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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O mérito é uma ideia perigosa

Por: Rute Sousa Vasco

 

O mérito é bom. A meritocracia é uma ideia de uma sociedade evoluída. Mas, como acontece em tantas outras situações, nada pior para estragar uma boa ideia – uma ideia com mérito – do que usá-la a pretexto de tudo e de nada e esquecê-la olimpicamente quando efectivamente deve ser invocada.

 

Os últimos anos foram populados de mérito. A torto e a direito. Nas políticas, nas empresas, na vida social, o termo tem sido usado como prova de progresso civilizacional. Já não somos cabotinos!, quase se escuta em alguns discursos à força de tanto se sublinhar que tudo isto é agora uma questão de mérito. É como se, cada vez que alguém invoca o mérito e a meritocracia, vestisse um manto diáfano ou um colete à prova de balas, dependendo da perspectiva.

 

Sim, vou querer falar da excitação desta semana referente à nomeação de governantes oriundos de minorias étnicas.

 

Mas não só.

 

Recuemos um pouco na História.

 

A palavra mérito deriva do latim (meritum), mas a introdução do conceito de meritocracia é bem mais recente. Em 1958, o termo emergiu pela mão do politico e sociólogo inglês Michael Young, que o usou pela primeira vez no livro The rise of the meritocracy. Tratava-se de um ensaio satírico e futurista sobre o Reino Unido, projectado como um país governado por pessoas escolhidas pela sua inteligência e aptidão antes de qualquer outra, chamemos-lhe assim, força de pressão. No livro, Michael Young questiona a legitimidade do processo de escolha dominante em Inglaterra para se ser membro da elite que governava, bem como os resultados de uma governação assente neste tipo de grupo de ‘eleitos’. The rise of meritocracy desafia as duas ideias que a palavra elite encerra – a ideia do que existe de melhor numa sociedade (a conotação positiva), mas também a ideia de uma minoria que se auto-nomeia e perpetua (a conotação negativa).

 

Este inglês, um dos grandes pensadores contemporâneos de políticas sociais, nomeadamente no âmbito da escola como primeiro crivo de quem é bem sucedido ou não, começou por falar de meritocracia pelas piores razões, as que excluem, não as que incluem. Cunhou também expressões como minorias criativas e elites inquietas. Alertou também para os danos colaterais de uma sociedade progressista em que escolhamos quem nos lidera pela inteligência e pelas aptidões. Um homem inteligente não é forçosamente um homem bom ou o melhor … Uma visão avisada, uma espécie de alerta vermelho à arrogância que daí também pode decorrer – e que se aceita como dano como natural. “Qualquer escolha de um é a rejeição de muitos”, escreveu Young.

 

A ideia de meritocracia tem uma longa história. É identificada como um pensamento de Confúcio e de outros filósofos da época e foi usada a primeira vez no século II a.c., na China, na forma de exames destinados a avaliar o mérito dos funcionários escolhidos para servir o país (neste caso,a Dinastia Han). Uma ideia, vamos admitir, bastante revolucionária para um império – avaliar mérito em vez de escolher simplesmente pela preferência, reverência ou mesmo ascendência.

 

Da China a ideia chegou à Índia britânica já no século XVII e daí à Europa e aos Estados Unidos. No mundo ocidental, do iluminismo até hoje, da política à vida nas empresas, a ideia de meritocracia tem sido vista como uma linha de divisão entre o Antigo Regime e uma nova concepção de mundo em que o favoritismo e o cabotinismo cedem perante ideias maiores como inteligência, aptidão e esforço.

 

E aqui estamos nós, em pleno novembro de 2015. Aqui estamos nós, umas semanas depois de um politico canadiano ter sido amplamente elogiado, à esquerda e à direita, pelas suas escolhas de governo (diversificadas, inclusivas). Aqui estamos nós, em Portugal, entretidos de, ao fim de 41 anos de democracia e de 21 – vinte e um! – governos, termos uma primeira mulher e negra como ministra, uma primeira mulher e cega como secretária de Estado e um primeiro governante filho e neto de ciganos.

 

Não havia como não falar do tema e, contrariamente ao que muitos dizem, não é por causa dos media que se tornou um tema.

 

Estas são primeiras escolhas, são primeiras vezes. E, como tal, vão ficar na História e assinalam um marco.

 

Alguns de nós podem sentir-se ligeiramente incomodados com o que esta evolução tardia também diz de nós. Será mesmo credível que nestes 41 anos, nunca nenhum membro de uma minoria tenha tido mérito para ser escolhido para a elite que nos governa?

 

Outros, pelos vistos, sentiram um arrepio na espinha. As escolhas ditas inclusivas mereceram de vários nossos compatriotas comentários paleolíticos. E estamos em novembro de 2015.

 

Como falámos tanto da cor da pele, da etnia e da autonomia física isso deve querer dizer que já estamos resolvidos com o tema da inteligência e aptidão como critério de escolha. Isso já deixámos para trás das costas – já não somos cabotinos, lembram-se? Pois, mas parece que também não. Porque há um ministro da Educação que era, até há uns dias, investigador numa das mais prestigiadas universidades do mundo e que protagonizou um dos avanços celebrados em todo o mundo na detecção do cancro. Se há coisa que não deve faltar a Tiago Brandão Rodrigues é inteligência e aptidão. Mas nem por isso deixou de ser uma escolha criticável. Demasiado novo, demasiado inexperiente.

 

Demasiadas mulheres, falta de mulheres, demasiadas minorias, falta de minorias, demasiado novos, demasiado velhos. Podemos sempre avaliar a escolha de um e a rejeição de outros em regime de quotas.

 

Pessoalmente, não faço ideia se as escolhas ‘inclusivas’ do Governo de António Costa são boas ou más. Resistirei sempre à ideia de que já são boas porque são minorias. E nunca terei qualquer simpatia com quem se incomoda porque são minorias. Tendo a pensar que, como em outras coisas, o novo primeiro-ministro está demasiado sedento de inundar vários sectores da sociedade de boas notícias, o que me deixa preocupada para o tempo em que chegarem as notícias más ou menos boas. Mas, mais importante que isso, é que – usando uma expressão tão cara ao presidente Cavaco – as deixemos trabalhar. Depois disso podemos falar de mérito e de meritocracia e deixar de falar de cor de pele, ascendência, grau de autonomia física e outras características que não deveriam ser nunca referência para decidir quem governa e quem não governa.

 

 

Significado de Mérito

mé.ri.to 

  1. características que tornam alguém digno de apreço
  2. aquilo que alguma coisa tem de bom, de apreciável
  3. valor moral e intelectual
  4. aptidão, capacidade
  5. superioridade, excelência

 

(no Dicionário da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2015)

 

 

OUTRAS IGUALDADES E OUTROS PROBLEMAS

 

Porque é que as mulheres não conduzem camiões? Ou porque é que tão poucas escolhem ser camionistas. Já não é por razões de força fisíca e este é mais um universo a mudar de forma. A BBC conta como.

 

De repente, um país que tomos tínhamos como calmo senão mesmo monótono entra pelas notícias e Bruxelas torna-se uma capital sitiada. Afinal de contas, o que é se passa na Bélgica e com a Bélgica? Houve quem falasse de um ‘Estado falhado’, termo que não usaríamos para uma democracia ocidental e que também parece uma declaração manifestamente exagerada.

 

 

 Nota: Este artigo foi editado às 12h28 de 27 de novembro de 2015. 

 

 

 

 

publicado às 10:32

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