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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Os políticos são todos iguais e as empresas são parolas e chico-espertas (algumas delas)

Por: Rute Sousa Vasco

 

Joaquim Pina Moura. Joaquim Ferreira do Amaral. Jorge Coelho. José Luís Arnaut. Mário Lino. Miguel Cadilhe. Manuel Pinho. Miguel Beleza. António Mexia. Luís Campos e Cunha. Sérgio Monteiro. E agora Maria Luís Albuquerque.

 

Vamos brincar às diferenças? Consegue encontrá-las neste lote de políticos que, depois de funções governamentais, assumiram cargos de liderança em empresas do sector privado? Ou em fundações. Ou em empresas tuteladas pelo Estado.

 

Vale a pena jogar este jogo por várias razões. A primeira porque, mais do que nunca, vale a pena gastar energias a debater a mítica frase “os políticos são todos iguais”. Se nada fizermos quanto a isso, podemos esperar na volta do correio mais Trumps, porque aquelas coisas não acontecem só na América.

 

A segunda porque, efectivamente, os casos não são todos iguais. Iniciei este artigo com uma pequena amostra de nomes mediáticos mas, até nesta amostra, existem diferentes níveis de competência e de desfaçatez – e isso faz diferença quando se analisam teias de interesse entre funções públicas e empregos privados.

 

A terceira razão é, provavelmente, a mais difícil de avaliar sem paixões da alma e decorre das outras duas. À vista desarmada parece tudo a mesma coisa – são todos políticos que depois de estarem no Governo foram convidados para lugares de referência, muito bem pagos, no sector privado ou em instituições na esfera de influência do Estado. Todo e qualquer argumento usado para dizer “ah não, mas neste caso é diferente” escorrega em terreno pantanoso. E até as tentativas de ‘normalização’ são um exercício penoso quando se juntam nomes e cargos.

 

Uma das ditas tentativas de normalização tem sido, por exemplo, legislar a favor do impedimento de ex-governantes assumirem funções em empresas que tutelaram durante um determinado período de tempo.

 

Em teoria, pode resolver. Na prática, vemos, por exemplo, que um ministro como Mário Lino, que ocupou a pasta das Obras Públicas, aceitou, depois da sua saída do governo socialista em 2011, o lugar de presidente do Conselho Fiscal das seguradoras do grupo Caixa Geral de Depósitos. Ora, Lino é um engenheiro civil que nunca teve qualquer experiência na banca. Teoricamente está tudo bem – a Caixa não é uma empresa que tutelasse, pelo menos directamente. Na prática, isto não desfaz as dúvidas sobre as razões de tal contratação.

 

O inverso também é verdade. Luís Campos e Cunha, por exemplo, saiu de ministro das Finanças para o Banif. Tem reconhecida competência na área, mas a banca é um sector na esfera das Finanças, o que deveria inibir tal contratação. Sendo que o seu mandato como ministro foi curto e sem especial impacto ou ligação ao Banif.

 

Há ainda quem fale do tempo de nojo que permitiria sanar qualquer dúvida. À partida faria sentido, mas basta recordar a contratação do ex-ministro Joaquim Ferreira do Amaral para presidente da Lusoponte, dez anos depois de ter sido o ministro que assinou a concessão da Ponte Vasco da Gama à mesma empresa, para percebermos que o tempo não traz nenhum manto diáfano de pureza.

 

E chegamos agora ao dito caso Maria Luís Albuquerque, a ex-ministra das Finanças de Pedro Passos Coelho, actual deputada eleita pelo PSD e ontem anunciada como administradora não-executiva de uma empresa especializada em gestão de crédito com clientes como o Banif, o Millennium BCP e o Montepio. Bancos tutelados por Maria Luís Albuquerque até há três meses, quando era ministra das Finanças.

 

A julgar pelas palavras da ex-ministra e actual deputada – que afirmou não ver qualquer incompatibilidade ou impedimento legal – é perfeitamente pacífico, no seu entender, sentar-se à mesa do comité de risco e auditoria do seu novo empregador aos dias ímpares, e na bancada do hemiciclo, aos dias pares. Tão pacífico e compatível como será nuns dias colaborar em decisões para que uma empresa saque a qualquer custo os créditos que comprou aos endividados e aflitos (é isso que empresas como os novos patrões de Maria Albuquerque fazem) e noutros assumir a defesa dos portugueses, nomeadamente batalhando enquanto deputada para que sejam defendidos de empresas de rapina à mercê da qual todas as economias têm andado a reboque (isto talvez não esteja inscrito no programa do PSD, se bem que no novo caminho da social-democracia deveria estar).

 

Estou certa, embora já não recorde os termos em que outros como Maria Luís Albuquerque terão jurado que nada, mas nada mesmo, tem a ver. Quando Manuel Pinho foi convidado para dar aulas na School of International and Public Affairs (SIPA) da Universidade Columbia, muitos jornais deram apenas conta do facto. Mas também houve quem se lembrasse que esta foi a mesma universidade que recebeu da EDP cerca de 3 milhões de euros. EDP, que foi a empresa com a qual Manuel Pinho fez a cruzada das energias renováveis durante o seu mandato. Pode ser uma coincidência. Pode. Os processos de intenção são maliciosos. Sempre ou quase sempre.

