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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A ilusão perdida em Roma

Por: Sena Santos

Há cidades a que se deseja sempre voltar e Roma é uma delas. Mary Beard, prestigiada especialista em Clássicos da Antiguidade, catedrática em Cambridge, tem escrito livros fascinantes sobre a Roma Antiga que modelou muito da nossa civilização. Ela explica como os pensadores e políticos dessa Roma de há vinte e um séculos, mestres de sabedoria, refinamento e estratégia, tiveram a visão para abrir caminhos, levantar pontes, construir aquedutos, definir bases do Direito e de tanto mais, deixaram-nos em herança um pensamento que é bússola, mas ao mesmo tempo eram violentos com o seu brutal e disciplinado poder de ataque e saqueadores com cruel rapina na terra conquistada pelo império que se estendia da Península Ibéria ao Médio Oriente.

 

A Roma de há 2100 anos é descrita por Mary Beard como uma cidade com mais de um milhão de pessoas que viviam numa mistura de liberdade e exploração, luxo e lixo. Há qualquer coisa desse retrato antigo que encaixa na Roma de hoje, à beira dos três milhões de residentes. Roma é encantadora para quem a visita mas quem lá vive está farto: embora sempre fiéis ao estilo e à elegância, os romanos perderam a paciência com a degradação da qualidade de vida na sua cidade onde o trânsito é um suplício, o pavimento das ruas está mal tratado, os transportes públicos estão em colapso, os monumentos à mercê da penúria de recursos e cuidados, o lixo com frequência fica vários dias amontoado nas ruas, as águas e margens do Tibre parecem de há muito uma lixeira. Há um vídeo gravado por um estudante que mostra o vai e vem das ratazanas por entre montanhas de lixo no Largo Ferruccio Mengaroni. Há imagens de lixo que sobe à altura de um adulto no bairro Tor Bella Monaca.

 

É o que resulta do que chamam de “Mafia Capital”, redes da máfia tradicional que, infiltradas nas engrenagens do poder municipal, designadamente o serviço de recolha de lixo, usando o sistema de corrupções instalado, com a cumplicidade de gente de todos os partidos, tiram proveito de tudo aquilo onde metem a mão.

 

É assim, com a promessa de limpar a cidade do lixo e das máfias, que Virginia Raggi, uma advogada com 37 anos e escassa história política se tornou uma loba à conquista de Roma. Ela tinha aparecido na internet a promover campanhas pela Educação e pelo Ambiente.  Era elogiada por iniciativas de voluntariado. O Cinco Estrelas (M5E), movimento político que se define “antipolítica”, liderado pelo comediante Beppe Grillo, escolheu-a para liderar a candidatura à presidência da câmara de Roma. A imagem dela é sedutora e o discurso surgiu poderoso contra as desgastadas castas políticas italianas. Virginia Raggi avançou sobre Roma e conquistou-a nas eleições de 19 de junho: arrasou, foi eleita com 67,2% dos votos. Tornou-se a primeira mulher a governar em Roma e gerou enorme ilusão com a utopia de uma Roma finalmente, décadas depois, governada de modo imaculado com ideias e projetos, fantasia e paixão, visão e eficiência com, claro está, mãos limpas.

 

Ainda nem passaram três meses e Virginia Raggi é uma presidente à beira de um ataque de nervos. “Onestá, onestá!” e “Transparenza!” tinham sido os dois gritos mais fortes da campanha Raggi, mas tudo parece em colapso. Ela escolheu para dirigir setores fundamentais para a regeneração da cidade gente nova e com etiqueta de alto nível, inovadora e competente. Parecia ter bom programa e boa equipa. Mas, ao fim de 70 dias, a equipa Raggi está à deriva.

