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Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Olhó robô: o último grito da revolução televisiva

"A revolução não será televisionada", garantia uma emblemática canção de Gil Scott-Heron nos anos 1970. Quatro décadas depois, até podemos continuar a concordar com este slogan, mas não há regra sem exceção. E há poucos olhares que captem tão bem o reverso do "frisson" contemporâneo como o de "Mr.Robot", uma das séries mais surpreendentes da temporada.

 

Por: Gonçalo Sá

Ollhó robô

 

 

A postura sempre circunspeta e introvertida, as poucas ou nenhumas palavras e um hoodie escuro (com capuz muitas vezes posto) bem tentam fazer que Elliot passe despercebido. Só que logo aos primeiros instantes de um episódio de "Mr. Robot" será difícil não repararmos nos olhos, não só grandes como expressivos e arregalados, do jovem protagonista.

 

É através do olhar dele, e do ator Rami Malek (que decididamente não passará despercebido nos próximos tempos), que somos conduzidos pelo mundo da série do USA Network. O nosso mundo, aliás, filtrado por um misto de thriller psicológico com uma hipótese de cyberpunk para o novo milénio capaz de, a espaços, nos atirar para territórios próximos de alguma ficção científica.

 

Mas é mesmo ficção ou realidade? A dúvida começa logo por assaltar o anti-herói, um outcast sem grandes aptidões sociais cuja perceção daquilo que o rodeia se arrisca a ser deturpada pelo refúgio nas drogas. Para piorar, a sua rotina de programador de uma empresa de segurança cibernética de Nova Iorque, de dia, e de hacker obcecado em vigiar e punir criminosos imunes ao radar da justiça, à noite, torna-se mais atribulada com o convite para a adesão a uma organização secreta de hackers anarcas, a fsociety, liderada pelo tal Mr. Robot - um Christian Slater com ares de Tyler Durden, de "Clube de Combate", apenas uma das muitas influências assumidas da série (já lá vamos).

 

De modo muito sucinto, é desta relação que nasce a premissa do desafio criado por Sam Esmail, realizador norte-americano de ascendência egípcia (também já lá vamos). E a premissa foi mais do que suficiente para tornar o episódio piloto num dos mais celebrados dos últimos anos, com um fenómeno passa a palavra iniciado no festival de música South by Southwest, no Texas, em março deste ano, mantido no Tribeca Film Festival, em Nova Iorque, no mês seguinte, e propagado quando esse primeiro capítulo chegou à internet em maio, de forma legal (foi disponibilizado num modelo video on demand) ou nem tanto (apesar de ser vincada pelo hacking - ou ou talvez por causa disso - a produção não tem escapado à pirataria).

 

Neste caso, a revolução, modesta embora com um burburinho em crescendo, só chegou à televisão quase um mês depois de ter passado pelo online: a 24 de junho, no USA Network, naquele que foi um destaque de horário nobre promissor como poucos. Esmail, com pouca experiência em cinema (assinou apenas a curiosa comédia romântica "Cometa", estreada este ano nas salas nacionais) e ainda menos no pequeno ecrã, revelou ter pensado em contar esta história num filme antes de optar por a explorar mais a fundo numa série. "A televisão é cada vez maior e mais cinematográfica", contou ao site de entretenimento Vulture. E o lado cinematográfico do episódio piloto (mantido nos seguintes, pelo menos até agora, e já vão sete) ajudará a explicar a ótima reputação conquistada.

 

Grande televisão, grande cinema?

 

Dos enquadramentos elaborados (mesmo os das muitas cenas de diálogos, cuja composição desconstrói a lógica rotineira do campo-contracampo) às narrações em off pelo protagonista (que Esmail diz ter escrito não para despachar a exposição, antes para entrarmos mais facilmente na cabeça de Elliot), a linguagem narrativa tenta fugir às imposições do pequeno ecrã e não deve nada, antes pelo contrário, às series mais prestigiadas da chamada idade de ouro da televisão.

 

O criador de "Mr. Robot" salienta o papel precursor de "Os Sopranos" nessa viragem dos últimos anos, mas a sua escola é mesmo a do cinema, como revela em entrevista ao Vulture, publicação à qual confessou algumas das suas inspirações. A de "Clube de Combate", lá está, não será surpresa, pelo modo como a série atualiza a postura antissistema desse clássico moderno com Brad Pitt e Edward Norton. De resto, grande parte do cinema de David Fincher informa não só a agenda temática mas também a estética da aposta do USA Network, do retrato nervoso da cidade à banda sonora atmosférica.

