Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

Jornalismo. Ou então vídeos de gatinhos

Por: Rute Sousa Vasco 

 Ontem foi lançado o livro “O Independente – A máquina de triturar politicos”, da autoria de Filipe Santos Costa e Liliana Valente. Pode parecer presunçoso, mas é claro que uma história destas tinha que ser contada por jornalistas. Porquê? Porque faz falta ter sentido, nem que seja uma vez na vida, esse turbilhão de emoções e sentimentos que se sente quando se está na iminência de dar ou de perder uma notícia. E ter por objectivo ‘dar notícias’, como rotina e com regras, ainda é trabalho desse grupo de pessoas que se chamam jornalistas. Like it or not.

 

O mundo de 2015 é muito diferente do mundo do final dos anos 80 e do início dos anos 90 em que o O Independente nasceu e singrou. E sendo certo que o O Independente é uma história muito singular e cheia de episódios rocambolescos, esse mundo é o mesmo em que projectos de referência como o Público, a TSF e a SIC nasceram. É tentador dizer que o mundo era o mesmo, mas os objectivos não. É tentador dizer que o O Independente sempre foi, antes de tudo, um projecto politico enquanto os outros foram, antes de tudo, projectos jornalísticos. É tentador e em boa parte verdade. Mas também é verdade que, à distância que mais de 20 anos permitem, seria miopia não reconhecer que dificilmente um projecto de jornalismo não é, de alguma forma, um projecto politico. E que tomar parte por ideias e causas, já agora, não é uma coisa má. É parte da democracia e do exercício de cidadania, desde que feita com regras e de forma transparente.

 

No mundo em que o O Independente nasceu não havia internet, menos ainda redes sociais, menos ainda modelos de negócio de media. A equação era simples. Os jornais tinham de se vender. Mais jornais vendidos era igual a mais pessoas a lerem as notícias. E porque mais pessoas estavam a ler as notícias fazia sentido colocar ao lado publicidade que empresas e marcas pagavam. Simples ou nem por isso. Não tenho grande memória de O Independente ser um projecto de grande atracção comercial. Estes eram os tempos em que o arquitecto Saraiva tinha ‘inventado’ o saco de plástico para vender o Expresso (o mesmo que ainda hoje perdura). E lembro-me de muitas campanhas no Expresso, além do saco que o transportava, mas não tenho igual memória de uma ‘máquina’ comercial tão forte do lado do O Independente.

 

No mundo em que o O Independente nasceu e no Portugal em que o O Independente nasceu, o jornalismo livre era tão jovem quanto a democracia. Foi o mesmo mundo em que um empresário como Belmiro de Azevedo, em curva ascendente na economia portuguesa, a estrear conceitos novíssimos como os de hipermercado, decidiu financiar um projecto de jornalismo de referência chamado Público. E fez tudo como deve ser feito: com os melhores jornalistas, com formação de gente nova, com tecnologia, com ambição.

 

O jornalismo – seja o do O Independente, seja o do Público – custa dinheiro. É preciso contratar pessoas que saibam pensar, antes de saber escrever ou falar. Pessoas que tenham cultura, que tenham curiosidade, que tenham humildade de perguntar o que não sabem. Pessoas que se submetam voluntariamente às regras de uma profissão que, diga-se o que se disser, tem regras. O jornalismo precisa de leitores, ouvintes, espectadores. É para isso que é feito – para os outros. Quando o jornalismo se torna um loop de e para jornalistas, politicos e meia dúzia de indigentes sociais, falhou na sua essência. Nunca gostei da expressão o ‘quarto poder’ e menos ainda da sua caricatura ‘o quarto do poder’. Quanto maior o poder, maior a responsabilidade, é por aí que as coisas devem ser vistas e escrutinadas.

 

O mundo de 2015 é diferente do mundo em que o O Independente nasceu. Hoje mais do que exemplares vendidos, falamos de cliques, de shares, de likes. Hoje confundimos mais, muito mais, volume e qualidade. Hoje lemos mais – talvez se deva dizer que hoje consumimos mais conteúdos. Não é detalhe, na realidade importa que hoje consumimos mais media. Hoje o problema é o excesso da oferta – a selva da informação, não o deserto. Hoje há outros que não os jornalistas a criar conteúdo em blogs, redes sociais, e também em media. Ainda bem.

 

O que hoje não está resolvido e é importante resolver é como vai ser paga esta liberdade vital que é fazer informação. Exceptuando aqueles que tinham móbil politico, as notícias que o O Independente publicava estiveram sempre nos antípodas daquilo que a classe empresarial, por natureza prudente e conservadora, entenderia como um investimento de marketing interessante. As notícias que o O Independente publicava dificilmente poderiam ser ‘conteúdo patrocinado’. O conteúdo de marcas será, certamente, uma das formas com que devemos contar neste presente e futuro para financiar os projectos de media – mas as notícias não se patrocinam. A notícia é, numa das suas melhores definições, aquilo que alguém não quer que se saiba.

 

Em que ficamos, então? Num mundo que vive de escala, o que valem 10, 20 ou 30 milhões de visitas a um site? Ali ao lado, porque as fronteiras desapareceram, estão os gigantes, sejam os media globais, sejam os chamados over the top como Google, Facebook ou Youtube que hoje têm os negócios – realmente – lucrativos, já agora sem terem de produzir um único conteúdo. Agregando, relacionando, partilhando.

 

Nos jornais de hoje, recordam-nos como foi o arranque do O Independente fundado por Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas. Conta o Observador: «Começar é fácil», escreveu Miguel Esteves Cardoso, na primeira linha de uma das suas coletâneas de crónicas de O Independente. Só faltava o dinheiro. E gente. Detalhes.

 

Fazer jornalismo custa dinheiro. Criar conteúdos originais custa dinheiro. Saber como é que se paga a conta é das discussões mais relevantes economica e politicamente. É por isso que hoje os jornalistas não se podem demitir de compreender o negócio de media, que já agora é o negócio da tecnologia, que já agora é o negócio da internet. É por isso que empresários, gestores e também politicos têm de fazer um pouco mais que a gestão preguiçosa by the numbers. Os números dizem-nos alguma coisa – não nos dizem tudo. Os números servem para ser interpretados e traduzidos na realidade, não para nos fornecer desculpas cómodas.

 

Ou então podemos simplesmente só consumir vídeos de gatinhos. São sucesso garantido de audiências.

 

Leituras sugeridas e zonas de desconforto

 

Já que falamos de media e de cidadania, aqui fica um estudo publicado pelo jornal Social Science Computer Review sobre facebook e envolvimento cívico de homens e mulheres.

 

Para o fim de semana que se aproxima, a primeira sugestão vai mesmo para o livro de Filipe Santos Costa e Liliana Valente, “O Independente – A máquina de triturar politicos”. Se estão com dúvidas, naveguem por esta galeria de capas e perceberão com o que podem contar.

 

Na televisão, estreia hoje em Portugal uma séria atípica, estranha, complexa, perturbadora. Chama-se Mr.Robot, pode ser vista na TV Séries e promete-nos uma zona de desconforto episódio a episódio.

publicado às 10:49

1 comentário

Comentar post

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D