 

Qual é então a solução? Há alguma hipótese de voltarmos a acreditar na política e nos políticos? Ou tudo isto é uma batalha perdida?

 

Os comentários nos jornais online podem ser um espaço pouco recomendável, mas são um belíssimo termómetro da nação. Uma consulta a três ou quatro sites, com linhas editoriais distintas e com comunidades de leitores também diferenciadas, confirma o senso comum. Há quem ache que isto é só inveja e que assim não conseguimos ter os melhores na política. Há quem ache que é uma vergonha (e aqui esgrime-se a gritaria se é mais vergonha da direita ou da esquerda). E há quem timidamente tente falar de ética e bom senso.

 

Podemos – e devemos – legislar limitações legais adicionais ao exercício de cargos, públicos ou privados, em empresas na esfera de ex-governantes ou actuais deputados. Podemos – e devemos – discutir os ordenados dos políticos. Podemos – e devemos – batalhar por novas ferramentas de transparência entre a política e as empresas.

 

Mas, se calhar, também podemos tentar vencer noutra frente. Muitas destas contratações são perigosas e letais. Decorrem de jogos de interesses e de influências que nada de bom podem trazer ao país. Compram informações privilegiadas, agendas de contactos, acessos privilegiados a determinados centros de poder.

 

Mas são, muitas vezes também, actos de parolismo e chico-espertismo de empresas que não se importam de pagar milhares de euros por mês a um ex-governante para dizer que têm um ministro ou um deputado no conselho de administração.

 

O ridículo mata, sabem? E mata mais depressa esses vícios parolos se, tanto no sector privado, como no público, tivermos cada vez mais profissionais pagos pelo que sabem e pelo que fazem. E na política, políticos que percebem que, ao aceitar essas funções, deixam de ser pessoas como as outras.

 

Outras sugestões

 

O El País conseguiu afirmar-se como uma das marcas mundiais de jornalismo. É obra, só por si, mas mais do que de passado, é de futuro que o jornal fala. E é por isso que vale a pena ler a carta que o director do jornal, Antonio Caño, publicou ontem.

 

E porque o futuro acontece rápido, aqui está uma boa história sobre a rede que os teenagers não dispensam e os pais não percebem (basta dizer que uma das recentes inovações é uma ferramenta que transforma uma selfie normal e desinteressante numa selfie a vomitar um arco-íris... giro, hem?)

 

Tenham um bom fim de semana.

publicado às 11:12

Impostos: Você é concorrente. Venha daí jogar

Por: Rute Sousa Vasco

 

Não sou fã de concursos, nunca acreditei na sorte ao jogo e talvez por isso não senti qualquer emoção forte quando, a 6 de fevereiro de 2014, o Governo de Passos Coelho aprovou a criação de um sorteio chamado “Fatura da Sorte” com a finalidade de “valorizar e premiar a cidadania fiscal dos contribuintes”.

 

Mais tarde, nesse mesmo dia, o então ministro da Presidência, Luís Marques Guedes, anunciou que o sorteio fiscal iria ser televisionado e iria ter como prémio um automóvel.

 

Nesta altura, além do meu descrédito no jogo, recordo ter ficado um bocadinho mais amarrotada no meu orgulho enquanto cidadã de um Estado que gere a sua cidadania fiscal na base do jogo, da sorte e da televisão.

 

A verdade é que quem sabe, sabe. Um prémio que passa por juntar cupões por cada dez euros de facturas pedidas e que, no final, promete um carro de topo de gama tocou fundo aos portugueses. É a versão sorte aos impostos no campeonato da sorte ao jogo. E o afã com que, a partir dessa data, vi os cidadãos-contribuintes em cafés, mercearias, cabeleireiros – esses grandes evasores fiscais, com dinheiro nas mais conceituadas off-shores – a solicitar uma factura por aquelas transação de 0,60 cêntimos provou-me que não percebo nada dessa alavanca que move o sentimento de cidadania do povo. Afinal todos queremos ser excêntricos e custa tão pouco, basta uma factura e quem sabe até vou de carrinho dali a uns dias.

 

Parece que não é uma atitude lá muito europeia, mas também, caramba, se não devemos ser carneiros da Europa para umas coisas, também podemos manter as nossas idiossinacrasias noutras. Segundo um estudo da consultora PricewaterhouseCoopers (PwC), divulgado em Abril de 2014, na zona euro apenas a Eslováquia contava também com um sorteio fiscal para estimular a cidadania, atribuindo prémios em dinheiro e automóveis. E com resultados motivadores para os cofres do Estado: nos dois primeiros meses da lotaria, a Eslováquia tinha arrecadado receitas adicionais de IVA na ordem dos 130 milhões. Fora da zona euro, outros países como o Brasil, a Argentina, a Colômbia, Porto Rico ou Taiwan adoptaram soluções idênticas à “Fatura da Sorte” de Portugal.

 

Por cá, segundo dados do ex-secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, citado pelo DN em dezembro do ano passado, a coisa também correu bem. Entre 2013 e 2014, o número de faturas comunicadas ao fisco aumentou 12,3% (passando de 4,28 mil milhões para 4,80 mil milhões) e as faturas com NIF (as relevantes para o sorteio) subiram 36,3 %, ultrapassando 635 milhões.

