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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Brasília em guerra e não haverá sobreviventes

Por: José Couto Nogueira

 

Por estes dias, não há um político em Brasília que tenha descanso. O campo está minado por todos os lados, não se sabe quem são os amigos e os inimigos, os conchavos (“articulações”) fazem-se e desfazem-se ao sabor da salvação imediata e qualquer coisa que se diga, ou não diga, poderá ser fatal.

 

 

Hoje caiu mais uma bomba de fragmentação, e das grandes. Já se tinha ouvido o assobio do projéctil, mas em campo aberto não há para onde escapar. O Procurador-geral da República, Rodrigo Janot, enviou para o Supremo Tribunal Federal (STF), o pedido para que possam ser presos Renan Calheiros, Presidente do Senado, Eduardo Cunha, ex-Presidente da Câmara de Deputados, e José Sarney, senador e ex-Presidente da República. A lista ainda inclui Romero Jucá, ex-ministro de Michel Temer, uma figura de segunda linha em relação aos outros três. Como grupo, todas estas figuras pertencem ao PMDB, o maior agrupamento político do país, que assim entra oficial e merecidamente na lista dos partidos “ficha suja”. Se esta acusação colectiva é inédita e explosiva, mais inéditas e bombásticas são as situações individuais dos implicados.

 

José Sarney, o senhor absoluto do Estado do Maranhão, está na política desde 1955 e manteve-se sempre em cargos de poder, inclusive durante a ditadura militar, que apoiou. Quando os militares se retiraram, em 1985, já ele estava no PMDB (a única oposição formal permitida pela ditadura, à semelhança do nosso MDP) e foi o primeiro Presidente da República do regime democrático. Já exerceu todos os altos cargos do país, governador, deputado e senador. Conseguiu passar incólume por regimes e convulsões, apesar de sobre ele sempre ter havido suspeitas e certezas de todos os crimes que a política facilita, desde corrupção a tráfico de influências.

 

Renan Calheiros, nascido no ano em que Sarney entrou para a política, jurista, manda no Estado de Alagoas e também já foi Governador, deputado e senador. É o grande articulador do Senado onde, como Presidente, controla uma agenda que inclui o impeachment de Dilma Rousseff e a perda de imunidade jurídica (“foro previlegiado”) dos senadores.

 

Eduardo Cunha, até 5 de Maio Presidente da Câmara dos Deputados, é evangélico e tem um currículo mais breve, mas é unanimemente considerado o mais habilidoso articulador de Brasília e o planeador do processo de afastamento da Presidenta.

 

Os quatro são acusados de obstrução à justiça, um delito infinitamente menor do que todos os que se lhes atribuem, juntos ou em separado, mas cuja moldura penal inclui prisão efectiva. Como é que conspiradores tão eficientes e experientes caíram numa armadilha destas é sintomático do clima de salve-se quem puder que assola o Planalto (o nome genérico dado aos orgãos do Governo Federal em Brasília).

 

Evidentemente que todos eles têm foro privilegiado, pelo que a sua prisão só pode ser decretada com o assentimento do ministro do Supremo Tribunal Teori Zavascki, que é o relator da famosa Lava Jato, o processo que são agora acusados de obstruir. Janot baseou-se nas gravações feitas pelo ex-presidente da Transpetro, Sergio Machado, em que os acusados sugerem um plano para barrar a dita Operação Lava Jato.

 

As informações foram levantadas pelo jornal O Globo e pelo Bom Dia Brasil nesta terça-feira. De acordo com O Globo, os pedidos de prisão dos políticos estão com Zavascki há pelo menos uma semana. Janot também pediu ao STF o afastamento de Renan Calheiros da presidência do Senado.

 

No diálogo revelado por Machado, Jucá menciona um pacto para barrar a Lava Jato. Quando as gravações foram reveladas, o senador foi afastado do ministério do Planejamento,com apenas doze dias no cargo. O pedido de prisão de Janot mostra que a Lava Jato está imparável e não olha a quem, para grande alívio da população, que receia permanentemente que as manobras de cúpula acabem por inviabilizar esta faxina geral da classe política do país. Desde que as investigações mostraram que havia um trabalho para influenciar a votação do impeachment, as procuradorias estatais e federal precisam de mostrar que todos os partidos podem ser atingidos - ou seja, que não existe uma perseguição ao PT.

 

Nesta segunda, o ministro Gilmar Mendes também aceitou o segundo pedido de investigação do senador Aécio Neves (PSDB), feito pela PGR, para verificar a veracidade das informações fornecidas pelo senador cassado Delcídio do Amaral. Aécio teria protegido o PSDB da apuração do “mensalão” que atirou para a cadeia os principais assessores de Lula. Dados manipulados do banco Rural, operador do “mensalão”, teriam ocultado a participação do PMDB num esquema semelhante ao do PT.

 

Se as primeiras denúncias negociadas (delações premiadas) feitas aos investigadores da Lava Jato pelos ex-diretores da Petrobras atingiram principalmente o PT, a colaboração do ex-senador Delcídio do Amaral e do ex-presidente da Transpetro Sergio Machado foram cruciais para chegar à cúpula dos demais partidos. Machado contou ter pago 70 milhões de reais de luvas (propina) para Renan, Jucá e Sarney. Só o presidente do Senado teria recebido 30 milhões. A Sarney coube outros 20 milhões, segundo Machado.

Com um gravador escondido, o ex-presidente da Transpetro registrou os diálogos com Renan, Sarney e Jucá em que eles revelam o medo de serem atingidos pela investigação.

 

O pano de fundo de todas estas “movimentações” continua a ser o impeachment de Dilma, pois há quem considere - erradamente - que dele acabará por depender a investigação da Lava Jato. Essa investigação, vale lembrar, incide sobre as verbas desviadas da Petrobras para partidos e políticos, situação que ocorreu com todos eles, desde o princípio do regime democrático - e provavelmente durante a ditadura também.

 

Há também outra teoria, que faz sentido. Janot, pedindo a prisão para Renan Calheiros, implicitamente afasta-o da presidência do Senado. Nesse caso, quem assumiria o cargo de Presidente seria Jorge Viana, do PT. Viana fará com que o impeachment se arraste meses. Como Renan já se declarou a favor do processo de interdição da Presidenta, deixou de interessar aos petistas. Só assim se explicaria porque Janot, que foi nomeado por ela para o STJ, nunca tenha avançado com os processos pendentes contra Renan, e agora mudasse de ideias. Mas é apenas mais uma teoria. No labirinto dos infernos em que se tornou Brasília, tudo é possível.

 

No entanto, tudo indica que a investigação da Lava Jato já é independente do impeachment, ou de qualquer outro acontecimento político. 

 

E assim, todas as semanas são abatidos mais alguns políticos, que nem melros. E a temporada de caça não tem fim à vista.

publicado às 16:58

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