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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Já não se espreita a vizinha?

 Por: Márcio Alves Candoso (jornalista)

 

 Quando Hugh Heffner largou o emprego na prestigiada 'Esquire', e decidiu lançar uma revista que fosse só sua, fê-lo com uma certa diletância aventureira, com um espírito muito 'pós-guerra', de ver o que aconteceria e decidir depois o que fazer com isso. Nem pôs data no primeiro número, acreditando, segundo ele, que não haveria um segundo.

 

A revista tinha mulheres, as miúdas giras que eram suas vizinhas, e que ele entendia que eram as mesmas vizinhas, com outros olhos e boca e pernas, que eram vizinhas de todo o mundo. Mas também a fotografia, depois famosa, de uma actriz em ascensão, comprada por uma boa maquia ao fotógrafo que tinha convencido Norma Jean Mortensen a tentar ser Marilyn Monroe.

 

Mas a 'Playboy', que esteve no centro da revolução sexual dos anos da brasa e do 'flower power', já não diz nada ao jovem da 'geração Y', o mais perseguido pela publicidade actual, e que se habituou que não é preciso muita conversa para levar à certa a vizinha do lado. Playboy? Quem quer ser igual ao pai?

 

Num golpe de asa já não desnuda, os editores da 'Playboy' decidiram o óbvio – acabaram-se as mulheres nuas. Já ninguém espreita a vizinha, e se ainda os há de olhos focados no proibido, são hoje mais os de olhos em bico, já que a China, por estes dias, faz na empresa 40% do 'cash-flow' liberto ano após ano. Eles e os da Europa Oriental, sítios onde Carrie Bradshaw, por um lado, e Pamela Anderson, por outro, ainda não comandam.

 

Aos 63 anos, a revista mais famosa do mundo tornou-se 'conservativa', mudando. Aos do meu tempo, já não fará companhia, já não nos alimentará o sonho e a virtude moderna quando fizermos 64. Será que ela vai trancar a porta se eu chegar depois das quatro? Talvez nem McCartney tenha pensado nisso...

 

A decisão de tornar a 'Playboy' cativa de outros olhos foi tomada em Conselho de Administração, perante uma plêiade de representantes de grupos-alvo, e com quadros de 'excel' bastante sisudos passados no écrã gigante da sala de reuniões da sede. Factos: vendiam-se 5,6 milhões de revistas em 1975, não mais que 800 mil em 2015. A edição norte-americana dá prejuízos sólidos e líquidos de 3 milhões USD por ano.

 

Tudo isto existe, tudo isto é triste, porque o paradigma mudou. A internet tem, à distância de um 'clic', todas as posições e desnortes que a fantasia quiser. Roubaram o nicho à 'Playboy' e sucedâneas. E esta vai tentar a verdade suprema do capitalismo – sobreviver. Cory Jones, o editor-chefe da revista, diz que lamenta que 'o rapaz de 12 anos que há dentro de mim já não possa usufruir deste prazer'. 'Mas o mundo mudou', acrescenta.

 

A 'Playboy' vai desvendando o que o futuro lhe reserva. Colunistas femininas, focadas numa 'sexualidade mais positiva', artigos sobre arte e bebidas, que chamem o homem de 30 anos e que não ponham de parte as mulheres que já provaram na vida e que da vida já provaram bastante. Os publicitários aplaudem. É esse o 'target' urbano, emergente. Os rústicos que comprem a 'Gina', os miúdos que vejam as 'amateurs' e as 'teens', as 'milf' ou os 'threesome' dos sites.

 

É um regresso à verdade. A 'Playboy' quer passar nos círculos para 'maiores de 13 anos', publicitar a sua 'mensagem' no FaceBook, no Instagram, sem ter medo da censura. Se não podes convencê-los, vende-te a eles. É uma hipótese de provérbio, não mais do que isso.

 

'Sexo, jazz, Picasso e Nietzshe', diz uma nota interna citada nos 'mainstream' dos Estados Unidos, a propósito da novidade explícita da reserva implícita no olhar que muda. Se a vizinha for parva, apesar de gira, não vai ter nada que ver com a nova revista americana. Terá de arranjar outros que a espreitem.

 

Mas a 'Payboy' sabe do que fala, porque sempre foi mais que uma 'centerfold' nua, mais ou menos com cara de cama. Quem entrevistou Jimmy Carter – que confessou 'pecar', olhando a revista -, quem deu à estampa as opiniões mais recônditas de Fidel Castro ou pôs a falar de sexo Bob Dylan e Martin Luther King, quem publicou o próprio Jack Kerouac em tempo de vacas gordas, não terá grandes dificuldades em percorrer esta estrada. Até porque, na internet, ela já está tentada – desde Agosto de 2014 que o 'website' da revista não tem mulheres despidas. E as 'page views' aumentaram 400%! É outra malta, esta. 

 

Mas calma! Só da edição dos EUA é que vão desaparecer as vizinhas giras. Na publicação internacional vão estar lá todas, todos os meses. O rabo escondido com o gato de fora diz muito da actualidade americana. Não está fácil ser homem no Tio Sam (e aqui devia ir um 'emoticon' com sorriso malandro, para a descongestão da textualidade).

 

No princípio dos anos 80, na Rua Direita de Coimbra, uma velha trabalhadora das casas com luz vermelha queixava-se das 'estudantas'. Que as 'grandes p.' lhes tiravam o negócio, já não eram meninas como antigamente. Eu, que nunca fui ao 'antigamente', acredito que a 'Playboy' vai ter um futuro risonho. Mas mais bem vestida...

 

 

publicado às 17:25

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