 

No princípio, a Quercus ainda disse que não era uma medida lá muito sustentável sortear carros de alta cilindrada. E o secretário-geral da Deco criticou um sorteio que considerou uma “versão pimba” do Ministério das Finanças, ou, nas palavras do bastonário da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas (OTOC), uma “visão folclórica” pouco dignificante do acto tributário.

 

Quase 100 carros sorteados depois, os factos ficaram à vista: os portugueses são concorrentes ao grande jogo dos impostos e gostam.

 

Até que esta semana aconteceram duas coisas.

 

O portal E-Fatura onde se validam as facturas registadas soluçou por vários dias e bloqueou na recta final do prazo para validação das facturas de 2015. Depois de umas respostas engasgadas e de muita indignação, o Governo anunciou que prolongava o prazo até dia 22 de fevereiro. E, na mesma semana, foi confirmada a substituição dos carros de topo de gama por certificados de aforro. O valor é o mesmo, o aparato é que não.

 

Destas duas ocorrências, ligadas entre si no espírito de cidadania fiscal, há algumas coisas que dão que pensar.

 

A primeira é que os incentivos começam por definir o tipo de políticos que temos mas, no fim do dia, retratam sempre o povo que estes mesmos políticos servem. E explicam muito da perpetuação de tantos vícios e dogmas da governação em Portugal.

 

A segunda é que quando aceitamos ser contribuintes-jogadores, não podemos mudar as regras quando a consola encrava. É aguentar, como dizia alguém, até voltar a jogar.

 

Para mim, que não gosto de sorteios e não acredito em jogos de sorte e azar, resume-se assim: nem jogadores, nem soldados à força do grande exército fiscal. Basta ir ver o Bruno Nogueira e a Manuela Azevedo no espectáculo “Deixem o Pimba em paz” para perceber que o pimba pode ter muita pinta, ser digno e encher salas. A cidadania também.

 

Tenham um bom fim de semana.

 

Sugestões de leitura

 

Agora que estamos oficialmente em contagem decrescente para os Óscares, o Netflix teima em não nos dar sossego. Este Love é mais uma razão para ficar em casa.

 

É um artigo longo do escritor e ex-ministro da Cultura espanhol, César Antonio Molina, mas vale a leitura. É sobre a esperança.

publicado às 11:04

O Orçamento de Estado é uma alheira

Por: Rute Sousa Vasco

 

Não é um trocadilho fácil – apesar de a tentação ser grande. Mas não é esse o móbil. Na tarde de ontem, quinta-feira, a Assembleia da República discutiu não um, mas quatro diplomas que visam defender a alheira. Não qualquer alheira, mas a alheira de Trás-os-Montes, cujo consumo tem sido afectado desde que se registaram vários casos de botulismo alimentar, no final do Verão passado. As vendas desceram e as quase 200 produtores deste sector na região têm feito ouvir a sua voz.

 

Os políticos estão preocupados, mas nem por isso a alheira consegue o tão ambicionado pacto de regime que tantos outros temas reclamam. E foi assim que durante a tarde de ontem, não uma, mas quatro propostas de intervenção sobre o tema subiram ao plenário da Assembleia da República para discussão. PSD, PS, PCP e BE esgrimiram argumentos sobre a alheira e mesmo o CDS-PP, que não trouxe uma proposta, lembrou o quanto tem sido diligente na "aposta no sector agro-alimentar como motor de crescimento económico". Ou seja, foi uma espécie de beauty contest do elogio à alheira, da esquerda à direita, passando pelo centro.

 

Das variadíssimas considerações que a discussão sobre a alheira nos poderia oferecer, há duas que vale a pena destacar.

 

Há certos temas que são uma espécie de íman para qualquer politico. A alheira - e a de Trás-os-Montes em particular - é um deles. Porquê? Porque alheira é povo, é tradição, é ruralidade, é portugalidade e, no fim do dia, é sinónimo do bom prato português acompanhado de uma bela pinga e há lá coisa mais consensual no país do que esta.

 

Claro que neste consenso há a política e cada um escolhe o seu estilo. O deputado bloquista Carlos Matias, por exemplo, falou da "identidade única e genuína" das alheiras e lembrou que este é um produto que "emergiu do engenho das populações locais” numa alusão à forma como judeus e muçulmanos usaram o consumo deste produto para fazer prova da sua integração na sociedade católica. (Caramba, até isso a alheira é, um ícone da convivência entre os povos e as religiões!)

 

A segunda nota a destacar é que a alheira é perfeita para uma espécie de “orçamento para totós” – um manual simples para quem nunca percebe o que se discute no orçamento.

 

Repare-se, por exemplo, nos items da proposta do PSD para a defesa da alheira: criação de uma linha de crédito de 30 milhões de euros para apoio de tesouraria e financiamento de investimentos que funcione durante 2016 e 2017, redução do IVA das alheiras para 6%, redução da taxa social única dos trabalhadores das empresas que produzem alheiras para 20,75%, co-financiamento do Estado a campanhas de comunicação de promoção das alheiras, majoração em 20% no âmbito de projectos apoiados por fundos do Portugal 2020 dos investimentos no sector feitos na região de Trás-os-Montes. Aqui temos uma espécie de exercício prático sobre o impacto de um Orçamento de Estado. Via a alheira.

