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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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O que é que fizeram ao Grand Old Party?

Por: Márcio Alves Candoso

 

Nas primárias do Partido Republicano, realizadas esta semana no Iowa, muitos não se terão dado conta da importância da luta por aquilo a que os norte-americanos chamam o 'idiot vote'. Normalmente mais alinhado com as ideias de Donald Trump, a verdade é que a estratégia de Ted Cruz conseguiu dividir as hostes dessa importante facção de apoiantes do GOP.

 

O número crescente de cidadãos que não conseguem perceber palavras com mais de três sílabas, ou que não distinguem um facto de uma brincadeira, trouxe para os estados-maiores dos republicanos a necessidade de mudar um pouco o discurso e a estratégia de angariação de votos naquele que é, tradicionalmente, o primeiro 'caucus' estadual para indigitação do candidato à presidência dos Estados Unidos.

Segundo os observadores e a própria máquina de Ted Cruz, o senador do Texas começou recentemente a usar frases mais curtas e ideias sensacionalistas, não se coibindo de dizer algo e o seu contrário, numa tentativa de reganhar a liderança do seu eleitorado, que em parte estava a fugir para o lado de Donald Trump. Parece que está a conseguir – no 'caucus' de Iowa, Cruz bateu Trump e forçou até à desistência de Mick Huckabee, uma dos poucos pré-candidatos republicanos que é normalmente referido pelos comentadores e 'opinion makers' como moderado.

 

Mas não foi sempre assim. Longe de se bater pelo voto dos 'idiot', o Partido Republicano tem na sua história algumas das maiores façanhas e conquistas de que os Estados Unidos da América se podem orgulhar. Não sendo um partido fundador do País, ao contrário do Democrático, a verdade é que a partir do dia 20 de Março de 1854, data da sua fundação no Wisconsin, cobre de glória os herdeiros dos 'whigs' e dos 'free soldiers' que lhe deram vida.

 

O Grand Old Party (GOP), nome por que é conhecido desde há muito, teve como primeiro presidente eleito Abraham Lincoln. Nas suas hostes pioneiras acampavam os activistas da abolição da escravatura, os defensores das minorias e do primado da lei.

 

Algures no início do século passado, começou a ter à sua frente médios e grandes proprietários que, abolida a escravatura, reganharam ao sul latifundiário as prerrogativas de mais ricos da América. A alta finança do nordeste substituiu os 'land owners', os protestantes pietistas e radiciais afastaram muitos católicos e anglicanos, e a dada altura os republicanos confundiram-se com o proibicionismo dos anos 20.

 

Mas foi o 'new deal' do democrata Franklin Roosevelt que começou a afastar os moderados da mais alta hierarquia do Partido Republicano. Entre o liberalismo social e as prerrogativas dos trabalhadores, passando pelo aumento de impostos para as classes altas e a maior intervenção do Estado na economia, os defensores das minorias passaram a ser.... defensores da minoria mais abastada.

 

Dominados pelo puritanismo, desconfiados do Plano Marshall e do advento da NATO, os republicanos fecharam-se, e só o enorme carisma de Dwight Eisenhower lhes permitiu furar a primazia que os democratas tiveram, na Casa Branca, durante quase quarenta anos.

 

Mas se depois de Nixon e dos escândalos de corrupção – Watergate incluído – os liberais praticamente desapareceram do Partido Republicano, é com o advento de Ronald Reagan que a linha dura se impõe de forma definitiva. O partido de Abraham Lincoln e de Nelson Rockfeller – considerado o último 'gentleman' do GOP – perdeu para os Ron Paul, os George W. Bush, as Sarah Palin ou... os Donald Trump.

Em média, os eleitores republicanos estudam mais anos que os democratas. Mas nos graus mais elevados de ensino, incluindo licenciaturas, mestrados e doutoramentos, os democratas lideram. Há mais mulheres entre os 'dems', mais negros e... menos 'idiot votes'. Mas Barack Obama baralhou as contas no que concerne a este último item. Não foram encontrados estudos que expliquem porquê.

 

A força dos evangélicos radicais, a par com a influência do 'Tea Party' – muito para além do número, exclusivista, dos seus membros efectivos -, ultrapassou a perda gradual de penetração na classe média-alta, que costumava votar mais republicano. Não há inocentes neste palco – os abastados da Nova Inglaterra vivem bastante bem a coberto dos orçamentos federais altos que os democratas costumam instituir.

 

Nos anos mais recentes, contudo, os teóricos coincidem em afirmar que os 'parolos' passaram a perna aos 'requintados' e 'sofisticados' que costumavam dominar o Grand Old Party. A televisão – sempre ela – é apontada como um dos principais factores de substituição, ao alcandorar figuras como Donald Trump ou ao deliciar-se com as 'gaffes' de George W. Bush ou Sarah Palin. A ideia é que o 'idiot vote' se ri das bacoradas mas não as critica, antes tenta seguir-lhes os passos e fazer a sua vida de acordo com elas. O factor 'reality show' prospera.

Mas há coisas mais sérias. Pessoas como Mike Lofgren, um ex-congressista eleito pelo Partido Republicano, afirmam que há quem, do lado do GOP, tenha uma estratégia para denegrir as instituições democráticas da Nação, estando nomeadamente a pôr em causa uma tradição muita anglo-saxónica segundo a qual quem perde o faz com 'fair-play'. Na verdade, não era comum asssistir, como no caso recente de John Boehner, a afirmações de que a 'luta continua' após a derrota. O 'speaker' [presidente] da Câmara de Representantes referia-se ao 'Obama Care', após a sua passagem apesar dos votos contra da maioria dos republicanos.

 

E aqui chegamos àquilo que muitos consideram ser a maior viragem da história – fértil em volte-faces ela própria – do Partido Republicano. Populista em vez de conservador, alinhado pelos 'sound-bites' de Trump e Palin. Isto num país onde uma recente sondagem dava conta de que os eleitores republicanos ficaram defraudados por, num debate entre Ted Cruz e Donald Trump, os candidatos não terem andado à pancada.

 

Voltamos ao 'idiot vote'. Pouco antes de George W. Bush ter ganho as eleições a John Kerry, uma sondagem lembrou-se de fazer a pergunta: 'com qual deles gostaria de tomar uma cerveja?' Bush 'junior' ganhou por larga margem. Mas como avança Charles P. Pierce, no seu recente livro 'Idiot America – How Stupidity Became a Virtue in the Land of The Free', 'a quantos desconhecidos com quem tomou uma cerveja você entregaria os códigos de lançamento da bomba atómica?'

 

Mas não tiremos conclusões precipitadas, nem queiramos fazer paralelismos com o que acontece na Europa. Afinal, os norte-amercianos são tão diferentes que a cor dominante do Partido Republicano é o vermelho e a do Partido Democrático é o azul. Coisas deles...

publicado às 10:30

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