 

"Se fazes uma série sobre hackers e a cultura envolvente, não há como não te inspirares num filme que é o rei desse material", confessa Esmail, que reconhece ainda a marca da "energia" e "movimento cinético" dos planos do autor de "Sete Pecados Mortais".

 

Mas por "Mr. Robot" passam também ecos de outros mergulhos no mal estar urbano, com o seu criador a apontar "Taxi Driver", "Psicopata Americano" ou "Blade Runner", além da obra de Stanley Kubrick ("Laranja Mecânica", "De Olhos Bem Fechados") ou Darren Aronofsky ("Pi", "A Vida não é um Sonho"). Mais ou menos palpáveis ao longo destes primeiros episódios, todos têm a marca do caos civilizacional, ambiguidade moral ou arrojo conceptual, com contrastes e confrontos entre o indivíduo e a sociedade, e para já a série não envergonha as referências - o protagonista tem potencial para ser ícone cyberpunk e o argumento mede o pulso ao mundo contemporâneo de forma orgânica, através da sua jornada pessoal, em vez de se limitar a encavalitar temas "fraturantes".

 

Contra uma elite com autoridade divina

 

A missão de Mr. Robot, a personagem, assim como da sua equipa, é rebentar as estruturas da E Corp, um poderoso conglomerado constituído pelo "1% no topo do 1% da elite mundial", que calha ser a principal cliente da agência de proteção de informação em que Elliot trabalha.

 

Ao contrário daquilo que algumas vozes apontaram, a abordagem do ciberterrorismo não partiu tanto dos casos de Edward Snowden ou Chelsea Manning, por muito que os perfis do protagonista e da personagem que dá título à série contenham pontos em comum com esses. A premissa até acaba por dever mais ao Egito, de onde é originária parte da família de Sam Esmail, do que aos EUA. "Estive lá logo depois da Primavera Árabe e fiquei muito inspirado. Um dos elementos definidores do Elliot é o espírito revolucionário que vi nos meus primos. São jovens que devoram tecnologia e tiram proveito dela para canalizar a revolta contra o status quo e tentar melhorar as suas vidas. Considero isso muito bonito e fascinante e quero mesmo que seja esse o centro da série", sublinhou em entrevista à revista online Slate.

 

Esta ambição de justiça pelas próprias mãos, à distância de um clique, alimenta uma viagem pela esfera pública e privada onde quem está nos bastidores pode, dentro de certos cenários, trocar as voltas a quem está habituado aos holofotes. "O Elliot não consegue interagir de forma eficaz mas sabe muitos detalhes íntimos daqueles que o rodeiam", salienta o criador da série.

 

Ainda assim, apesar dos óbvios trunfos tecnológicos e intelectuais de que dispõe, terá a solução para estancar assimetrias económicas ou sociais crescentes? Para fazer colapsar sucessivos modelos ancorados em endividamento, como defende Mr. Robot? "Talvez Elliot consiga deitar abaixo a sociedade que deixou de amar", sugeriu Rami Malek ao Los Angeles Times. Ou talvez não, porque mesmo sendo quase um pária, há laços individuais que o protagonista não está disposto a cortar - e até vai criando mais alguns pelo caminho.

 

Claro que, embora possa lançar o debate, "Mr. Robot", enquanto produto televisivo que é, também não consegue fugir às malhas do sistema capitalista e das empresas multinacionais tão criticadas pelo seu protagonista - aversão ao Facebook incluída, apenas um dos meios de promoção da série. Pescadinha de rabo na boca? "Sou muito próximo do Elliot, mas não sou o Elliot. Gosto de pensar que sou bem mais funcional e não acho que todas as opiniões dele sobre o mundo sejam necessariamente as mais acertadas. Concordo com a maioria e acho que o sistema económico que temos neste país está fragilizado. Não faz o que é suposto, que é valorizar o melhor produto feito pelas melhores companhias", explicou Esmail à Slate. "Somos parte da máquina porque somos pagos por ela para vender os seus produtos. Mas também não vou aligeirar essa questão na série", garante. E é por este misto de lucidez e atrevimento que o seu produto tem, para já, lugar cativo entre os melhores do mercado. E merece ser valorizado.

 

 

Gonçalo Sá é editor de TV do SAPO MAG mas também vai vendo uns filmes e ouvindo uns discos. Também gosta de BD e doces e mantém o blog gonn1000.

 

publicado às 12:22

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