 

Mesmo que os comentadores – e uma maioria do eleitorado, segundo as últimas sondagens – considerem a vitória improvável, a realidade é que pode acontecer. Entretanto, Trump, entre uma piadola machista e um comentário racista, tem vindo a aperfeiçoar o discurso, isto é, a apresentar o que será a sua politica como Presidente. Na sexta feira passada deu uma longa entrevista telefónica ao “New York Times” em que expôs de modo mais coerente qual será a sua postura na arena mundial. Pode ter dito coisas surpreendentes, mas não fez declarações disparatadas. Ou seja, temos agora uma noção mais próxima do que acontecerá no mundo em que Mr. Trump será Mr. President.

 

As afirmações mais inesperadas foram certamente sobre a questão da dependência petrolífera dos Estados Unidos em relação aos países produtores, especialmente a Arábia Saudita. “Se não fosse a protecção norte-americana, acho que a Arábia Saudita já teria desaparecido”, afirmou. Portanto a sua ideia é fazer-se pagar por essa protecção, invertendo a equação: ou os sauditas entram com tropas na luta contra o Califado Islâmico, ou os Estados Unidos deixam de lhes comprar petróleo. Além disso, quer ser reembolsado pelas despesas militares na zona, uma vez que a instabilidade provocada pelos radicais afecta sobretudo os estados produtores.

 

Esta forma economicista de fazer prevalecer o domínio norte-americano, aplica-a ele também a outras situações. Por exemplo, está disposto a permitir que o Japão e a Coreia do Sul construam os seus arsenais nucleares próprios, em vez de dependerem dos EUA; e exigirá pagamento para a manutenção das suas forças militares nos dois países.

 

Ou pagam, ou defendem-se sozinhos

 

Diz Trump que o poder americano se diluiu em muitos tratados – com é o caso da defesa do Japão – que constituem uma enorme despesa e que terão de ser renegociados em condições económicas mais vantajosas. Apesar de não definir objectivos estratégicos, quer reequacionar os actuais mediante uma espécie de chantagem: ou os parceiros pagam, ou se defendem sozinhos. Também é o caso da NATO, que é quase totalmente subsidiada pelos Estados Unidos, não só em forças militares disponíveis como em equipamento e outras despesas. Para ele, a NATO como está não faz sentido, pois uma guerra tradicional não se apresenta no horizonte; deveria reconverter-se como força anti-terrorista.

 

Estes pontos de vista representam uma mudança de 180 graus na politica histórica dos Estados Unidos. Não se percebe até que ponto Trump tem a noção das dificuldades internas que teria para levar a cabo tal mudança.

 

Quanto ao expansionismo territorial chinês – a China presentemente disputa algumas ilhas do pacífico – também pretende combatê-lo através de sanções económicas. Os chineses dependem maioritariamente do mercado norte-americano e basta uma ameaça de que esse mercado se restrinja para provocar uma crise de grandes proporções na China.

 

Estas politicas não só são originais – caso sejam possíveis – com divergem completamente das posturas republicanas tradicionais. É o próprio Trump que salienta: “Não sou internacionalista como Bush pai, nem pretendo espalhar democracia pelo mundo, como Bush filho. A minha politica é A América Primeiro.” Acrescenta que não é isolacionista, mas quer que os parceiros paguem a sua colaboração, com tropas ou fundos. A colaboração dependeria mais da atitude dos outros – amistosa ou hostil – do que dos interesses estratégicos deles.

 

De toda a entrevista, esta talvez tenha sido a afirmação mais sentido:, Trump revelou que agirá de modo imprevisível, porque a previsibilidade dos americanos tem facilitado a vida aos adversários dos americanos. Por exemplo, agiria em relação aos chineses, concretamente às suas pretensões sobre as ilhas do Mar do Sul da China, ameaçando como um aumento de tarifas alfandegárias, ou mesmo proibição de importar certos produtos, mas sem lhes fazer ver quais seriam as suas linhas vermelhas. Em termos de imprevisibilidade, é pouco.

 

Os Estados Unidos, diz Trump, atingiram a sua maior grandeza no princípio do século XX, quando o Presidente era outro republicano pouco convencional, Theodore Roosevelt. E os seus heróis são dois generais da II Guerra Mundial, George Patton e Douglas MacArthur – embora, surpreendentemente, não esteja de acordo com a decisão de MacArthur de bombardear atomicamente o Japão. Foi essa a outra grande surpresa da entrevista: Trump não é a favor de ofensivas nucleares e afirma que nunca será o primeiro a usar a bomba atómica.

 

O Donald já está a pensar à escala global

 

Também não é a favor de colocar tropas no terreno. Diz que prefere ameaçar do que fazer, e que seria essa a sua postura em relação, por exemplo, à Arábia Saudita. (O que não faz muito sentido, tanto porque lá se vai a imprevisibilidade como volta a necessidade de bombardear...) A sua preferência por militares também se aplica aos conselheiros que eventualmente escolherá: dois generais e um almirante, todos reformados.

 

Quanto à delicada situação dos Estados Unidos terem espiado toda a gente, inclusive dirigentes europeus, Trump evitou uma resposta conclusiva; acha normal que se espie os aliados, pois eles certamente farão o mesmo, mas não concorda que os serviços de espionagem tenham bisbilhotado o telemóvel de Ângela Merkel. A propósito, afirmou que a chanceler tinha feito muito mal em autorizar a entrada dos refugiados. Segundo ele, a Europa e os estados do Golfo deviam pagar para que se criassem áreas seguras dentro da Síria onde os refugiados viveriam até a situação se normalizar.

 

Sobre um tema que é sempre essencial a qualquer candidato presidencial, a situação de Israel e de Gaza, preferiu não se pronunciar. Terá que fazê-lo num futuro próximo mas é evidente que, enquanto puder, evitará o assunto. Apenas disse que é a favor da solução Dois Estados, desde que os palestinianos reconheçam a existência de Israel.

 

Nesta altura do campeonato, Trump demonstra uma postura precisamente contrária ao que diz, ou seja, isolacionista. Exactamente como Bush filho, antes do 11 de Setembro ter virado a política americana de cabeça para baixo. Além disso, em geral, Trump apresentou soluções que não parecem muito bem pensadas; seria difícil prescindir do petróleo do Golfo, ou sequer fazer bluff com a Arábia Saudita nesse ponto, por exemplo. Assim como seria difícil estabelecer barreiras alfandegárias para os produtos chineses, pois vai contra toda a politica de livre comércio que os americanos sempre defenderam. Muitas das decisões apresentadas por Trump – se não todas – teriam de passar pelo legislativo, e nada lhe garante que o Congresso aprove alterações tão radicais.

