Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

O Bom Ano

Por: Márcio Alves Candoso (nota: alguns dos lugares, instituições e factos narrados são meras fantasias do autor; outros são verdadeiros)

  

Chegou apressada, só com tempo para mudar a cara, cheia da areia do Sahara que lhe ficara do ano e meio que passou no sul do Sudão. Mafalda não mudou. Mandou às malvas o curso de Nutricionismo, onde ninguém a convenceu das virtualidades dietéticas da sopa, e embrenhou-se na 'Feed the World', uma ONG que passa a vida a dar comida aos desafortunados que insistem em se cruzar com ela. Desencantada do mundo, já não precisa de fita métrica para medir o globo terrestre, e constatar que a redonda face do planeta, pegue-se-lhe ao trópico ou ao meridiano, dá sempre o mesmo resultado: 'contigo não há regime que resulte'. Um gordo cheio de fome, suspira.

 

Quando recebeu o telefonema de Calvin, velho amor-ódio de vida, levou o regresso a sério. Calvin tinha acabado de cumprir serviço à comunidade no Grande Estado da Pensilvânia, única forma de se safar da cadeia depois do desfalque em que foi enrolado na 'Michaels & Douglas', a casa de investimento nova-iorquina em que trabalhara, e que faliu depois da bolha imobiliária. Calvin tinha jurado fazer dinheiro, esse mesmo que Bill Waterson, seu pai adoptivo, não quisera ganhar. Ganhou juízo. Ou não, pensava Mafalda.

 

A ideia era passarem o ano novo juntos. Havia a hipótese de uma revolução na Argentina, mas era mesmo com o regresso a casa que Mafalda sonhara todos estes anos fora – antes do Sudão, do Ruanda e antes ainda da Angola mais profunda. Para Calvin, Buenos Aires ou Singapura tanto se lhe dava. A Argentina tinha mudado de presidente, e um pouco por toda a América Latina havia história, da brava, em cada momento que corria. Dos Andes à Amazónia, quem não pecou que atire a primeira pedra! E foguetes impróprios por todo o Orenoco cercado de Bolívar.

 

Não era por isso, contudo, que Calvin ia deixar de se meter com as miúdas que tinha conhecido uns anos antes numas férias em São Domingo. Na festa do 'Piso Compartido', na noite de 31 de Dezembro, a sua revolução ia mais pela 'tequilla' que pelos tangos de Piazzola ou as armas de Roberto Perdia e dos 'Montoneros'. Mafalda, enamorada dos pantomineiros rotos da rua, sentia-se confortável nas festas de esquina de Puerto Madero. Mas o que ela queria era ver as pessoas que lhe faltavam, lá na areia que ainda trazia agarrada na parte da Alma que partira.

Raimundo Fagner, por sua vez, tinha acabado de chegar de Lisboa, onde encontrara mais poemas de Florbela Espanca para musicar as musas que já tinha. Depois de 'Fanatismo', passara uns dias na biblioteca de Vila Viçosa, enamorando-se do Alentejo. 'Minh'alma de sonhar-te anda perdida, meus olhos andam cegos de te ver'... Daí partira para as 'asas no ar', as raparigas 'flores desabrochadas em canteiros', que 'mostram por entre o ouro das espigas, os perfis delicados e trigueiros'. Geraldo Vandré, o que não queria que dissessem que não falou das flores, compreenderia? Ia perguntar a Vinicius, quando o encontrasse no Caminito, repousado em wisky puro.

 

Trouxera também Natália e Ionesco, que o romeno das soluções imaginárias passara lá no 'Botequim' da Graça, onde 'tudo é de todos e não é de ninguém'. Como a triste Ângela Maria, que nunca foi mãe, e que tinha o destino da lua, 'a todos encanta, não é de ninguém'.

 

O grupo brasileiro atravessara os rios que os separam, por uma vez sem ódio pela cauda argentina, e ao passar o Paraguai tentara convencer Graham Greene a despojar-se do corpo de Clara, naquele quarto à beira da fronteira onde se lembrava da infância às vezes, do barulho do ar condicionado outras tantas. O ar condicionado... Mafalda acordou do sonho africano. Graham Greene não viria. 'Mas isso não evitava o que Vinicius escrevia, num qualquer ano que findava. 'A tristeza está no fundo de todos os sentimentos como a lágrima no fundo de todos os olhos. Sejamos graves e prodigiosos, e sejamos também irmãos e amigos'.

 

Mafalda penteou a 'rai's que parta da trunfa rebelde' e calçou os sapatos de boa sola que tinham ficado lá em casa, à espera de melhor estrada que a da terra onde gastou as botas que Bob Geldof lhe tinha trazido de Itália. Um sonho que ia para lá de Homero e do Mar Mediterrâneo, de onde partira tanto futuro argentino no século que passara, tantos como as mentiras que hoje o atravessavam, rumo ao paraíso que não havia. A morte perseguia mesmo os que se isolavam, e disso tinha fugido Mafalda quando leu Ellery Queen, chamado Deus num vale perdido da Califórnia, antes do assassínio da profecia que ele não inventara, mas que acabava no fim da curta história.

