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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Alguém consegue fazer a chave espanhola?

Por: Sena Santos

Na Utopia, escrita há 500 anos, Thomas More descreve a organização política e social de uma ilha composta por 54 cidades onde funciona a igualdade entre todos. A ilha está dotada de um governo central cuja principal missão é a de repartir com equidade os recursos. Na Utopia não há pobres nem ricos, vive-se em igualdade material. O modelo concebido por Thomas More – certamente como contra-modelo de outra ilha, a Inglaterra do século XVI -  tem o pecado da uniformização, da submissão do indivíduo ao bem comum e, a par de ampla liberdade religiosa, muitas restrições nos costumes.

 

 

Thomas More ganhou lugar em dois panteões, em Moscovo e no Vaticano: Lenine proclamou-o percursor do comunismo e mandou dedicar-lhe um obelisco, ao lado dos de Marx e Engels; a Igreja Católica declarou-o em 1935 santo mártir (tinha sido esquartejado por se recusar a reconhecer Henrique VIII como chefe da igreja de Inglaterra) e, no ano 2000, João Paulo II designou-o patrono dos estadistas e políticos.

 

 

O livro, requisitório contra as injustiças sociais e políticas da Inglaterra de então, não é um tratado de filosofia política, mas a ideia de utopia passou à posteridade como ideia de ideal. Aparece nos dicionários como um sonho ou uma quimera.

 

 

Muita gente na Espanha dos últimos anos acreditou na utopia de uma sociedade melhor. Foi evidente o renovado interesse de novas gerações pela participação política e isso traduziu-se na criação de novos partidos resultantes dessas movimentações profundas na sociedade. Muitos eleitores, à esquerda como à direita ou ao centro, fartos de um sistema desgastado, acreditaram ser possível que a condução do país fosse tarefa para os melhores, gente capaz de visão com amplos horizontes, generosidade, tenacidade e valentia, como requer a tarefa de governar um país, neste caso a Espanha.

 

 

O que há para tratar em Espanha tem muito a ver com o que também importa em Portugal. A economia. A educação. O financiamento da saúde e das pensões. A salvaguarda de um Estado de bem-estar sustentável. O apoio à criação de emprego e à promoção do conhecimento e da cultura. Tanto mais. No caso espanhol há o imbróglio das autonomias, com especial tensão no caso da Catalunha, onde a escalada independentista está a ter como resposta, não a procura de harmonias mas o agravamento do conflito entre Madrid e Barcelona.

 

 

Os espanhóis votaram e decidiram pôr fim à ordem anterior, assente em dois partidos, o PSOE e o PP. Escolheram um parlamento mais plural, fragmentado, sem a hegemonia dos dois grandes partidos.  Naturalmente, esperavam que os políticos conseguissem fazer acordos e pactos, concretizando em ação a vontade dos eleitores. Os eleitores espanhóis votaram em 20 de dezembro, mas os políticos não souberam ter audácia para acordar um governo. Foi preciso voltar a votos em 26 de junho. Mas o impasse continuou, são políticos mas não conseguem entender-se, estão incapazes de imaginação para um compromisso plural no labirinto parlamentar.

 

 

Um dos novos partidos, o Ciudadanos, ainda deu uma mão ao PP de Rajoy e, acrescentado o voto de uma deputada das Canárias, chegaram assim a somar 170 lugares no parlamento de Espanha. Mas a maioria é aos 176, por isso fracassaram. Agora o Ciudadanos até já rasgou o acordo que celebrou com o PP. É facto que há uma maioria absoluta nas Cortes de Espanha, mas é de recusa: está formada pelo PSOE, pelo Podemos e por mais seis partidos nacionalistas: juntam 180 votos, ultrapassam portanto a maioria absoluta, mas só estão unidos para a recusa de um governo PP, não para formar uma plataforma de governo, porque o PSOE não se entende nem com o Podemos nem com os independentistas catalães, e o Ciudadanos ainda menos.

 

 

Assim, com a Espanha política encalhada há já nove meses, num fracasso que ninguém assume – cada um atira a responsabilidade para o outro - já está no ar a hipótese de novas eleições, as terceiras, um ano depois das primeiras, outra vez em cima do natal. É como se estivessem a esgotar os eleitores: votam, em repetições eleitorais, até ficar conseguido o arranjo que interessa.

 

 

Como alternativa a essa hipótese de terceiras eleições está em curso um jogo de pressões que passa pelas eleições autonómicas, marcadas para 25 de setembro, no País Basco e na Galiza.

 

 

No País Basco, o Partido Nacionalista Basco (PNV), com 27 dos 75 deputados autonómicos, governa através de acordos com o PSOE (16 deputados). Se o PSOE retroceder perante o provável crescimento da esquerda mais à esquerda (Unidos Podemos e Bildu), o PNV pode vir a precisar do PP para governar. Seria o bingo para Rajoy: dá apoio ao PNV no País Basco e exige em troca o voto dos 5 deputados PNV em Madrid.

 

 

O voto na Galiza também conta para o jogo nacional. A maioria absoluta no parlamento de Santiago de Compostela é atingida com 38 deputados e o PP governa com 41. A confirmação ou perda da maioria absoluta em 25 de setembro concorre para a legitimidade de Rajoy. O presidente do governo há nove meses em funções espera que esta conjunção permita fazer quebrar a intransigência do socialista Sanchez.

 

 

Rajoy parece de braços cruzados à espera do que possa vir a acontecer. Seja como for, sem a coragem de um amplo acordo político, a governabilidade de Espanha fica muito precária, em incertezas constantes.

 

 

Dos políticos espera-se que saibam mover-se e encontrar caminhos para transformar a realidade para melhor. Quando passam nove meses e não são capazes de avançar e explorar por entre a realidade e a utopia, fica-se a olhar para eles com desconfiança. O país que tinha alimentado a ilusão entra na desilusão por estarem a ser barradas as saídas e ninguém ousa fazer uma chave.

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

O land de Mecklenburg lá no Leste da Alemanha parece um território insignificante. Sucede que é por lá que está a terra natal da chanceler Merkel, e que foi lá que, pela primeira vez na história da Alemanha unificada, um partido populista e xenófobo, o AfD, suplantou a poderosa democracia-cristã da CDU. As frustrações e ressentimentos estão a levar a este crescendo de forças populistas. Os eleitores castigam Merkel por há um ano ela ter tomado a corajosa decisão de abrir portas aos refugiados. Merkel pode perder eleições mas colocou-se como estadista à altura da história.

 

 

Que futuro pode ter a Esquerda? Oportuna reflexão aberta pelo Guardian.

 

 

Estamos habituados a ouvir falar em “Estado de direito”. O presidente das Filipinas, Duterte, declarou o país “Estado de não direito”. A inquietação com este vale-tudo que sacrifica as liberdades fundamentais generaliza-se. Leia-se o alerta no NYT e a denúncia de um fundador da Human Rights Watch.

 

 

 As capas de duas revistas escolhidas no Sapo Jornais: a Veja vê a morte do PT, o L’Espresso confia na boa reconstrução após o terramoto no centro de Itália – mas reclama que não deixem a máfia meter mãos na obra.

publicado às 09:44

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