 

De qualquer modo, o Donald já está a pensar à escala global. Nessa escala, a maioria pensa que um Presidente Trump seria uma catástrofe de proporções bíblicas. Mas não é o globo que irá tomar essa decisão, chegado Novembro.

 

 

 

publicado às 16:30

Cristas tem de ganhar o país

Por: António Costa

 

A Direita portuguesa move-se, o CDS-PP toma a iniciativa de abrir um novo tempo na oposição e ganha um novo espaço de intervenção. Assunção Cristas já tem a sua agenda e também os seus adversários e, da primeira intervenção, fica claro que quer deixar de ser o partido de suporte do PSD, por isso, Pedro Passos Coelho tem de mudar de vida se quiser voltar a ser primeiro-ministro.

 

A partir de agora, vamos assistir a um fenómeno, à Direita, semelhante ao que se verificou nos últimos dois anos à Esquerda. A ascensão eleitoral do Bloco de Esquerda e da liderança de Catarina Martins foi ‘alimentada’ de forma discreta, mas empenhada, por um governo que queria fragilizar António Costa e o PS. Agora, será seguramente o governo PS a ‘apoiar’ Assunção Cristas, a sublinhar a sua responsabilidade política, por contra-ponto à estratégia de Passos Coelho e do PSD. É a vida, mas a nova líder do CDS já percebeu que a nova realidade política, as novas contas em eleições, dá-lhe uma oportunidade que Paulo Portas nunca teve.

 

Desengane-se o PSD, o CDS vai ser um problema, Assunção Cristas é mais pragmática, menos ideológica, quer o CDS ao centro, como se percebe pelas intervenções no congresso do partido. O CDS deixará de ser o partido dos grupos, dos reformados, da lavoura, dos contribuintes. Passará a ser um partido que quer falar aos portugueses do centro-Direita, sim, o espaço político do PSD,

 

A concorrência com o PSD não se fará apenas na disputa do mesmo espaço político. Far-se-á também na capacidade de fazer parte das soluções. Assunção Cristas não é Paulo Portas, distanciou-se por exemplo, e bem, da ‘inacreditável’ descoberta do antigo líder sobre Carlos Costa. E quer participar nas reformas. Já sabemos quais são: a segurança social, a reforma da supervisão, a convergência dos setores público e privado.

 

Ao contrário de Passos Coelho, que tem um passado e ainda não conseguiu ultrapassar a forma como António Costa chegou a São Bento, e isso explica a formo como está a fazer oposição, Cristas tem as mãos livres. Para fazer o que quiser, para fazer as pontes que quiser, e até tem agora em Belém um Presidente que também permite novas geometrias políticas, novos acordos.

 

A nova líder do CDS ainda não conquistou o partido, o CDS foi-lhe ‘dado’, seguramente porque mostrou competências pessoais e políticas. Mas para ganhar o partido, vai ter de ganhar o país e, tendo em conta o quadro político e económico em vigor, não vai ter muito tempo para isso.

 

As escolhas

 

As corporações voltaram a agitar-se, e isso mostra como este governo é percecionado. As manifestações, e os bloqueios, dão resultados, pagam, por isso é que os suinicultores e os produtores de leite prometem a maior manifestação de sempre. Será um teste a António Costa e à sua capacidade de dizer ‘não’ e de não usar o dinheiro dos contribuintes para pagar os votos e a paz partidária.

 

Dilma Roussef já não é a ‘Presidenta’ de todos os brasileiros, será na melhor das hipóteses de alguns, poucos, como se viu pelas manifestações de ontem em cerca de 450 cidades brasileiras. Está agarrada à cadeira - e está a dar os sinais errados no momento errado, isto é, a admitir proteger Lula das investigações judiciais. O que nos diz isto? O Brasil é um país paralisado do ponto de vista politico e económico e a afundar do ponto de vista social.

 

E como nos recorda o SAPO24, hoje é o dia do Pi. Para matemáticos e não-matemáticos. É possível celebrar o Pi, o 3,14, o rácio da circunferência pelo diâmetro? É, sim. Saiba como.

publicado às 10:08

Os políticos são todos iguais e as empresas são parolas e chico-espertas (algumas delas)

Por: Rute Sousa Vasco

 

Joaquim Pina Moura. Joaquim Ferreira do Amaral. Jorge Coelho. José Luís Arnaut. Mário Lino. Miguel Cadilhe. Manuel Pinho. Miguel Beleza. António Mexia. Luís Campos e Cunha. Sérgio Monteiro. E agora Maria Luís Albuquerque.

 

Vamos brincar às diferenças? Consegue encontrá-las neste lote de políticos que, depois de funções governamentais, assumiram cargos de liderança em empresas do sector privado? Ou em fundações. Ou em empresas tuteladas pelo Estado.

 

Vale a pena jogar este jogo por várias razões. A primeira porque, mais do que nunca, vale a pena gastar energias a debater a mítica frase “os políticos são todos iguais”. Se nada fizermos quanto a isso, podemos esperar na volta do correio mais Trumps, porque aquelas coisas não acontecem só na América.

 

A segunda porque, efectivamente, os casos não são todos iguais. Iniciei este artigo com uma pequena amostra de nomes mediáticos mas, até nesta amostra, existem diferentes níveis de competência e de desfaçatez – e isso faz diferença quando se analisam teias de interesse entre funções públicas e empregos privados.

 

A terceira razão é, provavelmente, a mais difícil de avaliar sem paixões da alma e decorre das outras duas. À vista desarmada parece tudo a mesma coisa – são todos políticos que depois de estarem no Governo foram convidados para lugares de referência, muito bem pagos, no sector privado ou em instituições na esfera de influência do Estado. Todo e qualquer argumento usado para dizer “ah não, mas neste caso é diferente” escorrega em terreno pantanoso. E até as tentativas de ‘normalização’ são um exercício penoso quando se juntam nomes e cargos.

 

Uma das ditas tentativas de normalização tem sido, por exemplo, legislar a favor do impedimento de ex-governantes assumirem funções em empresas que tutelaram durante um determinado período de tempo.

 

Em teoria, pode resolver. Na prática, vemos, por exemplo, que um ministro como Mário Lino, que ocupou a pasta das Obras Públicas, aceitou, depois da sua saída do governo socialista em 2011, o lugar de presidente do Conselho Fiscal das seguradoras do grupo Caixa Geral de Depósitos. Ora, Lino é um engenheiro civil que nunca teve qualquer experiência na banca. Teoricamente está tudo bem – a Caixa não é uma empresa que tutelasse, pelo menos directamente. Na prática, isto não desfaz as dúvidas sobre as razões de tal contratação.

