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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Não se consegue controlar estas pessoas. Ou um filme que já todos vimos.

O telefone tocou, a taxista activou a opção "alta voz" e eu, no banco de trás, fui espectadora do que se seguiu. “Muito bom dia, tenho o prazer de estar a falar com a senhora fulana de tal?”. A taxista confirma, enquanto continua a driblar o trânsito de Lisboa. “Senhora fulana de tal, fala do Banco X e estou a ligar-lhe para lhe oferecer um novo cartão de crédito que estamos a disponibilizar a clientes seleccionados por nós. O cartão permite …”.

 

A frase é interrompida pela minha condutora, que atalha imediatamente caminho: “Não estou interessada”. Do outro lado da linha, não se desarma. “Senhora fulana de tal, mas não tem vontade de fazer aquela viagem com que tanto sonhou ou mesmo apenas ter mais alguma liberdade nas compras deste Natal?”. A taxista começa a ficar francamente irritada. “Só faço viagens quando tenho dinheiro para as pagar e não faço uso de dinheiro que não é meu”. A voz do outro lado acusa um ligeiríssimo requebro, mas recupera. “Mas o que estamos a propor é apenas que tenha mais folga com o seu dinheiro, afinal de contas dá sempre jeito”.

 

Silêncio. “Ouça, não estou interessada. Eu sei como vocês funcionam. Por causa das vossas ofertas, o meu filho meteu-se em grandes problemas e foi uma trabalheira para se livrar deles. Já lhe disse que não quero dinheiro que não tenho e não vale a pena continuarmos com esta conversa”. Pensei que tudo terminaria aqui. Enganei-me. Nova investida: “Mas acha que os bancos é que foram a causa dos problemas do seu filho? Ou não terá sido ele que não soube gerir o seu dinheiro e por isso teve problemas?”. A este ponto, acreditei que a mãe taxista iria meter travão a fundo e partir para a ignorância. Não o fez. Apenas respondeu, em voz firme: “É porque os problemas são nossos e não vossos que não estou interessada. E agora tenho de desligar porque estou a trabalhar”.

 

Este episódio ocorreu antes do Natal de 2015, nos dias que se seguiram ao que agora denominamos “caso Banif”. O banco que se estima ir custar mais uns valentes milhões a todos nós, contribuintes e accionistas do Estado. Alguém escreve os guiões para estes raids dos call centers. Mas isso não é o que realmente importa. O mais relevante é que alguém autoriza, nas administrações dos bancos, que sejam feitas propostas desta natureza suportadas em diálogos como aquele a que assisti. Nas mesmas administrações que em almoços, conferências, ou sempre que os bancos são convocados para participar em iniciativas que possam ajudar a sociedade e a economia, se lamentam do garrote com que vivem nos últimos anos. Do quão difícil é, hoje em dia, ser banqueiro e gerir um banco.

 

São as mesmas pessoas. Podem até ter outros nomes, mas são as mesmíssimas pessoas que lá estavam há oito anos quando a bolha estourou do outro lado do Atlântico e arrastou tudo e todos. Uma mesma classe, com os mesmos vícios e tiques, em que as excepções – que existem – não conseguem domar a regra. Não conseguem mudar a regra.

 

Até Outubro de 2015, o crédito à habitação tinha disparado cerca de 70%. Até Junho do ano passado, o crédito ao consumo tinha também crescido 21,5%. No mesmo ano, em que a economia portuguesa cresce 1,5% e o desemprego, apesar de ter diminuído, ainda é de 12,4% (dados de novembro 2015).

 

Ontem estreou o filme The Big Short – A queda de Wall Street, baseado no livro do jornalista americano Michael Lewis, autor reincidente nos relatos sobre a tribo financeira. Em entrevista ao Expresso, em Outubro de 2014, Lewis dizia, “Coletivamente, comportaram-se como idiotas totais. O problema é que não se consegue controlar as pessoas: esta gente de Wall Street não é leal ao sistema e à empresa, eles são leais a si próprios e ao próprio lucro".

 

Ainda não vi The Big Short no cinema. Mas tenho a certeza de que já todos vimos este filme.

 

 

OUTRAS LEITURAS E DEBATES

 

O ano de 2016 começa sob a égide das mulheres na política portuguesa. Duas candidatas à Presidência da República, Maria de Belém e Marisa Matias, e uma candidata à liderança do CDS-PP, Assunção Cristas. Inevitavelmente, regressaram também as discussões sobre o género na política. Um tema a acompanhar, fazendo desde já votos para que este não se transforme, como também costuma acontecer, num debate das quotas.

 

E porque foi uma semana triste no mundo do espectáculo, apesar de balizada por dois grandes eventos/momentos, os Globos de Ouro e as nomeações para os Óscares, deixo-vos com uma polémica à Tarantino: usar a palavra ghetto é ou não um acto racista?

 

E para nos deixar com os olhos nas estrelas, aqui fica uma descoberta chamada ASASSN15lh. A supernova mais brilhante da história.

 

Tenham um bom fim de semana!

publicado às 10:49

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