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Bruxelas: todos os problemas da Europa concentrados numa cidade

Por: José Couto Nogueira 

 

Hoje, bombas em Bruxelas. Ontem, um terrorista apanhado e vários mortos num bairro babélico de Molenbeek. Anteontem, a polícia armada até aos dentes a entrar pela casa de famílias ilegais, marginalizadas e desempregadas. Todos os dias, circulam as limousines topo de gama dos burocratas mais bem pagos do mundo. Há dois anos, a Bélgica esteve sem governo durante dezoito meses. No norte do país fala-se uma língua medieval, no sul comunica-se em francês. É assim a Bélgica, um país refém de contrastes insolúveis e contradições aterradoras. Desde 1830.

 

 

As autoridades belgas são ajudadas pelos serviços franceses, mas mesmo assim tem uma dura tarefa nas mãos. Bruxelas, sendo sede da NATO e dos órgãos de topo da UE, o Conselho da Europa e a Comissão Europeia, tem exigências de segurança acrescidas. Bruxelas abriga deputados e funcionários de topo à distancia de um tiro de bazuca de magrebinos revoltados e muçulmanos excluídos. Para não falar nos seus próprios problemas étnicos, uma vez que os flamengos se recusam a falar francês, mesmo com estrangeiros, e os valões não se querem misturar com ninguém, nem flamengos, nem estrangeiros.

 

A polícia não tem uma reputação cristalina; entre 2008 e 2014 houve vários escândalos sexuais, de pedofilia em escolas católicas a uma orgia numa esquadra de policia, sem que as autoridades conseguissem investigar a tempo inúmeras denúncias. O corpo de segurança das zonas da Flandres não se comunica com o da Valónia e Bruxelas é um enclave francófono na zona flamenga. Depois há as antipatias fronteiriças entre franceses e belgas.

 

Bruxelas foi escolhida para sede dos órgãos principais da UE segundo aquele princípio que tem norteado as decisões da União: dar importância aos insignificantes, facilmente manipuláveis, porque nenhum dos poderosos quer ficar sob a alçada de outro poderoso. Bruxelas, Estrasburgo (a outra sede do Parlamento Europeu) Durão Barroso, Van Rompuy e Jean Claude Juncker, são bons exemplos destas escolhas do menor denominador comum.

 

Aliás, a própria existência da Bélgica é uma espécie de equívoco criado pelas conveniências dos grandes. Até 1830, fazia parte da Holanda, juntamente com o Liechenstein. Nesse ano, uma revolta separou a Flandres e a Valónia, que formaram um país dividido linguística e etnicamente, sob a batuta de um rei alemão inventado para manter a coesão, Leopoldo I. (É interessante que anteriormente Leopoldo tinha recusado a coroa grega, por achar o país demasiado instável.) Os grandes poderes europeus consideraram que era uma boa ideia um estado-tampão entre a França e a Alemanha, como garante de que não se guerreariam. Claro que, quando a Alemanha decidiu invadir a França, em 1914 e 1939, passou por cima da Bélgica sem grandes problemas.

 

Na Conferência de Berlim, em 1885, ao fazer-se a divisão da África entre os europeus (Portugal incluído) aquele espaço inexplorado ao norte de Angola, que ninguém parecia querer, foi dado de presente a Leopoldo II – não à Bélgica, mas ao rei, como propriedade pessoal. No início do século XX a opinião pública mundial ficou chocada com as atrocidades que os belgas cometiam no Congo, inclusive amputações de trabalhadores considerados preguiçosos. Calcula-se que tenham morrido dez milhões de nativos em condições inenarráveis. A reputação de Leopoldo II, que até fez reformas trabalhistas inovadoras na Bélgica, nunca se recompôs dessa barbaridade.

 

O que lá vai, lá vai. Os problemas agora são outros. Os valões e os flamengos continuam a não se entender, mas pelo menos já conseguiram formar governo. Dos hábitos pedófilos, que provavelmente são iguais em toda a parte mas ficaram como uma espécie de estigma para os belgas, não se tem falado. Em compensação Bruxelas continua a ser um problema maior do que o país – são todos os problemas da Europa concentrados numa cidade.

 

Por um lado, é o centro nevrálgico da União Europeia e da NATO, o que a torna uma cidade caríssima e com permanente falta de alojamento; por outro lado tem uma população muçulmana que quer mais é que a Europa que a rejeita desapareça do mapa. As autoridades belgas, tão mal vistas internacionalmente, fazem o que podem para resolver problemas que, nitidamente, as transcendem. Por outro lado, não querem que a ajuda dos serviços de segurança estrangeiros os subalternizem na sua própria terra. Mas alguém tem de proteger os generais da NATO e os comissários da Europa. E é preciso urgentemente limitar os imigrantes e arranjar-lhes uma ocupação – em Molenbeek, o desemprego atinge os 50%. Salah Abdeslam, o homem mais procurado da Europa, escondeu-se mais de um mês em Moleenbeck, o bairro onde nasceu e cresceu, sem que a polícia desse com ele. E um dos que o acompanhava até conseguiu fugir. Outros, insuspeitos, colocaram agora as bombas de retaliação. Bem perto da classe superior que discute interminavelmente o que fazer com os refugiados sírios e os marginais de Moleenbeck.

 

O que está a acontecer por estes dias em Bruxelas é uma metáfora do estado a que a Europa chegou.

 

 

publicado às 13:17

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