 

O inverso também é verdade. Luís Campos e Cunha, por exemplo, saiu de ministro das Finanças para o Banif. Tem reconhecida competência na área, mas a banca é um sector na esfera das Finanças, o que deveria inibir tal contratação. Sendo que o seu mandato como ministro foi curto e sem especial impacto ou ligação ao Banif.

 

Há ainda quem fale do tempo de nojo que permitiria sanar qualquer dúvida. À partida faria sentido, mas basta recordar a contratação do ex-ministro Joaquim Ferreira do Amaral para presidente da Lusoponte, dez anos depois de ter sido o ministro que assinou a concessão da Ponte Vasco da Gama à mesma empresa, para percebermos que o tempo não traz nenhum manto diáfano de pureza.

 

E chegamos agora ao dito caso Maria Luís Albuquerque, a ex-ministra das Finanças de Pedro Passos Coelho, actual deputada eleita pelo PSD e ontem anunciada como administradora não-executiva de uma empresa especializada em gestão de crédito com clientes como o Banif, o Millennium BCP e o Montepio. Bancos tutelados por Maria Luís Albuquerque até há três meses, quando era ministra das Finanças.

 

A julgar pelas palavras da ex-ministra e actual deputada – que afirmou não ver qualquer incompatibilidade ou impedimento legal – é perfeitamente pacífico, no seu entender, sentar-se à mesa do comité de risco e auditoria do seu novo empregador aos dias ímpares, e na bancada do hemiciclo, aos dias pares. Tão pacífico e compatível como será nuns dias colaborar em decisões para que uma empresa saque a qualquer custo os créditos que comprou aos endividados e aflitos (é isso que empresas como os novos patrões de Maria Albuquerque fazem) e noutros assumir a defesa dos portugueses, nomeadamente batalhando enquanto deputada para que sejam defendidos de empresas de rapina à mercê da qual todas as economias têm andado a reboque (isto talvez não esteja inscrito no programa do PSD, se bem que no novo caminho da social-democracia deveria estar).

 

Estou certa, embora já não recorde os termos em que outros como Maria Luís Albuquerque terão jurado que nada, mas nada mesmo, tem a ver. Quando Manuel Pinho foi convidado para dar aulas na School of International and Public Affairs (SIPA) da Universidade Columbia, muitos jornais deram apenas conta do facto. Mas também houve quem se lembrasse que esta foi a mesma universidade que recebeu da EDP cerca de 3 milhões de euros. EDP, que foi a empresa com a qual Manuel Pinho fez a cruzada das energias renováveis durante o seu mandato. Pode ser uma coincidência. Pode. Os processos de intenção são maliciosos. Sempre ou quase sempre.

 

Qual é então a solução? Há alguma hipótese de voltarmos a acreditar na política e nos políticos? Ou tudo isto é uma batalha perdida?

 

Os comentários nos jornais online podem ser um espaço pouco recomendável, mas são um belíssimo termómetro da nação. Uma consulta a três ou quatro sites, com linhas editoriais distintas e com comunidades de leitores também diferenciadas, confirma o senso comum. Há quem ache que isto é só inveja e que assim não conseguimos ter os melhores na política. Há quem ache que é uma vergonha (e aqui esgrime-se a gritaria se é mais vergonha da direita ou da esquerda). E há quem timidamente tente falar de ética e bom senso.

 

Podemos – e devemos – legislar limitações legais adicionais ao exercício de cargos, públicos ou privados, em empresas na esfera de ex-governantes ou actuais deputados. Podemos – e devemos – discutir os ordenados dos políticos. Podemos – e devemos – batalhar por novas ferramentas de transparência entre a política e as empresas.

 

Mas, se calhar, também podemos tentar vencer noutra frente. Muitas destas contratações são perigosas e letais. Decorrem de jogos de interesses e de influências que nada de bom podem trazer ao país. Compram informações privilegiadas, agendas de contactos, acessos privilegiados a determinados centros de poder.

 

Mas são, muitas vezes também, actos de parolismo e chico-espertismo de empresas que não se importam de pagar milhares de euros por mês a um ex-governante para dizer que têm um ministro ou um deputado no conselho de administração.

 

O ridículo mata, sabem? E mata mais depressa esses vícios parolos se, tanto no sector privado, como no público, tivermos cada vez mais profissionais pagos pelo que sabem e pelo que fazem. E na política, políticos que percebem que, ao aceitar essas funções, deixam de ser pessoas como as outras.

 

Outras sugestões

 

O El País conseguiu afirmar-se como uma das marcas mundiais de jornalismo. É obra, só por si, mas mais do que de passado, é de futuro que o jornal fala. E é por isso que vale a pena ler a carta que o director do jornal, Antonio Caño, publicou ontem.

 

E porque o futuro acontece rápido, aqui está uma boa história sobre a rede que os teenagers não dispensam e os pais não percebem (basta dizer que uma das recentes inovações é uma ferramenta que transforma uma selfie normal e desinteressante numa selfie a vomitar um arco-íris... giro, hem?)

 

Tenham um bom fim de semana.

publicado às 11:12

A medida orçamental mais estúpida do ano

Por: Paulo Ferreira

 Não se entende como se vai discriminar positivamente um sector como o da restauração que, nos últimos anos, tem mostrado uma dinâmica invulgar quando a generalidade das outras actividades está carregada de impostos

 

Chegam a ser comoventes o amor e dedicação demonstrados pelo primeiro-ministro ao sector da restauração, materializados na anunciada descida do IVA aplicado ao sector, que deverá passar de 23% para 13% a partir de Julho.

 

Dir-se-á que se trata do cumprimento de uma promessa eleitoral, só por isso um acto meritório. É verdade. Tão habituados estamos a ver a generalidade das promessas ir parar à gaveta entre o dia das eleições e a tomada de posse dos governos que até estranhamos quando elas são cumpridas.

 

No caso presente, o que se estranha é a sobrevivência desta promessa quando tantas outras foram já arquivadas. Primeiro foi a descida da Taxa Social Única para todos os trabalhadores que ficou pelo caminho. Igual destino teve a mesma medida depois de mitigada pelo acordo à esquerda, quando passou a prever aplicar-se apenas aos trabalhadores com ordenados até aos 600 euros. Esta medida custava 327 milhões de euros por ano. Era cara e, quando Bruxelas obrigou a baixar o défice previsto, foi também colocada na gaveta.