 

E claro que há a política da alheira, tão intensa quanto têm sido os debates entre o actual Governo e a actual oposição. Os socialistas não deixaram por isso de lembrar a demagogia dos sociais democratas vertida neste pacto da alheira, nomeadamente quando foi o PSD que subiu o IVA da restauração para o seu valor recorde de 23% - sim, claro que se falou do IVA da restauração, o que apenas reforça a versatilidade da alheira enquanto ícone do orçamento e da política à portuguesa.

 

A sessão parlamentar de ontem deveria ter acabado com uma degustação da alheira. Infelizmente acabou por não acontecer. O que talvez explique porque persistem divergências políticas fracturantes na forma como os partidos com assento parlamentar encaram o tema. Todos sabemos que nada resolve melhor as nossas diferenças do que uma boa mesa. Se resultasse com a alheira, seria provavelmente uma fórmula de futuro – contemplando nesse pacto de regime uma solução vegetariana para o deputado André Silva, do PAN, o único que se pronunciou contra qualquer uma das vias políticas na defesa da alheira.

 

Tenham um bom fim-de-semana e, se possível, petisquem uma bela alheira, que é como quem diz, façam política activa.

 

Outras leituras

 

Muita tinta vai correr este ano sobre startups, empreendedorismo, inovação à boleia da Web Summit. Paddy Cosgrave, fundador da Web Summit, não tem deixado os seus créditos por mãos alheias e as suas visitas a Lisboa já são um happening na comunidade de novas empresas. Ele diz que a Web Summit é apenas a cereja no topo do bolo e esperamos todos que esteja certo. 

 

E já que se fala de empreendedorismo, vale a pena ler este artigo do El Pais. Fala de unicórnios e gatos persas, e sim, é sobre as novas formas de fazer empresas e de criar riqueza.

publicado às 09:13

Se ao menos estivesse nu

Por: Rute Sousa Vasco

 

É uma grande sorte ou um enorme azar, é o que vos digo. Vários problemas da humanidade podiam resolver-se assim num piscar de olhos. Se pelo menos as estátuas, como a pintura e outras representações artísticas, colaborassem. Há que pôr esta gente na ordem. Mas vamos por partes.

 

Cecil Rhodes foi um grande imperialista, capitalista e, na pior acepção do ponto de vista dos próprios, africanista. Nasceu em Inglaterra, mas foi no continente africano que se tornou rico, tendo fundado a companhia de diamantes De Beers e também fundado, se assim se pode dizer, a região denominada então como Rodésia, hoje Zimbabwe e Zâmbia. Rhodes era um imperialista convicto e mais do que convencido dos méritos da raça branca, viveu profundamente embebido da superioridade da nação britânica. É dele a frase que “se se nasceu inglês, ganhou-se o primeiro prémio na lotaria da vida”.

 

Escusado será dizer que, com estes atributos, Cecil não é propriamente visto com ternura pelos africanos contemporâneos (e provavelmente ainda menos por aqueles com quem dividiu os seus dias). Mas, a sua visão da Grande Bretanha e a sua vontade de perdurar na História, levou-o a instituir a bolsa de estudo Rhodes, tida como a primeira a permitir um programa de estudos internacional (naturalmente, destinado àqueles que viviam nos territórios de lei britânica ou então oriundos da Alemanha).

 

Rhodes morreu em 1902 e em 1904 os administradores da sua fortuna fundaram também, cumprindo instruções suas, a Universidade de Rhodes, em Grahamstown, na África do Sul. A sua influência perdurou ao longo do século XX e de 1910 a 1984, a casa em que viveu na Cidade do Cabo foi a mesma que serviu de residência oficial aos primeiros-ministros sul-africanos, dando tecto a nomes como P. W. Botha e Frederik De Klerk.

 

E a aura do imperialista lá se foi perpetuando no tempo, como tinha ambicionado. Nos anos 50, com os temas raciais a começarem a marcar a atualidade, a estátua de Rhodes no campus da Universidade da Cidade do Cabo começou a ser questionada pelos estudantes. Não obtiveram sucesso e seguiram-se mais de duas décadas de apartheid.

 

Até que, no ano passado, ganhou forma o movimento Rhodes Must Fall, que em inglês até soa poético, mas que na realidade não é mais que um pragmático Rhodes tem de vir abaixo (ou simplesmente cair). E na era global, o protesto não se ficou pela África do Sul e atravessou continentes. Cumpriu o sonho do grande britânico e estourou em Oxford, na pátria-mãe onde, no Oriel College também se ergue um empedernido Rhodes. O argumento dos estudantes é simples: Rhodes é o Hitler de África (e temos de convir que parecenças físicas até existem, mas também era aquele estilo fim de século XIX que Adolf herdou). E ninguém quereria uma estátua de homenagem ao Hitler. O chanceler de Oxford não concorda e garante que não é apenas pelos 100 milhões de libras do Fundo Rhodes que a universidade perderia. Recomenda aos estudantes que vão estudar noutro sítio, se não conseguem ter liberdade de pensamento.

