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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Até tu, Nova Zelândia?

Por: Márcio Alves Candoso

 

Quando se abre a Constituição da República Portuguesa, logo após o 'Preâmbulo', naquele capítulo que fala dos 'Princípios Fundamentais' – que vêm, note-se, ainda antes dos 'Direitos e deveres fundamentais' – dá-se de caras com 11-artigos-11 que descrevem as coisas básicas que há que saber e respeitar quando se é português. Está lá o território, a cidadania, a soberania, o hino... e a bandeira.

 

Diz lá que é a verde-rubra da República, com os castelos e as quinas ao centro, no meio de uma esfera dourada universal que, com seus arcos de metal, canta o meio-dia na Terra que lhe foi centro, entretanto substituída pelo Sol. Mais nenhum país do mundo ostenta tal ornamento no estandarte nacional. Dir-se-ia que o Mundo, e mesmo o Universo todo, é uma descoberta de Portugal. Que a esfera tenha sido inventada na China, antes ainda de Cristo descer à Terra, é coisa que não nos contaram na primária.

 

Vamos falar de bandeiras. Não de todas, mas aquelas que as Nações, as Pátrias e os Estados – que às vezes, com muita sorte, são tudo uma mesma coisa – têm por símbolo distintivo. Um pano, não mais do que isso, ao lado do qual se perfilam militares, que se ergue quando ganhamos nos Jogos Olímpicos, se vê de longe nos edifícios públicos e por vezes até cobre caixões de heróis ou de simples mortais.

 

 

É de guerra que se fala quando se procura a aurora primeira da bandeira. Ao princípio, as cores que pintavam panos distinguiam batalhões e armadas. Se as flâmulas eram iguais, eram dos nossos; diferentes, do inimigo. Foi assim com os romanos e na Alta Idade Média. Começaram por roubar os símbolos aos escudos e a outros sinais de comando já existentes desde a Antiguidade. Foi só transformá-los em panos.

 

As bandeiras mudam com a circunstância. Mas não para os circunspectos dinamarqueses. Desde o século XIII que aquela gente vive debaixo da cruz branca sobre fundo vermelho. É, de longe e sem interrupções, a bandeira há mais tempo ao serviço oficial. O século XIII é, aliás, um tempo em que as bandeiras nacionais encontram lar. Foi Afonso X, o 'Sábio', rei de Leão e Castela que fazia cantigas de amor e missa na língua erudita da época – o galaico-português – que primeiro definiu o conceito e as regras das bandeiras. Um tipo decente – renunciou a ser rei do Algarve, em favor de Portugal.

 

As bandeiras contam histórias, mostram o País que representam ou os progressos que a eles estão associados. Prantam plantas, como a do Canadá ou do Líbano, tesouros nacionais, como o templo de Angkor na do Cambodja, ideologias, como as que têm estrelas amarelas de cinco pontas, típicas dos países comunistas que cantam a penta-unidade entre soldados, operários, camponeses, jovens e intelectuais, ou símbolos religiosos, como é exemplo a de Israel, ontentando a estrela de David.

 

Há as bandeiras pan-árabes, que têm a cor preta de Maomé, o branco do califado omíada, o verde dos fatimidas e o vermelho dos carijitas, uma espécie de protestantes do Islão. Há as eslavas, que torcem e retorcem o vermelho, branco e azul – a que a Ucrânia e a Bulgária fugiram – ou as africanas, com seu verde, amarelo, vermelho e até preto, unindo a tradição rastafari do Messias da Etiópia semi-cristianizada e desde sempre independente, com o negro da afirmação continental moderna.

 

Todas as bandeiras contam uma história. A da Índia tem o verde muçulmano ao lado do laranja hindu. A 'roda de bicicleta' ao centro tem 24 aros, que repesentam as 24 horas do dia. Diz-se que a da Áustria, com o duplo vermelho entrecortado de branco, nasceu quando Leopoldo IV, ao chegar de uma batalha, reparou que o seu uniforme alvo estava manchado de sangue; mas, na parte de dentro, tudo continuava branco. Por milagre, tratava-se do sangue de outro que não do arquiduque.

 

 

Há a bandeira do 'Decepado', Duarte de Almeida, que segurou o estandarte de Portugal mesmo depois de lhe cortarem as mãos, na malfadada batalha de Toro, era Afonso V rei de Portugal e pretendente de Castela. Há as bandeiras brancas da paz ou da rendição – que não são a mesma coisa - e as negras da miséria, que é sempre igual. Há as do arco-íris, adoptadas por aqueles que defendem a semelhança dos sexos na diversidade do amor. E há a bandeira hasteada ao contrário, que em termos militares simboliza a tomada do território pelo inimigo e um lancinante pedido de socorro; não era essa a ideia do Presidente cessante quando içou a verde-rubra de pernas para ao ar, comemorando a República, a 5 de Outubro de 2012. E no entanto...

 

Os impérios deixam marcas nas colónias. Não é por acaso que a bandeira de Ceuta tem os campos triangulares a preto e branco, como Lisboa, ostenta o escudo de armas do reino de Portugal e a cidade tem como lema 'sempre nobre, leal e fidelíssima cidade de Ceuta'. O mesmo ocorre em muitas possessões do antigo Império Britânico, que ainda hoje levam a 'Union Jack' – bandeira do Reino Unido – num dos cantos do rectângulo flamular.