 

Mas o IVA na restauração, que custa 350 milhões por ano, sobreviveu. Primeiro porque iria contribuir para a descida de preços, aumentar o volume de negócios do sector e, assim, criar emprego.

 

Mas a corporação sectorial apressou-se a desenganar os mais incautos: que não esperassem uma descida de preços, alegando que eles não subiram quando o IVA subiu. Não é verdade, como mostram os dados do INE. O IVA subiu em Janeiro de 2012. Pois entre Dezembro de 2011 e Janeiro de 2016, os preços no sector subiram 8,5% - uma subida verificada em grande parte logo no início de 2012. No mesmo período, os preços médios de produtos e serviços em toda a economia aumentaram apenas 1%. Portanto, o sector fez-se pagar pelo aumento do IVA, transferindo quase todo o custo fiscal para os consumidores, como é, aliás, natural.

 

Então o argumentário passou a ser apenas o da criação de emprego. Mas como e porquê? Se os preços não baixarem com a redução de IVA, que aumento da procura virá daí? E sem mais procura por motivos fiscais, para quê mais empregados? E se o sector português já é o que tem o volume de facturação por empregado mais baixo da Europa, o caminho é aumentar a mão de obra?

 

Alguém se anda a enganar nas contas. Ou a enganar-nos nas contas.

 

É normal que um sector que durante anos se habituou em larga medida a viver na “informalidade” - o eufemismo que nos salões bem frequentados se utiliza para dizer “fuga aos impostos” - esteja a conviver mal com os sistemas electrónicos que dificultam a sub-facturação e com o e-factura, que transformou cada cliente num fiscal das finanças.

 

Mas essa é uma adaptação que o sector tem que fazer nas suas práticas. É um mau sinal político colocar a generalidade dos contribuintes a pagar as dificuldades que agora sentem no cumprimento das obrigações fiscais.

 

Que pagamos impostos demasiado elevados, é um facto. Mas isso é verdade na restauração e no vestuário e calçado. Nos electrodomésticos e nos imóveis. Nos combustíveis e nos rendimentos do trabalho.

 

Não se entende como se vai discriminar positivamente um sector que, nos últimos anos, tem mostrado uma dinâmica invulgar quando a generalidade de todas as outras actividades está carregada de impostos.

 

Neste contexto, de austeridade continuada e com aumentos inferiores a um euro para as pensões mais baixas por falta de margem, dar 350 milhões de margem comercial adicional à restauração é, provavelmente, a medida orçamental mais estúpida do ano.

 

Esta é uma promessa que devia estar na primeira linha das que caem por manifesta falta de racionalidade económica e financeira. Só por teimosia política se insiste no erro.

 

OUTRAS LEITURAS 

publicado às 01:28

As marcas de 90 dias de governo

Por: António Costa

 

O ministro Augusto Santos Silva anunciou-nos que o Governo está empenhado em ganhar um novo mandato em 2019, coisa que, na verdade, não precisava de ter feito, porque se há coisa que fica clara deste Orçamento do Estado para 2016 e dos três meses de governação é isso mesmo. Se não há primeiro-ministro que se lixe para as eleições, e não há, há primeiros-ministros que só pensam nas eleições.

 

Ao fim dos primeiros 90 dias de governo – mais acelerados do que costumam ser, por responsabilidade alheia e, sobretudo, culpa própria – já é possível definir as marcas que estão para ficar. António Costa bem se esforça por dizer que a principal caraterística é a que cumpre o prometido, o que é quase verdade. Prometeu beneficiar a função pública, e cumpriu, prometeu descer a sobretaxa de IRS (os mais pobres já não pagam IRS, diga-se) e cumpriu parcialmente, prometeu beneficiar os donos dos restaurantes e vai cumprir, prometeu descer a TSU dos trabalhadores com salários até 600 euros e... não cumpriu. Mas como as promessas não podem ser um fim em si mesmo, especialmente quando Costa foi além das suas próprias promessas eleitorais, sobram outras marcas destes 90 dias.

 

A primeira é mesmo a que Santos Silva nos anunciava. António Costa está a governar para as eleições, só não está a governar para 2019, mas para este ano ou, no máximo, o próximo. Como sucede em qualquer campanha eleitoral, só existe o líder, tudo é feito e centrado no nome e na capacidade política de quem manda. Para já, pelo menos, é uma vantagem. O Governo não tem estrelas, tem valores seguros como Santos Silva e Vieira da Silva, tem surpresas – para quem não os conhece – como Pedro Marques ou Adalberto Campos Fernandes, e as estrelas académicas que se apresentavam, Mário Centeno, Manuel Caldeira Cabral e Tiago Brandão Rodrigues, são na verdade as desilusões.

 

António Costa, é preciso reconhecer, conseguiu dar vida à geringonça, passou os testes sucessivos a custo, sobretudo o externo e as negociações com Bruxelas. Foi obrigado a mudar a lógica do orçamento – e foi isso que a Moody’s elogiou, já agora – e mesmo assim conseguiu ter os votos do BE e do PCP. O primeiro, como já se percebeu, quer o poder e vai atuar em conformidade, como se prova pela reação às reações a um cartaz tão estúpido como errado. O segundo será mais difícil de contentar, como se percebe pelos sinais públicos e notórios, até pelas posições da CGTP. Mas Costa conseguiu.

 

O ritmo da vida política portuguesa não vai abrandar, pelo contrário. Os efeitos de uma estratégia orçamental e económica contraditória, misturados com um contexto internacional de crise e estagnação generalizado, só podem dar maus resultados em Portugal. Não só ao nível das contas públicas, como do crescimento e emprego e das contas externas. E é por isso que o Plano B de Mário Centeno será mesmo para executar e em simultâneo o Governo tem de apresentar o PEC até 2019.

 

Até lá, vamos continuar a ter política, e muita, não necessariamente da boa.

 

As escolhas

 

O jornalismo foi premiado nos óscares, numa noite de surpresas a abrir e a fechar. O Óscar para o filme “O caso Spotlight” – uma investigação jornalística nos EUA aos abusos sexuais de crianças por parte de padres em Boston – é uma distinção a um certo cinema e a um certo jornalismo, ambos em crise. Leia aqui em www.sapo24.pt todas as histórias, e claro, os melhores vestidos do ‘red carpet’.

