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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A queda do malvado preferido

Por: José Couto Nogueira

 

Mesmo num ambiente político onde não faltam vilões, há uma graduação de malvadeza, considerando o que deles se sabe. Na longa lista de Brasília, pode dizer-se que Eduardo Cunha, o deputado do PMDB que organizou e dirigiu o impeachment de Dilma Rousseff, está em primeiro lugar. Hoje,com a voz embargada e lágrimas nos olhos, anunciou que renunciava ao lugar de presidente da câmara baixa do Congresso, cargo de que estava afastado desde Maio.

 

 

Porque é Eduardo Cunha considerado o 'malvado preferido' do Brasil? Por três motivos. Primeiro porque, ao organizar o impedimento da Presidente Dilma, para desviar as atenções dos seus próprios ilícitos, conquistou a inimizade do PT e de toda a esquerda; depois porque, tendo apoiado inicialmente o governo petista, para se proteger de falcatruas há muito sabidas, desde sempre teve a inimizade da direita. Finalmente, porque Cunha é um dos poucos cuja culpa já está formada há muito tempo e amplamente documentada, e mesmo assim continuava a agir impunemente.

 

É por tudo isso que nas redes sociais é chamado de “o meu malvado preferido” - precisamente por ser considerado o mais esperto dos corruptos. De facto, há cerca de um ano que se provou que Cunha recebeu luvas no esquema de corrupção da Petrobras, e inclusivamente os bancos suíços enviaram os extractos das contas dele, da mulher, Cláudia Cruz, da filha adulta, Daniele. Circulam pelos jornais e redes sociais os recibos das despesas sumptuosas das duas, isto enquanto na declaração de rendimentos do deputado apenas está listado o seu salário na câmara. Aliás, estão ambas detidas na Polícia Federal.

 

Pois bem, esta quinta-feira Eduardo Cunha anunciou que renuncia à presidência da Câmara, cargo de que estava afastado desde Maio, uma decisão do Supremo Tribunal Federal, por causa das acusações que sobre ele pendiam. Cunha leu a carta de renúncia com a voz embargada e lágrimas nos olhos. Listou os seus feitos como presidente da câmara baixa do Congresso, dos quais o mais relevante será, sem dúvida, ter chefiado o processo de impeachment da Presidente.

 

Depois dos auto-elogios, as lamúrias; Cunha queixou-se de ser perseguido e, sobretudo, do facto de a mulher e a filha estarem detidas (ele não está, por beneficiar de imunidade parlamentar). O deputado voltou a afirmar inocência nas acusações contra ele: "Quero reiterar que comprovarei minha inocência nesses inquéritos. Reafirmo que não recebi qualquer vantagem indevida de quem quer que seja".

 

Os observadores perguntam-se porque é que o maquiavélico Cunha terá tomado esta decisão, neste momento. No inicio da semana teve um encontro a sós como o Presidente interino Michel Temer, encontro esse que foi muito criticado, mas do qual nada saiu. Ao demitir-se agora da presidência da Câmara, alegou que foi para facilitar os trabalhos, pois o colectivo está a funcionar com um presidente interino, Valdir Maranhão, considerado por todos como um incompetente. Mas é lógico pensar que as razões sejam outras – quais, é difícil de saber, no emaranhado e manobras que diariamente ocorrem em Brasília.

 

É de salientar que, apesar de deixar definitivamente a presidência da Câmara, Cunha continua como deputado, portanto mantém a imunidade (“foro privilegiado”). Não se espera que o STF a levante, o que o deixaria nas mãos do juiz Sérgio Moro, para uma condenação certa e, certamente, pesada. Todavia, é evidente que esta demissão é o princípio do fim para Cunha. Em Brasília não se fala de outra coisa.

 

Ao terminar o seu discurso de renúncia, o ex-presidente da Câmara reiterou:

"Tenho a consciência tranquila, não só da minha inocência, mas de ter contribuído para que meu país se tornasse livre do governo criminoso do PT".

Quanto à primeira afirmação, vale e pena lembrar o grande filósofo brasileiro Millôr Fernandes:

“Uma consciência tranquila, geralmente é sinal de péssima memória.”

 

 

publicado às 21:05

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