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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Já vimos um filme parecido com este

Por: Paulo Ferreira

 A cada dia que passa a Europa torna-se um local mais instável. Em caso de tempestade, a debilidade da nossa economia, das nossas finanças e dos nossos bancos fará de Portugal uma das primeiras vítimas. Tudo isto recomendaria um reforço da cautela, das margens de segurança e de “dinheiro nos cofres” para eventualidades. Mas vamos seguindo o caminho contrário.

 

Sabem aquela sensação de “déjà vu”? Tudo isto não vos faz lembrar nada? Já vimos um filme com um desenvolvimento de enredo muito semelhante a este.

 

Os alertas cada vez mais frequentes e mais ruidosos vindos de fora. São analistas de bancos internacionais, agências de rating, instituições internacionais como a Comissão Europeia ou o FMI e alguns responsáveis europeus. Uns alertam para os riscos de aumento da dívida pública, tornando-a ainda mais insustentável. Outros falam da necessidade de tomar medidas para que o défice orçamental deste ano se cumpra. Todos apontam o optimismo do cenário macroeconómico em que tudo isto está assente.

 

Bastou que um deles tenha sido Wolfgang Schauble, o ministro das Finanças alemão que adoramos odiar, para que a atenção se fixasse no mensageiro e nas suas maquiavélicas intenções e não na mensagem. E esta devia fazer-nos parar para pensar e verificar contas.

 

Já vimos um filme parecido com este, onde o optimismo e a confiança do governo destoava cada vez mais do que estava à volta. Diz-se que a contas estão certas, que não são necessárias mais medidas, que está tudo a correr conforme previsto.

 

Também já vimos no passado que o primeiro-ministro fica cada vez mais isolado nesse papel. O próprio ministro das Finanças fez o alerta, em entrevista ao Público, para a necessidade de corrigir previsões macroeconómicas para este ano. Mas António Costa apressou-se a dizer que “os dados estão lançados e dão contas certas”. Não se sabe quem fez estas contas, se haverá um ministro-sombra das Finanças no próprio Governo que saiba o que mais ninguém parece saber. O que parece evidente é que a uma degradação do cenário económico costuma corresponder uma necessidade de revisão das contas públicas.

 

Outro dado que não é novo é o recurso a imprevistos externos para justificar derrapagens internas. Como se dentro de casa estivessemos a fazer tudo com segurança, consistência e executando um plano com poucos riscos. Nesta matéria, o Brexit ameaça ser o novo “o mundo mudou”. Servirá para justificar tudo e mais alguma coisa.

 

Já vimos um filme parecido com este, onde a cada mês os dados da execução orçamental são festejados e apresentados como prova inequívoca e definitiva de que tudo está no trilho certo. Gostava muito que fosse verdade mas as variações intra-anuais de despesas e receitas não permitem comparações directas. As análises mais detalhadas que foram feitas sugerem mais cautela sobre o andamento das contas públicas. Do outro filme sabemos que as boas execuções orçamentais mensais resultaram invariavelmente em desastres no fim de ano. O mesmo se passava com as emissões de dívida pública, que eram “vitórias” regulares. Como se viu.

 

O filme que vimos no passado não acabou bem, como sabemos. Agora, estamos ainda a tempo de rever o guião, produzindo um daqueles surpreendentes “volte face”. Porque nada é pior do que entrar para ver uma comédia-romântica bem disposta em que tudo só pode acabar bem e sair da sala depois de um desfecho de tragédia.

 

A cada dia que passa a Europa torna-se um local mais instável. O Brexit é um caminho desconhecido, com impactos económicos e financeiros imprevisíveis. Em caso de tempestade, a debilidade da nossa economia, das nossas finanças e dos nossos bancos fará de Portugal uma das primeiras vítimas. Tudo isto recomendaria um reforço da cautela, das margens de segurança e de “dinheiro nos cofres” para eventualidades. Mas vamos seguindo o caminho contrário, esperando que seja o mundo a adaptar-se às nossas contas e não o contrário.

 

Já vimos um filme parecido com este. Esperemos que o desfecho seja radicalmente diferente.

 

Outras leituras

  • Mas há coisas que correm bem, como o turismo. Vamos ver se conseguimos não estragar esta parte?

 

  • Se as forças armadas não conseguem recrutar candidatos num país onde a taxa de desemprego jovem é de 30%, atingindo mais de 100 mil pessoas que até aos 25 anos querem um emprego e não o têm, então a resposta só pode ser uma: as forças armadas estão a fazer alguma coisa de errado.

 

 

publicado às 09:39

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