 

A crise eclodiu na madrugada de 1 de setembro, com o anúncio da demissão da chefe de gabinete, Carla Rainieri, uma magistrada que tinha sido escolhida por, com os seus critérios éticos e sociais, ser considerada uma muralha implacável frente às infiltrações mafiosas na engrenagem municipal de Roma. Demitiu-se por não estar disposta a aturar as intrigas de gente do M5E por ela ter um salário de uns 10 mil euros por mês. A demissão de Rainieri precipitou a queda, como peças de um dominó, de outras quatro figuras de topo entre as escolhidas por Raggi. Beppe Grillo, líder do M5E meteu-se na polémica para dizer que “a Virginia (Raggi) às vezes parece-me louca”. Percebeu-se que as heterogéneas fações do M5E não queriam deixar Raggi com mãos livres. Começou a comentar-se que os novos políticos afinal são iguais aos outros, ou ainda pior, por cometerem erros de inexperiência.

 

Tudo a precipitar-se: quase ao mesmo tempo é revelado que Raggi sabia que dois dos seus principais escolhidos estavam a ser investigados por ligações com personagens mafiosas, mas encobriu-os. O M5E saltou a defendê-la mas ficou exposto à acusação de dupla moral: exige a demissão dos adversários sob suspeita, condescende com os seus. O cartaz após a vitória eleitoral em junho, dominado pelo rosto de Raggi, enquadrado pela proclamação “Ora cambia tutto, ora tocca a noi” perdeu sentido porque afinal eles não escapam às mesmas derrapagens. A atmosfera ficou penosa para Raggi. Muitos que tinham ficado enamorados pela imagem que ela tinha passado não escondem a desilusão. Mas a maioria ainda parece querer dar à “loba de Roma” uma oportunidade para corrigir os erros e tentar voltar a criar ilusão.

 

O M5E que aspirava usar a governação municipal em Roma e Turim para mostrar que é capaz de tomar o governo do país sai desta crise mais debilitado do que Raggi. Cai nos erros, nas superficialidades, nos amiguismos, nas omissões e nas mentiras tal como os outros que tanto critica no teatro político. O movimento que se proclamava cristalino e que tinha alimentado a promessa de mudar o tempo e o modo da comunicação política com o povo a decidir na internet, afinal, quando ficou acossado mostrou-se burocrático, entrou em guerras internas e passou a esconder os debates. Não acrescenta honestidade e qualidade ao sistema político.

 

Os novos movimentos e partidos surgidos com as ondas de indignação populista e contra o sistema tradicional confrontam-se agora com a deceção. Em Itália, o M5E tem rombos no casco. Em Espanha o Podemos e o Ciudadanos, agarrados a intransigências e incapazes de negociar acordos viáveis, estão em contínuo retrocesso nas intenções de voto.

 

Fica o risco de sucessivas desilusões levar a mais abstenção.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA

 

O momentâneo desfalecimento de Hillary Clinton diante das câmaras no domingo, 11 de setembro, colocou a saúde da candidata como tema da semana na campanha americana. The Huffington Post insurge-se contra o tratamento do caso pelos media. A pergunta é legítima: este caso pode mudar a dinâmica da campanha e, eventualmente, a história do mundo? Só um acontecimento fora do previsto pode levar a uma extraordinária reviravolta e travar a eleição de Hillary como Madam President. Os últimos dias, com gaffe e desmaio, correram mal a Hillary mas os estudos eleitorais garantem-lhe pelo menos 238 grandes eleitores (são eles quem decide), frente apenas 117 para Trump. Bastam mais 32 grandes eleitores para Hillary ficar presidente. Num cenário normal recolhe bastante mais.

 

 

A Hungria com a intolerância e a xenofobia de Orban é um problema na Europa. Ele é o primeiro-ministro que fala no regresso à pena de morte e que restringe a liberdade de imprensa. É uma maciça violação de valores europeus que leva o ministro luxemburguês dos estrangeiros a pôr em discussão o afastamento da Hungria da União Europeia. Como deve ser.

  

 

O Congresso brasileiro derruba o homem que mais se empenhou no impeachment de Dilma. O capítulo final da queda política de Eduardo Cunha é o tema para a primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS.

 

 

Renoir para quem viajar a Madrid ou Barcelona.

 

 

Os media portugueses costumam fazer bom acompanhamento dos festivais europeus de cinema, de Berlim a Veneza, passando por Cannes e Locarno. Vale não perder de vista o que passa pelo excelente TIFF em Toronto.

publicado às 10:02

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