Tudo isto era facilmente resolvível com três premissas apenas: que a visita do líder iraniano à Europa incluísse Oxford, que os governantes ingleses estivessem nos antípodas do imperialismo do homem da estátua e, claro, que Cecil Rhodes estivesse nu. Isso, na realidade, é que resolvia praticamente tudo.

 

Tenham um bom fim de semana!

 

Depois da arte, os números. Alguns que fazem pensar:

 

O Facebook encerrou o ano de 2015 com um aumento de 44% nas receitas, totalizando 16,4 mil milhões de euros. Um número que resulta sobretudo da subida do valor embolsado com a publicidade. O quarto trimestre do ano passado foi mesmo o melhor de sempre. Há dinheiro para publicidade em media, só que não é bem para gastar em media.

 

E na semana em que soubemos que o IVA da restauração vai mesmo baixar para as refeições, ficamos também a saber que afinal de contas, mesmo sem um empurrãozinho dos impostos, os portugueses já estavam a regressar aos restaurantes e a deixar de lado a marmita. Os dados mais recentes da Kantar Worldpanel, empresa de estudos de mercado, revelam que o número de ocasiões de consumo dentro de casa (ou seja, os momentos em que confeccionamos e comemos alimentos) passou de 21 para 19. 

 

E agora, num país em permanente crise de lideranças, uma notícia que nos pode animar para efeitos futuros. Portugal é o 4.º país do mundo com mais qualidade nas escolas de negócios, revela o índice global da Competitividade e Talento. Este é o sector em que Portugal surge mais bem classificado neste relatório, que avalia 109 países, que representam 83% da população mundial e 96% do PIB do planeta. Pode ser que se traduza num país melhor, globalmente falando.

publicado às 10:26

A vitória da trampa. Ou deixem que vos entretenham

Por: Rute Sousa Vasco

 

Em julho deste ano, o site de informação americano Huffington Post anunciou que, daí para a frente, passaria a integrar a informação sobre a campanha de Donald Trump na secção de entretenimento em vez da secção de política. Esta semana,Trump escolheu como uma das suas bojardas a proposta (?) para que fosse inibida a entrada a todo e qualquer muçulmano nos Estados Unidos e o Huffinfgton Post mudou de ideias.

 

Numa nota editorial, Arianna Huffington, fundadora do site, explicou o porquê da mudança. Em julho, assumiram a cobertura da campanha de Trump como mero entretenimento, porque consideraram, pelos seus actos, que não era realmente a sério. Ou seja, que ele não queria realmente governar os Estados Unidos com aquelas propostas – apenas queria fazer show off.

 

A escalada verbal do candidato a candidato republicano fez com que o Huffington Post mudasse de ideias. Continua a ser uma campanha virada para o espectáculo, mas o espectáculo tornou-se perigoso. Diz Arianna: “Acreditamos que a forma como cobrimos a campanha deve reflectir esta mudança. E parte disso implica não deixarmos nunca de lembrar à nossa audiência quem é Trump e o que a sua campanha representa”.

 

Em Portugal somos, ao invés do que acontece nos Estados Unidos, muito sensíveis à tomada de posição pelos media. E a forma como olhamos para as pessoas com opinião é uma especíe de idiossincrasia nacional. Temos que os amar ou odiar – na maior parte dos casos é difícil simplesmente ouvir e depois pensar pela nossa cabeça. A soma disto à condição económica de país pobre, de dinheiro e tantas vezes de espírito, faz com que os jornais sejam mais pardos que transparentes na defesa das suas opções e, sobretudo, que subsista um temor em tomar partido.

 

É também por isso que a tribo dos comentadores cresce e multiplica-se. Um comentador é alguém de fora a quem se paga (ou não) para tomar partido e dizer porquê. Com sorte, e muito tempo para redes sociais, cai no goto da audiência. Se o pior azar acontecer – o dito comentador dizer ou fazer algo francamente estúpido e condenável–, quem o convida pode sempre demarcar-se e dizer que nada teve a ver com isso. E é também assim que nascem os nossos fenómenos de mediatismo: a América tem Donald Trump, nós temos Pedro Arroja.

 

Isto devia ser o que verdadeiramente nos preocupa. Uma espécie de mal para o qual não se antevê fim. Somos hoje uma espécie de sociedade de drogados em estupidez. Se é estúpido e ganhou forma de ‘conteúdo’, tem uma grande probabibilidade de ser um sucesso. As redacções disputam entre si a primazia na divulgação da estupidez, porque tudo é decidido a partir dos backoffices onde aprendizes de jornalistas foram enfiados a olhar para cliques. E, claro, se um link tem muitos cliques – é porque está a correr bem.

 

Não, não está a correr nada bem. E, lamentavelmente, usando uma frase do grande manipulador Frank Underwood, isto não é ‘bad for the greater good’. Isto é só mau sem que se aviste um bem maior. É mau em qualquer parte do globo, mas é muito pior nesta parte do globo que habitamos – porque é mais pequena e hoje a indústria das notícias, como outras, só tem viabilidade em doses XL. Nos Estados Unidos, como cá, a trampa é quem manda. Mas nos Estados Unidos, ao contrário de cá, há um número suficiente de pessoas para outras leituras, outros consumos de informação, que não trampa. E isso faz toda a diferença.

