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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Gilberto, o homem que não pensa mas existe

Por: Márcio Alves Candoso

 

É taxista há quase 40 anos, e viveu a democracia quase toda agarrado ao volante de uma vida que não escolheu. É boa pessoa, acho. Não sabe onde vota. Perdeu o cartão, mesmo que já não haja, e ele não saiba que já não é preciso. Se não votar, não saberá nunca o que perdeu por isso. Se é que perdeu. Ninguém lhe passa cartão e ele responde mudo, do mesmo modo.

 

Gilberto mudou de concelho. Era o três mil e tal de Oeiras, agora não sabe que número lhe ferraram em Sintra. Sabe a matrícula do carro, e que tem de mudar o óleo aos 800 mil quilómetros, que aquilo já não é novo. Uma vez foi a Espanha, levou-o um tio. Viveu na raia, na serra, antes de vir para Lisboa, aos 14 anos. É um bocado gordo e corado. Tem cerca de meio século, e nunca foi a Lisboa, sítio onde vive há quase quarenta anos. Nunca viu, nem percebeu, onde estava. Se lhe doeu, já não se lembra.

 

Nem sequer emigrou. Não sabia a que horas era o comboio. Não sabia que havia um comboio que atravessa a fronteira, que, na que ele sempre conheceu - e que um dia o levou a Espanha -, não passa nenhum comboio, só um ribeiro que é 'Tajo' de um lado, sendo Tejo na leira que o escolheu para criança.

 

Gilberto não pensa, mas existe. E é casado com a Luzia, embora passe mais tempo com o taxímetro. O mesmo não se pode dizer de Catarina. Ou de António, Pedro e Paulo. Ou de Jerónimo. Estes pensam. Mas é difícil dizer se existem.

 

O povo saiu à rua e a rua ficou vazia. É quase sempre assim quando se vota. Não se nota a diferença entre o antes e o depois. Como é normal em democracia, aconteça o que acontecer amanhã, os transportes vão rodar, os bancos vão penhorar, o Chico da Mouraria vai continuar a cantar, e até a Rosa Maria, da Rua do Capelão, parece que tem virtude. Pelo menos relativa, quando cotejada com um sujeito que é lingrinhas, sentado à secretária da casa da Mariquinhas.

 

Será que chega? A fome, dizia um reitor da Universidade do meu tempo, enquanto palitava os dentes e sorria com as obturações e as pontes, depende da vontade de comer. E não é que o homem tinha razão? Os insaciados têm sempre duas faces, dois modos de ser advérbio. Normalmente são esfomeados. Mas aparentemente são gulosos. Depende de quem arrota por perto. É normal em democracia. É a abóbora da vida.

 

Portanto, e salvo erro ou omissão de Belém, amanhã temos o País estrugido num molho de bróculos. É quase normal em democracia, sendo que é pior se for ditadura. Raio de gente originalmente pecadora que, em mais de quatro mil anos de história humana, ainda não inventou alternativa de cima!

 

O resto, é o do costume. No PS afiam-se as facas longas, no CDS é-se do PSD e no PSD estabelecem-se primazias. No PCP celebra-se a vitória, mais uma das tantas que já conheci, mas quase nunca senti, em quarenta anos de democracia. E a Catarina tem olhos verdes, e basta ela.

 

Os filhos do Gilberto e da Luzia vivem à beira da porta das 'Partidas', num terminal de aeroporto que fica ao Norte de Lisboa. Sem saídas. Vão na fila do meio milhão que não esperou por eles. E os quase meio milhão de bandidos que, de forma corajosa, irresponsável - e tão lúcida que mete medo -, não têm deputado, e que esperam um dia sentar-se à mesa do fim da fome representativa, lá onde há um método de Hondt que faz de conta que eles não amam.

 

E os abstencionistas de Bragança, de Vila Real, de Viana, de Beja ou do ó da Guarda, e de todos os distritos que não há forma de serem nada. Ou são por um ou pelo outro, que é o mesmo de antes com outros contornos, mas calçado nos mesmos coturnos. Condenados à igualdade, são os inferiores do reino.

 

E os desempregados que duram para lá do subsídio, e que estagiam no pão duro de uma entrevista sem forma, a três euros e mais não digo. São tão estafermos, tão indignos, que até são menos do que realmente são.

 

Lá vamos. Rindo com o PS de esquerda, de costas para qualquer margem. Cantando com a social-democracia, de passos que já não voltam. Dançando com a agri-mentira deportados de reforma. Escutando os amanhãs que não sobram, de Jerónimo e os seus apaches. E ainda assim Catarina, menos caviar e champanhe, mas mais 'presunta' e mais 'tinta', teatralmente conseguida.

 

Quando chega ao fim da rua, um dia de fim de vida, o Gilberto desliga o taxímetro. São nove euros e mais uma corrida. Sobram-lhe uns trocos.

 

Valentes e imortais.

  

publicado às 00:28

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