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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O passado é sempre imprevisível

Por: Rute Sousa Vasco

Só mesmo os desatentos podem pensar que afinal está tudo na mesma. Nesta segunda-feira, dia 13 de junho, Espanha assistiu ao debate entre os quatro principais candidatos às eleições de 26 de junho. Rajoy, Sánchez, Rivera e Iglesias. Um debate que contou com uma audiência de 10 milhões de pessoas e que, de acordo com os analistas, se tornou tanto mais relevante quanto maior é percentagem de indecisos, 32,4%, segundo o El Pais.

 

O debate visto pelos olhos de uma portuguesa, esta portuguesa, teve várias notas dignas de registo.

 

A primeira, mesmo que seja do timbre espanhol, é a capacidade de chamar os bois pelos nomes e de não temer o confronto. Assim se ouviu, a título de exemplo, que Rajoy, líder do PP, enviou SMS de conforto ao tesoureiro do seu partido, figura central numa investigação de financiamentos ilegais e alegado detentor de contas paralelas de milhões de euros em bancos na Suíça; assim se ouviu que Iglesias, líder do Podemos e crítico do enfeudamento dos partidos à banca, obteve financiamento da Venezuela de Hugo Chávez. As palavras são ditas, sílaba a sílaba. A indignação, que tão precioso apanágio é da classe política, manifesta-se, mas fica dito e registado.

 

A segunda nota é a forma como os números se tornaram a mais potente arma de arremesso. Foi um debate cheio de números: do défice, do desemprego, das pensões, do investimento. Todos os candidatos os tinham e todos os manejaram a seu bel-proveito. É evidente a forma como estes anos da crise europeia nos afectaram a todos – e Espanha, mesmo sem troika, não é excepção. Hoje é fundamental fazer a pergunta: como quero que seja usado o dinheiro dos meus impostos? Os cidadãos estão, finalmente, a perceber que o dinheiro do Estado é o seu dinheiro e que por isso não só têm uma palavra a dizer como contas a pedir a quem gere. A parte perigosa desta evolução de cidadania é o seu excesso, nomeadamente nas mãos de políticos e gabinetes experientes na arte do excel. Um número em si mesmo não contém uma verdade absoluta. Muitos números jogados para cima das pessoas podem simplesmente tornar qualquer verdade invisível.

 

A terceira nota é a naturalidade com que Espanha já assimilou uma efectiva mudança de moldura política. No debate a quatro estiveram dois nomes impensáveis há cinco anos: Rivera, dos Ciudadanos, e Iglesias, do Podemos. Lado a lado com os líderes vamos chamar-lhes clássicos, Rajoy, pelo PP, e Pedro Sánchez, pelo PSOE. Não foi por acaso que alguns dos momentos mais agudos do debate foram protagonizados, respectivamente, por Rajoy/Rivera e Sánchez/Iglesias. Em Espanha, não se discute apenas uma eleição. Discute-se a evolução da espécie – lá como, aliás, no resto do mundo.

 

De resto, a vida em Espanha sigue corriendo. A noite de Madrid continua animada, o Museu do Prado tem polícias armados com metralhadoras à porta e, mesmo nos hóteis mais estrelados, continua a ser difícil encontrar espanhóis a falar inglês (aliás, esta é uma proposta de Pedro Sanchez, o ensino obrigatório do inglês … Espanha, em 2016). É também a Espanha que ao sábado e domingo continua a ter jornais que fazem justiça ao ideário de ‘leitura de fim de semana’. Sabe bem um café prolongado com muitas páginas para desfolhar num El Pais ou El Mundo, mesmo que seja só ao fim de semana.

 

Há cinco anos, a Porta do Sol em Madrid era um acampamento de Indignados. O Podemos nasceu deste movimento. Há uma semana, alguma Espanha, nomeadamente a mais conservadora, indignava-se porque o líder do Podemos decidira reintroduzir a palavra ‘pátria’ no debate politico (com o slogan La patria eres tú). De quem é a pátria afinal, nestes tempos perigosos, em que voltamos a debater conceitos que são velhos conhecidos e nem sempre por boas razões?

 

Muitos diziam que nada ia mudar, tudo iria passar. Cinco anos é muito pouco tempo. Mas quando se olha para trás e se recordam algumas análises, é tentador recordar que não só a História é escrita pelos vencedores, como, para quem pode impor a ‘sua’ História, o passado é sempre imprevisível – ou pode ser aquilo que se quiser.

  

Tenham um bom fim de semana

  

Outras sugestões de leitura:

 

Por estes dias e até setembro, ir a Madrid e não ver a exposição dos 500 anos de Bosch no Museu do Prado é como ir a Roma e não ver o Papa. Recomenda-se a exposição, atenção às marcações prévias (é boa ideia fazê-las) e já agora fiquem também com um texto de opinião que fala do PSOE e do Jardim das Delícias.

 

Menos jornalistas, mais redes sociais, menos receita, mais bloqueadores de publicidade. Como estamos a consumir as notícias, que regras aceitamos por boas, como se paga a informação, são algumas das questões fundamentais no sector dos media hoje. A ler o último relatório do Reuters Institute.

publicado às 11:47

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