 

Tenha uma boa semana

publicado às 09:39

European Union made in England

Por: António Costa

 

David Cameron conseguiu o acordo que queria, e que precisava de ter, com os outros líderes europeus para defender a continuação do Reino Unido na União Europeia. Graças a mais uma mão-cheia de exceções, particularmente o estatuto especial do país na zona euro e a defesa de mecanismos de supervisão bancária próprios, o referendo do próximo dia 23 de Junho vai ter a participação ativa do primeiro-ministro inglês no ‘não’ ao Brexit.

 

Em primeiro lugar, houve um acordo, e isso vale (quase) por si. Em mais uma daquelas maratonas negociais – com Merkel a mexer os cordelinhos sem aparecer e Hollande a não mexer os cordelinhos apesar de aparecer mais -, David Cameron, Juncker e Tusk percebiam que tinham de ter um entendimento. Seria mau para o Reino Unido e seria péssimo para a União Europeia. Não por acaso, todos suspiraram, desde logo uma longa lista de empresários e gestores britânicos, das maiores empresas e bancos, que assinou um manifesto a apoiar Cameron e a permanência no espaço europeu comunitário. O referendo não está ganho, mas está mais perto disso.

 

O Reino Unido reforçou os mecanismos de ‘saída’ da União Europeia, os instrumentos que lhe permitirão dizer não a uma participação em planos de integração decididos pela Alemanha e França, as formas de limitar a entrada de imigrantes e os respetivos custos e, claro, a autonomia do centro financeiro mais importante da Europa, a City. Do lado da União Europeia, voltou-se a ganhar tempo.

 

Num quadro de pressão extrema sobre o projeto europeu, porque as exigências do euro continuam a não ser entendidas e percebidas – veja-se o caso de Portugal -, porque não há uma resposta para a imigração e para os refugiados, a proliferação de regras específicas para o Reino Unido tem um risco: abre uma caixa de Pandora para outros países. O que poderão dizer Merkel e a Comissão Europeia nesse caso? Os países não valem todos o mesmo, apesar da retórica política, sabemos isso... Mas também é preciso dizer que o Reino Unido tem, desde o início dos tempos, um estatuto especial, e todos os outros sabem disso. E todos têm, ainda, mais vantagens do que desvantagens em estar na União Europeia e no euro, como se percebe pelo caso grego.

 

Provavelmente, terá também começado aqui uma nova fase de desenvolvimento da União Europeia. Por um lado, um arrefecimento do ativismo burocrático e legal, e centrado no essencial; depois, um aumento das negociações bilaterais que permita manter o ritmo da integração. Será mais difícil, provavelmente mais lento do que seria necessário, mas mais bem recebido pelas populações dos países da União. Uma nova fase europeia made in England.

 

AS ESCOLHAS

 

Não se trata de uma escolha, porque, como se sabe, as únicas coisas certas na vida são a morte e os impostos. É sobretudo uma necessidade, a de acompanhar o primeiro dia de debate do Orçamento do Estado, hoje no Parlamento. Sem surpresas, a Esquerda Parlamentar anunciou o voto favorável a um orçamento que, dizem, é do PS, não vá a coisa dar para o torto. E tem tudo para isso.

 

Hoje, no Diário Económico, uma entrevista a Vítor Bento. O economista e ex-presidente do Novo Banco diz em público o que começa a ser sussurrado nos corredores do poder, a nacionalização do Novo Banco. Por duas razões, a segunda menos discutida. A primeira, claro, resulta da ideia de que é cada vez mais difícil vender o Novo Banco. Mas é o segundo argumento que vai dar mais brado: Bento vai mais longe e avisa para os riscos de uma transferência do poder de decisão de todos os bancos privados para Espanha. A discussão só agora começou.

 

E, agora, do outro lado do Atlântico, as primárias estão em velocidade de cruzeiro e, no fim de semana, na Carolina do Sul, Donald Trump e Hillary Clinton, sobretudo o primeiro, reforçam as suas posições. E o mundo treme com a expectativa de ter Trump e Putin em cimeiras internacionais. Leia aqui, no SAPO24, o que está em causa nas eleições norte-americanas.

publicado às 11:07

Um orçamento eleitoralista em início de mandato

Por: António Costa

 

António Costa mudou as regras de formação de governos e, agora, também mudou a estratégia política que manda executar as medidas impopulares no início dos mandatos... O primeiro orçamento de Costa é eleitoralista, aposta tudo nos funcionários públicos, pensionistas e empresários da restauração e dilui por todos os outros a fatura necessária para pagar o acordo das Esquerdas. Sim, há outro caminho, há sempre alternativas, mas esta austeridade disfarçada, supostamente de Esquerda, não é aquela de que o país precisa, e esse é o principal problema.

 

António Costa tem toda a legitimidade para seguir uma outra estratégia económica e orçamental, diferente daquela que foi seguida pelo anterior governo e mesmo tendo em conta que aquele estava a gerir um país intervencionado. Não é isso que está em causa - tem legitimidade política e formal. É a Democracia, como é a Democracia a crítica a esse caminho, sem ter de se ouvir a acusação de traição à Pátria.

 

 

Aliás, a negociação que Costa e Mário Centeno conduziram com a Comissão Europeia prova a falácia – são tantas! – da intromissão na soberania nacional. O Governo seguiu o caminho que quis, Costa privilegiou os acordos internos à Esquerda, o apoio do BE, do PCP e dos Verdes, e foi buscar as receitas de que se lembrou para tapar o buraco. Impostos, mais de mil milhões, retirados à economia, às famílias e às empresas. Se o ‘enorme aumento de impostos’ de 2013 foi mau, e elevou a carga fiscal para um nível insuportável, o aumento de impostos em 2016 vai ultrapassar o impensável. E com uma enormíssima progressividade.

 

No total, a receita vai ultrapassar os 40 mil milhões de euros. E o peso no PIB aumenta para 37%. Como é evidente, o que entra é muito superior ao que o Governo devolve na sobretaxa de IRS, de cerca de 400 milhões de euros. É assim que promete cumprir um défice de 2,2%, depois de ter anunciado, no esboço do orçamento, um défice de 2,8%.

 

António Costa, na verdade, está a pensar em eleições no curto prazo. Só isso explica que tenha aceite impor tanta austeridade ao país para manter satisfeitos segmentos da população que decidem eleições. Os outros, os que pagam, não sentirão a austeridade diretamente na folha salarial, mas vão pagá-la, sim. E assim, Costa destruiu o seu próprio orçamento, a sua própria lógica, ao ponto de o Governo prever, agora, uma evolução do consumo das famílias a um ritmo inferior ao de 2015. Sim, 2,4% contra 2,6%.