 

Qualquer site que se preze, incluindo este onde escrevo, tem a sua área de ‘notícias mais populares’. A popularidade tornou-se uma obsessão. A popularidade, acredita-se, vai salvar o negócio de informar. Se o mais popular é o que teve mais cliques, ao promovermos mais todos os mais populares, teremos a solução da multiplicação das audiências que irá salvar o negócio.

 

Só que não.

 

Esta semana, foi notícia que uma equipa das universidades do Minho e do Porto criou um sistema inteligente que sugere melhorias no desenho de notícias online antes da sua publicação, com vista a aumentar a sua popularidade. Segundo a nota enviada às redacções, o sistema permitiu, nos testes, aumentar 15% a probabilidade de uma notícia ser popular e ainda identificar a maioria (73%) das notícias que viriam a ser populares. “Há um interesse crescente por notícias online, face à expansão da Internet, e a previsão das notícias mais populares, medida pelo número de partilhas, é cada vez mais estudada e cobiçada pelas empresas e instituições”.

 

Esta equipa testou o que baptizou como “sistema de apoio à decisão inteligente” em quase 40.000 notícias publicadas desde 2013 no Mashable, o maior blogue mundial de notícias sobre novas tecnologias, que conta com 24 milhões de seguidores e 7,5 milhões de partilhas por mês. E os resultados mostraram que “a popularidade de uma notícia pode subir com uma fácil alteração, pelo seu autor, de atributos sugeridos como o número de palavras do título, as palavras-chave (já usadas noutras notícias) e a aposta em determinados links”.

 

É uma ciência, visto desta forma.

 

A tecnologia é preciosa em praticamente tudo o que fazemos. E os media não são excepção, pelo contrario. O volume de informação cresce todos os dias e as ferramentas tecnológicas são o que nos permite trabalhar melhor, analisar melhor e sobretudo encontrar padrões e notícias onde muitas vezes só parece existir ruído.

 

Mas primeiro temos de parar de nos enganar. A tecnologia resolve muita coisa – mas não resolve a estupidez e, mal usada, pode apenas ampliá-la. Em nome da popularidade. Por exemplo, este artigo sobre a águia que quase furou um olho ao Donald Trump foi de certeza bem mais popular do que a nota de Arianna Huffington sobre como fazer a cobertura jonalística da campanha do alegadamente candidato. Aqui, sim, talvez se possa dizer ‘ bad for the greater good’.

 

Tenham um bom fim de semana!

 

Sugestões

 

As razões pelas quais 'teenagers' dos 11 aos 15 anos são seduzidos pelo Daesh estão longe de ser simples de entender. E a forma como o conteúdo de recrutamento se multiplica é também assustadora. Como não vamos fechar a internet, temos de começar pelo mais importante que é o que se passa em casa, nas escolas e na promessa de vida que estes miúdos vislumbram.

 

É uma sugestão já com umas semanas, mas só hoje a posso fazer com conhecimento de causa neste espaço. Dêem por bem empregue duas horas do vosso tempo e comprem um bilhete de cinema para ver “Steve Jobs”, o filme de Danny Boyle. Michael Fassbender é soberbo e está justamente nomeado para os Globos de Ouro com este papel. Kate Winslet, sempre ela, igualmente imperdível.

 

E para fechar, fiquem com isto para exercitar a massa cinzenta durante as festas e vejam do que são capazes (atenção ao 'spoiler alert').

publicado às 08:57

Segurança Nacional

Por: Rute Sousa Vasco

 

Os russos bombardeiam a Síria, os americanos dizem que, por engano, os mísseis de Putin atingiram o Irão, a ONU quer um governo de união na Líbia e eu já tenho coisas combinadas.

 

Há poucas semanas, em pleno Verão, almocei em Lisboa com um amigo português que há muitos anos vive em França. No decorrer da conversa, falámos de refugiados. Por causa de refugiados falámos da guerra na Síria. Por causa da guerra na Síria, falámos da Turquia. Acabámos com ele a perguntar-me se eu teria mais duas horas para que me pudesse começar a explicar o que se está a passar.

 

Facto: os acontecimentos no Médio Oriente são complexos, nada binários e não se explicam entre dois cafés.

 

Facto: a maior parte de nós, ocidentais, europeus, portugueses, não tem disponibilidade para perceber o que se passa no seu próprio país, quanto mais lá longe.

 

Facto: as duas premissas anteriores podem conduzir-nos a tempos muito negros e isto não é uma afirmação produzida por causa do novo episódio de Segurança Nacional que ontem estreou em Portugal.

 

Todos os dias caem bombas, todos os dias morrem pessoas, todos os dias pessoas cujos nomes não memorizamos trocam acusações. Impressionam-nos famílias com velhos e bebés a jogarem a sua sorte em barcos sofríveis ou em percursos acidentados. Impressiona-nos o bebé Aylan. Impressiona-nos Noujain Mustaffa, a adolescente do sorriso doce. Enfurece-nos o proto-ditador húngaro, mesmo que não saibamos o nome. Enfurece-nos a lentidão da Europa. Enfurece-nos o vizinho do lado que vê perigosos radicais onde vemos simplesmente pessoas.

