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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Camisola amarela. A volta do garoto.

Voltando atrás, ao Moncorvo da minha infância, a primeira vez que os vi passar iam eles rebentados a caminho do Alto da Ventosa, uma contagem de 3ª mas com um calor de terra quente, entre o Sabor e o Douro. Amarelas eram as mimosas, naquela tarde de Agosto, mais o Peixoto Alves em disputa com o Francisco Valada, ambos do 'Glorioso'.

 

Por: Márcio Alves Candoso

 

Camisola amarela. A volta do garoto.

 

O dia 4 de Maio de 1964 calhou a uma segunda-feira. O meu Pai meteu uma folga, das muitas em atraso que trazia de um trabalho de quase trinta anos. A minha Mãe não trabalhava, o que quer dizer que tinha a carga de trabalhos dos filhos, da casa e do marido. Fomos a Lisboa.

 

Estávamos nesse tempo em Rio Maior, terra de forcados que eu conhecia e tomates pelados da fábrica do italiano, e até Lisboa era, salvo erro, 80 quilómetros em pé no banco de trás do Volkswagen, com a mana a dormir ao lado e eu a perguntar porque é que aquela vila que ficava lá para trás, quando vínhamos de Coimbra, se chamava Venda-das-Raparigas.

 

Depois subi as escadas rolantes do Grandella, e lá estava ela, vermelha como a camisola do Eusébio na televisão a preto e branco, mas eu sabia que era vermelha, porque colecionava os cromos que embrulhavam os rebuçados com geleia dentro.

 

Tinha rodinhas atrás, não achei grande piada para um rapaz do meu tamanho. Há cinco anos que consecutivamente fazia anos a 4 de Maio, achava que já merecia mais respeito. Mas a Mãe insistia que tinha de ter rodinhas, e a mana aprendeu nela num ror de tempo, nunca caiu, que eu segurava, e ela deitava-me uns olhos do camandro quando percebia que eu estava a fazer batota e a deixava ir sozinha.

 

Eu é que esmurrava os joelhos e os braços, dos cotovelos à nuca. Uma vez, na Murtosa, não fui atropleado por um decímetro mal medido, andava fugido da Torreira na bicicleta roda 20.

 

Depois tive uma de 'cross', que me melhorou muito um defeito de coluna congénito, e que nem sequer deu para livrar da tropa. Mas da de corrida é que eu me lembro! O que eu suei para correr em 33 segundos e 1/3 a volta do quarteirão, que fazia parte dos 'jogos olímpicos de verão' da rapaziada lá do bairro. Fiquei em primeiro, ex-aequo, segundo o cronómetro do Zé Carlos, que o pai lhe tinha dado nos anos, em Dezembro. Isto já em 1975, como o tempo passa depressa em cima de uma bicicleta de corrida...

 

Voltando atrás, ao Moncorvo da minha infância, a primeira vez que os vi passar iam eles rebentados a caminho do Alto da Ventosa, uma contagem de 3ª mas com um calor de terra quente, entre o Sabor e o Douro. Amarelas eram as mimosas, naquela tarde de Agosto, mais o Peixoto Alves em disputa com o Francisco Valada, ambos do 'Glorioso', e quem ganhou nesse ano foi o Valada, no ano anterior o Peixoto.

 

Moncorvo conhecia bem as voltas que a Volta dá. Desde o primeiro ano, quando lá terminou a 11ª etapa, ganhou-o um tal de Santos Almeida – do Benfica, havia de ser do quê? O meu Pai lembrava-se de de 27, era ele garoto como eu mais tarde, em 1967.

 

Naquele dia fui com a Maria Eugénia, a 'Geni', mais a minha Mãe, para a curva ao cimo do jardim do lago dos peixes, das perpétuas e das rosas, e do café do Porfírio. No meio o cinema, onde vi passar as primeiras fitas, a 'Sissi' e até filmes mais fortes, como 'Por Quem os Sinos Dobram', quando me apaixonei pela espanholita que afinal era sueca, e não tocaram os sinos como eu pensava que tocariam, iguais aos que o Júlio 'Sacristão' brandia várias vezes ao dia.

 

Os bombeiros atiravam água, os populares pétalas, as varandas tinham colchas como em dia de procissão. O pateta embasbacava na roda das bicicletas, via-os a correr e num ápice apeava-se de suor e lágrimas, por solidariedade.

 

E a bicicleta, coitada, morreu arrumada no sótão da casa nova. Em Espinho, enferrujada pela maresia, já o Joaquim Agostinho tinha ganho uma série de voltas e os Alpes do esqui de Huez. Tudo em paz à nossa volta, as voltas que a vida dá, antes que a morte nos separe da roda viva. Até à Avenida da Liberdade...

 

 

Márcio Alves Candoso nasceu em 1959, no Douro. Ausentou-se para Lisboa, a título provisório, há mais de 30 anos, mas volta sempre ao local da vida. Foi jornalista profissional, mas agora só aparece às vezes, como os amantes -deram-lhe com os pés e ele ficou um tanto aborrecido. Entretanto, é escritor, colunista nos jornais, animador de redes sociais. Está vivo, graças a Deus, a ele, aos hospitais e à mulher de sempre. Ganha pouco, mas há quem ganhe menos, e ele tem consciência disso. Vai lançar em breve a segunda edição do seu livro 'Antes do Destino', ainda antes dos outros sete que tem na cabeça, na 'pen' e escritos em pequenos blocos. Sempre teve bicicletas e agora comprou um carro. No tejadilho, vai mandar implementar um suporte. Não suporta estar quieto e calado.

publicado às 10:57

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