 

Calvin ainda lá não estava, à espera dela. Atrasava-se, como tantos defeitos que tinha. A maldade não era bem a sua praia, era mais algo que o perseguia, como o nome que trazia, fruto de uma perversa interpretação de um cristão suíço quinhentista, que se esqueceu da alegria quando leu a Bíblia. O Calvin e o Hobbes, o de má memória, cinismo intacto de má filosofia, e que não passa pelo simples crivo da sapiência de um tigre de peluche. O ar aquecia, naquele fim-de-tarde, de fim-de-ano de Buenos Aires, e Calvin não viu as miúdas giras de São Domingo. Deu antes de caras com um edifício de tijolos vermelhos, onde se lia:

 

'Ver en el día o en el año un símbolo

de los días del hombre y de sus años,

convertir el ultraje de los años

en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso

un triste oro, tal es la poesía

que es inmortal y pobre. La poesía

vuelve como la aurora y el ocaso'.

 

Borges. Um cavalheiro de Buenos Aires, à altura da dignidade de uma bengala e absorto na sua cegueira e biblioteca, a quem nada acontecia, mas tudo ao outro, o que escrevia o que ele imaginava. A seu lado estava agora Natália e mais atrás Florbela, de braço dado com o irmão que nesse dia, por encanto, não morria. Calvin demorava a olhar este mundo que não conhecia - Natália era tudo o que não havia no 'Beckett's' ou no 'Ulysses', na Pearl St., três quarteirões acima de Wall Street, onde os rapazes da NYSE afogavam as comissões de bolsa e as comichões nas bolas. E Natália ria só com metade da boca, mas com alma e meia e com boquilha.

 

Quando Mafalda chegou, já noite escura no hemisfério onde o sol bate em Dezembro, as notícias abriam o olhar daqueles que tinham começado cedo a saga de partir à aventura das ruas electrizadas de La Boca ao Puerto Madero. Não se divisava agora se eram os reflexos das estrelas que Gardel cantava, os estoiros coloridos dos foguetes de ano novo ou as bombardas no rio da vida toda de que Borges falara, esse Rio de La Plata ou de Homero em Ítaca, 'el arte es essa Ítaca de verde eternidad, no de prodigios. También es como el rio interminable que pasa y queda y es el cristal de un mismo Heráclito inconstante, que es el mismo e es otro, como un rio interminable'.

Pedia-se um panteísmo aos revolucionários argentinos, num ano novo que nunca escolhe o tempo em que se mostra ao povo, em aceno de varanda descamisada. Mátria por um momento de Eva, Florbela e Natália num mesmo tempo fora de época e de assunto, fora da história que a segunda não compreendia e a terceira acertava ao passo de um tango ou de um pézinho de gaúcho emigrado. Numa orgia contida. Num poema amado. Numa 'batalha pelo passado imortal'.

 

Chove em Buenos Aires, cidade da luz que falta nos olhos do seu maior. Diz a BBC que esta noite é de 'El Niño', mas o coração 'porteño' não se acaba antes da conquista de la Bombonera. Mafalda está lá, coração de Quino, coração tamanho do Mundo que Calvin traz no fundo do rio sem retorno. Os brasileiros sambam no outro Rio e Vinicius senta-se ao som de um banho na Catarata de Iguaçu. A revolução é do tamanho do amor e de um operário que construiu Ipanema.

 

No 'Maduro Tango' toca Piazzola, 'Libertango'. Dançam na rua raros rapazes e raparigas que ainda não perceberam. Ouve-se do outro lado da avenida, onde a rádio já consuma a revolta, a 'milonga' vária das mulheres deixadas pela claque violenta que nunca dorme, os 'LA 12' da Bombonera. Clark Kent chega de Nova York – que digo eu, de Metropolis – e 'El Niño' treme ao vê-lo na noite 'caminera'. O jornalista antecipa-lhe a destrutiva emenda dos erros humanos, e salva a pátria num teclado a mil batidas por minuto. É tudo sonho, é tudo fruto de um bom ano que se quer novo.

 

No topo sul do estádio, há uma janela larga no restaurante alvo, o '1905' construido pelo amor do povo de Evita e pela ideia de um 'Crónico', construtor igual ao de um qualquer terceiro anel luzidio. Ionesco resume a azáfama das pernas soltas na dança apaixonada, os navios armados no Rio de la Plata, os relâmpagos e a pirotecnia por uma vez abraçados. 'Não é a resposta que nos ilumina, mas sim a pergunta'. Dormita Mafalda, já cansada da jornada, mas ainda assim atenta ao rumo da revolta. Sorri para Calvin e parece ver-lhe nos braços um tigre de peluche. Vão para casa. Borges apalpa o relógio na parede da biblioteca. O ponteiro salta um minuto, e o passado cede o passo a um futuro incessante de desejos. 

publicado às 15:13

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D