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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Governar bem também pede utopia

Por: Francisco Sena Santos

 

A tarefa dos políticos consiste em resolver os problemas. Marcelo Rebelo de Sousa, intuitivo a entender o essencial, logo que o governo de António Costa foi empossado tratou de murchar o ímpeto de quem andava pela direita encrespado em guerrilhas, ao comentar que “a crise passou, o passado terminou, entrou-se numa nova fase, que é uma fase de futuro”. Marcelo também avisou que “não interessa prolongar o clima de crise política, os portugueses querem é ver resolvidos os seus problemas concretos”. Passou o tempo de Cavaco e dos azedumes. Nem mais.

 

António Costa já nos tinha mostrado, por exemplo na Câmara de Lisboa, como é um político focado e robusto, realista e que realiza. Os últimos meses revelaram-no desastrado na comunicação política de campanha – defeito a que até se acrescenta desleixo na oralização de algumas das palavras. Mas Costa tem uma visão política de bem comum e sabe criar equipas para a concretizar. Consegue meter dentro do pragmatismo uma certa dose de utopia. Todos sabemos como o pensamento utópico costuma ser empurrado para a prateleira do que não é realista. Mas bem nos explica Zygmunt Bauman como a utopia é essencial ao progresso.

 

Este sociólogo britânico de origem polaca, professor emérito na Universidade de Leeds, autor deste inspirador texto Living in Utopia, argumenta que a existência de utopia é determinante para reformar o mundo. Requer a perceção de que as coisas não estão a funcionar adequadamente e que devem por isso ter os seus fundamentos revistos para que sejam ajustadas. Outra condição para concretizar a utopia é, ainda segundo Bauman, a confiança no potencial humano e ter força e coragem para superar os obstáculos. Estamos em tempos que requerem dos políticos capacidade para atuar sobre o que os rodeia e conseguir pilotar a mudança.

 

Costa escolheu para a cerimónia de posse como chefe do governo um discurso claro, atraente, confiante. Fez o retrato sem hipocrisias dos estragos sociais causados pelos últimos anos em deriva com a austeridade, mas logo a seguir afastou o tempo lúgubre e prometeu “de uma vez por todas o reencontro das prioridades da governação com os projetos de vida dos portugueses que têm direito a ser felizes aqui”. Ao reconhecer centralidade às políticas de Ciência, Cultura e Educação confirmou que escolhe um tempo novo.

 

O novo governo tem promissora gente nova no protagonismo político. Manuel Heitor, ministro da Ciência, vem do topo da equipa de quem considero o político que nas últimas décadas mais fez avançar Portugal, Mariano Gago. Tudo faz crer que, outra vez com alguém que cultiva pensar e fazer, vai voltar o investimento nas pessoas para a investigação e a inovação. João Soares tem o instinto político e a curiosidade culta que o recomendam como o ministro da Cultura que tem faltado – o que fez na Câmara de Lisboa atesta o mérito. Não tenho dados para construir desde já opinião sobre Tiago Brandão Rodrigues na Educação, mas espero boa Saúde em Portugal com o ministro Adalberto Campos Fernandes, há muito a preparar-se com competência para a função. O elogio a Francisca Van Dunen na Justiça é generalizado. Azeredo Lopes na Defesa é outra das boas notícias – poderia ser o escolhido para os Negócios Estrangeiros e também seria um promissor ministro acrescentando a visão de “o outro” nas perspetivas da política externa portuguesa. Também muito boa confiança na condução da Modernização Administrativa com a reconhecida Maria Manuel Leitão Marques. Poderíamos acrescentar o Planeamento, o Mar, o Ambiente e outras pastas com expectativa positiva. Deixemos o tempo mostrar. Obviamente, a tarefa é muito, muito complexa. Pedro Nuno Santos tem boa pinta para conduzir a coordenação entre as esquerdas.

 

Para as cruciais pastas económicas e financeiras temos aqui no SAPO quem tenha o melhor saber para analisar. Por mim, um lamento, o de que este governo não tenha um ministro com grande peso político e sabedoria técnica para os assuntos europeus – estou a pensar em alguém como Elisa Ferreira ou Seixas da Costa.

 

Muito da confiança em bons resultados da governação portuguesa passa pelo rumo da Europa. É preciso europeizar a Europa, voltar a valorizá-la com a sua alma solidária, culta e tolerante. Neste momento, quatro dos países do sul da Europa (França, Itália, Grécia e Portugal) têm governo com matriz de esquerda e todos preconizam maior flexibilidade nas regras orçamentais de modo a acrescentar fôlego à Europa. Pode ser um impulso para uma Europa mais solidária depois da opção por uma Europa financeira e utilitária imposta pela realidade da economia e dos mercados. Não é só Portugal que precisa de sair da crise, é a Europa.

 

TAMBÉM A TER EM CONTA: 

 

Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e outros 25 gigantes da high-tech com Bill Gates como porta-voz foram à COP-21 em Paris anunciar uma aliança, que inclui líderes da China e da Índia, para acelerar o desenvolvimento de energias limpas. A parceria junta países e empresas. Esta conferência de Paris, com as vontades políticas já anunciadas na cimeira, vai ser o ponto de viragem para o planeta?

 

Os espanhóis votam daqui a três semanas em eleições que vão mudar a paisagem política do reino. Única certeza: o PP de Rajoy vai perder a maioria absoluta. Mas é improvável que saia do governo na coligação que vem a seguir. A campanha entrou na reta final com este debate que tem a novidade de ter sido organizado pelo El País para (muito eficaz) difusão digital.

 

Cada pessoa é uma pessoa. É uma das mensagens essenciais do Papa ao atravessar, ao longo de cinco dias, a consciência do continente africano.

 

Os refugiados são a maior crise deste nosso tempo. Aqui está um excelente incentivo e teste aos valores e à generosidade de todos.

 

Os jornalistas do “i” criaram, em seis anos, um jornal diário que, apesar das sucessivas trocas de propriedade e de direção, tem identidade e acrescenta. Nada se faz sem recursos. Nada se consolida em sucessivas derivas. O esvaziamento anunciado da redação é uma lástima que anuncia o fim do “i” tal como tem sido. O “Sol” está apanhado pela mesma turbulência que vem de Angola.

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje: esta, e também esta.

publicado às 09:55

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