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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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As notícias fazem mal à saúde?

 

 

Por: Francisco Sena Santos

 

Rolf Dobelli (1966, Lucerna, Suiça), formado em filosofia, saltou para a fama na Alemanha com livros de leitura simples sobre bom desempenho no trabalho. 'The Art of Thinking Clearly' vendeu mais de 500 mil exemplares e está traduzido em 30 países, entre os quais Portugal, onde está disponível como 'A Arte de Pensar com Clareza' (Almedina, 2013). Dobelli gerou controvérsia quando publicou um artigo em que argumenta que a leitura, escuta ou visão das notícias que nos são constantemente servidas faz mal à saúde: perturba o estado emocional, afecta a capacidade de concentração, diminui a reflexão e a criatividade. Ele chega a sustentar que “o excesso de notícias está para o cérebro assim como o açúcar para o corpo”. Fala de abuso tóxico, que desgasta a memória breve e o potencial de pensamento com o consumo de informações que não tem qualquer utilidade prática. Denuncia o gasto inútil de energias que fazem falta ao bom jogging cerebral e ao pensamento ponderado, o slow thought, como lhe chama.

 

Não imagino que algum jornalista possa concordar com o essencial desta argumentação de Dobelli. Talvez o equívoco esteja no modo como ele põe a questão: não é nas notícias que há problema, poderá haver no modo como elas nos são servidas ou como as consumimos. Um noticiário é suposto ser uma ocasião de informação que acrescenta valor para a análise que nos permite entender o que está à nossa volta, perto e longe. Infelizmente, a prática diária está a mostrar-nos que é muito questionável o conteúdo de muitos noticiários cuja agenda, que produz efeito de contágio, vive da exploração de sentimentos e crimes. As deformações emocionais da realidade desviam o espaço que seria útil para dar a compreender mais do mundo.

 

Há tendência para redução nos jornais do espaço dedicado à análise dos media. Um dos casos que apetece analisar é o de um jornal de excelência, como é The Guardian, fonte de informação global e marca de qualidade consolidada ao longo de 195 anos. The Guardian foi criado em Manchester em 1821, a partir da filantropia da riquíssima família Scott que investiu na publicação de um jornal diário que pudesse noticiar e promover a causa da liberdade e do jornalismo liberal ao abrigo da pressão de interesses políticos ou económicos. Em fundo, The Guardian teve sempre alma liberal, entenda-se: de centro-esquerda. Sempre com grande dedicação às artes e à cultura. Em 1936, para consolidar o futuro do jornal em tempos turbulentos, a família Scott dedicou muito da sua enorme fortuna à criação de um avultado fundo financeiro, o Scott Trust, com dupla finalidade: garantir a independência e a perpetuidade do jornal. O fundo gera rendimentos com a exploração de outros negócios, sendo que o lucro reverte sempre para consolidar a marca Guardian News and Media.

 

É com esses vastos recursos e com a política editorial adoptada que The Guardian se tornou referência global no jornalismo. O facto de em 195 anos ter tido apenas 11 editores atesta a estabilidade do jornal e do grupo. Um dos editores mais marcantes é o visionário jornalista Alan Rusbridger, que dirigiu o jornal por 20 anos, entre 1995 e o verão passado. É com ele que The Guardian se expande para marca global. Rusbridger teve a possibilidade de dedicar muitos milhões de libras de orçamento anual para colocar The Guardian como o terceiro sítio digital de notícias em língua inglesa mais procurados no mundo (os dois primeiros são The New York Times e o popular Daily Mail, de Londres).  

 

Com Rusbridger, The Guardian recebeu em 2014, a meias com The Washington Post, o Pulitzer, o mais relevante prémio internacional de jornalismo, com as revelações de Edward Snowden. Antes, já tinha marcado a agenda informativa com os documentos Wikileaks sobre a guerra no Iraque e no Afeganistão. Rusbridger apostou o máximo de recursos que conseguiu na edição digital. Investiu milhões para criar um gigante digital nas notícias.

 

Mas o disparo da relevância e influência do jornal é acompanhado por escalada dos prejuízos. As contas de 2015 fecharam com o grupo de imprensa The Guardian News and Media no muito vermelho défice de 45 milhões de libras (60 milhões de euros). O fundo da família Scott caiu, nos primeiros seis meses de 2015, de 838,3 milhões para 740 milhões. A quebra tinha-se tornado contínua nos últimos cinco anos. The Guardian tem 1960 trabalhadores, sendo que 750 pertencem à área editorial. Está em aplicação um plano de contenção de gastos e aumento de receitas. Já implicou a redução de 300 postos de trabalho, entre despedimentos e rescisões amigáveis. A australiana Katharine Viner substitui agora Alan Rusbridger na direcção do jornal.

 

O que é que correu mal num jornal tão bem apresentado e tão influente? Por um lado, a crise económica que trouxe drástica quebra da publicidade. Essa baixa também frustrou as expectativas publicitárias para a edição digital. Mas a questão mais discutida é a gratuitidade da edição digital. Rusbridger foi intransigente a defender que a edição do jornal é sempre totalmente aberta e gratuita. Questão que sobra: sendo o jornalismo de qualidade um produto que requer investimentos substanciais, quem paga? É possível fazer bom jornalismo e não cobrar ao utilizador? Este é o tema essencial.

 

O risco de perder muito da qualidade no jornalismo talvez nos leve aquela ameaça de que fala Dobelli. Nunca - é de confiar - será caso para dizer que as notícias fazem mal à saúde. Mas poderemos ter, já estamos a ter, inflação de notícias que são lixo. Portanto, não trazem bem.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

A interrogação do Papa numa entrevista ao La Croix: “Frente ao terrorismo islâmico devemos interrogar-nos sobre o modo como um modelo muito ocidental de democracia foi exportado para países onde havia um poder forte, como o Iraque”.

 

O deserto no Egipto agora é também de turistas. As fotografias de Luca Campigotto, no La Repubblica, mostram-nos “os esplêndidos monumentos restituídos à sua pureza, mas também a desoladora falta dos visitantes que alimentavam a economia do país”.

 

A crise do regime chavista na Venezuela está em escalada imparável. A opinião num jornal da oposição em Caracas. E o relato na CNN. Depois da Argentina e do Brasil, a Venezuela é a próxima viragem política na América Latina cansada de etiquetas esquerdistas..

 

O júri do Man Booker Prize International preferiu a sul-coreana Han Kang a Agualusa, Ferrante e Pamuk. A escolha de 2016 é “The vegetarian”, a história “numa desconcertante miscelânea de beleza e horror” de uma mulher que se torna vegetariana.

 

Um desfile pelo festival de cinema em Cannes. Alguns dos filmes a ver nos próximos meses.

 

A BBC prepara-se para lançar uma plataforma rival da Netflix. É o futuro imediato.

 

 

publicado às 08:29

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