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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A Terra Prometida

O que o acordo de Paris nos diz é que, num máximo de 60 anos, todos os automóveis, aviões, barcos, comboios e até edifícios terão de funcionar sem recurso a combustíveis fósseis. Portanto, nada de gasolina, gasóleo, carvão ou gás natural. Nada que emita CO2. Ainda vai demorar a chegar lá, mas os carros com motor elétrico são um dos sinais de como a transição já começa a entrar pelas nossas cidades. Devagarinho. Transportes, construção, agricultura e até a criação de gado, tudo vai ter de mudar nas próximas décadas. No imediato, as populações das áreas insulares mais vulneráveis à subida do nível dos oceanos vão receber apoios para a sua proteção.

 

Por muito gasta que esteja a qualificação histórica para um qualquer acontecimento, a COP21 merece em absoluto ser considerada histórica. Ao cabo de 20 anos de discussões com muitas negações, o planeta tem pela primeira vez um plano internacional para tratar o problema das alterações do clima. Está aprovado por 195 países, o que significa todos quantos têm assento na ONU, e promete travar as causas do aquecimento do planeta. Fixa mesmo a ambição de tudo fazer para conter a alta de temperaturas, até ao final deste século, no limite de 2ºC, ou mesmo, ideal procurado, 1,5º, em relação aos níveis do tempo pré-industrial. O acordo sobre esta meta torna claro que, pela primeira vez, o mundo, de modo unânime, reconhece que há um problema com o clima e que é preciso tratá-lo.

 

Deixa de haver horizonte para quem tem invocado miopia sobre o clima. As políticas públicas, designadamente as económicas passam a estar climatizadas. Os lóbis das energias fósseis que em todo este tempo têm feito retardar a transição energética, agora terão de saber evoluir.

 

O acordo de Paris, por si só, não vai curar as doenças do planeta, mas é um primeiro grande avanço global ao declarar de modo universal a necessidade absoluta de lutar contra as alterações climáticas. É um progresso que os mais reconhecidos cientistas declaram necessário, ainda que não o suficiente. No meio de muita coragem também há episódios de timidez, certamente resultantes da necessidade de conquistar o compromisso expresso em 31 páginas. Por exemplo: no 4º dos 29 artigos do acordo – limados palavra a palavra em negociações extenuantes - diz-se que os países devem começar a reduzir as suas emissões o mais depressa possível, mas sem especificar quando. Também ficam por definir metas precisas para a quantidade de redução em cada país. Tal como não são quantificados ou definidos critérios para, através do mecanismo “perdas & danos” indemnizar populações já a sofrer os efeitos das alterações climáticas. E, sobretudo, nota-se que o acordo não especifica sanções em caso de não cumprimento do que fica assinado. É de recear que a decisão política e a prática de alguns países não consiga estar à altura do compromisso na COP21.

 

Também se constata que o texto do acordo é muito lacónico sobre a proteção às florestas tropicais e o combate à desflorestação, embora esteja anunciado para esse combate um fundo com 5 mil milhões de dólares, gerado pela Alemanha, Noruega e Reino Unido.

 

Seja como for, vem aí uma mutação profunda dos modelos energéticos. A China – onde os habitantes de Pequim, por estes dias, quase sufocaram com o smog a atingir níveis que furam todos os alarmes da OMS - soube perceber a urgência e já fez descolar o investimento na energia solar e eólica.

 

A COP21 mostrou eficácia e determinação da diplomacia francesa – méritos de Hollande e Fabius – e muito do método Obama, realismo e pragmatismo, para criar espaço para um governo mundial do clima. Cabe agora aos Estados – obrigados pelo acordo à transparência sobre os seus planos -, às empresas, à grande finança, aos investigadores, aos empreendedores e a cada um de nós irmos arranjando o caminho para chegarmos a esta terra prometida. A opinião pública é decisiva para que as promessas da COP21 não fiquem pelos anúncios.

 

TAMBÉM A TER EM CONTA

 

Espanha entra no próximo domingo numa nova era política. As eleições vão trazer o fim das maiorias absolutas, os políticos vão ter de trabalhar a cultura da negociação com vários partidos. O crispado debate de ontem à noite faz pensar que vai ser difícil.

 

Uma frente republicana voltou a barricar a escalada do extremismo Le Pen em França. Mas a atração que o partido de Le Pen exerce sobre as massas insatisfeitas continua a crescer: recebeu o voto de 6,8 milhões de eleitores. Os políticos tradicionais, à direita e à esquerda, reconhecem que vai ser preciso mudar muita coisa.

 

O regime teocrático da Arábia Saudita sentiu-se obrigado a mostrar que evolui alguma coisa: admitiu a participação de mulheres nas eleições municipais. Puderam votar, mas desde que acompanhadas por um homem.

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS.

 

 

 

publicado às 10:30

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