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SAPO24 Crónicas

Todos os dias um olhar mais atento a um tema que marca a actualidade. Artigos, análises e crónicas exclusivas no SAPO24.

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Pussy Riot goes to America

Por: José Couto Nogueira

 

Este título deveria ser em português, mas ficava “A Revolta das Ratinhas chega à América”, o que, convenhamos, ou não faz sentido, ou fica abaixo dos nossos padrões de decência e bom gosto.

 

Lembra-se das Pussy Riot? É aquela banda feminina russa, estilo punk, que chamou a atenção internacional quando fez uma performance tão espectacular como provocadora na Catedral do Cristo Salvador, em Moscovo, criticando Vladimir Putin e as suas ligações com a Igreja Ortodoxa Russa. A exibição incluía exposição de partes íntimas, palavrões, música punk e a denúncia do apoio mútuo entre Putin e o Patriarca Kirill I. Foi interrompida pelos seguranças do edifício, mas nesse mesmo dia, 21 de Fevereiro de 2012, saiu um vídeo do espectáculo, intitulado “Oração punk – Nossa Senhora, corre com o Putin”.

 

Kirill I limitou-se muito cristãmente a dizer que as meninas – onze, entre os 20 e os 33 anos, na época – estavam a fazer o trabalho do demónio. Mas Putin não é tão compreensivo para com os seus desafectos; em Março, as três principais pussies, Nadezhda Tolokonnikova, Maria Alyokhina e Yekaterina Samutsevich foram presas e acusadas de “vandalismo motivado por ódio à religião”. Sem fiança, apanharam forte e feio, e só Yekaterina teve pena suspensa. As outras duas amargaram dois anos nas brutais prisões russas. Outros membros do grupo conseguiram sair da Rússia a tempo.

 

O julgamento foi muito criticado internacionalmente, e a Amnistia Internacional considerou-o político. A opinião pública russa também as achou mais divertidas do que perigosas, mas Putin disse expressamente que estavam “a minar os fundamentos morais da Nação” e tinham apanhado o que mereciam. 21 meses depois beneficiaram de uma amnistia decretada pelo prórpio Putin, que resolveu libertar também alguns contestários jornalistas e intelectuais, para melhorar, ou pelo menos não deteriorar ainda mais a sua imagem.

As meninas voltaram à carga em 2014, durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, e foram violentamente sovadas pelos cossacos encarregados da segurança. Politicamente, e de acordo com as entrevistas que foram dando a publicações ocidentais, como a “Vice”, declararam-se anti-autoritárias e feministas, citando bandas punk e Simone de Beauvoir entre as suas referências. Segundo elas, a Rússia vive sob a ditadura de Putin e o Governo reprime os direitos das mulheres, das minorias sexuais e dos cidadãos em geral.

 

Os media e os governantes ocidentais consideraram que a performance na igreja tinha sido um exagero, mas que as sentenças eram excessivas e desproporcionadas ao “delito”.

 

O clamor levantado no mundo inteiro, desde declarações do Presidente Obama e do Parlamento da Alemanha, até incontáveis organizações de Direitos Humanos e de grupos formados expressamente para expor o caso, terá tido influência na decisão de Putin, para não as transformar em mártires.

Agora, dois anos depois, as Pussy Riot voltam à ribalta – nos Estados Unidos.

 

Não surpreende; por um lado, os americanos sempre gostaram de receber refugiados políticos russos, para provar que os EUA são “melhores” – mais ecléticos e liberais - do que era a URSS e é a Federação Russa; por outro, é na América do Norte que um grupo com uma personalidade tão forte pode encontrar oportunidades de divulgação à escala mundial.

 

E, de facto, não levou muito tempo até as Pussy encontrarem as estruturas necessárias para produzir um bom vídeo. Chama-se “Chaika” e pode ser visto aqui.

 

De que se trata? Evidentemente, de criticar Putin e o sistema judicial russo. Desta vez as Riot brincam às carcereiras, e a acção passa-se numa prisão russa. Produzidas por Hollywood, usam batom vermelho, meias de rede e saltos altos, mas esses exageros de showbizz até ficam bem num videoclip e não diluem a violência da situação.

 

Numa entrevista à revista online “The Daily Beast”, Nadezhda Tolokonnikova, que entretanto se tornou a líder e cantora principal do grupo, explica que o Procurador Geral da Federação Russa, Yuri Y. Chaika, é um verdadeiro criminoso, com ligações a Putin e ao crime organizado, e envolvido em operações de extorsão e lavagem de dinheiro. Como ela diz, “o maior gangster da Rússia”.

Nadezhda afirma-se uma grande fã de Quentin Tarantino (elas sempre usaram referências ocidentais) e diz que já conheceu celebridades do quilate de Uma Thurman, Catherine Deneuve, Kevin Spacey e Spider. Mas as estrelas não parecem impressioná-la; continua mais interessada em expor o que se passa na Federação Russa onde, segundo ela, “as atrocidades pioram de dia para dia”.

 

Quanto a projectos, Nadezhda, que é obviamente uma pessoa muito determinada e tem tudo o que é preciso para se tornar uma estrela, diz que vai passar a produzir e dirigir os seus próprios filmes e vídeos.

 

Com Putin não se brinca, mas com Nadezhda Tolokonnikova também não!

publicado às 17:14

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