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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Grã Bretanha: o divórcio de um casamento que nunca existiu

Por: José Couto Nogueira

 

 

Os homens, que nunca sabem bem o que querem - ou querem várias coisas, conforme a temperatura - gostam de dizer que as mulheres estão sempre a mudar de ideias, quando de facto elas é que são muito bem focadas nos seus objectivos. Esta analogia do relacionamento homem-mulher foi usada incontáveis vezes durante os meses de especulação em torno do referendo inglês sobre a permanência na UE.

 

E com razão. Ela, a Grã Bretanha, que nunca quis realmente um compromisso, aceitou a contra gosto uma união de facto atamancada, e abalou sem razões credíveis, porque nestas coisas do coração a razão fica sempre à nora. Enquanto aceitou cohabitar, a madame ora seduziu ora se fez difícil para receber miminhos, e recusou presentes para ganhar outros maiores; enquanto ele, o Continente, andou de cabeça perdida a ameaçar de dia e a rojar-se aos pés à noite, mostrando sempre a sua fraqueza e cedendo constantemente, para acabar abandonado como um amante que perdeu o interesse.

 

Pois é verdade, o Reino Unido, apesar de historicamente seguir sempre os seus interesses económicos, desta vez deixou o orgulho, um sentimento tão perigoso como o despeito, tomar conta da decisão. Os ingleses acham-se únicos, não só na personalidade dominante, como também na capacidade de resolver sozinhos todos os problemas que o destino imperial levanta. Apesar do Império se ter esfumado a partir de 1939, continuam com a mentalidade imperial e recusam-se a reconhecer o pouco que pesam no mundo cada vez mais aglomerado em blocos. (Nós, portugueses, que fomos Império há muito mais tempo e ainda sentimos o amargo de boca de já não ser, podemos compreender este sentimento muito bem. Os espanhóis também.)

 

De onde vem essa proa toda? Além do Império onde o Sol nunca se punha, os ingleses (com escoceses e irlandeses pela trela), desenvolveram a sua democracia mais cedo e dum modo diferente do resto do Ocidente. Também a exercem através dum sistema que lhes é muito próprio. O poder popular em Inglaterra vem do Parlamento e desde 1689, sendo depois aperfeiçoado através de várias afinações; nos outros países europeus o começo da democracia tem uma data exacta, a Revolução Francesa de 1789, mas posteriormente houve avanços e recuos, retornos ao poder absoluto, ditaduras e outras experiências menos felizes. Os ingleses acham o seu sistema tão superior que nunca o quiseram exportar, precisamente para manter a vantagem competitiva. Quando governaram em Portugal, estando o D. João VI eternamente hesitante no Brasil, foi a chicote, não quiseram aqui um parlamento igual ao deles, nem pensar. (A democracia americana é do modelo francês, via Jefferson, e não dos ingleses, que eram o inimigo.)

 

Uma diferença notável está precisamente nos referendos; até agora o Reino Unido só teve três: o de 1975, em que 67% dos eleitores votaram a favor da entrada na Comunidade Europeia, outro em 2011, para mudar o mecanismo eleitoral (que não foi aprovado) e o de ontem, onde a separação foi decidida por uma curta margem.

 

Os estudos da opinião pública em relação a este referendo mostram numericamente como o conceito conservador do Império e do pretenso privilégio de ser inglês está enraizado na população: os rurais, os menos educados, mais pobres e mais velhos eram a favor da Grã Bretanha separada do Continente, enquanto, os urbanos, os mais habilitados, mais afluentes e mais novos – modernos e informados - eram a favor da permanência.

 

Mas agora a questão já não é mais se os ingleses ficam ou não ficam. Agora a questão são as consequências desta separação. Por um lado, o que vai acontecer às relações entre Grã Bretanha e a UE; por outro, o modo como os países do Continente vão reagir à atitude inglesa e à chantagem que estão legitimados a fazer, para obter os privilégios que os contestatários tinham.

 

Voltando à analogia do casamento, depois da senhora exigir um tratamento especial que deixava os amigos e vizinhos entre incrédulos e irritados, com certeza que não vai ganhar uma grande pensão de alimentos nem ficar com as simpatias no bairro. Baixando o nível da conversa para mostrar a realidade nua e crua, o que o amante abandonado está a pensar é “Olha-me esta! Fez o que quis, saía e entrava às horas que lhe dava jeito, cozinhava mal, e agora ainda quer ficar com o iate, a casa de praia e a tutela dos miúdos... Vais ver, vais! Acabaram-se os vestidos da Prada e o cartão de crédito !”

 

Quem manda na União Europeia é a Alemanha, e o querido Sr. Schäuble, que nós tão bem conhecemos, já tinha avisado, naquele tom anunciador de maus ventos, que as coisas não podem continuar como estavam. E entre os pequenotes da família, não faltam reguilas que também queriam sair de casa e que, inspirados e aviltados por estas intempéries da madame, estão predispostos ao motim. São os casos da Holanda e da Dinamarca, que já ameaçam com referendos afins. A Polónia, sempre mais conservadora que o Sínodo, também não quer certas interferências na legislação de cunho moral. A Hungria já caminha para o IV Reich e a Grécia está farta de esfregar escadas. Se a dona Albion sempre fez o que quis, porque hão-de ser eles a amochar? E a Turquia, senhora de físico abundante e modos de burgesa, é um downgrade que entra pela casa dentro, perto da finesse da ex-wife.

 

Depois, há a suspeitíssima alegria dos maus. Quem era a favor do Brexit? Putin, porque enfraquece a Europa; Trump, por razões que só ele sabe mas que, sendo dele, só podem ser más; e Marine le Pen, porque acha que sobe o estatuto da França em detrimento dos outros. Como salientou um comentador – não nos lembramos qual, de tantos que zoavam – só bastava as opiniões destes três para votar contra a saída do Reino Unido.

 

Dentro dos países que ficam, e que inevitavelmente sentem a sua quota parte da rejeição, embandeiram em arco todos os partidos de direita, reaccionários e nacionalistas – menos em Portugal, originalíssimo, onde é a esquerda radical que não gosta da Europa.

 

Também se pode esperar que esta crise seja sinónimo de oportunidade, como dizem que dizia o Lao Tsé, ou o Confúncio. Mas esses eram chineses, devem estar a preparar-se para inundar o Continente com imitações espúrias de Range Rover e Miss Selfridge. A Europa não tem um histórico de transformar apertos em auto-estradas.

 

Há muito quem diga que é o fim do projecto europeu. Não será tanto, mas que tem o sabor e o odor do princípio do fim, é inegável. Apesar da Grã Bretanha achar que são eles e nós, nós sem eles sentimo-nos mancos, não há como negar. Além disso, a dinâmica da integração europeia era, por natureza, inclusiva e sempre a andar para a frente. Nunca se previu, nem sequer se especulou, o que aconteceria com um recuo. Nem sequer sabemos como se irá processar este desenlace, quais as consequências para pessoas e bens.

 

Os analistas revezam-se a especular nos vários cenários possíveis. A partir de hoje, passa-se da especulação à realidade. Melhor não será, com certeza, como vamos começar já a sentir.

 

 

publicado às 11:04

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