 

Mas, ainda assim, continuamos sem tempo para perceber o que se passa e provavelmente devíamos, há muito tempo, ter começado por aí.

 

Ontem à noite, em Londres, Meryl Streep falou no evento “Mulheres no Mundo” que foi organizado este ano pela primeira vez. O The Guardian faz-nos chegar as vozes de várias mulheres presentes neste encontro. Streep, a actriz que dará voz a Emmeline Pankhurst no filme “Suffragette”, lembrou que, apesar do direito do voto estar consagrado no Ocidente, ainda há muito para fazer. Ursula von der Leyen, a primeira mulher a ocupar o cargo de ministra da Defesa na Alemanha, também falou. Foi ela, mãe de sete filhos, que introduziu a licença parental partilhada na Alemanha (quando era ministra do Trabalho) e foi ela que recordou a grande tempestade que isso causou entre alguns homens de meia idade instalados na política e a enorme ajuda que teve de outros homens instalados na política.

 

Depois falou a rainha Rania, da Jordânia e não podia não falar de refugiados. Na Alemanha entram por dia, actualmente, 10 mil refugiados. A Jordânia, país ‘encravado’ entre a Síria, o Iraque e Israel, tem no seu território 1,4 milhões de refugiados sírios. São 20% da população e têm uma fatia de 25% do orçamento do país alocada.

 

“É como se o mundo árabe tivesse sofrido uma série de tremores de terra e todos os dias sentíssemos as ondas de choque”, disse Rania. Ela, nascida numa família palestiniana, pediu, uma vez mais, que o Ocidente não se deixe contagiar pela propaganda extremista. “É muito perigoso pensar no ISIS como islâmico porque de islâmico não tem nada …”.

 

A noite fechou com o testemunho de Vian Dakheel Saeed, uma representante Yazidi (comunidade étnico-religiosa curda) no parlamento do Iraque. Lembrou as 5800 mulheres e crianças raptadas pelo ISIS. Lembrou que muitas são vendidas como escravas sexuais. Lembrou que mil crianças entre os 3 e os 10 anos são mandadas pelo ISIS para campos de treino para se tornarem a próxima geração de terroristas. A irmã também falou. Delan Dakeel Saeed, médica no hospital universitário Rezgary, falou das violações de mulheres e de meninas e do horror que presenciam.

 

Ontem estreou em Portugal a nova temporada de Segurança Nacional. Numa das cenas iniciais, um dos protagonistas, Quinn, agente da CIA, é chamado a contar aquilo a que assistiu em dois anos na Síria. O discurso é contido, factual, desprovido de qualquer sinal de emoção.

 

Quinn é pressionado por outro elemento da CIA, sediado em Langley, na Virgínia, para que diga se a estratégia seguida pelos americanos é correcta ou não. O discurso azeda e termina com duas possibilidades de estratégia: ou se enviam não apenas tropas, mas também batalhões de médicos e professores para as zonas de guerra ou se transforma toda aquela zona num parque de estacionamento.

 

Para os cínicos: antes de responderem, oiçam os relatos de pessoas como as irmãs Dakheel Saeed e depois voltem a pensar no assunto.

 

Tenham um bom fim-de-semana!

 

Leituras sugeridas

 

Já que estamos em maré de nos interessarmos pelo mundo dos outros, fica a sugestão para lermos Svetlana Aleksievitch, a jornalista e escritora russa que ganhou o Nobel da Literatura. Já agora, Aleksievitch é autora de uma série de cinco volumes intitulada "Vozes da Utopia” que foi iniciada com "A Guerra Não tem o Rosto de uma Mulher" baseado em entrevistas a centenas de mulheres que participaram na II Guerra Mundial.

 

Porque a música nos ajuda a levar a vida para a frente, levamos John Williams para o fim de semana. Autor de bandas sonoras inesquecíveis como as de Star Wars, Tubarão, Indiana Jones, Harry Potter e Jurassic Park , foi o escolhido pela American Film Institute (AFI) para receber o prémio carreira deste ano. O melhor tributo é escutar a sua música.

 

A fechar, uma notícia curiosa e quem sabe animadora. Talvez a imortalidade seja uma … anémona. Os cientistas descobriram que este animal, que já se julgou ser uma planta e que partilha ancestrais comuns com os humanos, pode encerrar o segredo da imortalidade.

publicado às 09:54

O país do “tenham-mas-é-vergonha” devia conversar mais com o país do “tenham–mas-é-juízo”

 Por: Rute Sousa Vasco

 

Agora que já passaram 48 horas sobre o acto criador da nova realidade política em Portugal e umas horas depois de Cavaco ter apelado ao “tempo do compromisso”, há duas ou três coisas que podíamos falar entre nós, eleitores e cidadãos portugueses.

 

Sobre os resultados. Todos ganharam, já se sabe.

Até o PS, ganhando poucochinho, lá conseguiu ganhar alguma coisa (face a 2011) e, com alguma felicidade, pode vir a descobrir que lhe saiu um brinde em vez de uma fava.

O PSD/CDS, que queria uma maioria clara, ganhou, porque, afinal de contas, sempre teve a maioria mais inesperada da História de Portugal nos últimos 40 anos.

