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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Então isto não é uma guerra?

Por: Francisco Sena Santos

 

A guerra em curso ainda não entrou na Península Ibérica (desde a tremenda matança nos comboios suburbanos de Madrid, em março de 2004) mas estamos todos na linha de mira. Eles, os terroristas, escolhem lugares que estão no percurso da nossa satisfação: esplanadas, restaurantes, bares, geladarias, teatros, discotecas, hotéis, museus. E, naturalmente, também aeroportos. A estratégia passa por atacar-nos, de modo brutal, abominável, em lugares que estão ligados ao nosso prazer.

 

Do Bataclan de Paris à Holey Artisan Bakery de Dacca ou à mais antiga geladaria de Bagdad. Passando pelos aeroportos de Bruxelas e de Istambul, por hotéis em capitais africanas ou paragens de autocarros na Turquia. E tantos outros lugares que elegem para o seu teatro de horror. O autoproclamado “califado islâmico” está a mudar o modo de vida no mundo, aquele que invadiu e ocupou, e aquele que ameaça com os seus inúmeros grupúsculos, alguns rivais entre si, mas unidos no propósito de nos massacrar – eles dizem: castigar. Serão apenas umas centenas de assassinos, muitos deles que optam por imolar-se propondo-se como mártires, mas que devastam milhares de vidas e ameaçam com o seu terrorismo difuso milhões de pessoas. O papa Francisco, pessoa de palavras bem pesadas, já avisou que está em curso uma nova guerra mundial, dita de baixa intensidade.

 

É notório o atual recuo territorial do “califado” que também se apresenta como “estado islâmico”(EI). Já perdeu metade do território que controlava há dois anos no Iraque e na Síria. Um bastião, Falluja, a 56 quilómetros de Bagdad, foi recuperado há uma semana pelas forças governamentais iraquianas apoiadas pela aviação dos EUA. As tropas regulares estão em evidente reconquista. Um dia, talvez não muito distante, será a libertação da segunda cidade principal no Iraque, Mosul, e também de Raqqa, a cidade na Síria que se tornou o posto de comando do EI. A noção de “estado” na ideia de “estado islâmico”, embora nunca tenha existido Estado propriamente dito, está em colapso. Tal como a ambição de “califado”. O problema trágico é que o fim do território controlado pelo “EI” não significa o fim do “EI”. Porque o “EI” passou a existir em células terroristas dispersas pelo mundo. E o seu ideário trata de conquistar adeptos e combatentes entre os revoltados contra a ordem política, socioeconómica ou religiosa instalada. Admite-se que haja pelo mundo umas centenas de terroristas em células adormecidas, a que se juntam milhares de “foreign fighters” (julga-se que uns 30 a 40 mil) nos campos de treino do EI.  Têm agora menos território mas aparecem até mais perigosos a atacar-nos pelo mundo através de ataques suicidas.

 

A última semana foi de atroz violência do terrorismo islâmico associado ao “califado”: 42 mortos no ataque suicida no principal aeroporto de Istambul; 20 num restaurante de Dacca; 213 vidas dizimadas numa casa de gelados  e na área em volta em Bagdad. A estas vítimas acrescentam-se centenas de feridos. Ontem à noite o ataque foi em Medina, junto à Mesquita do Profeta, e em outras duas cidades sauditas.

 

Tudo se precipitou com a chamada, feita em 21 de maio, por um porta-voz do EI, Mohammed al-Adani, para um Ramadão de sangue. Ele chamou os seus seguidores à matança de civis, proclamando que “ninguém está inocente”. Desde então os ataques sucedem-se com alta intensidade. Basta percorrer o diário das notícias que já quase nem aparecem como notícia: explosão de carros-bomba em Bagdad, Falluja, Kerbala e Bassora, no Iraque; massacre de civis e militares em Deir ez-Zour, na Síria, e em Sirte, na Líbia. E mais, muito mais: 11 mortos em ataques, em 6 e em 21 de junho, na Jordânia; 20 civis mortos no ataque que em 24 de junho destruiu pelo fogo uma aldeia de Kot, no Afeganistão; 43 militares massacrados na caserna de Mukalla, no Iraque; sete civis mortos no ataque, em 27 de junho, à aldeia cristã de Al-Qaa, no Líbano. Depois houve, na passada terça-feira, o massacre no aeroporto Ataturk de Istambul e, neste fim de semana, as matanças em Dacca e em Bagdad.

 

Fixemo-nos no último ano e meio: primeiro foi a matança no Charlie Hebdo, em Paris. Depois passaram ao Magrebe: massacres no Museu do Bardo e na praia de Sousse, na Tunísia. Veio o ataque múltiplo de novembro, em Paris. E o terror nos aeroportos de Bruxelas e de Istambul. Pelo meio, muito mais chacinas cruéis, na Síria, no Iraque, no Paquistão, na Líbia, no Iémene, no Egito, no Líbano, na Jordânia, na Nigéria, no Mali e nas Filipinas. Houve o ataque a um café em Sydney. Também a matança, é certo que ainda por esclarecer, na Pulse, uma discoteca de Orlando, nos EUA.

 

Então isto não é uma guerra? O “EI” pode estar a ser eliminado dos mapas geográficos mas os seus terroristas ameaçam-nos cada vez mais, já não escondidos no imenso deserto, mas instalados, como lobos solitários ou em minúsculas células, a escaparem invisíveis aos serviços de intelligence, nas nossas cidades. Nas cidades europeias, nas cidades do mundo e nos lugares procurados por viajantes e turistas.

 

Como responder a esta ameaça geral é a necessária prioridade para quem define as políticas. É também um desafio para o jornalismo: como lidar com este espetáculo da crueldade terrorista? As imagens que nos são mostradas são quase sempre pornografia do horror. É facto que precisamos de saber para entender, mas talvez não precisemos de ver os detalhes obscenos do terror. Há o desafio de definir a fronteira entre o jornalismo que mostra o que importa para entendermos o que está em causa, e a exibição da orgia de sangue que até funciona como marketing (as vítimas como troféu) nas estratégias de comunicação e recrutamento dos terroristas.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA:

 

Tanta gente que admiramos e que desapareceu nestes dias: Abbas Kiarostami, artista eclético,  cineasta que realizou filmes plenos de poesia, filosofia e política; Elie Wiesel, farol insubstituível, símbolo mundial da dignidade, lega-nos o dever de perpetuar a memória do Holocausto;  Michael Cimino, o cineasta que mostrou com O Caçador a tormenta da América incapaz de conviver com a síndrome da derrota no Vietname; Michel Rocard, o ideólogo reformista que tentou mas não conseguiu reformar o socialismo democrático.

 

A sonda Juno já está na órbita de Júpiter. A NASA vai trazer para a Ciência notícias do maior planeta do nosso sistema solar.

 

O Brexit tornou-se Brexodus, está a dar cabo dos seus falcões: depois de Boris Johnson, agora a renúncia de Nigel Farage. O referendo britânico derruba mesmo todos os líderes políticos britânicos: Cameron caiu, Farage demitiu-se, Corbyn está na corda-bamba. Depois do Brexit, como votarão os holandeses se houver referendo Nexit?

 

Duas entrevistas no El País, para ler e reler: Koolhaas e Steiner.

 

O museu em Chaves projetado por Siza Vieira para mostrar Nadir Afonso.

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: esta. Mas também há o futebol, com o mercado de transferências a voltar aos portugueses, na véspera do salto para a final do Euro 2016.

publicado às 08:04

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