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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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BPI, cómico se não fosse trágico

Por: António Costa

 

Mais de um ano depois de se saber que o BPI tem de reduzir a sua exposição a Angola, e a dias do fim do prazo imposto pelo BCE, os acionistas CaixaBank e Isabel dos Santos continuam desavindos e agora até o primeiro-ministro está ‘metido’ nas negociações deste casamento de conveniência com divórcio anunciado. Se não fosse grave, até teria graça, se não estivesse em causa um banco, se fosse ‘apenas’ uma guerra de espanhóis e angolanos, se não fosse trágico, até seria cómico. Não é.

 

O que está em causa é o BPI, e não só, é a própria estabilidade de um sistema, o financeiro, que está longe de estar resolvido e sustentado, como se sabe e como se suspeita. Por detrás do pano de fundo destas discussões, o que parece evidente é que o Caixabank está a aproveitar o que considera ser um ‘upside’ de imagem em relação à empresária angolana, em Portugal e em Frankfurt. Nas duas últimas semanas, o acordo já foi ‘anunciado’ na imprensa mais do que uma vez, já foi até aprovado um princípio de acordo na Unitel, principal acionista do BFA, o banco angolano controlado maioritariamente pelo BPI e que é a fonte original do problema. Depois, ‘qualquer coisa’ emperrava o acordo final.

 

A estratégia dos catalães não é de agora, nem sequer apenas com Isabel dos Santos. Quando lançaram uma OPA sobre o BPI, há cerca de um ano, levaram a sua até o fim. E não fizeram negócio. Ofereceram 1,3 euros por ação, quando o conselho do BPI fixou um mínimo justo de 2,25 euros por ação. Teriam resolvido o problema então, não o fizeram e recorreram, depois, à influência politica de Artur Santos Silva junto do PS e de António Costa. Foi o pecado original do primeiro-ministro, que aceitou meter-se num negócio privado.

 

O Governo preparava-se para legislar à medida, para deitar abaixo uma blindagem de estatutos que garante que todos os acionistas do BPI votem com 20%, independentemente da posição que têm. O CaixaBank tem 44%, e é justo que possa votar com essa posição, sim, mas tem de pagar o preço justo para isso.

 

É claro que Isabel dos Santos tem uma arma negocial relevante, a posição acionista no BFA e, claro, o Banco Nacional de Angola atuará, com uma nacionalização do BFA, se Portugal fizer uma lei à medida para favorecer os catalães. Alguém os pode, mesmo, criticar? O CaixaBank viveria bem com isso, Portugal é que não, porque se precisamos de Espanha, e precisamos, também precisamos de Angola. Sobretudo, precisamos de capital estrangeiro, do bom, que tenha projeto empresarial e não objetivos políticos. Hoje, só motivamos o interesse do capital espanhol e do angolano, não chega, é preciso mais.

 

Não alinho na estratégia anti-espanhola e na defesa dos centros de decisão, sabemos o que isso nos trouxe, mas rejeito a ideia de uma banca privada controlada por um país terceiro, em Madrid ou qualquer outra capital, e mais ainda a subserviência aos interesses do BCE e dos poderes europeus, para os quais seria mais fácil supervisionar Portugal como mais uma província espanhola.

 

O CaixaBank, claro, conta com o apoio explícito do BCE e o Banco de Portugal, já nem sequer disfarçam, e agora o Governo também já se envolveu no processo, o que não ajuda, envieza as negociações, torna-as políticas quando são económicas e financeiras. É também isso que levou o CaixaBank a fechar as negociações de forma unilateral, sem acordo. E conta também com a imagem negativa de Angola em Portugal, cíclica, sempre que o país está em crise e não ‘está’ investidor.

 

Com o relógio a contar, o anúncio informal do regresso das negociações conhecido hoje pode ser um bom indício de que, afinal, o CaixaBank já encontrou os limites da sua negociação, condição necessária, mas não suficiente, para um acordo no BPI.

 

As escolhas

 

Hoje vamos ouvir Marcelo Rebelo de Sousa à hora dos telejornais, exatamente às 20 horas. Na primeira comunicação relevante do seu mandato em Belém, o Presidente vai anunciar a promulgação do Orçamento do Estado para 2016, isso já não é notícia. A notícia será outra. O que vai dizer Marcelo sobre as opções económicas e orçamentais de António Costa? Vai continuar a alinhar o discurso com a estratégia dos afetos e da esperança ou vai alertar para os riscos – evidentes – da realidade? Marcelo não quer que o Orçamento entre em vigor no dia 1 de Abril, para evitar as piadas fáceis. Mas as piadas fáceis não são o maior problema. Esta primeira intervenção vai servir também para perceber como será, nos próximos meses, a relação entre Belém, São Bento…e São Caetano à Lapa.

 

E no fim de semana, a hora mudou. Sabe porquê? A guerra e o carvão ajudam a explicar, como se pode ler aqui no SAPO24.

 

Boa semana

publicado às 10:41

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