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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O ano do entusiasmo com a Web Summit de Lisboa

Por: Francisco Sena Santos

 

O vocabulário, ampliado com novas palavras que refletem as novas realidades, dá-nos uma medida da imensa aceleração que está a caracterizar esta primeira década e meia do século XXI. As redes sociais, nascidas com o novo milénio, tal como todo o sistema de comunicação, a economia, a alimentação ou até os modos de vida, engendraram um vocabulário inédito, expressões, anglicismos, acrónimos, que definem muitos dos recursos do nosso dia a dia.

 

Em 2000 ninguém sabia que estava para aparecer uma enciclopédia universal multilingue (funciona agora em 291 idiomas) e de acesso gratuito e instantâneo chamada Wikipédia. Ainda ninguém falava de Twitter ou de hashtag. Selfie, post, chat, emoji ou bitcoin são outros dos novos termos que passaram a ser banais. Tal como o prefixo E (e-book, e-commerce) ou acrónimos como COP21, LGBT, YOLO ou LOL. A quinoa alimenta a virtude dos alimentos sem glúten neste tempo de suplementos energéticos. E quem imaginaria que os Oxford Dictionaries escolheriam GIF (Graphic Interchange Format), palavra que irrompe como verbo para significar o intercâmbio de imagens em ficheiros na web.

 

Não podemos imaginar que novos termos vai introduzir 2016. Alguns poderão ser palavras-chave num grande acontecimento global que este ano se instala em Lisboa, com mais de 40 mil participantes, entre 7 e 10 de novembro: Web Summit 2016. É a grande cimeira da web e das startup. Há quem lhe chame o “Forum de Davos dos geeks”. É uma maratona onde são mostradas as novas tendências do empreendedorismo com base na web e onde milhares de startup vão mostrar as suas inovações.

 

Quando em setembro passado Paddy Cosgrove, o fundador, em 2011, da Web Summit, anunciou a transferência do evento de Dublin (onde se realizou nos últimos cinco anos) para Lisboa, assumiu um duplo elogio a Portugal: à alta qualidade do acolhimento em Lisboa e à boa nova aventura que está a ser o empreendedorismo inovador de tantos portugueses. Os bons exemplos são múltiplos: da Unbabel que revoluciona os processos de tradução à Uniplaces, plataforma que ajuda os estudantes Erasmus a encontrarem alojamento, passando pela premiada Codacy, a empresa que Jaime Jorge fundou com o nome de Qamine e que desenvolveu um serviço destinado a empresas para rever automaticamente e encontrar falhas em códigos informáticos ou a Talkdesk, de Cristina Fonseca e Tiago Paiva, que permite criar um call-center em cinco minutos.. E há, com origem em Portugal, vários outros unicórnios, jargão utilizado para referir startup avaliadas em mais de um milhão de dólares. Há muito empreendedorismo português a conseguir resultados estimulantes na expansão internacional e a Web Summit, em novembro, vai ser uma grande montra global com alto potencial para gerar novos financiamentos.

 

UMA LINHA VERMELHA DESGRAÇADAMENTE ULTRAPASSADA

 

A Web Summit em Lisboa é uma boa expectativa para 2016. Mas este novo ano começou logo ao segundo dia com uma notícia que rompe as piores previsões: a Arábia Saudita, com um conceito de “justiça” semelhante ao da organização que se apresenta como Estado Islâmico (EI), depois de no ano passado ter executado mais de 158 pessoas, agora, no primeiro sábado do ano, voltou às execuções em massa, com o enforcamento ou fuzilamento de 47 homens que o regime saudita considera terroristas. Entre esses 47 executados está o clérigo Nimr al-Nimr, um pregador pacifista, líder religioso da comunidade xiita da Arábia Saudita – é uma minoria, representa cerca de dez por cento dos 18 milhões de naturais da Arábia Saudita. A população xiita concentra-se na região oriental, a mais rica do território saudita por ser a grande mina do petróleo. Nimr al-Nimr destacou-se ao liderar, em 2011, o segmento saudita da chamada “primavera árabe”. É decapitado por ter liderado um protesto democrático.

 

Esta execução é uma bomba contra o processo de estabilização que está a ser tentado no Médio Oriente e rebenta com a coligação regional oficialmente em campo contra o EI. Está desencadeada a rutura, simultaneamente religiosa e política, entre as duas principais confissões muçulmanas, entre sunitas e xiitas, e entre as potências confessionais rivais, Arábia Saudita e Irão, máximas zeladoras da ortodoxia de cada uma dessas comunidades. Estamos não apenas perante o mais recente capítulo da guerra secular entre sunitas e xiitas (a cisão vem do tempo da sucessão ao profeta Maomé no ano 632 D.C.) mas também perante um efeito da revolução energética desencadeada pelos avanços tecnológicos dos EUA e que fez tombar o preço do petróleo. A petro-monarquia saudita parece não estar capaz de conter o seu desespero e tenta assim, através de mensagens como esta, mostrar-se poderosa.

 

Junta-se a este inquietante cenário uma lástima ocidental: é uma desgraça que a Europa e o conjunto do mundo democrático, que sempre tem cultivado uma aliança acrítica com as monarquias do Golfo, continue estrábico frente à feroz e medieval ditadura saudita que oprime a oposição e os direitos humanos.

 

Com esta provocação saudita a procura da paz que se quer conquistar fica pior que antes. A área de conflito e guerra no Médio Oriente corre o risco de ficar ampliada.  Bem alerta o Washington Post para este risco de cenário de catástrofe. The Independent chega a perguntar se a estratégia saudita não passará por fazer destroçar o acordo nuclear conseguido com o Irão.

 

Por entre tudo isto, o Ocidente, que se fica pelos protestos de circunstância perante o desdém saudita, não só perde espaço de manobra para a pacificação, como perde mais no estatuto que reivindica de consciência humanista global.

 

 

TAMBÉM A TER EM CONTA

 

Uma primeira página escolhida hoje no SAPO JORNAIS: o Charlie Hebdo, com a imagem de um deus assassino armado com uma kalachnikov, denuncia “os fanáticos embrutecidos pelo Corão” e puxa para título “um ano depois, o assassino continua em fuga”. O jornal está vivo mas os assassinos continuam por aí. Lá dentro desta edição há textos de Isabelle Adjani, Juliette Binoche, Charlotte Gaingsbourg, Elizabeth Badinter, Ibrahim Maalouf e Taslima Nasreen. Tiragem: um milhão de exemplares. Riss, atual diretor do Charlie, clama que em 7 de janeiro do ano passado, com 60 disparos em três minutos, a eternidade caiu-lhes em cima. E continuam a ousar rir também do religioso, claro.

 

Obama, a um ano do final do mandato presidencial, reabre o combate pelo controlo da venda de armas de fogo nos EUA. Precisa de dar a volta ao Congresso para levar a melhor nesta luta impossível contra o flagelo da violência nos Estados Unidos.

 

Espanha e a Catalunha estão em impasse governamental após as duas eleições. O líder socialista basco já avisou que o espetáculo dado pelos barões do PSOE é lamentável: valem mais os interesses pessoais ou o interesse nacional? Mais explicações aqui. 

 

Capicua, “voz de todos nós”Aqui.

 

publicado às 07:14

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