 

O caminho de Costa é mau para todos, até para aqueles que agora beneficia. Só a Função Pública tem uma reversão acelerada dos salários, como fica protegida da mobilidade e até beneficia de melhores condições no acesso à reforma. E vão trabalhar 35 horas por semana. Além de beneficiar da redução da sobretaxa de IRS. Para não falar dos novos impostos sobre as empresas e do que fez ao IRC, uma reforma que tinha dois anos de estabilidade e que estava a provar a sua utilidade. O investimento tinha apresentado um acréscimo de 4,9% em 2015, veremos o que sucederá este ano.

 

A prazo, vamos todos pagar, também os funcionários públicos, uma estratégia que assusta os consumidores e afasta os investidores, os nacionais e os internacionais.

 

As consequências desta estratégia de Costa e Centeno, que até as medidas de incentivo ao investimento deixaram cair, serão notadas nos próximos seis meses. O Governo prevê um crescimento de 1,8% em 2016, afinal, apenas três décimas acima de 2015, o tal ano que servia para mostrar que a estratégia de Passos e da troika foi errada. Gostaria de estar errado, preferia estar errado. Porque se as expectativas se confirmarem, termos uma crise económica e financeira ainda em 2016.

 

PS: António Costa decidiu seguir os conselhos de Passos Coelho. O anterior primeiro-ministro sugeriu a emigração aos que não tinham oportunidades de emprego em Portugal, Costa sugeriu aos que ficam que fumem menos, que usem os transportes públicos e que evitem recorrer ao crédito ao consumo. Moralista, Costa ultrapassou Passos pela direita. Mas quando é que os líderes políticos perceberão que as decisões individuais de cada um são mesmo individuais, e na sua esfera de liberdade? Os políticos são eleitos para governarem, por isso, limitem-se a governar.

 

AS MINHAS ESCOLHAS

 

Ficou do fim de semana, mas não é menos importante. O Estado vai ter 50% da TAP para controlar o que já estava definido no caderno de encargos da privatização e o que era exigido ao consórcio privado, a Humberto Pedrosa e a David Neeleman. Os privados vão continuar a mandar na gestão da companhia, é bem, e o Estado vai ter de renegociar os acordos com a banca. Pedrosa e Neeleman agradecem. O país também, porque o mais importante era mesmo garantir que a gestão executiva da TAP continuasse privada, e com mais capital.

 

E, para início da semana, começa hoje o novo ano chinês, o ano do Macaco. Saiba aqui, no SAPO24, o que significa o novo ano lunar.

publicado às 11:11

O Orçamento de Estado é uma alheira

Por: Rute Sousa Vasco

 

Não é um trocadilho fácil – apesar de a tentação ser grande. Mas não é esse o móbil. Na tarde de ontem, quinta-feira, a Assembleia da República discutiu não um, mas quatro diplomas que visam defender a alheira. Não qualquer alheira, mas a alheira de Trás-os-Montes, cujo consumo tem sido afectado desde que se registaram vários casos de botulismo alimentar, no final do Verão passado. As vendas desceram e as quase 200 produtores deste sector na região têm feito ouvir a sua voz.

 

Os políticos estão preocupados, mas nem por isso a alheira consegue o tão ambicionado pacto de regime que tantos outros temas reclamam. E foi assim que durante a tarde de ontem, não uma, mas quatro propostas de intervenção sobre o tema subiram ao plenário da Assembleia da República para discussão. PSD, PS, PCP e BE esgrimiram argumentos sobre a alheira e mesmo o CDS-PP, que não trouxe uma proposta, lembrou o quanto tem sido diligente na "aposta no sector agro-alimentar como motor de crescimento económico". Ou seja, foi uma espécie de beauty contest do elogio à alheira, da esquerda à direita, passando pelo centro.

 

Das variadíssimas considerações que a discussão sobre a alheira nos poderia oferecer, há duas que vale a pena destacar.

 

Há certos temas que são uma espécie de íman para qualquer politico. A alheira - e a de Trás-os-Montes em particular - é um deles. Porquê? Porque alheira é povo, é tradição, é ruralidade, é portugalidade e, no fim do dia, é sinónimo do bom prato português acompanhado de uma bela pinga e há lá coisa mais consensual no país do que esta.

 

Claro que neste consenso há a política e cada um escolhe o seu estilo. O deputado bloquista Carlos Matias, por exemplo, falou da "identidade única e genuína" das alheiras e lembrou que este é um produto que "emergiu do engenho das populações locais” numa alusão à forma como judeus e muçulmanos usaram o consumo deste produto para fazer prova da sua integração na sociedade católica. (Caramba, até isso a alheira é, um ícone da convivência entre os povos e as religiões!)

 

A segunda nota a destacar é que a alheira é perfeita para uma espécie de “orçamento para totós” – um manual simples para quem nunca percebe o que se discute no orçamento.

 

Repare-se, por exemplo, nos items da proposta do PSD para a defesa da alheira: criação de uma linha de crédito de 30 milhões de euros para apoio de tesouraria e financiamento de investimentos que funcione durante 2016 e 2017, redução do IVA das alheiras para 6%, redução da taxa social única dos trabalhadores das empresas que produzem alheiras para 20,75%, co-financiamento do Estado a campanhas de comunicação de promoção das alheiras, majoração em 20% no âmbito de projectos apoiados por fundos do Portugal 2020 dos investimentos no sector feitos na região de Trás-os-Montes. Aqui temos uma espécie de exercício prático sobre o impacto de um Orçamento de Estado. Via a alheira.

 

E claro que há a política da alheira, tão intensa quanto têm sido os debates entre o actual Governo e a actual oposição. Os socialistas não deixaram por isso de lembrar a demagogia dos sociais democratas vertida neste pacto da alheira, nomeadamente quando foi o PSD que subiu o IVA da restauração para o seu valor recorde de 23% - sim, claro que se falou do IVA da restauração, o que apenas reforça a versatilidade da alheira enquanto ícone do orçamento e da política à portuguesa.

 

A sessão parlamentar de ontem deveria ter acabado com uma degustação da alheira. Infelizmente acabou por não acontecer. O que talvez explique porque persistem divergências políticas fracturantes na forma como os partidos com assento parlamentar encaram o tema. Todos sabemos que nada resolve melhor as nossas diferenças do que uma boa mesa. Se resultasse com a alheira, seria provavelmente uma fórmula de futuro – contemplando nesse pacto de regime uma solução vegetariana para o deputado André Silva, do PAN, o único que se pronunciou contra qualquer uma das vias políticas na defesa da alheira.

