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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A América mostrada por Tarantino e um encontro em Havana que vai para a história da religião

Por: Francisco Sena Santos

Quem são os odiados oito do novo filme de Quentin Tarantino, com esse título? Confundem-se criminosos e representantes da lei, ainda que quase ninguém seja quem diz ser. Todos são racistas, tanto os crápulas brancos como o vingativo major negro veterano da guerra civil. O filme é um western glacial que, embora com acção datada em 1872, nos traz um retrato, com mestria estética tarantiniana, da América de agora. O filme interpela, num jogo subtil, o racismo omnipresente, a brutalidade dos agentes da lei e a generalizada violência instalada. Então como agora.

Tarantino mete as mãos em forma de obra de arte sobre questões e ressentimentos que a América (os EUA) de agora continua a ter em aberto: da obsessão pela pena de morte à paixão pelas armas de fogo que quase todos têm, passando pelo desprezo ou rancor pelos que são de fora, negros ou latinos, tudo sempre por entre mentiras e ameaças.


O filme, em cinco capítulos, põe-nos perante um palco. Tudo se concentra primeiro dentro de uma diligência, depois entre as quatro paredes (como num teatro) do grande salão de uma casa de refúgio (“a retrosaria da Millie”) que é tudo, bar, pensão, posto de abastecimento. Em fundo está a inóspita vasta paisagem gelada do Wyoming, sob incessante tempestade de neve que avança. No início do filme, há uma diligência que conduz um caçador de recompensas e a sua prisioneira, a perigosa foragida Daisy Domergue, que ele tenciona entregar ao carrasco de Red Rock para ser enforcada.

 

No percurso, há dois homens que fazem parar a diligência para pedir boleia que os safe do vendaval: primeiro, um major negro que tinha feito a guerra pelas tropas unionistas e que viaja com uma suposta carta de Lincoln, o presidente abolicionista, depois o meio perdido novo xerife de Red Rock. Conseguem chegar à “retrosaria da Millie”, a pousada de abrigo onde vão ficar até ao fim. Lá dentro está um ambíguo carrasco, um mexicano, um cowboy silencioso e um velho general confederado. Prontamente se percebe que, provavelmente, ninguém vai sai dali. É ali que tudo vai acontecer. É ali que a explosão de desafios e violência, por entre discursos divertidos em atmosfera fatalista, apesar de datada no tempo imediatamente após a guerra civil, nos vai pôr a pensar na América contemporânea. Quase tudo segue vigente.


No filme não há tipos bons. Não será por acaso que os sindicatos de polícia de Nova Iorque apelaram ao boicote a este “Os oito odiados”, de Tarantino. Evidentemente um filme político, no qual não faltam depravadas provocações. Vale ver neste ano em que a América se prepara para o depois de Obama.
 


FRANCISCO E CIRILO: UM ENCONTRO QUE VAI PARA A HISTÓRIA
 
Num tempo em que a unidade europeia balbucia ou sucumbe, vale-nos e exemplo do papa Francisco, o símbolo que mais representa o melhor em liderança nesta época que vivemos. Na sexta-feira vai encontrar-se com o patriarca russo, Cirilo I. É a primeira reunião entre líderes das igrejas cristãs separadas há quase mil anos. O afastamento entre a igreja ortodoxa russa e a igreja católica romana principiou no século IV e consumou-se com o cisma em 1054.

 

O antagonismo, nos tempos recentes, inflamou-se após a queda da União Soviética, quando a igreja ortodoxa se posicionou como pilar da nova identidade russa. O então patriarca Aleixo II, (sussurrava-se que nomeado nos tempos da URSS com a bênção do KGB, onde emergia Putin) fez muralha contra a intenção de João Paulo II, o papa polaco, de visitar a Rússia. Aleixo II morreu no final do ano de 2008 e, dois meses depois, sucedeu-lhe Cirilo I, antigo metropolita de Smolensk, um homem que andou pelo Brasil e pelo Paraguai e com alguma abertura ao diálogo com o Ocidente.

 

Baixou a hostilidade russa com a igreja de Roma. O Vaticano relançou há dois anos esforços de aproximação. A atitude fortemente ecuménica do papa Francisco possibilitou acelerar o encontro agora marcado para a próxima sexta-feira. É um encontro histórico porque provavelmente vai pôr fim a dez séculos de grande separação entre as duas principais igrejas cristãs.


O patriarca russo colocou como condição para o encontro que este não tivesse lugar na Europa – porque a igreja de Moscovo vê os países da União Europeia como cúmplices históricos do Vaticano. Foi escolhida Havana. Cuba, depois de ter sido uma ilha cercada, torna-se um palco internacional.
Depois da cimeira em Havana o papa vai ao México. Vai encontrar-se com gente pobre, com trabalhadores, com indígenas e com crianças hospitalizadas. Vai a Chiapas e a Juárez, a cidade fronteiriça a norte que recupera a vida depois de ter sido uma aterradora fábrica do crime organizado ligado ao narcotráfico (3.115 homicídios em 2010, 2.086 em 2011, contabilidade do El Diario de Juarez). Juárez, com milhão e meio de habitantes, era há cinco anos a cidade mais violenta no mundo. O papa vai apoiar a ressurreição desta cidade.


Ainda neste ano o papa vai encontrar-se com o patriarca Bartolomeu que representa os cristãos ortodoxos do Médio Oriente na sua sede em Constantinopla. Em outubro, cinco séculos depois da Reforma de Martinho Lutero, Francisco vai reunir-se na Suécia com representantes de todas as igrejas luteranas pelo mundo. O papa rompe as barreiras e derruba os muros. Um exemplo.


 
TAMBÉM A TER EM CONTA


Segunda etapa na maratona das primárias presidenciais nos EUA. Depois do Iowa, hoje New Hampshire, o estado com a divisa ´”Live Free or Die” (“Viver livre ou morrer”). Tende a ser uma etapa dura para Hillary Clinton. E, desta vez, eufórica para Donald Trump. Mas é daqui a três semanas, no "Super Tuesday", que as grandes escolhas ficam clarificadas.

 

Vem a calhar esta primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS.

 

E será que devemos alarmar-nos com estas primeiras páginas que avisam haver pânico nas bolsas? Cinco Dias. Expansión. Les Echos. La Repubblica. Financial Times.
 

publicado às 09:27

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