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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A propósito de eleições

Por: Pedro Rolo Duarte

Sempre que há eleições, lembro-me de um episódio caricato que vivi há duas ou três vidas - e que me ajuda a relativizar a vida, as pessoas, a política. Ao ver a reportagem da SIC, com Marcelo Rebelo de Sousa, na passada segunda-feira, primeiro dia do candidato eleito, essa historieta voltou a sentar-se à minha frente. E é irresistível contá-la. Não tem qualquer relevância, mas revela o carácter de uma pessoa. Ou a falta dele.

 

Passou-se algures a meio dos anos 90. Eu era - ainda sou - amigo pessoal de uma então candidata a uma autarquia local relevante no país. Tão relevante que a SIC Notícias a tinha escolhido para ser uma das pessoas que protagonizaria um frente-a-frente com o candidato que se lhe opunha. Era um tempo em que ainda se respeitavam as decisões editoriais, e o canal escolheu meia-duzia de autarquias cujo peso mediático merecia atenção redobrada.

 

Nada habituada a debates deste tipo, menos ainda na TV, pediu ajuda aos seus amigos, desafiando-os para algumas noitadas de perguntas e repostas que podiam surgir no programa. Do meu lado, pediu-me que levasse mais um jornalista. Do seu lado, levou dois camaradas seus. Um deles era José Sócrates, então jovem deputado do PS - e foi assim que conheci a figura.

 

Não apenas me pareceu simpático como criou empatia comigo - e conseguiu. De tal forma que, na semana seguinte, na segunda noitada de perguntas e respostas à candidata, jantámos os dois, umas horas antes, um belo peixe ao sal num restaurante de Algés.

 

A amizade não passou para lá dessas duas ou três noites. Mas Sócrates fez questão de me tratar por “tu”, de que o tratasse por tu, e não evitou a conversa informal entre duas pessoas com uma amiga comum, idades próximas, ideias não muito divergentes.

 

A verdade é que a nossa “candidata” ganhou; uns dias depois (ou antes, já não sei precisar…) António Guterres era nomeado primeiro-ministro, depois de vencer quase em simultâneo eleições gerais - e, no meio de todo este alvoroço socialista, a minha amiga, entretanto alcandorada a presidente de câmara, comemorava, como habitualmente, o seu aniversário, com uma festa em casa. O (futuro) governo de Guterres marcou presença em força. Ainda não havia tomado posse, mas era como se já fosse: segurança reforçada, policia à porta de casa, aparato qb. Senti-me mais numa festa política do que, como em anos anteriores, num aniversário de uma amiga.

 

Passado o crivo da segurança, lá entrei na festa. A animação reinava, até porque parte daquelas pessoas já sabia que ia pertencer ao novo Governo, o que dava algum suplemento de vitalidade ao evento.

 

Todas as pessoas me trataram da mesma forma como antes me haviam tratado: havia quem me cumprimentasse com um “você” próximo e simpático, como Guterres e Ferro Rodrigues, havia quem mantivesse a frieza e distância anteriores, como Armando Vara, havia quem não me conhecesse e nem sequer olhasse. Havia de tudo, até pessoas que só me conheciam por ser “o filho do Rolo Duarte e da Maria João”, como o Duarte Brás.

 

Só notei uma diferença. Ao ver-me, José Sócrates -. o mesmo Zé que duas semanas antes me tratava por tu, e falava de peixe ao sal, futebol e política durante um jantar descontraído - olhou-me lá de cima dele próprio, numa repentina e nova pose, entre a superioridade e a distância, e perguntou:

 

- Você, também por aqui?

 

Nesse momento, percebi quem ele era e a que espécie de gente pertencia. E não me enganei.

 

Nem que fosse apenas por este traço de carácter, Marcelo Rebelo de Sousa merece a eleição que ganhou. Pode ter um sem número de defeitos - mas acredito que a sua atitude para com aqueles com quem se cruza será a mesma de sempre. Antes e depois do lugar para que foi eleito. Faz toda a diferença.

 

COISAS QUE ME DEIXARAM A PENSAR ESTA SEMANA

 

A rádio já foi dada como morta várias vezes. Tem resistido, e bem, e terá sido o primeiro meio de comunicação a explorar integralmente as potencialidades da Internet. Agora que a imprensa em papel estremece, vale tudo para manter as marcas no ar. E adaptar matérias escritas para serem lidas no telefone ou ouvidas no formato podcast é um desses caminhos. Vou seguindo o excelente trabalho da revista Time na sua newsletter diária, que pode ser lida ou ouvida digitalmente. A revista lá vai sobrevivendo em papel…

 

O escritor, guionista, poeta, Nuno Costa Santos chegou com o seu “Marginal Ameno” à RTP3. As suas pequenas crónicas de quotidiano, protagonizadas pelo próprio (sempre acompanhado pelo clássico saco de plástico…) são pérolas de humor, de ironia, de saber olhar. Sugiro que o sigam aqui, no blog, ou o apanhem no novo canal da RTP.

 

A edição online internacional do diário britânico The Guardian é seguramente das melhores da imprensa europeia. Com a vantagem de ser aberta e livre. Aconselho-a. No caso, e de link em link, podem divertir-se (ou talvez não…) com essa incrível história do traficante Joaquín "El Chapo" Guzmán e da sua captura, depois de uma fuga sofisticada, de uma entrevista à Rolling Stone, e do envolvimento da putativa namorada Kate del Castillo, que terá ligado o traficante ao actor Sean Penn. Um folhetim que tem de tudo: sexo, ambição, vaidade, crime, e Hollywood…

 

 

 

publicado às 10:49

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