 

Tenham um bom fim-de-semana e, se possível, petisquem uma bela alheira, que é como quem diz, façam política activa.

 

Outras leituras

 

Muita tinta vai correr este ano sobre startups, empreendedorismo, inovação à boleia da Web Summit. Paddy Cosgrave, fundador da Web Summit, não tem deixado os seus créditos por mãos alheias e as suas visitas a Lisboa já são um happening na comunidade de novas empresas. Ele diz que a Web Summit é apenas a cereja no topo do bolo e esperamos todos que esteja certo. 

 

E já que se fala de empreendedorismo, vale a pena ler este artigo do El Pais. Fala de unicórnios e gatos persas, e sim, é sobre as novas formas de fazer empresas e de criar riqueza.

publicado às 09:13

Isso? Já tentámos e não resultou

Por: Paulo Ferreira

 A nossa cultura de despesa, défice e dívida é tão sólida e está-nos tão entranhada que consideramos indigno que alguém nos diga para fazermos aquilo que, à partida, devia partir das nossas instituições, dos nossos governos, de uma generalizada vontade popular: não gastar mais do que se recebe. 

  

“Governo corta mais, Bruxelas diz que não chega”, “Bruxelas pressiona. ‘Mais medidas’ e ‘bom senso’”, “Bruxelas pede medidas adicionais a Portugal”. Nos últimos dois dias os títulos sobre a elaboração do Orçamento do Estado têm andado por aqui. Bruxelas pressiona, Bruxelas exige, Bruxelas pede.

 

Não se sabe como é que esta sessão de “esclarecimento” que o Governo português tem estado a prestar à Comissão Europeia vai terminar. Para já, as mesmas notícias dizem que o “esclarecimento” já vai num aumento dos impostos do selo, dos combustíveis, dos automóveis, das empresas, da banca e do tabaco. Ainda bem que Bruxelas só pediu um esclarecimento. Mau seria que se tratasse da exigência de medidas adicionais para baixar o défice mais do que o esboço de Orçamento previa.

 

O processo não é novo. Durante os quatro anos da troika isto foi uma constante. E se não aconteceu antes, desde os primórdios da nossa participação no euro, foi porque as regras então em vigor não o previam.

 

O que é que isto tem de perverso? Não é a “ingerência”, a “falta de soberania” ou a alegada “chantagem” da Europa. Estamos lá porque quisemos e queremos e porque ganhámos e ganhamos com isso. A perversidade está na nossa absoluta falta de vontade para, de forma voluntária e porque isso é o melhor para nós, equilibrarmos as nossas contas e baixarmos a nossa dívida.

 

Fazer e manter orçamentos equilibrados é um princípio básico de responsabilidade em qualquer lado, ainda que pontual e conscientemente possa haver momentos em que se gasta mais do que se recebe. Mas essas devem ser excepções e não a regra. No Estado e nas empresas, nas instituições e nas famílias.

 

A nossa cultura de despesa, défice e dívida é tão sólida e está-nos tão entranhada que consideramos indigno que alguém nos venha dizer para fazermos aquilo que, à partida, devia partir das nossas instituições, dos nossos governos, de uma generalizada vontade popular.

 

Mas não. Nunca, nem nos momentos das mais gordas vacas gordas conseguimos aproximar-nos durante um mês que fosse desta coisa simples: o Estado gastar apenas tanto quanto cobra de impostos. Ainda que os impostos sejam estratosféricos, como agora acontece, encontramos sempre modo de gastar mais, de fazer défices.

 

Podemos indignar-nos porque a austeridade da troika foi excessiva, cega, recessiva, injusta para muitos. Tudo isso pode ser verdade.

 

Mas o que é que fizemos por nós próprios desde o início dos anos 90? Onde aplicámos as dezenas e milhares de milhões que chegaram de fundos comunitários - pagos pelos contribuintes dos países mais ricos, é bom não esquecer? Onde derretemos a enorme folga orçamental dada pela descida dos juros na segunda metade dessa década, quando os mercados começaram a acreditar que podíamos entrar no euro? E as carradas de dinheiro recebidas pelo Estado com as privatizações nos últimos 30 anos?

 

Isso não nos indigna? Os nossos erros colectivos não nos envergonham? A continuada irresponsabilidade orçamental dos que elegemos para governar não aconteceu? Não fomos nós, no pleno uso da nossa soberania, que criámos o “monstro” que agora não conseguimos sustentar? Alguém nos obrigou a gastar ao ponto de em três décadas e meia precisarmos de três resgates para nos tirar da bancarota?

 

Temos que ter a noção que se alguém falhou fomos nós, antes de mais ninguém. Nós, colectivamente, país independente dotado de instituições, com sectores público e privado, classe política e sociedade civil.

 

Podíamos ter feito de maneira diferente, mas por falta de vontade ou capacidade não conseguimos. Apesar dos avanços nas últimas quatro décadas - o Portugal de 2016 é muito melhor do que o de 1973, apesar do aperto destes dias - temos uma economia pouco produtiva, instituições fracas, uma cultura pouco dada à responsabilidade financeira e orçamental e essa crença entranhada de que podemos gastar à tripa forra porque isso é bom para a economia e garante a nossa prosperidade futura.

 

Não garante, como se vê.

 

Diz agora o novo governo, e muitos o acompanham nisso, que é preciso mudar de política: vamos dar dinheiro às pessoas para elas gastarem e fazer crescer a economia; quanto ao défice, vamos baixá-lo mais devagarinho e mesmo assim só para os “talibãs” de Bruxelas não nos incomodarem demasiado. Mas que óptima ideia. Como é que nunca ninguém se tinha lembrado de tal coisa? Esperem, se calhar já nos tínhamos lembrado e praticado isso. Pois já. Aliás, durante grande parte das útlimas três décadas os governos não fizeram outra coisa senão atirar dinheiro para cima da economia para ver se ela crescia, se se desenvolvia de forma sustentada. Ela cresceu nalguns anos mas depois estagnou, apesar do dinheiro dos contribuintes que continuavam a atirar-lhe para cima.

 

Aqui chegados, já tentámos tudo. Ou quase.

Aumentos de rendimentos sem regra nos sectores público e privado? Já tentámos.

Aumento de subsídios e prestações sociais? Já tentámos.

Corte cego de rendimentos e prestações sociais? Já tentámos.

Nacionalização de bancos falidos? Já tentámos.

Encerramento de bancos falidos? Já tentámos.

Investimento público em betão? Já tentámos.

Corte no investimento público? Já tentámos.

Incentivos ao investimento estrangeiro? Já tentámos.