 

Bandeira actual da Nova Zelândia, com a Union Jack

 

Os casos mais conhecidos de identificação britânica são, hoje em dia, a Austrália e a Nova Zelândia. Ou eram. A partir de hoje e até ao próximo dia 24 de Março, os neo-zelandeses são convidados a votar, através de referendo, na persistência da actual bandeira ou na sua substituição por outra, entretanto escolhida como possível alternativa.

 

É preciso perceber o que é a Nova Zelândia para comprender o porquê da possibilidade de mudança. Há uma piada recorrente que diz que a Nova Zelândia não existe. Na maior parte dos planisférios, que gostam de pôr o Oceano Pacífico nas pontas e a Europa e a África ao centro, a Nova Zelândia é aquela coisa retorcida, lá em baixo ao fundo à direita; às vezes nem sequer se vê, porque a partição do mapa corta os antípodas.

 

 

Mas o pior de tudo é que não é qualquer um que distingue a bandeira da Nova Zelândia da da Austrália. E, já se sabe, os pequenos é que têm de se pôr em bicos de pés, os grandes vêem sempre o espectáculo como se estivessem na primeira fila. A Nova Zelândia, coitada, além de ainda ficar mais longe do resto do planeta do que os seus vizinhos mais próximos – de Sidney a Wellington são uns 'meros' 2200 quilómetros, tantos como daqui à Holanda, pátria da velha Zelândia – tem como estandarte algo muito semelhante ao que se ergue na enorme Austrália.

 

Mas há mais. Ao contrário dos aborígenes australianos, cuja sorte malvada faz corar de vergonha os índigenas norte-americanos, os povos autóctones da Nova Zelândia têm vindo, paulatinamente, a afirmar os seus direitos. Desde o início do século XX, aliás, que as armas do brazão da Nova Zelândia ostentam, ao lado de uma mulher branca – a cara chapada de Alice Spragg, uma 'socialite' de Wellington – um guerreiro maori. Tanto ou tão pouco que os 'pakheas' – nome maori para os colonizadores brancos, mas que muitos descendentes de europeus assumem sem qualquer afronta, até para se distinguirem de imigrantes recentes, os 'tauiwi' – já começam, nas suas franjas mais conservadoras, a torcer o nariz. Há quem diga que ser maori, na Nova Zelândia, já é um privilégio.

 

Daí que manter as armas do Reino Unido esteja a ficar fora de moda. E há que inovar. Para isso, o Governo local lançou um concurso público de ideias, que pudesse trazer à estampa uma nova bandeira para ombrear com a velha. Foram exactamente 10.292 os desenhos que, ao longo do ano passado, deram entrada nos escritórios do comité oficial instalado de propósito para escolher a alternativa. Nesse caminho, o Executivo de Wellington já gastou 26 milhões de dólares locais (qualquer coisa como 16 milhões de euros) na empreitada.

 

O processo passou por diversas fases. Em primeiro lugar, foram escolhidos 40 desenhos, que foram postos à consideração dos 4,5 milhões de neo-zelandeses residentes, mais os cerca de um milhão de emigrantes. Depois foram escolhidas quatro possíveis bandeiras, três das quais muito parecidas. Uma ganhou. E é essa, a par da actual, que vai ser posta em referendo a partir de hoje.

 

Imagem da bandeira que a Nova Zelândia vai referendar em março de 2016. 

 

No fundo, trata-se de mandar, ou não, para os anais da História a Union Jack, substituindo-a pela folha de feto que é endémica na flora neo-zelandesa, e que já representa o país nas camisolas das selecções de vários desportos, e desde logo no mais importante, o râguebi. A 'silver fern' deverá aparecer sobre fundo negro e azul, de forma oblíqua na diagonal do rectângulo, acima das quatro estrelas da constelação do Cruzeiro do Sul que já fazem parte da bandeira actual. Ganhou a uma outra em tudo igual, excepto na cor preta – tinha essa parte a vermelho.

 

Segundo as sondagens mais recentes, cerca de metade dos neo-zelandeses estão disponíveis para uma mudança; mas 24% adiantou que faz depender o seu voto da hipótese escolhida. Espera-se uma luta renhida, na terra planetária que mais tarde foi habitada. Só há sete séculos – o tal XIII desta história das bandeiras – é que chegou gente da Polinésia, da Malásia e, eventualmente, da China insular, à Nova Zelândia.

 

Eu, por mim, cheguei mais tarde. Quando, em 1998, aterrei em Wellington, tinha a ideia de ir encontrar uma Austrália mais pequena. Vinha de Sidney, Melbourne e arredores e estava fascinado com a alegria, a liberdade, o mar surfista e as belezas naturais ou maquilhadas da ilha que é um continente. Nada mais falso. As neo-zelandeses de compridas saias pretas e golas até ao pescoço ficam coradas quando a gente as interpela nas ruas. Os homens pouco elegantes que povoam os bares às seis da tarde são de trato distante. Pode ter sido pouca sorte minha. Afinal, nem tive tempo de ver as ovelhas.

 

publicado às 15:21

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