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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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A vitória da trampa. Ou deixem que vos entretenham

Por: Rute Sousa Vasco

 

Em julho deste ano, o site de informação americano Huffington Post anunciou que, daí para a frente, passaria a integrar a informação sobre a campanha de Donald Trump na secção de entretenimento em vez da secção de política. Esta semana,Trump escolheu como uma das suas bojardas a proposta (?) para que fosse inibida a entrada a todo e qualquer muçulmano nos Estados Unidos e o Huffinfgton Post mudou de ideias.

 

Numa nota editorial, Arianna Huffington, fundadora do site, explicou o porquê da mudança. Em julho, assumiram a cobertura da campanha de Trump como mero entretenimento, porque consideraram, pelos seus actos, que não era realmente a sério. Ou seja, que ele não queria realmente governar os Estados Unidos com aquelas propostas – apenas queria fazer show off.

 

A escalada verbal do candidato a candidato republicano fez com que o Huffington Post mudasse de ideias. Continua a ser uma campanha virada para o espectáculo, mas o espectáculo tornou-se perigoso. Diz Arianna: “Acreditamos que a forma como cobrimos a campanha deve reflectir esta mudança. E parte disso implica não deixarmos nunca de lembrar à nossa audiência quem é Trump e o que a sua campanha representa”.

 

Em Portugal somos, ao invés do que acontece nos Estados Unidos, muito sensíveis à tomada de posição pelos media. E a forma como olhamos para as pessoas com opinião é uma especíe de idiossincrasia nacional. Temos que os amar ou odiar – na maior parte dos casos é difícil simplesmente ouvir e depois pensar pela nossa cabeça. A soma disto à condição económica de país pobre, de dinheiro e tantas vezes de espírito, faz com que os jornais sejam mais pardos que transparentes na defesa das suas opções e, sobretudo, que subsista um temor em tomar partido.

 

É também por isso que a tribo dos comentadores cresce e multiplica-se. Um comentador é alguém de fora a quem se paga (ou não) para tomar partido e dizer porquê. Com sorte, e muito tempo para redes sociais, cai no goto da audiência. Se o pior azar acontecer – o dito comentador dizer ou fazer algo francamente estúpido e condenável–, quem o convida pode sempre demarcar-se e dizer que nada teve a ver com isso. E é também assim que nascem os nossos fenómenos de mediatismo: a América tem Donald Trump, nós temos Pedro Arroja.

 

Isto devia ser o que verdadeiramente nos preocupa. Uma espécie de mal para o qual não se antevê fim. Somos hoje uma espécie de sociedade de drogados em estupidez. Se é estúpido e ganhou forma de ‘conteúdo’, tem uma grande probabibilidade de ser um sucesso. As redacções disputam entre si a primazia na divulgação da estupidez, porque tudo é decidido a partir dos backoffices onde aprendizes de jornalistas foram enfiados a olhar para cliques. E, claro, se um link tem muitos cliques – é porque está a correr bem.

 

Não, não está a correr nada bem. E, lamentavelmente, usando uma frase do grande manipulador Frank Underwood, isto não é ‘bad for the greater good’. Isto é só mau sem que se aviste um bem maior. É mau em qualquer parte do globo, mas é muito pior nesta parte do globo que habitamos – porque é mais pequena e hoje a indústria das notícias, como outras, só tem viabilidade em doses XL. Nos Estados Unidos, como cá, a trampa é quem manda. Mas nos Estados Unidos, ao contrário de cá, há um número suficiente de pessoas para outras leituras, outros consumos de informação, que não trampa. E isso faz toda a diferença.

 

Qualquer site que se preze, incluindo este onde escrevo, tem a sua área de ‘notícias mais populares’. A popularidade tornou-se uma obsessão. A popularidade, acredita-se, vai salvar o negócio de informar. Se o mais popular é o que teve mais cliques, ao promovermos mais todos os mais populares, teremos a solução da multiplicação das audiências que irá salvar o negócio.

 

Só que não.

 

Esta semana, foi notícia que uma equipa das universidades do Minho e do Porto criou um sistema inteligente que sugere melhorias no desenho de notícias online antes da sua publicação, com vista a aumentar a sua popularidade. Segundo a nota enviada às redacções, o sistema permitiu, nos testes, aumentar 15% a probabilidade de uma notícia ser popular e ainda identificar a maioria (73%) das notícias que viriam a ser populares. “Há um interesse crescente por notícias online, face à expansão da Internet, e a previsão das notícias mais populares, medida pelo número de partilhas, é cada vez mais estudada e cobiçada pelas empresas e instituições”.

 

Esta equipa testou o que baptizou como “sistema de apoio à decisão inteligente” em quase 40.000 notícias publicadas desde 2013 no Mashable, o maior blogue mundial de notícias sobre novas tecnologias, que conta com 24 milhões de seguidores e 7,5 milhões de partilhas por mês. E os resultados mostraram que “a popularidade de uma notícia pode subir com uma fácil alteração, pelo seu autor, de atributos sugeridos como o número de palavras do título, as palavras-chave (já usadas noutras notícias) e a aposta em determinados links”.

 

É uma ciência, visto desta forma.

 

A tecnologia é preciosa em praticamente tudo o que fazemos. E os media não são excepção, pelo contrario. O volume de informação cresce todos os dias e as ferramentas tecnológicas são o que nos permite trabalhar melhor, analisar melhor e sobretudo encontrar padrões e notícias onde muitas vezes só parece existir ruído.

 

Mas primeiro temos de parar de nos enganar. A tecnologia resolve muita coisa – mas não resolve a estupidez e, mal usada, pode apenas ampliá-la. Em nome da popularidade. Por exemplo, este artigo sobre a águia que quase furou um olho ao Donald Trump foi de certeza bem mais popular do que a nota de Arianna Huffington sobre como fazer a cobertura jonalística da campanha do alegadamente candidato. Aqui, sim, talvez se possa dizer ‘ bad for the greater good’.

 

Tenham um bom fim de semana!

 

Sugestões

 

As razões pelas quais 'teenagers' dos 11 aos 15 anos são seduzidos pelo Daesh estão longe de ser simples de entender. E a forma como o conteúdo de recrutamento se multiplica é também assustadora. Como não vamos fechar a internet, temos de começar pelo mais importante que é o que se passa em casa, nas escolas e na promessa de vida que estes miúdos vislumbram.

 

É uma sugestão já com umas semanas, mas só hoje a posso fazer com conhecimento de causa neste espaço. Dêem por bem empregue duas horas do vosso tempo e comprem um bilhete de cinema para ver “Steve Jobs”, o filme de Danny Boyle. Michael Fassbender é soberbo e está justamente nomeado para os Globos de Ouro com este papel. Kate Winslet, sempre ela, igualmente imperdível.

 

E para fechar, fiquem com isto para exercitar a massa cinzenta durante as festas e vejam do que são capazes (atenção ao 'spoiler alert').

publicado às 08:57

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