Choque tecnológico? Já tentámos.

Brutais aumentos de impostos? Já tentámos.

Auto-estradas sem portagens? Já tentámos?

Portagens nas auto-estradas que não as tinham? Já tentámos.

A lista podia seguir.

 

Uma coisa ainda não tentámos com pés e cabeça: dimensionar o Estado a um nível que a economia e os contribuintes possam pagar, permitindo uma descida de impostos para que empresas e particulares não trabalhem maioritariamente para pagar impostos.

 

Ainda não é desta que isso vai acontecer. De quantos resgates precisamos para lá chegar é a questão que sobra. Porque isso vai acontecer. A bem ou a mal.

 

OUTRAS LEITURAS 

  • Por falar em falhanço nas políticas, cá está mais uma à vista. Vamos descer o IVA na restauração mas isso não resolve os problemas do sector, como diz este estudo. E os empresários juram a pés juntos que vão contratar mais pessoas se o IVA baixar, mas temos o volume de negócios mais baixo por empregado da Europa. Faz tudo muito sentido…

  • Não só devíamos saber o custo como saber todos os que recebem a subvenção vitalícia. Não há qualquer razão para que essa informação não seja pública.

 

publicado às 09:17

O embuste da (falta de) soberania

Por: António Costa

 

António Costa vai entrar na primeira semana do resto da sua vida política como primeiro-ministro, vai tentar convencer Bruxelas – e as agências de rating e os organismos nacionais – da bondade de uma estratégia económica e financeira que tem tudo para correr mal. E ao mesmo tempo recupera – ou deixa que recuperem - o embuste da ‘soberania’, como se fosse isso que estivesse em causa. Não é, antes fosse, porque isso seria muito fácil de resolver.

 

 

É sempre assim. Quando um país não cumpre as suas obrigações, aquelas a que se comprometeu livremente, começa a arranjar bodes expiatórios, culpados, a apontar o dedo a terceiros. Na história da Europa comunitária, são tantos os casos que já se perderam na memória do tempo. Mais recentemente, na zona euro, sempre que um país entrou em risco de falência e em incumprimento, pediu ajuda externa, financiamento e, claro, com isso, chegou um plano de ajustamento difícil para as populações desses países. É neste contexto que surge a ideia de ‘invasão estrangeira’, desrespeito pelos cidadãos que elegem os governos, tecnocracia, ataques à ausência de soberania.

 

 

O equilíbrio entre os governos em funções, os eleitores e os financiadores é sempre difícil, muitas vezes no fio da navalha. E no caso de uma Europa política que tem tantas fragilidades, e muito a fazer se quiser sobreviver ao seu próprio sucesso, ainda mais. É por isso que é fácil misturar, deliberadamente, e de forma populista, os problemas graves de construção de um projeto europeu com ataques às soberanias dos Estados. Há erros da tecnocracia europeia na gestão das crises, sim, sobretudo lentidão nas respostas, sobretudo quando se percebe que é necessário corrigir decisões. Mas há responsabilidades enormes dos Estados, de cada um, considerado individualmente. Veja-se o caso da Grécia: falhou do ponto de vista económico, após sucessivos pacotes de ajuda internacional de centenas de milhar de milhões de euros. À crise económica, juntou-se a crise dos refugiados, que atinge a Grécia mais do que qualquer outro país do euro. E, aqui, os nacionalismos, os excessos de soberania estão a sobrepor-se aos interesses comunitários, aos interesses comuns para manter o passo de um projeto comum, o do euro. A tempestade perfeita.

 

 

Portugal – como os outros países – beneficiou durante anos de pertencer a um projeto comum, a viver debaixo do guarda-chuva europeu e das suas instituições. Claro, como os alunos ‘espertos’, aproveitou todas as boleias, mas pouco fez para saber andar sozinho. E de crise em crise, Portugal foi vivendo, e corrigindo os seus desequilíbrios à força, sobretudo o da balança externa.

 

 

Sim, sabemos o que se passou no passado, especialmente desde o ano de 1995, com a chegada dos governos de Guterres, da austeridade necessária para voltar a cumprir as regras, dos erros cometidos no programa da troika. E o que teríamos de passar se não estivéssemos no euro? A albanização do país. Sabemos disso tudo, António Costa também. E o primeiro-ministro sabe qual é o enquadramento e as metas financeiras a atingir. Mesmo assim, apresenta um orçamento que não cumpre esses objetivos e, depois, claro, o que está em causa é a soberania. Não é. Há muito a fazer na União Europeia, sim, mas haverá sempre mais se os governos responsabilizarem a Europa por aquilo de que ela não é responsável.

 

 

Ninguém na Europa impede António Costa de fazer escolhas, de puxar mais pelo consumo ou pelas exportações, pelo corte de despesa ou aumento de receita. Costa tem de cumprir uma redução do défice global e do défice estrutural, corrigido dos efeitos de medidas temporárias e do ciclo económico. O que faz? Apresenta um orçamento com pressupostos que tornam difícil cumprir a redução do défice global para 2,6% e ‘inventa’ uma contabilização de medidas estruturais como se fossem extraordinárias que permitiria reduzir o défice estrutural em 0,2%. A Comissão Europeia torce o nariz – o menos mau do que pode fazer já esta semana - e o que se discute não é o orçamento, mas a ingerência externa nas decisões do Governo, a soberania. E, ao mesmo tempo, ouvem-se as vozes de Catarina Martins e de Jerónimo de Sousa a brandir a bandeira nacional contra os invasores. Está certo!

 

 

António Costa, como Tsipras, sabe que a partilha de soberania no quadro europeu é melhor, mais vantajosa, do que a independência. Ainda, pelo menos. Podemos sempre abrir essa discussão, talvez fosse a melhor forma de acabar de vez com a estratégia fácil de resolvermos os nossos problemas com a falta de soberania.

 

 

As escolhas

 

 

O setor financeiro tem sido notícia, e não pelas melhores razões. Hoje ao fim da tarde, o presidente do Millennium bcp vai apresentar os resultados de 2015 e, segundo todas as indicações, apresentará lucros pela primeira vez em cinco anos.

 

E a partir de hoje, o NIB morreu, viva o IBAN, na verdade, é o NIB precedido de um código do país. É o international bank account number (IBAN).

 

Finalmente, Zika, o maldito. Afinal, onde nasceu este vírus, transmitido por mosquitos? No SAPO24, conheça a história do Zika, um nome de floresta. Uma viagem às origens do vírus, no Uganda.

 

Boa semana.

publicado às 10:09

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