O Bloco de Esquerda ganhou 260 mil votos e a subida a terceira força eleitoral, mesmo que isso não chegue para evitar a repetição de um Governo PSD/CDS.

O PCP ou CDU ganhou porque ganha sempre, o PAN ganhou um deputado e mesmo os partidos mais pequenos, que tinham ambições de eleger deputados e não o conseguiram, ganharam votos e o financiamento de 2,84 euros por cada eleitor que lhes depositou confiança.

 

Ou seja, em Portugal, perder não é opção. É deselegante e é quase uma desfeita para com todos os que apoiaram quem perdeu. Não se faz. Por isso, conseguimos contar pelos dedos as vezes que políticos, gestores, treinadores de futebol e por aí fora simplesmente disseram “perdi” ou “errei” ou “isto correu mal”.

O que é um problema, porque na lei das probabilidades universais, ganhar e perder estão lá em igual medida, com responsabilidade própria, alheia ou conjugação de ambas.

 

Sobre “que raio de país é este”.

Não tardou, logo que os resultados foram conhecidos, que a expressão popular na voz dos nossos amigos, familiares , conhecidos e desconhecidos aparecesse nas paredes das redes sociais. Ora comemorando uma afluência às urnas que nos tornava subitamente um país mais evoluído e uma democracia mais participativa – e que afinal de contas nunca se confirmou, pelo contrário – quer apelidando todos os que não votaram assim ou assado, consoante as alas, de mentecaptos para baixo.

Ali mesmo, naquele momento, muitos descobriram, como alguém dizia tão bem, que em democracia o voto iluminado vale exactamente o mesmo que o voto às escuras. Seja qual for a iluminação, e sendo humana essa reacção, não deixa de ser extradordinário que seja apenas na ocasião solene do voto que muitos de nós descobrem que não suportam a maioria de todos os outros.

 

Ou seja, descobrimos ao votar que somos um país mais conservador que progressista, mais católico que ateu, mais popular que erudito, mais paternalista que autónomo, mais radical do que conciliador. Um país colado à TV que prefere ver a “A Quinta” das celebridades do que a emissão especial onde jornalistas, comentadores e políticos discutem entre si o que vai ser o país nos próximos quatro anos.

Somos tudo isto, e muito mais, em todos os dias do ano.

 

Sobre “afinal o que é que os portugueses querem”.

Além das tracking polls, esta campanha eleitoral foi também marcada pelos “quizzes” ideológicos. Uma espécie de testes de compatibilidade amorosa, mas feitos à luz da ciência política e aplicados às nossas ideias sobre o mundo e a sociedade.

A simplicidade das perguntas e a transformação dos temas principais da nossa vida pública num quase-jogo tem imensas vantagens. A primeira é retirar os preconceitos que todos temos sobre a esquerda e a direita, hoje em dia conceitos de duvidosa utilidade prática.

A segunda é permitir pensar nos programas partidários à luz de questões práticas do nosso dia e fora das frases sonantes que alimentam a máquina trituradora dos media.

E a terceira é, para quem assim se dispor, evidenciar que não somos binários. Vejam-se temas que tocam a todos, como a saúde. Se a pergunta for se o Estado deve assegurar a prestação de serviços de saúde, consideraremos que a “esquerda” diz que sim e a “direita” diz que não. Mas, se a pergunta for se todos devem beneficiar de igual forma independentemente do seu nível de rendimento, provavelmente teremos outras nuances.

O mesmo vale para as leis que regulam as nossas relações. Adopção por parte de casais do mesmo sexo, por exemplo. Nem toda a esquerda é a favor e nem toda a direita é contra simplesmente … porque este é um tema de valores que supera na maior parte dos casos, e bem, orientações politico-partidárias, ainda que os partidos delas se apropriem.

Outra extraordinária presunção de rótulo político está na divisão do mundo de hoje entre ‘trabalhadores’ e ‘patrões’. Num mundo e num país que em função de tantas mudanças – geracionais, tecnológicas, económicas, sociais – assiste diariamente à criação de milhares de empresas, muitas delas por empresários com menos de um tostão furado no bolso apenas animados por uma ideia, competência ou necessidade, chega a ser cómico ouvir quem quer à força catalogar esta comunidade tão diversificada de pessoas à direita ou à esquerda. À direita, porque são patrões, naturalmente (que isto de ser empreendedor é só um petit-nom), à esquerda, porque são revolucionários, naturalmente (e já se sabe que a direita nunca tem ideias novas).

 

Num país tão cheio de verdades adquiridas, muitos se sentiram demasiado confiantes ou demasiado perdidos neste domingo de eleições. Uns demasiado confiantes que os portugueses sabem bem o que não querem; outros demasiado perdidos da certeza que tinham que o país queria mudar.

Talvez ambos os lados tenham razão. Talvez o país da esquerda que se insurge com a austeridade e grita ‘tenham vergonha’ face à perda de direitos esteja mais perto da direita que sentencia ”tenham juízo” quando se fala de sair do Euro . Talvez seja preciso ter mais vergonha e mais juízo.

 

Talvez precisemos todos de conversar mais uns com os outros.

 

publicado às 22:26

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