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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Match Point

Por: Francisco Sena Santos

 

O protagonista de Match Point, numa frase definidora deste filme (Woody Allen, 2005), enquadra o efeito do acaso no instante decisivo: “Numa partida de ténis há momentos em que a bola roça a borda da rede e numa fração de segundo tanto pode seguir para a frente como cair para trás; com um pouco de sorte, segue em frente e ganhas, sem essa ponta de sorte não passa e perdes”. Analisando resultados eleitorais e sondagens pelo mundo, fica-se com a sensação de que estamos nessa fração de segundo de indefinição.

 

Há muita curiosidade sobre como será o que vem a seguir neste tempo em que por todo o lado prospera o voto anti-establishment da opinião pública que, exasperada com anos de más políticas, arrisca dar força a entidades que fazem do protesto a sua arma mais forte. Reino Unido, Itália, Espanha e Estados Unidos são arenas para alguns dos próximos confrontos que podem redimensionar a paisagem política.

 

Nos Estados Unidos, Hillary Clinton vai conquistar hoje na Califórnia os votos que lhe garantem a investidura como candidata presidencial do Partido Democrata. Mas o rival republicano, Donald Trump nunca pareceu tão capaz de conseguir chegar ao match point de novembro e ter a sorte do lado dele. Há quem compare Trump com Reagan: quando anunciaram a candidatura, as hipóteses de êxito pareciam nulas, levavam a sorrir. Depois, com algum sobressalto, disse-se que era impensável vê-los na presidência dos EUA. A seguir, instalou-se a possibilidade forte. E Reagan até foi um presidente que entrou para a história: apertou a mão a Gorbachev em Moscovo e, depois de ameaçar disparar os mísseis, presidiu ao fim da “Guerra Fria”. Mas a semelhança entre ambos, para além da filiação no Partido Republicano, parece-me ser a origem nos palcos do espetáculo, e nada mais. No essencial, são diferentes: Reagan sorria sempre e falava com otimismo da América como farol da humanidade, usava como lema “a cidade que ilumina o mundo”; Trump escolhe o desdém, despreza imigrantes e até quer um muro para barrar acessos à fortaleza América. Mesmo assim, segundo as sondagens, se o match point fosse jogado hoje, Trump, o demagogo, até poderia ser o vencedor. Há mais de 50 milhões de pessoas dispostas a entregar-lhe o comando dos Estados Unidos. 

 

Em Itália, o primeiro round das eleições municipais mostrou uma tão grande irritação dos eleitores com os partidos tradicionais que o castigo eleitoral leva um movimento antipolítica, o 5 Estrelas (M5S), fundado pelo comediante Beppe Grillo, a aparecer favorito para, no dia 19, lhes conquistar a liderança em cidades como Roma ou Turim (o caderno eleitoral do M5S privilegia a atitude à competência). No caso de Roma, a campanha M5E contra a corrupção político-administrativa do município mal-governado, leva a que a sua jovem candidata Virginia Raggi tenha prometida uma vitória de cinco estrelas. Em outras cidades, como Milão, Turim ou Bolonha tudo está em aberto para o match point daqui a duas semanas. Sendo que o partido de Berlusconi está estilhaçado e o do primeiro-ministro Renzi muito amachucado.

 

Em Espanha, o match point joga-se uma semana depois, no dia 26, com a repetição das eleições gerais, após seis meses de impasse e governo interino. A campanha já está a ser áspera e renhida. O eleitorado que nas últimas quatro décadas votou bipolarizado entre PP e PSOE está agora a rasgar com essa tradição: em todas as sondagens nenhum partido chega aos 30%, o PP ronda uns insuficientes 28% e o Podemos, partido saído do protesto nas ruas em 2011, com inflexibilidade esquerdista, surge a seguir a apenas três pontos percentuais. O histórico PSOE aparece asfixiado na terceira posição com apenas 20%. Tudo pode acontecer, incluindo mais impasse para ser conseguida uma maioria nesta Espanha com 20% de desemprego.

 

Pelo meio, entre o voto italiano e o espanhol, na quinta-feira dessa crucial semana política, há o referendo britânico, reconhecido como transcendente. Ninguém sabe o que vai acontecer, se vai dar Brexit (o Reino Unido a sair da União Europeia) ou Bremain (a permanecer). As sondagens mostram os dois campos ombro a ombro, agora com um pulso de vantagem dos que querem sair. Vale ter em conta um estudo de opinião publicado pelo Financial Times: as pessoas com menos instrução e menos rendimentos são maioritariamente pelo voto Brexit; os mais jovens, os que têm mais estudos e melhores rendimentos são pela permanência. Outra diferença é notória entre votantes citadinos (maioritariamente pela continuidade na Europa) e rurais (contra). Estudos feitos nos EUA revelam tendências que colocam os grupos que votam Trump com estratificação que, apesar de complexa, se assemelha à dos que optam pelo Brexit no Reino Unido. Será legítimo concluir que os menos instruídos e os mais apertados em rendimentos são mais propensos ao discurso dito populista? Parece. O que está evidente é que temos pela frente ao dobrar da esquina várias situações de match point político. Com risco de minas por despoletar no terreno do jogo. E com o problema de os eleitores votarem mais por motivação negativa que por entusiasmo ou sequer adesão. Falta magia nestes jogos.

 

VALE VER OU OUVIR:

 

Como já estão a ser (energéticos, animados) os escritórios do futuro.

 

Viagem fotográfica ao século XIX.

 

Um olhar da vizinhança sobre nove outros museus em Lisboa. E o Jardim das Delícias no verão de Madrid.

 

Como lidamos com a informação que nos chega?

 

Duas primeiras páginas escolhidas hoje no SAPO JORNAIS: esta e esta.

publicado às 08:20

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